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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

23
Ago20

Ontem um mocho piou

Nos últimos anos tenho desenvolvido uma certa aversão à expressão "empregada de limpeza". Penso que, acima de tudo, se deve ao facto de ser um trabalho muito "mal-amado" por todos, visto como uma profissão de baixo nível. Em resultado disso, muitos acham-se no direito de mal-tratar este tipo de profissionais, proporcionando-lhes condições de trabalho vergonhosas e tratando-os abaixo de cão.

Eu, pelo contrário, considero-a uma profissão tão digna como ser engenheiro ou arquiteto - e não me choca que uma empregada de limpeza receba tanto ou mais que alguém que tirou um curso destes. Tudo depende do mercado, da oferta e da procura (diria que hoje em dia há muito mais bons engenheiros do que boas empregadas e, como tal, penso que o salário deve refletir essa falta de oferta e, ainda por cima, a crescente procura) e, como em tudo, da dedicação e do amor à camisola que cada um tem no seu trabalho. Mas uma empregada (principalmente a tempo inteiro) tem ainda uma condicionante extra, importantíssima: o seu trabalho é no seio de uma família. Para mim, a partir do momento em que alguém é contratado para esse cargo, tem um passe de entrada como membro daquele núcleo e deve ser tratado como tal. A partir daí, normalmente, advém um carinho e uma amizade especiais, típico de alguém que convive connosco diariamente, que nos conhece, que cuida, que sofre com as tristezas e que festeja connosco as alegrias.

Tenho a sorte de sempre ter tido empregadas a trabalhar lá em casa (como disse, evito dizer "empregada", mas infelizmente não há grandes alternativas) - e guardo, de todas, boas memórias. Mas, acima de tudo, há uma que me ficou guardada na memória - e no coração - depois de lá ter trabalhado durante dezoito anos.

Chamava-se Joaquina. Faleceu ontem. 

A D. Joaquina ensinou-me a ler as horas, depois de me ter oferecido o meu primeiro relógio analógico, todo decorado com cãezinhos. Confiou em mim quando lhe pedi a minha "pi" (vulgo: chupeta) uma última vez, no dia do meu sexto aniversário - o mesmo em que prometi a pés juntos, aos meus pais, que deixaria esse vício. Foi ela quem me ensinou a andar de autocarro e deu comigo a primeira voltinha, dizendo-me onde entrar e onde sair. Ofereceu-me a única Barbie que guardo com carinho e a única pulseira de ouro que perdi - e ainda bem, porque é sinal de que a usei, ao contrário das outras que continuam religiosamente guardadas. 

A D. Joaquina subornava-me com amêndoas de chocolate que guardava no bolso da bata, enquanto me pedia para ir com ela passar a ferro para a lavandaria. Fazia os melhores panados do mundo - e também pataniscas. Adorava os bolos de aniversário lá de casa e farturas frias, que eu trazia de propósito para ela na altura das festas da cidade. Sabia as datas de aniversário de todos nós de cor - e era a primeira a ligar-nos, lá pelas 7:30h da manhã. Fazia contas de cabeça mais rápido do que eu as fazia na máquina de calcular, muito embora tenha passado muito pouco tempo na escola. Acreditava que que, quando um mocho cantava de dia, alguém ia morrer - e eu ainda hoje não gosto de ouvir esse pássaro piar.

Há mais de uma década que deixou de trabalhar, depois de lhe ter sido diagnosticada uma doença que não se coadunava com o trabalho árduo e diário que é cuidar de uma casa grande como a minha. Foi lá várias vezes visitar-nos - e, nos últimos anos, fui eu ter com ela, quando as suas pernas já não conseguiam vir até nós. Em quase todas as visitas trazia-me panados na carteira, para que não me esquecesse de que eram os melhores do mundo.

Numa das últimas vezes que estive com ela contei-lhe que tinha namorado ("finalmente", disse-me ela) - e não vou esquecer o seu ar de felicidade por saber que agora tinha alguém para cuidar de mim. Nos últimos tempos falava-lhe, em média, uma vez por mês; e, em cada despedida, ela mandava "um beijo para o teu Miguel" - nome que nunca esqueceu, apesar de nunca o ter conhecido. 

A D. Joaquina foi uma lutadora a vida toda - e, nos últimos anos, eu achei mesmo que ela tinha algo de imortal, tal a magnitude de tudo aquilo que conseguiu ultrapassar. Mas, no fundo, sabia que algum dia ia ceder às provações que lhe eram constantemente colocadas no caminho.

Ontem recebi a notícia ao final da tarde, depois de um almoço em que falei dela. No dia anterior tinha dito ao meu namorado que, um dia em que casássemos, queria que a D. Joaquina estivesse presente. E, algures num almoço da semana passada, sei que o seu nome também veio à baila. Não creio que seja coincidência. 

Ontem, algures, um mocho piou. E não me levou uma empregada de limpeza. Levou-me família. 

 

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29
Jun14

Um exemplo trágico

Nunca fui - nem sou, que não me considero hipócrita - fã da Judite de Sousa (e já lhe teci várias críticas neste blog). Mas acho que nada, nada, nada neste mundo justifica a morte de um filho; só imagino um par de situações piores à morte daqueles seres que nós mais amamos, e são de facto muito poucas e sempre muito trágicas.

Soube há pouco da morte do seu filho: uma morte estúpida, mas que traz à tona um assunto que já provocou a morte a tantos outros filhos de tantos outros pais: os acidentes na piscina. Cá em casa sempre foi uma guerra com os saltos, com medo que alguém se magoasse. Perde-se a conta aos berros que eu e os meus primos levamos à custa disto, e agora os meus sobrinhos que, tal como nós, adoram fazer estas acrobacias. Muitas correm bem, mas às vezes há uma que corre mal, e é capaz de arruinar não só uma, mas várias vidas. Quantas pessoas morrem, por ano, à custa disto? E quantas outras não ficam paralisadas para a vida por brincadeiras destas?

Arrepiei-me quando soube da notícia, pois esperava que o rapaz recuperasse. Nem sempre corre bem, nem sempre há finais felizes. Que fique o exemplo de um caso trágico, mas que infelizmente é igual a tantos outros, para pormos a mão na consciência e nos deixarmos de parvoíces. Tenho para mim que não foi só uma vida que ficou ali arruinada, e lamento imenso.

30
Jan14

Música da noite

Não sei bem a que propósito, há dois dias lembrei-me de uma música que já não ouvia há uns anos. É deprimente quanto baste, e ouvi-a vezes sem conta quando não estava assim tão bem. Por acaso passei-a para o telemóvel e hoje adequa-se perfeitamente. Depois de uma noite como a de ontem, boa, divertida e cheia de sorrisos e brincadeiras, hoje é o oposto e estou a fazer um esforço enormíssimo para me manter bem composta (já me descompus, mas já estou a voltar à normalidade), tendo em conta que tenho um exame amanhã e gostaria de não reprovar. É respirar fundo. Muito fundo, que isto é tudo relativo e amanhã é um novo dia.

 

30
Jul13

Sul

Preciso muito de praia. De calmia. De paz. De passar horas no mar, de fazer carrinhos nas ondas, de ir alugar uma gaivota ao nadador-salvador jeitoso. De comer peixe grelhado dia-sim, dia-não. E caracóis! De sair da praia às oito da noite e apreciar o pôr-do-sol e aquela praia deserta. De sentir o cheiro a mar na minha pele e, mais tarde, do creme que só ponho nesta altura do ano. De ir comprar pão quente pela manhã. De ouvir o riso das pessoa que passam em direção à praia. De sair de um dia maravilhoso de praia e comer um gelado de menta bem fresquinho. De ter de me preocupar com tão pouco que estou no pico do relaxamento.

Basicamente, estou a entrar em parafuso. E tudo o que apetece chama-se... Algarve. Nestes últimos dias, sem razão aparente, tenho-me cansado de mim mesma - andado chata e em baixo como já não andava há algum tempo. Pegar no carro e ir para o sul é tudo o que desejo.

 

27
Fev12

Acaso

Enquanto desço a rua inclinada que dá acesso a minha casa com a cara levemente molhada de lágrimas e olho o céu, pergunto-me como uma coisa tão perfeita como a vida às vezes nos pode trazer coisas tão más. Somos, de facto, uns privilegiados em termos nascido, em termos a oportunidade do que chamamos "viver". Temos um planeta especial, somos todos especiais. Respiramos, controlamos a natureza(controlamos?), movemos mundos e fundos. Criamos o dinheiro, aprendemos uma ou mais línguas e até descobrimos a electricidade.

Mas sofremos tanto. Mas tanto. Quantos ácidos corroeram o nosso peito? Quantas facas esfaquearam o nosso frágil coração? E, porra, continuamos vivos. Dói, dói mais do que tudo. Nós, com a mania que controlamos tudo e todos, esquecemo-nos do pequeno pormenor de que, pura e simplesmente, há coisas incontroláveis. Oh, terrível acaso. Quantas vidas tornaste num inferno?

A morte é incontrolável, por vezes. As ações dos outros são incontráleis. A dor que sinto no peito é incontrolável. As lágrimas que nos escorrem nos rostos são incontroláveis. Vivemos num mundo quase perfeito, não fossemos nós os seres mais imperfeitos e o tempo e o espaço os condicionantes do inferno. Há dias tristes. Hoje é sem dúvida um deles - mais um.

 

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12
Fev12

Another day

Dias desperdiçados deprimem-me. Odeio não ter pulso suficiente para sair sozinha de casa e fazer aquilo que realmente me apetece. Porque tenho pulso para não fazer as coisas que tenho de fazer - arrumar o quarto ou estudar para o teste que está aí ao virar da esquina.

Acabo o dia sem fazer o que devia ter feito e sem fazer aquilo que queria fazer.

Estava um dia lindo lá fora e o sol sorria para mim. Acordei bem-disposta e, a bem dizer, estava muito gira dentro do meu vestido azul e as minhas botas castanhas. Mas fiz o mesmo que faço a maioria das vezes, e fiquei em casa a olhar para as quatro paredes do meu quarto ou para o ecrã do meu computador onde as novidades não surgem.

Desperdicei um dia lindo da minha vida, sentada nesta cadeira. E estou verdadeiramente chateada comigo mesma.

 

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12
Jan12

Dos dias maus

Este foi, sinceramente, um dos piores dias dos últimos tempos. Doem-me os olhos, a cabeça e merda do dente.

Tive que enfrentar o cheiro a desinfectado tão típico dos dentistas e a mentalização de uma próxima consulta (qu, para mim, é o equivalente a me dizerem que diz x acaba o mundo, e que não vai ser de forma pacífica).

As olheiras mostram o mal que tenho dormido nos últimos 3 dias. As justificações de faltas idem - ando eu a matar-me a estudar sempre que posso, e agora ando a faltar às aulas de tão pedrada que estou de manhã devido aos comprimidos (que preciso para conseguir dormir, devido às dores que sinto - que apesar de não serem muitas, não me deixam adormecer).

Here's the ugly truth.

 

A mim não me apetece nada senão chorar, e falo muito a sério. As minhas forças cada vez dão para menos.

 

Prometo que é o único post semi-doloroso-depressivo que aqui coloco. Os próximos vêm tal como os outros, como se nada fosse. Esqueçam que é um zombi que está deste lado.

12
Nov11

Muda de vida se tu não vives satisfeito

Há dias em que não vejo o sentido da vida. Como olhar uma estrada inacabada; um viaduto que não vai dar a lado nenhum.

Chegamos sem razão aparente, sem hipótese de escolha. Nascemos e somos obrigados a seguir um certo estilo de vida - há quem tenha sorte. Eu tive. Mas somos quase que obrigados a estar aqui, a fazer de sentinela de nós mesmos. E para quê?

 

Os fins-de-semana mostram-me quem realmente sou. Tenho a liberdade que não devia ter. Mostram-me os frutos que colhi de uma semeação muito mal feita. Que estou sozinha quando queria estar acompanhada; que estou em casa quando queria estar fora. E que a força de vontade para mudar é nula, porque o cenário é o mesmo há anos, diria.

Alguém precisa de mudar de vida.

04
Nov11

Dos problemas de ontem, de hoje, e de amanhã

A minha vida virou caos numa questão de semanas. Começou com o facto de querer mudar de curso. Letras a pairar sobre a minha cabeça, números a perder a força e a certeza que sempre tivera a perder-se.
A fisioterapia destrói-me interiormente. Não sei porquê. Sei que aquelas horas à espera e em tratamento, talvez devido ao pensamento em demasia ou simplesmente pelo tempo que se perde, me põem doente. Provocou-me a alteração de horários, de refeições; fez com que chegasse a casa e tudo o que quisesse fazer era dormir - e até lá, chorar.
Agora vejo as notas a cair, a frustração a subir, a força de vontade a decrescer, a vontade de desistir a aumentar. Vejo a desilusão estampada na cara dos meus professores, a preocupação na cara dos meus pais.
Perdi um apoio essencial, não sei se temporária ou permanentemente. Um ponto de confiança, de desabafo, de cumplicidade extrema.
E sei que vou ter de me arranjar, de me agarrar àquilo que tenho. De decidir aquilo que quero. De fazer aquilo que posso. De me desenrascar. De sair desta situação que me está a pôr doente.

 

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