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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

03
Set23

Voltar ao sítio onde temos de estar

Vamos entrar na 36ª semana do ano - aquela que, para muitos de nós, dá o pontapé de saída o início real de um novo ano. Isso quer dizer que já lá vão 35 segundas-feiras ultrapassadas - cerca de 30 delas em esforço pleno. Podia dizer-se que a de amanhã será a mais dura de todas, tendo em conta que as últimas três semanas foram de férias, mas a verdade é que acho que não. São todas difíceis. Foram todas difíceis, este ano. 

Se eu fechar os olhos e pensar a curto prazo, sinto que o meu cérebro me leva para o dia de Natal do ano passado. E, numa perninha, passamos para o dia de hoje - nove meses passados num ápice, num daqueles paradoxos de tempo, falácias de memória e erros de percepção que nos acontecem tipicamente nos momentos muito bons ou muito maus, em que os dias parecem não passar enquanto os estamos a viver, mas quando fazemos deles passado parecem ter andado em modo fast-forward ao ponto de quase não nos lembrarmos de nada para além do inicio e da meta.

Fui à fábrica na passada sexta-feira ultimar um par de coisas antes do regresso oficial e o "baque" que senti foi grande. Uma das coisas que não nos contam sobre a indústria é que há sempre alguma coisa que não está bem - coisas muito graves que exigem mudanças imediatas porque estão de alguma forma a criar entraves no processo, coisas graves que pomos na lista de afazeres a curto-prazo e todas as outras, onde incorporamos o espírito de "vai-se fazendo". Isto agudiza-se quando herdamos uma empresa velha em infraestruturas, em cultura e recursos-humanos: o "vai-se fazendo" cresce em nós, porque não há outra maneira de fazer as coisas. Porque não há dinheiro para pôr tudo direito de uma só vez, porque não podemos correr o risco de fazer mudanças tão bruscas que assustem as pessoas que trabalham naqueles postos há décadas, porque as formas de estar e de trabalhar talvez nunca venham a mudar. 

Quando entrei nos salões vi lixo, que sei que já lá estava antes, mas cujo os meus olhos já se tinham habituado até há pouco menos de um mês; senti o cheiro a óleo que para mim é normalmente tão natural como o odor ao shampô que ponho no cabelo; vi coisas desarrumadas, desalinhamentos desnecessários - tudo pormenores que, ainda há dias, me tinham passado despercebidos porque a visão já está viciada e a alma cansada de tentar alterar coisas cuja inércia é, aparentemente, maior do que a minha força da mudança.

Acho que a paciência e a resiliência são, talvez, as ferramentas mais úteis e preciosas no meu trabalho - mas estas são também características de alto desgaste, principalmente quando os tempos são duros de se viver, como foi esta primeira metade do ano. Este é o meu quinto ano à frente da fábrica e eu já conheço esta sensação de início de Setembro: um misto de tristeza pelo fim das férias mas de pujança para fazer as coisas acontecerem, mudar o que tem de ser mudado, como quem vai meter a primeira mudança depois de uns dias sem ter de fazer trabalho de embraiagem. Mas o que a experiência me conta é que, infelizmente, há qualquer coisa no caminho (normalmente logo nos primeiros quilómetros) que nos faz imediatamente abrandar e todos aqueles planos iniciais caem por terra. As próximas duas semanas já me darão, certamente, água pela barba: aguardam-me sessões de esclarecimento com todos os funcionários, uma auditoria e dois dias de feira. E depois? Depois só queria sossego e normalidade.

A questão é que eu não sei se sossego e normalidade são sinónimos ou, no mínimo, coabitantes nesta vida que eu escolhi. Será que sou só eu que estou eternamente à espera de períodos mais sossegados na minha vida, que acabam por nunca acontecer? Estou cheia de planos para esses dias: nessa altura vou finalmente arrumar as peças soltas de uma das urdideiras, vou finalmente organizar o escritório contíguo ao meu que foi acidentalmente transformado em sala de arrumos, vou finalmente enumerar todas as chaves que me faltam; vou finalmente colar o relógio partido que tenho aqui em casa, vou finalmente elaborar o álbum de fotos sobre o verão passado, vou finalmente pôr todos os emails em dia. Aguardo o dia em que não tenha coisas urgentes para tratar para poder pôr estes "finalmentes" em prática - mas o dia nunca chega, pois não?

Eu gostava que chegasse. E, como tal, é esse o meu desejo para este novo recomeço. Nesta altura do ano as contas já estão quase todas feitas e não vale a pena gastarmos os nossos desejos em esperanças infundadas. Já sei que não vale a pena pedir um ano de trabalho bem sucedido, calmo ou extraordinário - porque não será. Daqui a uns meses, quando estivermos a fechar mais um Natal, a análise a fazer será expectavelmente de que este foi um ano de superação e de sobrevivência - mais um, neste meu percurso de industrial. Como extra, gostava apenas que fosse um ano de "finalmentes". Finalmente arrumei aquilo! Finalmente fui ao cinema! Finalmente fiz o álbum! Caraças, finalmente respirei enquanto trabalhava. Que bom que isso deve ser.

Um bom regresso para todos. Há que voltar ao sítio onde temos de estar.

 

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28
Mar23

Contra as raposas velhas: remar, remar!

Aprendi que devo falar com muito pudor sobre o meu trabalho. Sou sempre muito contida nas apreciações e opiniões que teço, não vá ofender o mais próximo. Não me apetece comprar guerras. Sei que,  aos olhos da maioria, estou numa posição de favorecimento constante - e não vai ser o meu discurso que vai mudar (ou, simplesmente, suavizar - o que já não era mau) as teorias de Marx e companhia, que ainda hoje agudizam o gap que existe entre patrões e trabalhadores. Tenho pena que, quase a um quarto do século XXI, isto ainda venha à baila num país desenvolvido - mas não me iludo e sei que provavelmente este paradigma nunca se vai alterar. Teria muito para dizer - mas, para isso, teria que ouvir também, e nesta fase que atravesso não tenho energia para tanto.

O facto de não escrever sobre o meu trabalho faz com que, na maioria dos dias, não escreva de todo - porque muito do que me apoquenta, muitas das minhas reflexões, giram à volta deste mundo. Quer eu queira, quer não, é na fábrica que passo a maior parte do meu dia - e é lá que nascem os meus maiores problemas. Cedo defini balizas sobre o que escrever ou não - e pus um risco bem visível sobre este tema depois de ter escrito um post que achei inofensivo (e instrutivo) sobre a construção de currículos mas que, na área dos comentários, deu pano para mangas.

Hoje, no entanto, quebro a regra para poder desabafar. Não sobre um problema do ponto de vista de um patrão ou de um emprego - mas sim sobre uma questão geral que assola a indústria onde trabalho (a têxtil) e, infelizmente, a sociedade em geral.

A mentira. Aliás, permitam-me o vernáculo: a merda da mentira! A falta de transparência. A ganância. A falta de vontade de deixar tudo claro; a premeditação, o costume, o tão habitual que é o normal. E, no fim de linha, a incapacidade de percebermos que temos de romper ciclos para passar para o próximo nível.

Cresci a ouvir os clientes ligarem em repeat mode para os comerciais para saberem os prazos de entrega de um determinado produto. "É já amanhã", diziam eles, sabendo que só passado quatro dias é que entregavam a mercadoria. Mesmo na altura, do alto dos meus sete ou oito anos, percebi que não o faziam por mal - mas a pressão do cliente era tanta que se rendiam à evidência de que do outro lado só se iriam calar quando lhes dissessem o que queriam ouvir. 

Vejo diariamente jogadas sujas, que repudio sempre. Pedir cotações de algo e perceber, por comparação, que alguém me está a dar um preço inflacionado para ver se cola - mas, quando confrontados, "falam com a administração" e conseguem um valor significativamente mais baixo; ou então, pura e simplesmente, mandar o rececionista dizer que "estamos numa reunião até ao final da tarde" quando passamos o dia todo ao computador no nosso escritório.

Isto são só o exemplos próximos, do meu dia-a-dia, com que sempre lidei. Há tantos outros que me poderia lembrar se quisesse. Têm todos um elo comum: a falta de honestidade. E o problema aqui é que, em qualquer fase que apanhemos o comboio, somos obrigados a adequarmo-nos àquilo que está instituído - e isso, normalmente, implica mentir também. 

Eu sou nova, ocupo uma posição de poder dentro de uma instituição (que é pequena, mas o tamanho não importa) e, como tal, sinto a responsabilidade moral de fazer parte da mudança - uma mudança transversal, que passa por ações e por mentalidades, por um estreitamento do gap patrão-funcionário e cliente-fornecedor. E por isso, quando assumi que era isto que queria fazer da vida, decidi partir a roda. Enquanto patroa, não quero ficar-me pelo escritório e não conhecer o chão de fábrica. Não quero que me tratem por doutora ou engenheira (que, na verdade, não sou), mas pelo nome que me deram quando nasci. Não quero reger pelo medo, mas pelo respeito e pelo exemplo. Quero condições dignas para todos, quero equilíbrio, quero abertura para se darem opiniões e reportarem problemas. Quero a verdade - mesmo que isso tenha consequências.

Defini que o rigor nos prazos e a transparência tinham que ser o nosso mote. Se o cliente quer uma malha para dia 24 e eu só a posso entregar dia 26, então o negócio não acontece. Se o cliente liga a perguntar se eu estou e se eu estiver, de facto, disponível, eu atendo - e não mando alguém mentir por mim. Se a malha vai com uma quantidade de defeitos maior que o aceitável, a crise antecipa-se: fala-se ao cliente, explica-se a situação, propõem-se solução e não se espera simplesmente que eles não notem.

Os conservadores apontar-me-ão o dedo e dirão que, no meio deste jogo, sou eu quem sai a perder, porque os outros não jogam no mesmo tabuleiro que eu, muito menos com as mesmas regras. Mas como é que queremos que algo mude se não formos os primeiros a acreditar na mudança? O facto de eu me reger por determinados valores não quer dizer que esteja delirante, a viver num mundo irrealista: sei com que linhas é que o meu negócio se cose. Pretendo é mudá-las. E acho que a única forma de o fazer é dando o exemplo, mostrando que é possível ser-se honesto e transparente - mesmo que, em primeira instância, possa parecer que o prejuízo chega primeiro que o ganho. Como na agricultura, penso que temos de ter paciência - plantar para depois colher.

Não sei se esta é uma guerra que se possa ganhar - a inércia das raposas velhas é tão grande e forte (e, infelizmente, já com grandes heranças) que é difícil deixar de sentir que estou sempre a remar contra a maré. Sinto alguma mudança no ar - acho que as pessoas mais novas, por perceberem os erros do passado, estão a tentar fazer diferente, mas infelizmente a ganância não é uma característica que se extinga - mas sei que, a acontecer, será algo para demorar décadas. Isso não me demove, porque eu não sei trabalhar de outra forma - e se algum dia me adequar aos (maus) padrões de normalidade, dêem-me por favor uma palmada bem dada nas costas e digam-me que já não vale a pena continuar. 

Para mim, o propósito de um negócio não é só fazer dinheiro. É empregar, é criar e distribuir riqueza, é trazer algo de novo - mesmo que esse "novo" seja uma mudança de mentalidade. Eu dirijo uma fábrica velha - velha nas máquinas, velha na infraestrutura, velha nos anos e com muitas pessoas já "entradotas". Mas espero seriamente que não me faltem as forças para, daqui a uns anos, perceberem que apesar de uma carcaça velha, somos feitos de uma fibra moderna e fresca e não de uma carne rija como a das raposas velhas. 

31
Jan22

A vida é uma estranha bola de neve

Um update sobre a minha vida: dieta, trabalho, desporto e um super-relógio

Há cerca de um ano e meio fui à nutricionista porque achei que estava a ficar com peso a mais e eu não estava a conseguir emagrecer sozinha. Na altura resultou, passei dos quase 67 quilos para uns felizes 61 e segui contente da vida, com o objetivo de manter. Entretanto fiquei noiva, 2021 não chegou para brincar e eu voltei a sair dos eixos. Ainda fui a consultas aí pelo meio, para ver se a pressão de uma balança que não a de casa e o compromisso com outra pessoa funcionaria, mas nem isso fez com que eu conseguisse privar-me de certas coisas e obrigar-me a outras. Valores mais altos se levantavam.

Em Outubro, quando a vida acalmou, voltei à carga. Entre o tempo da marcação da consulta e a própria ida ao médico, vi a minha vida profissional ser abalada por um tremor de terra que mexeu muito com os alicerces da fábrica. A calmia durou dias. De qualquer das formas fui à consulta - já andava a fazer um esforço para emagrecer, a treinar pelo menos três vezes por semana e com um olho forte sob a minha alimentação (fiz um diário alimentar e tudo) mas, mais uma vez, nada resultava. Perante tudo aquilo que tinha apontado e tendo em conta tudo o que andava a fazer, a solução era só uma: cortar com todos os pequenos erros, com os deslizes e os pecadinhos que se iam cometendo para consolar a alma. 

Ainda tentei, mas não consegui durante muito tempo - entretanto, com o Natal à mistura, mais difícil tudo isto se tornou. Sei que é na privação que está a capacidade de atingir o meu objetivo - em muitas dietas não é nem deve ser, mas no meu caso e com o meu metabolismo, não há grande volta a dar - mas eu não estou em época de me privar de algo que me dê alento. Comer emocionalmente é mau, mas há alturas em que é a das poucas coisas que restam para nos aquecer o coração e a alma. Estou numa fase tão estranha e rara que sou capaz de comer uma tablete de chocolate num só dia (eu, que normalmente como um quadrado de chocolate por mês, se tanto), por isso nem vale a pena tentar fazer grandes negociações, pois sei que serão em vão. 

Este tipo de processos são complicados, pois são autênticas bolas de neve. Já estamos tristes por um acontecimento exterior e pior ficamos por não conseguirmos alcançar um objetivo a que nos auto-propusemos. Depois entra a auto-sabotagem ("perdida por dez, perdida por mil - vou comer a tablete de chocolate inteira!"), que levam a uma tristeza e uma frustração ainda maiores, que não compensam o prazer de termos comido o que quer que seja. E as coisas vão-se arrastando, piorando, dilacerando-nos por dentro. 

O trabalho sempre foi para mim uma força motriz, onde eu alicerçava os meus maiores objetivos e esperanças. Quando era mais nova e achava que ia ficar solteira para sempre, imaginava que a vertente profissional seria o pilar principal e moldador da minha vida, que seria uma trabalhadora nata, que o trabalho seria o alimento da minha alma; hoje, ainda que os meus planos se tenham alterado e a família tenha passado para primeiríssimo lugar na minha lista de prioridades, o trabalho continua a ser preponderante na minha vontade de viver, de sair da cama e fazer mais, de ver um projeto meu crescer. Mas tive azar na altura em que fiquei com a fábrica e o contexto nunca esteve a meu favor. Por muito que se goste e que se queira fazer mais, há alturas em que o desânimo e a desmotivação tomam o controle - e aquilo que aprendi nos últimos tempos é que embora devamos lutar contra isso, também devemos ser tolerantes para connosco. Não estamos sempre bem nem podemos querer estar sempre bem - e isso faz parte, porque não controlamos tudo à nossa volta. E, nessas alturas, não podendo mudar aquilo que nos provoca dor, podemos tentar mudar nós. Somos altamente adaptativos, mesmo quando achamos que não. E a verdade é que não é preciso alterar muito para às vezes acontecerem coisas que antes acharíamos inacreditáveis. 

Como não conseguia emagrecer e como a minha vida profissional também não me está a dar abébias (muito pelo contrário...), surgiu naturalmente um dos objetivos mais estranhos na história da minha vida: fazer desporto cinco vezes por semana. Quando fui à nutricionista já estava a treinar cerca de três a quatro vezes por semana, num duo entre alimentação e desporto que já achava hercúleo da minha parte. Hoje, não estando a apostar em cortes na alimentação, pus as fichas no desporto, e tem sido um desafio semanal com direito a suor e lágrimas mas, acima de tudo, de muita superação. Porque não estou focada nos resultados - e ainda bem, porque emagrecimento nem vê-lo - mas sim no facto de estar a conseguir cumprir algo que para mim seria impossível. Intercalo entre o spinning e o padel (o primeiro faço em casa, normalmente de manhã, e com muito esforço; o segundo já encaro mais como um divertimento e convívio) e controlo tudo no meu super relógio - algo que nunca pensei que ajudasse tanto neste processo.

O smartwatch (Versa 3, para quem quiser saber o modelo) foi uma prenda de Natal do meu marido, e apesar de ser um presente incrível, é daqueles assim meio envenenados. No fundo funciona como aqueles vernizes para deixar de roer as unhas: têm um sabor amargo mas o objetivo é bom. Porque por um lado o relógio é chato e controlador - queixa-se logo quando não me mexo durante uma hora e é pior que uma vizinha cusca, sabendo quantas horas durmo, quantos passos ando, quantos pisos subo, quantas calorias queimo, o oxigénio que tenho no sangue - e, se lhe der trela, até quer saber detalhes sobre o que como, o que bebo, sobre o meu ciclo menstrual e estados de stress. Admira-me, na verdade, não ter interesse sobre xixis, cocós e outras coisas igualmente íntimas - mas acredito que lá chegaremos! Por outro lado regista todos os exercícios e avanços que faço, quantas calorias perco e o meu nível de esforço, fazendo-me querer ir mais além e criando um histórico que não engana. De cada vez que penso que não sou capaz é só ir à aplicação e ver que na segunda-feira fiz isto, na terça fiz aquilo, e que continuo cá para contar a história.

A vida, de facto, dá voltas muito estranhas. Nunca achei que fosse beber inspiração e força no desporto mas, à falta de melhor, aqui estamos nós. A lutar para ficar à superfície - e, para isso, a definir novas metas quando as que tínhamos se vêem impraticáveis. A mostrar que somos capazes, mesmo em áreas que nunca achamos ser possíveis. E a trabalhar em novos hábitos, que podem manter-se em alturas de maior estabilidade. E nessa altura sim, talvez consiga perder o peso, a anca e a barriga que acho que tenho a mais. Uma coisa de cada vez. Até lá, o horizonte é sempre a tona da água.

 

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07
Fev21

Seis coisas que considero importantes num currículo ou numa candidatura

No último meio ano passaram-me centena de currículos pelos olhos. Infelizmente para mim a tarefa ainda não está concluída. Foram cinco anúncios espaçados ao longo do tempo, muitos currículos analisados criteriosamente e colocados depois numa short-list, culminando numa dezena de entrevistas presenciais e uma pré-contratação em que me deixaram ficar na mão passado quatro dias (quando, no terceiro, me tinham pedido um adiantamento). Ou seja: ainda não encontrei a pessoa certa para o cargo que preciso de preencher. 

É um trabalho dupla ou triplamente frustrante, porque o recrutamento é algo que não me traz qualquer tipo de prazer e porque se está a mostrar infrutífero apesar de eu tentar ao máximo fazer tudo direitinho e de, aparentemente (?), andarem milhares de pessoas atrás de emprego. 

Recrutar pessoas é injusto, é dar não's não fundamentados e sim's sem o devido mérito. Um currículo não mostra nada daquilo que uma pessoa é - e isto serve tanto para o bom como para o mau. Há pessoas que se sabem apresentar e a sua imagem é sobrevalorizada e há outras que, não sabendo, ficam a perder, podendo até ser profissionais de mão cheia. Recrutar é ter de tirar conclusões de forma preconceituosa, recheadas de estereótipos. Mas quem recruta tem de começar por algum lado e seria impossível estar com todos os candidatos presencialmente - sendo o currículo o pontapé de saída para depois se avançar para algo mais. 

Há muita coisa que podia escrever sobre este tema - a falta de pessoas que de facto quer trabalhar e a quantidade ainda menor que se quer sujeitar a trabalhar numa indústria, a lata de algumas ao dizerem que só mandaram o currículo porque o centro de emprego obriga, a dificuldade que é fazer entender o que de facto precisamos e em que consiste o trabalho que estamos a oferecer... Enfim, sinto que contratar alguém para um trabalho não standartizado (caixa de supermercado, repositor de loja, enfermeiro, professor e etc.) é uma autêntica odisseia. Uma que preferia não estar a viver mas que vou ter de voltar a enfrentar (estou a aguardar que a pandemia abrande para poder voltar às entrevistas), porque estou desesperada à procura de alguém que de facto queira aprender, trabalhar e crescer dentro de uma empresa. É uma jornada de desalento, mas sei que tenho de ser a pessoa que mais acredita que é possível - ou, por outro lado, a última a perder a esperança. Há-de existir alguém. Hei-de conseguir. 

Até lá, das poucas coisas boas que posso tirar desta experiência é ter ganho a noção do que é estar do lado do empregador - e assim consigo, eventualmente, ajudar quem está do outro lado, mostrando aquilo que os empregadores (ou, neste caso, eu em particular) queremos e que achamos bom ou mau num documento de apresentação.

Deixo aqui seis dicas que considero importantes para quando estamos a elaborar um currículo ou a candidatarmo-nos a um determinado emprego. (Deixei de fora coisas básicas como "não mentir", suponho que já se saiba que isso não é suposto.) Ora cá vai disto:

 

1 - Ler os anúncios com atenção (ou evitar perguntas parvas e desnecessárias)

Se há coisa em que eu tive cuidado aquando da redação dos vários anúncios que coloquei foi ser detalhada. Quando estive à procura de trabalho sempre me fez muita impressão aqueles anúncios - que infelizmente são a maioria - meio misteriosos, em que não se dizia qual era a empresa, onde se localizava ou qual era o trabalho em si. Eu escrevi tudo. E, por isso, a primeira triagem fazia-se logo pela forma como as pessoas me abordavam a propósito do anúncio - se havia algo que me fazia à partida desistir de alguém (ao ponto de nem sequer abrir o currículo) era fazerem-me perguntas cuja resposta estava espelhada no texto do anúncio. "Onde fica a empresa?", "para onde mando as minhas informações?", "qual é o salário base?", etc. Mais uma vez, somos também aqui obrigados a generalizar: mas a ideia que fica é que de alguém pouco atento, curioso e criterioso. E, logo aí, fica fora de contas. Por isso é essencial ler com muita atenção tudo o que é dito e pedido, para não ficar excluído à partida.

 

2 - Colocar uma foto a fazer bico de pato ou a mostrar o decote como se tivessem vestido um corpete dos anos XIX vestido não vos vai garantir trabalho - quer dizer... agora que penso, depende dos tipos de trabalho (cof cof)

As fotos sempre foram algo a que nunca dei grande atenção, nomeadamente quando estava a trabalhar no meu próprio currículo. Mas isto foi no passado, quando não via as fotos que as outras pessoas colocavam nos seus CV's. Eu juro que não me acreditei quando vi metade das imagens que as pessoas colocavam delas próprias! Fotos com a língua de fora, com o famoso biquinho de pato; fotos claramente com outras pessoas, que foram cortadas da imagem sem dó nem piedade; fotos tiradas de cima, dando destaque a decotes vertiginosos; fotos que metiam medo ao susto, ao ponto de nem sequer vermos o currículo até ao fim. 

Nos dias que correm não acho nada importante ter no currículo uma foto tipo-passe, tirada nu fotografo. A fotografia que escolhi para o meu, por exemplo, foi tirada por mim própria num dos muitos auto-retratos que fiz que e acho que me representa bem - descontraída, arranjada e a sorrir.

Eu vejo (e analiso) o currículo como um todo, que convém ser coerente: temos de ter a consciência de que vamos ser escolhidos (ou não) com base naquilo que lá colocamos (que não é só informação escrita!). Se dizemos que gostamos e temos um curso de fotografia, não vamos ter lá uma imagem cheia de grão, desfocada e em que apareçamos desfavorecidos. Se dizemos que a simpatia é o nosso forte, também não convém colocar uma foto com cara de mau. Percebem? É claro que há limites para esta coerência: se forem pessoas muito divertidas e com uma vida social mega animada não convém pôr fotos na discoteca ou com amigos. Mas há que tentar mostrar quem somos através de todas as vertentes que nos é possível - e isso vai muito além da nossa formação e histórico profissional. 

 

3 - Sim, a idade conta e é importante incluí-la

Quando um recrutador analisa um currículo tem de saber ao certo o que quer - e, inevitavelmente, vai ter fazer julgamentos e tirar ilações de tudo aquilo que vê e lê. Mais uma vez, repito, as conclusões que se tiram podem estar erradas. Pode querer-se alguém mais novo porque à partida tem mais energia, mas nada nos diz que um individuo de 25 anos não é mais preguiçoso e inativo que outro de 50; podemos querer alguém mais responsável e achar que uma pessoa com família formada e uma idade mais avançada é o ideal, mas pode existir um "miúdo" nos seus 20's com uma experiência de vida e responsabilidades muito maiores que alguém com 50 anos. A margem de erro é sempre grande, mas não temos outra alternativa senão tirar conclusões precipitadas e esperar que a lógica esteja a nosso favor - sendo que a triagem final é feita presencialmente, onde se tentar ter um "cheirinho" daquilo que é mesmo real.

Isto tudo para dizer que, de facto, é injusto avaliar alguém pela idade - mas ela define-nos, ainda que não sempre de forma correta. Colocar a nossa idade/data de nascimento no CV ajuda o empregador a fazer uma triagem, pois normalmente tem-se uma ideia do público-alvo ideal para o cargo que se quer ocupar. E se de facto for algo importante, o dado já esta lá; se não for, é só mais um detalhe que se passa a frente. A diferença é mesmo se esse elemento não estiver presente e for importante; a probabilidade de guardarem o currículo para perguntarem é pouca - normalmente esse vai para a pilha dos eliminados e passa-se ao próximo, na esperança que tenha toda a informação que lá esperamos encontrar.

 

4 - E sim, o local onde moram também pode pesar

Este ponto é mais importante para quem vive em grandes cidades - penso que é um problema que se dilui quando se trata de locais mais pequenos ou no interior. Morar perto do trabalho é uma vantagem enorme pois pode evitar constrangimentos no trânsito e no estacionamento ou, para outras pessoas, evitar grandes viagens de transportes públicos (com os quais uma pessoa nunca sabe muito bem com que contar, em termos de horários). Para além disso, há que fazer uma avaliação honesta: tendo em conta o salário que se vai pagar, vale a pena chamar alguém que vive a 30kms e tem de fazer esse percurso diariamente, pagando portagens e gastando gasolina? Mais uma vez, o empregador está a assumir algo sem fazer perguntas ao verdadeiro interessado - e eu digo, mais uma vez, que na realidade não há outra hipótese... De qualquer das formas, diria que este é dos pontos que menos pesa caso encontremos a pessoa certa e soubermos que é aquela que queremos.

 

5 - Os currículos Europass são overrated

Se há uns anos os Europass eram o que se queria (para todos os efeitos são mais fáceis de analisar, pois têm todos a mesma estrutura, embora possam ser densos e pesados), acho que hoje não é bem assim. Sendo totalmente honesta, a mim, dão um bocadinho a ideia de desleixo. Aliás, depende da idade: percebo que pessoas mais velhas, com mais dificuldade em mexer em softwares ou fazer pesquisas mais elaboradas, não passem de um editor de texto; já gente mais nova, que durante toda a sua vida teve em contacto direto com novas tecnologias, já não me parece tão bem. Não é preciso uma coisa XPTO - só algo bonito, minimamente trabalhado, para demonstrar que de facto houve empenho na elaboração daquele documento (o que, por acréscimo, dá a ideia de que de facto se trata de alguém que quer mesmo arranjar um trabalho).  

 

6 - Os currículos podem ser iguais - as cartas de apresentação não

A verdade é que para cada candidatura devia haver um currículo; consoante aquilo que é pedido devemos destacar certas coisas, diminuir outras, tirar coisas que potencialmente nada acrescentam (e com isto não estou a dizer para esconderem nada!). No fundo, potenciar a nossa apresentação. Mas eu sei que para quem precisa e manda uma dezena de currículos por dia isso é impraticável. E, como tal, a solução está nas cartas de apresentação (que pode ser mesmo isso ou, simplesmente, a descrição de um email).

Mas atenção: até aí é preciso saber o que se está a fazer. Dizer que se é "assíduo e pontual' faz-me lembrar os tempos de escola, em que no final de cada período éramos obrigados a fazer a nossa auto-avaliação e a justificar a nota que almejávamos. Mas a escola já lá vai - e ser assíduo e pontual não é uma qualidade que devamos assinar, pois à partida devia ser uma obrigação. Devemos chamar à atenção de especificações sobre nós mesmos que, para o posto de trabalho em questão, sejam pertinentes. Que somos engenhocas e que nos tempos livres gostamos de nos dedicar à bricolage; que em pequenos tínhamos o sonho de ser veterinários e por isso fazemos voluntariado numa associação que alberga animais; que temos uma escrita muito fluida porque desde criança que escrevemos diariamente. Tudo, desde que seja contextualizado. Ninguém quer saber se um trolha escreve desde os três anos; mas se gostar de bricolage e tiver jeito para tudo um pouco, pode ser um belo investimento e adição a uma empresa.

 

Como disse acima, há muito mais coisas que poderia aprofundar sobre este assunto. Será que vale a pena?

24
Mar20

O desabafo de uma não-heroína

Hoje acordei a pensar em como gostava de ter um supermercado ou um salão de unhas de gel. No primeiro caso, dentro deste cenário meio apocalíptico em que vivemos, era minha obrigação continuar a trabalhar; no segundo, era obrigada a fechar. Tudo isto por indicações superiores, lavando as minhas mãos de culpas futuras que vão - garanto - cair sobre todos dentro de pouco tempo.

No meio disto tudo, não somos todos heróis. Eu não fico em casa. Mas eu também não sou médica, não sou operadora de caixa, não sou polícia, não faço parte da proteção civil, não sou bombeira, não sou padeira, não sou talhante, não sou peixeira, não sou enfermeira, não limpo hospitais, não sou condutora de autocarros e não desinfeto espaços públicos. Sou, como se dizia antigamente, "industrial". E os industriais - e todos os operários que trabalham nessa mesma indústria - caem num limbo problemático no meio deste caos todo. Têm nas suas costas, segundo o primeiro-ministro, o dever de fazer com que o país não pare; mas têm na sua consciência, ouvindo todos os outros que dizem ser extremamente necessário o recolher obrigatório para conter a propagação deste vírus, e tendo a plena noção de que sendo a indústria uma coisa pouco apta para o teletrabalho, que se estão a pôr a eles, às suas famílias e os seus funcionários em risco (ainda que relativo) para que tudo continue a andar. Devemos proporcionar-lhes todas as condições de higiene necessárias, diz o ministro. Se eles as tomam ou não, já não é minha responsabilidade.

Mas são as minhas costas que me doem. É o meu sistema nervoso. São as mãos que me tremem e a pálpebra que teima em não parar quieta. É o sono que não me dá descanso. É o peso da responsabilidade que é posta em cima de mim: porque por um lado tenho o dever de fazer a economia andar (e felizmente tenho encomendas para satisfazer, compromissos para manter), mas por outro tenho o dever cívico de proteger os meus (família, amigos e funcionários). E neste caso não posso lavar as mãos desta responsabilidade: os decretos não dizem se devo continuar ou parar de laborar. Há um buraco na lei, como quem diz: "decide tu".

Tenho de decidir se quero deixar de honrar os meus compromissos e deixar na mão os meus clientes fiéis, que se assim for provavelmente não voltarão a colocar encomendas depois de tudo isto passar, levando-me à falência. Tenho de decidir se me quero pôr em risco, a mim e aos meus, aos meus funcionários e às famílias deles, em prol de continuar a ter dinheiro para lhes pagar o salário ao fim do mês. Tenho de decidir se quero endividar a minha empresa, com uma taxa de juro baixa mas que mesmo assim vai dar lucro aos bancos, de forma a tentar salva-la no futuro - sem saber se, mesmo assim, continuarei à tona da água. Tenho de decidir se sou forte o suficiente para ouvir opiniões contrárias - de quem, curiosamente, não tem este peso em cima dos ombros. 

Eu não sou heroína de nada - porque ninguém decide por mim. Mas gostava. Porque medo todos temos. O peso da responsabilidade é que não.

07
Mar20

Um momento de self-promotion (ou da partilha de um orgulho pessoal)

Este blog é um diário aberto. E quando digo "diário", é no sentido mais literal da palavra: era suposto eu escrever aqui diariamente - mas por falta de tempo e por alguma preguiça (nos poucos momentos em que tenho tempo) não consigo fazê-lo. Acho que, no fundo, a ideia de todos os diários é essa: ir apontando pensamentos e opiniões do dia-a-dia. Esses caderninhos, muitas vezes fechados a sete chaves, ganharam essa conotação quase secreta e misteriosa precisamente porque todos os dias temos de lidar com os nossos sentimentos, as nossas opiniões politicamente incorretas, com outras pessoas - e as emoções e os sentimentos e as emoções delas -, acabando por se tornar num poço de desabafos; um poço sem fundo, que não critica, não contesta e não opina; e, acima de tudo, um poço sem filtros, em que a água que corre é mesmo aquilo que sentimos. E funciona como os casamentos: é para o bom e para o mau, na saúde e na doença.

Eu levo este espaço como um diário - da família da palavra "diariamente" -, sem a parte dos segredos. Tenho filtros. Tenho cuidado com as opiniões politicamente incorretas. Porque há pessoas do outro lado e essa coisa da liberdade de expressão é muito bonita quando não nos cai em cima. Mas continua a ser um poço sem fundo, neste caso com um casamento já duradouro: já quase com 9 anos, no bom e no mau, na saúde e na doença, na faculdade e no trabalho, e tudo o resto que para aqui escrevi. E este período que atravesso tem sido muito trabalhoso, de um frenesim imenso, de um stress descomunal, mas tem tido coisas muito boas – e algumas conquistas.

Se nos últimos anos sentia que estava a trabalhar a médio prazo, sinto que agora estou a começar a recolher frutos. Os anos que passaram foram, para além de muita aprendizagem, uma lição naquilo que é o saber esperar. Eu sabia que estava a fazer algo que só ia ter impacto uns anos depois. E hoje, finalmente, estou a ver que todo esse esforço, esse combate à frustração e a insistência na minha própria paciência, está a ser recompensado.

Tive de pensar nisto tudo - no conceito de “diário”, da partilha do bom e do mau, das batalhas, das conquistas e das derrotas – antes de escrever este texto. Inicialmente apeteceu-me escreve-lo, mas achei que “pavonear-me” não me ficava bem. Tive por isso de voltar à raiz deste espaço, que é meu, e que sempre foi um depósito de memórias, testemunhos e desabafos de tudo o que se passou na minha vida ao longo de praticamente a última década. E acho que, pavoneando-me ou não, gostaria que o meu diário soubesse que as coisas têm corrido bem nos últimos tempos. Que só passaram dois meses no ano e que já risquei alguns objectivos que tinha para 2020.

Acho que se isto fosse mesmo um daqueles caderninhos fechados a cadeado, teria escrito no próprio dia que falei para a RTP. Que fui entrevistada pela TVI. Que falei para os dois jornais da especialidade têxtil em Portugal. Que fui a um Desconcerto e que subi a palco. E que vai sair, um dia destes, uma entrevista também aqui sobre o blog. Porque são coisas que só acontecem de vez em quando, porque os comuns mortais não estão habituados a este tipo de exposição – e devem sentir-se orgulhosos quando têm as luzes viradas para si (desde que seja por bons motivos).

Por isso hoje partilho aqui um artigo de uma “casa” que eu ajudei a construir mas da qual já não faço parte, sobre a minha “casa” atual – e que eu quero que seja, por muitos anos, a minha “casa” do futuro, nunca me esquecendo do passado que já carrega (e já são 60 anos). Tenho mesmo muito, muito orgulho em tudo o que ando a fazer. E isto é só a ponta de um iceberg – porque aquilo que se demonstra tem muito mais por detrás do que se faz querer parecer. Têm sido tempos de sacrifício, de muito trabalho e, acima de tudo, de muita aprendizagem. Nunca ninguém me disse que ia ser fácil. Por isso é que me preparei bem para a luta (embora os treinos nunca nos preparem totalmente para algumas batalhas…). E se há dias em que caio (são alguns), há outros assim, com o sorriso desta fotografia: o sinónimo de pequenos passos, num caminho que se quer que seja sempre a olhar para a frente.

 

noticiaT.JPG

(clicar para ler a notícia na íntegra)

26
Set19

Eu quero viver fora da gaiola dourada

Desde que vi Narcos que gosto muito de ver documentários sobre narcotraficantes, as suas vidas e as inúmeras peripécias que passam (e que fazem os outros passar) para levar o negócio avante. Não faltam filmes e séries sobre o assunto - e como a televisão está quase sempre ligada no National Geographic ou no Odisseia, não é difícil ir deitando o olho em temas como este.

No outro dia estava a ver um documentário sobre o El Chapo e as suas inúmeras fugas. A certa altura mostram a casa segura em que ele vivia - um autêntico cubículo, com pouco mais do que aquilo que é necessário para viver (uma cama, mesa e cadeiras de plástico, uma mini-televisão) - e eu pensei: "para que raio é que um homem se preocupa em fazer milhões, ainda por cima ilicitamente, se depois tem de viver nestas condições?".

Para mim o dinheiro só faz sentido quando é para ser gasto - principalmente em coisas que nos fazem felizes. De que serve uma carteira recheada se estamos presos, se não somos livres dentro da nossa própria vida?

Poucos dias depois de ver o documentário, cruzei-me com um jogador do Porto num restaurante - a comer sozinho, com os auriculares nos ouvidos enquanto ouvia o resumo de uma partida qualquer de futebol. Só abriu a boca para fazer os pedidos. Tinha uma aliança no dedo - sinal de uma família dividida, que não vive com ele, e cujo fuso horário não ajuda à convivência. Nem um sorriso durante aquele par de horas. E eu voltei a perguntar-me: "para que servem aqueles milhões que eles ganham, a fama, os nomes nos jornais e as camisolas estampadas nas montras das lojas de desporto se depois vivem assim?". Ricos mas isolados do mundo.

Não é que isto seja uma coisa nova. Penso muitas vezes nesta questão de cada vez que vou a um popular restaurante, sempre a arrebentar pelas costuras, e vejo lá o patrão, a correr de um lado para o outro. "Isto é uma mina de ouro", comentamos. E deve ser. Mas muitas vezes não nos lembramos que as minas são, precisamente, locais fechados, onde nos encontramos encurralados e sem grande folga para respirar. Aquele homem pode ser alguém com os bolsos cheios, mas que trabalha de manhã à noite, com apenas uma folga semanal e com 15 dias de férias por ano. De que serve tanto dinheiro se não se pode ir jantar fora com a família - ou, tão simplesmente, jantar em casa com eles, sem o stress do trabalho? Se não se pode ir de férias a não ser na época mais popular do ano? Se nas datas especiais também tiveres de trabalhar? Para mim, serve de pouco.

O meu pai sempre me disse que, no que diz respeito ao trabalho (e mais propriamente aos negócios), o mais difícil é encontrar um equilíbrio. A gestão entre aquilo que ganhamos e a forma como usufruímos é muito, muito complicada. A quantidade de dinheiro que obtemos é normalmente proporcional ao trabalho que temos (e às responsabilidades que somos obrigados a acatar); chega uma altura em que o dinheiro é muito - até porque o tempo é tão pouco que as notas se vão acumulando, por falta de oportunidade para as gastar. Mas e usufruir? Qual é a razão principal para a qual trabalhamos? 

Costumo dizer que este tipo de vidas estão enjauladas numa gaiola dourada. É tudo muito bonito, tudo pintado a ouro: mas as pessoas não deixam de estar por detrás das grades, presas dentro das suas próprias vidas, trabalhos e decisões. E se há coisa que eu sei é que não quero isso para mim.

Quero muito o sucesso da minha empresa. Aliás, luto e anseio pelo meu próprio sucesso - e, admito-o sem problemas, gosto muito de ter dinheiro na carteira e de não ter preocupações de maior. Mas espero perceber quando (e se), um dia, passar por esta ténue linha. Entender que já não estou a lutar para uma melhor qualidade de vida mas, pelo contrário, a pôr um pé na minha própria prisão. Porque nem tudo o que é pintado a ouro é bom. E porque uma vida livre e desafogada pode valer mais do que muitos milhões juntos.

24
Mai19

Empresária wannabe: quando lidar com os outros é o nosso calcanhar de Aquiles

De todas as coisas que me assustavam na ideia de trabalhar na fábrica - eram, e ainda são, muitas - a maior delas era a relação com os meus funcionários. Tinha muito medo da reação deles perante a direção de uma mulher, muito jovem, com idade para ser filha e até neta de alguns deles. Nos primeiros tempos comparei a minha relação com eles como os humanos têm com os ratos: eu tinha medo deles, mas na verdade eram eles que praticamente fugiam de mim.

Agora que já fiz daquilo a minha segunda casa esse sentimento já se diluiu; eles habituaram-se à minha presença, ao meu olhar curioso, um bocadinho inquisitivo e a puxar pelo sentido crítico, e eu à forma de estar e de trabalhar deles. Mas a gestão de recursos humanos continua a ser (e acho que será sempre) o meu ponto crítico à frente das empresas. Tão simplesmente porque implica lidar com pessoas - e aquilo que elas são e não são, fazem e não fazem, dizem ser e fazer, o que querem mostrar e o que não querem dizer, o que sentem e não querem transparecer - e com uma série de preconceitos que vêm de há muitos anos relativamente aos patrões e seus empregados. Há um gap grande entre nós e não fui eu que o criei - ele já estava lá. E a verdade é que por muito que tente, não consigo mudar as coisas; estou a lutar contra a maré.

Agora em época de eleições sinto isso mais do que nunca. Fico arrepiada de cada vez que ouço o PCP a dizer que os patrões isto, os patrões aquilo, e que todos os "camaradas" são explorados por quem os chefia. Não me identifico minimamente com esta relação de amor-ódio entre patrões e funcionários que ainda hoje se respira em muitos sítios, em particular nos locais mais tradicionais - e irrita-me muito que ainda hoje se alimente este tipo de sentimentos, nomeadamente para arrecadar votos. O objetivo final de tudo isto é que todos tenhamos uma vida digna e boa, dentro das limitações de cada um - e esquecemo-nos de que nunca seremos felizes se odiarmos todos os dias a pessoa que nos paga ao fim do mês ou, no caso contrário, as pessoas que permitem que o nosso negócio funcione. Eu desligo a rádio ou mudo de canal de cada vez que ouço este discurso, mas preocupa-me que os outros não façam o mesmo. O 25 de Abril foi há 40 anos, as diferenças e dicotomias da altura não são as de agora - parem de as eternizar!

Eu sei que preciso tanto dos meus funcionários quanto eles de mim, e preferia que estivéssemos taco a taco, com respeito mútuo, em vez do pedestal em que os patrões tantas vezes se colocam e que tanta revolta traz aos seus empregados. Mas eu tenho 24 anos, tenho esperança nestas coisas que muitos dizem ser utopias. Ouço, com alguma preocupação, as vozes da experiência: "eles comem-te viva", "vão fazer de ti o que querem", "não podes deixar" e sou consecutivamente arrastada para aquele velho paradigma, o amor-ódio de que me queria distanciar. Tento arranjar um meio termo.

E para isso foi importante para mim ter trabalhado por conta de outrem antes de ter começado esta aventura. Senti na pele as dores de quem é mandado; de ser repreendida sem ter culpa e de não ser recompensada por fazer algo de bom; de não me sentir bem liderada, de pensar que as coisas deviam ser feitas de outra forma mas não ter o poder de mudar isso. No fundo, essa experiência tornou-me mais empática; ensinou-me a colocar-me nos calcanhares dos outros - algo que espero nunca esquecer, o que acontece com a maior parte dos líderes, que se tornam impermeáveis as emoções e vidas de quem corre à sua frente.

Mas nunca sei até que ponto posso ir. Até onde posso acreditar. Até que ponto posso perdoar. Não posso ser naive e achar que é tudo um mar de rosas e que toda a gente vai ser sincera, honesta e boa pessoa para comigo; estamos a falar de gente marcada pelo passar dos anos, por antigas lideranças e patrões, que só quer levar a água ao seu canteiro. Algumas delas marcadas pela revolução, época rainha nas discrepâncias entre patrões e funcionários. Não posso esperar que, só por eu aparecer, uma esponja se passe pela história e seja tudo pacífico. Nem sequer posso querer que pessoas com o dobro ou o triplo da minha idade percebam ou compreendam a minha visão da vida e dos negócios. Mas também não posso começar de pé em riste, já a prevenir tudo o que de mau pode acontecer. Lá está: o ideal seria o meio termo. Mas como se consegue uma proeza dessas, quando muitas vezes a própria gestão nos exige pouca humanidade?

Para mim, a este nível, a única forma de fazer as coisas é ir lidando com elas no dia-a-dia, antecipar apenas o inevitável. Porque a verdade é que as pessoas são imprevisíveis. Tive a minha prova de fogo quando decidi dispensar alguém, por considerar que essa pessoa já não tinha capacidades físicas para fazer bem o seu trabalho e por me aperceber que tinha outras alternativas melhores para aquele caso. Nem dormia direito ao pensar naquela derradeira conversa. Como é que se consegue ser empático e humano quando vamos despedir alguém - ainda que tenhamos razões para isso e lhes dermos tudo a que têm direito? Como é que esquecemos que aquela pessoa também tem uma vida, contas para pagar, bocas para alimentar? Será que isto de ser patrão obriga a uma permeabilidade dos sentimentos, quase como fazem os médicos em relação à dor e à vida dos outros? Um negócio só consegue ser bem gerido com este tipo de palas ou é exatamente o contrário - serão essas palas que eventualmente nos destroem o negócio?

Como se vê, tenho muito mais perguntas que respostas, muitos mais medos que certezas. A única coisa que sei é que agi, até agora, de bem com a minha consciência. Fiz o melhor que pude, para ambos os lados. E acho que só assim é que faz sentido, até ao fim do caminho. Mesmo que Steve Jobs tenha razão quando diz que "if you want to make everyone happy, don't be a leader - sell ice cream" ("se queres fazer toda a gente feliz, não sejas um líder - vende gelados"). Acho é que quando disse isso, nem ele se lembrou que o vendedor de gelados também tem uma empresa para gerir.

 

leader.JPG

 

 

06
Mai19

A filha do patrão

Nunca fui eu outra coisa. Desde bebé que percorri os corredores das fábricas - ora dentro da barriga da minha mãe, em colos alheios ou já pelo meu próprio pé. Sempre fui filha do patrão e, no alto dos meus seis anos, sabia-o bem. Andava por lá, com o narizinho levantado, por saber o estatuto que tinha. Todos sabiam quem eu era, todos sabiam o meu nome. Eu também sabia o deles. É curioso pensar em como era tão pequena mas já tão sabidola. E ainda é mais curioso ver como a minha sensação de poder por ser a filha do dono foi decrescendo à medida que os anos passaram - hoje, do alto do meu nariz só vejo os meus óculos, e sinto-me só mais uma peça naquele tabuleiro de xadrez, tão importante como as outras.

Quando me despedi do jornal para me dedicar às empresas da família, soube que ia doer. E é difícil tomarmos uma decisão sabendo que depois vamos sofrer as passas do Algarve. Porque não é fácil trabalhar com a família; não é fácil separar o pai-pai do pai-chefe; não é fácil não trazer os problemas, as zangas e as mágoas para casa; não é fácil entranharmo-nos nos sistemas criados por outras pessoas, tentarmos perceber o que vai na cabeça delas. Acima de tudo, não é fácil ter de corresponder às expectativas. E é muito difícil, às vezes, ter de bater o pé por aquilo em que acreditamos. 

Estou há cerca de nove meses nesta aventura e uma das coisas que me apercebi é que um dos processos mais complicados é aceitarmos que não somos necessariamente um prolongamento dos nossos pais. Que não temos a mesma forma de pensar, de agir, de trabalhar, de organizar. E perceber que isso não é nenhum crime. 

O curso deu-me oportunidade de conhecer outras pessoas como eu e de ver como até lido bem em não ser a Carolina, mas sim a "filha do papá" e "neta do avozinho". Não me importo de ser a "menina"; de não ser doutora, engenheira, dona ou senhora (ainda bem!). E é engraçado como em conversa com outras pessoas (mesmo fora do curso, que vou encontrando e que percebo que se estão ou estiveram na mesma situação que eu, dentro de empresas familiares) as situações se repetem. "Parece que estás a descrever a minha realidade", dizem. Porque não é propriamente uma coisa da área de negócio, não depende do tipo de pai ou do tipo de filho. É algo genérico. E é sempre difícil.

Mas já se sabe que as nossas dores são sempre superiores às dos outros. Os que não são filhos do patrão insurgem-se, muitas vezes indignados, pela vida facilitada que temos à partida. E eu percebo. Quando me perguntam, em jeito de provocação, "queres trocar?!", eu digo sempre que não. Porque eu sei que os outros não sabem que também é duro ser somente a filha de alguém, eventualmente não valer pelo seu valor próprio. Não sabem que a comparação das atitudes, ações e forma de estar se torna num bicho de sete cabeças nem que as expectativas criadas pelos nossos pais-patrões e todos à nossa volta se converte num autêntico bicho-papão. Não sabem o que custa não poder dizer que está mal, não sermos livres de nos sentirmos revoltados por isto ou aquilo, por estarmos a ser alvo de uma injustiça qualquer - porque quem manda não é só quem manda, mas também quem sempre nos ama e sempre amou, e os sentimentos confundem-se.

Eu não queria trocar, porque pode não ser fácil... mas a verdade é que eu não sei ser outra coisa senão a filha do patrão.

17
Abr19

O nosso escritório é a nossa segunda casa

O ano está a passar num fósforo. É incrível pensar que já passaram quatro meses desde que me instalei na antiga fábrica do meu avô e estou desde então a tentar tomar as rédeas da empresa. Se por um lado vejo o tempo a voar, por outro apercebo-me do quão lento vai ter de ser este processo. Gostava muito de escrever mais sobre isto, sobre esta dificuldade de pegar numa instituição que parou no tempo, da relação com os meus colaboradores, com o facto de ser filha e neta do patrão... mas o tempo não ajuda e o tópico é demasiado sensível para ser escrito de ânimo leve. Mas fica aqui prometido que vou tentar.

A primeira coisa que fiz quando lá cheguei foi tornar as coisas confortáveis. Limpas. Organizadas. Uma empresa não é a casa de ninguém, mas é a segunda casa de muita gente - se pensarmos bem, há muitas pessoas que passam mais tempo nos seus locais de trabalho do que nos seus lares. E todo este processo implica tempo, paciência, investimento, planeamento e muita organização. Está longe de ser uma coisa que se faz num piscar de olhos. Vai demorar muitos meses - senão anos - para que as coisas fiquem como projeto. Mas fui pegando em pequenas coisas e alterando.

Fizemos obras nos quartos de banho dos escritórios. Foi um processo longo para os meus ouvidos (entre rebarbadoras e Quim Barreiros a tocar na rádio), mas muito interessante para mim, pois fui eu que escolhi tudo - desde as cerâmicas do chão e das paredes até ao porta-piaçaba. Tudo. De uma ponta à outra. Fiz do Leroy Merlin a minha terceira casa e diverti-me muito ao ver transformar uma coisa medonha em algo que, aos meus olhos, ficou incrível. 

Remodelei, com as minhas próprias mãos, a zona de receber os clientes - fazer cafés, chás, oferecer bebidas e etc. Limpei tudo, forrei prateleiras com papel de parede, comprei todo um novo set de chávenas, porta-guardanapos, colheres e tudo o que é necessário para os outros se sentirem confortáveis. Pus tudo com um aspeto limpo. Novo.

Deitei dezenas de arquivos fora. Calcei as luvas e foi tudo a eito - sem relações sentimentais à mistura. Guardei um par de coisas que achei graça, mas de resto foi tudo o que era memória, desperdício ou ocupação desnecessária de espaço para o lixo. Disse muitas vezes, a mim e aos outros: "eu posso trabalhar numa fábrica velha; não vou é trabalhar numa fábrica porca". E assim foi.

O último passo de grande mudança foi a montagem do meu escritório. Mais uma vez, tudo escolhido e montado por mim - porque sou mulher, mas não sou um rato, e sinto que tenho tudo para provar ao mundo. Escolhi, carreguei e montei tudo o que lá tenho e posso dizer, finalmente, que me sinto confortável. Estou muito contente com o resultado. Não tenho nada contra quem tem espaços completamente impessoais, mas não era assim que eu me via a trabalhar - eu preciso de um espaço meu, que me diga algo, em que possa respirar fundo em momentos de stress e sentir-me a melhorar. Não tem fotos minhas, da minha família, ou símbolos futebolísticos, mas quem me conhece sabe que parte de mim está ali.

E está, cada vez mais. O trabalho adensa-se. Começo a enterrar-me naquela cadeira e as manhãs que agora passo lá são, por vezes, parcas para aquilo que quero fazer e o que me cai em mãos. Mas, para já, vou continuar o meu caminho - terminar a pós-graduação e só depois pegar naquilo por inteiro, esmiuçar-me em todos os processos, saber o nome de todos e fazer com que todos saibam que eu estou ali para mudar as coisas para melhor. A caminho do futuro.

Para já, o futuro é isto. Um escritório. Pensado com muito amor e carinho. Ficam as fotos e referências de onde comprei algumas das coisas. 

 

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Tampo de secretária, estantes, cadeira, candeeiro, ganchos para pendurar casaco: IKEA. Quadro de costela-de-adão, tapete: Leroy Merlin. Planta: horto local.

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Iniciais da empresa: loja CASA.

 

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Plantas artificiais: IKEA e Kinda Home (esquerda e direita, respeticamente). Capas arquivadoras: Note, lojas Continente. Frascos e caixinha para cartões (em cima da secretária): loja dos chineses.

 

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Porta canetas: Staples. Decoração de parede: Área.

 

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Relógio de parede e almofada: IKEA. Cadeirão: La Redoute.

 

Querem ver o antes e depois das casas de banho?

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