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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

16
Dez16

Uma ode ao [meu] Natal

Eu não sei quanto a vocês e à vossa família, mas na minha o Natal é assim uma espécie de guerra fria: todos os anos há cenas, todos os anos alguém quer acabar com esta brincadeira, mas todos os anos se mantém tudo igual. Acho que esta época envolve uma série de mixed feelings complicados de gerir: por um lado é tempo de estar com a família, mas por outro sente-se ainda mais a falta dos que cá não estão; há férias e feriados, é uma altura de "paz", mas todo este frenesim das prendas, doces, festas, jantares e a própria consoada fazem com que se precise de ir uma semana para as Caraíbas no início do ano para um repouso absoluto com vista a "repor os valores de origem".

Na minha família da parte da mãe o maior drama (ou alegria, depende do ponto de vista) é o número de pessoas: passamos sempre dos 30 e a família tende a aumentar, entre namorados, maridos e toda uma nova geração de filhos que se está a construir. Isto significa mais gente para sentar, mais gente a sujar, mais gente para dar de comer, mais gente para coordenar. É complicado e extremamente cansativo ao ponto de, desde há muitos anos, haver sempre um momento em que alguma das matriarcas da família (que organizam os Natais) dizerem "chega!, para o ano não quero o Natal!". Felizmente nunca cumprem com a sua palavra porque, passado o cansaço, valores mais altos se levantam - e eu percebo, juro que sim. Também é a minha casa que fica em pantanas, também sou eu que carrego mesas e cadeiras para sentar toda a gente, também sou eu que acordo às 7 da manhã para fritar os doces - e sei que tenho idade para isso mas que os anos no lombo da minha mãe e da minha tia, as "anfitriãs" das festas, já lhes começam a pesar.

Sempre que elas vêm com estas conversas eu ataco por outro lado, alinho na delas. "Pronto, está bem, acaba-se com o Natal. Para o ano passamos o Natal sozinhos, cada um para seu lado?". A resposta nunca é positiva, após pensarem seriamente no que dizem. "Então, vamos viajar?". Aí já hesitam, mas eu não. A verdade é que nenhum de nós (da minha família, entenda-se) vai tomar como "normal" ter um Natal só com meia-dúzia de pessoas à mesa. A ideia de viajar é muito bonita - e não me interpretem mal, porque eu adoro passear por esse mundo fora - mas a verdade é que é Natal em qualquer parte do mundo; naqueles dois dias vai sempre haver famílias reunidas, prendas e todo o tipo de tradições natalícias e isso, inevitavelmente, faz-nos ter saudades de casa, do "nosso" Natal.

E sim, o nosso Natal é caótico. Mas é também maravilhoso. O ano passado passei o dia sozinha, com os meus pais e o meu avô, e foi um dos Natais mais tristes da minha vida; tinha o cabrito, os bolinhos de bolina, as rabanadas, o bolo rei. Mas sabem o que tinha mais? Um silêncio ensurdecedor, que é coisa que, no meu conceito de Natal, não encaixa. Acredito que existam Natais maravilhosos com 4, 5, 7, 10 pessoas - mas não para mim, que vivo desde que nasci no seio de uma família grande, barulhenta, com muitas diferenças mas, acima de tudo, muito unida. Não sei o que é passar um ano sem que me olhem, num sentimento de espanto, pena e inveja, quando digo que somos mais de trinta à mesa - porque toda essa confusão é que é para mim o Natal.

Há quem apregoe há anos que este nosso conceito natalício vai eventualmente acabar - porque se juntam tantos núcleos familiares que a articulação entre todos, num só dia, é praticamente impossível (uns vão às mães, outros às sogras, outros aos sogros - quando há pais separados ainda é pior - e por aí em diante). E é verdade. Já há muitos anos que não estamos todos juntos - ora falta o meu irmão que não veio de Inglaterra, ora falta uma tia que também está emigrada, ora faltam os meus primos que já têm mais do que duas famílias para se dividir. Mas ao menos persistimos ao tempo e continuamos na esperança de que, no ano seguinte, consigamos estar todos juntos. Porque o nosso Natal é tão forte, é tão bom e tem um tamanho impacto nas nossas vidas que nós não o conseguimos deixar ir - e no dia em que isto acabar, se acabar, posso garantir que nunca mais teremos Natais tão felizes, porque a nossa memória não nos deixa esquecer todos os risos, sorrisos, dramas e cumplicidades (ou, como quem diz, o amor) que se vivem nestes dias. O Natal pode ser complicado, pode ser difícil de (di)gerir - mas eu tenho a certeza absoluta que mais complicado ainda é a falta dele.

 

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