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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

01
Nov20

Uns são filhos (os supermercados) e outros são enteados (os feirantes)

Há uns dias vi o vídeo do Gustavo Carona (podem ver aqui) e não podia estar mais de acordo. O Covid é um problema sério, que não podemos ignorar - e não é nos hospitais que ele vai ser resolvido. É nas ruas, é nas nossas casas, é nas empresas. Está literalmente nas nossas mãos - essas, que carregam tanta coisa invisível, e que hoje tomam uma importância extrema no que diz respeito ao transporte do vírus ou à sua eliminação (se as lavarmos e desinfetarmos bem e corretamente).

Concordo também com ele no facto de isto não se poder tornar numa luta política - não interessa quem está no poder. De direita ou esquerda, uma coisa eu sei: não queria estar naqueles calcanhares. Não tendo qualquer empatia com as pessoas em questão (e não comungando com muitas das suas convicções políticas), eu não queria ser primeira-ministra, não queria ser ministra da saúde, não queria ser a diretora geral da Direção Geral de Saúde. E há que respeitar as posições que estão a tomar - porque nenhuma vai ser boa e nenhuma vai ser fácil e todas serão controversas.

Mas há aqui um erro generalizado que está a revoltar a população: chama-se falta de coerência. Não deixam as pessoas ir ver um jogo de futebol, ao ar livre, num estádio com espaço para mais de 50 mil indivíduos; mas deixam que exista público na fórmula 1. É para ricos, não é? Também deixam que se vá às touradas. É para chiques, não é? E o Avante? É para camaradas, pois claro.

A mim não me afetam as restrições - dou-me bem com regras e sou boa a respeitá-las. Não me importo de não sair do concelho, não me importo do dever cívico de um recolher obrigatório (embora não possa exercer o meu trabalho em casa, sendo obrigada a fazer a minha vida normal), não me importo de usar máscara na rua, não me importo de esperar na fila do supermercado para não sermos 5628 pessoas à volta da mesma peça de fruta.

Mas importo-me com os contra-censos que mencionei acima. Revoltam-me mais estas cedências estúpidas - em prol de favores, de dinheiro, de tudo o que não devia contar - do que as próprias pessoas envolvidas nestes atos, que apesar de inconscientes só estão lá porque à partida a cancela não estava fechada. E sei que não me revolta só a mim: revolta-nos a todos, porque não é preciso ser nenhum génio para perceber as incongruências que existem.

Sobre as medidas que saíram ontem para os concelhos com risco elevado (que incluem as cidades onde moro), mais uma vez, acato e respeito o que foi decidido - mas a última medida, que proíbe que se façam feiras e mercados, mexe comigo até aos ossos. O Covid afetou-nos a todos: psicologicamente, pelo medo e pelo tempo de confinamento; fisicamente, principalmente àqueles a quem o bicho já pegou e sofreram consequências físicas; e financeiramente, para quem perdeu o emprego, para quem viu os seus postos de trabalho ou empresas em lay-off, para quem perdeu inúmeras oportunidades de negócio num ano que se queria promissor. Serão muito poucos os que beneficiam disto - eu olho à minha volta e não vejo ninguém. Mas a mim ninguém me obrigou a deixar de trabalhar - mas aos feirantes, que vendem bens de primeira necessidade, acabaram-lhes com o negócio. O Continente pode operar, o Pingo Doce, o Mercadona e o Mini-Preço também; mas uma feira ao ar livre, sem ar-condicionados, sem carrinhos que são manipulados por milhares de pessoas e sem tapetes rolantes podem trabalhar. Aqueles que o estado segura e promove; as Sonae's e Jerónimo's Martins desta vida, que mais do que dinehiro, movem influências. Mas os feirantes - pessoas como nós, sem as contas cheias de zeros e sem amigos na assembleia -, que acordam todos os dias às tantas da madrugada para andarem com as tralhas às costas, de sítio para sítio, para se fazerem à vida e terem o seu ganha-pão, têm de ficar em casa.

Eu, podendo, deixava de ir a super-mercados - ia sempre à feira. Estar antes das oito da manhã a fazer compras ao ar livre é terapêutico para mim - e a qualidade daquilo que compro é infinitamente melhor. A minha sopa não é a mesma se não for feita com as coisas que compro vindas da terra, ainda sujas, ali da Póvoa do Varzim.

Mas a D. Carolina já não me pode vender batatas, alho-francês, courgete ou agrião.

A senhora das flores já não vai estar lá com aqueles raminhos bonitos que dou semanalmente à minha mãe.

Já não posso ir comprar a manga do Algarve à D. Carla, nem a uva sem grainha ou o melão doce que me deixa sempre experimentar antes de comprar.

Não posso ir comprar os fidalgos da minha mãe à senhora que me chama sempre "meu amor".

O senhor das árvores de fruto já não me vai dizer que trouxe, finalmente, os pêssegos-paraguaios carecas para eu plantar no quintal.

Por isso hoje, mais do que pelas multidões na Nazaré, concertos ou filas para o que quer que seja, estou triste - e revoltada! - pelas pessoas que todas as semanas me enchem os armários, o frigorífico e a alma. Pelas pessoas que me tratam com empatia, que me aconselham aquele fruto em vez daquele, que me deixam pagar na semana seguinte se se apercebem que não trouxe trocos suficientes. Tudo o que não acontece num supermercado, onde eu - como todos - sou tratada como um número e constantemente enganada por cupões e cartões e cadernetas autocolantes. 

É incoerente, triste e, acima de tudo, revoltante. 

16
Abr20

38 não é só um número de calças - é de auto-estima

No início do ano ganhei coragem para ter um encontro com a balança. Depois chorei. 

Há momentos na vida que são de reviravolta e não têm de ser necessariamente especiais ou bonitos. Não há uma fórmula mágica. Lembro-me perfeitamente de há uns dez anos me ter olhado ao espelho, enquanto mexia na cara, e reparei no quão horrorosas estavam as minhas unhas roídas. Deixei de as roer a partir daquele momento. Foi um clique.

Aqui também foi um bocadinho assim. Não se emagrece tão rápido como se deixa de roer as unhas, mas aquilo despoletou uma ação. Passados vinte minutos estava a ligar para uma clínica de nutrição e decidi-me mesmo a perder o peso a que me tinha proposto (na altura até escrevi aqui, nos meus objetivos, que queria despedir-me de pelo menos 5kgs).

Demorei mais uns dois meses até voltar a subir à balança; as calças já começavam a ficar largas, mas eu tinha medo de que o esforço não estivesse a dar resultados. Quando ganhei forças vi que tinha perdido quase seis quilos. Vitória! Fiquei tão feliz! E agora que já tenho uma série de hábitos enraizados, decidi que queria ir pelo menos para os 60kgs - na loucura até um bocadinho menos, que sempre foi o meu peso de sonho.

E depois apareceu o Covid-19. Não sou das que está em casa e precisa de deixar mensagens no frigorífico para me lembrar de que não tenho fome, mas nestas coisa das dietas a rotina é muito importante. E, mesmo continuando a trabalhar,  muito mudou. Para além disso o fator stress também tem de entrar em conta - há quem coma mais para compensar, há quem coma menos. Eu sou das que me vingo na comida (obviamente...).

Ainda assim digo, com orgulho, que devo ser a única pessoa no país inteiro que, desde que isto começou, não fiz um pão ou um bolo. Comecei a dieta numa altura cheia de aniversários e festas e jantares e dei por mim a ter de saber gerir esta questão: por um lado não posso não comer (podendo até passar por mal educada), mas por outro não posso aproveitar a situação para me vingar e comer por todos os dias em que não o fiz. 

Por isso, neste momento, limito-me a tentar levar essa estratégia avante (nomeadamente com a Páscoa e seus  pães-de-ló e amêndoas do demónio) e, pelo menos, não engordar. No entanto, graças às mudanças de rotina e de horários, surgiu algo positivo: comecei a treinar! Corrijo: o meu namorado começou a treinar. Eu vi-o uma e outra vez a suar as estopinhas ali à minha frente, enquanto copiava os exercícios que passavam na televisão, enquanto eu continuava refastelada no sofá a ler o meu livro. Até que fiquei com vergonha de mim própria e da minha falta de força de vontade. Resultado: treinos de meia hora a 45 minutos, cinco vezes por semana (fazemos descanso de três em três treinos). E a verdade é que se antes emagreci, hoje sinto-me mais tonificada (em relativamente pouco tempo). 

No meio de tudo isto as calças iam-me começando a cair pelo rabo abaixo. Um dia, mal entrei em casa, disseram-me: "essas calças ficam-te horríveis de tão grandes". E, aproveitando os Shoppings Days da Mango, mandei vir uma série de calças 38 - número que não visto há, seguramente, seis ou sete anos (senão mais). Quando chegaram fiquei nervosa. Quando me serviram fiquei estupidamente feliz.

Sempre me irritaram as discrepâncias dos tamanhos das roupas de marca para marca - e sei que algumas calças que tinham escrito "40" eram, na verdade, um 42 (embora, mentalmente, não o aceitasse). E, também por isto, é errado medirmo-nos por uma tabela que não é constante. No entanto é inevitável não sentirmos a felicidade de fechar um botão que, há três meses, não conseguiria caber na sua casa. E é também uma responsabilização acrescida das minhas próprias ações, sabendo que consegui e lutei por caber naquelas calças - e que terei de as manter se quiser continuar a entrar nelas e a apertar o fecho. E, acima de tudo, é aprender a gostar mais de mim. A não desviar o olhar do espelho quando entro na banheira. E perceber que não sou perfeita, mas que ao menos lutei para me sentir melhor com o meu próprio corpo.

 

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17
Mar20

As saudades do abraço de um pai (ou de uma mãe)

É uma sensação estranha estar privada do contacto físico com os meus pais. As saudades de um abraço e um beijo dos pais é uma coisa comum de se ouvir - mas da boca de quem os perdeu. No entanto, nestes tempos estranhos que correm, as carícias são proíbidas: não porque eles não estão cá, mas precisamente porque os queremos por muito mais tempo.

Por um lado sou uma sortuda, porque decidimos em conjunto (e pelas várias condicionantes que temos - nomeadamente por eu e o meu pai continuarmos a trabalhar, ainda para mais no mesmo meio) que continuaria a frequentar a casa deles - e por isso falo-lhes sem ser a um telemóvel de distância. Por outro lado, preferia estar em casa - e saber que eles estariam na deles, isolados de qualquer perigo que eu possa vir a transmitir-lhes (independentemente de máscaras, da ausência de toques ou da quantidade de vezes que esfrego as mãos com sabonete). 

É estranho que no momento em que mais sinto falta do colo da mãe, ela não mo possa dar. Que queira dar um aperto de mão, em forma de alento, a qualquer um dos dois... e não o possa fazer. Que estes dias, os que não podemos abraçar-nos, sejam os mesmos em que percebemos a importância desse aperto peito-a-peito, e a força que transmite.

12
Mar20

Uma epidemia de incoerências e de falta de respostas

Nas primeiras semanas optei por desligar a televisão e ir-me mantendo atualizada mais em pleno de manhã, através da newsletter do Observador e, nas coisas de última hora, pelas redes sociais, em posts que saltavam à vista aqui e ali (maioritariamente dizendo que "ainda não há Corona vírus em Portugal). 

O ciclo quebrou-se quando, wow!, apareceu um caso. Foi quase uma rave nas redações deste país, que estavam a ver que, para além da Eurovisão, iríamos ser também os últimos nesta pandemia de última moda. Mas depois apareceu outro e outro e outro infectados. Começaram as quarentenas. Começaram os apelos. As recomendações. O que continuou? A informação, que de tão exagerada, se tornou em desinformação. Que virou ativador de pânico.

Procurei sempre manter-me informada, ler coisas que vão para além das nossas palas pequeninas e dos "diretos exclusivos" das televisões portuguesas. Pesquisei sintomas, estatísticas e dados reais, de todo o mundo. Tive imediatamente medo pelos meus pais, mais velhos, e pelo meu irmão, doente crónico. Não temo pela minha saúde, que pelas estatísticas está pouco em risco, mas pela deles e a hipótese que tenho de as estragar caso fique infectada. Fui a primeira a cessar beijinhos e apertos de mão quando vi que o cerco estava a ficar estreito e os casos a aproximarem-se cada vez mais; pus a questão de deixar de visitar a casa dos meus pais por uns tempos. Lavo as mãos com ainda mais frequência. Tenho cuidados.

Mas começa a assolar-se sobre mim o medo de não saber o que vai acontecer, principalmente a nível de trabalho. Essa foi a minha primeira preocupação, ainda o vírus não tinha chegado à Europa. Importo matéria-prima da Ásia: e agora, se não chega? E se não há? A economia chinesa tomou tais proporções, açambarcando tudo e todos, que nem sequer consigo ir buscar o que preciso na Europa!

Hoje, a questão vai além da matéria-prima. O meu negócio é de indústria. Eu adorava, mas nem eu nem os meus trabalhadores podemos operar fora da fábrica. As máquinas não trabalham sozinhas. E o que vamos fazer? Fechar a fábrica e esperar? E como é que eu pago salários no final do mês se não produzo?

Estou numa fase de irritação porque só quero uma coisa: respostas. Sei os riscos, sei o que devo fazer, sei os sintomas. Mas quero respostas para as medidas que estão a ser tomadas. Os funcionários públicos vão receber à mesma se ficarem em casa - e os outros, que trabalham em empresas privadas? E eu, que estou à frente de uma empresa que se não trabalhar vai à falência, e que não pode laborar sem ser in loco?

Quero perceber como têm a lata de apelar à calma quando as televisões põem qualquer ser vivo em estado de alerta. Quando dizem que devemos estar em casa, mínimo contacto possível com os outros, e continuam com aulas (que são só aglomerados de 30 alunos dentro de uma sala e centenas deles cá fora) de miúdos, esses sim, que não tem noção das coisas e não tomam as devidas precauções. As mesmas pessoas que tomam medidas como fechar feiras ao ar livre (ponho a mão na cabeça a pensar naqueles feirantes...) mas que não pensam nos centros comerciais, locais de negócio totalmente fechados e onde o risco deve ser ainda maior.

A culpa do pânico e do açambarcar dos supermercados não é nossa: é de quem produz a informação e de quem a veicula. E pânico gera pânico: eu, que até posso nem ter medo do Corona, que sou consciente, hoje tenho medo de ir ao Lidl e não ter carne para o jantar. E o que vou fazer? Como os outros, açambarcar coisas que não precisaria mas que já percebi que não vou ter acesso fácil nos próximos tempos.

Eu só quero respostas - como cidadã, como filha, como empresária. Também quero medidas - mas, de preferência, com menos incoerências por parte de quem manda. Até lá, não tenho outra hipótese senão fazer a minha vida normal, com todos os cuidados extra que já fazem parte do dia a dia.

17
Dez19

Os dias depois de uma operação

Acho que todos, pelo menos uma vez na vida (nem que seja quando éramos miúdos!), num dia de preguiça extrema, desejamos estar doentes para ter uma desculpa para ficar em casa. Nada de grave, claro - uma gripezita ou uma constipação, ou simplesmente uns espirros aqui e ali, a par de um nariz entupido, só para dar autenticidade à coisa. Mas a verdade é que nesses momentos esquecemo-nos do quão chato é estar doente; que aquela visão idílica de tempo livre para fazermos o que nos apetece é uma mera utopia, estragada pelo facto do corpo não cooperar connosco. Deixamos de ter vontade de tudo, forças para o que quer que seja. 

Acho que a culpa é do nosso cérebro, que nos faz esquecer certas coisas - nomeadamente estados de espírito -, até como forma de proteção. Eu própria, acho que para me reconfortar e me preparar mentalmente antes de fazer esta mais recente cirurgia, achei que ia conseguir aproveitar imenso o tempo que ia estar sem trabalhar e pôr imensas coisas em dia. E a verdade é que tentei - talvez até em demasia, por estar óptima depois da operação - o que culminou com um retrocesso na minha recuperação. Fui relembrada pela vida que as dores não nos dão vontade de fazer coisas. Que o cocktail de medicamentos que temos de tomar faz bem a umas coisas mas ataca tantas outras. Que a anestesia deixa rasto durante os dias. Que a sensibilidade e o humor ficam alterados perante o estado em que nos encontramos. Que o cansaço vem mais rápido do que antes quando estamos nestas situações. Que estar sentado é praticamente a nossa posição default e que não poder estar dessa forma significa passar o dia inteiro no sofá, praticamente inerte, enquanto vemos as horas do dia a ir passando lentamente.

Faz amanhã duas semanas que fui operada. E o que fiz? Praticamente nada. Devido a uma infecção à posteriori dei por mim até incapacitada de estar no computador. Vi televisão. Vi séries. Dormi e não dormi (principalmente à noite). E limitei-me a manter-me à tona da água, só com o único foco de não me deixar ir abaixo.

Se o processo do antes, durante e depois de uma cirurgia é difícil para todos, imagine-se para alguém que durante toda a vida teve fobia de médicos. Para alguém que recorda o pior dia da sua vida como aquele em que foi operada pela primeira vez este foi, simplesmente, o realizar de um pesadelo. Era, desde há quatro anos, um dos meus maiores medos: uma recidiva. E aconteceu. Mas não deixa de ser curioso como esse acontecimento mau foi quase uma cura de choque para o trauma que sempre tive e da marca que me ficou após a primeira cirurgia. Todo o processo foi um reviver daqueles momentos que o meu cérebro, mais uma vez, apagou. Tenho hoje plena perceção de que apesar de recordar os tempos da minha operação com tremenda dor, restam apenas alguns flashes daquilo por que passei. O vestir das roupas do hospital, a horrível espera, o caminho para o bloco, o inserir do catéter, a visita da anestesista, o colocar da máscara, o acordar no recobro. Muito disto tinha sido apagado. E à medida que  o tempo ali ia passando, que eu me ia movimentando no espaço, tudo ia reaparecendo e as peças do puzzle recomeçaram a ser montadas. E isso foi tão doloroso como reconciliador.

Ter sido eu a marcar esta cirurgia foi um grande passo. Ter ido para o hospital sem tomar qualquer tipo de ansiolítico foi um enorme passo. E ter-me conseguido levantar e caminhar para o bloco, deitando-me no sítio onde me iriam abrir, com toda aquela panóplia de instrumentos assustadores e dos médicos que os rodeavam, foi um passo gigantesco. Nesse momento, em que senti que tinha chegado ao meu limite - da coragem, da força, da sanidade mental - só pedi que me pusessem a dormir.

Hoje, só peço para acordar. Para que isto acabe e para que possa ter a minha vida de volta. Já está, já superei, já demonstrei que sou capaz. Acho que, por agora, já chega. Quero viver um bocadinho.

23
Ago19

Menu de fim-de-semana: Círculo Perfeito

A página ideal para sabermos mais sobre saúde feminina

Sempre fui muitíssimo reservada. Em tudo. Nunca interpretei isso como "ter segredos" - simplesmente acho que há determinadas coisas que estão dentro de uma bolha demasiado pessoal para se partilhar. Acho que essa é só uma das 48903 razões pela qual sempre detestei ir ao médico: as perguntas. Se ia regularmente à casa de banho, quando é que me tinha vindo o período pela primeira vez (serei a única criatura do mundo que não faz a mínima ideia e simplesmente lança um número à sorte?!), se tinha uma vida sexual ativa. Eu percebo o propósito mas..! Deslarguem-me, que esse tipo de partilhas não são para mim, e eu prefiro focar-me no essencial.

Esta bolha que criei para mim própria fez com que nem sequer gostasse muito de ouvir falar sobre determinados assuntos. Sim, eram tabus. Criados por mim. E foram eles que sempre me forçaram a desenhar uma linha muito clara entre o que é da esfera íntima e o que não é, nomeadamente devido àquilo que decidia partilhar aqui no blog. Recordo-me da minha incredulidade quando alguém um dia me disse, depois de eu ter feito um post a propósito do ano novo, que agora toda a gente sabia que eu usava cuecas azul-bebé naquela noite de transição. Na altura fiquei confusa. É grave saber-se que, como tantas outras pessoas, uso cuecas daquela cor, naquele dia em específico? Que sigo uma tradição cumprida por tantos?

Esse episódio não mudou a forma como atuo aqui no blog, estou segura de tudo o que sempre partilhei - e que, claro, acho que deve ser dito ao mundo. Mas esta nova vaga de youtubers e influencers quebrou muitas das barreiras que havia nesse sentido - pelo menos para mim. Percebo que apesar de não gostar de falar sobre certas coisas - e de eu não fazer questão de as abordar no meu blog, porque não considero ser esse o meu papel - há um público para as ouvir. E em alguns casos pode ser mesmo serviço público.

A extrapolação deste conceito pode ser perigosa. Partilhar algumas coisas não é sinónimo de partilhar tudo com detalhes. E partilhar a nossa experiência, às vezes infundada e pouco argumentada, também não contribui para o conhecimento alheio - só para a formação de ideias erradas e da típica conversa do "eu conheço uma pessoa que...". E se os youtubers tiveram o mérito de abrir caminhos e mentalidades, servir de ombro amigo e poço de respostas para coisas que muitas pessoas (maioritariamente jovens) não querem perguntar, a verdade é que por vezes pecam pela desinformação que propagam. É um pau de dois bicos.

No entanto há projetos com valor - que não tem nada de teen, da nova vaga de youtubers, mas que sabe aproveitar as redes sociais para o bem geral. Descobri o Círculo Perfeito através da Maçã de Eva e diria que foi a descoberta deste verão! É uma página dedicada à saúde feminina, em toda a sua plenitude. A autora é a Patrícia Lemos, que dá workshops e faz sessões individuais nas áreas da saúde menstrual, da fertilidade e contracepção (nomeadamente o método natural de fertilidade, onde não se faz uso de nenhum método contraceptivo clássico, mas usa-se o conhecimento do nosso próprio corpo para controlar as alturas férteis). Eu, apesar de não ter interesse em mudar o meu método, gosto sempre de aprender mais; como se diz, o conhecimento não ocupa lugar! E já tenho aprendido imensas coisas que não sabia com os posts da Patrícia. Sou hoje uma pessoa mais informada graças a esta página - e espero continuar a aprender. Sem fundamentalismos ou segundas intenções, acho que é isto o bom da internet: o poder de propagar o conhecimento. Agora é só usufruir!

 

Círculo Perfeito no instagram

19
Ago19

O milagre do betacaroteno

Hoje é o meu último dia no Algarve - o último destas férias e provavelmente o último deste ano. Não tem dado para escrever. Entre as caminhadas, o kaiak, as partidas de volley e de ping-pong (meu deus, o meu namorado conseguiu o milagre de me fazer parecer desportista...!) e a falta de disponibilidade mental para o fazer, com a cabeça em problemas distantes que não consigo resolver, resta pouca energia e tempo para pôr os dedos a teclar e a cabeça a escrever. Não que me falte vontade, inspiração ou coisas para falar. Há alturas em que simplesmente as palavras não surgem - e não vale a pena fazer um grande drama disso.

Mas voltemos ao tema: Algarve e sol, provavelmente o único sítio no país onde o verão decidiu aparecer. Esta conjugação de fatores tem, nos últimos anos, constituído um problema para mim: alergia ao sol. Fico rapidamente com a pele vermelha e repleta de bolhinhas, que me dão uma comichão de bradar aos céus.

Da primeira vez que me aconteceu, estando completamente a leste, passei numa para-farmácia para comprar um after-sun, para ver se a coisa melhorava. A funcionária foi perentória: eu estava com alergia ao sol, tudo porque aos 20 e poucos anos já tinha apanhado a quantidade de sol que era suposto ter ao longo de toda a minha vida. Por outras palavras: tinha esgotado o meu plafond solar.

Fiquei um bocadinho abananada - e ainda duvido muito da sua teoria. Ainda assim, essa visão drástica foi um pouco assustadora. Mas a senhora pôs água na fervura: a única solução era comprar betacaroteno. Pedi-o logo de rajada. Veio a cereja em cima do bolo: "agora não vale a pena, tem de tomar com bastante antecedência". E foi nesse ano que, em desespero de causa, conheci o ISDIN, quando perguntei no Facebook se alguém me podia ajudar em relação àquelas comichões. Foi bom, ajudou, continua a ser o meu protetor de eleição apesar de custar os olhos da cara, mas não resolveu totalmente.

A situação replicou-se nos anos seguintes e desta vez eu levei a coisa a sério: depois do primeiro dia de sol do ano (lá para Maio, o que se veio a perceber ser demasiado cedo) comprei betacaroteno e tenho tomado desde aí. Dizem que prolonga e promove o bronze - algo que honestamente não sinto - mas, para mim, cumpre o objetivo: acabou-se a alergia. Nunca desprezo o uso do protetor e mesmo nos raros dias em que apanhei escaldões (coisas leves), nunca se transformaram em bolhas ou numa sensação de coceira infernal. Missão cumprida!

O verão já tem fim à vista, as minhas férias estão a acabar e eu estou na última cartela dos comprimidos. Por este ano, o betacaroteno já está a dar os últimos cartuchos mas já temos encontro marcado para o ano. Agora já não falho a toma ;)

 

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15
Abr19

Às vezes temos mesmo de pôr cruzes na agenda

Tenho um amigo meu dos tempos da faculdade que, sempre que me via em alturas mais atarefadas, dizia sempre "tu anda com comprimidos, que daqui a nada dá-te o piripaque". Era conhecimento empírico, ele já sabia como eu era. 

A semana passada, com a agenda sem espaços por preencher, com um exame que me estava a dar a volta ao tico e ao teco, a recuperar de um susto de saúde, com um recital de piano à porta e muito, muito café à mistura... lá fui eu. Piripaque, como diria ele. Por circunstâncias da vida não falamos tanto como gostaria, mas estou ouvi-lo a dizer-me "estava-se mesmo a ver que isto ia acontecer".

E é verdade. E está a custar a desaparecer. Quando me dão estas crises de fígado e vesícula preguiçosos, toma conta de um mim uma náusea e um cansaço imensurável. Tenho dormido muitas, muitas horas por dia - quase mais do que achava possível - e tudo o que faço no dia a dia torna-se vinte vezes mais difícil. Começando por conduzir, acabando em trabalhar ou estudar. O que me obriga a pôr cruzes em vez de "checks" na minha agenda. Porque há alturas na vida em que não dá para fazer tudo. Porque por muito que queiramos, não somos super-mulheres ou super-homens. E porque há alturas em que o corpo pede misericórdia. O meu já não pedia, exigia. E eu, na medida do possível, estou a dar-lhe aquilo que ele tanto quer.

04
Abr19

Aprender a aceitar as inevitabilidades da vida

Eu sei que foi no dia em que fotografei o ouriço-cacheiro. Lembro-me bem de acordar, ver aquela bolinha de picos no jardim interior e de me agachar com dores para o fotografar. Publiquei no facebook. E todos os anos ele lá me relembra daquela foto que tirei, horas antes de ir para o hospital e ser lancetada, num quisto na zona do sacro-ilíaco (que é como quem diz cóccix ou rabo). Era só o início de uma fase que terminaria cerca de três meses depois, quando fui operada. Foi uma fase muito má para mim; diria que, como um todo, e juntando a dor física e psicológica, foi a mais dura que enfrentei em toda a minha vida. O pânico dos médicos; a recuperação difícil; ter de aceitar que eu não podia cuidar de mim própria e que tinha de depender dos outros para me ajudarem a recuperar; ter de enfrentar o pudor de expôr partes do corpo que dispensava mostrar às pessoas de uma forma geral. 

Falo disto como se fosse uma coisa do outro mundo, como se tivesse sido uma doença gravíssima - que, graças a Deus, não foi! - mas já se sabe que as nossas dores superam sempre as dos outros. E a partir daí ganhei um medo para juntar a todos os outros que já tinha: que aquilo me voltasse a acontecer. É sabido que nestes casos há muitas reincidências e o meu pânico era quase diário, sempre que a mínima coisa me doía; aliás, eu chegava a não acreditar nas minhas próprias dores, por saber que a minha cabeça poderia estar a inventar coisas onde elas não existiam.

Pois que domingo, confrontada com mais dores que o normal, o medo voltou a abater-se sobre mim. Chorei quando percebi que provavelmente tenho outro quisto e perguntei aquela coisa que todos nos perguntamos neste momento: "porquê a mim, o quê que eu fiz?". E depois caí na real. Caramba, e o que fizeram todos os outros? Tanta gente que conheço, com coisas quinhentas vezes piores que estas, que vivem a vida e a seguem como se nada fosse. Aceitando. Percebendo que às vezes não há nada a fazer para além disso mesmo: aceitar. Que não somos escolhidos para ter isto ou aquilo, que as coisas simplesmente acontecem e só temos de fazer aquilo que tem de ser feito.

Por isso cá ando. Lá fui para o hospital, drenar o que tinha de ser drenado, e esperar que tudo não passe de um susto e o que o bisturi não tenha de voltar a entrar em contacto com a minha carne tão cedo. Comportei-me como uma senhora; uma senhora com cara de poucos amigos, nada feliz, com um ansiolítico a correr nas veias - mas uma senhora. No meio do terror que foi para mim aterrar naquele que era um dos meus piores pesadelos, estou muito orgulhosa por ter conseguido manter a compostura, longe dos ataques de pânico que normalmente me assolam (devido à iatrofobia - fobia dos médicos) em momentos deste género, em que a minha racionalidade é totalmente posta de lado e dá lugar a um alguém que não consegue agir, pensar ou respirar para além do medo. E, acima de tudo, por num momento de dor ter sido capaz de aceitar que estas coisas acontecem e que no caso não há nada que possa fazer para as evitar. E aqui a impotência junta-se a um encolher de ombros pouco convencido, que culmina numa coisa a que muitos chamam de destino. Inevitabilidades da vida, incontroláveis por nós, por muito que mexamos os fios desta nossa marioneta. 

É respirar, ter calma e esperar pelo melhor. Se o melhor não vier, que venha a coragem para compensar. 

16
Dez18

Caixa d'óculos

Já há alguns anos que sabia que via mal. Quando entrei na faculdade tínhamos de fazer umas provas, incluindo à visão, que deram - à primeira vistoria - uns resultados trágicos de apenas 70% de visão no olho direito. É lógico que eu não estava assim tão cegueta e aquele teste foi feito às três pancadas. Fui mesmo ao oftalmologista que me disse que, apesar de ver pior do tal olho, não era razão para alarme e que, caso não tivesse efeitos secundários, o uso de óculos era dispensável.

Passaram-se cinco anos desde essa altura. A primeira lembrança deste meu mal veio numa aula de piano. Estava no último teclado da sala e, para olhar para uma pauta projetada no quadro, fechava os olhos mais do que qualquer asiático. "Precisas de óculos, mulher!", gozou a professora. Pouco tempo depois comecei o meu curso executivo. Na fila do meio, os powerpoints liam-se com alguma dificuldade, mas tudo o que era escrito no quadro - principalmente a vermelho e a verde - passava-me ao lado. E as legendas do Netflix, mais pequeninas que o normal? Nos dias de maior cansaço, era um esforço extra. E aí eu soube que tinha chegado a altura. 

Durante este processo lembrei-me muitas vezes de uma história que vivi com a minha irmã. Certa vez, no Algarve, ao esquecer-se das suas lentes e tendo lá em casa umas compradas por uma das minhas primas - com mais dioptrias que ela -, decidiu experimentar. E, naquele momento, parece que entrou num mundo novo. "Eu vejo pó!", dizia ela, espantadíssima. Eu não cheguei a esse ponto, mas já não me lembrava do quão nítidas podiam ser as coisas. Vivia há já algum tempo num mundo esbatido.

Adaptei-me muito bem aos meus novos amiguinhos - só as primeiras três utilizações é que me deixaram um bocadinho confusa, mas resisti - e agora são-me indispensáveis na carteira, e muito mais em qualquer situação de aula. Não os uso sempre - só quando preciso ou conduzo à noite -, mas infelizmente apercebo-me que estou a ver gradualmente pior quando estou sem eles. Pelos vistos é normal, para mal dos meus pecados.

Cá em casa dizem que pareço uma professora. Eu ainda não sei se gosto ou não, mas não lhes ofereço qualquer resistência - sinto-me cegueta e um bocadinho incapaz quando não consigo ler coisas que antigamente via. Portanto é isto. Oficialmente caixa d'óculos.

 

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