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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

17
Jun18

Dar-me tempo para viver

Carolina

Sexta-feira foi um dia importante porque, de alguma forma, pus fim a um ciclo. Algures em Março deste ano decidi que ia deixar o trabalho onde estou há quase dois anos e todos estes meses têm sido de preparação para a minha saída. Sexta foi o dia em que, para todos os efeitos, deixei tudo pronto para ir embora; a data que defini para ter tudo em ordem para que o meu trabalho continuasse a ser (bem) feito pelos outros, para que a minha ausência provocasse o menos impacto possível. É tempo de férias. Vou descansar as ideias, ficar morena, desfrutar da ausência de stress e do “pling” dos e-mails a caírem na caixa de correio. Até porque sei que depois nada vai ser como dantes: ainda volto ao escritório, às pessoas que me viram nascer enquanto “trabalhadora”, mas agora quase em modo consultora, para ajudar a lançar mais um projeto. Depois, talvez, o adeus definitivo. Até lá, férias, descanso e viagens, pontuadas por momentos de trabalho, para não esquecer a sensação ;)

Tomar a decisão não foi fácil, dizer que me ia embora não foi fácil, estar estes meses a trabalhar e a saber que estava a preparar a minha própria saída não foi fácil. Acima de tudo, para mim, foi difícil sentir que sou substituível. Não é que, racionalmente, não o soubesse; mas uma das coisas que mais me puxava a trabalhar era saber que fazia parte de algo maior que eu, mas do qual eu era uma peça fundamental. E deixou de ser assim. Passei pelo processo de escolha das pessoas que me iam substituir e ensinei-as até chegar o dia em que praticamente as minhas funções ficaram vazias. Passei-lhes tudo. Do trabalho chato e mais burocrático, passando pela escrita e a parte criativa, assim como a gestão da parte online, entre tantas outras coisas. Algumas que eu ajudei a criar de raiz e que, tenho a certeza absoluta, ninguém conhece melhor que eu. Era quase o meu bebé... que mudou de colo.

A verdade é que eu nunca escondi de ninguém que esta seria uma fase da minha vida passageira, até por sentir que o meu caminho já estava traçado há muitos anos, ainda eu não me tinha desviado de todos os planos iniciais. Para além de que, para mim, é inconcebível trabalhar num sítio a vida inteira (a menos que seja um negócio nosso, do qual não nos podemos "despedir" assim de um momento para o outro) - muito menos na fase em que eu estou, em que preciso de movimento. Tenho muitos anos pela frente, em que vou querer paz e sossego, e não acho que agora seja altura para isso. Tenho 23 anos, trabalho há tempo inteiro há dois, e tenho medo de estar a perder "os melhores anos da minha vida" com responsabilidades crescentes e chatices diárias (ainda que muito minhas), que me tinham vindo a tirar alguma qualidade de vida nos últimos tempos.

Cheguei a um ponto em que comecei a desenhar o meu futuro e a pensar "vai ser só isto?". Fiz todo o meu percurso sem pausas ou paragens. Acabei o secundário, fui para a faculdade; apesar de ter vacilado muito nos meus três anos de curso, completei tudo sem deixar nunca uma cadeira para trás e segui para estágio; no estágio propuseram-me trabalhar, eu disse que sim, e é assim que estamos até agora. Já tinha algumas responsabilidades no meu trabalho atual e uma carga de trabalho valente, que sempre tentei articular com tudo aquilo que queria fazer no dia-a-dia, graças a uma flexibilidade de horários, por vezes, quase heroica. Mas ou parava agora ou continuava com a minha vida estilo maratona, sem parar para respirar.

Percebi que este ia ser o gap da minha vida. Estou entre o trabalho que escolhi e o trabalho que vou ter que fazer (que também escolhi, mas que foi algo "naturalmente imposto" pelo meu dia-a-dia, pela minha infância e pelo estilo de vida que quero manter). Perspetivei o meu futuro a médio prazo enquanto empresária e vi que aí sim, a minha vida vai ser dura; aí é que eu tenho mesmo de trabalhar aos fins-de-semana, fazer horas extraordinárias, passar almoços de amigos ou saídas em prol de um negócio bem sucedido. Aí é que eu vou suar as estopinhas, dar o tudo por tudo - porque aí as coisas dependem de mim e o meu sucesso deverá ser proporcional ao meu esforço (ou assim o esperamos..). Aí é que eu vou sentir o peso da responsabilidade, quando tiver pessoas a meu cargo, salários para pagar e um orçamento para gerir.

Há dois anos fui trabalhar porque quis e voltava a fazer o mesmo - vá-de retro a faculdade! Tive sorte em quase tudo e quase tudo foi incrível. Mas comecei a sentir peso nas costas - da responsabilidade, do medo de não estar a aproveitar estes anos, de estar a levar uma vida apressada e demasiado seguida. Olhei à minha volta e apercebi-me que quase todos os meus colegas estavam a "viver a vida", independentemente do sentido que dessem a essa frase - a namorar, a viajar, a ir de erasmus, a fazer voluntariado num país qualquer que eu nem sei precisar no mapa, a ir de boleia pela Europa, a marcar férias sem terem de se preocupar com o facto de só terem 22 dias úteis para as gozar. E olhei para mim, a levar uma vida sedentária que podia ser a de alguém na casa dos seus trinta e tal anos, e disse que se calhar era a altura de acordar.

É engraçado, porque eu sempre tive escolha. Fui livre de fazer o que quis quando terminei a licenciatura e, curiosamente, acabei por me prender a mim própria. Nos últimos tempos senti-me acorrentada ao trabalho e quando percebi que podia estar a gozar dessa forma os últimos anos de alguma liberdade, quase que entrei em pânico. E quando digo "liberdade", refiro-me a poder ir de férias sem ter de avisar com três meses de antecedência e sem ter de contar os dias úteis; a poder ficar a dormir um bocadinho mais de manhã por ter estado a tossir a noite inteira; a poder empenhar-me com afinco em algo que me está a dar realmente prazer, como é o caso do piano. No fundo, é ter flexibilidade e menos responsabilidade em cima dos ombros.

É claro que tudo isto é muito bonito, se descontarmos toda a carga emocional que esta decisão acarreta. Vai-me custar não ver o meu nome impresso num jornal mensal, a assinar um qualquer texto; vai-me doer não ter uma credencial do Portugal Fashion sem o "P" de press; vai ser duro deixar de ter a companhia diária de algumas pessoas que me enriqueceram, pessoal, profissional e culturalmente; e, acima de tudo, vai-me fazer muita falta sentir-me essencial em algo - ser importante numa estrutura, estar mais que integrada nela, fazer parte de algo (essa coisa em que, ao longo da minha vida, sempre fui tão má). Até porque a lista de coisas que aprendi nestes dois anos é infindável. Vão ser lições que vou carregar para a vida. Uma das mais importantes (e que eu já sabia, mas que continuo a confirmar) é que nem tudo é preto ou branco, como eu quero ver. Não gosto de cinzentos, mas aprendi a resignar-me (um bocadinho, vá...) que eles existem. Nem a minha saída vai ser preto no branco: não trouxe as coisas todas, não deixei as chaves. Vou voltar, tenho trabalho em mãos (já não tenho é as rotinas) e não sei se algum dia vou sair por completo. Mas para alguém como eu, que gosta dos tons nos seus extremos, isso é confuso. Por um lado bom, porque não é algo abrupto; por outro, o vai-não-vai causa-me instabilidade. 

Estou por isso a passar uma fase incerta, entre a alegria de um futuro que eu acho que vai ser risonho e a dor de deixar um trabalho que me deu muito; entre as certezas de um presente com um dia-a-dia de rotinas e de um futuro que terá de ser totalmente governado por mim; entre a vontade de ver o que vem aí e a saudade que já se aloja dentro de mim; no fundo, entre saber se tomei a decisão certa ou a decisão errada. Tem sido também uma lição de "adultismo": tomar uma decisão, leva-la avante e arcar com as consequências. Respirar fundo, ganhar coragem e enfrentar o boi pelos cornos. Ficar magoada. Aprender a curar-me. E saber andar em frente.

Tenho vários planos para o que vem aí mas não sei timings nem nada em concreto. Lá está, é tudo um bocadinho cinzento, e isso inquieta-me profundamente. Ao ponto de não me apetecer escrever - algo que aconteceu muito ao longo dos últimos meses - por ocupar tanto espaço na minha mente. Vai ser uma aventura. Agora é concretiza-la, não me deixar ficar pelas ideias e fazer desta oportunidade aquilo que eu realmente quero dela.

Estou a dar-me tempo para viver a vida. O momento é agora. 

 

 

21
Mai18

O resumo de uma breve passagem por Fortaleza, Brasil

Carolina

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O melhor do Brasil: a praia

 

Cheguei há uma semana do Brasil. Já recuperei da ressaca do jet lag e do cansaço acumulado (dormi uma noite e uma manhã inteiras e achei que me tinham posto qualquer coisa na comida, porque nunca me senti tão pedrada na vida) e, não estando fresca que nem uma alface, já estou bem melhor. Um coisa ainda continua igual desde que vim: sinto-me uma pintura ambulante. Porquê? Porque cheia de medo de outras potenciais queimaduras, já que apanhei logo uma no primeiro dia em que lá estive, pedi à minha mãe que me espalhasse protetor solar 50 nas costas e nos braços (os sítios onde não chego). Pois qual não é o meu espanto quando, antes de vir, olho-me ao espelho e percebo que tenho os dedos da minha querida mãezinha tatuados no meu braço e outro tipo de pinturas abstratas em toda a minha dorsal. Estou incrível. Achei que isto ia desvanecer, mas passado uma semana ainda parece uma escultura de barro arredondada. 

De resto, vim do Brasil com mais sardas, uma cor de pele um tanto ao quanto mais saudável (estava com um ar terrivelmente macilento), com várias tapiocas no estômago (eu sabia que aquilo era delicioso e nada como aquela porcaria que vendem aqui!) e mais uma experiência no lombo. Estive em Fortaleza, num evento sobre moda de autor brasileira, e ainda estou em overdose de tanta passarela. Esta foi a primeira press trip que fiz (talvez a última?) e conto mais tarde escrever sobre aquilo que acho destas viagens organizadas. Mas posso já adiantar que uma das coisas mais interessantes é a troca de experiências e opiniões com outros jornalistas do ramo – no meu caso, estive sempre acompanhada por um senhor da Argentina, uma senhora do Uruguai e uma londrina, com quem me dei muito bem e com quem tive oportunidade de praticar o meu inglês.

 

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Hora da lontrice: o melhor prato que lá comi, uma moqueca, e, claro!, a tapioca

 

Não vos vou maçar com detalhes ou opiniões sobre o evento, por ser uma coisa que me cheira mais a trabalho do que a lazer. Mas gostava, como faço sempre, de fazer um mini-resumo da minha viagem – ainda que não haja muito para contar! A verdade por detrás das viagens de trabalho é que são sempre super cansativas, ainda para mais se forem transatlânticas – acima de tudo porque são curtas e intensas, não dando tempo ou chance para uma pessoa se recompor. Neste caso, tive algumas manhãs livres, mas o evento acabava muito tarde, pelo que eu acabava sempre por me deitar para lá da uma da manhã (cinco da manhã aqui) e, como acordava cedo, ora para trabalhar ora porque o sol não me deixava dormir, nunca conseguia repor as energias. O dia que mais aproveitei foi o da vinda, pois só tinha voo à noite – de resto, todos os minutinhos livres foram de praia, que é de facto maravilhosa.

 

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 (descubram o Wally!)

 

Nesta altura é Outono por lá, mas as temperaturas não saíram dos 30 graus – choveu bastante num dos dias, mas foi azar nosso. Segundo vi nas notícias, foi o dia mais chuvoso do ano naquele estado, por isso só posso considerar que tive pontaria. Chovia a sério, muita água e em gotas gordas, mas o ar continuou abafadíssimo como em todos os outros dias (ou talvez pior, que aquela humidade não é feita para “gringos” como nós). Ainda assim a praia estava vazia, ainda que com estas condições incríveis e com uma temperatura óptima – tanto fora como dentro de água. No primeiro dia – o do escaldão, em que não havia sol à vista mas estava muito quente – haviam umas dez pessoas em centenas de metros de areal. Como não adorar?

A verdade é que no aspeto “praia”, o Brasil subiu na minha consideração. Quando fui à Bahia, há mais de uma década, lembro-me que foi uma desilusão. A água era suja e pouco quente, o areal era avermelhado por causa do tipo de rocha lá presente e relativamente pequeno... e havia tubarões a dar à costa, o que não alimentava a confiança para dar grandes braçadas. Aqui era tudo o contrário – apenas uma nota relativamente ao mar, sempre super agitado, que não permitia que uma pessoa respirasse durante sete segundos sem levar com mais uma tromba de água na cara. E havia palmeiras, espreguiçadeiras e todas essas coisas que estão no nosso imaginário quando falamos de países tropicais, por isso tirei a barriguinha de misérias.

Reparei que no hotel onde estava só havia brasileiros; a percentagem de estrangeiros devia rondar os 5%, uma coisa meramente residual, o que é estranho dado o tipo de hospedagem (tudo incluído, parque aquático ali ao lado e praia literalmente em frente).

Isto pode ser explicado pela fraca irrigação que o aeroporto local tem, que vive praticamente de voos internos e que tem das piores condições que vi ultimamente. Para além disso, a cidade em si não tem muito que ver e a pobreza das gentes é evidente. Quase tudo o que vi foi de carro, não tenho uma única foto tirada com a máquina, e não pude explorar nada a fundo. A única coisa que de facto visitei foi o mercado central (um edifício com quatro pisos, gigante, embora bastante feio), mas como fui ao domingo de manhã (e ainda por cima coincidindo com o dia da mãe) muita coisa estava fechada. Há imeeeeensas coisas baratíssimas, principalmente para quem gosta de artesanato mais clássico, como toalhas de mesa rendadas e saídas de praia trabalhadas. Eu vim de lá cheia de tralhas – desde vestidos de praia, biquínis e uma carteira – e fiquei com pena de não ver mais.

 

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PIntura à entrada do mercado

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 No mercado (neste momento, já não queria saber do nível de viscosidade da minha pele ou a horrorosidade do cabelo. Deixei-me vencer pela humidade)

 

Ainda na press trip, visitei um centro comercial, com uma dimensão colossal, que contrasta com tudo o que se vê lá fora: o centro comercial era arejado, minimal, com ótimas lojas; nas ruas está tudo a cair de velho, imensos edifícios cuja construção ficou a meio e outras paisagens típicas de países em desenvolvimento. De facto, safa-se a praia.

Devo admitir que não me lembro se a Bahia era bonita, mas sei que todo aquele caos me assustou imenso. O trânsito era medonho, gente a buzinar por todo o lado, estradas em muito mau estado – e embora aqui isso também não fosse exemplar, era muito melhor do que aquilo que eu me recordo da minha viagem anterior.

Os brasileiros continuam naquela sua típica boa disposição, independentemente da sua qualidade de vida. Confesso que muitas vezes tudo aquilo que me soa a falso, mas uma pessoa acaba por se habituar – já é algo que faz parte da identidade cultural deles. Nunca andei sozinha na rua, mas tive sempre muita atenção em não ter nada valioso comigo, por isso nunca me senti minimamente ameaçada – mas estava sempre atenta e com os olhos em todo o lado, porque já se sabe que uma mulher prevenida vale por duas.

 

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Venda de milho na rua

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Um talho aberto, a que eles chamam "frigorífico" (cof cof cof)

 

Um dos temas mais presentes desta minha viagem foi a exportação e a vontade que eles têm em crescer, particularmente a moda brasileira. Mas, muito honestamente, acho que estão muito longe disso. Não se podem definir objetivos enormes sem se passar pela base – e eles falham numa coisa tão simples como falar inglês. Nem no hotel sabiam! Os estilistas não conseguiam comunicar com a minha colega londrina, era sempre preciso um intermediário; fomos a uma empresa e uma das figuras mais altas não sabia dizer o que faziam noutra língua sem ser a dele. E isso, para mim, é grave. Na moda e em tudo. Também isso terá certamente impacto negativo para o turismo.

Uma pessoa anda por lá e pensa que o que não falta é potencial. Eles têm tudo. Mas falham nas bases: no ensino, nos políticos, na forma de estar – e sabem-no. Em conversa com alguns brasileiros, percebi que eles têm noção tanto daquilo que podiam ser como de tudo o que fazem mal. Criticam objetivamente os políticos, por exemplo, mas acho que ainda falta alguma auto-crítica por parte de cada um deles. Aquele “jeito de ser” que tanto nos encanta neles, tão divertidos quanto leves, tem tanto de encantador como de mau, principalmente para eles próprios, que têm muito para fazer se quiserem sair do eterno status de “em desenvolvimento”.

Dado o meu estado de espírito um bocadinho atribulado durante a viagem, perguntaram-me se me arrependia de ter ido. Nunca. Não sei se, sabendo o que sei hoje, voltaria - mas arrepender-me de uma coisa que fiz pela primeira vez, para pelo menos tentar, nem pensar. Foi só mais um bónus da vida. Nunca pensei voltar ao Brasil e, em menos de uma semana, lá fui eu. Já aprendi umas tantas coisas :)

 

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A praia

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O pôr do sol em frente ao local do evento

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As pinturas nas paredes são a forma mais comum de publicidade - algumas líndissimas!

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O adeus a este país tropical <3

17
Jan18

Review da semana #24

Carolina

Trello

 

Não sei quanto a vós, mas eu sou doidinha por listas. Infelizmente ando a desleixar-me no meu bullet journal, que devia ser a casa-mãe de todas as minhas listas e listinhas, mas mesmo na altura em que andava sempre com ele de atrelado apercebi-me que já não o usava 100% das vezes que queria apontar algo. Tudo o que eram coisas rápidas, que estavam no meu top-of-mind e que eu sabia (ou achava?) que não me ia esquecer, optava por não escrever só com a preguiça de ter de ir buscar o caderno, abri-lo, pegar no estojo, tirar a caneta, escrever e guardar tudo de novo.

Acho que já se imagina o final desta história: eu às vezes não apontava e acaba por me esquecer de algumas coisas. Como dizem os outros, de boas intenções está o inferno cheio - e eu tinha muitas, mas também já tinha uma lista mental demasiado grande para conseguir dar conta do recado. Entretanto chegou Janeiro, eu ainda nem sequer inaugurei o mês no meu bullet journal e o trabalho não abranda... muito pelo contrário. E eu sinto-me perdida, com um medo terrível de falhar, de que a memória não chegue para tudo... e por isso recorro às minhas melhores-amigas listas. Acima de tudo - mais até do que a componente organizacional - é uma forma de me acalmar, de saber que tudo o que paira na minha cabeça está assente em qualquer lado, de que não ficará esquecido e que está sempre lá mal chegue o tempo de executar a tarefa x ou y.

Lembro-me de ter esta sensação nos meus primeiros tempos no mundo laboral: vinham coisas para fazer de todos os lados, sobre assuntos diferentes, que implicavam recados para ali, tarefas para acolá, marcações na agenda, emails para uns, notas para outros... e eu sentia que o meu cérebro estava a jogar à cabra-cega, de tão perdido que estava. Na altura passou mas, nesta nova fase no trabalho, em que faço o dobro do que fazia antes, o pânico de me faltar algo voltou para me assombrar. E por isso eu voltei a utilizar uma ferramenta que tinha utilizado há cerca de um ano e meio, na altura para uma função muito específica, mas que é maravilhosa para "listólicos" como eu. Chama-se Trello e consiste numa aplicação à base de... (rufos de tambores) listas!

Podem criar vários "cartões", que é como quem diz tópicos-chave, e a partir daí recheá-los com tudo e mais alguma coisa. Mesmo dentro dos próprios tópicos podem colocar comentários, pondo notas se assim precisarem, e até anexar fotografias e ficheiros, colocar datas limite, fazer check-lists e até adicionar outras pessoas às vossas listas e tabelas, sendo por isso uma ferramenta útil também para o trabalho. Depois de feitos, arquivam os tópicos-chave ou simplesmente as tarefas neles contidas (ou movem-nas, conforme preferirem).

Tem a grande vantagem de funcionar em browser e em aplicação no telemóvel, o que faz com que tenham sempre um aparelho à mão para atualizar as listas quando necessário. Acima de tudo, é uma forma rápida, organizada e muito flexível (pelas muitas possibilidades que tem, tanto a nível das listas, como de personalização e até de partilha) de trabalhar com listas, principalmente para alguém como eu que se apoia nelas para ter sempre tudo sobre controlo e que passa a vida a escrever e a apagar coisas à medida que o dia vai passando. 

 

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28
Nov17

Dezembro, podemos pôr um bocadinho o pé no travão?

Carolina

Ainda só passei uma vez pela época natalícia enquanto trabalhadora - esta vai ser a segunda - mas já percebi que o ano passado não foi uma excepção, mas sim a regra: Novembro e Dezembro são caóticos, os piores meses do ano no que diz respeito ao volume de trabalho, volume de stress, volume de problemas e volume de correrias. Não sei se é assim em todos os tipos de trabalho, mas fazer um jornal mensal nesta altura - e devido à época festiva, que faz com que os últimos quinze dias de Dezembro sejam praticamente inutilizáveis - significa fechar dois jornais num só mês, o que não é propriamente fácil.

Para além disso, algumas coisas estão a mudar no jornal e eu estou a acumular (e a aprender) funções, o que me vai passar a roubar mais tempo; por o Natal estar a chegar também começam os jantares e os almoços, os amigos-secretos e a decisão e a compra das prendas de Natal; como se isso não bastasse, ainda me meti num "projeto de Natal" pessoal, em que estou a recolher gravações da família inteira dos últimos 20 anos - e a passa-las das cassetes para o computador - para depois fazer um best of em plena véspera natalícia. Não quero revelar demasiado, porque tenho muitos cuscos na minha família a ler este blog que estão ávidos de informação, mas depois do grade dia conto um bocadinho desta aventura que me tem ocupado muitas horas nas últimas semanas (nomeadamente para pôr a trabalhar equipamentos que não viam a luz do dia há uns 15 anos).

É claro que isto tudo ainda se conjuga com a vida familiar, o blog, o piano e o ginásio - e mais algumas coisas que vão surgindo pelo meio -, pelo que a gestão não tem sido fácil. Eu bem que tento escrever ao fim-de-semana, mas nem isso tem sido simples - e, confesso, a vontade de passar ainda mais horas em frente ao computador durante as minhas "horas livres" também não é muita. 

Com isto quero dizer duas coisas: a primeira é desculpem pela ausência - eu prezo muito a constância de publicações em qualquer blog e gosto e tento escrever todos os dias aqui, mas há alturas em que, por uma razão ou por outra, não consigo; a segunda é que isto não é, de todo, uma questão de preguiça - porque, quando for, eu admito e passarei aqui para vos dizer "não estou com pachorra para escrever" em vez de perder tempo em explicações como esta. Chateia-me cada vez mais que as pessoas achem que eu não faço nada só porque tenho um trabalho que me permite uma grande flexibilidade de horários; não deixo as coisas por fazer e, até hoje, não tive qualquer razão de queixa por parte das pessoas com quem trabalho ou que me chefiam. Tenho prioridades e o trabalho vem sempre primeiro: mas organizo-me da melhor forma, todos os dias, e de maneiras diferentes com o objetivo final de ter ter tudo pronto e bem feito no menor tempo possível - e, para isso, não me arrasto, não faço fretes, tento ser objetiva e riscar tarefas do caderno. E isto faz com que consiga ter aulas de piano, consiga ir ao ginásio, consiga escrever aqui e que consiga meter-me em projetos natalícios que se calhar só eu é que vou achar piada. E isso, que eu saiba, são coisas suficientes para deixar alguém ocupado até aos dentes. 

(Farei o meu melhor para escrever todos os dias - caso não consiga, já sabem: ando metida entre jornais e cassetes :))

09
Out17

A questão: como acabar com o molenguice durante a tarde?

Carolina

Sou uma pessoa muito mais dinâmica e produtiva de manhã do que de tarde. Juro: a diferença é abismal. De manhã sou capaz de fazer tudo, às vezes nem me lembro de comer, trabalho desde que me sento no escritório até à hora de almoço. À tarde é todo um drama: fico cansada, tenho sono, a minha produtividade cai a pique.

Tenho a sorte de ter um horário muito liberal e por isso, apercebendo-me disto, comecei a ir trabalhar mais cedo, de forma a fazer mais coisas no período da manhã do que de tarde. Mas eu olho para todas as pessoas normais à minha volta e não me parece que sejam todos assim. O que será que eu faço mal para ter tanto sono durante a tarde? Será que é o facto de vir almoçar a casa que me quebra a rotina de trabalho e me faz facilmente arrastar para o sofá e me dar a preguiça? Será que já é mesmo o meu metabolismo que está habituado a descansar à tarde? Só quando estou em pleno stress e a mil a hora é que isto não acontece - caso contrário, se o meu cérebro se aperceber que tem tempo para fazer as tarefas, vai-se arrastando e levando-me com ele.

E a questão é ainda mais grave se acrescentarmos o facto de eu até dormir bastante. É verdade que acordo cedo, mas também me deito cedo: normalmente, antes das 23h já estou na cama. Porque para além de sentir que não sou produtiva à tarde, durante a noite a coisa também não melhora e tenho cada vez mais tendência para me deitar cedo e descansar.

Sinto que, a este nível, já passei por várias fases. Lembro-me que durante o secundário estudava muito bem de noite, deitava-me às tantas da manhã para estudar e no dia seguinte recuperava à tarde, mas sempre de uma forma equilibrada e sempre produtiva o suficiente para ter bons resultados. Já tive outras alturas em que estudar de manhã era missão impossível e que só de tarde é que conseguia mesmo abrir a pestana. E agora é isto.

Consigo ajustar o meu tempo e a minha energia ao trabalho que tenho – ainda que, na prática, faça horários um bocado estranhos – mas chateia-me muito não conseguir ser produtiva durante a tarde, altura em que toda a gente está a trabalhar, responde a emails e torna todo o processo muito mais fácil para também eu trabalhar de forma eficaz. Para os mais preocupados com a saúde: sim, já fiz análises e está tudo nos conformes. Por isso a questão põe-se: como é que se contorna este cansaço do demónio, como é que se regula os nossos tempos com os “normais” e se tem energia o dia todo? Estou aberta a dicas! Obrigada!

 

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29
Ago17

Meu querido mês de Agosto

Carolina

Este Agosto foi estranho e muito atípico para mim que, pela primeira vez na vida, tive de fazer alguma coisa durante um mês onde sempre tive férias. Foi estranho, confuso, mas bom, até porque percebi as maravilhas de trabalhar enquanto tudo está de férias.

Trabalhar em Agosto é não apanhar trânsito na comum hora de ponta, mesmo nas piores estradas; é ter lugar à porta do prédio onde trabalhas e ainda escolher qual a melhor sombra; é não receber vinte emails por hora, mas receber de volta muitas mensagens com o assunto “Férias / Vacations / Vacances”; é teres silêncio no escritório porque está tudo de férias; é ter metade das coisas para fazer e deixar a vida correr.

Mas trabalhar em Agosto, principalmente quando tens 22 anos e os teus amigos ainda estudam, é ver o pessoal todo de papo para o ar enquanto tu tens de ir para o escritório; é ter muito sono quando vamos tomar café a um dia da semana e começar a olhar para o relógio quando batem as 23h; é ver as agendas deles vazias, prontas para umas férias improvisadas, e tu teres de fazer contas à vida; é acordar para ir trabalhar, ver os instastories, e perceber que a maioria das pessoas que segues está, àquela mesma hora, a sair do Lick ou do Bliss, algures em Vilamoura. Mas tudo isto só seria mau se eu fizesse muitas destas coisas nos meus tempos de estudante – e não fazia.

Tudo o que queria fazer este mês, fiz – com mais ou menos stress, adiantando mais ou menos trabalho, a correr ou devagarinho, com mais ou menos tempo do que queria… fiz tudo. Provei o sabor a férias enquanto trabalhava, num mês de Agosto sossegado – e descobri que a cidade é maravilhosa de se viver nestes meses onde todos se retiram para outros pontos do país e do mundo.

Ontem, quando cheguei ao trabalho, já não tinha os lugares de estacionamento todos só para mim e soube que, apesar de Agosto ainda não ter chegado ao fim no calendário, já se finou. Acabou a calma, começa a vida, a agitação, a correria do costume. E a mim está a custar-me a acordar desta calmia, desta desorganização organizada, deste arrastar bom, deste misto de trabalho com cheiro a férias – ainda que mais dos outros do que minhas.

Meu querido mês de Agosto… não sabia o quanto eras bom. Até para o ano.

 

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(Gerês, Agosto 2017)

23
Ago17

Este trabalho não é para mim

Carolina

Durante este ano de trabalho nunca acordei e pensei "este é o trabalho perfeito para mim". Apesar disso, considero que foi um ano do caraças, onde aprendi até à ponta dos cabelos - e, confiem, eles estão enormes! - e em que foram muitos raros os dias em que não me apetecia ir trabalhar, conviver com os meus colegas e fazer as tarefas que, com o tempo e o hábito, me foram sendo destinadas. No meio dos dias atarefados, de todas as novidades - o salário, o IRS, os recibos, o médico do trabalho, as viagens, o chefe, os colegas, o patrão, as quezílias, as histórias, as férias, as folgas e as faltas -, sempre tive dias de recaídas, em que me perguntava "porquê que aceitei isto?" ou ia mais a fundo e questionava o raio do curso que tirei. Comunicação. Eu, de facto, precisava de um curso intensivo de comunicação com os outros: mas não era para o exercer exaustivamente para o resto da vida!

Este trabalho não é para mim. Eu não nasci para ser jornalista, porque isso implica ir muitas vezes contra aquilo que eu sou. E isso faz-me sofrer. Sofro porque não quero falar com as pessoas, ligar às pessoas, chatear as pessoas. Mas depois também sofro porque tenho prazos de entrega, porque tenho de mostrar trabalho, porque as coisas têm de sair feitas - e bem feitas - independentemente dos dramas pessoais de cada um. E eu não sou de falar, mas também não sou de falhar. E dentro de mim vive-se constantemente este confronto de titãs, entre o não-quero-fazer e o tens-de-fazer

E sim, na vida vamos ter eventualmente de ultrapassar estas questões - quer em termos profissionais como pessoais. Mas eu estou a faze-lo todos os dias, e isso desgasta-me. Todos os dias estas metades de mim lutam, de espadachim em punho, até o tens-de-fazer ganhar, já com a ponta afiada apontada à garganta do não-quero-fazer. Ele, já sem ar, com as lágrimas nos olhos, o nó na garganta e o desespero no âmago lá faz o que tem a fazer, a muito custo. E quem vê de fora diz que os resultados são bons, que as conversas fluem, que eu sou simpática e natural - nem desconfiando que parte de mim está com uma lâmina encostada à jugular.

Quando alguém me diz "tem de falar com", o meu coração pára por um milissegundo. Lá vamos nós: mais uma moedinha, mais uma voltinha. Principalmente nas férias o "ter de falar com" é ainda pior: eu sei que estou a ligar para pessoas que estão de férias sobre matérias relacionadas com o seu trabalho - e isso chateia-me, porque eu não quero falar de trabalho quando tenho os meus dias de descanso. Eu tenho esta mente "antiquada": não gosto de ligar para ninguém depois das 22h a menos que seja uma emergência, evito ligar à hora das refeições porque para mim são horas sagradas, assim como tento não ligar fora das horas de expediente. Sei que hoje em dia isso significa muito pouco, mas eu tenho esses valores enraizados em mim e de cada vez que clico no botão verde para ligar a alguém, sabendo que essa pessoa está no seu tempo de folga, para mim é matar-me um bocadinho. É ir contra aquilo que acredito. É fazer aos outros aquilo que não gosto que me façam a mim - e eu sempre levei este ditado muito a sério.

Este trabalho não é para mim. Eu não tenho língua de perguntador, eu tenho pânico de falar com os outros ao telemóvel, eu detesto a sensação de estar a chatear alguém, eu evito contactos físicos a todo o custo. Lutei durante muitos meses com o termo "jornalista"; no meu cartão não tem qualquer identificação do meu trabalho, quando me apresentava era simplesmente como colaboradora do jornal. Mas o bloco na mão, os meus textos e as perguntas tiram a dúvida à maioria. Começaram a apresentar-me como jornalista, a identificar-me como jornalista e eu, há um par de meses, tive de me render. "Olá, o meu nome é Carolina Guimarães e sou jornalista", digo, enquanto me dói a alma. Faço-o porque facilita a vida aos outros, não porque sinta que seja verdade. Eu, na realidade, sou tudo menos jornalista. Sou apenas uma miúda que gosta de escrever e que tem pânico de não cumprir com a sua palavra e com aquilo que é para ela mais sagrado: o trabalho. Ainda que este não seja para ela. Porque o tempo é um pau de dois bicos: habitua-nos a fazer coisas que inicialmente tínhamos mais dificuldades (e eu já melhorei muito!), mas também nos dá mais certezas sobre aquilo para o qual fomos ou não feitos para fazer ou ser. E eu sei que este trabalho não é para mim - embora o continue a fazer, eu própria de espada na mão, lutando contra as minhas duas metades. 

29
Mai17

O medo de me tornar numa pessoa desinteressante

Carolina

O "Up in the Air" (não é o da Disney, mas sim o do George Clooney e da Anna Kendrick) estreou quando eu tinha 14 anos e marcou-me muito. Lembro-me de o ter ido ver ao cinema, de vir para casa e chorar - e depois de escrever um post estilo este, naqueles que foram os meus primeiros tempos de escrita. Tinha só 14 anos, mas revi-me totalmente no que ali via - e na altura disse-o, sem vergonhas: "acho que isto vou ser eu no futuro". Não me referia ao trabalho horrível que a personagem principal tinha - que era, no fundo, despedir pessoas (era contratado por empresas para fazer despedimentos coletivos em todo o mundo e por isso passava a vida a viajar, nunca estava em casa, não tinha amigos, mulher ou filhos - apenas uma família que ignorava); falava - já nessa altura! - de de viver para o trabalho, ser "casado" com ele (embora, ao contrário do filme, a minha família vá estar sempre em primeiro lugar).

Ou seja, o facto de eu achar que nunca me vou casar ou ter filhos não é de todo uma ideia nova para mim - simplesmente sinto que esteve sempre comigo. Não quer dizer que não mude, não quer dizer que seja uma opinião para a vida ou muito menos uma decisão: é apenas um feeling, algo que tenho há muitos anos e que acho que não me reduz enquanto pessoa ou mulher - simplesmente sou como sou e posso ter outros milhões de gostos e afazeres para além da vida de casada e de mãe. Mas, em contraposiçãom tenho o trabalho, algo recente para mim mas que sempre soube que ia ser a minha praia, o meu porto seguro (independentemente de até poder não ser seguro, de eu ter dúvidas ou de existirem dias maus - é simplesmente terreno onde eu sempre soube que me ia conseguir levar avante, porque é o que sei fazer bem) - e que, para o bem e para o mal, ocupa uma grande fatia da minha vida.

Mas ultimamente, nos poucos encontros que tenho com pessoas amigas ou família, dou por mim a falar de trabalho. Das minhas viagens de trabalho, dos meus colegas de trabalho, das minhas tarefas no trabalho, nas minhas complicações no trabalho, nas peripécias do trabalho. E tenho medo de me estar a tornar só nisto, quando - apesar de todos os defeitos que sei que tenho -sempre me achei uma pessoa interessante, que tem uma resposta minimamente correta e coerente para tudo, que não sabe muito de nada mas que com aquilo que vai ouvindo, lendo e falando consegue ter uma opinião sobre algo e manter uma conversa interessante. E agora: trabalho. A muleta de sempre: o meu porto seguro quando todos os outros portos parecem despovoados e inseguros, mas que é provavelmente uma seca para quem está à minha volta. E quando rebobino mentalmente as conversas que tive, e se a minha percepção for a correta, quase tenho vergonha de mim própria por aquilo que hoje em dia faço.

Tenho medo de só me tornar nisto, quando acho que sou muito mais que isto. Tenho medo de ser aquela pessoa chata num grupo de amigos que (já) mal conhece que só fala do escritório, do patrão e dos dramas da vida laborar. Tenho medo de estar a crescer e de, ao mesmo tempo, estar a ficar mais pequenina.

15
Mai17

Se calhar, ter as perguntas certas não é tudo

Carolina

Eu tenho um medo terrível de falhar nas coisas que faço bem - e eu acho que faço pouca coisa bem. O campo "trabalho" sempre foi o meu porto seguro - mesmo quando estudava já era assim: tinha boas notas, os professores gostavam de mim, sentia que correspondia bem às minhas expectativas e às responsabilidades e portanto, mesmo sabendo que era uma treta em tantos outros campos, aquele cantinho da minha vida reconfortava-me. Quando comecei trabalhar tive a mesma sensação - acho que sempre fiz bem o meu trabalho, cumprindo com tudo o que me propus e me propuseram e isso concretizava-me muito, ao mesmo tempo que me descansava: ufa, eu era boa em alguma coisa!

Inicialmente, o meu trabalho no jornal tinha uma componente informática muito grande - e eu estava a delirar por estar a trabalhar em informática, a escrever aqui e ali e a lidar com têxtil. Era a receita perfeita para todas as áreas que eu amo. Mas ao longo dos meses acabei por ir escrevendo mais, e mais, e mais. Por um lado é uma coisa boa: é a consagração daquilo que eu acho fazer de melhor, que é escrever; por outro, implica um jornalismo "puro", que eu acho que não faço bem e por isso sinto-me indubitavelmente mais frágil. A quantidade de coisas que tenho aprendido nos últimos meses é imensurável mas uma das coisas que me dá mais gozo é ver como se desenrola uma entrevista ou uma conversa; sempre que ouço ou acompanho os meus colegas numa entrevista, fico quase hipnotizada pela capacidade que eles têm de "arrancar" informações às pessoas, de faze-las dizer certas coisas com perguntas que por vezes não têm nada que ver, de fazer rolar uma conversa normal, descontraída, mas recheada de conteúdo informativo - e ainda assim ser uma troca de diálogos que se ouve com gosto. E também é nesses momentos, em que os vejo fazer essa arte, que percebo (ou acho) que de facto não fui feita para fazer perguntas. Se calhar fui feita para escrever respostas, pensamentos, críticas - mas perguntar não parece ser a minha praia (e isso, confesso, entristece-me).

De qualquer das formas, continuo a tentar - até porque tenho trabalho para fazer e, apesar das perguntas não estarem na ponta da língua, eu esforço-me sempre por fazer o melhor possível. Já percebi que me custa mais falar ao telefone do que pessoalmente, por exemplo; o primeiro contacto com outras pessoas é sempre um drama para mim, mas depois (em muitos casos) acaba por ser gratificante - e tenho passeado por aí, conhecendo fábricas e pessoas que, sinceramente, me acrescentam e me aquecem a alma. Olho para trás e percebo imediatamente que aquilo que vi e ouvi me acrescentou algo, que aprendi alguma coisa e isso é a melhor sensação que se pode ter.

Hoje, por exemplo, fui falar com uma estilista. Como sempre ia um bocadinho apreensiva, mas positiva de que ia correr bem (por aquilo que já conhecia dela). Normalmente, para o artigo que ia lá escrever, despacho uma conversa em quinze minutos, vinte no máximo - e hoje a conversa fluiu tão bem que demorou mais de uma hora. Antes do alinhamento de perguntas que tinha planeado acabei por falar um bocadinho sobre o jornal, os nossos planos para o futuro e até sobre mim. No meio daquilo tudo, e enquanto lhe dizia o que queríamos fazer, os nossos novos projetos e até algumas reportagens que eu tinha curiosidade em fazer, ela diz-me - não em forma de pergunta, mas sim numa afirmação: "nota-se mesmo que gosta do que faz". E eu, nesse momento, respirei de alívio e fiquei tão feliz. Foi a primeira vez que alguém me disse isso - e eu, naquele momento, estava mesmo a adorar o que estava a fazer.

Se calhar, ter língua de perguntador não é tudo. Se calhar, uma pinga de antissociabilidade, a falta de à vontade para falar com pessoas e um não-amor pelo jornalismo conseguem ser ultrapassados por algo maior. Se calhar a paixão que tenho por este mundo basta. 

18
Abr17

O fim da paz nas estradas portuguesas

Carolina

Eu sei que esta época de férias é diabólica para os pais, que por sua vez acaba por ser diabólica para os avós (que eventualmente têm que ficar com os netos) ou até para os tios (que, quando é preciso, tomam o lugar dos avós). Eu agora não me posso queixar, porque este ano houve uma série de fatores que fizeram com que os meus sobrinhos não fossem lá parar a casa on a daily basis - e, de qualquer das formas, eu agora trabalho, portanto já não passaria o dia com as crianças de um lado para o outro.

Mas como trabalhadora que sou, sofro o drama diário de quem vai e vem para o trabalho todos os dias, inevitavelmente naquela hora terrível chamada "hora de ponta" - que é incrivelmente adensada por todas as crianças que vão para a escola com os pais. E nisto, desculpem-me os progenitores desesperados por não saberem onde deixar as crianças, mães que meteram férias e já estão por esta hora a arrancar cabelos, avós que já perderam a paciência há vinte anos atrás ou tias que simplesmente não nasceram para isso (sim, estou aqui a rever-me...) mas, para quem trabalha, estas duas semaninhas (e todas as outras que ainda hão de vir no verão) são assim o paraíso na terra. Não há filas, não há confusão, é sempre abrir até estacionar. Uma pequena maravilha.

Mas pronto, acho que hoje é oficialmente o fim da paz. Adeus estradas desimpedidas, adeus ruas de escolas sem trinta carros estacionados em segunda e terceira fila, adeus aos cinco minutinhos extra na cama! You will be missed! 

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