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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

13
Nov18

Menos telemóvel, mais vida

Carolina

Há uns estudos quaisquer que dizem que um hábito se perde em 21 dias - se quisermos e fizermos por isso, claro está. Mas a verdade é que me bastaram cinco dias para perder hábitos há muito enraizados - e sim, estou a falar do telemóvel (prometo que este é o último post desta "saga"). De tal modo que, neste momento (em que vos escrevo do meu novíssimo Xiaomi Pocofone, com o qual já lido há uns dias) ainda tenho o meu smartphone quase em modo de default - ainda não mudei backgrounds, ainda não instalei o Instagram ou o Feedly, ainda não abri o YouTube. Só tenho, para já, o mínimo necessário para comunicar com os outros e dar-lhes conta de que não morri - e mesmo nesse campo impus-me novas regras.

No que diz respeito às apps, tirei o som e os alertas para as notificações de conversas de grupo (algo que somos incapazes de controlar e que nos pode levar à loucura em dias menos bons), estou a todo o custo a tentar tirar o som do Messenger do Facebook (que me parece impossível, mas continuo à procura) e, quando instalar o Instagram, ainda vou pensar no que vou fazer. Deixei de levar o telemóvel para a casa de banho (não pela razão óbvia ou por estar traumatizada com o que aconteceu ao outro - deixei-o cair por tê-lo no bolso, algo que nunca faço, e que resultou de uma mudança de rotinas esporádica - mas sim pela quantidade de tempo que passava a ver porcarias) e, de uma forma geral, de o carregar de um lado para o outro - o facto do telemóvel ser grande, me cair facilmente dos bolsos e não ser tão "maneirinho" contribui muito para este facto.

Eu não estou a dizer que estas são mudanças definitivas - mas são as mudanças que me apetece fazer agora. Habituei-me a não ser incomodada. E habituei-me, acima de tudo, a não esperar que alguma coisa caia no telemóvel - e acho que é aqui que reside a grande questão. Porque a maioria das vezes que eu clicava no ecrã principal não era para "ver as horas" - era, sim, uma constante procura por novidades, por algum tipo de contacto. Para ver se era lembrada.

Criei este hábito - diria que à semelhança de 90% das pessoas - por várias razões: primeiro por culpa dos dois anos em que trabalhei no jornal. O meu e-mail era um rodopio constante, havia novidades (não necessariamente boas) a cada refresh que fazia e eu habituei-me a checkar consecutivamente o telemóvel à espera de problemas por resolver - e, durante muito tempo, não os ter foi complicado para mim. E segundo devido à questão da socialização, ainda que aparente, que as redes sociais e as apps de comunicação nos dão. Eu sou uma pessoa só e estas aplicações são uma óptima muleta para alguém cuja parte social não é muito forte; sem falarmos com ninguém parece que conhecemos as pessoas, sentimo-nos muitas vezes integrados. Tem também uma forte componente de aprovação - quando publico alguma coisa fico sempre na expectativa de quem vai gostar ou comentar; talvez porque me sinta insegura em alguns aspetos (nomeadamente físicos) e porque sou tão humana como os outros e também gosto de ter a aprovação de quem me rodeia. Mas até no blog esta constante expectativa se aplica; ainda que a questão da insegurança não seja tão pertinente porque acredito mesmo nas ideias que aqui partilho (e defendo-as com unhas e dentes, se assim for necessário), espero sempre ansiosamente por comentários e interações - no fundo, um feedback por parte de quem me lê, para confirmar também que alguém o faz. Passava a vida a abrir o site, ou a atualizar o e-mail para ver se caía qualquer coisa. E eu quero que isso acabe. Quero não precisar disso para me sentir bem. 

E por isto, todo este atraso em relação ao telemóvel é muito mais que um simples atraso. É uma tentativa de desconexação. Não completa - continuo a falar com as pessoas, a responder às mensagens, a passear no facebook enquanto estou na fila de espera de qualquer coisa. Mas para já, que ainda não atingi o equilíbrio e tenho medo de voltar aos velhos hábitos, estou a ir passo a passo. Que, é como quem diz, app a app. É o processo de perceber que não estar ao telemóvel a vasculhar a vida e as opiniões alheias é poder ler os livros que deixei de ler, é poder trabalhar as músicas de que desisti a meio no piano, é escrever mais, é dormir mais. Há, de facto, poucos "menos" nesta equação. Talvez menos dependente. E isso basta.

 

(Sobre o meu novo Xiaomi: para já estou hipersatisfeita, estou a gostar do toque e do software (não me custou nada a mudança de iOS para Android) e as perspetivas, de tudo aquilo que li, são as melhores, dadas as características técnicas. É maior do que eu queria - gosto e telemóveis pequenos -, mas hoje em dia é tudo feito à grande, por isso não havia grande escolha. Não é uma marca fancy como o iPhone, mas está ligado há dois dias e ainda tem praticamente metade da bateria - algo que o iPhone nem no início de vida poderia sonhar. E não me venham com argumentos ao estilo "ah, é chinês...". Não que não seja verdade - mas o quê que não é chinês nos dias de hoje?)

27
Ago18

Slow living

Carolina

A única coisa que nos Açores me deixou preocupada foi o facto de eu gostar tanto daquela vida e daquela calmia. É um facto que só lá estive uma semana – longe de ser o suficiente para me fartar daquilo – mas já noutros momentos eu me tinha apercebido de que uma das coisas que me dá saúde mental é não ter de andar sempre a correr, é não sentir a necessidade de reclamar com o trânsito, é não ter barulhos de fundo. Não é a ausência de regras – essas, tenho-as sempre, em tudo o que faço – mas sim não ter o stress da sociedade toda em cima de mim.

E isso assusta-me, porque o plano que eu tenho para a minha vida não é esse. Lembro-me de ser mais nova e pensar que queria que a minha vida fosse um corropio, sempre com coisas para fazer, nunca parar, viajar, aviões, trabalho, reuniões, feiras. Enfim, muita confusão – um bocadinho à semelhança do que vi os meus pais fazerem. E eu sei que para se ter sucesso em qualquer área que seja é necessário trabalho – e, nos dias de hoje, sucesso e trabalho não ligam com sossego e calma. Acho que nunca ligaram, mas agora mais do que nunca, numa altura em que somos obcecados com a eficácia e a eficiência e os índices de produtividade e tudo e tudo e tudo. E eu, como futura empresária que me imagino, também serei (pelo menos em certa parte) motivada e obrigada a olhar para esses fatores e sei – por já ter visto – que nada me é entregado de mão beijada e eu vou ter de lutar muito e trabalhar muito para ter aquilo que quero e manter o meu nível de vida.

Ou seja: há aqui um conflito de interesses. Por um lado o facto de saber que sou mais feliz com uma vida pacata e calma; por outro, saber também que aquilo que quero não se compadece muito bem com esse estilo de vida. A não ser nas férias – que é precisamente o que estou a fazer agora, antes que chegue Setembro e que me arrebate de cansaço com as extremas mudanças que vai trazer para a minha vida.

Depois da dose de sossego que levei nos Açores e de um dia que passei no Gerês, estive a acampar com toda a minha família em Castelo Branco. Dentro do campismo, a paz não é muita – nunca é, quando se juntam quase 30 pessoas, com crianças pelo meio, que querem pôr os assuntos de um ano em dia. Mas a calma da vila onde estive aqueceu-me a alma. Ver o rapaz da caixa de supermercado a contar os cêntimos a uma senhora velhinha, para ela pagar a conta; vê-lo a apanhar calmamente uma aranha com a mão, que estava em cima do tapete das compras, e sair do seu posto de trabalho para a ir pôr lá fora; abrirem-nos a porta do mini-mercado quando já íamos fora de horas comprar bebidas para o jantar; ver os banquinhos de jardim todos alinhados, dia após dia, mesmo depois das jogatinas de cartas pela tarde fora.

São pessoas que não têm pressa – o que não significa não ter respeito pelo tempo dos outros. Se fosse no Porto, já estaria a reclamar porque a senhora já devia ter o dinheiro preparado e porque era muito mais prático o rapaz ter matado o bicho. Porque temos sempre sítios para onde ir, coisas para fazer, assuntos para tratar. Mas ali não. É como se a medida de tempo fosse diferente, como se o tempo não passasse tão rápido. É o chamado slow living. E é maravilhoso.

18
Ago18

Life is what happens to you while you're busy making other plans

Carolina

Tenho uma plaquinha aqui no quarto, que comprei numa altura em que fiz algumas remodelações, que diz "life is what happens to you while you're busy making other plans". Comprei-a porque a achei gira, não por ter pensado a fundo naquilo que dizia - até porque dizer-me para não fazer planos é quase como me pedir para não mudar de roupa todos os dias. É impossível.

Mas é inegável que enquanto fazemos planos para a nossa vida inteira, a própria vida se vai encarregando de dar as suas própria voltas. E eu voltei a ser "vítima" de mais uma volta da vida.

Decidi sair do meu anterior trabalho para poder ter um ano mais sossegado, dedicado à minha pós-graduação e à minha introdução no negócio de família. Queria, pelo meio, não ter de pensar nos 22 dias úteis de férias e poder meter-me num avião sem grandes complicações e compromissos (quase) sempre que me apetecesse e viver sem grandes amarradas ou responsabilidades. Como não sei como será a pós-graduação, como tenho medo da minha re-adaptação ao mundo universitário e ao estudo (do qual tenho zero saudades!) e como não tinha necessidade de estar a trabalhar de dia e a estudar de noite (o que, apesar de ser exequível, é cansativo), na altura decidi que era melhor assim. Teria tempo para mim, para os meus pais, para viajar...

Até que me ofereceram trabalho, numa área completamente diferente, e eu disse que sim - embora tivesse pensado muito em dizer que não, em ficar agarrada ao meu plano e à ideia que tinha concebido de um ano de "liberdade". Acho que a minha geração sofre de um grave problema chamado “juventude eterna” - estamos presos a um certo estilo de vida e não o queremos largar, tendo ainda por cima a desculpa de que hoje em dia não é fácil arranjar trabalho e ter condições financeiras para a vida andar para a frente e seguir o seu curso normal (estudar, trabalhar, sair de casa, ter filhos, etc.). Vejo muita gente da minha idade que ainda não terminou o curso - ou está a acumula-lo com mestrados, pós-graduações e especializações, de forma a eternizar a sua passagem pela universidade - ou que simplesmente está estagnada num estilo de vida-loka, porque não sabe admitir o fim de um momento. Ou porque não querem dar o corpo ao manifesto. Ou porque não querem responsabilidades de maior.

E eu não quero ser assim - mas admito que quando pensei neste "ano de liberdade" me agarrei às poucas boas lembranças que tinha da faculdade, que se prendem com a questão da liberdade de horários, a liberdade de faltar sem ter grandes consequências. E pus tudo na balança. Vou deixar de viver uma experiência completamente diferente, que provavelmente nunca mais terei oportunidade de fazer, só por estar agarrada a essa ideia? Por querer ter mais tempo (mesmo sem saber se, de facto, o teria)? Ou vou sacrificar, digamos, um ano da minha vida, que será concerteza mais atarefado mas também diferente?

Escolhi a segunda hipótese. A tremer como varas verdes, cheia de medo, mas escolhi. Não tendo, em dia algum, a certeza de que tomei a decisão certa. Tendo receio de falhar, de não ser boa naquilo a que a partir de agora me propus. De me chatear ou de roubar-me a mim mesma uma das coisas que ultimamente mais gosto, porque a tornei em trabalho em vez de lazer. Medo de andar eternamente cansada, medo de estar a tentar agradar a todos e a mim mesma, medo de estar a tentar engolir uma fatia demasiado grande de mundo e não a conseguir digerir.

Não sou boa a deixar planos nas mãos dos outros, mesmo que por “outros” se entenda o destino. Mas tenho orgulho em conseguir aceita-los, mesmo ficando paranóica com tudo o que pode correr mal; em dizer que “sim”, mesmo que as pernas tremam. A verdade é que apesar destas fintas que a vida dá, eu acho-lhes graça; as chapadas de luva branca podem doer, mas não lhes podemos tirar o mérito e a ironia. Trabalhei dois anos num jornal, depois de ter rogado pragas a tudo e todos que tivessem que ver com jornalismo; agora vou ensinar crianças (e não só) a dar os primeiros passos no piano, depois de sempre ter dito que crianças-cruzes-credo-nem-pensar-só-longe-de-mim.

Não sei como é que tudo isto vai correr, não sei onde vou encaixar a minha vida – a escrita, o ginásio, a minha família – no meio de dois trabalhos e uma pós-graduação. Mas se não conseguir, ao menos posso dizer que tentei.

16
Mar18

A vida não espera por ti

Carolina

Nunca percebi aquela coisa dos vilões das telenovelas fazerem "planos maléficos" contra os seus inimigos - não percebo como é que isso se faz, se há algum tipo de verdade nesse sentido da palavra. Mas também nunca percebi as pessoas que não têm planos. Planos de vida, planos para o futuro. Para amanhã, para hoje, para as férias, para o verão.

Eu tenho necessidade de ter planos para tudo. Não gosto de andar à deriva. Não gosto de me perder a menos que o meu plano seja mesmo perder-me. E eu uso agendas, uso blocos, uso este blog como testemunho de todos os planos que tenho. Os objetivos que traço. As datas que determino. As coisas que quero. E gosto de ter tempo para pensar em tudo, para não dar passos em falso.

Mas no meio disto tudo, desta papelada toda, de todas as datas e planos que tenho na minha cabeça, esqueço-me que o relógio continua a andar. E que não é só o meu que anda - o dos outros também. A vida passa. E a minha vida - quer eu queira quer não - cruza-se com a de quem me rodeia. E há momentos em que os ponteiros coincidem. E pumba. A vida não espera. Não espera que eu termine os meus planos. Não espera que eu esteja preparada. Não espera que eu tenha o meu discurso pronto. Não espera que eu tenha todos os argumentos, todas as armas.

 

Tenho há algum tempo a cabeça cheia de planos. É um conjunto infinito de remendos, cosidos a ideias de há muitos anos e colados a medos. Caraças, muitos medos. E, de um momento para o outro, sinto que, como numa rajada de vento, todos eles se espalharam por mim toda. Buuuuuf. Não os agrafei, nem tive tempo para pôr clips. Confiei que nesta altura não vinham tempestades, mas foi-se tudo pelo ar. Não eram castelos de papel - mas quase. Há remendos por todo o lado; o sopro da vida tapou-me os olhos, entupiu-me as vias respiratórias. Não vejo, não respiro. Não tinha ordenado os meus planos, esqueci-me de numerar as páginas, está tudo num caos.

É hora de apanhar as folhas, arranjar os vincos, ir buscar aquela página que ficou lá atrás. E olhar para o relógio, perceber que ele não pára, mas que felizmente é fim-de-semana, e temos tempo para reorganizar. Porque, de facto, a vida não "são dois dias", mas em dois dias dá muitas voltas.

A vida não espera. A única coisa que se pode esperar da vida é que ela continua. E o nosso remédio é continuarmos com ela.

 

29
Jan17

O luxo que é ter tempo

Carolina

Eu acho que uma das maiores riquezas que há na vida é ter tempo. De que serve ter muito dinheiro se não há tempo para o despender? De que serve ter uma família grande se não temos tempo para ela? Eu acho que este equilíbrio é dos mais difíceis de conseguir e hoje em dia dou por mim sempre a correr, a sair de manhã para o trabalho e chegar já com a noite cerrada e perguntar-me: é isto a vida? É durante o tempo do pequeno-almoço e do jantar que se vive, sem fazer algo a que estamos obrigados por parte da sociedade? E isto para não falar de todas as outras obrigações que as pessoas normais e independentes têm: fazer a cama, arrumar a casa, preparar refeições. Que tempo sobra?

Ainda para mais eu tenho a mania dos planos, das listas, das tarefas. E adoro quando chego ao fim do dia com tudo preenchido e feito - aliás, só assim fico realizada e verdadeiramente sossegada. Mas a verdade é que me esqueço da liberdade e do sossego que é ter dias para não fazer nada. Sem planos, sem horas, sem bilhetes para isto e aquilo, sem jantares, sem ter de fazer uma sobremesa para levar não sei onde, sem viagens às 8 da manhã. E sem ter de escrever, de ler, de ver aquele filme, de estudar, de arrumar. Sem nada destinado - porque só deixando a minha agenda mental livre de tarefas é que consigo efetivamente desfrutar do tempo totalmente livre e não ficar a remoer em tudo o que devia ter feito e não fiz.

Sabendo que o mês que se aproxima vai ser caótico, que os fins-de-semana ricos em descanso não vão existir, que o trabalho vai estar a 200%, que nestas duas pernas vão estar muitos quilómetros e demasiadas horas em pé e que eu vou ter de beber muito café para aguentar a pedalada, decidi que este fim-de-semana ia ser para descansar. Sem planos, sem obrigações - só as refeições e a ida ao supermercado para ir buscar o pão. 

Já li, já vi séries, já vi um filme, já planeei a minha viagem, já escrevi. Sem check-lists, sem stresses, ao sabor do tempo que resta. Governada pelo sono ou falta dele, pela vontade de fazer coisas ou a falta dela. Que bem que soube e que pena estar a acabar. Sinto que vou passar de um passeio domingueiro para uma corrida de fórmula 1. E a única coisa que espero é chegar ao fim com os fusíveis todos. Até lá, vou só dormir mais um bocadinho para queimar os últimos cartuchos.

05
Jan17

Relativizar

Carolina

Fez na terça-feira um ano que fui operada. Acho que, mal abri a pestana, foi a primeira coisa de que me lembrei. Não há dúvidas que o tempo cura tudo, mas as dores físicas vão-se muito mais rápido da nossa memória do que as dores da alma. Estas últimas custam mesmo a passar - e um ano está longe de ser o suficiente para curar tudo o que há para curar em relação a esses quinze dias da minha vida, que pareceram meses enquanto os vivia. Comparado com outras coisas é simplesmente irrelevante, mas para mim aquela terça-feira foi das mais críticas da minha vida - acho que ainda choro de cada vez que falo do facto de ter entrado num bloco operatório.

Na terça-feira, tal como os restantes dias desta semana - e talvez da anterior e a antes dessa - eu estava em baixo, num daqueles ciclos viciosos em que entro e de que depois é difícil sair. Começa com uma dorzinha de alma, que se espelha logo na minha cara - tem graça como as minhas olheiras advém muito mais do meu estado de espírito do que do meu cansaço (e sim, às vezes é imediato - se recebo uma notícia negativa, poucos minutos depois estou com um semblante muito mais escuro) - e depois vai avançando para outros problemas, menores ou maiores, recolhendo dores aqui e ali. Acabo estes dias com a minha auto-estima em níveis negativos: sinto-me feia e gorda e todas essas coisas terríveis que as mulheres pensam e de que eu não sou excepção. Pelo contrário, passo a minha vida emersa neste pensamentos auto-críticos e destrutivos de que nunca consegui fugir.

Quando acordei, já cabisbaixa, lembrei-me de que há um ano estava eu a ir para o hospital, supostamente de livre e espontânea vontade, num pânico total e completo; de como não falava, de como num movimento involuntário e completamente inesperado fui todo o caminho para o bloco com as mãos juntas em posição de reza, de como deram conta que eu estava toda às manchas devido a uma urticária nervosa e de como, horas mais tarde, acordei no recobro a chorar - num misto de medo, alívio, vergonha e de tudo um pouco. E ali estava eu, um ano depois, - ainda que supostamente feia e gorda - a andar perfeitamente, a conseguir-me sentar, sem qualquer problema de saúde; com os meus pais e a minha família bem, eu com trabalho e um dia calmo e previsivelmente feliz pela frente. E ainda assim triste, com uma dar de alma no peito e o estômago pequenino, de como quem tem um problema grave pela frente.

Acho que de nada serve quando nos pedem para relativizar e pensar em todos os problemas do mundo e compara-lo com os nossos. As nossas dores serão sempre as nossas dores. Ponto. E, quer queiram quer não, vão sempre doer mais do que as dos outros - lá está, porque são nossas. Ponto. Mas, se calhar, se compararmos as nossas próprias dores, numa estratégia racional, talvez tudo seja mais realista. É claro que a memória e o tempo nos pregam partidas, tornam as coisas mais leves do que realmente foram, mas ainda assim é na nossa ferida que tocamos - e essas doem sempre mais.

É assim que eu combato as minhas crises: racionalmente. Não funciona sempre: ainda estou triste, o nó na garganta está cá, as olheiras também. Mas neste momento, para além de um âmago dorido, eu sinto-me chateada por estar assim - primeiro porque sei que há dores muito piores, porque eu própria já as experienciei, segundo porque são dias que desperdiço a não ser feliz e terceiro porque estou farta de não viver a vida como eu a sei viver. As tristezas não se podem simplesmente atirar para o lixo, não se esquecem. Mas superam-se - e, no meu caso, relativizar ajuda. Se há um ano eu mal me mexia com dores, hoje estou mais que bem. E amanhã a única coisa que quero é estar um bocadinho ainda melhor que isso.

 

15
Dez16

Sobre deixar de estar encalhada numa fase da vida

Carolina

Nos tempos da faculdade a minha segunda casa passou a ser a baixa do Porto e eu, apesar de adorar a minha cidade, tinha muitas saudades do sítio da minha antiga escola e onde sempre fiz a minha vidinha. Na altura sentia que tudo estava perto - o supermercado, o restaurante, os correios, a papelaria, a escola de condução, o metro... enfim, mesmo que não tivesse tudo isto, aquele foi o sítio que me viu crescer e a minha segunda casa durante anos a fio, que já são razões suficientes para ter um lugar de estimação no meu coração. 

Nos meus três anos de faculdade o ginásio que frequentava era por ali e eu, apesar de não fazer ali a minha vida, ainda por lá ia andando - e de cada vez que passava em frente da minha escola suspirava, com saudades daqueles tempos. Dos recreios, dos meus colegas, dos meus professores. Tive fases muito más naquele espaço, sofri e chorei muito em algumas daquelas salas, mas a nossa memória encarrega-se de desvanecer as coisas menos positivas. Ainda para mais todos esses dramas foram vividos nos primeiros tempos naquele liceu e as coisas foram ficando melhores com o passar dos anos, culminando num 12º espetacular - e por isso, sempre que lá passava, reinavam as saudades e a nostalgia dos tempos que considerava terem sido os melhores da minha vida.

Agora já saí do ginásio onde estava mas, de vez em quando, vou passando por lá para fazer uns recados. E há dias, enquanto via aquele edifício azul e os grupinhos de mochilas às costas, chiclete na boca e uns risinhos aparvalhados, apercebi-me que sim, que ainda tenho saudades, mas não tantas como tinha antes. Já não olho para ali da mesma forma que olhava nos tempos da faculdade - que toda a gente sabe que foi, para mim, tudo menos um mar de rosas.

Não é que tenha deixado de gostar daquele espaço, dos meus professores ou dos meus colegas, mas aconteceu-me algo que nunca me tinha acontecido na vida: a fase (drástica) para a qual mudei é melhor do que a que conhecia anteriormente. Hoje em dia, pura e simplesmente, conheço uma realidade melhor, porque sou ainda mais feliz do que era naquele último ano de secundário. E no momento em que me apercebi disto, em que andava nas correrias habituais do meu dia-a-dia, só pude sorrir. É tão bom quando não ficamos encalhados em certos momentos da nossa vida e nos permitimos andar para a frente. Às vezes custa mais do que aqueles típicos vinte segundos de coragem... mas vale a pena. 

 

 

08
Dez16

Quando vira o prego

Carolina

Acho 2016 foi o melhor ano da minha curta vida. Foi porque aconteceram-me coisas boas, porque tive umas férias absolutamente espetaculares, porque saí da faculdade, concluí a licenciatura e comecei a trabalhar numa área que me apaixona. Mas, acima de tudo, porque mudei o meu chip; porque decidi que queria ser feliz. Isto pode parecer parvo, mas é a realidade: eu nasci com o chip errado, o meu estado de espírito natural era - é - estar triste. E é óbvio que isto não se faz de um dia para o outro, qual ficha que se liga e desliga quando bem se quer: funciona mais como um dual sim, em que um dos cartões nunca sai - o original. Temos é a oportunidade de acrescentar um cartão extra, quando estivermos preparados e dispostos a tal.

O nosso material de fundo permanece sempre o mesmo, podemos é acrescentar-lhes uns bónus que tornem toda a "embalagem" melhor. E eu este ano quis fazer isso: atirei-me para fora da minha zona de conforto, fiz coisas incríveis e livrei-me de outras que nunca me fizeram bem. Isto ajudou a construir o meu novo chip, que consiste num trabalho diário que, creio, vai durar para o resto da minha vida. Não há qualquer tipo de dúvidas que é algo que vale a pena mas também é óbvio que o facto das coisas me terem corrido bem também ajuda a um estado de espírito positivo. No meio destes vários meses em que andei nas nuvens, às vezes parava para pensar e perguntava-me: "e quando o prego virar, como vai ser?". Tinha medo de não conseguir enfrentar as coisas com o positivismo e esperança necessários para continuar neste caminho que tem sido tão bom para mim mas que constitui sempre uma luta.

E chegou o dia. O prego virou. Não todo, não drasticamente, não por causas fortíssimas que me atirem ao fundo do poço (como costumo dizer). Mas que o ângulo que ele tinha mudou, disso não há dúvidas. Esta semana, pela primeira vez desde que estagiei, não me apetecia ir trabalhar; não me apetece tratar das compras de Natal e nem me lembro que o ginásio existe, porque só quero aqueles minutos extra durante a manhã, enrolada no quente da minha cama, que parece ser das poucas coisas que me aquecem a alma nestes dias frios, tanto lá fora como cá dentro. A maioria das coisas desta vida não matam, mas moem.

Tenho sido a pessoa que quero ser em vários dos papéis da minha vida: como trabalhadora, como filha, como mulher. Noutros sei que sou um fracasso (como amiga, por exemplo). Mas nem sempre é fácil manter a simpatia constante, a educação exemplar, o sorriso na cara - principalmente quando vemos os nossos sofrer, quando o trabalho não corre assim tão bem ou a nossa própria alma dói. 

É nestes dias que custa mais pensar que o meu sistema é dual sim. Que há um chip que nunca vou conseguir desencaixar mas que, felizmente, há um outro que eu sei criar e que torna a minha vida muito mais fácil e feliz. Há dias em que parece que o perco, outros onde sinto que nunca o cheguei a construir. E esses são os dias mais difíceis. Vale-me a memória dos dias bons, do meu ano fantástico e exemplar para me relembrar que é possível. 

Vou varrer o pó debaixo da alma e encontrar o maldito chip que andará lá perdido. Já é sabido que ninguém gosta de limpezas, mas nenhum dia é bom para se desperdiçar. E eu tenho um feriado pela frente para desfrutar.

19
Out16

Hoje escrevo

Carolina

Em 2011 deu-me na real gana que queria escrever. Foi uma coisa um bocadinho inesperada, porque toda a minha vida tinha dito que queria ir para áreas ligadas às ciências e aos números; até ali, sempre tinha gozado com os "letrinhas" e menosprezado um pouco o trabalho deles, nunca pensando que aquilo que dizia me iria um dia pesar na consciência. 

E depois, ao que pareceu ser (aos olhos dos outros) uma coisa que mudou do dia para a noite, decidi que não queria nada do que tinha apregoado até ali e que o que queria da vida era mesmo escrever. Claro que, para mim, essa mudança foi mais gradual, ainda que de facto repentina - relaciono-a com um período pior da minha vida, em que me fui abaixo e não estava a conseguir lidar com vários fracassos sucessivos, nomeadamente ao nível das matemáticas. Na altura ninguém me apoiou nesta mudança - em grande parte porque essa relação fracasso/desistência estava muito explícita e, aos olhos dos outros, eu estava a desistir à mínima dificuldade. E eu não posso negar que  essas dificuldades também impulsionaram a mudança - mas hoje percebo que eu estava com uma sede enorme de mudar, o que só ficou provado no ano seguinte, naquele que foi o melhor ano que tive na escola secundária.

Nessa altura coloquei o jornalismo em cima da mesa porque era uma alternativa que me permitia escrever sobre os mais variados assuntos, inclusive as ciências, fazendo com que eu não perdesse essa ligação aos números que eu sempre apreciei. Mas cedo me apercebi que o jornalismo não era para mim e que "escrever" e "jornalismo", ainda que sejam coisas indissociáveis, estão longe de ser a mesma coisa e de satisfazer alguém que gosta mesmo de escrevinhar.

Por ter percebido isso e por, ainda mais para a frente, ter visto que o contacto humano era extremamente necessário, pensei muitas vezes em desistir. No primeiro ano, era algo diário - todos os dias eram bons para dizer "chega". Por alguma força de vontade divina, decidi ficar no mesmo curso e traçar o meu caminho. Defini objetivos, fiz-me perceber que um curso era só mais uma valência e que não perdia nada em saber mais numa determinada área, mesmo que alguns dos trabalhos e atividades me fizessem doer o âmago de cada vez que as fazia. 

E, não sei como, a vida acabou por se arranjar e dar as voltas do costume. Primeiro queria números e fui para letras. Depois a ideia passou levemente pelo jornalismo e fui para a assessoria, fugindo a sete pés dos jornais. A seguir estagiei em assessoria e ofereceram-me um trabalho em jornalismo. Como se isto já não bastasse, tudo acabou por se compor na grande área da minha vida, onde cresci e pela qual nutro uma paixão profunda - de forma a estar a desenhar o meu futuro nesta área -, que é a têxtil e a moda. Algo que no início não fazia sentido e que me causou, muitas vezes, imenso sofrimento, acabou por ser um complô incrível, uma surpresa e uma autêntica prenda da vida.

Porque a vida é um conjunto de escolhas. Das mais pequenas ("o que vou comer ao jantar?" ou "que sapatos calço?) até às gigantes ("caso-me?", "despeço-me?"), todos os dias a fazemos - e eu acho que, muitas vezes, mesmo as pequeninas decisões que tomamos têm repercussões no nosso futuro, quase como o efeito borboleta. Uma coisa é certa: a vida acontece-nos. A partir do momento em que estamos vivos, estamos à mercê do que nos aparecerá à frente. Coisas más e coisas boas, no fim o que interessa é o que fazemos com elas - ou, por outras palavras, as decisões que tomamos e a forma como nos mantemos firmes perante elas. A resiliência, a luta, a paciência e aquela pitada de sorte fazem a diferença.

Em 2011 decidi que queria escrever. E hoje escrevo - e que bom pensar que isto é só o início. [Caraças, os sonhos realizam-se mesmo!]

 

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 (hoje saiu o meu primeiro texto assinado em algo sério, oficial e com uma tiragem minimamente significativa. estou feliz.)

 

29
Set16

Carolina, hoje é dia de seres feliz

Carolina

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Isto pode parecer piroso, estúpido e terrível mas esta é a imagem que tenho como pano de fundo do meu telemóvel. Quando acordo e pego no telemóvel em busca das primeiras novidades do dia, esta é a primeira coisa que vejo. Quando pego no telemóvel para me distrair ou desviar as atenções no meio de uma situação que me deixa desconfortável, isto é o que vejo. Quando me esqueço que tenho relógio e clico no botão do telemóvel, mais por vício do que por necessidade, esta imagem que me aparece à frente. E quando me deito e pego no telemóvel uma última vez para ligar o despertador para o dia seguinte, esta também é a imagem que vejo.

E vocês dizem: "oh, passado dois dias já nem lês o que aí está". Não é verdade. Posso nem ler, mas como gosto da imagem e olho para ela todos os dias, a missão fica logo cumprida - e há uma campainha no meu subconsciente que se acende e que sabe a importância por detrás desta mensagem.

Pode soar a cliché, mas isto é mesmo muito importante para mim. Entrei agora numa fase nova da minha vida e por muito bem que as coisas corram há sempre embates fortes que tendem a derrubar-nos. Há dias piores, em que tudo nos irrita - e a culpa tanto pode ser nossa como do outro que trabalha connosco, mas a impertinência e o mau estar estão lá. Para mim, o maior desafio de todos os dias de trabalho é pôr-me fora da minha zona de conforto: fazer telefonemas, falar com pessoas, estar com pessoas, almoçar com pessoas. É uma overdose de pessoas para alguém que nunca gostou de (lidar com) pessoas, e não é fácil enfrentar o mesmo "bicho" todos os dias. O truque tem sido pensar dia-a-dia, hora a hora. Por cada chamada que tenho de fazer ou pessoa com quem tenho de falar, faço uma série de coisas que gosto - e isso compensa-me tudo o resto.

Quando o saco enche, a coragem se vai e a noite não foi tão bem dormida, eventualmente as coisas rebentam. E eu deixo que elas rebentem, mas não sem antes processar bem a informação e estabelecer um limite de segurança. Preciso de chorar durante 10 minutos? Choro durante 10 minutos. Mas depois vou à minha vida, fazer uma das milhentas coisas que gosto. Isto, no fundo, tem uma comparação simples. Há uma escolha a fazer nestes momentos cruciais e meio depressivos: enquanto os estamos a viver, ouvimos músicas tristes ou alegres? Eu era a pessoa que ouvia músicas tristes e chorava cada vez mais - chegava ao fim com a cara irreconhecível e a já não saber porque razão chorava; hoje tento ser a que põem música alegre e tenta cantar, mesmo que aquele nó da garganta ainda não tenha desaparecido. E penso que isto explica tudo.

Isto pode parecer conversa de chacha, mas eu contextualizo. Admito, sem muitos pudores, que ainda não tinha 18 anos e já andava a tomar anti-depressivos. Tomei-os durante uns meses, até me senti melhor, e depois parei, porque achei que aquela leveza que sentia não era verdadeira nem conquistada por mim mas devido aos químicos que estava a tomar. Passada essa fase turbulenta, tentei mudar e ficar feliz pelos meus próprios meios. Tenho vindo a conseguir, com fases melhores e piores pelo caminho - há acontecimentos na vida de cada um de nós que são suficientemente arrebatadores para destruir este tipo de "construções de nós próprios", mas penso que estou incomparavelmente melhor do que estava há alguns anos.

Mas preciso de me lembrar, todos os santos dias, que há uma alternativa à pessoa que eu sou naturalmente. É uma coisa de ADN, que me é intrínseca - eu tenho tendência a ser depressiva e não me posso deixar enterrar em ciclos viciosos onde depois não vejo saída. Aprendo todos os dias a contrariar-me e faço um esforço muito grande (e consciente) nesse sentido.

Por isso, sim, hoje é dia de eu ser feliz. Hoje, amanhã e todos os dias da minha vida - mesmo aqueles em que não sou e não vou ser, porque há momentos que ultrapassam a nossa vontade e força. Mas nos dias em que eu puder tentar - que felizmente são a maioria - é essa a minha missão. Perdoem-me, por isso, a imagem pirosa na foto de capa do telemóvel, ok? É só um lembrete para a vida.

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