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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

11
Fev17

Uma semana de viagem: o resumo

É engraçado pensar que apenas viajei durante uma semana. Enquanto a vivi, a azáfama foi tão grande que o tempo pareceu passar a correr (pelo menos a maior parte, fora aquelas em que eu me ia abaixo, escondida nos arrumos, e contava quase os micro-segundos a passar). Agora que quero fazer um resumo das minhas peripécias, começando por Madrid, parece que passou tanto tempo que já nem as lembro de uma forma muito viva. Por um lado é mau, porque a veracidade das coisas já não vai ser espetacular; mas por outro, quer dizer que sorvi cada segundo daquela experiência, o que não podia ter sido melhor. Vamos lá por partes.

 

   1) Passei apenas uma noite em Madrid, mas viajei com três malas de porão, com 24 quilos cada uma. E não, não foi culpa minha - era material que tinha de ir para a feira e que não chegou a tempo para seguir por uma transportadora, por isso não houve volta senão ir comigo no avião. O que me valeu é que conhecia pessoas que - não tendo viajado lado a lado comigo - me ajudaram depois a transportar a carga.

   2) Mal cheguei fui logo trabalhar, não houve tempo para passagens pelo hotel. Quando lá cheguei, à noite mesmo antes do jantar, percebi que era um quarto habilitado para pessoas portadoras de deficiência. Nada contra, mas a casa de banho era terrível: para poder albergar uma cadeira de rodas, o chuveiro não tinha limites ou paredes, pelo que de cada vez que tomei banho alaguei a casa de banho in-tei-ra. Não foi bonito.

   3) Jantei com pessoas que não conhecia de lado nenhum. É engraçado como em situações que nos são estranhas acabamos por nos adaptar - já de tarde tinha falado espanhol (ou portunhol) como nunca tinha feito na vida (sempre tive imensa vergonha) - e depois ali estava eu, com três pessoas estranhas, a partilhar mesa e um jantar. Foram, por acaso, muito simpáticas e acabei também por estar com elas no pequeno-almoço. A verdade é que foi muito mais estranho o momento antes do jantar e o pós (como agora, em que estou a pensar nisso) do que o momento em si. Na altura limitei-me a ligar os meus instintos não-anti-sociais e tentar parecer alguém normal.

   4) O vôo Madrid-Porto foi o pior da minha vida. Foi sexta-feira à noite e, pelo que sei, houve um vendaval por todo o país (e também em Espanha, onde foram adiados jogos de futebol e etc.). Só tivemos uns 20 minutos de sossego - os outros 40, entre descolagem e aterragem, foram do pior. Vi a minha vida a andar para trás, à medida em que ia sentido o avião a balançar da esquerda para a direita de forma incessante, as malas acima da minha cabeça a baterem umas contra as outras e os compartimentos do avião onde os hospedeiros guardam as comidas e todas aquelas tralhas a remexerem-se todas. Chegou uma altura em que tive de me agarrar ao banco da frente para me estabilizar e procurei o saquinho de papel, caso precisasse. Vim depois a saber que houve pessoas que tiveram mesmo de o utilizar. Eu só queria chegar a terra - e rezava para que dali a umas horas o temporal já tivesse passado.

   5) Tinha vôo para Munique apenas seis horas depois de chegar de Madrid, pelo que estava no aeroporto apenas 4 horas depois de lá ter saído. O plano era tratar da mala mal chegasse à noite, mas dado o meu estado de oura, preferi dormir duas horas primeiro e depois trocar as tralhas essenciais de uma mala para a outra (que já tinha deixado pronta). Estava a tratar disso quando percebo que havia umas bolsas que estavam abertas e não deviam. Fui roubada no aeroporto de Madrid. Felizmente não tinha objetos de valor, mas roubaram-me dois colares (ambos Parfois, mas estavam bem tratados, devem ter achado que roubaram grande coisa) e os meus cartões de memória da máquina fotográfica, que estavam naquele saquinho que vos tinha mostrado aqui - também estavam vazios. Deixaram o colar mais valioso, tanto na nível monetário como emocional, pois era da minha avó. Ao menos isso. Ainda assim, chateou-me o facto de terem andado a remexer nas minhas coisas.

   6) A primeira noite em Munique foi de festa, num bar português, onde vimos o Porto ganhar ao Sporting. Vim a saber que aquele era o poiso dos jogadores do Bayern de Munique e o meu sobrinho mais velho quase me trucidou quando lhe disse que estava lá um tal de Rafinha (quem?) e eu não lhe tinha pedido um autógrafo.

   7) Aprendi que o schinitzel - o panado - é a minha salvação numa terra onde só se comem salsichas, algumas com um aspeto definitivamente horrível. Não como salsichas de uma forma geral, é algo que me faz aflição, e estar numa feira onde só se serviam snacks com salsichas pelo meio foi algo medonho.

   8) A feira onde fui tinha 19 pavilhões. Andei uma média de 10 quilómetros por dia, só dentro da feira. Saía do hotel pelas 7.30 locais (6.30 daqui) e houve dias em que cheguei depois da meia-noite. Fiquei morta. A certa altura tinha pessoas a gozar comigo, sem eu me aperceber porquê - só quando me olhei no espelho do elevador é que entendi que, embora tentasse estar bem-disposta, a minha cara me denunciava. Olhos raiados de sangue e olheiras até ao chão não perdoam. Passei essa semana a levantar-me às 5 da manhã de Portugal e aprendi que sei dormir em qualquer lado.

   9) Apercebi-me disso no dia em que fiquei sozinha, porque relaxei do frenesim da feira. No caminho de volta de Dachau adormeci sentada no metro, algo que nunca na vida me tinha acontecido. Depois à ida para o aeroporto aconteceu-me o mesmo, agarrada à mala (tenho a certeza que o gajo que estava à minha frente me tirou fotos). E tornei a adormecer enquanto esperei para fazermos o embarque.

   10) É engraçado ver a reação das pessoas quando se apercebem que uma miúda nova está sozinha. Ao jantar, certificaram-se que tinha dito que a mesa era só para um. Depois, quando veio o meu pernil, o empregado desfê-lo por mim (tinha ido ao mesmo restaurante no dia anterior, com pessoas, e isso não aconteceu) e sempre que passava sorria-me e perguntava-me se estava tudo bem. No dia seguinte, no aeroporto, uma senhora alemã ajudou-me a pôr as alças da mochila direitas quando se apercebeu que as tinha deixado tortas quando a coloquei nas costas. Achei o gesto enternecedor.

   11) Relativamente a estar sozinha, o meu maior receio era andar de noite - ali em redor do hotel havia muitos bares de strip e algumas prostitutas, sendo que havia também alguns magotes de homens que eventualmente podiam tentar algo. Meti os pensamentos maus atrás das costas e fiz-me à rua, e ainda andei uns dois quilómetros, desde o restaurante ao hotel. Certifiquei-me apenas que jantava cedo e voltava cedo para o ninho, para evitar andar sozinha a altas horas da noite. Achei a cidade muito morta, passei por sítios onde não passava vivalma e onde não havia animação, nem mesmo em montras. 

   12) No dia seguinte, o dia S (de "sozinha"), a vida não estava a colaborar. Fiz o check-out logo depois do pequeno-almoço, deixei as malas no hotel e fiz-me ao caminho para Dachau. Lá no campo comecei a enregelar seriamente mas, entre tirar telemóvel para tirar fotos e etc., perdi os phones e uma luva. Fiquei fula. Os phones eram a minha companhia e a luva, naquele momento, parecia essencial para a minha sobrevivência. Mal punha a mão de fora parecia perder a atividade, de tanto frio que fazia.

   13) Dirigi-me depois a Marienplatz, a praça mais antiga e principal da cidade, onde sabia que havia umas lojas pelas redondezas. Fui a uma H&M e comprei umas luvas. Quando ia a pagar, olhei para a carteira e apercebi-me que me faltava dinheiro - tinha-o deixado no cofre do hotel! Não tinha os documentos do hotel comigo, não tinha internet no telemóvel para saber sequer o número para ligar para lá. Meti-me no metro e fui a correr de volta, com o coração nas mãos. Quando cheguei, fiquei a saber que não só tinha deixado o dinheiro como o passaporte, que deixei lá por segurança, caso me roubassem o cartão de cidadão. Foi uma sorte e ficarei eternamente agradecida às senhoras da limpeza por terem guardado e entregue tudo. Nesse momento, para além de estar esgotada e a bater o dente de frio, senti-me derrotada. Já não queria passear, já não queria saber: só queria dormir, ir para o aeroporto e vir para casa. Mas fiz um esforço, voltei a abandonar o hotel e fiz-me à estrada.

   14) Comprei uns phones, já tinha outra vez companhia. Comprei também uns ímans para o frigorífico, para a minha mãe, e uns croiassaints e uma água para quando a fome apertasse. Dei mais umas voltas no centro histórico, sem grande plano definido, porque percebi que a vida não estava para essas coisas. Nas minhas pesquisas pré-viagem tinha visto que se podia subir a uma torre, mas quando lá passei não vi ninguém e parecia estar tudo fechado. Voltei a tentar, empurrei portas e lá acabei por encontrar a entrada. Estava cheia de frio e achei que aquela era uma boa forma de aquecer. Subi. Subi. Subi. Subi. Olhava para cima e as escadas não terminavam. Estava a deitar os bofes pela boca e só pensava "ainda bem que comprei uma água, quando chegar lá acima vai-me saber pela vida". Cheguei, mais viva que morta, e abri a água. Vi bolhinhas. Tinha comprado água com gás, algo que sou perfeitamente incapaz de beber. Roguei-me pragas.

   15) Tirei fotos, respirei, e voltei a descer, dando graças por aquilo não ter começado a arder quando eu estava lá em cima. As escadas eram todas de madeira e se algum dia algum louco passa por ali, está tudo condenado a uma morte certa. Quando cheguei cá abaixo, lembrei-me de ler o letreiro: 91 metros de altura, 306 degraus. Entre subida e descida, 612. As minhas pernas pareciam piores que gelatina, quase como se tivesse saído de um treino de PT. Roguei-me pragas mais uma vez, por não ter lido o letreiro antes de subir.

   16) Dei mais umas voltas, bebi um chocolate quente e voltei para o hotel. Peguei nas malas e fui para o metro, em direção ao aeroporto. Aparato policial, a porta para a linha da estação de metro que precisava estava fechada. Perguntei ao polícia uma alternativa, não percebi o que me disse, dei duas voltas à estação gigante para perceber se havia outra porta e nada. Como já dominava o metro, entrei noutra linha e depois troquei para a que queria - uma volta maior, mas não tinha outra alternativa. Tinha uma mochila carregada de coisas, entre computador, carregadores,máquina fotográfica, objetiva, porta-moedas, carteira de medicamentos, bloco de notas. Enfim, pesava chumbo - mais a mala grande. Ainda tive de subir escadas pelo caminho, decifrar as linhas de metros e estava esgotada.

   17) Quando cheguei ao aeroporto, depois de despachar a mala, ainda esperei uma meia hora para entrar na segurança, que é caótica em Munique graças a umas máquinas de raio-x que demoram o dobro do tempo. As minhas costas gritavam por descanso e tenho noção de que o meu caminho até à porta de embarque foi penoso - ia a passo de caracol, já com um olho meio aberto e outro fechado. Quando cheguei, atirei-me para uma cadeira e, com os phones nos ouvidos, fui dormindo. Depois entrei no avião e, bem... missão cumprida. Consegui, caraças.

 

A verdade é que no meio disto tudo, destas peripécias que agora aqui escritas parecem pequenas coisas, ninharias de nada, eu senti-me exausta. E quis desistir, ir direta ao aeroporto num táxi e arrumar aquilo. Dizer à vida: "porra, ganhaste". Mas optei pela escolha difícil. Saí do hotel depois de achar que tinha perdido o dinheiro e o passaporte; fui de metro mesmo tendo de andar o dobro para ir para o aeroporto. Algo tão pequeno como a falta de música nos meus ouvidos ou a falta da água no topo da torre fizeram-me repensar em tudo, em dizer que se calhar esta ideia de viajar sozinha não é assim tão boa e que a vida estava só a tornar isso tão claro como a água.

E eu digo-vos uma coisa: eu levo estes feelings e estas mensagens muito a sério, costumo ouvi-las. Mas há momentos em que temos de lhes fazer frente, porque temos algo a provar - e que queremos muito que se concretize. Portanto, segundos depois de quase lhe dizer "porra, ganhaste", dizia-lhe "bate mais, bate! Eu hoje chego ao aeroporto, nem que seja a arrastar-me". E cheguei. Viajei sozinha e sobrevivi. Vi todas as barreiras à minha frente e não só as ultrapassei como nunca escolhi o caminho mais fácil. E isto sozinha, como estou sempre. Como sempre estive e como acho que vou sempre estar.

É isto, vida. Estamos quites. Se fazia outra vez? Com todo o gosto. Não só para me bateres mais um bocadinho, mas também para te dizer que sou capaz. 

 

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