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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

13
Set19

A história do par de aspas que mora na minha pele

Quando era mais nova dizia muitas vezes que "tudo o que é preciso são 20 segundos de coragem". Ainda hoje acredito nisso - embora perceba que não é só a coragem que tem de estar envolvida. A nossa capacidade de lidar com as consequências dessa coragem, o capado que temos para aguentar com o ricochete também é muito importante. Mas a verdade é que, depois daqueles 20 segundos, o resto vem por acréscimo, porque o que custa é o início. Dar o passo inicial.

Em relação à tatuagem que há muitos anos estava nos meus planos, tive vários momentos de coragem. Cheguei a ter data e hora marcada para a fazer; passado um ano voltei a tentar marcar. Mas eis outro problema sobre esta teoria: quando o tempo se mete entre a coragem e a ação, está o caldo entornado. O tempo de espera - e todos os pensamentos, vozes, opiniões e comentários que fui recolhendo e que me invadiam nesses hiatos - demoveu-me sempre.

 

"Não percebo qual é a necessidade de alterares o teu próprio corpo."

"As pessoas reles é que têm tatuagens."

"Se é uma coisa assim tão pequena que até vais esconder, para quê que vais fazer?!"

"Daqui a uns anos vais-te arrepender."

"Ninguém faz só uma tatuagem. Daqui a uns tempos estás toda rabiscada."

 

Foi como tinha de ser - e foi o ideal. Sem planeamento. "Pode vir agora", disseram-me do outro lado da linha, quando liguei para o estúdio de tatuagens. E eu fui. Sozinha, sem tempo para arrastar ninguém comigo. Sem tempo para me arrepender. E não dando tempo para que o peso de uma marcação e a necessidade que iria ter de esconder da maioria das pessoas aquilo que ia fazer pesasse na minha consciência. Decidi não lidar com as opiniões mas sim com os comentários. Lidar com as consequências e não com os avisos. Lidar com os olhares de espanto em vez dos de reprovação.

Hoje, uma semana depois de a ter feito, gosto muito do que vejo. Dei que a podia ter feito há quatro anos, altura em que me deu vontade, e que estaria tudo bem. Mas que agora, para além de muito mais certezas, faz tudo muito mais sentido.

As aspas significam a conexão com as letras; são as rainhas do jornalismo, que vive das fontes, das citações, das opiniões e dos discursos dos outros. São a forma de pormos os outros a falar. E a pensar. Cabe um mundo de letras dentro de um par de aspas.

E esse mundo é algo que fará eternamente parte de mim - mesmo que eu já pouco me lembre do curso que tirei, dos dois anos que trabalhei como jornalista e que hoje em dia escreva menos do que dantes. Sinto que me afastei radicalmente do mundo das palavras e, no que toca a trabalho, não planeio uma reaproximação. Mas não deixa de ser uma paixão pela qual lutei - desde o 11º ano, em que deixei as ciências, até aos momentos de pânico no jornal, em que tinha que me debater contra mim própria para falar com as pessoas de forma a obter algo para escrever no papel. E embora hoje esteja longe dessa realidade, todos esses embates e lutas (internas e externas) serviram para alguma coisa. 

Estas pequenas bolinhas no meu pulso não servem por isso só para me lembrar daquilo que gosto e que fará para sempre parte de mim; têm também o objetivo de me lembrar que acreditando, eu consigo. E que as lutas são para se ganhar - mesmo que no fim mudemos de ideias.

Agora sei que posso fugir à vontade das letras. Porque o mundo das letras jamais voltará a fugir de mim.

 

IMG_20190911_153458.jpg

 

03
Set18

Sobre uma tatuagem, a falta de coragem e de loucura

Há uns dias estava a rever o Inception e chamou-me à atenção uma frase que a personagem do Leonardo di Caprio diz à Ellen Page: as ideias, a partir do momento em que são implantadas na nossa cabeça, são como um vírus - não saem e tendem a propagar-se, neste caso dentro de nós.

Naquele momento lembrei-me da minha tatuagem - que ainda não é minha, porque não existe. Tive dia e hora marcada para a fazer, faz por esta altura um ano: mas fiquei tão agoniada, tão preocupada, tão atormentada com os "e se's", que desmarquei. Sei ao pormenor o desenho, o sítio; sei quem quero que ma faça, sei o preço, sei a morada; sei a opinião dos meus pais, sei que não adoram, mas sei que não vão deixar de dormir por causa disso. Sei tudo. Só não sei se quero um compromisso desses para o resto da minha vida. Mas também sei que a ideia não me sai da cabeça.

No dia em que a fizer, se a fizer, não quero dar aviso prévio; quero aparece e, oh!, já está. Não quero colher mais opiniões do que as que já tenho, não quero conspurcar a minha mente com ainda mais preconceitos com os que já lá existem - e a verdade é que tenho muitos, mesmo inconscientemente. Lembro-me que na altura em que tinha tatuagem marcada o tema surgiu várias vezes em conversas de família (sem que eu puxasse pelo assunto) e as vozes eram tão dissonantes ("odeio", "adoro", "nem pensar", "porquê mexeres no teu próprio corpo?", "é arte") que acabaram por implantar mais medos dentro de mim. O faz-não-faz estava a consumir-me tanto que deitei a ideia para trás das costas e desisti, ainda que desiludida comigo mesma. Senti (e ainda sinto, na verdade) que não a fiz por ter medo daquilo que os outros iam pensar e por recear as consequências que aquelas marquinhas podiam ter. E, caraças, isso não sou eu! Mas não queria ir contra a vontade dos meus pais que, embora me tivessem dado carta branca, torceram um bocadinho o nariz; tive medo de crescer e não querer ver aquilo no meu pulso; pensei no que os outros podiam pensar quando, numa reunião de negócios importante, o relógio deixasse ver que outrora eu decidi escrever algo em mim; tive medo de, depois de fazer uma tatuagem, querer fazer outra, como toda a gente diz que acontece.

Li muito sobre o assunto - não sobre a ciência de fazer as tatuagens ou os riscos, mas sim sobre o potencial arrependimento e as consequências sociais que ainda hoje existem caso queiramos mexer na nossa própria pele. Nunca cheguei a nenhuma conclusão. Passei sempre por períodos de certeza absoluta e outros de dúvida extrema - e mudava de estado em pouco mais de cinco minutos. Tive tanta certeza de que a ia fazer que tenho aqui, nos rascunhos, um post a descrever o porquê e a explicar a necessidade que eu senti de tatuar algo; mas também tive tantas dúvidas que cheguei ao ponto de desistir. Disse à tatuadora que, quando a fizesse, seria num ápice: decidir, ir e fazer. Não podiam haver muitos dias de hiato, não podia ser algo extremamente pensado (não mais do que já é, entenda-se). Mas isso também não é o que eu sou. 

Voltando ao di Caprio, a ideia é um vírus. Ficou em remissão durante uns meses, mas voltou em força desde a primavera. Faço-não-faço, a minha mente anda nisto tipo pêndulo. Olho para pessoas que admiro, que gosto (por dentro e por fora), e penso "caraças, a tatuagem que ela tem não afeta nada aquilo que penso dela". Mas sei que nem todos são assim. Sei que até eu posso mudar e odiar-me daqui a uns anos por um dia ter tatuado, de alguma forma, um período da minha vida. 

Pergunto-me se algum dia conseguirei tomar uma decisão e passar por cima de todos os argumentos - tanto racionais como emocionais - que se levantam sempre que penso nisso. Pergunto-me se algum dia terei coragem de me render a um compromisso tão grande (espero) como o período da minha vida. Por um lado gostava muito. Por outro... "e se...?".

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