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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

17
Set18

Uma breve passagem por Bratislava, na Eslováquia

Carolina

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A minha passagem por Bratislava não passou mesmo disso: uma passagem. A capital da Eslováquia fica a meio caminho entre Praga e Budapeste, pelo que é a paragem perfeita para esticar as pernas, comer qualquer coisa e fazer mais um "check" na nossa lista de capitais e de países por onde já passamos. Demoramos cerca de 4 horas a lá chegar - saídos de Praga - e depois ainda passamos mais três horas dentro do autocarro para ir até Budapeste. Estava muito preocupada com estas horas de viagem, principalmente tendo em conta que nunca fui muito fã de viagens de autocarro, mas devo dizer que não foi nada por aí além: entre um estado de meio-sono e o embalo da música que pus nos auriculares, a coisa fez-se bem.

Ou seja: eu não posso dizer que conheci Bratislava. Foi um passeio agradável, digamos. Mas a verdade é que fiquei com a ideia de que não é uma cidade que tenha muito que ver e onde compense ir de forma exclusiva, sem passar por outras cidades ou países.

Tivemos cerca de uma hora para passear no centro depois do almoço (curiosamente o restaurante era precisamente em frente à embaixada portuguesa), parte dela feita com uma guia que nos fez uma breve introdução à capital e explicou alguns dos edifícios que vimos. Como só vagueamos por aquela zona, o Castelo de Bratislava - que dizem ser um dos pontos a visitar na cidade - ficou de fora dos planos. Confesso que não fiz grande pesquisa sobre a cidade porque sabia que não ia ter tempo para a explorar. Fui sem expectativas e sem planos - e, com tão pouco tempo, era difícil defraudar qualquer um dos dois.

Como não tenho muito para dizer, prefiro mostrar fotos e legendar com aquilo que sei e as impressões que fui ficando. Ora vamos lá:

 

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A Catedral de São Martinho, uma das maiores e mais antigas da cidade, que foi o local de coroação de vários reis entre 1563 e 1830. Não houve tempo para ver o seu interior

 

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A embaixada portuguesa que, curiosamente, ficava precisamente em frente ao local onde almoçamos

 

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O local onde Mozart deu o seu primeiro concerto, aos 6 anos. Metade das peças que tocou já eram compostas por ele. Um génio. (Nesta fase da minha vida, ai de mim que não tirasse uma foto aqui!)

 

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Provavelmente a estátua mais conhecida e visita de Bratilslava: o Cumil, mais conhecido por Man at Work, que representa um homem deveras trabalhador que nos seus muitos tempos livres se punha nesta posição para espreitar por debaixo das saias das senhoras. Há muitas estátuas engraçadas (e bem feitas) nesta cidade. Podem ver mais algumas neste site.

 

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A estátua de Hans Christian Andersen é outra das tais. De frente pode parecer uma estátua normal, mas nas suas costas estão algumas personagens dos muitos contos infantis que escreveu. Daquilo que percebo, Hans nunca viveu nesta cidade, mas referiu-se uma vez a ela como sendo um autêntico conto de fadas.

 

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A praça principal, que tem uma fonte no centro, e em onde o protagonismo vai para o Old Town Hall, que atualmente alberga o Museu Municipal, o museu mais antigo da Eslováquia, fundado em 1868.

 

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À volta da praça há inúmeros cafés e esplanadas muito agradáveis. Na altura em que fui, havia também uma pequena feirinha de souvenirs e algum artesanato.

 

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A cidade é calma e o espírito é bom, sem grandes correrias, pressas ou multidões de turistas.

 

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Para além de caixas de música de Mozart e de imensas coisas de Klimt (o pintor vienense - não me perguntem porque há coisas dele aqui), os souvenirs mais riquinhos de Bratislava eram estas flores em vidro. Havia de diferentes tamanhos e cores e, quando colocadas naqueles vasinhos de madeira, eram um autêntico mimo.

 

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A apreciar o edifícios, também eles bonitos como em Praga, mais mais pobres. Tudo na Eslováquia é mais pobre do que na República Checa e essa diferença berrante também deve ter contribuído para a divisão dos (agora) dois países. Apesar de tudo, ainda que com um centro histórico pequeno, achei uma cidade simpática. O que lhe falta em ex-libris tem em calmia o que, por estes dias, parece ser raro em quase todas as capitais. É como digo: se estiverem por lá, vale a pena passar uma tarde e fazer o "check". 

 

 

Importa saber: na Eslováquia o Euro está implementado, por isso não há trocas ou contas de cabeça para fazer. Yey!

O que faltou ver? De berrante, o Castelo de Bratislava e o Castelo de Devin, construído sobre um rochedo, à moda do Game of Thrones. A Igreja de Santa Elisabeth, também conhecida por Igreja Azul, também parece ser um local que merece a visita.

15
Set18

Dois dias em Praga, a cidade harmoniosa

Carolina

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 À entrada do Castelo de Praga, com a bandeira nacional

 

Praga foi a primeira cidade que visitei neste meu percurso. Devo confessar que era aquela da qual guardava maiores expectativas, muito por culpa da (pouca) preparação que fiz antes da viagem, das imagens que fui vendo e do muito que me foram falando dela ao longo dos últimos anos.

A minha primeira perceção da cidade foi um tanto ao quanto vazia; fui dar um passeio de noite, no dia da minha chegada, e não se via praticamente ninguém na rua. Pensei, mais uma vez, na situação não-tão-hipotética de estar lá sozinha e a verdade é que não me sentiria muito segura. Não por me sentir ameaçada, mas pela sensação de que se gritasse ninguém me ouviria - não obstante, toda a gente diz que a cidade é muito segura e que não costumam haver problemas para além dos típicos carteiristas. Nessa mesma noite também comecei a definir a minha opinião sobre o checos, quando os vi no único bar movimentado da zona a pôr as beatas dos cigarros nos cinzeiros que carregaram consigo até ao exterior (pousando-os nos beirais das janelas e noutros sítios práticos, de forma a não as atirar para o chão). Mais uns pontinhos na minha consideração! Ao fim dos dois dias acabei também por os achar acessíveis, numa clara tentativa de abertura ao mundo (depois das consequências de trinta anos de comunismo no país) - começando pela língua. O checo é absolutamente incompreensível e apesar de a maioria deles ainda não ser perito no inglês - mesmo as camadas mais jovens - nota-se um esforço grande para comunicar com os turistas.

Já de dia, percebi que o adjetivo que melhor descreve a capital da República Checa é “harmoniosa”. Isto porque Praga é uma cidade linda como um todo, é coerente - não só por fora, mas também por dentro, com bares, hotéis e espaços públicos muito bem decorados, com um ar "cozy" e confortável. Mas se olharmos ao detalhe não vemos nada que nos faça cair o queixo de espanto, como acontece por exemplo em Itália. Tudo ali é bonito, limpo e bem tratado (os edifícios são todos reconstruídos - e o que não está, está a sofrer obras de requalificação), ornamentado com as imensas igrejas que por lá há, que pintalgam a paisagem com uns elementos mais ricos e as suas imensas estátuas. Todos os edifícios do centro da cidade (não só o centro histórico, mas também os bairros centrais – na periferia já não é tanto assim) têm um estilo imperial: todos da mesma altura, com majestosas janelas e tons pastel, que fizeram as minhas delícias em cada rua que passei. 

Se tivesse de fazer uma comparação - e já desvendando um bocadinho do post sobre Budapeste -  diria que Praga é comparável ao Porto e a capital da Hungria seria, nesta minha analogia, Lisboa. Isto porque Praga é ligeiramente mais escura, as ruas são mais estreitas, a luz não se reflete em tudo o que se vê. Vi partes que me lembraram Tallin (a saída do Castelo em direção à Cidade Velha), com o seu ar medieval, e outras São Petersburgo, em algumas das avenidas mais amplas. A verdade é que o tempo que apanhei não abonou à boa luz da cidade, mas foi óptimo para passear: estava muito nublado, quase sempre a ameaçar chover, mas tal acabou por nunca acontecer. Isto fez com que o passeio fosse fresco e que não tivéssemos de estar constantemente a parar em sombras e a beber litros de água para conseguirmos continuar a caminhada.

 

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Se por um lado o tempo ajudou ao passeio, houve um "pormaior" que dificultou a nossa vida em Praga: a mala da minha mãe não chegou connosco, por isso passamos parte do tempo que estaríamos a conhecer a cidade atrás de algumas roupas que ela pusesse usar caso a mala não chegasse durante mais um dia - felizmente chegou (seria muito mau se não chegasse, porque dali a dois dias já seguiríamos caminho para outra cidade) e o resto da viagem decorreu de forma normal.

O circuito que compramos previa dois dias na República Checa, mas só um dia em Praga - o segundo seria passado em Karlovy Vary, a cidade balnear mais famosa do país, que fica a cerca de duas horas e meia de autocarro. Ainda antes de partimos, eu e os meus pais tínhamos decidido não ir com o grupo a este sítio: se dois dias em Praga já é pouco, um dia muito menos. Pesquisei, vi fotos e de facto a cidade balnear é muito gira - mas, para nós, não compensava passar cinco horas dentro do autocarro quando estava numa outra cidade linda que ainda me faltava conhecer. Assim, fizemos uma tour conjunta na manhã do primeiro dia e tivemos essa tarde livre, assim como todo o segundo dia. 

A visita começou no Castelo de Praga, a morada do presidente checo. Devo já adiantar que esta foi provavelmente a tour que, para mim, foi pior gerida: passamos muito tempo em sítios que não mereciam tanto destaque e não fomos a outros locais que devíamos ter ido. A Catedral de São Vito é um exemplo: apesar de ser o símbolo maior do Castelo acabamos por não visitar, por supostamente estar uma missa a decorrer (embora eu tenha visto um grupo a entrar na igreja). Por fora é bonita, mas tenho a certeza que valia a pena a ida ao seu interior - para além das suas inúmeras capelas, túmulos e vitrais amplamente conhecidos, é lá que estão as jóias da Coroa, dentro da Capela de São Venceslau - algo que está literalmente fechado a sete chaves, cada uma delas distribuída por várias pessoas importantes para a cidade ou para o país (como o Presidente da Republica, o Primeiro-Ministro, o Arcebispo e etc.). Se quiserem saber mais sobre esta catedral, este site tem imensas informações sobre todos os seus recantos.

 

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Um dos pátios do Castelo

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Catedral de São Vito

 

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Uma das entradas da Catedral

 

A Rua do Ouro é outra falha grave: não passamos por lá - se não me engano, é uma das partes pagas da visita ao Castelo - mas é geral a opinião de que este é um dos sítios a visitar: inicialmente era a rua onde viviam os guardiões do Castelo, mais tarde ourives (daí o seu nome) e depois passou a ser povoada por mendigos e delinquentes. Coincidência ou não, foi lá - no número 22 - que viveu Frankz Kafka durante parte da sua vida.

 

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 Basílica e Convento de São Jorge - atualmente alberga a coleção de arte boémia do século XIX da Galeria Nacional de Praga

 

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Numa das entradas do Castelo 

 

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No miradouro junto à entrada do Castelo 

 

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Já ia preparada para apanhar avalanches de gente em tudo o que era ruas da cidade, apesar daquele primeiro impacto inicial depois do passeio noturno. No entanto, acho que me mentalizei de tal forma para isto que, quando lá cheguei, não foi assim tão mau; talvez o tempo mais escuro tenha afugentado algumas pessoas das ruas, mas a verdade é que já testemunhei muito pior (neste momento lembro-me de Dubrovnik, que por vezes se tornava intransitável). Frisar, no entanto, as paletes de turistas asiáticos que se veem em todas as cidades por onde passei. É i-na-cre-di-tá-vel. É um bocadinho chato dizer isto, mas estamos a ser invadidos. E a presença deles faz-se sentir em grande parte porque andam sempre todos juntinhos - desconfio que andam religiosamente atrás dos guias, até porque não sabem falar outra língua para além da deles - e torna-se difícil ultrapassa-los quando os encontramos em ruas mais apertadas ou espaços já por si caóticos.

A encabeçar o Top 3 dos sítios mais movimentados de Praga está, sem dúvida alguma, a Ponte Carlos - uma das várias que faz a travessia do rio Vltava (ou, em português, Moldava) . É a mais bonita da cidade e a "residência" de muitos artistas de rua - desde músicos até pintores - o que atrai muitos, muitos turistas. É a ponte que liga a área do Castelo até à cidade velha, por isso é usada de facto para fazer uma rota muito comum, o que ainda piora as coisas no que à afluência de pessoas diz respeito.

 

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Na Ponte Carlos

 

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Um retratista na Ponte Carlos

 

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A Ponte Carlos lá atrás

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O movimento na ponte Carlos

 

Outro dos ex-libris da cidade é o Relógio Astronómico, situado na Praça Velha. Infelizmente, quando lá fui, o relógio (e o edifício?) estava fechado para obras; segundo apurei é suposto tudo estar pronto em Outubro, mês em que se vai festejar o centenário da fundação da Checoslováquia, mas até àquele momento pouco se deslindava por detrás dos panos que o protegiam.

Toda a praça é animada, com estátuas vivas, música e lojinhas de souvenirs e de comida. O que mais se vê é o trdelnik, um doce tradicional um tanto ao quanto difícil de descrever: são uns rolinhos de massa "assados" em forma de cilindro, que se servem simples (com açúcar e canela) ou recheados com gelado. Era algo que, se fosse em Portugal, seria claramente frito: lá, assam-nos quase como nós assamos o porco no espeto, rodando a massa constantemente até ficar cozida e tostada por fora. O veredicto? É um doce engraçado, um bocadinho enjoativo e nada do outro mundo. Experimentem-no, mas guardem o resto das calorias para a verdadeira pastelaria: a portuguesa. Outra coisa que me ficou debaixo de olho foram as batatas fritas, com casca!, servidas num palito gigante. Tinham um ar delicioso, mas nunca chegou a altura certa para as comer.

 

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Ao lado do relógio astronómico (à direita vêem-se os panos azuis que o cobrem devido às obras)

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Uma das igrejas vista da Praça Velha 

 

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Na Praça Velha

 

Se há coisa que eu gosto de fazer numa cidade estrangeira é "perder-me" no seu centro, conhecer as ruas afluentes dos sítios principais e andar um bocadinho sem destino. No fundo, tentar perceber como funciona a cidade fora dos seus locais mais consagrados, ver as pessoas que lá vivem e trabalham. Ao fazer isto, no dia que tivemos livre, apercebi-me que o centro de Praga é relativamente pequeno - embora no mapa as distâncias parecessem muito maiores. Andava por duas ou três ruas diferentes e ia dar a um sítio onde já tinha estado. E para fugir deste ciclo vicioso decidimos sair um bocadinho do centro da cidade e visitar um dos locais que dizem ter a melhor vista de Praga: o Monte Pétrin. Fomos a pé, num caminho feito em grande parte pelas margens do rio, e enquanto apreciávamos os patos bravos que lá nadavam o meu pai reparou num animal dissonante. Não tinha penas, não eram patos. Depois de vermos bem - e de nos perguntarmos inúmeras vezes "será que isto são ratos gigantes?" - percebemos que eram castores. Castores! Nunca na vida tinha visto uns, parecia uma criança no dia de Natal. (Mais tarde fui pesquisar porque estes castores não tinham uma "pala" no lugar da cauda, parecia simplesmente uma cauda nojenta de rato, mas pelos vistos há algumas espécies assim. Lá se foi a ideia "fofinha" que tinha dos castores...).

Não sei se foi uma coisa esporádica ou da época, mas - e já que estamos a falar de animais - nunca vi uma cidade com tantas abelhas. Como andei sempre de casaco amarelo, cor que elas parecem apreciar, fui várias vezes perseguida por estes insetos que estavam literalmente por todo o lado - e em particular nos caixotes do lixo, dos quais eu fugia a sete pés. Diria que foi um milagre ter saído de lá sem uma única picadela.

 

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Segundo li, os castores estiveram "desaparecidos" do Rio Moldava durante mais de 150 anos. Parece que agora estão de volta!

 

A Torre Pétrin (uma "miniatura" da Torre Eiffel, com 51 metros de altura) é o monumento mais conhecido deste alto da cidade, que fica 138 metros acima do nível do rio. Para além disso é conhecido pelos seus enormes jardins, uma igreja (que não vi), um observatório espacial e um labirinto de espelhos. Fiquei um bocadinho chateada porque a vista sobre a qual tinha lido referia-se ao topo da Torre - o que implicava subir mais de 200 degraus, algo para o qual não estava preparada nem tinha particular vontade - e não propriamente ao local em si, cuja vista para a cidade está maioritariamente impedida por árvores e outros tipos de vegetação. Acabei por ir ao labirinto de espelhos, que é giro, mas que não é um labirinto - é apenas um caminho curto com espelhos, que dá para tirar algumas fotos giras, mas pouco mais para além disso. Para quem tiver tempo e coroas checas em excesso na carteira (a entrada custa 180), aconselho; caso contrário, munam-se de água, toalhitas para o suor e uma camisola de manga curta e subam até à Torre. 

 

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Torre Pétrin - a foto parece a preto e branco, mas não é: o dia estava mesmo assim

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No labirinto dos espelhos, no Monte Pétrin

 

Como nesse dia estávamos sozinhos e sabendo que íamos andar de um lado para o outro - e tendo em conta que o nosso hotel era relativamente longe do centro (informações sobre o sítio onde fiquei no fundo do post) e tinha elétrico praticamente à porta - optamos por comprar o bilhete de 24 horas que é transversal para todos os transportes públicos (podem comprar nas estações de metro - muitas só aceitam moedas - e nas tabacarias), que nos custou 110 coroas checas (pouco mais de quatro euros). A frequência dos elétricos é bastante boa e o seu funcionamento é intuitivo, desde que tenham um mapa convosco e saibam os sítios para onde querem ir. Foi assim que subimos até ao Monte Pétrin (através do funicular) e que voltamos para o centro da cidade, de elétrico.

Por entre os passeios ainda houve tempo para ver umas montras giras e de passear no bairro judaico, onde há cinco sinagogas (onde é permitida a entrada). O sítio mais conhecido deste bairro é, no entanto, o cemitério, onde se estimam que estejam enterradas mais de 100 mil pessoas (e onde estão 12 mil lápides). O bilhete que dá acesso a todos estes locais custa 300 coroas checas (o equivalente a 12 euros), mas optamos por não visitar, em grande parte porque já se aproximava a hora do fecho e íamos ter de andar a correr de um lado para o outro.

 

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Numa montra de brinquedos 

 

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Numa "ilha" vertical no meio da cidade, com roupa a secar

 

Referir, por fim, que Praga transpira cultura: muito mais do que os artistas de rua, Praga tem imensos teatros, espalhados por tudo quanto é sítio. A nossa tour incluía uma peça de teatro negro (chamada WOW), que acabou por me surpreender muito pela positiva. Pelo sítio onde foi e pelo número de pessoas envolvidas no espetáculo, calculo que seja algo com um low-budget, mas os efeitos visuais eram muito giros e, diria até, surpreendentes. O pior da peça foi mesmo a história, praticamente impercetível: uma mistura entre sonhos, a natureza e os seus elementos... qualquer coisa estranha. Mas foi uma hora engraçada, que valeu algumas gargalhadas.

 

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Um dos teatros no centro de Praga

 

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A Torre da Pólvora, uma das mais conhecidas da cidade

 

Podendo, é sem dúvida uma cidade a visitar. Diria que três dias inteiros dão para muitos passeios calmos, muitas fotos e, claro, (para quem gosta) muitas paragens nos bares para beber a típica cerveja! 

 

Onde fiquei? Por ter feito uma excursão, os hotéis onde fiquei não foram escolhidos por mim. Mas em Praga tive sorte: fiquei no Penta Hotel, um hotel giríssimo, em que a receção era um bar e onde todo o espaço de lobby era recheado de mesas (tinha restaurante - bastante bom para o nível de um hotel), sofás, um bilhar, playstation e todas essas coisas giras. Era também lá que eram servidos os pequenos-almoços (bons e completos). O quarto era giríssimo, super bem decorado e confortável; as amenities eram super originais e cheirosas. Tinha wi-fi grátis (sinal fraquinho) e um Lidl a um minuto a pé, o que dá jeito para comprar frutas, bolachas e líquidos para andarmos abastecidos durante o dia inteiro. Lado menos positivo: ficava um bocadinho longe do centro.

Importa saber: Apesar de fazerem parte da União Europeia, não adotaram o Euro - o que para nós, gente já pouco habituada a ter de trocar moeda e fazer contas, é um bocadinho chato. Um euro representa cerca de 25 coroas checas. A língua checa é impossível de perceber, por isso ou se recorre ao inglês ou à linguagem gestual. Boa sorte em ambos os casos! ;)

O que faltou ver? A Rua do Ouro, a vista da Torre Petrín e do Parque Létna, a Lenon Wall, o cemitério judeu e o Relógio Astronómico a funcionar. Ah!, e fazer um retrato na Ponte Carlos.

11
Set18

Fazer uma excursão: como é, vantagens e desvantagens

Carolina

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 A vista do meu lugar no autocarro

 

Apesar de o blog ter andado pacatamente normal na última semana, quem me acompanha no instagram (@carolinagongui) deve ter-se apercebido que os últimos dias tiveram pouco de calmo. Na verdade, foi um corropio. Durante uma semana passei por Praga, Bratislava, Budapeste e Viena – um percurso que fizemos de autocarro com um grupo e um roteiro muito bem definido, cansativo quanto baste.

Depois de nos dois últimos anos termos feito cruzeiros, e já tendo esgotado as nossas rotas preferidas (nomeadamente na Europa), decidimos que este ano íamos fazer algo diferente. Há muito tempo que as capitais da Europa central pairavam nas nossas cabeças e algures no início do ano fomos a uma agência de viagens e acabamos por nos decidir por esta alternativa - o circuito "As 4 Capitais da Europa Central", feita pela Nortravel. Os meus pais já tinham feito uma coisa deste género nos Estados Unidos, para mim foi uma estreia. E, como em tudo na vida, tem vantagens e desvantagens - que vou passar a enumerar abaixo, assim como alguns detalhes que acho importantes.

 

AS PESSOAS

A forma mais fácil que eu tenho de descrever isto é dizer que fazer uma excursão em grupo é quase como um regresso à escola, mas numa permanente visita de estudo. Ao todo éramos 23 (eu era a única desemparelhada – a culpada por sermos um número ímpar - e, claro, a mais nova do grupo) e, como seria de esperar, vínhamos todos de contextos e sítios diferentes, com uma formação e educação muito distintas. Era um grupo bastante heterogéneo, em todos os sentidos. Havia o palhaço, havia o tímido, havia a-Maria-vai-com-todos, havia a estridente, havia a “mãezinha”... havia de tudo, tal e qual uma turma de liceu! E, como é lógico, surgem rapidamente empatias com uns e distância de outros, tal como acontece numa turma – e grupos, claro. Ao fim de dois dias os elementos das mesas já estão praticamente definidos, assim como quem se sente atrás e à frente do autocarro (eu não disse que isto era como na escola?!).

Confesso que para mim foi estranha a falta de abertura que houve logo de início. O grupo era maioritariamente de pessoas mais velhas (com média entre os 50 e 60 anos, provavelmente) e talvez isto seja algo geracional, mas a verdade é que saí da excursão sem saber o nome de muita gente. Acho que na minha geração temos logo a tendência de nos apresentarmos, dizermos de onde somos, o que fazemos, que idade temos; talvez aqui, por ser de alguma forma evidente que os contextos socio-económicos eram distintos e serem pessoas com outros hábitos, tal não aconteceu. Parecia que estava tudo no segredo dos deuses, o que não ajudou a uma interação completa entre todos os membros – os viajantes que faziam parte do mesmo “grupinho” iam sabendo mais entre si, todos os outros tendiam a ficar na ignorância. Apesar disto, a convivência entre todos era simpática, ainda que de alguma circunstância. Acredito que um mau grupo – ou simplesmente um grupo onde alguém não se integre – possa fazer a diferença numa viagem deste tipo.

 

AS GUIAS

Não há uma turma sem professora. Neste caso tínhamos uma guia, que nos acompanhou do princípio ao fim da viagem, e que era quem tinha de pôr toda a gente na linha – um papel que não invejo. Não é fácil para uma rapariga, na ordem dos seus 30 anos, pôr ordem num conjunto de pessoas que têm idade para ser pais dela – e alguns homens que, sendo homens, não apreciam que sejam uma mulher a impor as regras. Mas a verdade é que não há alternativa e há que ser muito rigoroso: se há alguma coisa essencial nestas viagens é, por exemplo, a pontualidade. Houve uma situação em que dois elementos se atrasaram e tudo ficou um bocadinho em alvoroço. A gestão de pessoas é, em todas as áreas, o maior desafio de todos – e aqui não é exceção.

Para além desta guia principal, com quem tratávamos de todas as questões práticas (era ela que definia o horário e o plano do dia) havia, em cada uma das cidades, uma guia local que nos levava e descrevia os locais com mais pormenor. Curiosamente foram todas mulheres e todas falavam português – algo indispensável, pois vários membros do grupo não sabiam falar inglês.

 

AS REGRAS

Eu ficava fula sempre que as pessoas se punham a reclamar dos horários, dos tempos para isto e para aquilo. Quem se mete neste tipo de viagens tem de perceber que isto não funciona sem regras rígidas, que têm mesmo de ser cumpridas. Se são do tipo de pessoas que gosta de acordar ao 12h, passear relaxadamente pelas avenidas e ainda fazer um retrato pelo caminho numa das ruas pedonais mais famosas da cidade... esta modalidade de viajar não é a indicada para vós. Também não é o ideal para quem gosta de passar dez minutos atrás da fotografia perfeita. Nem para quem é demasiado independente.

Primeiro havia hora para acordar. E não, não era definida pelas pessoas: era a guia que definia a wake-up call à hora pretendida, por isso ou acordam... ou acordam. Nos dias de viagem entre cidades havia também uma hora para colocar as malas à porta do quarto (cerca de uma hora antes da saída do hotel) para que não tivéssemos de as carregar e estas pudessem ser contadas e colocadas dentro do autocarro. E, claro, havia horas de saída e de pontos de encontro. Todos os tempos livres eram contados ao minuto e a tolerância para atrasos era baixa – até porque em alguns sítios os autocarros só podiam parar por escassos momentos, por isso era problemático se a contagem das pessoas não desse o número certo à hora marcada.

No fundo, a única coisa que é preciso fazer (para além de não ser preguiçoso) é pôr as regras de civismo e boa educação em prática, ter em mente que deixamos de ser um só para ser “apenas” um dos membros de um grupo maior, que deve sempre prevalecer nas nossas decisões durante o tempo de viagem.

 

AS VANTAGENS

A maior vantagem é, sem dúvida, ter a “papinha” toda feita. Nem o check-in fazíamos! Chegávamos ao hotel, esperávamos cinco minutos e logo depois tínhamos a chave na nossa mão, já com tudo pronto para nos receber. Esta excursão em particular tinha tudo incluído, por isso até as refeições estavam todas combinadas ao pormenor.

Esta é também  uma forma fácil de conhecer vários sítios num curto período de tempo, com a garantia de que nos mostram os sítios mais emblemáticos e que nos dão a conhecer algum do contexto e da história da cidade, assim como do país. Se não quisermos não precisamos de fazer nenhum tipo de pesquisa à priori – podemos ir completamente às cegas, pois sabemos que vamos ser sempre elucidados pelo caminho. As guias estão sempre disponíveis para dar dicas sobre onde ir, como ir, o que ver e quando ver – ou porque vivem lá ou porque já têm conhecimento de causa para falar, o que evita muitos imprevistos e percalços que acontecem a todos os viajantes que andam por si próprios e partem à descoberta.

É também uma forma óptima de se viajar sozinho, pois apesar de estarmos sem a companhia de alguém conhecido, rapidamente nos entranhamos no grupo e simpatizamos com alguém que se assemelhe a nós. No fundo, é viajar sozinho, mas acompanhado.

 

AS DESVANTAGENS

Para mim, a maior desvantagem é a falta de liberdade e a sensação de que o meu tempo não está a ser gerido da melhor forma – sim, tenho uma veia independentista um bocadinho acentuada. Os minutos estão sempre contados neste tipo de situações e há momentos em que parece que estamos a correr contra o tempo. Lembro-me de estar na Ponte de Carlos, em Praga, e da guia estar a acelerar por ali fora, quando todos queríamos parar e tirar fotos; acaba por ser algo stressante, porque acabamos mesmo por tirar as fotos, mas estamos sempre de olho na bandeirinha de Portugal que ela carrega para tentarmos não a perder de vista e tentar apanhar o grupo com uma corridinha logo depois de todos os clicks estarem feitos. O nosso tempo deixa de ser nosso, para estar a ser governado por outras pessoas – mas é mesmo assim, faz parte das regras quando se entra numa coisa deste género.

Os tempos livres sabem a pouco e há que fazer cedências, que não são poucas: não convém afastarmo-nos muito do ponto de encontro e, de tudo o que gostaríamos de fazer, sabemos que só algumas é que podem ser concretizadas. Nunca há tempo para tudo e, creio eu, nunca aproveitamos as coisas a 100%: estamos sempre a pensar no que vamos fazer a seguir, no caminho que vamos seguir, a forma mais rápida de lá chegar... e quando lá chegamos, mais uma vez, já pensamos em partir para outra coisa qualquer.

A falta de liberdade pode também revelar-se numa coisa tão simples como não poder escolher aquilo que se come às refeições. Eu vim um quilo mais leve, e não foi por ter adorado a comida ;)

E, claro, não esquecer o cansaço que uma viagem destas acarreta. Apesar da maioria das pessoas que faz este tipo de coisas ter idades mais avançadas, a verdade é que isto cansa! Andar sempre com as malas num faz-desfaz constante (mesmo que não as desfaçam na totalidade, como aconteceu comigo), acordar cedo, fazer várias horas de viagem num autocarro, andar a passo de procissão atrás da guia, às vezes debaixo de um sol abrasador... não é fácil. Não se compara a uma praia no Algarve ou em Punta Cana. É para chegar mais cansado do que se foi – com a alma cheia, é um facto, mas com o corpo a pedir umas horinhas extra de sono ;)

 

Nos próximos posts faço uma descrição alargada, estilo diário de bordo, sobre cada uma das paragens desta minha viagem.

29
Ago18

Vamos falar sobre o "perigo" do Gerês?

Carolina

Estava ontem no meio de uma insónia, a fazer scroll no facebook, quando me deparei com mais uma notícia que contava o desaparecimento de duas pessoas no Gerês. A pergunta que se impõe é: até quando é que isto vai durar? Até quando é que vão continuar a “diabolizar” uma das zonas mais bonitas do país? Porque a continuar assim, tenho medo que tomem medidas radicais e mais ninguém possa voltar a ver as cascatas.

A verdade é que há três principais razões pelas quais as pessoas morrem, se magoam e/ou se perdem nas zonas das cascatas do Gerês: a primeira é estupidez, a segunda é falta de sorte e a terceira é falta de indicações e condições. As primeiras duas são altamente faladas nas notícias e nas redes sociais, a última parece ser ignorada, quando não devia.

Estou longe de conhecer a região como a palma da minha mão, mas há três anos consecutivos que vou às cascatas - nos últimos dois anos acampei, este ano fiz só uma visita de médico. Já fui a todos os ex-libris - a Portela do Homem, o Arado, o Thaithi, as 7 Lagoas - e desta vez fui a dois sítios menos conhecidos - a Cascata de Pincães e a Cela de Cavalos. E antes de mais nada, é preciso fazer aqui um disclaimer: eu considero-me uma pessoa muito responsável e ajuizada, que corre poucos riscos e que mede sempre as consequências. E, apesar de tudo isso, fui.

Comecemos por analisar os problemas, um a um:

- A estupidez humana. Começa por fazer aqueles trilhos, subidas e descidas de rochas com havaianas. Se cair com havaianas, em solo normal, já é fácil, num sítio daqueles ainda mais. Depois há uma percentagem enorme de pessoas que é incapaz de medir os riscos: já disse aqui que saí várias vezes das cascatas por me sentir agoniada ao ver dezenas de pessoas a saltar, muitas vezes sem sequer testar o sítio onde vão cair, e com rochas no caminho (que, quando um salto não é bem dado e a distância mínima não é assegurada, pode acabar em morte). Depois existem ainda as crianças, que para além de também saltarem (sem reprimendas dos pais) não tomam muitas vezes as precauções devidas, nem durante o caminho, nem enquanto lá estão.

Para mim, as cascatas do Gerês são como o Monte Palace nos Açores: não se deve ir nem com amigos parvos nem com crianças, uma vez que a segurança de ninguém está assegurada e não há margem para grandes brincadeiras. Parte do problema reside também no facto das pessoas acharem que aquilo se trata de uma praia e acamparem nestes locais o dia inteiro - vi várias grupos a fazer aqueles caminhos com lancheiras, garrafões de água e até carrinhos de bebé (quem é que vai com um bebé de colo para estes sítios?!), o que depois dificulta a circulação na própria lagoa, o que faz com que as outras pessoas circulem por caminhos mais perigosos e os acidentes aconteçam.

 

- Má sorte. Está em todo o lado. Ir num dia mau para o Gerês não é uma boa escolha. Basta uma pedra mal assente ou musgo escondido numa rocha para um dia divertido dar para o torto. A única hipótese é ter cuidados redobrados.

 

- Falta de indicações ou condições. Este fator tem quase tanta culpa como o da estupidez humana. Eu acho que a autarquia, de forma a evitar que as pessoas vão para aqueles sítios que só lhes dão problemas, coloca pouca ou nenhuma informação acerca do caminho para as cascatas. O sítio delas está indicado em placas de trânsito mas, quando uma pessoa lá chega, nada. A forma típica de encontrar caminhos é ir perguntando às pessoas que estão a voltar. Lembro-me que nas cascatas do Thaithi a senhora onde estacionei o carro me disse qualquer coisa como "siga sempre pelas oliveiras e depois vire à direita". E, atenção, eu sei distinguir oliveiras, mas no meio de outras 300 espécies e quando se está concentrado em não cair, a tarefa não é assim tão fácil. Desta última vez, em Pincães, disseram-me para seguir sempre o curso de água e já estaria logo lá: o "logo" era meia hora depois, o curso de água acabava num sítio e depois uma pessoa tinha de aventurar. Nesse mesmo dia, para ir à Cela de Cavalos, andei uns 3kms a mais do que devia; no fundo, perdi-me. Tive a sorte de, num certo ponto, ter apanhado rede e visto no GPS que me estava a afastar do sítio onde a lagoa estava sinalizada. E sabem que mais? Eu tinha estado a 300 metros da dita cascata, mas em vez de virar à direita na ponte, virei à esquerda. Uma simples seta faria a diferença! Uma porcaria de madeira lá pendurada. Isto faz sentido?

Mesmo no que diz respeito aos caminhos e aos trilhos, para além das indicações, tudo devia estar melhor definido e em melhores condições. Lembro-me de, nos Açores, existirem grandes desníveis onde eles "inventaram" umas escadas, feitas com troncos de madeira, que não tornava o ambiente menos natural mas que era muito mais seguro para quem viajasse. E os caminhos eram visíveis, não tinham mato a confundir, não tínhamos de nos seguir por indicações fatelas tipo "vira à direita depois das oliveiras". É claro que isso vai dar asneira, sempre, até decidirem que têm de fazer alguma coisa.

As pessoas não vão deixar de visitar estes sítios porque são potencialmente perigosos (ou não sabem que as coisas más só acontecem aos outros?!). Mais: sem as cascatas e as lagoas, o Gerês não teria metade do movimento que tem hoje em dia, incluindo turismo internacional. Está mais que na altura de quem manda naquela zona pôr mãos à obra, valorizar estes locais, dar-lhes mais condições de segurança e parar de se esconder por detrás da peneira, de pesares de morte e de apelos que caem em saco roto. Assim como está na altura das pessoas terem mais noção das suas limitações e dos perigos por detrás destas belezas naturais. 

Como sei que a primeira opção é mais fácil que a segunda - a estupidez natural das pessoas é praticamente incurável -, estou a torcer para que alguém faça força para se intervir no local.

 

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Cascata do Thaiti (2017) - para mim uma das que tem os acessos mais perigosos e menos evidentes e, por outro lado, das que tem mais gente

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Cascata do Thaithi (2017)

 

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7 lagoas (2017) - um dos caminhos mais bonitos

 

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Cascata de Pincães - a tal onde se segue o curso de água e depois se sobe uma série de rochas até se chegar a esta vista

 

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Cascata de Pincães

 

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Cascata de Cela Cavalos - o acesso é feito pela capela de Cela (o caminho até lá é em terra e há pouco espaço para carros) e o caminho é óptimo. Virar à direita depois da ponte em madeira (foto em baixo). Caminho de cerca de 1,5 kms. Como nos perdemos, chegamos tarde à cascata e estávamos sozinhos.

 

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A tal ponte, em Cela de Cavalos, onde devem virar à direita (se vierem da capela).

02
Ago18

Tudo sobre a minha incrível viagem aos Açores (parte 2)

Carolina

Eu acho que há razões para tudo. Hoje, perguntando-me porque é que demorei tanto tempo a lançar este post - quando ele estava quase todo escrito há mais de uma semana - acho que cheguei a uma conclusão: este é o meu último post sobre São Miguel e eu não me quero despedir da ilha. Depois de descrever a sensação de viajar sozinha, o drama da natação com os golfinhos, de partilhar um vídeo, de mandar fazer um álbum com as fotos e de ter partilhado parte desta experiência, resta-me fechar este capítulo. Perdoem-me: encostar este capítulo. A porta só fica encostada, não a fecho. Voltarei aos Açores, conhecerei as outras ilhas. Por agora, o fim da descrição da minha viagem:

 

Fui ainda a mais duas lagoas. O processo de seleção dos sítios onde fui passou, primeiro, por uma pesquisa à priori - onde vi desde blogs às recomendações do TripAdvisor - e depois por, já in loco, olhar para o mapa e pensar "se eu quero ir para ali, pelo caminho passo por aqui e acolá e talvez seja interessante parar". Para além disso, houve algumas vezes em que parei porque vi uma placa algures e me apeteceu sair do carro e respirar ou fotografar a vista. Ora, a Lagoa do Congro já ia planeada; a Lagoa de São Brás foi decidida quando cheguei a São Miguel e foi a minha primeira paragem de todas, mal peguei no carro - e dei logo de caras com centenas de hidrângeas (também conhecidas por hortênsias), vaquinhas e paisagens magníficas, por isso foi um bom início.

 

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Lagoa de S. Brás

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Lagoa do Congro

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Lagoa do Congro

 

A Lagoa de S. Brás não é um espanto, mas é de um sossego incrível - fica bem alta mas toda a sua envolvência é relativamente plana (dando para ver toda a sua pequena extensão) e o caminho dá acesso direto à água (sendo possível contornar a lagoa quase na totalidade, se não me engano), sendo o sítio perfeito para um pic-nic sossegado enquanto se vigia de longe os patinhos e se vê a água a baloiçar com o vento. Não tem o espanto de outras lagoas, mas ainda me parece pouco explorada, por isso tem o seu encanto.

A Lagoa do Congro também ainda é muito "pura" e o caminho até lá chegar também ajuda a que fiquemos encantados pela natureza. Só se ouvem os passarinhos. Do sítio até onde se pode ir de carro até à lagoa é, talvez, um quilómetro de caminho. Não há muito a temer: o trilho está bem definido e não tem praticamente perigo nenhum, apenas um ou dois troncos de árvores caídos e umas descidas (quase com "escadas") que se tornam fáceis com o apoio de uma das mãos. Se eu consegui ir, ainda para mais sozinha, acreditem que toda a gente consegue! Aquando da chegada à lagoa o ângulo de visão não é perfeito (a menos que sejamos exploradores e aventureiros); o sítio mais popular, que tem acesso direto à água, dá apenas para ver parte da lagoa (devido ao seu recorte) que, ao contrário da de S. Brás, fica envolta em árvores e rochas, dando um ar muito mais "fechado". Não há muitos sítios para se estar sentado e sossegado, é quase um "photo-stop", para apreciar e ir embora - até porque o espaço para se estar é pequeno e a afluência de pessoas acaba por ser alguma, portanto são raros os momentos de silêncio que temos aqui. Para mim, parte da beleza deste sítio deve-se também ao caminho que percorremos até lá.

 

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Vista das Sete Cidades do Monte Palace

 

Ainda voltei às Sete Cidades, noutro dia maravilhoso em que se conseguia ver a lagoa por completo. O guia da primeira tour, vendo-me interessada por fotografia e completamente apaixonada pela ilha, disse-me que eu tinha de ir ao Monte Palace porque era de lá que ia ter a melhor vista. Eu já tinha ouvido falar e feito as minhas pesquisas antes de ir, claro, mas entrar num sítio que diz "Perigo! Não entrar!" é coisa para me dar calafrios. Fi-lo pela conjugação de dois motivos: primeiro porque ele me garantiu que a vista era imperdível e segundo porque eu sei que em breve aquilo irá voltar ao ativo - as obras já estão a começar - e não haveriam muitas mais oportunidades para visitar o edifício. Então, contra tudo aquilo que seria meu costume, entrei. Filmei tudo com a GoPro - parte aparece no vídeo - e percebe-se perfeitamente que eu não estou minimamente confortável com tudo aquilo. Não sabia o que havia de esperar. Um edifício destes aqui no Porto, abandonado há não sei quantos anos, cheio de recantos e cantinhos, é meio caminho andado para albergar coisas que nem sempre são boas de ver. Mas acho que por se encontrar numa zona meio distante de tudo e por ser tão visitado por turistas, o edifício acabou por se tornar mais numa atração turística do que propriamente num sítio estilo albergue de sem-abrigo, consumo de estupefacientes e coisas do género. Não vi seringas nem esse tipo de objetos que espero encontrar num espaço destes - só umas garrafas de cerveja, que uns preguiçosos se "esqueceram" de levar para o lixo. Fora isso, não sobra nada do que era o hotel, com excepção de alguma alcatifa - nem um bocadinho da mármore das paredes, nem uma sanita... nada! O guia do dia anterior brincava dizendo que todas as casas de São Miguel tem alguma coisa do hotel, tal foi a dimensão da pilhagem. "Até os elevadores levaram!", contaram-me.

Isto quer dizer que todos deviam visitar o Monte Palace? Não. Levar crianças para lá é perigoso: não há proteções nenhumas, as escadas em caracol não têm corrimões ou apoios, o fosso do elevador está lá pronto para qualquer um fazer queda livre; um tombo em qualquer um daqueles lugares pode ser dramático. Neste aspeto, ir sozinha até foi bom: levei o meu tempo, avaliei o estado das coisas e todos os sítios onde fui e que pisei. Não me sentiria confortável em ir lá com "amigos-engraçadó-parvos", como vi alguns, que faziam barulhinhos "fantasmagóricos" e pregavam sustos uns aos outros. 

Mas vamos ao que interessa: a vista. Sim, é incrível. Eu não subi ao telhado, onde dizem que se vê melhor (não descobri o sítio), vi apenas de um dos quartos. É uma vista que eu gostava de ter desfrutado durante mais tempo mas eu não estava confortável naquele sítio nem com a sensação de estar a cometer uma infração. Vi, fotografei, dei meia volta e vim-me embora. Não sou, definitivamente, uma pessoa rebelde.

 

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A entrada do hotel

 

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 O estado de degradação do hotel

 

Depois de ter ultrapassado este stress (passar aquela placa e aquelas fitas agitou-me!) fiz a melhor coisa que podia ter feito: fui andar de paddle. Era algo que já queria fazer há cerca de dois anos e nunca tinha tido coragem - e que melhor altura para me aventurar do que esta? Mais uma vez, devo a dica ao meu primeiro guia, que me disse, ao pararmos na ponte que divide a Lagoa Verde, que se alugavam kayaks ali, depois de lhe ter dito que adorava esse tipo de desportos. Não sabia muito bem onde ficava a entrada da lagoa, segui o meu instinto e sentido de orientação e acabei por chegar lá - claro, sempre prevenida com o meu fato de banho e restantes coisas na mala do carro. Foi aí que vi que, para além dos kayaks, também haviam pranchas de paddle. "Nunca fiz isto na vida. Acha que me aguento?", foi a única coisa que perguntei à menina antes de me atirar ao lago. Ela disse que sim. E fui logo de pé! Fiquei tão orgulhosa. Atrapalhei-me toda com a pagaia no início, com as trocas de braços e coisa e tal, mas quando me habituei, foi uma experiência inesquecível. Fiquei por lá pouco menos de uma hora: primeiro com medo de apanhar um escaldão (esqueci-me do protetor) e de, no dia seguinte, não me mexer com dores nos braços. Foi pouco, mas bom - e quase de borla! Dez euros numa prancha de paddle, aqui no Continente, daria para para uns quinze minutos... e com sorte. Continuo a dizer que não há silêncio igual àquele que se sente quando se está no meio da água, num sítio sossegado e lindo como este. E nunca ter caído subiu-me o ego. Ter feito isto sozinha, sem me preocupar se o outros viam ou avaliavam, foi outra das razões que me fizeram adorar ter feito esta viagem a solo.

 

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A fazer paddle na lagoa

 

Por falar em água, voltemo-nos para as praias. Visitei duas, ambas de passagem - mas ficou o bichinho para fazer lá praia, quando um dia for com mais tempo. A primeira foi a praia dos Moinhos e a segunda foi a dos Mosteiros - adorei a areia preta e é incrível como a tonalidade muda de sítio para sítio. Ah, e os brilhantes que a areia pode ter... parecem cristais nos nossos pés! Quando na água, dá um efeito lindo. De realçar que as estruturas adjacentes são incríveis - na primeira a que fui, os quartos de banho (com duches) eram bonitos e cuidados, havia lava-pés e um bar muito completo; na outra existiam cinzeiros disponíveis para quem quisesse, também um bar, e sempre nadadores salvadores a postos para qualquer eventualidade. Fiquei tão fã deste pack completo ao nível de praias! É verdade que são pequeninas e o tempo é instável, mas como nunca há muita gente e o tempo tanto muda para sol como chuva, vale a pena o risco :)

 

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Praia dos Moinhos

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Praia dos Moinhos

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Praia dos Mosteiros

 

Ainda sobre o capítulo "água", tenho de falar da Ferraria - talvez o sítio que menos gostei, por ser aquele que vi com mais gente (de todos os que visitei na ilha). Naquela altura do campeonato eu já não estava habituada a locais com mais de dez pessoas, por isso fugi daquela pequena "baía" mal vi o cenário que me esperava. Não fui à água - era muita gente por centímetro quadrado -, que dizem ser espetacular, e nem sequer me sentei a ver as vista: o sítio que envolve a piscina natural pareceu-me muito desconfortável, com todas aquelas rochas vulcânicas que parecem legos quando as pisamos. Fui à hora certa, muito perto da maré vaza, mas percebi que este se tornou num dos sítios mais populares de São Miguel e preferi procurar outras belezas mais desconhecidas - se calhar "perdi" uma grande coisa, mas enfim. Outra das guias disse-me que havia um outro sítio onde havia um fenómeno semelhante, com águas do mar aquecidas, mas num sítio mais remoto e de difícil acesso - mas, estupidamente, não apontei o nome (se alguém souber, diga-me!).

 

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A Ferraria cheia de gente

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O outro lado da Ferraria

 

Para fechar o tema, tenho de mencionar o Parque Terra Nostra. Sei que aquela água não cai no goto de todos, mas eu não tive problema nenhum em lá entrar - não sei se se nota muito, mas água e banhos é comigo. Infelizmente, pouco tempo depois de ter entrado, começou a chover torrencialmente - e o problema não está em estar dentro de água a chover (até sabe bem, o contraste), mas sim nas coisas que tinha ali perto e que iriam ficar encharcadas. Vi-me obrigada a sair da piscina maior e, pouco depois, quando a chuva abrandou, ainda dei um saltinho aos jacuzis, ainda mais quentes que a piscina. O ideal é ir em dias não muito quentes, senão a probabilidade de cairmos para o lado é maior. Falo por mim, mas acho que se aplica à generalidade das pessoas, quando digo que aquilo é óptimo, mas não pode ser por muito tempo: as tensões têm tendência para baixar e é fácil cairmos para o lado depois de uma banhoca que era suposto ser só relaxante. Eu enfiei-me quase mesmo até ao pescoço, para poder afogar os meus trapézios e suas queridas contraturas, e soube-me pela vida. E o sono que nos dá depois disto? Se houvessem espreguiçadeiras ali ao lado, para umas sestas depois do banho, era ouro sobre azul ;)

Sobre o Parque Terra Nostra, é obrigatório falar dos jardins, que são lindíssimos e super bem cuidados. Existem lá muitas espécies de plantas que eu nunca tinha visto na vida e ter um guia (ou alguém que nos dê uma contextualização da história do parque e de algumas espécies de flora lá presentes) é, sem dúvida, muito mais enriquecedor. Este correspondeu a um dos pontos de paragem da minha segunda tour, que fiz com a Picos de Aventura. Achei a guia simpátiquíssima (chamava-se Liane, gostei tanto do nome!), mas a tour anterior foi bem mais dinâmica. O facto de estar numa carrinha (em comparação com a outra, que foi de jipe) talvez não tenha ajudado. De qualquer das formas, é das empresas mais bem apresentadas e de confiança em São Miguel para inúmeras atividades.

Em suma: acho que esta é uma das paragens obrigatórias na ilha, tanto pelos banhos como pelos jardins.

 

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Os jardins à entrada do Terra Nostra - adorei aquelas plantas no lago, que parecem umas autênticas "bóias"

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A grande piscina quente 

 

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De molho

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... e mais jardins

 

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... e mais molho (desta vez nos "jacuzzi's", ainda mais quentes que a piscina)

 

Nesse dia ainda parei nas Furnas (zona onde depois almocei o cozido) e nas plantações de chá Gorreana. Confesso que estava com medo das Furnas. Eu sou uma cheirinhas de primeira classe, todos os odores me incomodam (nem sequer consigo usar perfume) e imaginei que o cheiro a enxofre me agoniasse até aos ossos. A verdade é que sobrevivi sem problemas de maior. Só era dramático quando o vento levava aquele vapor cheiroso na nossa direção, mas de resto fez-se bem. Nunca fui louca por geologia (no 10º e 11º sempre fui mais fã de biologia), mas é incrível ver a terra a fazer a sua magia - e todo aquele ritual dos montinhos, com os tachos lá dentro, também é muito giro de se ver. 

Acho que a lagoa das Furnas é um bocadinho ofuscada por todo este fenómeno que se passa lá ao lado mas eu achei-a lindíssima e de uma paz tremenda. No dia em que fui o tempo estava mais fechado, mas mesmo assim a lagoa estava incrível. Também lá há gaivotas para alugar e se dar uma passeio pelas águas (não sei preços).

 

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Furnas

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Com o cozido que viria a comer ali atrás

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Lagoa das Furnas

  

Quanto às plantações de chá também acho essencial levar alguém que nos explique o processo, uma vez que se pode visitar livremente a fábrica e os campos (estes últimos dão fotos incríveis se tivermos a ajuda de alguém minimamente prendado e paciente) mas que não há visitas guiadas feitas pela própria fábrica. Se não levarmos ninguém ou se não formos com conhecimento prévio, nos campos só vemos arbustos aparentemente normais e na fábrica só máquinas cujo funcionamento não percebemos (até porque não há grandes informações em lado nenhum, apenas um vídeo explicativo numa das salas do edifício, que as pessoas podem assistir caso não estejam acompanhadas por alguém que conheça o processo). Confesso que estranhei este conceito de visita (no fundo, focam-se simplesmente em vender o produto, não ganhando dinheiro extra noutro tipo de serviços adjacentes) mas depois percebi que noutros países é bastante comum e que acontece também noutros pontos da ilha, como a Fábrica de Cerâmicas Vieira (onde também fui, no último dia, porque estava a chover). 

Infelizmente, no dia em que visitei a Gorreana, as máquinas não estava a funcionar portanto tive de usar a minha imaginação enquanto ouvia as explicações da guia. Vimos as senhoras a fazer a triagem das folhinhas (com um ar muito chateado e um tanto ao quanto ralado por estarem a ser observadas por tantas pessoas) e no fim devo ter trazido mais de quilo e meio de chá para a família inteira. Compensou a visita!

 

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Nas plantações de chá

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 Fábrica do Chá Gorreana

 

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 Na fábrica de cerâmicas Vieira

 

Só no último dia é que fui dar uma volta pela cidade, aproveitando que o tempo não estava com ar de muitos amigos. Confesso que, com tanta beleza natural, a cidade em si - e eu posso visitar tantas! - passou para segundo plano. Acho que é paragem obrigatória a igreja principal e as portas da cidade. Já contei isto no meu instagram (quem é que ainda não me segue?! @carolinagongui) mas, no dia em que cheguei, o senhor que me levou do aeroporto para o hotel contou-me uma "lenda" que diz que se passarmos por debaixo das portas da cidade uma vez, voltamos a São Miguel; se passarmos três, casamos com um açoriano. Pouco depois, perguntei-lhe de onde ele era, pois não lhe notava o sotaque característico. Disse-me que era do Alentejo mas que vivia ali há trinta anos; não sabia da tal história, passou debaixo das portas três vezes, e casou-se com uma açoriana que o fez mudar para a ilha ;)

Eu, por via das dúvidas e para não desafiar o destino, passei duas: por um lado para garantir que voltaria a São Miguel, por outro para ver se nenhum açoriano me roubava o coração.

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As portas da cidade

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A igreja matriz

 

Acho que Ponta Delgada ainda tem muito por crescer e isso nota-se nos pequenos pormenores - principalmente no que diz respeito ao turismo, não tanto para os açorianos. Queria trazer uns souvenirs para casa e só encontrei uma loja com coisas diferentes (uns peluches em forma de baleias, uns postais mais fora do comum e outras coisas giras) - de resto, tudo muito clássico e com um ar quase "velho". Por um lado é bom, sinto que não venderam a alma ao diabo e que não fazem de tudo para vender, mas por outro é curioso percebemos que há uma margem de crescimento grande. No centro há uns cafés e esplanadas agradáveis para se ficar e há sempre uma banquinha que vende gelados perto de nós, óptimo para nos saciar de alguma gulodice.

Ainda fui ao mercado (sofri com o cheiro no Rei dos Queijos, mas fui para que a minha família pudesse comer queijos da ilha - é amor!) e adorei a simpatia de todos. Ainda trouxe um ananás (nunca tinha comido ananás dos Açores, por muito estranho que pareça) e comprei uns pézinhos de maracujá amarelo, ananás e uma flor qualquer para a minha mãe plantar aqui no jardim - depois de uma conversa longa com o vendedor, que me explicou como plantar cada uma das espécies de forma detalhada. Ainda houve tempo de passar na peixaria e de ver as maiores lulas que alguma vez me passaram à frente. Incrível a variedade do mar dos Açores! Vale muito a pena passar lá.

 

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Há muita (e boa) arte urbana nos Açores. Vale a pena estar atento às paredes!

 

 

Sobre a comida

Falar nos Açores é falar no cozido das furnas... mas também não podemos esquecer-nos do peixe grelhado e das lapas! Nunca repeti um sítio enquanto lá estive e nunca comi mal. As duas tours que fiz tinham almoço incluído e eu, que já levo alguma experiência em excursões, achei mesmo que a comida não ia ser nada especial - mas enganei-me. Até nesses sítios comi sempre bem e sem aquele drama de não podermos pedir uma bebida diferente sem termos de pagar à parte e outras situações clássicas. Adorei!

Sobre o cozido: não sou a maior apreciadora deste prato, só costumo comer algumas carnes "selecionadas", mas gostei. Pena não ter as minhas partes favoritas: orelheira, patas e coisas assim do género. Achei que, mal arrefeceu, as carnes ficaram muito mais duras, o que não foi bom. Tentei comer o inhame mas não consegui passar a fase do "tentar", achei a textura estranha. Não senti o sabor a enxofre (dizem que sabe muito mais se a comida for reaquecida) e achei-o, de uma forma geral, mais "light" e menos gorduroso que o que como em casa.

Fui ao Alcides, que dizem ter o melhor bife de Ponta Delgada, e de facto fui bem servida (e é incrível ver a quantidade de gente que eles "manda embora" porque não têm mesas para albergar mais gente). Para quem não gosta de alho, as comidas na ilha podem não ter muita graça - é claramente um dos temperos favoritos dos açorianos!

De resto, comi peixe e lapas, sempre deliciosos! Como não sou esquisita e não conhecia a maioria dos peixes disponíveis, dizia simplesmente ao empregado para me trazer o peixe mais fresco ou que pessoalmente gostasse mais. Acabei por comer Boca Negra, Bicuda e Veja (este último foi o meu favorito), todos aprovados! Também comi um arroz de tamboril que, como dizem os meus sobrinhos, estava "bem gostoso". Foi tudo de bom! 

(Ah, e também experimentei a famosa Kima. Gostei!)

 

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O cozido das Furnas

 

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A Veja (esquerda) e a Bicuda (direita)

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O bife do Alcides

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 As lapas

 

Onde fiquei hospedada?

Como comprei o pack da Abreu não escolhi propriamente o hotel onde fiquei - o que, às vezes, até pode ser uma alívio dada a imensa oferta que existe em muitos sítios que muitas vezes ainda nos baralha mais. Calhou-me o Vip Executive Azores (que, pelo que vi depois, fica por cerca de 120 euros por dia) e eu não adorei nem detestei. Não sou muito exigente: quero um quarto limpo e sem baratas, de preferência com ar condicionado, e um quarto de banho privativo. Não sou de me queixar das camas ou dos quartos, por isso não sou a pessoa certa para esse tipo de avaliações exigentes.

A dizer: o quarto tinha uma dimensão bastante agradável, andava-se de um lado para o outro de forma folgada e eu dormi sempre bem; os espaços comuns do hotel eram limpos (não fui à piscina, mas disseram-me que era bem pequenina), os funcionários simpáticos e o pequeno-almoço entre o razoável e o pouco-razoável - o café era daquelas máquinas automáticas, que sabia a café de dissolver (blhec), os croissants (um must nos pequenos-almoços de hotel) eram maus e não havia uma variedade por aí além e os bolos eram pré-fabricados. Eu limitava-me a comer pão com manteiga, a beber água e ocasionalmente a comer um iogurte (para além de ter provado uma coisa ou outra, que não repeti por não ter gostado). Achei o pequeno-almoço o ponto mais negativo. De positivo, realçar a localização do hotel (pertíssimo do eixo norte-sul, dos acessos principais e do centro da cidade) e o facto de ter parque de estacionamento gratuito para estacionar o carro em segurança.

 

"Achas que eu devia ir aos Açores?"

Não, meus amigos. Fiquem em casa a ver passar os passarinhos. Ou vão para as Seychelles, passem umas dez horas dentro de aviões e outras tantas nos aeroportos, quando têm só um paraíso para explorar aqui perto e que, ainda por cima, é nosso. 

Quanto a mim, já não se trata de ir, trata-se de voltar. E já estou a fazer planos para que tal aconteça em breve. Um bocadinho do meu coração ficou nos Açores e eu não tenciono resgata-lo de lá - apenas tratar de o visitar de vez em quando. 

 

Leiam todos os posts sobre a minha viagem aos Açores clicando aqui.

Houve alguma questão que não respondi? Deixem nos comentários ;)

23
Jul18

Tudo sobre a minha incrível viagem aos Açores (parte 1)

Carolina

Decidi fazer este post em duas partes, para não arriscar que nenhuma alma o leia por preguiça ou falta de vontade perante tanto texto. Isto porque eu não quero que este seja só um mero post mete-nojo ou descritivo. Pesquei várias informações super úteis em blogs, que me ajudaram bastante nesta viagem, e quero que fiquem aqui todas as dicas de que eu usufrui e que agora já posso acrescentar, para que este seja um relato e uma memória para a posteridade, mas também algo rico e informativo para outros que queiram viajar ou simplesmente sentir-se inspirados. Todos os posts sobre os Açores podem ser lidos aqui.

 

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Às vezes perguntam-me se gostei dos Açores ou quanto é que gostei de São Miguel. A resposta é sucinta e explícita: o suficiente para ir querer ir viver para lá. E não brinco! Não é algo que possa fazer agora - porque tenho os meus pais, uma pós-graduação para fazer e tudo aqui - mas acho que quando for mais velha seria muito feliz nos Açores. Aquela calmia combina comigo. São Miguel é uma ilha limpa - exclui-se o cocó de vaca nas vielas rurais -, com muito pouco trânsito e que transpira tranquilidade; em que não há buzinadelas a torto e a direito nem estacionamentos em segunda fila. Em que as pessoas se cumprimentam frequentemente e onde se apresentam, quase todas, com um aperto de mão convicto e um sorriso nos lábios. Em que a comida é óptima e existem peixes que aqui no continente nunca ouvimos falar. Em que, não deixando de ser uma ilha onde, em alguns pontos, conseguimos ver de um lado ao outro, tem todas as infraestruturas necessárias para se ter uma vida confortável e cosmopolita o suficiente. Em que muitos dos ex-libris ainda só têm meia-dúzia de pessoas, o que permite desfrutar de tudo com outra qualidade. De modos que, depois da pergunta, as pessoas normalmente olham para mim com um ar trocista e dizem "saíste de lá apaixonada!". E eu digo que sim, que é verdade, sem vergonhas. Não foi por um açoriano. Foi pela ilha inteira.

Depois de sair de lá pensei num plano altamente maquiavélico, que foi dizer mal da ilha a toda a gente, só para ficar com ela "só para mim". Isto porque tenho PÂNICO que os Açores virem atração turística de primeira classe e todo aquele sossego vá pelos ares. É tudo ótimo e muito bonito para a economia e a publicidade do país, mas eu sinto na pele o que o turismo faz a uma cidade. No Porto, eu própria me sinto uma turista! Os restaurantes são caros e maus; o trânsito é caótico, com autocarros e tuk-tuks a atrasarem o movimento e pessoas a atravessarem-se no meio da estrada; há ruas em que uma pessoa não consegue atravessar em linha reta de uma ponta à outra, parecendo um caminho de obstáculos. É incrível o movimento, mas é altamente cansativo - até porque, claramente, estão a faltar estruturas para dar vazão a isto. E eu penso que se os Açores começarem a ficar na boca do mundo, vai ser o fim de parte da sua magia. E eu não quero. Até porque aquele estilo de beleza natural não aguenta com autocarros e centenas e centenas de pessoas a passar por lá diariamente.

Por isso, meus amigos, mantenhamos isto em segredo. Um segredo só nosso, está bem? Até porque se me estão a ler devem ser portugueses... e se são portugueses têm quase o dever moral de lá passar. Relativamente aos estrangeiros... vamos fingir que Portugal é só o Continente e guardar os Açores só para nós, está bem?

 

Como planeei a minha viagem?

Eu fui até aos Açores comprando um pack de cinco dias (de segunda a sexta) da Agência Abreu. Fi-lo porque me pareceu ser um preço competitivo para tudo o que incluía (voos, hotel e visitas guiadas) e, apesar de não me ter arrependido, não voltava a repetir. Porquê? Porque já não faço parte de uma geração que gosta de ter a papinha toda feita e porque estes programas implicam alguma falta de liberdade. Ter transfer à hora x, ter de estar num sítio à hora y, sem grande possibilidade de mudanças... é tudo muito intrincado, extra-planeado (até para mim, miúda de planos). O pack incluía uma viagem de jipe à Lagoa do Fogo e das Sete Cidades (com almoço incluído), com paragem na Caldeira Velha para um banho; um passeio pelas Furnas (também com o cozido incluído) e pelo Parque Terra Nostra, com tempo para banhos; e um passeio de barco para ver os cetáceos (que eu não fiz, depois da minha experiência traumática depois de ter tentado nadar com os golfinhos). Todos estes serviços eram feitos por empresas exteriores, o único contacto que tive com pessoas da Abreu foi mesmo nos transferes.

Uma das coisas importantes a ter em conta nos Açores é que o tempo muda de um minuto para o outro. Sabem aquela história que todos já ouvimos e que pensamos "pfffff!", de que nesta terra existem as quatro estações do ano num só dia? É verdade, é impressionante. Num minuto está um sol que faz a pele estalar e no outro já chove torrencialmente, com aquelas pingas gordas que não deixam uma parte do nosso corpo impune. Por isso é que ter tudo planeado ao milímetro não é boa ideia: há que ser flexível e adequar os nossos passeios às condições meteorológicas. Uma das melhores formas de fazer isso é instalando a aplicação SpotAzores (não sei se há outras), que vos dá acesso a câmaras nos vários pontos da ilha, para perceberem onde é melhor ir naquela altura em particular. Principalmente no que diz respeito às lagoas, que estão muitas vezes submersas em nuvens, dá um jeitaço inacreditável.

 

"Carolina, alugaste carro?"

Uma das perguntas que mais me fizeram foi se aluguei um carro. Sim, aluguei. Acho que é um erro não alugar, mesmo tendo já excursões marcadas. Não há nada como ter o nosso tempo e a nossa liberdade para conhecer a ilha de forma despreocupada. Não há muito a temer relativamente à condução ou às estradas açorianas: é tudo tão calmo que a adaptação é facílima, principalmente para quem vive em grandes cidades, estando habituado a sentir-se na selva em plena hora de ponta. Pelas minhas contas, teria dois dias e meio livres para fazer o que quisesse (acabei por ter três dias inteiros, por não ter ido ver as baleias), e ter um carro compensou sempre. Eu adoro andar a vaguear e ir parando consoante as placas que me aparecem; se vejo que existe um miradouro no caminho (algo que está sempre a acontecer) e me apetece parar, gosto de ter essa liberdade e esse tempo para ver, fotografar e aproveitar o momento. Quanto ao estacionamento, também é relaxado: há quase sempre lugares de rua mas, nos sítios mais movimentados, há parques (e não, não cobram pequenas fortunas, mesmo que fiquemos lá algumas horas).

Comparei preços, serviços e carros e acabei por escolher a Magic Islands. Deixaram-me o carro no hotel, precisamente à hora marcada. Melhor era impossível! Era um Ford SUV, deste ano, super confortável e com uma condução incrivelmente fácil - e um GPS incrível, o melhor que vi até hoje a nível de GPS's integrados. Fiz seguro contra todos os riscos (que fica mais caro do que o próprio carro), porque mais vale prevenir que remediar, mas felizmente não precisei de o ativar. É preciso ter em atenção um "pormaior" nestes seguros: eles excluem os problemas mais prováveis a ter nos Açores - furos nos pneus, jantes e estragos por debaixo do carro. 

De reparar que, por existirem imensos carros alugados, São Miguel é uma ilha cheia de carros coloridos - muito melhor que os brancos-cinza-preto que só se vêem por cá. O meu era azul elétrico. Pow!

Para quem é do Continente, ver uma ilha em que tudo parece perto e em que há sítios que se consegue ver de um lado ao outro pode dar uma ideia enganosa. De uma ponta à outra São Miguel tem 250kms - pouco menos que o caminho Porto-Lisboa - mas lembrem-se que para aceder a alguns sítios têm de percorrer estradas aos "s", que implicam andar mais devagar (aliás, andar devagar é sempre bom, porque conseguimos ver melhor a vista). Isso faz com que não seja assim tão rápido ir de um sítio ao outro, por isso convém não andar apertado nos horários... até porque nunca se sabe quando vamos ter umas vaquinhas simpáticas a impedir-nos de passar a rua.

 

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O que levar na mala?

Uma das coisas que me preocupava nesta viagem era o que levar vestido - não por uma questão de estilo, mas sim porque tenho sempre medo de ter frio e não sabia como estabelecer um equilíbrio num sítio onde num dia tanto chove como faz sol. Tenho a dizer que até aqui a viagem foi um sucesso: não levei nada a mais nem nada a menos. Foi no ponto!

Dicas que podem ser úteis:

1) Andem sempre com um kispo fino ou um impermeável convosco, porque a chuva e o vento (algo não muito falado, mas que está lá e em boa quantidade) vêm sem avisar; 2) Nas minhas tours e nos passeios de carro andei sempre com um saco à parte com a minha toalha e o meu biquini-feio (já sabem que não vale a pena levar o vosso swimwear preferido para os Açores, certo? Aquelas águas ferrugentas ameaçam a boa saúde de qualquer pano...), pronta para um banho sempre que fosse possível. 3) Só usei chinelos para ir tomar banho - fora isso, sempre sapatilhas, nunca sandálias! Tive medo de levar as minhas Merell de verão, porque se chove ficam todas molhadas, mas arrisquei e compensou (apesar de ter chovido). Foi o equilíbrio perfeito e tanto dava para cidade como para andar na montanha. 4) Apesar de ter levado calções, nunca os usei - andei sempre de calças, de ganga ou tecido, porque senti que a média de 21ºC que apanhei não era suficiente para andar com as pernas à mostra. 5) Acima de tudo, levem muitas t-shirts e roupa interior (eu levei um montão de meias, com medo de as molhar com a potencial chuva), porque ao caminhar sua-se bastante e é bom ter essas peças sempre que nos queremos trocar, que já nos dão uma sensação "fresca" sem ocupar muito espaço na mala. Cheguei inclusivamente a andar com meias na mochila, para estar pronta para qualquer molha.

 

"Que sítios visitaste?"

Eu tive uma sorte descomunal. Na primeira metade da semana - em que fui ver as lagoas - apanhei um tempo incrível; a segunda metade, que tinha destinado para explorar Ponta Delgada e outras coisas mais "mundanas", o tempo foi quase sempre de chuva. As duas lagoas principais - a Lagoa do Fogo e a das Sete Cidades - vi logo no segundo dia, de jipe, com a GreenZone Açores. Comecei com chave de ouro, portanto. Aconselho o serviço deles a 100%! O guia que foi connosco - chamava-se Paulo - era incrível e prestável, super cuidadoso porque uma das pessoas que ia no carro enjoava com facilidade. E tirava fotos sempre que lhe pedia - e sabia focar e tudo!!! Devo-lhe grande parte das boas fotos que tenho nesta viagem. Fizemos vários caminhos de terra, até passamos um riacho (uhuh, adrenalina!) e percebia-se o entusiasmo da parte do guia em nos mostrar as coisas bonitas da terra dele - e ele podia ter-se limitado a fazer as lagoas, como estava no plano, mas foi parando várias vezes para nos mostrar vários pontos de vistas e até outras atrações. A GreenZone já tinha surgido nas minhas pesquisas, foi uma sorte a Abreu ter-lhe subcontratado esse serviço, e voltaria a repetir. Ir de jipe é uma mais valia, porque vamos a sítios em que de carro é difícil ou arriscado aventurarmo-nos. E eles já sabem os caminhos e têm experiência, por isso é ouro sobre azul. Ficou por fazer, com eles, uma visita ao Nordeste. Fica já "marcada" para quando voltar. Diria que o único senão nestas visitas pode ser para quem enjoa ou tem problemas de costas ou de rins, uma vez que pode haver alguma "torbulência". Fora isso, é dinheiro bem aplicado!

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Lagoa do Fogo

 

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Num miradouro onde parámos, não sei o nome 

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A Lagoa do Fogo na primeira paragem que fizemos

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Lagoa das Sete Cidades

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 Lagoa das Sete Cidades

 

Não me façam aquela pergunta típica de "qual foi a tua lagoa favorita?", por favor. É cruel. Todas são lindas. Uma das sensações com que me debati nos momentos em que via aquelas paisagens de fazer cair o queixo foi "como é que eu vou guardar isto para o resto da minha vida?". Estava um bocadinho numa corrida contra o tempo, ainda por cima estando numa tour os timings não são controlados por nós, e eu só queria que aquela calma e aquela beleza ficassem agarradas a mim para o resto da vida, que aquilo não se apagasse. Como é que isso se faz? Tiram-se fotos com a máquina, o telemóvel, a GoPro e tudo o que de mais há? Simplesmente sentamo-nos, respiramos e tentamos tentar uma fotografia mental daquilo que estamos a ver e a sentir? É uma gestão difícil. Por minha vontade eu tinha ficado largos minutos em cada um dos sítios onde estive, com o rabo alapado no chão, só a dar-me tempo para absorver - algo que fiz noutros momentos desta viagem, sendo outra das incontáveis vantagens de estarmos sozinhos. Nas lagoas não houve tempo para isso, mas planeio faze-lo da próxima vez.

Essa primeira tour ainda incluiu, para além do almoço, paragens em alguns outros sítios. Vou destacar dois: o primeiro foi a Caldeira Velha, onde se podem tomar banhos com aquelas águas maravilhosas. Foi o meu primeiro banho deste género e, apesar de não ser o meu sítio favorito a este nível, ficará com um lugar especial no meu coração por isso. Tem três "poços", o primeiro em que a temperatura da água é natural e não controlada (quando fui estava fria e só entrei quase para a foto), os outros dois já são maravilhosamente bons. A água, apesar de ter partículas de ferro, não é nada comparada à do Terra Nostra, por exemplo. E o bem que isto fez às minhas contraturas?! Ah! E não esquecer os jardins lindos que envolvem os poços - parece que estamos a entrar numa floresta tropical ;)

O segundo sítio que quero destacar, e que simplesmente ADOREI, foi a Lagoa das Empadadas. Este é um dos tais que só de jipe é que se chega lá, mas é de uma beleza incrível. É pequena (principalmente quando comparada com as outras), mas de uma pureza inacreditável, toda protegida com uma "parede" de árvores. Não há palavras para aquilo. Como é que a natureza tem sítios como estes, tão naturalmente bonitos e arranjados? Foi dos meus sítios favoritos de toda a ilha.

 

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Na Caldeira Velha

 

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Caldeira Velha

 

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Lagoa das Empadadas

 

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 Lagoa das Empadadas

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Igreja de São Nicolau, perto da Lagoa das Sete Cidades

 

 (to be continued)

16
Jul18

Açores: o vídeo

Carolina

Antes de ir para os Açores encontrei uma promoção brutal de uma GoPro, na Fnac. Tinha uma de "marca branca", que em nada se comparava com a qualidade que já tinha visto nas originais, e soube que tinha de a comprar para registar todos os momentos que ia viver em breve. Não foram todos, todos, todos... mas foram muitos. Não é um vídeo pro, é muito ao modo "shaky camera" como se quer nas GoPro's, mas regista bem os momentos.

 

 

14
Jul18

Como é a experiência de viajar sozinha?

Carolina

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Já há muito, muito tempo que eu queria fazer uma viagem sozinha. Com todas as condições reunidas, achei que este era o momento ideal – e, acima de tudo, o momento em que eu precisava. Precisava de sair para respirar, precisava de estar sozinha, precisava de sair da minha zona de conforto, precisava de mudar de ambiente e entrar em rotura com os últimos dois anos. Precisava de paz.

E porquê os Açores? Porque, apesar de ser fora de Portugal continental, ainda é Portugal. Porque partilhamos a mesma cultura e a mesma língua (embora às vezes não pareça) e porque, dentro do choque que é estarmos sozinhos num sítio que desconhecemos, este era o que teria menos impacto. Se eu fosse para o Vietname, aí sim, seria uma aventura e tanto! Agora os Açores foi jogar pelo seguro (até literalmente, visto que é um sítio onde os problemas de segurança são residuais, o que também pesou na escolha) e fazer com que esta viagem fosse ouro sobre azul, porque este era um destino que queria muito conhecer.

Viajar sozinha foi, sinceramente, um exercício de liberdade. Ao contrário do que se possa pensar, é muito mais fácil viajar sozinho do que acompanhado – pela mesma razão que é mais fácil viver sozinho do que com alguém. Só temos de corresponder às nossas vontades, aos nossos planos, aos nossos gostos; não temos de fazer fretes, esforços, coisas que gostamos menos só para agradar aos outros; comemos as refeições que quisermos, às horas que quisermos; deitamo-nos e acordamos à hora que nos apetece; gastamos o dinheiro que temos e que queremos gastar e nunca temos pressões exteriores para o que quer que seja. Não temos de estar preocupados com os outros, gerir horários, emoções ou personalidades. E isso para mim, criatura egoísta e pouco dada à sociabilidade, é maravilhoso.

A questão é: não me senti sozinha? A resposta pode ser inesperada. Não, não senti. Em alguns momentos pensei em como gostava de estar com alguém - em particular os meus pais -, mais por saber que eles gostariam do que eu estava a ver do que propriamente por eu precisar de uma pessoa ao meu lado. A verdade é que fui mantendo um contacto permanente com eles e com os meus irmãos (criei um grupo no whatsapp para lhes mandar fotos e fazer inveja de tudo o que via e comia) e isso é essencial: é saber que estamos sozinhos mas que a nossa base está lá, que não estamos desamparados ainda que sem gente ao lado. 

Acho que sou uma pessoa atípica em termos sociais (uhuh, como se ninguém desconfiasse!). Eu não sinto necessidade de estar sempre a falar com alguém ou a partilhar decisões. Aquilo que conversava com os meus pais era o suficiente para satisfazer as minhas necessidades de interação (ainda que tenha falado mais, uma vez que me “juntei” a uma mãe e uma filha que fizeram tours comigo) e o facto de poder ser eu a decidir tudo o que queria em relação ao meu dia foi um autêntico alívio. No fundo, cumpri um dos meus objetivos para esta viagem, que era confirmar se de facto eu me dava tão bem sozinha como eu achei que daria. Sei que a vida muda, nós mudamos, os nossos planos e perspetivas mudam: mas perante a amostra destes meus 23 anos de vida, eu já percebi que não será fácil arranjar pessoas que partilhem vida comigo, e é uma preocupação minha certificar-me que, mais do que sobreviver, também consigo ser feliz sozinha (dentro dos limites do razoável - e por “razoável” quero dizer “não me tornar numa eremita”). Por muito que me custe, devo até admitir uma coisa: esta foi, talvez, a viagem da minha vida em que tive menos saudades (e eu sou uma saudosista nata). Acho que estive sempre tão entretida nos meus planos, sem tempos mortos, que a minha vida foi correndo da forma mais natural de sempre. Não fiz coisas que não quisesse ou que não gostasse, não sentia necessidade de estar sempre com o telemóvel, e a minha cabeça estava sempre centrada naquilo que eu estava a viver e não a passear por coisas tristes, preocupações ou saudades. 

Há apenas uma grande exceção: as refeições. Eu não me importo de comer sozinha, mas também não gosto. Estou habituada a almoçar e jantar sempre com a minha família e é-me estranho não ter ninguém para falar enquanto como - e confesso que também não gosto de estar agarrada ao telemóvel ou a um livro enquanto como. Neste caso não há muito a fazer: é aguentar. Mais uma vez, tive sorte: juntei-me em várias refeições às duas pessoas com quem fiz as tours é essa questão desvaneceu-se. De qualquer das formas, é de notar que quando as pessoas veem uma mulher/rapariga a almoçar sozinha, estranham sempre um pouco e têm tendência a ser mais atenciosas. E nisto incluem-se os parceiros da mesa ao lado, que frequentemente fazem conversa a partir de algo tão corriqueiro como pedir para utilizar o nosso saleiro.

A verdade é que quando não temos ninguém que nos "prenda", falamos com as outras pessoas com muito mais facilidade. É a mesma história de ir para uma escola nova com ou sem um amigo: se formos com um amigo, juntamo-nos a ele e formamos uma redoma onde é muito mais difícil alguém entrar; se formos sozinhos, é mais fácil (e somos quase obrigados a) integrarmo-nos.

 

QUESTÕES PRÁTICAS

Segurança

Há coisas más em viajar sozinha? Claro que há. Logo à partida a questão da segurança em todos os campos: se cairmos para o lado no quarto ninguém dá pela nossa falta, por exemplo; se tropeçarmos na banheira ninguém nos vai levantar de lá. Andar na rua acompanhado é sempre mais seguro, mesmo num sítio onde não existam problemas de segurança - e nisto, o facto de ser mulher também tem um certo peso. Tanto nos Açores como em qualquer outra parte do mundo há inevitavelmente homens que olham para nós como se fossemos um naco de carne - é algo que temos de aceitar e ignorar, tendo só a certeza e o cuidado (estando alerta) de que não passam mesmo de olhares. No caso desta viagem em particular eu não fiz trilhos pedestres precisamente por estar sozinha: apesar de gostar muito de andar no meio da natureza, sei que sou uma naba e que caio com facilidade, e fazer caminhos com obstáculos pela frente, em que possa cair e me magoar, não me pareceu uma boa opção - até porque muitos destes lugares têm pouca rede e não são assim tantas as pessoas que passam por ali todos os dias. Acima de tudo, acho essencial que tenhamos noção das nossas próprias limitações, que nos conheçamos minimamente e que antecipemos os problemas. E ter bom senso, claro! 

Eu deixei com os meus pais todas as informações de onde ia estar e partilhava frequentemente os meus planos para o dia, para saberem minimamente o sítio onde eu estava, caso acontecesse algo ou eu ficasse incontactável. Tive também uma série de outros cuidados que, se quiserem, posso listar, caso estejam a pensar ir numa aventura e precisem de "inspiração" neste campo.

(ainda sobre os trilhos, falarei depois sobre isso, mas fiz apenas uma única caminhada mais "selvagem", de cerca de 1km. E até aí adorei estar sozinha, a absorver o silêncio e a ir ao meu ritmo. Neste tipo de coisas, como sou mais lenta e cuidadosa a caminhar, sinto sempre que as pessoas ficam à minha espera ou que se obrigam a ir mais devagar por minha causa, algo que não gosto)

 

Fotografias

Houve quem também me perguntasse sobre a questão das fotografias: como é que se tiram boas fotografias enquanto estamos sozinhos (e já considerando que a selfie não é uma ótima opção)? Se forem malucos como eu, podem andar com o tripé atrás. Sim, eu levei o tripé na mala! Como fiz muitos dos passeios de carro, mantinha-o na mala e, quando precisava, tirava-o. Atenção: certifiquem-se que, quando fazem isto, já têm experiência e à vontade em trabalhar com o tripé. Isto aplica-se à máquina fotográfica e ao telemóvel: para a máquina o tripé grande e para o smartphone aqueles tripés que parecem polvos, pequeninos e moldáveis, que se compram por tuta e meia e se agarram a quase todo o lado e ajudam a tirar fotos bem melhores. À falta destes instrumentos, improvisem tripés (também o fiz) pousando as máquinas em sítios estratégicos e seguros. Ter um comando que tira fotos à distância também ajuda muito (em caso de ter tripé ou não), para não ter de se andar sempre com o temporizador e a correr para trás e para a frente. Mas a verdade é que a forma mais fácil de resolver este problema é pedir a alguém que nos tire a fotografia, sempre com dois riscos: que nos roubem a máquina e que a foto saia uma treta. A primeira opção parece-me sempre bem improvável, embora saiba que às vezes acontece; a segunda é muito comum, mas não há muito a fazer. Eu tive a sorte (e a falta de lata) de nunca ter de o pedir a “desconhecidos”: ou pedia aos guias que me fizeram as tours ou às duas pessoas que fizeram grande parte das visitas comigo. Em suma: pode ser chato, pode demorar mais, mas não é um problema irresoluto e há muitas alternativas.

 

Dinheiro

Viajar sozinho fica mais caro do que viajar acompanhado. É lógico que se virmos o valor acumulado gasto por quatro pessoas, este é muito maior do que se for só uma. Mas se dividirmos por cada cabeça rapidamente percebemos que é mais económico ter companhia. O carro é um óptimo exemplo. Eu aluguei um automóvel nos Açores e andei sozinha com ele, quando havia mais quatro lugares vagos - ou seja, se fossemos cinco, o valor era a dividir. Mesmo nos restaurantes isso é notório: um cesto de pão é igual para mim ou para uma mesa de três; uma dose de lapas tem sempre 20 lapas (por exemplo), quer eu seja só uma ou quer sejamos quatro. A verdade é que há muito mais coisas divisíveis do que individuais, por isso o dinheiro gasto por pessoa é inferior numa viagem em grupo do que numa feita a solo.

 

Este é o feedback de uma primeira experiência que foi recheada de momentos incríveis mas que, como contei no post anterior, também teve as suas peripécias e dificuldades. Não foi um mar de rosas, mas esteve a quilómetros de ser um mar de espinhos. Adorei viajar sozinha, mas isso permitiu-me perceber que há também muitas vantagens em fazer viagens com outros. Esse momento crítico no barco foi um daqueles em que eu desejei ter o colo da mãe ou alguém que me fosse buscar um chá quando eu achei que não podia fazer nem mais um metro a pé. Mas a verdade é que o que não nos mata torna-nos mais fortes e eu saio desta viagem, mais do que revitalizada, muito mais segura de mim mesma. Fui capaz. Sou capaz. Fui racional nesse momento de agonia; fui prática e rápida quando tive de comprar outra viagem de avião e cancelar tranfers e entregar o carro mais cedo; e fui descontraída em tudo o resto. Fui tudo o que era preciso porque, quando é preciso, nós somos tudo e mais alguma coisa. E relembrarmos isso de vez em quando é a melhor coisa que podemos fazer.

Mas é importante ressalvar que isto se aplica a mim e está longe de ser uma fórmula universal. Sempre gostei de estar sozinha e sempre me dei bem assim; gosto do silêncio e gosto do poder de decisão; gosto de estar sem ninguém no carro com o rádio em altos berros e gosto de me sentar a ler um livro num jardim bonito. Nem todos são assim - há muita gente que não sabe e não gosta de estar sozinha, e isso é justo e tão bom como qualquer outra forma de estar na vida. Ver o que quer que seja com alguém ao lado dá-nos sempre uma perspetiva diferente das coisas, porque não há duas pessoas iguais. Mas para a minha forma de ser e de estar (que é, de uma forma geral, solitária) viajar sozinha foi das melhores coisas que fiz até hoje.

Foram apenas cinco dias, quase nada comparado com tantas aventuras que vejo por aí e muito pouco para sequer me cansar de mim mesma. Resta-me dizer que, para grande preocupação dos meus pais, isto foi só o início. E isso resume bem o balanço que faço sobre aquilo que é viajar a solo. In-crí-vel.

 

(Sobre os Açores e a viagem em si, escrevo muito em breve!)

11
Jul18

Um dia difícil, um mote de vida, uma experiência inesquecível e alimento para os peixes e para a alma

Carolina

Tinham razão: vim para os Açores! Às seis da manhã de ontem estava a entrar para o avião que me traria a São Miguel enquanto fechava o livro que estou a ler no momento, "The Subtle Art of Not Giving a Fuck", de Mark Manson. Parei de ler numa altura em que ele falava da aceitação das experiências negativas, que nos traziam muito mais coisas melhores do que o desejo de coisas positivas. Não sabia que isso ia ser uma aprendizagem para aplicar no próprio dia.

Decidi há uns dias que ia nadar com golfinhos. Marquei, paguei, ouvi tudo com muita atenção e enfiei-me no barco com a convicção de que ia ter um dos momentos da minha vida. Achei que um dos melhores. Enganei-me só neste "pormenor". Mal o barco começou a andar eu soube que aquilo ia ser das coisas mais aventureiras que eu alguma vez tinha feito - e eu não sou aventureira nem gosto de aventuras. Não gosto de coisas em que não detenha o controlo da situação e eu soube que ali não ia poder controlar as coisas - mal sabia que nem o meu próprio corpo. A viagem até ao local onde estavam os golfinhos (talvez a vinte minutos) foi tenebrosa e dolorosa. Os salpicos e os tombos que tinham graça nos primeiros minutos, rapidamente se tornaram em algo horrível que eu só queria que acabasse. Eu já via golfinhos em todo o lado, só pedia a algo ou alguém que eles aparecem rapidamente para aquilo poder parar - até que eventualmente parou.

No início da viagem, o biólogo disse-nos, na brincadeira, "If you get seasick, don't feed the boat, feed the fishes". Todos nos rimos, eu também - eu, que me sentei no primeiro lugar do barquito, porque queria ter vista priviligiada para aquele momento inesquecível. "No topo do barco é mais bumpy", avisaram-me. Eu anuí. Já fiz dois cruzeiros, já andei em iates, em barcos de pesca, em barcarolas e barcos salva-vidas - não ia haver problema. Fi-lo de forma ingénua e quase inconsciente. É importante saber que eu adoro água, adoro mar e tenho medo de muito pouco neste âmbito e nunca pensei que aquilo fosse correr de outra forma que não maravilhosamente bem.

Mas o barco parou e eu passei a saber que aquilo não ia correr bem. Vomitei tantas vezes quantas a embarcação parou para nos deixar sair; vomitei o pouco que tinha no estômago e aquilo que não tinha. Talvez nunca na vida me tenha sentido tão indisposta. Saltei uma vez para a água, muito agitada, e não vi bicho algum. Saltei a segunda, já com menos conteúdo no estômago do que na vez anterior e lá os vi nadar por debaixo de mim e voltei ao barco, afirmando-me derrotada. Não conseguia saltar mais, tinha medo de desmaiar na água. Ia vendo os golfinhos passar, ia ouvindo os relatos de quem chegava ao barco, os "uau"'s, as vozes de quem tinha tido a experiência de uma vida. E eu a lutar ativamente para não cair para o lado. Só queria ir para terra.

Feliz e infelizmente, os meus colegas de atividade não se deixaram perturbar pelo que me estava a acontecer. Apesar de altamente desapoiada, o meu infortunio não os impediu de se divertirem - embora, calculo, nunca seja agradável ver alguém a vomitar de cinco em cinco minutos. Percebi rapidamente algumas das vantagens e desvantagens de viajar sozinho: por um lado, não preocupei ninguém; por outro, estava sozinha ali, a sentir-me nas posições mais vulneráveis da minha vida, e ninguém quis saber. Levei a GoPro mas não consegui tirar uma só foto. Cheguei a um ponto em que duvidei da minha capacidade de me levantar. Fiz a viagem de regresso toda de olhos fechados, sem energia para pestanejar, e com a minha cabeça com dois pensamentos em loop: a música do Boss AC "tu és mais forte e sei que no fim vais vencer" e a frase "TU NÃO PODES DESMAIAR". Só me ocorria aquilo que aconteceria se eu quinasse, que iria de certeza envolver ambulâncias, chamadas de urgência para os meus pais que ficariam em pânico e todo um caos que eu não queria provocar. Soube que desmaiar não era opção.

Não sei como, mas aguentei-me. Saí do barco com o meu próprio pé, a tremer como se estivesse dentro de mim um terramoto de magnitude 10 na Escala de Richter. Ativei o instinto racional, prático e de sobrevivência e sobrevivi.

Não sei o que provocou tudo isto. A velocidade do barco não ajudou, a maré agitada muito menos, assim como o lugar que escolhi na embarcação. Foi uma sucessão de coisas más. Não foi um mal estar médio, foi algo quase totalmente incapacitante. Eu não queria saber dos golfinhos para nada e, quando umas horas depois consegui recuperar, senti uma tristeza horrível: queria tanto aquilo e, no fim de contas, tudo o que desejava era ir embora. Não se trata só de ser um dos piores momentos de que tenho memória da minha vida, mas também da frustração de não ter tido dos melhores momentos da minha vida.

 

"The desire fore more positive experience is itself a negative experience. And, paradoxically, the acceptance of one's negative experience is itself a positive experience".

The Subtle Art of Not Giving a Fuck

 

Comecei nos Açores com o pé esquerdo. Tenho a prova nas costas, no rabo e nas pernas, onde tudo está pisado; no estômago, que ainda não normalizou; e na memória, que ainda treme só de pensar no que aconteceu. Mas que se "fuckem" os golfinhos, o barco e quem não me ligou nenhum. Caraças, o dia de hoje foi brilhante, esta ilha é incrível e eu estou feliz e bem de saúde. Não consigo não deixar de desejar experiências positivas, mas aprendi com a negativa. Já levo bagagem desta viagem, e não estou a falar da do porão. Ontem alimentei os peixes, hoje alimentei a alma e tudo valeu a pena.

06
Jun18

Já tenho férias marcadas... e vou sozinha!

Carolina

Decidi que vou passar férias sozinha. Foi rápido: lembrei-me do destino, encontrei um pacote apetecível e marquei. Não perguntei a ninguém se queria vir comigo e fi-lo de forma consciente, por duas razões: a primeira é porque já sabia as respostas que ia obter se perguntasse, a segunda é porque sempre quis viajar sem ninguém ao lado.

Há uns dias lia o blog da Beatriz, que foi sozinha até à Escócia (também hei-de ir!), e ela dizia lá uma coisa de que eu gostei muito, a propósito de viajar sem companhia: "Este silêncio, que só se quebra com o ruído dos locais, dos turistas, dos guias e das colegas de quarto, é um descanso. Adoro estar assim, principalmente porque sei que tenho o oposto em Portugal. Só daria valor a um e a outro cenário, tendo os dois. É o caso." Felizmente, também é o meu. Na verdade, esta frase aplica-se, para mim, não só nas viagens como no resto da vida. Eu sou das pessoas que conheço que mais gosta de estar sozinha - mas isso acontece porque sei que chego a casa e, se quiser, tenho o "colo" dos meus pais ou os meus irmãos a uma chamada de distância. Acho que só é bom estarmos sozinhos quando sabemos que também temos o outro lado da moeda - o que, pensando bem, até é um tanto ao quanto egoísta. A solidão completa é assustadora.

Mas voltando à viagem: é sabido que eu não tenho muitos amigos. Aliás, talvez seja melhor retificar: tenho mesmo muito poucos amigos. E a verdade é que os que tenho não estão na mesma "página" que eu. No que a companhias diz respeito é muitas vezes a família que me safa: para ir a concertos, a festivais, a viagens, às compras ou simplesmente dar um passeio. Sempre achei - e continuo a pensar o mesmo - que uma das maiores dificuldades nisto de arranjar alguém (seja esse alguém um namorado ou um amigo) que combine mesmo connosco é precisamente essa estar na mesma situação que nós, a todos os níveis (financeiros, familiares, sociais...); as coisas funcionam se isso não acontecer (senão, o mundo estava perdido!), mas vão sempre existir entraves. E eu tenho a plena consciência de que é muito difícil alguém estar nas condições em que eu estou neste momento. Neste verão eu devo ter um coisa que é rara: tempo. Para além disso, tenho dinheiro no bolso. E, acima de tudo, não tenho amarras: não tenho namorado, não tenho filhos, não tenho pais que precisem de mim a tempo inteiro, não tenho um trabalho que me exija uma presença permanente, não tenho eventos para ir, não tenho nada marcado. Tenho um freepass e quero aproveita-lo. E sei que mais ninguém à minha volta tem todas estas condições reunidas. Ora porque as amigas têm namorados, ora porque os meus irmãos têm filhos, ora porque todos os outros têm trabalho ou preferem aplicar o seu dinheiro noutra coisa qualquer. E eu percebo e respeito isso. Só não posso é deixar escapar esta oportunidade. Porque, como cheguei à conclusão aqui, acho que já chega de esperar pelos outros. Sinceramente, acho que já chega de esperar por alguém que eu acho que não vai chegar.

Não marquei esta viagem por querer estar sozinha, por querer fazer uma auto-descoberta ou qualquer uma dessas coisas meias-espirituais com as quais não me identifico. Foi uma questão prática: vi, quis e marquei. E que bom que foi, não ter de esperar pelos outros; não ter de me adequar aos gostos e opiniões alheias; não ficar em stand-by à espera de autorizações, de consultas de budgets ou impasses. Que bom que foi, querer algo e fazer. E eu sei que sou muito egoísta nesta minha forma de ser, de estar, de pensar. Mas acho que esta vai ser a única forma de eu fazer alguma coisa na vida - ou de, pelo menos, não me irritar tanto no processo.

E ainda que eu não esta não seja, como disse acima, uma viagem de auto-descoberta, acho que vai ser uma boa prova para eu ver como me safo, realmente, sozinha. As expectativas estão altas. E, caraças, estou a contar os dias! Tem tudo para ser incrível.

 

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