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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

13
Nov18

Menos telemóvel, mais vida

Carolina

Há uns estudos quaisquer que dizem que um hábito se perde em 21 dias - se quisermos e fizermos por isso, claro está. Mas a verdade é que me bastaram cinco dias para perder hábitos há muito enraizados - e sim, estou a falar do telemóvel (prometo que este é o último post desta "saga"). De tal modo que, neste momento (em que vos escrevo do meu novíssimo Xiaomi Pocofone, com o qual já lido há uns dias) ainda tenho o meu smartphone quase em modo de default - ainda não mudei backgrounds, ainda não instalei o Instagram ou o Feedly, ainda não abri o YouTube. Só tenho, para já, o mínimo necessário para comunicar com os outros e dar-lhes conta de que não morri - e mesmo nesse campo impus-me novas regras.

No que diz respeito às apps, tirei o som e os alertas para as notificações de conversas de grupo (algo que somos incapazes de controlar e que nos pode levar à loucura em dias menos bons), estou a todo o custo a tentar tirar o som do Messenger do Facebook (que me parece impossível, mas continuo à procura) e, quando instalar o Instagram, ainda vou pensar no que vou fazer. Deixei de levar o telemóvel para a casa de banho (não pela razão óbvia ou por estar traumatizada com o que aconteceu ao outro - deixei-o cair por tê-lo no bolso, algo que nunca faço, e que resultou de uma mudança de rotinas esporádica - mas sim pela quantidade de tempo que passava a ver porcarias) e, de uma forma geral, de o carregar de um lado para o outro - o facto do telemóvel ser grande, me cair facilmente dos bolsos e não ser tão "maneirinho" contribui muito para este facto.

Eu não estou a dizer que estas são mudanças definitivas - mas são as mudanças que me apetece fazer agora. Habituei-me a não ser incomodada. E habituei-me, acima de tudo, a não esperar que alguma coisa caia no telemóvel - e acho que é aqui que reside a grande questão. Porque a maioria das vezes que eu clicava no ecrã principal não era para "ver as horas" - era, sim, uma constante procura por novidades, por algum tipo de contacto. Para ver se era lembrada.

Criei este hábito - diria que à semelhança de 90% das pessoas - por várias razões: primeiro por culpa dos dois anos em que trabalhei no jornal. O meu e-mail era um rodopio constante, havia novidades (não necessariamente boas) a cada refresh que fazia e eu habituei-me a checkar consecutivamente o telemóvel à espera de problemas por resolver - e, durante muito tempo, não os ter foi complicado para mim. E segundo devido à questão da socialização, ainda que aparente, que as redes sociais e as apps de comunicação nos dão. Eu sou uma pessoa só e estas aplicações são uma óptima muleta para alguém cuja parte social não é muito forte; sem falarmos com ninguém parece que conhecemos as pessoas, sentimo-nos muitas vezes integrados. Tem também uma forte componente de aprovação - quando publico alguma coisa fico sempre na expectativa de quem vai gostar ou comentar; talvez porque me sinta insegura em alguns aspetos (nomeadamente físicos) e porque sou tão humana como os outros e também gosto de ter a aprovação de quem me rodeia. Mas até no blog esta constante expectativa se aplica; ainda que a questão da insegurança não seja tão pertinente porque acredito mesmo nas ideias que aqui partilho (e defendo-as com unhas e dentes, se assim for necessário), espero sempre ansiosamente por comentários e interações - no fundo, um feedback por parte de quem me lê, para confirmar também que alguém o faz. Passava a vida a abrir o site, ou a atualizar o e-mail para ver se caía qualquer coisa. E eu quero que isso acabe. Quero não precisar disso para me sentir bem. 

E por isto, todo este atraso em relação ao telemóvel é muito mais que um simples atraso. É uma tentativa de desconexação. Não completa - continuo a falar com as pessoas, a responder às mensagens, a passear no facebook enquanto estou na fila de espera de qualquer coisa. Mas para já, que ainda não atingi o equilíbrio e tenho medo de voltar aos velhos hábitos, estou a ir passo a passo. Que, é como quem diz, app a app. É o processo de perceber que não estar ao telemóvel a vasculhar a vida e as opiniões alheias é poder ler os livros que deixei de ler, é poder trabalhar as músicas de que desisti a meio no piano, é escrever mais, é dormir mais. Há, de facto, poucos "menos" nesta equação. Talvez menos dependente. E isso basta.

 

(Sobre o meu novo Xiaomi: para já estou hipersatisfeita, estou a gostar do toque e do software (não me custou nada a mudança de iOS para Android) e as perspetivas, de tudo aquilo que li, são as melhores, dadas as características técnicas. É maior do que eu queria - gosto e telemóveis pequenos -, mas hoje em dia é tudo feito à grande, por isso não havia grande escolha. Não é uma marca fancy como o iPhone, mas está ligado há dois dias e ainda tem praticamente metade da bateria - algo que o iPhone nem no início de vida poderia sonhar. E não me venham com argumentos ao estilo "ah, é chinês...". Não que não seja verdade - mas o quê que não é chinês nos dias de hoje?)

09
Nov18

Um mundo com demasiada informação (da rubrica #Viver sem telemóvel mas a trabalhar para ter um)

Carolina

Depois de ter visto o meu telemóvel ir por água abaixo - literalmente -, e sabendo que nessa situação são normalmente poucos os sobreviventes, comecei logo a pensar que outro telefone poderia comprar. Uma coisa era certa: eu estava aberta a novas experiências, e comprar um iPhone não ia voltar a acontecer. Muito para além de gostar ou não do telemóvel ou do interface, o iPhone tem o problema dos serviços adjacentes (iCloud e iTunes) que são capazes de levar até um santo à loucura - principalmente se esse mesmo santo tiver um computador que não seja Apple.

Lancei-me por isso ao mercado dos telemóveis de braços abertos, pronta para experimentar as maravilhas da Huawei, passando pela competição renhida da Xiaomi, dos rejuvenescidos Nokia e até pela Samsung, da qual nunca fui fã. E aqui começa o problema: num universo de centenas de telemóveis - mesmo que consigamos reduzir a gama devido ao fator preço - qual escolher?

Comecei por fazer o típico: ligar ao meu irmão, a pessoa em quem mais confio nestes tópicos, a pedir a sua opinião. Foi ele que me apresentou ao GSM Arena, cujas opiniões acabaram por pesar bastante na minha decisão final. O drama é que todos estes sites que avaliam telemóveis são eternamente insatisfeitos: há sempre alguma coisa que está mal, há sempre detalhes que faltam, há sempre uma lista demasiado grande de desvantagens - e pior, há sempre uma comparação com outros modelos, dentro da mesma linha e preço, que eventualmente também nos podem satisfazer (mas que também têm uma lista recheada de prós e contras). 

Chegamos a este ponto e, para além do problema inicial de escolher um telemóvel, ainda temos outro: lidar com a quantidade soberba de informações que temos nas mãos mas que, em vez de nos esclarecerem como era suposto, só nos confundem mais. Do nada, caímos num silo que em vez de ter cereais tem nomes de processadores, tipos de entrada USB, tamanhos de RAM, polegadas e diagonais de ecrã, chipsets XPTO, câmaras que vêm aos pares, não sei quantos miliamperes de bateria, cartões SD para se enfiar em vários sítios diferentes... a par dos testes à luz solar, dos altifalantes, da rapidez, da qualidade do som, da duração da bateria, da câmara fotográfica de dia e de noite, do modo de desfoque, de retrato, de paisagem, de panorama, da utilização do HDR, da qualidade do vídeo com 1080p a 30 fps ou 60 fps, com ou sem estabilizador... E, wow!, não conseguimos respirar! E se depois chegamos a alguma conclusão - algo altamente improvável, dado que o nosso cérebro está feito em papa depois de processar tamanha quantidade de informação -, ainda vemos todas as promoções em vigor, todos os sites meios rafados que têm preços altamente competitivos mas cuja confiança é duvidosa ou cujo local de envio fica do outro lado do mundo, o que é um bocado chato tendo em conta que precisamos do telemóvel para ontem. Cansativo, hun?

A verdade é que neste momento vivemos num mundo com demasiada informação sobre tudo. Há dez anos, quando se queria adquirir um telemóvel ou um carro, compravam-se revistas, analisavam-se as características e liam-se as críticas - limitadas a um espaço relativamente curto, dentro de uma ou duas páginas; tudo o resto eram opiniões com base em experiências pessoais, do indíviduo X que tinha tido imensos problemas com determinada marca ou de outro que adorava o carro Y. Mas hoje o espaço é ilimitado e não há só duas ou três revistas sobre o tópico - há milhares de fontes para escolher. Qual é que a mais fiável? Qual é aquela que procura um telemóvel com características semelhantes àquelas que nós próprios queremos?

Cheguei à conclusão de que este processo é um ciclo vicioso. Li várias críticas (em sites estrangeiros e portugueses) a uma seleção de meia-dúzia de smartphones, vi vários vídeos do youtube ("Porque é que NÃO deve comprar este telemóvel", "Porque é que este smartphone é o melhor do ano", "Comparação entre o Huawei X e Z") - e tudo isto nos leva a ainda mais conteúdos, ora porque não percebemos uma coisa, ora porque diferentes artigos se contradizem em determinado detalhe ou simplesmente porque nos são sugeridos e "mais um também não faz mal a ninguém". Até que parei. Percebi que já tinha tirado tudo o que podia dali: já tinha feito uma shortlist, já tinha feito os prós e os contras mais importantes de cada uma das minhas escolhas, já tinha todas as pré-informações possíveis e imaginárias e já tinha aprendido uma série de coisas novas ("nodge" e "chipset" passaram a fazer parte do meu vocabulário, por exemplo). 

E daí segui o derradeiro conselho do meu irmão: "vai a uma loja, experimenta o telemóvel, vê se gostas do interface, da maneira como fica na mão... e depois decides". E foi assim. Não é curioso como, no fim de tudo isto, depois de todas as horas de pesquisa, e de comparações... tudo se volta a resumir à vida real? Ao "feel" da coisa, para lá de todos os gigas, processadores e cenas geek-racionais? Somos criaturas complexas, não é verdade?

04
Nov18

Viver sem telemóvel

Carolina

Ontem de manhã o meu telemóvel caiu na sanita.

 

Pronto, um parágrafo foi bastante para se rirem? Já contraíram o abdominal o suficiente à minha custa? Olhem que essas gargalhadas de gozo que estão a soltar neste preciso momento podem voltar-se contra vós - o karma é lixado, e eu estou em crer que muito telemóveis no mundo visitam diariamente sanitas alheias, por isso é melhor terem cuidado. 

Fiz tudo aquilo que dizem que se deve fazer nestas situações - tirei-o logo da água, sequei-o, tirei-lhe todas as capas e partes que podia retirar, aspirei-lhe todos os orifícios, coloquei-o no meio de sílica gel para absorver a humidade e no meio do arroz. Neste post não me quero concentrar nas hipóteses de sobrevivência do meu telemóvel (que, a meu ver, serão poucas) mas sim em como vivi estes dois dias sem telemóvel - um estudo interessante nos dias de hoje, que praticamente só é possível em alturas como estas, por obrigatoriedade.

Admito que é com surpresa que digo que me senti muito bem. Não houve cá suores frios pela síndrome de abstinência nem senti falta de, ao longo do dia, estar sempre a carrega-lo comigo. Na verdade, senti-me até algo aliviada: não me era possível ser contactada e isso não era culpa minha - e por isso tinha carta branca para não ver o que me diziam, não me sentir culpada por não responder, não ver, não atender. Porque a verdade é essa: os telemóveis fizeram com que estejamos contactáveis a 100%, a toda a hora, de todas as formas, em praticamente qualquer lugar do mundo - e, se não respondemos a esse chamamento, ou somos mal-educados por não dar resposta, ou uns totós afastados das tecnologias. 

O Miguel Araújo escreveu há uns tempos uma crónica na Visão a propósito disso e sobre o facto de não atender o telemóvel de forma deliberada, que convido a que leiam aqui (mas só depois de acabarem o meu post, está bem?). Escreveu: "Eu quase não atendo o telefone. Aquela solicitude de falar imediatamente, de estar disponível para uma conversa não solicitada é algo que eu reservo para as pouquíssimas (4 ou 5) pessoas da minha mais exclusiva intimidade. Tudo o resto (tudo!) fica resolvido com mais delicadeza, eficácia, celeridade e concludência através das outras mil maneiras que o mesmo dispositivo permite", que enumera posteriormente. Depois acrescenta: "Mas telefonar, convenhamos, soar um alarme que pede resposta imediata por parte do nosso semelhante, é quase sempre inconveniente, nos dias atarefados que correm. (...) Entendo que um telefonema convenha a quem liga. Mas dificilmente convém a quem se destina. E isso, na sua essência, é indelicado."

Na verdade, eu estendo as palavras dos Miguel dizendo que é indelicado, como um todo, esperar uma resposta imediata de alguém, qualquer que seja o meio de comunicação. E, para mim, há regras "invisíveis" que atenuam este novo paradigma, mas que aparentemente são ignoradas por quase toda a gente (um exemplo é contactar alguém depois das 18h acerca de coisas de trabalho, sabendo à partida que a pessoa em questão já não está a trabalhar - escrevi sobre isso neste post). Nesse sentido, aproveitei este momento para ter paz e não ser consumida com notificações. O meu pai emprestou-me um telemóvel antigo, em que nem sequer coloquei o meu cartão ou instalei qualquer tipo de aplicações - só os meus pais e os meus irmãos têm o número, em caso de haver alguma emergência. Não anunciei no facebook que não tinha telemóvel, não dei alternativas de contacto, não providenciei outro número; para o mundo, hibernei. Dei-me a esse luxo.

E é engraçado ver como a função primária do telemóvel - contactar e ser contactado pelos outros - não é de todo aquilo que sinto mais falta. Ontem dei por mim em três momentos a sentir a falta do smartphone: o primeiro foi ter sentido necessidade de uma sessão de meditação promovida por uma aplicação que tinha instalado (não perguntem - um dia hei-de escrever sobre isto, mas ainda estou muito no início); o segundo foi quando me deitei, altura em que queria escrever um texto que estava a começar a surgir na minha cabeça; e o terceiro foi quando acordei a meio da noite e precisei de ver as horas, momento em que tive de ligar o candeeiro para conseguir ver os ponteiros no meu relógio de pulso que já tinha deixado estrategicamente na mesinha de cabeceira. As coisas mais óbvias e que supostamente me fariam mais falta - para além das comunicações -, aquelas que me gastam mais tempo no dia-a-dia, foram aquelas de que mal me lembrei: nem facebook, nem instagram, nem whatsapp e as suas cansativas conversas de grupo. Foram coisas corriqueiras, de utilidade pessoal e não de procrastinação.

É lógico que isto não vai durar para sempre - e é óbvio que a minha despreocupação com o telemóvel não é assim tão grande. Chateia-me tê-lo deixado cair, aborrece-me e entristece-me plenamente a possibilidade de perder algumas coisas de que não tinha feito backup e irrita-me ter de gastar dinheiro noutro telemóvel quando ainda queria que este durasse dois anos para o conseguir "amortizar" por inteiro. Mas às vezes não temos escolha. E é bom ver que, afinal, até vivo muito bem sem uma coisa que já parecia uma extensão de mim. Melhor que isso: perceber que até gosto de viver sem ela.

 

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30
Abr17

Dramas de quem tem uma mente "velha" num corpo novo

Carolina

Eu costumo dizer que tenho um espírito velho a morar num corpo de miúda nova, mas a verdade é que muitas das coisas que na generalidade se associam aos "velhos" são muitas vezes valores morais, éticos e costumes mais antigos, que deixaram de se aplicar e que eu - ao contrário da maioria - ainda dou valor. Acho que isto advém muito por eu ter pais mais velhos do que a maioria das pessoas da minha geração e por sempre me ter rodeado por pessoas com bastante mais idade que eu.

Eu percebo que as coisas mudem - e ainda bem, senão as mulheres ainda não votavam, os pretos e os brancos ainda iam em lugares diferentes no autocarro, a televisão ainda só tinha um canal e coisas que tais - mas há certas coisas que, para mim, tinham razão de ser e se deviam manter. Toda a gente tem uma série de valores que acha essenciais e pelos quais guia a sua vida e eu acho que me guio por coisas "antigas" (mas que, na minhas perspectiva, não deixam de ser valiosas e atuais).

Em relação a isto, um exemplo que posso dar tem que ver com a hora a que se telefona às pessoas. Eu sempre cresci a ouvir dizer que não se ligava a ninguém a partir das 22h - é lógico que não é algo matemático, pode ser um bocadinho antes, um bocadinho depois - mas é uma referência e tem sentido, porque é a hora em que a maioria das pessoas arruma as botas, já está com o pijama vestido e com a manta por cima a ver televisão ou a ler um livro na cama. 

Tira-me do sério, por exemplo, que me peçam para fazer um telefonema de trabalho durante o fim-de-semana - não por eu ter de trabalhar nos meus dias de "folga" (porque trabalho sem problemas, é algo que faço com frequência), mas por ter de incomodar as pessoas naquilo que, de uma forma geral, é o seu horário de descanso. Da mesma forma que evito fazer chamadas de trabalho depois das 18h - acho que é a hora do "senso comum" de final de trabalho e, do meu ponto de vista, todos temos o direito de descansar sem sermos permanentemente incomodados por pessoas com horários de trabalho antagónicos aos nossos.

Aqui em casa este assunto passa a vida a ser discutido, porque a minha mãe - para me ajudar a fazer bem o meu trabalho - pressiona-me para eu ligar às pessoas que tenho de chatear ou entrevistar. E como eu detesto falar ao telemóvel e isso me causa um stress tremendo, ela acha que eu digo que "não são horas de ligar às pessoas" para me esquivar do ato de telefonar. Mas não é. Cresci com o meu pai a mandar bugiar as pessoas que lhe ligavam à hora de almoço, uma hora que aqui em casa sempre foi sagrada, e apenas levo esses ensinamentos para a vida. E sim, fico preocupada quando recebo uma chamada às 23h de alguém que só quer saber se há uma aula no dia seguinte ou algum assunto frívolo semelhante.

Eu sei perfeitamente que, com os telemóveis, as pessoas acham que podem ligar a tudo e a todos a qualquer hora do dia, com a desculpa de que "quem não quer ser incomodado desliga o telemóvel". Eu acho que as coisas não funcionam assim. Acho que a sociedade está a perder os seus valores de referência, que só as vontades individuais importam e que só nos focamos cada vez mais no nosso umbigo e que esse respeito tácito pelo espaço dos outros, que antes se sentia e vivia, se perde cada vez mais. E eu tenho pena de ser rotulada como uma mente "velha" só por causa disto.

19
Abr17

Review da semana #19

Carolina

Suporte para telemóvel ou #CoisasSupostamenteInúteisQueComproNoEbay, parte 1

 

Há uns meses decidi encomendar um suporte para telemóvel, daqueles para pôr em cima da secretária. Há quem tenha a mania de andar a circular por aquele corredor terrível do Lidl à procura de coisas um tanto ao quanto inúteis para comprar (sim, mãe, estou a olhar para ti - e sim, também sei que estou a ser injusta, porque até há lá coisas fixes e tu até nem tens comprado muita coisa, mas isso fica para as nossas discussões domésticas); eu tenho a mania de andar a percorrer o ebay à procura de coisas giras, baratas e com utilidades duvidosas. Mas depois surpreendo-me e essa é a melhor parte de todas (e, já agora, o facto de receber coisas pelo correio - adoro receber encomendas!).

No meio das minhas expedições "ebayianas" devo ter dado de caras com este suporte para telemóvel e encomendei um para mim, para ter no escritório. E a verdade é que fiquei fã! Quando estou a trabalhar tenho sempre vários jornais abertos à minha volta, mais o bloco de notas, mais a agenda, mais o estojo e as canetas, a par do copo de café e a carteira e... enfim. Resumo: o telemóvel ficava sempre perdido naquele caos todo e sempre que precisava dele quase que tinha de pedir para me ligar.

Agora não. Fica ali em pé, mesmo ao meu ladinho. Para além de agora ter um sítio fixo para o pôr e de já não ter de fazer autênticas expedições na minha própria secretária, vejo com muito mais facilidade todas as notificações que me caem no telemóvel (que, como pessoa pouco popular que sou, se resumem praticamente a coisas o género "Cebolas já estão prontas para ser colhidas", do Star Chef - sim, porque eu continuo a jogar!).

A verdade é que passado pouco tempo encomendei um para o meu chefe e vi-me obrigada a mandar vir mais um para mim, para ter em casa. Dei por mim a trabalhar no meu quarto e a sentir falta de ter um sítio fixo para o telemóvel, mesmo ali à mão de semear. Virei fã. 

Podem mandar vir do ebay aqui. Chega relativamente rápido, vem super bem acondicionado e, no meu caso, tornou-se o meu melhor amigo contra expedições-demoradas-e-inúteis-numa-secretária-inundada-de-papéis.

 

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01
Mar17

Review da semana 17#

Carolina

Here WeGo

 

Quando estive em Madrid, na altura de jantar, o pessoal que estava comigo decidiu o restaurante onde íamos e ligou o que me pareceu o GPS do telemóvel para saber o caminho certo, desde o hotel ao restaurante. Pelo caminho trocavam bitaites, porque o telemóvel de uns dizia para ir por um lado, o de outros dizia para ir por outro. E só pelo andar da conversa é que percebi que aquilo que eles estavam a utilizar não era o GPS mas sim várias aplicações que utilizavam o GPS, mas não gastavam internet (como eu, mente brilhante, fazia até então).

Perguntei a um deles como se chamava a aplicação: é a Here WeGo. O que aquilo faz é descarregar os mapas do sítio onde o utilizador está (em viagem pode descarregar-se com o wi-fi do hotel, por exempo) e depois pode-se utilizar aquilo em offline, sendo que o telemóvel só necessita da vossa posição geográfica para vos dar direções (utilizando o GPS e não a internet, algo necessário quando se utiliza, por exemplo, o Google Maps).

Quando fui para Munique e andei sozinha, foi o que me safou. Pus um "pin" em cima do meu hotel e depois, sempre que estava noutro qualquer ponto da cidade e queria voltar a pé, era só pedir o caminho de volta. Aquilo, à partida, não é a coisa mais intuitiva do mundo - funciona com "vire a norte" e "vire a oeste" (o que para pessoas normais e meias desgovernadas, pode ser um pouco confuso), mas depois de se perceber a lógica é sempre a virar frangos. Para mim foi particularmente útil porque, a certa altura, já não tinha sequer net para gastar, esqueci-me do papel com as informações do hotel e estava desesperada por voltar (para ir buscar o dinheiro e o passaporte que tinha deixado no cofre), por isso só tenho a agradecer ao meu sentido de orientação e ao Here WeGo por ter chegado a todos os sítios, sã e salva e sem qualquer registo de perdas pelo caminho.

A aplicação é gratuita e está disponível em iOS e Android.

18
Out16

Deixem passar a chef!

Carolina

Acho que a única mesmo certinha que tenho feito desde o primeiro dia em que comecei a trabalhar - para além das necessidades básicas, como é óbvio - é jogar o Star Chef todos os santos dias, assim de forma super religiosa. Não sei como é que descobri aquilo, acho que estava simplesmente desesperada por algo que me entretivesse durante uns minutos para deixar de pensar nas mil e uma coisas para fazer e acabou por sair dali o novo vício do momento.

No fundo aquilo não tem nada que saber: é um jogo de gestão de tempo e de recursos, mas estes são sempre os meus jogos favoritos. Não me apetece estar aqui a explicar o jogo (é grátis, é só descarregar) mas, no fundo, aquilo é um restaurante onde têm de satisfazer os pedidos dos clientes, cozinhando-lhes aquilo que eles pedem; para isso, precisam de comprar os ingredientes ou planta-los (e eventualmente de os preparar previamente antes de cozinhar os pratos finais). Depois há sempre nuances, aqui e ali: uma delas é que podem comprar as refeições já prontas ou até os vegetais/frutas que precisam de ter na hora e não podem esperar que cresçam

Ora, eu estava desesperada por maçãs - que, numa primeira fase, crescem muito devagar. Por isso ia à tal "loja" à procura das maçanitas com melhor preço (é preciso ter em conta que normalmente são bastante caras) e ficava super feliz, porque passava a vida a encontrar autênticas pechinchas. Só para terem ideia, 10 maçãs custam normalmente 800 moedas - e eu comprava por 40! Mas depois ia ao cabaz da fruta e as maçãs compradas... nem vê-las! Foi uma série de dias nisto e eu já com os nervos em franja, porque comprava as maçãs e depois não as podia usar. O meu nível de irritação já era tão elevado que já considerava mandar um email para o help center. Mas depois percebi.

Estava a comprar tomates em vez de maçãs. Nesse dia decidi que me ia deitar mais cedo.

11
Set16

Eu, os números de telemóvel e a invasão da esfera pessoal de cada um

Carolina

Não sei se é por ter convivido durante toda a minha vida com pessoas bastante mais velhas que eu, mas tenho enraizados em mim alguns hábitos e regras de conduta que me custa muito quebrar. Coisas que na minha cabeça advém simplesmente do que acho ser boa educação, mas que se calhar não passam de velhos hábitos e velhas regras que, nos dias de hoje, não fazem sentido ter.

Não se liga para as pessoas depois das 22 horas. Não se começa a comer sem a pessoa mais velha o fazer. Não se dá o número de telemóvel sem se pedir autorização à pessoa em questão. Diz-se "com licença" ou "bom dia" quando estamos a sair de um elevador com pessoas que não conhecemos. Sei lá - são tantas pequeninas coisas que são tão normais para mim que tenho dificuldade em lembrar-me delas. Na verdade, só quando alguém as quebra é que eu me apercebo que elas existem dentro de mim.

Nos últimos dias tenho sido confrontada com todas as minhas "regras intrínsecas" envolvendo telemóveis. Não sou jornalista, mas como estou a trabalhar num sítio muito pequenino em que é preciso fazer de tudo, ser qualquer coisa parecida com jornalista é uma das atividades que tenho (esta semana foi tudo o que fiz, uma vez que o site onde vou trabalhar a maior parte do tempo ainda não está pronto). Posto isto, muito do que tenho de fazer é ligar para as pessoas - o que, para mim, é uma dor quase semelhante a beliscões consecutivos em todas as partes do meu corpo. Eu sou má a lidar com pessoas no geral, mas sou ainda pior a falar ao telemóvel - e tenho de me preparar psicologicamente antes de fazer cada chamada, respirar três vezes e ganhar coragem de cada vez que clico no botãozinho verde. (E agora vocês perguntam-se: e porque raio escolheste essa profissão? Acreditem, há dias em que me pergunto o mesmo). Mas a verdade é que já me sinto a melhorar e sei que é uma questão de tempo até esse desconforto me passar.

Mas enfim, aqui o busílis da questão está mesmo na transmissão despreocupada de números de telemóvel. Talvez eu pense como uma criatura do século passado, mas para mim um número de telemóvel ainda é algo pessoal. Mas, só no meu primeiro dia de trabalho, deram-me meia dezena de números de telefone para quem ligar, onde se incluíam figuras públicas - e eu fiquei um bocadinho atarantada. Talvez sejam muitos traumas juntos: detestar falar ao telemóvel, não gostar de falar com estranhos e achar sempre que sou chata e estou a incomodar as pessoas. Mas a verdade é que eu só pensava como iria abordar a questão e como eventualmente seria despachada a pontapé: "olá, eu sou a Carolina, colaboradora de um jornal ...", "mas como raio é que conseguiu o meu número?!?!?!"

Esta conversa ainda não aconteceu (a figura de quem falei foi, por acaso, super simpática e atenciosa), mas sei que um dia será o dia. Talvez pense à imagem daquilo que gosto que façam comigo. Vejo o telemóvel como uma coisa privada e não gosto que ande nas bocas do mundo - mas já percebi que, metendo-me neste universo, o meu telemóvel não será diferente do dos outros e fará parte dessas trocas infindáveis sem qualquer aviso prévio ou preocupação. Admito que me faz confusão. Sinto que estou a entrar na esfera privada de alguém e que os outros podem eventualmente entrar na minha - e, por isso, percebo que não gostem e tenham tendência a correr-me a pontapé.

Se calhar sou eu que sou retrógrada, já ninguém pensa assim e estamos de facto num admirável mundo novo. Ou então as pessoas têm simplesmente dinheiro para ter mais do que um telemóvel e o problema fica automaticamente resolvido. Mas, para mim, que me vejo obrigada a ligar a torto e a direito para pessoas que nunca vi à frente (e que eventualmente também vão guardar o meu número na lista delas) não deixa de ser estranho.

03
Ago16

Há vida para além do telemóvel?

Carolina

Mal depois da "aventura" na Lello (que é como quem diz no dia seguinte, quando já conseguia andar e pensar normalmente) meti-me no carro com uns amigos e seguimos para Peso da Régua, onde outra amiga tem uma casa e nos convidou a passar uns dias. Já não é a primeira vez: já há dois anos tinha vindo e decidimos repetir a dose.

As vistas continuam lindas, perfeitas para fotos, e o convívio também é óptimo. Mas aconteceu uma pequenita tragédia - o meu telemóvel, que já grita reforma há demasiado tempo, decidiu pifar. Ele já está a funcionar mal há muito tempo, mas eu tenho ignorado todos os sinais. Está lentíssimo (dêem-lhe uns três minutos só para abrir o facebook), às vezes encrava e não me deixa fazer mais nada durante o dia inteiro e desta vez deixou de carregar. O carregador é novo, por isso quase de certeza que foi a entrada que deixou de funcionar. Já na Rússia tinha dado o berro, achei que era de vez, mas entretanto ressuscitou. Nos dias antes de vir para cá já estava a ameaçar, mas não achei que fosse definitivo. Enganei-me.

Estou há dois dias sem telemóvel e só volto para o Porto no sábado, por isso ainda tenho pelo menos mais três dias em abstinência de comunicações móveis. Admito que já andei aí a bater com a cabeça nas paredes, mas a "febre" já está a acalmar. Estou numas férias pacíficas, onde tudo o que se faz é ler e apanhar sol, por isso a ausência do telemóvel é particularmente sentida - são as férias ideais para uma pessoa andar sempre a fazer pausas, atualizar os emails e o facebook, fazer o upload de uma foto no instagram, ver os posts dos seus blogs favoritos. Ou então coisas tão simples como ver as horas ou ter uma luz para conseguir ligar o ar condicionado a meio da noite. Está a ser duro, portanto.

Apercebi-me que uso o telemóvel por tudo e por nada, nem que seja para me abrirem aqui a porta de casa (porque só temos uma chave para os 6). Coisas simples mas que hoje em dia, em que toda a gente tem telemóvel no bolso, já nem sabemos bem como contornar. Tenho-me limitado a usar os telemóveis alheios para fazer chamadas para os meus pais e a utilização da net fica restrita ao computador (que, graças a deus, trouxe comigo!). Quanto às horas, agora estou atenta aos sinos da igreja e o problema fica resolvido. 

Não está a ser agradável, mas é um "abre olhos" sobre a nossa dependência em relação aos smartphones. Os textos aqui no blog também se ressentem, assim como fotos no instagram e chamadas e SMS's com o mundo, mas é a vida. Há que sobreviver. No sábado já planeio ir à MEO mais próxima comprar um telemóvel e deixar a abstinência para traz. Espero não dar em louca.

 

(devo comprar um iPhone SE de 64gb. opiniões e críticas são bem-vindas!)

26
Mar16

Miúda 95 46#

Carolina

Os tokings

 

Eu faço parte da geração que iniciou estes novos tarifários "jovens" e pré-pagos, que antes não existiam. Lembro-me muito bem de, no meu 4º ano, ir a uma visita de estudo ver uma peça de teatro no Rivoli e de, no início, dizerem nos altifalantes que no fim todos os alunos iam receber um cartão Yorn. Foi a loucura. Recordo-me até que a minha professora pensou em dar-nos ou não os cartões, por achar que era demasiado cedo para termos telemóvel - no entanto, decidiu deixar essa decisão para os nossos pais. E a verdade é que, para muitos de nós, esse foi mesmo o nosso primeiro número de telefone.

Começou aí toda uma nova fase para nós: mandávamos mensagens uns aos outros, ligávamos a torto e a direito, até porque não pagávamos. Ter essa independência já era uma coisa do outro mundo. E vieram também as brincadeiras típicas de criança: ligar em número anónimo, não dizer quem era e... mandar tokings. Essa era a única que eu fazia - e hoje em dia, admito, tenho vergonha; passo-me se fazem brincadeiras do género comigo, por isso não me orgulho de as ter feito. Mas é assim, é a vida, foi o meu rasgo subtil de rebeldia (porque, na verdade, nunca tive jeito para ser rebelde).

Eu a minha prima juntávamo-nos, marcávamos o código do toking (que, para quem não sabe ou não se lembra, é uma espécie de mensagem/notificação que aparecia automaticamente nos ecrãs dos telemóveis a dizer que "o número x pede para lhe ligar") e púnhamos um número completamente à sorte, a ver se colava. Como era uma coisa recente, muita gente ficava à nora - e era a reação que nós gostávamos de apreciar. Quando ligavam de volta, ficávamos aflitas; mas quando mandavam mensagens confusas, deixávamos dourar a pílula e ver até onde aquilo nos levava (que era sempre a lado nenhum, e acabávamos por inventar uma desculpa cobarde ao estilo "é engano, desculpe!").

Esta vergonha dos tokings estava bem enterrada na minha memória até ao dia que a senhora que trabalhava aqui em casa recebeu um toking. Fiquei admirada pela longevidade da coisa - achei mesmo que tinha ficado preso naquela geração, tal como ficou na minha memória. 

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