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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

03
Dez17

Um throwback aos anos 90

Como vos disse no outro dia, estou embrenhada num projeto natalício que, embora me esteja a roubar todas as horas livres, fins-de-semana e até algum sono, me tem dado muito gozo. Estou a recolher todos os vídeos que tenho da família para depois fazer um apanhado geral do nosso "desenvolvimento" e a ideia é mostrar o resultado final na Véspera de Natal, quando estivermos todos (ou quase todos...) juntos, para rirmos e chorarmos em conjunto, como uma família deve fazer.

E isto tem-se revelado numa autêntica viagem ao passado, não só por passar horas e horas (só neste fim-de-semana prolongado foram pelo menos umas oito...) a ver vídeos de família antigos - quando os meus tios ainda tinham cabelo, quando os meus irmãos eram adolescentes e os da minha geração ainda usavam fraldas ou ainda não eram sequer um plano - mas também por ter de voltar a manusear materiais que, hoje em dia, já são quase uma relíquia. Tem sido muito engraçado voltar a trabalhar com cassetes e câmaras antigas e a reaprender coisas que já muitos nem sabem o que são. Neste momento, o meu quarto é quase um salão vintage: entre dois leitores de VHS e umas quantas cassetes, três (três!) máquinas de filmar em vídeo 8 e uma dezena de cassetes também neste formato e ainda uma câmara mais recente - também de cassete, embora mais pequena -, é só mesmo o freguês escolher.

Isto porque apesar de eu querer é ver os vídeos, muitos deles estavam ainda em formato analógico, portanto tive de ir um passo atrás no processo e antes de ver o que quer que seja, tinha de arranjar uma forma de passar o conteúdo para formato digital. Fui à procura, perguntei a quem de direito, e pus logo mãos à obra: tentei arranjar um leitor de VHS para ler as cassetes, pedi emprestada a máquina de filmar do meu pai para ler os Vídeo 8 e ainda arranjei, por pura acaso, os cabos e o software para gravar os conteúdos no computador. E isto seria fácil se tudo corresse bem - o que, como é lógico, não foi o caso!

Trabalhar com equipamentos com mais de 20 anos tem os seus problemas - a idade e os anos sem funcionar têm consequências. Primeiro fui buscar o leitor de VHS do meu irmão, que estava ligado e a funcionar cinco minutos antes de o ter metido no saco; quando o voltamos a ligar, pzzzzzzzzz. Foi-se. Morreu ali, nas nossas mãos, quando há pouco antes estava aparentemente de boa saúde. Felizmente tinha um plano B - a minha irmã - que me emprestou o dela. Depois foram as câmaras de vídeo; tinha duas cá em casa. Ligamos a primeira, ela acorda e, um segundo depois, dá um flash de luz e morre. Segundo óbito nessa semana. Tentei a outra máquina - funcionava, até filmava, mas com muitos problemas ao nível da leitura de cores e imagem... não servia. Com bastante esforço, o meu irmão conseguiu uma emprestada, que foi o que me safou.

Depois foram as cassetes. Logo na primeira que pus no leitor, a fita ficou presa. O pânico, o horror, a tragédia: era um vídeo muito importante, sem cópia, que não podia ficar estragado. Lá se resolveu, com muitos "ai mãe, ai mãe!" pelo meio. Na segunda capelinha em que fui bater à porta para obter mais relíquias, ponho a cassete dentro do leitor e nada - passava a vida a cuspi-la. Quando fui ver, a fita estava partida. Abriu-se a cassete, cortou-se um bocadinho da parte danificada e com mãos de cirurgião colaram-se as duas partes. Ficou funcional! Aconteceu o mesmo com outra - que era Vídeo 8 - mas, infelizmente, o resultado não foi o mesmo. E custou-me muito não saber o que estava ali dentro e andar a cortar fita - mesmo, com tesoura! - e saber que estava a cortar memórias, pessoas, momentos.

Ando muito cansada à custa desta brincadeira, porque a quantidade de horas passadas em frente a este ecrã têm sido claramente demasiadas, mas isto tem-me dado um gozo imenso e conteúdo para muitos posts e pensamentos. Mas hoje, enquanto destruía aquela cassete para tentar recuperar, tive um daqueles momentos profundos em que de facto me apercebi da passagem do tempo: hoje em dia não estamos habituados a cortar coisas, a fazer algo definitivo. Eu senti um pesar tão grande de cada vez que dava uma tesourada ou que a fita se rasgava, não sabendo o que estava ali, e pensei que se tudo isto tivesse no computador eu simplesmente fazia CTRL+Z e voltava atrás em qualquer erro, em qualquer nanosegundo que não quisesse cortar e que, mesmo se fizesse delete ao ficheiro desejado, tinha sempre a reciclagem onde o ir buscar. Antigamente as coisas eram mais difíceis, mais cruas, mais definitivas, mais limitadas - mas se calhar também mais saborosas. As dores deviam doer mais, mas as alegrias se calhar tinham mais ênfase. Hoje é tudo feito tão rápido que nem queremos saber. E estes dias, estas horas em que tenho passado entre vídeos, cassetes e a resolver problemas do século passado, fizeram-me dar ainda mais valor a estas pequenas coisas, que hoje achamos tão simples, mas que antes requiriam uma perícia e uma motricidade fina que não era para todos. Tem sido bom regressar ao passado.

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