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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

20
Jan19

Uma carta à... #1 Longa Vida

Dou por mim muitas vezes a pensar que queria dizer umas coisas a uma certa pessoa, objeto ou marca. É uma espécie de reclamação interior, que não posso entregar a ninguém mas que me contamina o cérebro de coisas parvas durante um tempo indeterminado, enchendo-me de vontade de deitar tudo cá para fora, mas sem grande forma de o fazer. Nunca quiseram endereçar uma carta insultuosa àquele canto da cama que insiste em vos destruir o mindinho do pé? E dizer umas coisinhas àquela senhora que está sempre a fazer depósitos no banco com 50 mil moedinhas? Ou à outra que anda a vasculhar os cupões no momento do pagamento, em plena caixa do Continente? Pois, bem me queria parecer que não sou a única.

Então, no Verão, lembrei-me: se eu tenho um blog, porque raio é que não despejo lá tudo isto? E por isso, quase meio ano mais tarde, cá estou, estreando esta nova rubrica de cartas a entes desconhecidos/intangíveis/incontactáveis. O primeiro texto vai para a marca que despoletou tudo isto, que é recordista em me fazer escrever cartas mentalmente, e que eu amaldiçoo de cada vez que me deixa mal numa visita ao supermercado: a Longa Vida. Ora vamos lá.

 

 

Querida Longa Vida, 

Acho que te posso tratar assim, por tu, visto nos conhecermos há muitos anos. Foi contigo que aprendi a fazer chantilly e é em parte por tua culpa que desde cedo que me atiram as taças de natas para as mãos, com a desculpa de que "nunca me caem". Mas a verdade é que não sou eu - és tu.

Não há que ter vergonha em admiti-lo: tu és uma espécie de Viagra das natas. Contigo, sobem sempre. Não vale a pena estar a gastar dinheiro com os teus concorrentes, porque já se sabe que não é a mesma coisa e que vai dar asneira; que não podemos virar a tigela por cima da nossa cabeça, em jeito de demonstração, porque sabemos que não vai resultar.

Mas o facto de tu teres o monopólio do mundo das natas não te dá o direito de menosprezares assim os teus clientes. Quantas vezes é que eu fui atrás de ti e me deparei com uma caixa vazia, solitária, no corredor dos lacticínios? Quantas vezes é que já saí de grandes superfícies de mãos a abanar, sem natas para adoçarem os meus morangos, a minha pavlova, as minhas natas do céu ou o meu agelatinado?

Por ti, já cheguei a correr 4 supermercados em menos de meia hora. Quem não disser que isto é amor, não percebe nada do assunto. Mas numa relação a sério as provas têm de vir dos dois lados (embora o Salvador cante "o meu coração pode amar pelos dois", toda a gente sabe que isto, a longo termo, se torna insustentável), e eu estou cansada de lutar sozinha. Está na altura de fazeres alguma coisa - comprares mais vacas, empregares mais gente, arranjares mais máquinas ou despedires o responsável pela distribuição. Qualquer coisa. Mas fá-lo por nós e pelo bem da nossa relação, já tão duradoura.

O preço da gasolina está caro e eu já não vou para nova, e não aguento picos de emoções como aqueles que me acontecem quando me deparo com a prateleira do supermercado vazia, quando vou em tua busca.

Por favor pensa em mim. Em nós. Em todos os amantes de natas que não aguentam a tristeza de não as ver subir, embora as batam durante meia hora. Isto já para não falar das vezes em que atiram as culpas para cima de nós – mulheres - e do nosso ciclo menstrual, com o mito secular de que as natas não pegam se estivermos com o período. Todos sabemos que a culpa é da Mimosa e outras que tais. Precisamos de ti e só tu nos podes ajudar.

Porque com mais natas Longa Vida no supermercado, nunca mais ninguém ficará frustrado!

Obrigada e até breve,

Carolina

 

natasfrescas.jpg

 

P.S. Giro, giro era se alguém um dia respondesse. Aí é que era!

 

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