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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

04
Nov18

Viver sem telemóvel

Ontem de manhã o meu telemóvel caiu na sanita.

 

Pronto, um parágrafo foi bastante para se rirem? Já contraíram o abdominal o suficiente à minha custa? Olhem que essas gargalhadas de gozo que estão a soltar neste preciso momento podem voltar-se contra vós - o karma é lixado, e eu estou em crer que muito telemóveis no mundo visitam diariamente sanitas alheias, por isso é melhor terem cuidado. 

Fiz tudo aquilo que dizem que se deve fazer nestas situações - tirei-o logo da água, sequei-o, tirei-lhe todas as capas e partes que podia retirar, aspirei-lhe todos os orifícios, coloquei-o no meio de sílica gel para absorver a humidade e no meio do arroz. Neste post não me quero concentrar nas hipóteses de sobrevivência do meu telemóvel (que, a meu ver, serão poucas) mas sim em como vivi estes dois dias sem telemóvel - um estudo interessante nos dias de hoje, que praticamente só é possível em alturas como estas, por obrigatoriedade.

Admito que é com surpresa que digo que me senti muito bem. Não houve cá suores frios pela síndrome de abstinência nem senti falta de, ao longo do dia, estar sempre a carrega-lo comigo. Na verdade, senti-me até algo aliviada: não me era possível ser contactada e isso não era culpa minha - e por isso tinha carta branca para não ver o que me diziam, não me sentir culpada por não responder, não ver, não atender. Porque a verdade é essa: os telemóveis fizeram com que estejamos contactáveis a 100%, a toda a hora, de todas as formas, em praticamente qualquer lugar do mundo - e, se não respondemos a esse chamamento, ou somos mal-educados por não dar resposta, ou uns totós afastados das tecnologias. 

O Miguel Araújo escreveu há uns tempos uma crónica na Visão a propósito disso e sobre o facto de não atender o telemóvel de forma deliberada, que convido a que leiam aqui (mas só depois de acabarem o meu post, está bem?). Escreveu: "Eu quase não atendo o telefone. Aquela solicitude de falar imediatamente, de estar disponível para uma conversa não solicitada é algo que eu reservo para as pouquíssimas (4 ou 5) pessoas da minha mais exclusiva intimidade. Tudo o resto (tudo!) fica resolvido com mais delicadeza, eficácia, celeridade e concludência através das outras mil maneiras que o mesmo dispositivo permite", que enumera posteriormente. Depois acrescenta: "Mas telefonar, convenhamos, soar um alarme que pede resposta imediata por parte do nosso semelhante, é quase sempre inconveniente, nos dias atarefados que correm. (...) Entendo que um telefonema convenha a quem liga. Mas dificilmente convém a quem se destina. E isso, na sua essência, é indelicado."

Na verdade, eu estendo as palavras dos Miguel dizendo que é indelicado, como um todo, esperar uma resposta imediata de alguém, qualquer que seja o meio de comunicação. E, para mim, há regras "invisíveis" que atenuam este novo paradigma, mas que aparentemente são ignoradas por quase toda a gente (um exemplo é contactar alguém depois das 18h acerca de coisas de trabalho, sabendo à partida que a pessoa em questão já não está a trabalhar - escrevi sobre isso neste post). Nesse sentido, aproveitei este momento para ter paz e não ser consumida com notificações. O meu pai emprestou-me um telemóvel antigo, em que nem sequer coloquei o meu cartão ou instalei qualquer tipo de aplicações - só os meus pais e os meus irmãos têm o número, em caso de haver alguma emergência. Não anunciei no facebook que não tinha telemóvel, não dei alternativas de contacto, não providenciei outro número; para o mundo, hibernei. Dei-me a esse luxo.

E é engraçado ver como a função primária do telemóvel - contactar e ser contactado pelos outros - não é de todo aquilo que sinto mais falta. Ontem dei por mim em três momentos a sentir a falta do smartphone: o primeiro foi ter sentido necessidade de uma sessão de meditação promovida por uma aplicação que tinha instalado (não perguntem - um dia hei-de escrever sobre isto, mas ainda estou muito no início); o segundo foi quando me deitei, altura em que queria escrever um texto que estava a começar a surgir na minha cabeça; e o terceiro foi quando acordei a meio da noite e precisei de ver as horas, momento em que tive de ligar o candeeiro para conseguir ver os ponteiros no meu relógio de pulso que já tinha deixado estrategicamente na mesinha de cabeceira. As coisas mais óbvias e que supostamente me fariam mais falta - para além das comunicações -, aquelas que me gastam mais tempo no dia-a-dia, foram aquelas de que mal me lembrei: nem facebook, nem instagram, nem whatsapp e as suas cansativas conversas de grupo. Foram coisas corriqueiras, de utilidade pessoal e não de procrastinação.

É lógico que isto não vai durar para sempre - e é óbvio que a minha despreocupação com o telemóvel não é assim tão grande. Chateia-me tê-lo deixado cair, aborrece-me e entristece-me plenamente a possibilidade de perder algumas coisas de que não tinha feito backup e irrita-me ter de gastar dinheiro noutro telemóvel quando ainda queria que este durasse dois anos para o conseguir "amortizar" por inteiro. Mas às vezes não temos escolha. E é bom ver que, afinal, até vivo muito bem sem uma coisa que já parecia uma extensão de mim. Melhor que isso: perceber que até gosto de viver sem ela.

 

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