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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

26
Set19

Eu quero viver fora da gaiola dourada

Desde que vi Narcos que gosto muito de ver documentários sobre narcotraficantes, as suas vidas e as inúmeras peripécias que passam (e que fazem os outros passar) para levar o negócio avante. Não faltam filmes e séries sobre o assunto - e como a televisão está quase sempre ligada no National Geographic ou no Odisseia, não é difícil ir deitando o olho em temas como este.

No outro dia estava a ver um documentário sobre o El Chapo e as suas inúmeras fugas. A certa altura mostram a casa segura em que ele vivia - um autêntico cubículo, com pouco mais do que aquilo que é necessário para viver (uma cama, mesa e cadeiras de plástico, uma mini-televisão) - e eu pensei: "para que raio é que um homem se preocupa em fazer milhões, ainda por cima ilicitamente, se depois tem de viver nestas condições?".

Para mim o dinheiro só faz sentido quando é para ser gasto - principalmente em coisas que nos fazem felizes. De que serve uma carteira recheada se estamos presos, se não somos livres dentro da nossa própria vida?

Poucos dias depois de ver o documentário, cruzei-me com um jogador do Porto num restaurante - a comer sozinho, com os auriculares nos ouvidos enquanto ouvia o resumo de uma partida qualquer de futebol. Só abriu a boca para fazer os pedidos. Tinha uma aliança no dedo - sinal de uma família dividida, que não vive com ele, e cujo fuso horário não ajuda à convivência. Nem um sorriso durante aquele par de horas. E eu voltei a perguntar-me: "para que servem aqueles milhões que eles ganham, a fama, os nomes nos jornais e as camisolas estampadas nas montras das lojas de desporto se depois vivem assim?". Ricos mas isolados do mundo.

Não é que isto seja uma coisa nova. Penso muitas vezes nesta questão de cada vez que vou a um popular restaurante, sempre a arrebentar pelas costuras, e vejo lá o patrão, a correr de um lado para o outro. "Isto é uma mina de ouro", comentamos. E deve ser. Mas muitas vezes não nos lembramos que as minas são, precisamente, locais fechados, onde nos encontramos encurralados e sem grande folga para respirar. Aquele homem pode ser alguém com os bolsos cheios, mas que trabalha de manhã à noite, com apenas uma folga semanal e com 15 dias de férias por ano. De que serve tanto dinheiro se não se pode ir jantar fora com a família - ou, tão simplesmente, jantar em casa com eles, sem o stress do trabalho? Se não se pode ir de férias a não ser na época mais popular do ano? Se nas datas especiais também tiveres de trabalhar? Para mim, serve de pouco.

O meu pai sempre me disse que, no que diz respeito ao trabalho (e mais propriamente aos negócios), o mais difícil é encontrar um equilíbrio. A gestão entre aquilo que ganhamos e a forma como usufruímos é muito, muito complicada. A quantidade de dinheiro que obtemos é normalmente proporcional ao trabalho que temos (e às responsabilidades que somos obrigados a acatar); chega uma altura em que o dinheiro é muito - até porque o tempo é tão pouco que as notas se vão acumulando, por falta de oportunidade para as gastar. Mas e usufruir? Qual é a razão principal para a qual trabalhamos? 

Costumo dizer que este tipo de vidas estão enjauladas numa gaiola dourada. É tudo muito bonito, tudo pintado a ouro: mas as pessoas não deixam de estar por detrás das grades, presas dentro das suas próprias vidas, trabalhos e decisões. E se há coisa que eu sei é que não quero isso para mim.

Quero muito o sucesso da minha empresa. Aliás, luto e anseio pelo meu próprio sucesso - e, admito-o sem problemas, gosto muito de ter dinheiro na carteira e de não ter preocupações de maior. Mas espero perceber quando (e se), um dia, passar por esta ténue linha. Entender que já não estou a lutar para uma melhor qualidade de vida mas, pelo contrário, a pôr um pé na minha própria prisão. Porque nem tudo o que é pintado a ouro é bom. E porque uma vida livre e desafogada pode valer mais do que muitos milhões juntos.

24
Mai19

Empresária wannabe: quando lidar com os outros é o nosso calcanhar de Aquiles

De todas as coisas que me assustavam na ideia de trabalhar na fábrica - eram, e ainda são, muitas - a maior delas era a relação com os meus funcionários. Tinha muito medo da reação deles perante a direção de uma mulher, muito jovem, com idade para ser filha e até neta de alguns deles. Nos primeiros tempos comparei a minha relação com eles como os humanos têm com os ratos: eu tinha medo deles, mas na verdade eram eles que praticamente fugiam de mim.

Agora que já fiz daquilo a minha segunda casa esse sentimento já se diluiu; eles habituaram-se à minha presença, ao meu olhar curioso, um bocadinho inquisitivo e a puxar pelo sentido crítico, e eu à forma de estar e de trabalhar deles. Mas a gestão de recursos humanos continua a ser (e acho que será sempre) o meu ponto crítico à frente das empresas. Tão simplesmente porque implica lidar com pessoas - e aquilo que elas são e não são, fazem e não fazem, dizem ser e fazer, o que querem mostrar e o que não querem dizer, o que sentem e não querem transparecer - e com uma série de preconceitos que vêm de há muitos anos relativamente aos patrões e seus empregados. Há um gap grande entre nós e não fui eu que o criei - ele já estava lá. E a verdade é que por muito que tente, não consigo mudar as coisas; estou a lutar contra a maré.

Agora em época de eleições sinto isso mais do que nunca. Fico arrepiada de cada vez que ouço o PCP a dizer que os patrões isto, os patrões aquilo, e que todos os "camaradas" são explorados por quem os chefia. Não me identifico minimamente com esta relação de amor-ódio entre patrões e funcionários que ainda hoje se respira em muitos sítios, em particular nos locais mais tradicionais - e irrita-me muito que ainda hoje se alimente este tipo de sentimentos, nomeadamente para arrecadar votos. O objetivo final de tudo isto é que todos tenhamos uma vida digna e boa, dentro das limitações de cada um - e esquecemo-nos de que nunca seremos felizes se odiarmos todos os dias a pessoa que nos paga ao fim do mês ou, no caso contrário, as pessoas que permitem que o nosso negócio funcione. Eu desligo a rádio ou mudo de canal de cada vez que ouço este discurso, mas preocupa-me que os outros não façam o mesmo. O 25 de Abril foi há 40 anos, as diferenças e dicotomias da altura não são as de agora - parem de as eternizar!

Eu sei que preciso tanto dos meus funcionários quanto eles de mim, e preferia que estivéssemos taco a taco, com respeito mútuo, em vez do pedestal em que os patrões tantas vezes se colocam e que tanta revolta traz aos seus empregados. Mas eu tenho 24 anos, tenho esperança nestas coisas que muitos dizem ser utopias. Ouço, com alguma preocupação, as vozes da experiência: "eles comem-te viva", "vão fazer de ti o que querem", "não podes deixar" e sou consecutivamente arrastada para aquele velho paradigma, o amor-ódio de que me queria distanciar. Tento arranjar um meio termo.

E para isso foi importante para mim ter trabalhado por conta de outrem antes de ter começado esta aventura. Senti na pele as dores de quem é mandado; de ser repreendida sem ter culpa e de não ser recompensada por fazer algo de bom; de não me sentir bem liderada, de pensar que as coisas deviam ser feitas de outra forma mas não ter o poder de mudar isso. No fundo, essa experiência tornou-me mais empática; ensinou-me a colocar-me nos calcanhares dos outros - algo que espero nunca esquecer, o que acontece com a maior parte dos líderes, que se tornam impermeáveis as emoções e vidas de quem corre à sua frente.

Mas nunca sei até que ponto posso ir. Até onde posso acreditar. Até que ponto posso perdoar. Não posso ser naive e achar que é tudo um mar de rosas e que toda a gente vai ser sincera, honesta e boa pessoa para comigo; estamos a falar de gente marcada pelo passar dos anos, por antigas lideranças e patrões, que só quer levar a água ao seu canteiro. Algumas delas marcadas pela revolução, época rainha nas discrepâncias entre patrões e funcionários. Não posso esperar que, só por eu aparecer, uma esponja se passe pela história e seja tudo pacífico. Nem sequer posso querer que pessoas com o dobro ou o triplo da minha idade percebam ou compreendam a minha visão da vida e dos negócios. Mas também não posso começar de pé em riste, já a prevenir tudo o que de mau pode acontecer. Lá está: o ideal seria o meio termo. Mas como se consegue uma proeza dessas, quando muitas vezes a própria gestão nos exige pouca humanidade?

Para mim, a este nível, a única forma de fazer as coisas é ir lidando com elas no dia-a-dia, antecipar apenas o inevitável. Porque a verdade é que as pessoas são imprevisíveis. Tive a minha prova de fogo quando decidi dispensar alguém, por considerar que essa pessoa já não tinha capacidades físicas para fazer bem o seu trabalho e por me aperceber que tinha outras alternativas melhores para aquele caso. Nem dormia direito ao pensar naquela derradeira conversa. Como é que se consegue ser empático e humano quando vamos despedir alguém - ainda que tenhamos razões para isso e lhes dermos tudo a que têm direito? Como é que esquecemos que aquela pessoa também tem uma vida, contas para pagar, bocas para alimentar? Será que isto de ser patrão obriga a uma permeabilidade dos sentimentos, quase como fazem os médicos em relação à dor e à vida dos outros? Um negócio só consegue ser bem gerido com este tipo de palas ou é exatamente o contrário - serão essas palas que eventualmente nos destroem o negócio?

Como se vê, tenho muito mais perguntas que respostas, muitos mais medos que certezas. A única coisa que sei é que agi, até agora, de bem com a minha consciência. Fiz o melhor que pude, para ambos os lados. E acho que só assim é que faz sentido, até ao fim do caminho. Mesmo que Steve Jobs tenha razão quando diz que "if you want to make everyone happy, don't be a leader - sell ice cream" ("se queres fazer toda a gente feliz, não sejas um líder - vende gelados"). Acho é que quando disse isso, nem ele se lembrou que o vendedor de gelados também tem uma empresa para gerir.

 

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06
Mai19

A filha do patrão

Nunca fui eu outra coisa. Desde bebé que percorri os corredores das fábricas - ora dentro da barriga da minha mãe, em colos alheios ou já pelo meu próprio pé. Sempre fui filha do patrão e, no alto dos meus seis anos, sabia-o bem. Andava por lá, com o narizinho levantado, por saber o estatuto que tinha. Todos sabiam quem eu era, todos sabiam o meu nome. Eu também sabia o deles. É curioso pensar em como era tão pequena mas já tão sabidola. E ainda é mais curioso ver como a minha sensação de poder por ser a filha do dono foi decrescendo à medida que os anos passaram - hoje, do alto do meu nariz só vejo os meus óculos, e sinto-me só mais uma peça naquele tabuleiro de xadrez, tão importante como as outras.

Quando me despedi do jornal para me dedicar às empresas da família, soube que ia doer. E é difícil tomarmos uma decisão sabendo que depois vamos sofrer as passas do Algarve. Porque não é fácil trabalhar com a família; não é fácil separar o pai-pai do pai-chefe; não é fácil não trazer os problemas, as zangas e as mágoas para casa; não é fácil entranharmo-nos nos sistemas criados por outras pessoas, tentarmos perceber o que vai na cabeça delas. Acima de tudo, não é fácil ter de corresponder às expectativas. E é muito difícil, às vezes, ter de bater o pé por aquilo em que acreditamos. 

Estou há cerca de nove meses nesta aventura e uma das coisas que me apercebi é que um dos processos mais complicados é aceitarmos que não somos necessariamente um prolongamento dos nossos pais. Que não temos a mesma forma de pensar, de agir, de trabalhar, de organizar. E perceber que isso não é nenhum crime. 

O curso deu-me oportunidade de conhecer outras pessoas como eu e de ver como até lido bem em não ser a Carolina, mas sim a "filha do papá" e "neta do avozinho". Não me importo de ser a "menina"; de não ser doutora, engenheira, dona ou senhora (ainda bem!). E é engraçado como em conversa com outras pessoas (mesmo fora do curso, que vou encontrando e que percebo que se estão ou estiveram na mesma situação que eu, dentro de empresas familiares) as situações se repetem. "Parece que estás a descrever a minha realidade", dizem. Porque não é propriamente uma coisa da área de negócio, não depende do tipo de pai ou do tipo de filho. É algo genérico. E é sempre difícil.

Mas já se sabe que as nossas dores são sempre superiores às dos outros. Os que não são filhos do patrão insurgem-se, muitas vezes indignados, pela vida facilitada que temos à partida. E eu percebo. Quando me perguntam, em jeito de provocação, "queres trocar?!", eu digo sempre que não. Porque eu sei que os outros não sabem que também é duro ser somente a filha de alguém, eventualmente não valer pelo seu valor próprio. Não sabem que a comparação das atitudes, ações e forma de estar se torna num bicho de sete cabeças nem que as expectativas criadas pelos nossos pais-patrões e todos à nossa volta se converte num autêntico bicho-papão. Não sabem o que custa não poder dizer que está mal, não sermos livres de nos sentirmos revoltados por isto ou aquilo, por estarmos a ser alvo de uma injustiça qualquer - porque quem manda não é só quem manda, mas também quem sempre nos ama e sempre amou, e os sentimentos confundem-se.

Eu não queria trocar, porque pode não ser fácil... mas a verdade é que eu não sei ser outra coisa senão a filha do patrão.

17
Abr19

O nosso escritório é a nossa segunda casa

O ano está a passar num fósforo. É incrível pensar que já passaram quatro meses desde que me instalei na antiga fábrica do meu avô e estou desde então a tentar tomar as rédeas da empresa. Se por um lado vejo o tempo a voar, por outro apercebo-me do quão lento vai ter de ser este processo. Gostava muito de escrever mais sobre isto, sobre esta dificuldade de pegar numa instituição que parou no tempo, da relação com os meus colaboradores, com o facto de ser filha e neta do patrão... mas o tempo não ajuda e o tópico é demasiado sensível para ser escrito de ânimo leve. Mas fica aqui prometido que vou tentar.

A primeira coisa que fiz quando lá cheguei foi tornar as coisas confortáveis. Limpas. Organizadas. Uma empresa não é a casa de ninguém, mas é a segunda casa de muita gente - se pensarmos bem, há muitas pessoas que passam mais tempo nos seus locais de trabalho do que nos seus lares. E todo este processo implica tempo, paciência, investimento, planeamento e muita organização. Está longe de ser uma coisa que se faz num piscar de olhos. Vai demorar muitos meses - senão anos - para que as coisas fiquem como projeto. Mas fui pegando em pequenas coisas e alterando.

Fizemos obras nos quartos de banho dos escritórios. Foi um processo longo para os meus ouvidos (entre rebarbadoras e Quim Barreiros a tocar na rádio), mas muito interessante para mim, pois fui eu que escolhi tudo - desde as cerâmicas do chão e das paredes até ao porta-piaçaba. Tudo. De uma ponta à outra. Fiz do Leroy Merlin a minha terceira casa e diverti-me muito ao ver transformar uma coisa medonha em algo que, aos meus olhos, ficou incrível. 

Remodelei, com as minhas próprias mãos, a zona de receber os clientes - fazer cafés, chás, oferecer bebidas e etc. Limpei tudo, forrei prateleiras com papel de parede, comprei todo um novo set de chávenas, porta-guardanapos, colheres e tudo o que é necessário para os outros se sentirem confortáveis. Pus tudo com um aspeto limpo. Novo.

Deitei dezenas de arquivos fora. Calcei as luvas e foi tudo a eito - sem relações sentimentais à mistura. Guardei um par de coisas que achei graça, mas de resto foi tudo o que era memória, desperdício ou ocupação desnecessária de espaço para o lixo. Disse muitas vezes, a mim e aos outros: "eu posso trabalhar numa fábrica velha; não vou é trabalhar numa fábrica porca". E assim foi.

O último passo de grande mudança foi a montagem do meu escritório. Mais uma vez, tudo escolhido e montado por mim - porque sou mulher, mas não sou um rato, e sinto que tenho tudo para provar ao mundo. Escolhi, carreguei e montei tudo o que lá tenho e posso dizer, finalmente, que me sinto confortável. Estou muito contente com o resultado. Não tenho nada contra quem tem espaços completamente impessoais, mas não era assim que eu me via a trabalhar - eu preciso de um espaço meu, que me diga algo, em que possa respirar fundo em momentos de stress e sentir-me a melhorar. Não tem fotos minhas, da minha família, ou símbolos futebolísticos, mas quem me conhece sabe que parte de mim está ali.

E está, cada vez mais. O trabalho adensa-se. Começo a enterrar-me naquela cadeira e as manhãs que agora passo lá são, por vezes, parcas para aquilo que quero fazer e o que me cai em mãos. Mas, para já, vou continuar o meu caminho - terminar a pós-graduação e só depois pegar naquilo por inteiro, esmiuçar-me em todos os processos, saber o nome de todos e fazer com que todos saibam que eu estou ali para mudar as coisas para melhor. A caminho do futuro.

Para já, o futuro é isto. Um escritório. Pensado com muito amor e carinho. Ficam as fotos e referências de onde comprei algumas das coisas. 

 

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Tampo de secretária, estantes, cadeira, candeeiro, ganchos para pendurar casaco: IKEA. Quadro de costela-de-adão, tapete: Leroy Merlin. Planta: horto local.

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Iniciais da empresa: loja CASA.

 

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Plantas artificiais: IKEA e Kinda Home (esquerda e direita, respeticamente). Capas arquivadoras: Note, lojas Continente. Frascos e caixinha para cartões (em cima da secretária): loja dos chineses.

 

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Porta canetas: Staples. Decoração de parede: Área.

 

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Relógio de parede e almofada: IKEA. Cadeirão: La Redoute.

 

Querem ver o antes e depois das casas de banho?

25
Fev19

Não sei o que sou nem o que fui

Há três anos que não sei o que sou. De cada vez que tenho de preencher um formulário ou apresentar-me formalmente fico bloqueada, tentando prender-me a uma classificação que claramente ainda não existe no dicionário. Há uns dias, na pós-graduação, falava-se em "tudologos" - aquelas pessoas que fazem tudo nos sítios onde trabalham - e eu achei que era a única descrição justa para muito do que fui fazendo nos últimos tempos.

Quando trabalhava no jornal apresentava-me como gestora de conteúdos, designação de que me lembrei depois de alguns meses de luta interior para descobrir o que realmente era. De qualquer das formas, para evitar perguntas, os meus cartões não tinham função. Esclareci, desde o início, que não era jornalista (por opção e por não possuir carteira); mas ia dizer o quê? Paginadora, designer, gestora de redes sociais, publicista?

Hoje em dia, se quiser ir pela via mais fácil, digo que sou estudante – escondendo apenas que aquilo que estou a tirar é um curso pós-laboral, que ocupa duas noites por semana. Ninguém precisa de saber esse tipo de detalhes insignificantes, não é verdade?

Entretanto também dou aulas de piano – aqui a coisa começa a complicar-se. Faço-o assim num part-time muito, muito part-time, só um par de horitas por semana. Isto para além de cobrir as faltas e férias dos outros. Sou uma professora de piano de substituição? Sou meia professora? Professora nas horas vagas?

E resta-nos o caso mais sério, aquele que – espero – vai evoluir nos próximos tempos. Agora trabalho com o meu pai nas fábricas da família. Sou o quê, aprendiz de CEO? Mera observadora? Assistente? A que faz perguntas chatas? Deverei arranjar um nome catita em inglês, para parecer mais requintado? Tipo CEO to be? Chief to-become? Manager Aprentice, estilo o reality show americano? Ou, simplesmente, a filha do patrão – o nome que provavelmente mais passa na cabeça de todos de cada vez que me apresento? 

Hei-de escrever sobre isto, sobre o peso que os filhos dos patrões carregam nos ombros, mas fica para outra altura. Até lá, tenho de arranjar uma função para pôr no LinkedIn, só para não pensarem que não ando a fazer nenhum quando na verdade ando a tentar encontrar uns minutinhos para respirar.

Tudologa é um bocadinho presunçoso, não é?

07
Fev19

Deus escreve direito por linhas tortas

Não me lembro de, em miúda, querer ser muita coisa "quando fosse grande".  Recordo-me, sim, das duas principais profissões que sempre disse querer ter: primeiro, ser engenheira informática, como o meu irmão; depois, trabalhar na têxtil, tal e qual como o meu pai. Pelo meio tive algumas epifanias: professora de música, veterinária (esqueci a ideia quando uma prima mais velha me disse que tínhamos de pôr o braço in-tei-ro dentro do rabo de uma vaca), decoradora (só porque  achava que fazia um trabalho formidável no Sims) e acho que me passou pela ideia ser cabeleireira, um pensamento breve mas claramente egocêntrico, uma vez que tinha como objetivo não ter de passar pelas mãos de profissionais alheias que me cortavam mais do que os 7 milímetros de cabelo que eu achava serem adequados e que eu impunha como máximo de corte. Já não se pode dizer que fosse muito miúda quando a escrita e o jornalismo apareceram no horizonte.

Há uns meses, numa limpeza geral que fizemos nos arrumos, em que deitei centenas de quilos de papel fora (sem exagero), apanhei o primeiro jornal que alguma vez fiz, ainda no primeiro ciclo. Chamava-se "Notícias da Cidade", era um jornal de parede e tinha artigos sobre o que ia acontecendo na escola, que não passava muito da cena de pancada que tinha havido entre o António e Luís, com direito a relatos das auxiliares que separaram os dois meninos - eu sei, muito informativo... Lá pelo meio encontrei ainda o segundo jornal que desenvolvi, que teve mais de uma dezena de edições, chamado "Simple" - lembro-me bem de ir à reprografia e de fazer tabelas de custos, para pelo menos não ter prejuízo com a impressão. E enquanto folheava estes tesourinhos apercebi-me que a vida é um ciclo. É engraçado ver que nessa altura  estava a léguas de pensar em jornalismo - aliás, sempre fora uma aluna mediana a Português, não gostava nada de ler e os erros ortográficos eram uma constante - mas a verdade é que dois dos meus primeiros projetos "a sério" foram nessa área; mal eu sabia que uma década depois ia mesmo tirar esse curso e fazer parte de um jornal a sério!

Depois olhei para o presente e caí na real: então não é que hoje dou aulas de piano com regularidade? Que me chamam "professora" quando precisam de ajuda entre partituras e teclados? Que sou "a escritora da família"? E que estou, tal como o meu pai, no ramo têxtil? É verdade que não dei em decoradora nem em veterinária (embora, com seis cães , faça de veterinária quase todos os dias), mas a informática continua a ter um peso considerável na minha vida. Ah, já para não esquecer que corto a minha própria franja em casa, o que deve contar um bocadinho para a parte do "cabeleireira".

Agora fora de brincadeiras: a maioria dos emails que recebo na caixa do correio do blog prende-se muito com indecisões no campo profissional, ou ainda mesmo na fase dos estudos. Como tive um percurso um bocadinho atribulado penso que há muita gente que vê em mim alguém com alguma experiência para ajudar nestes campos. E se é verdade que ninguém deve ser infeliz a fazer um curso ou a trabalhar num determinado sítio, também o é que devemos ser resilientes e ter em mente o nosso objetivo final. É preciso pesar bem as coisas e tentar ter uma visão imparcial da nossa própria vida e situação emocional o que, obviamente, é tudo menos fácil. Aquilo que digo sempre é que os caminhos que percorremos não têm necessariamente de traçar o nosso futuro. Deviam ajudar, mas se não o fizerem, ninguém morre. A escola e a faculdade são um meio para atingir um fim. E o trabalho é algo que podemos mudar, desde que não nos falte a coragem e um meio de apoio qie nos ajude a sustentar essa decisão.

Lembro-me bem que, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, me diziam aquilo que os adultos dizem a todos: "mas não podes ser tudo! Tens de escolher! Umas coisas nem sequer têm que ver com as outras... É como dizeres que queres ser astronauta e florista, não funciona". E eu hoje venho dizer o contrário, que não é bem assim, e que a vida não tem de ser resumida a uma só coisa - até porque é um caminho, e todos nós sabemos que há muitas estradas diferentes que vão dar ao mesmo sítio.

Sim, é verdade: eu não vou viver a vida toda neste vai-não-vai. Eventualmente vou ter de fazer escolhas, deixar de me partir em muitas e de andar de um lado para o outro estilo barata-tonta. A gestão da minha agenda, entre dar e receber aulas de piano, as fábricas, o blog e a pós-graduação é coisa para, de vez em quando, me dar calores e muitas dores de cabeça. Mas ao menos posso dizer que fiz. Um dia quis ser jornalista? Já fui. Um dia quis ser professora de música? Já sou. Um dia quero ser como o meu pai e trabalhar na têxtil? Já trabalho. E cabeleireira? Não sou porque não quero, porque na verdade acho que nunca quis, e estou bem com isso. 

Sinto que a vida passou um lápis por cima de muitas das coisas que eu antes, em miúda, delineei a tracejado - quase como se faz naqueles livrinhos de crianças. Penso que tudo isto aconteceu por uma mistura de sorte, de disponibilidade e abertura da minha parte e por, de alguma forma, querer e fazer por isto. Ou então é mesmo o destino, sei lá. A verdade é que se calhar era tudo mais fácil se fôssemos seres coerentes, que tudo batesse certo e que fizesse tudo muito sentido na nossa vida, nos nossos gostos e nas nossas ambições. Mas as coisas não funcionam assim. E ainda bem, porque acaba por ser muito mais divertido desta forma ;)

18
Ago18

Life is what happens to you while you're busy making other plans

Tenho uma plaquinha aqui no quarto, que comprei numa altura em que fiz algumas remodelações, que diz "life is what happens to you while you're busy making other plans". Comprei-a porque a achei gira, não por ter pensado a fundo naquilo que dizia - até porque dizer-me para não fazer planos é quase como me pedir para não mudar de roupa todos os dias. É impossível.

Mas é inegável que enquanto fazemos planos para a nossa vida inteira, a própria vida se vai encarregando de dar as suas própria voltas. E eu voltei a ser "vítima" de mais uma volta da vida.

Decidi sair do meu anterior trabalho para poder ter um ano mais sossegado, dedicado à minha pós-graduação e à minha introdução no negócio de família. Queria, pelo meio, não ter de pensar nos 22 dias úteis de férias e poder meter-me num avião sem grandes complicações e compromissos (quase) sempre que me apetecesse e viver sem grandes amarradas ou responsabilidades. Como não sei como será a pós-graduação, como tenho medo da minha re-adaptação ao mundo universitário e ao estudo (do qual tenho zero saudades!) e como não tinha necessidade de estar a trabalhar de dia e a estudar de noite (o que, apesar de ser exequível, é cansativo), na altura decidi que era melhor assim. Teria tempo para mim, para os meus pais, para viajar...

Até que me ofereceram trabalho, numa área completamente diferente, e eu disse que sim - embora tivesse pensado muito em dizer que não, em ficar agarrada ao meu plano e à ideia que tinha concebido de um ano de "liberdade". Acho que a minha geração sofre de um grave problema chamado “juventude eterna” - estamos presos a um certo estilo de vida e não o queremos largar, tendo ainda por cima a desculpa de que hoje em dia não é fácil arranjar trabalho e ter condições financeiras para a vida andar para a frente e seguir o seu curso normal (estudar, trabalhar, sair de casa, ter filhos, etc.). Vejo muita gente da minha idade que ainda não terminou o curso - ou está a acumula-lo com mestrados, pós-graduações e especializações, de forma a eternizar a sua passagem pela universidade - ou que simplesmente está estagnada num estilo de vida-loka, porque não sabe admitir o fim de um momento. Ou porque não querem dar o corpo ao manifesto. Ou porque não querem responsabilidades de maior.

E eu não quero ser assim - mas admito que quando pensei neste "ano de liberdade" me agarrei às poucas boas lembranças que tinha da faculdade, que se prendem com a questão da liberdade de horários, a liberdade de faltar sem ter grandes consequências. E pus tudo na balança. Vou deixar de viver uma experiência completamente diferente, que provavelmente nunca mais terei oportunidade de fazer, só por estar agarrada a essa ideia? Por querer ter mais tempo (mesmo sem saber se, de facto, o teria)? Ou vou sacrificar, digamos, um ano da minha vida, que será concerteza mais atarefado mas também diferente?

Escolhi a segunda hipótese. A tremer como varas verdes, cheia de medo, mas escolhi. Não tendo, em dia algum, a certeza de que tomei a decisão certa. Tendo receio de falhar, de não ser boa naquilo a que a partir de agora me propus. De me chatear ou de roubar-me a mim mesma uma das coisas que ultimamente mais gosto, porque a tornei em trabalho em vez de lazer. Medo de andar eternamente cansada, medo de estar a tentar agradar a todos e a mim mesma, medo de estar a tentar engolir uma fatia demasiado grande de mundo e não a conseguir digerir.

Não sou boa a deixar planos nas mãos dos outros, mesmo que por “outros” se entenda o destino. Mas tenho orgulho em conseguir aceita-los, mesmo ficando paranóica com tudo o que pode correr mal; em dizer que “sim”, mesmo que as pernas tremam. A verdade é que apesar destas fintas que a vida dá, eu acho-lhes graça; as chapadas de luva branca podem doer, mas não lhes podemos tirar o mérito e a ironia. Trabalhei dois anos num jornal, depois de ter rogado pragas a tudo e todos que tivessem que ver com jornalismo; agora vou ensinar crianças (e não só) a dar os primeiros passos no piano, depois de sempre ter dito que crianças-cruzes-credo-nem-pensar-só-longe-de-mim.

Não sei como é que tudo isto vai correr, não sei onde vou encaixar a minha vida – a escrita, o ginásio, a minha família – no meio de dois trabalhos e uma pós-graduação. Mas se não conseguir, ao menos posso dizer que tentei.

17
Jun18

Dar-me tempo para viver

Sexta-feira foi um dia importante porque, de alguma forma, pus fim a um ciclo. Algures em Março deste ano decidi que ia deixar o trabalho onde estou há quase dois anos e todos estes meses têm sido de preparação para a minha saída. Sexta foi o dia em que, para todos os efeitos, deixei tudo pronto para ir embora; a data que defini para ter tudo em ordem para que o meu trabalho continuasse a ser (bem) feito pelos outros, para que a minha ausência provocasse o menos impacto possível. É tempo de férias. Vou descansar as ideias, ficar morena, desfrutar da ausência de stress e do “pling” dos e-mails a caírem na caixa de correio. Até porque sei que depois nada vai ser como dantes: ainda volto ao escritório, às pessoas que me viram nascer enquanto “trabalhadora”, mas agora quase em modo consultora, para ajudar a lançar mais um projeto. Depois, talvez, o adeus definitivo. Até lá, férias, descanso e viagens, pontuadas por momentos de trabalho, para não esquecer a sensação ;)

Tomar a decisão não foi fácil, dizer que me ia embora não foi fácil, estar estes meses a trabalhar e a saber que estava a preparar a minha própria saída não foi fácil. Acima de tudo, para mim, foi difícil sentir que sou substituível. Não é que, racionalmente, não o soubesse; mas uma das coisas que mais me puxava a trabalhar era saber que fazia parte de algo maior que eu, mas do qual eu era uma peça fundamental. E deixou de ser assim. Passei pelo processo de escolha das pessoas que me iam substituir e ensinei-as até chegar o dia em que praticamente as minhas funções ficaram vazias. Passei-lhes tudo. Do trabalho chato e mais burocrático, passando pela escrita e a parte criativa, assim como a gestão da parte online, entre tantas outras coisas. Algumas que eu ajudei a criar de raiz e que, tenho a certeza absoluta, ninguém conhece melhor que eu. Era quase o meu bebé... que mudou de colo.

A verdade é que eu nunca escondi de ninguém que esta seria uma fase da minha vida passageira, até por sentir que o meu caminho já estava traçado há muitos anos, ainda eu não me tinha desviado de todos os planos iniciais. Para além de que, para mim, é inconcebível trabalhar num sítio a vida inteira (a menos que seja um negócio nosso, do qual não nos podemos "despedir" assim de um momento para o outro) - muito menos na fase em que eu estou, em que preciso de movimento. Tenho muitos anos pela frente, em que vou querer paz e sossego, e não acho que agora seja altura para isso. Tenho 23 anos, trabalho há tempo inteiro há dois, e tenho medo de estar a perder "os melhores anos da minha vida" com responsabilidades crescentes e chatices diárias (ainda que muito minhas), que me tinham vindo a tirar alguma qualidade de vida nos últimos tempos.

Cheguei a um ponto em que comecei a desenhar o meu futuro e a pensar "vai ser só isto?". Fiz todo o meu percurso sem pausas ou paragens. Acabei o secundário, fui para a faculdade; apesar de ter vacilado muito nos meus três anos de curso, completei tudo sem deixar nunca uma cadeira para trás e segui para estágio; no estágio propuseram-me trabalhar, eu disse que sim, e é assim que estamos até agora. Já tinha algumas responsabilidades no meu trabalho atual e uma carga de trabalho valente, que sempre tentei articular com tudo aquilo que queria fazer no dia-a-dia, graças a uma flexibilidade de horários, por vezes, quase heroica. Mas ou parava agora ou continuava com a minha vida estilo maratona, sem parar para respirar.

Percebi que este ia ser o gap da minha vida. Estou entre o trabalho que escolhi e o trabalho que vou ter que fazer (que também escolhi, mas que foi algo "naturalmente imposto" pelo meu dia-a-dia, pela minha infância e pelo estilo de vida que quero manter). Perspetivei o meu futuro a médio prazo enquanto empresária e vi que aí sim, a minha vida vai ser dura; aí é que eu tenho mesmo de trabalhar aos fins-de-semana, fazer horas extraordinárias, passar almoços de amigos ou saídas em prol de um negócio bem sucedido. Aí é que eu vou suar as estopinhas, dar o tudo por tudo - porque aí as coisas dependem de mim e o meu sucesso deverá ser proporcional ao meu esforço (ou assim o esperamos..). Aí é que eu vou sentir o peso da responsabilidade, quando tiver pessoas a meu cargo, salários para pagar e um orçamento para gerir.

Há dois anos fui trabalhar porque quis e voltava a fazer o mesmo - vá-de retro a faculdade! Tive sorte em quase tudo e quase tudo foi incrível. Mas comecei a sentir peso nas costas - da responsabilidade, do medo de não estar a aproveitar estes anos, de estar a levar uma vida apressada e demasiado seguida. Olhei à minha volta e apercebi-me que quase todos os meus colegas estavam a "viver a vida", independentemente do sentido que dessem a essa frase - a namorar, a viajar, a ir de erasmus, a fazer voluntariado num país qualquer que eu nem sei precisar no mapa, a ir de boleia pela Europa, a marcar férias sem terem de se preocupar com o facto de só terem 22 dias úteis para as gozar. E olhei para mim, a levar uma vida sedentária que podia ser a de alguém na casa dos seus trinta e tal anos, e disse que se calhar era a altura de acordar.

É engraçado, porque eu sempre tive escolha. Fui livre de fazer o que quis quando terminei a licenciatura e, curiosamente, acabei por me prender a mim própria. Nos últimos tempos senti-me acorrentada ao trabalho e quando percebi que podia estar a gozar dessa forma os últimos anos de alguma liberdade, quase que entrei em pânico. E quando digo "liberdade", refiro-me a poder ir de férias sem ter de avisar com três meses de antecedência e sem ter de contar os dias úteis; a poder ficar a dormir um bocadinho mais de manhã por ter estado a tossir a noite inteira; a poder empenhar-me com afinco em algo que me está a dar realmente prazer, como é o caso do piano. No fundo, é ter flexibilidade e menos responsabilidade em cima dos ombros.

É claro que tudo isto é muito bonito, se descontarmos toda a carga emocional que esta decisão acarreta. Vai-me custar não ver o meu nome impresso num jornal mensal, a assinar um qualquer texto; vai-me doer não ter uma credencial do Portugal Fashion sem o "P" de press; vai ser duro deixar de ter a companhia diária de algumas pessoas que me enriqueceram, pessoal, profissional e culturalmente; e, acima de tudo, vai-me fazer muita falta sentir-me essencial em algo - ser importante numa estrutura, estar mais que integrada nela, fazer parte de algo (essa coisa em que, ao longo da minha vida, sempre fui tão má). Até porque a lista de coisas que aprendi nestes dois anos é infindável. Vão ser lições que vou carregar para a vida. Uma das mais importantes (e que eu já sabia, mas que continuo a confirmar) é que nem tudo é preto ou branco, como eu quero ver. Não gosto de cinzentos, mas aprendi a resignar-me (um bocadinho, vá...) que eles existem. Nem a minha saída vai ser preto no branco: não trouxe as coisas todas, não deixei as chaves. Vou voltar, tenho trabalho em mãos (já não tenho é as rotinas) e não sei se algum dia vou sair por completo. Mas para alguém como eu, que gosta dos tons nos seus extremos, isso é confuso. Por um lado bom, porque não é algo abrupto; por outro, o vai-não-vai causa-me instabilidade. 

Estou por isso a passar uma fase incerta, entre a alegria de um futuro que eu acho que vai ser risonho e a dor de deixar um trabalho que me deu muito; entre as certezas de um presente com um dia-a-dia de rotinas e de um futuro que terá de ser totalmente governado por mim; entre a vontade de ver o que vem aí e a saudade que já se aloja dentro de mim; no fundo, entre saber se tomei a decisão certa ou a decisão errada. Tem sido também uma lição de "adultismo": tomar uma decisão, leva-la avante e arcar com as consequências. Respirar fundo, ganhar coragem e enfrentar o boi pelos cornos. Ficar magoada. Aprender a curar-me. E saber andar em frente.

Tenho vários planos para o que vem aí mas não sei timings nem nada em concreto. Lá está, é tudo um bocadinho cinzento, e isso inquieta-me profundamente. Ao ponto de não me apetecer escrever - algo que aconteceu muito ao longo dos últimos meses - por ocupar tanto espaço na minha mente. Vai ser uma aventura. Agora é concretiza-la, não me deixar ficar pelas ideias e fazer desta oportunidade aquilo que eu realmente quero dela.

Estou a dar-me tempo para viver a vida. O momento é agora. 

 

 

21
Mai18

O resumo de uma breve passagem por Fortaleza, Brasil

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O melhor do Brasil: a praia

 

Cheguei há uma semana do Brasil. Já recuperei da ressaca do jet lag e do cansaço acumulado (dormi uma noite e uma manhã inteiras e achei que me tinham posto qualquer coisa na comida, porque nunca me senti tão pedrada na vida) e, não estando fresca que nem uma alface, já estou bem melhor. Um coisa ainda continua igual desde que vim: sinto-me uma pintura ambulante. Porquê? Porque cheia de medo de outras potenciais queimaduras, já que apanhei logo uma no primeiro dia em que lá estive, pedi à minha mãe que me espalhasse protetor solar 50 nas costas e nos braços (os sítios onde não chego). Pois qual não é o meu espanto quando, antes de vir, olho-me ao espelho e percebo que tenho os dedos da minha querida mãezinha tatuados no meu braço e outro tipo de pinturas abstratas em toda a minha dorsal. Estou incrível. Achei que isto ia desvanecer, mas passado uma semana ainda parece uma escultura de barro arredondada. 

De resto, vim do Brasil com mais sardas, uma cor de pele um tanto ao quanto mais saudável (estava com um ar terrivelmente macilento), com várias tapiocas no estômago (eu sabia que aquilo era delicioso e nada como aquela porcaria que vendem aqui!) e mais uma experiência no lombo. Estive em Fortaleza, num evento sobre moda de autor brasileira, e ainda estou em overdose de tanta passarela. Esta foi a primeira press trip que fiz (talvez a última?) e conto mais tarde escrever sobre aquilo que acho destas viagens organizadas. Mas posso já adiantar que uma das coisas mais interessantes é a troca de experiências e opiniões com outros jornalistas do ramo – no meu caso, estive sempre acompanhada por um senhor da Argentina, uma senhora do Uruguai e uma londrina, com quem me dei muito bem e com quem tive oportunidade de praticar o meu inglês.

 

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Hora da lontrice: o melhor prato que lá comi, uma moqueca, e, claro!, a tapioca

 

Não vos vou maçar com detalhes ou opiniões sobre o evento, por ser uma coisa que me cheira mais a trabalho do que a lazer. Mas gostava, como faço sempre, de fazer um mini-resumo da minha viagem – ainda que não haja muito para contar! A verdade por detrás das viagens de trabalho é que são sempre super cansativas, ainda para mais se forem transatlânticas – acima de tudo porque são curtas e intensas, não dando tempo ou chance para uma pessoa se recompor. Neste caso, tive algumas manhãs livres, mas o evento acabava muito tarde, pelo que eu acabava sempre por me deitar para lá da uma da manhã (cinco da manhã aqui) e, como acordava cedo, ora para trabalhar ora porque o sol não me deixava dormir, nunca conseguia repor as energias. O dia que mais aproveitei foi o da vinda, pois só tinha voo à noite – de resto, todos os minutinhos livres foram de praia, que é de facto maravilhosa.

 

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 (descubram o Wally!)

 

Nesta altura é Outono por lá, mas as temperaturas não saíram dos 30 graus – choveu bastante num dos dias, mas foi azar nosso. Segundo vi nas notícias, foi o dia mais chuvoso do ano naquele estado, por isso só posso considerar que tive pontaria. Chovia a sério, muita água e em gotas gordas, mas o ar continuou abafadíssimo como em todos os outros dias (ou talvez pior, que aquela humidade não é feita para “gringos” como nós). Ainda assim a praia estava vazia, ainda que com estas condições incríveis e com uma temperatura óptima – tanto fora como dentro de água. No primeiro dia – o do escaldão, em que não havia sol à vista mas estava muito quente – haviam umas dez pessoas em centenas de metros de areal. Como não adorar?

A verdade é que no aspeto “praia”, o Brasil subiu na minha consideração. Quando fui à Bahia, há mais de uma década, lembro-me que foi uma desilusão. A água era suja e pouco quente, o areal era avermelhado por causa do tipo de rocha lá presente e relativamente pequeno... e havia tubarões a dar à costa, o que não alimentava a confiança para dar grandes braçadas. Aqui era tudo o contrário – apenas uma nota relativamente ao mar, sempre super agitado, que não permitia que uma pessoa respirasse durante sete segundos sem levar com mais uma tromba de água na cara. E havia palmeiras, espreguiçadeiras e todas essas coisas que estão no nosso imaginário quando falamos de países tropicais, por isso tirei a barriguinha de misérias.

Reparei que no hotel onde estava só havia brasileiros; a percentagem de estrangeiros devia rondar os 5%, uma coisa meramente residual, o que é estranho dado o tipo de hospedagem (tudo incluído, parque aquático ali ao lado e praia literalmente em frente).

Isto pode ser explicado pela fraca irrigação que o aeroporto local tem, que vive praticamente de voos internos e que tem das piores condições que vi ultimamente. Para além disso, a cidade em si não tem muito que ver e a pobreza das gentes é evidente. Quase tudo o que vi foi de carro, não tenho uma única foto tirada com a máquina, e não pude explorar nada a fundo. A única coisa que de facto visitei foi o mercado central (um edifício com quatro pisos, gigante, embora bastante feio), mas como fui ao domingo de manhã (e ainda por cima coincidindo com o dia da mãe) muita coisa estava fechada. Há imeeeeensas coisas baratíssimas, principalmente para quem gosta de artesanato mais clássico, como toalhas de mesa rendadas e saídas de praia trabalhadas. Eu vim de lá cheia de tralhas – desde vestidos de praia, biquínis e uma carteira – e fiquei com pena de não ver mais.

 

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PIntura à entrada do mercado

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 No mercado (neste momento, já não queria saber do nível de viscosidade da minha pele ou a horrorosidade do cabelo. Deixei-me vencer pela humidade)

 

Ainda na press trip, visitei um centro comercial, com uma dimensão colossal, que contrasta com tudo o que se vê lá fora: o centro comercial era arejado, minimal, com ótimas lojas; nas ruas está tudo a cair de velho, imensos edifícios cuja construção ficou a meio e outras paisagens típicas de países em desenvolvimento. De facto, safa-se a praia.

Devo admitir que não me lembro se a Bahia era bonita, mas sei que todo aquele caos me assustou imenso. O trânsito era medonho, gente a buzinar por todo o lado, estradas em muito mau estado – e embora aqui isso também não fosse exemplar, era muito melhor do que aquilo que eu me recordo da minha viagem anterior.

Os brasileiros continuam naquela sua típica boa disposição, independentemente da sua qualidade de vida. Confesso que muitas vezes tudo aquilo que me soa a falso, mas uma pessoa acaba por se habituar – já é algo que faz parte da identidade cultural deles. Nunca andei sozinha na rua, mas tive sempre muita atenção em não ter nada valioso comigo, por isso nunca me senti minimamente ameaçada – mas estava sempre atenta e com os olhos em todo o lado, porque já se sabe que uma mulher prevenida vale por duas.

 

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Venda de milho na rua

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Um talho aberto, a que eles chamam "frigorífico" (cof cof cof)

 

Um dos temas mais presentes desta minha viagem foi a exportação e a vontade que eles têm em crescer, particularmente a moda brasileira. Mas, muito honestamente, acho que estão muito longe disso. Não se podem definir objetivos enormes sem se passar pela base – e eles falham numa coisa tão simples como falar inglês. Nem no hotel sabiam! Os estilistas não conseguiam comunicar com a minha colega londrina, era sempre preciso um intermediário; fomos a uma empresa e uma das figuras mais altas não sabia dizer o que faziam noutra língua sem ser a dele. E isso, para mim, é grave. Na moda e em tudo. Também isso terá certamente impacto negativo para o turismo.

Uma pessoa anda por lá e pensa que o que não falta é potencial. Eles têm tudo. Mas falham nas bases: no ensino, nos políticos, na forma de estar – e sabem-no. Em conversa com alguns brasileiros, percebi que eles têm noção tanto daquilo que podiam ser como de tudo o que fazem mal. Criticam objetivamente os políticos, por exemplo, mas acho que ainda falta alguma auto-crítica por parte de cada um deles. Aquele “jeito de ser” que tanto nos encanta neles, tão divertidos quanto leves, tem tanto de encantador como de mau, principalmente para eles próprios, que têm muito para fazer se quiserem sair do eterno status de “em desenvolvimento”.

Dado o meu estado de espírito um bocadinho atribulado durante a viagem, perguntaram-me se me arrependia de ter ido. Nunca. Não sei se, sabendo o que sei hoje, voltaria - mas arrepender-me de uma coisa que fiz pela primeira vez, para pelo menos tentar, nem pensar. Foi só mais um bónus da vida. Nunca pensei voltar ao Brasil e, em menos de uma semana, lá fui eu. Já aprendi umas tantas coisas :)

 

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A praia

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O pôr do sol em frente ao local do evento

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As pinturas nas paredes são a forma mais comum de publicidade - algumas líndissimas!

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O adeus a este país tropical <3

17
Jan18

Review da semana #24

Trello

 

Não sei quanto a vós, mas eu sou doidinha por listas. Infelizmente ando a desleixar-me no meu bullet journal, que devia ser a casa-mãe de todas as minhas listas e listinhas, mas mesmo na altura em que andava sempre com ele de atrelado apercebi-me que já não o usava 100% das vezes que queria apontar algo. Tudo o que eram coisas rápidas, que estavam no meu top-of-mind e que eu sabia (ou achava?) que não me ia esquecer, optava por não escrever só com a preguiça de ter de ir buscar o caderno, abri-lo, pegar no estojo, tirar a caneta, escrever e guardar tudo de novo.

Acho que já se imagina o final desta história: eu às vezes não apontava e acaba por me esquecer de algumas coisas. Como dizem os outros, de boas intenções está o inferno cheio - e eu tinha muitas, mas também já tinha uma lista mental demasiado grande para conseguir dar conta do recado. Entretanto chegou Janeiro, eu ainda nem sequer inaugurei o mês no meu bullet journal e o trabalho não abranda... muito pelo contrário. E eu sinto-me perdida, com um medo terrível de falhar, de que a memória não chegue para tudo... e por isso recorro às minhas melhores-amigas listas. Acima de tudo - mais até do que a componente organizacional - é uma forma de me acalmar, de saber que tudo o que paira na minha cabeça está assente em qualquer lado, de que não ficará esquecido e que está sempre lá mal chegue o tempo de executar a tarefa x ou y.

Lembro-me de ter esta sensação nos meus primeiros tempos no mundo laboral: vinham coisas para fazer de todos os lados, sobre assuntos diferentes, que implicavam recados para ali, tarefas para acolá, marcações na agenda, emails para uns, notas para outros... e eu sentia que o meu cérebro estava a jogar à cabra-cega, de tão perdido que estava. Na altura passou mas, nesta nova fase no trabalho, em que faço o dobro do que fazia antes, o pânico de me faltar algo voltou para me assombrar. E por isso eu voltei a utilizar uma ferramenta que tinha utilizado há cerca de um ano e meio, na altura para uma função muito específica, mas que é maravilhosa para "listólicos" como eu. Chama-se Trello e consiste numa aplicação à base de... (rufos de tambores) listas!

Podem criar vários "cartões", que é como quem diz tópicos-chave, e a partir daí recheá-los com tudo e mais alguma coisa. Mesmo dentro dos próprios tópicos podem colocar comentários, pondo notas se assim precisarem, e até anexar fotografias e ficheiros, colocar datas limite, fazer check-lists e até adicionar outras pessoas às vossas listas e tabelas, sendo por isso uma ferramenta útil também para o trabalho. Depois de feitos, arquivam os tópicos-chave ou simplesmente as tarefas neles contidas (ou movem-nas, conforme preferirem).

Tem a grande vantagem de funcionar em browser e em aplicação no telemóvel, o que faz com que tenham sempre um aparelho à mão para atualizar as listas quando necessário. Acima de tudo, é uma forma rápida, organizada e muito flexível (pelas muitas possibilidades que tem, tanto a nível das listas, como de personalização e até de partilha) de trabalhar com listas, principalmente para alguém como eu que se apoia nelas para ter sempre tudo sobre controlo e que passa a vida a escrever e a apagar coisas à medida que o dia vai passando. 

 

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