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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

15
Abr19

Às vezes temos mesmo de pôr cruzes na agenda

Tenho um amigo meu dos tempos da faculdade que, sempre que me via em alturas mais atarefadas, dizia sempre "tu anda com comprimidos, que daqui a nada dá-te o piripaque". Era conhecimento empírico, ele já sabia como eu era. 

A semana passada, com a agenda sem espaços por preencher, com um exame que me estava a dar a volta ao tico e ao teco, a recuperar de um susto de saúde, com um recital de piano à porta e muito, muito café à mistura... lá fui eu. Piripaque, como diria ele. Por circunstâncias da vida não falamos tanto como gostaria, mas estou ouvi-lo a dizer-me "estava-se mesmo a ver que isto ia acontecer".

E é verdade. E está a custar a desaparecer. Quando me dão estas crises de fígado e vesícula preguiçosos, toma conta de um mim uma náusea e um cansaço imensurável. Tenho dormido muitas, muitas horas por dia - quase mais do que achava possível - e tudo o que faço no dia a dia torna-se vinte vezes mais difícil. Começando por conduzir, acabando em trabalhar ou estudar. O que me obriga a pôr cruzes em vez de "checks" na minha agenda. Porque há alturas na vida em que não dá para fazer tudo. Porque por muito que queiramos, não somos super-mulheres ou super-homens. E porque há alturas em que o corpo pede misericórdia. O meu já não pedia, exigia. E eu, na medida do possível, estou a dar-lhe aquilo que ele tanto quer.

04
Abr19

Aprender a aceitar as inevitabilidades da vida

Eu sei que foi no dia em que fotografei o ouriço-cacheiro. Lembro-me bem de acordar, ver aquela bolinha de picos no jardim interior e de me agachar com dores para o fotografar. Publiquei no facebook. E todos os anos ele lá me relembra daquela foto que tirei, horas antes de ir para o hospital e ser lancetada, num quisto na zona do sacro-ilíaco (que é como quem diz cóccix ou rabo). Era só o início de uma fase que terminaria cerca de três meses depois, quando fui operada. Foi uma fase muito má para mim; diria que, como um todo, e juntando a dor física e psicológica, foi a mais dura que enfrentei em toda a minha vida. O pânico dos médicos; a recuperação difícil; ter de aceitar que eu não podia cuidar de mim própria e que tinha de depender dos outros para me ajudarem a recuperar; ter de enfrentar o pudor de expôr partes do corpo que dispensava mostrar às pessoas de uma forma geral. 

Falo disto como se fosse uma coisa do outro mundo, como se tivesse sido uma doença gravíssima - que, graças a Deus, não foi! - mas já se sabe que as nossas dores superam sempre as dos outros. E a partir daí ganhei um medo para juntar a todos os outros que já tinha: que aquilo me voltasse a acontecer. É sabido que nestes casos há muitas reincidências e o meu pânico era quase diário, sempre que a mínima coisa me doía; aliás, eu chegava a não acreditar nas minhas próprias dores, por saber que a minha cabeça poderia estar a inventar coisas onde elas não existiam.

Pois que domingo, confrontada com mais dores que o normal, o medo voltou a abater-se sobre mim. Chorei quando percebi que provavelmente tenho outro quisto e perguntei aquela coisa que todos nos perguntamos neste momento: "porquê a mim, o quê que eu fiz?". E depois caí na real. Caramba, e o que fizeram todos os outros? Tanta gente que conheço, com coisas quinhentas vezes piores que estas, que vivem a vida e a seguem como se nada fosse. Aceitando. Percebendo que às vezes não há nada a fazer para além disso mesmo: aceitar. Que não somos escolhidos para ter isto ou aquilo, que as coisas simplesmente acontecem e só temos de fazer aquilo que tem de ser feito.

Por isso cá ando. Lá fui para o hospital, drenar o que tinha de ser drenado, e esperar que tudo não passe de um susto e o que o bisturi não tenha de voltar a entrar em contacto com a minha carne tão cedo. Comportei-me como uma senhora; uma senhora com cara de poucos amigos, nada feliz, com um ansiolítico a correr nas veias - mas uma senhora. No meio do terror que foi para mim aterrar naquele que era um dos meus piores pesadelos, estou muito orgulhosa por ter conseguido manter a compostura, longe dos ataques de pânico que normalmente me assolam (devido à iatrofobia - fobia dos médicos) em momentos deste género, em que a minha racionalidade é totalmente posta de lado e dá lugar a um alguém que não consegue agir, pensar ou respirar para além do medo. E, acima de tudo, por num momento de dor ter sido capaz de aceitar que estas coisas acontecem e que no caso não há nada que possa fazer para as evitar. E aqui a impotência junta-se a um encolher de ombros pouco convencido, que culmina numa coisa a que muitos chamam de destino. Inevitabilidades da vida, incontroláveis por nós, por muito que mexamos os fios desta nossa marioneta. 

É respirar, ter calma e esperar pelo melhor. Se o melhor não vier, que venha a coragem para compensar. 

16
Dez18

Caixa d'óculos

Já há alguns anos que sabia que via mal. Quando entrei na faculdade tínhamos de fazer umas provas, incluindo à visão, que deram - à primeira vistoria - uns resultados trágicos de apenas 70% de visão no olho direito. É lógico que eu não estava assim tão cegueta e aquele teste foi feito às três pancadas. Fui mesmo ao oftalmologista que me disse que, apesar de ver pior do tal olho, não era razão para alarme e que, caso não tivesse efeitos secundários, o uso de óculos era dispensável.

Passaram-se cinco anos desde essa altura. A primeira lembrança deste meu mal veio numa aula de piano. Estava no último teclado da sala e, para olhar para uma pauta projetada no quadro, fechava os olhos mais do que qualquer asiático. "Precisas de óculos, mulher!", gozou a professora. Pouco tempo depois comecei o meu curso executivo. Na fila do meio, os powerpoints liam-se com alguma dificuldade, mas tudo o que era escrito no quadro - principalmente a vermelho e a verde - passava-me ao lado. E as legendas do Netflix, mais pequeninas que o normal? Nos dias de maior cansaço, era um esforço extra. E aí eu soube que tinha chegado a altura. 

Durante este processo lembrei-me muitas vezes de uma história que vivi com a minha irmã. Certa vez, no Algarve, ao esquecer-se das suas lentes e tendo lá em casa umas compradas por uma das minhas primas - com mais dioptrias que ela -, decidiu experimentar. E, naquele momento, parece que entrou num mundo novo. "Eu vejo pó!", dizia ela, espantadíssima. Eu não cheguei a esse ponto, mas já não me lembrava do quão nítidas podiam ser as coisas. Vivia há já algum tempo num mundo esbatido.

Adaptei-me muito bem aos meus novos amiguinhos - só as primeiras três utilizações é que me deixaram um bocadinho confusa, mas resisti - e agora são-me indispensáveis na carteira, e muito mais em qualquer situação de aula. Não os uso sempre - só quando preciso ou conduzo à noite -, mas infelizmente apercebo-me que estou a ver gradualmente pior quando estou sem eles. Pelos vistos é normal, para mal dos meus pecados.

Cá em casa dizem que pareço uma professora. Eu ainda não sei se gosto ou não, mas não lhes ofereço qualquer resistência - sinto-me cegueta e um bocadinho incapaz quando não consigo ler coisas que antigamente via. Portanto é isto. Oficialmente caixa d'óculos.

 

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12
Out17

Ir ao ginásio é uma autêntica montanha-russa

Eu admiro profundamente quem vai ao ginásio e gosta. Porque ter a força de vontade de ir ao ginásio de forma regular já é algo louvável, mas gostar de lá ir é todo um outro nível. E sim, fala-vos a voz da inveja. Porque embora eu não tenha grande vontade de ir ao ginásio, lá vou aparecendo... mas gostar de lá ir é algo que eu queria mesmo ser capaz. Queria tanto, tanto, tanto sair de lá e dizer "uf, mal posso esperar por cá vir amanhã!". Mas não é isso que acontece.

Não é possível explicar os meus sentimentos em relação a este espaço de uma forma sucinta. Numa só hora eu passo por uma série de estados emocionais, que não fazem de mim uma bipolar mas sim algo parecido com uma tripolar, quadripolar ou, até talvez, pentapolar. Quando entro, apesar de ter pouca vontade, vou esperançosa; quando começa a aula e eu percebo que até consigo fazer os exercícios e estou cheia de energia, sobe em mim todo um entusiasmo exagerado e durante vinte e dois segundos passam pela minha cabeça coisas utópicas como "é este ano que eu vou ficar em forma!" ou "isto está a correr mesmo muito bem"; depois as minhas pernas começam a tremer como varas verdes e eu começo a vacilar, a sentir que não sou capaz, e na escala emocional eu já estou num seis em dez, algo pouco positivo; entretanto chega aquele exercício que já repetimos quatro vezes, que tem vindo a aumentar de dificuldade, e eu já não consigo mesmo mais e sou obrigada a parar - e eu detesto parar, mostrar parte fraca - e a escala emocional começa a subir por ali acima e eu só quero chorar por não conseguir; a cinco minutos do fim, quando o professor diz "só faltam mais duas séries!", todo entusiasmado enquanto eu já escorro suor pelas orelhas e estou mais vermelha que um tomate maduro, só quero atirar-me para o chão como uma criança birrenta e perguntar "porquê que o tempo não passa? como é que eu me meti nisto? porquê que eu voltei a fazer esta aula?!"; só quando saio do ginásio, ainda com as hormonas e as emoções aos saltos, é que penso "ao menos já posso comer mais um bocadinho" e a coisa ameniza. 

Sei que o que me dá força para continuar é, de facto, a ideia de poder comer e não me sentir balofa - e ter um gym buddy, a minha tia, que me dá força para ir a estas aulas do demónio, que eu só faria uma vez na vida se alguém não me convencesse a voltar. Para além de que eu tenho uma característica que detesto - e que até me assusta - bastante: se me olhar ao espelho depois de ir ao ginásio, acho que a imagem que vejo é muito mais simpática do que num dia que não vá ou, pior, em que tenha feito não sei quantas asneiras alimentares ao longo do dia. E eu sei que isto é psicológico, porque as diferenças não são imediatas, e porque eu sou relativamente estável a todos os níveis: peso (mais do que queria), flacidez (claramente demasiada) e forma física (de uma fora geral: lontra).

Mas enfim, fico sinceramente orgulhosa de mim por, apesar desta autêntica montanha russa de sentimentos, continuar a ir. Acho que ainda não tinha dado a boa nova sobre o meu retorno (ou, pelo menos, tentativa) à vida saudável - que, para além do ginásio, inclui até marmitas ao lanche, a minha maçã cozida, proteínas sem hidratos ao jantar e essas coisas todas -, e estou a empenhar-me seriamente para fazer disto a rotina e não a excepção. Lembro-me perfeitamente de que o ano em que me senti melhor, a todos os níveis (tanto físico como psicológico), foi quando fazia exercício e tinha mão na minha alimentação, por isso estou a fazer um esforço para voltar - tendo em conta que a minha tentativa o ano passado, no ginásio perto do trabalho, foi um flop mais do que gigante (ao ponto de eu até ter vergonha de o mencionar ou sequer de o lembrar...).

Entretanto, ter o bullet journal também tem sido um incentivo: uma das minhas métricas é a contabilidade das idas ao ginásio, por isso é giro (e bom) monitorizar quando lá vou. É fácil perceber quando me baldei (e recriminar-me por isso) ou então ver semanas onde me empenhei (e ficar feliz). Acho que para quem é como eu, é uma boa dica para não faltarem. E pronto, vamos ver até quando dura a boa vontade e a vida de lontra não vem ao de cima. Se isto sobreviver ao Natal, sou uma mulher feliz.

12
Nov16

It's Beginning To Look A Lot Like Christmas

Eu chego a esta época do ano e só me apetece ouvir Michael Bublé. Já me é intrínseco, os meus dedos já quase o fazem de forma automática, como se tivessem ligados a uma agenda mental. Lá pelos primeiros dias de Novembro, de cada vez que vou ao YouTube, parece que escrevem sozinhos "Michael Bublé" - e o pior é que, ano após ano, continuo a adorar aquelas músicas como adorei desde o primeiro dia.

Já estou, desde o início do mês, imbuída no espírito natalício (sim, já comprei a maioria das minhas prendas...) e, como não podia deixar de ser, as músicas já andam em repeat mode. Mas com a notícia de que o filho do Michael Bublé está com cancro, confesso que de cada vez que o ouço tenho um sentimento agridoce. Por um lado são melodias bonitas, calmas, sempre com um fundo de esperança tal como pede esta época; mas por outro não consigo deixar de pensar que, quem as canta, está provavelmente a passar a fase mais difícil da sua vida enquanto eu estou aqui a baloiçar-me enquanto escrevo, trabalho ou trato das minhas prendas de Natal.

A vida é dura e os momentos maus tocam a todos. As doenças não escolhem idade, sexo ou estrato social, mas é sempre duro ver os outros sofrer - e é claro que há sempre gente a sofrer, mas "longe da vista, longe do coração". A mim conforta-me o facto de aquela criança - ainda que ninguém tão novo mereça sofrer o que quer que seja - tenha todos os meios à sua disposição para ver esta maldita doença curada, com pais sem dificuldades financeiras e com todo o tempo do mundo para lhe dedicarem.

Eu cá vou continuar a ouvir o Bublé, porque ele será sempre a voz desta época que me é tão especial, este ano a torcer particularmente para que tudo corra bem. 

01
Abr16

2016, o ano dos médicos

Hoje acordei às 7 e pouco da manhã e o mundo rodava - rodava muito. Mesmo tendo os olhos fechados, os meus olhos pareciam não querer parar de girar - e se me atrevesse a abri-los, tinha a sensação de - pela primeira vez na vida - ter uma visão a 360º sem sequer mexer a cabeça. Um autêntico inferno, que melhorou uma hora depois, embora ainda não me conseguisse pôr de pé; daí até à hora de almoço, só me levantei uma vez para ir à casa de banho e a "zonzisse" foi tanta que achei que ia vomitar mal consegui voltar à cama.

A verdade é que ando com uma crise de vesícula há coisa de duas semanas: uns dias melhor, outros pior. Ando a cortar com tudo, acabei com os doces, os chocolates e todas as asneiras e tenho voltado à vida saudável que tanto queria, embora à força. Isto já não é uma coisa nova para mim, que já há vários anos que sofro de fígado e da vesícula ao mínimo deslize que tenha (é de família, todos temos problemas neste "setor"), mas é sempre chato - e a crise de hoje, com tonturas (algo raro: normalmente só tenho enjoos, dores de cabeça e muito cansaço), foi má o suficiente para não me levantar durante a manhã inteira e de ter de faltar ao estágio*.

E como duas semanas já começa a ser muito tempo para uma crise do género... 'bora para o médico. O pior é que já ontem tinha ido para o dentista graças a um dente que parti com uma amêndoa de Páscoa. E nem vale a pena falar da quantidade de vezes que fui para o hospital em Janeiro, à custa da operação. (E, se quisermos ir mais atrás, em Novembro, na altura da lancetação). Espero que esta brincadeirinha acabe aqui, porque ainda estamos no início de Abril e já dá para perceber que 2016 vai ser o ano dos médicos. Já chega, tá, querida vida? 

Porque eu sei que tinha dito que queria parar de comer porcarias da Páscoa - e tu, muito atenciosa, como me ouviste, partiste-me um dente. Eu sei que também me ouviste queixar de que estava uma baleia e tu, fofinha, deste-me uma crise de vesícula tão valente que eu nem fome tenho e fico-me por uma dieta restrita. E por fim, como sabes que deste pequenita que tenho fobia de médicos, vai de fazer um tratamento de choque e pôr-me a visitar médicos a torto e a direito, até que isto passe. MAS ESTÁ NA ALTURA DE PARAR, OK? 

Agradecida.

 

*sabes que estás a gostar mesmo do estágio quando ficas triste por estares doente e não poderes ir

18
Fev16

A hierarquia dos medos (ou digam olá à nova estagiária!)

É engraçado perceber como as nossas prioridades ou "hierarquias interiores" funcionam. Há uns meses atrás o estágio era a apoteose dos stresses, nervosismos e medos da minha vida - houve choro envolvido e muito pensamento correu por este cérebro. O que queria fazer, em que empresa queria estagiar, se colocava a hipótese de sair do Porto, se fazia uma coisa super diferente do que sempre pensei ou se já me encaminhava para aquele que acho que vai ser o meu caminho. Um mar de perguntas sem respostas que me afogava num desespero silencioso.

E depois, abruptamente, as minhas prioridades mudaram. O estágio deixou de ser um problema. E porquê? Porque, na minha "hierarquia" dos medos, anseios, nervosismos e stresses houve algo que ganhou imediatamente o primeiro lugar: a minha operação. Aí os stresses elevavam-se a questões mais básicas (e piores) como: será que vou sobreviver?, será que vou acordar durante a operação?, será que vou ter muitas dores?, será que vou conseguir ficar na cama durante o caminho para o bloco?, será que sobrevivo sem ter um ataque cardíaco à custa de um ataque de pânico?, será que não vou endoidecer por não me poder sentar?, e tantas outros "será's" que sei que vocês dispensam ouvir. À custa disto, todos os medos em relação ao estágio sumiram e pensar nisso deixou de ser prioridade para mim. 

Podia dizer que, quando recuperada, os medos voltaram - mas não. Continuei a relativizar. Sei que aquele pânico profundo que tive naquele dia só em situações raras voltará a acontecer e duvido muito, muito, muito que isso aconteça no estágio. E talvez por isso tenha levado esta semana bastante mais na desportiva do que achava possível - sempre com alguma angustia, é claro, mas muito menos do que previa. Estes foram os derradeiros dias em que escolhemos o nosso local de estágio, em que entregamos aquela terrível folha que ditaria os nossos próximos três meses de vida e a temível entrada no mercado de trabalho. Correu alguma tinta, houve algum stress e, de certeza, um par de noites mal dormidas para muita gente.

Eu resolvi a minha vida logo no primeiro dia. Não escolhi um estágio proposto pela faculdade mas auto-propus-me a um, pelo que não tive de esperar pelas colocações ou estar dependente de alunos com melhores médias. É entrar e pronto! Fui hoje a uma primeira reunião, conheci o local onde vou passar o próximo trimestre e, sem mais delongas ou esperas, segunda-feira apresento-me ao trabalho. A ideia era começar só em Março mas, se posso começar já, é enfrentar o boi pelos cornos e pôr as mãos na massa - e, já agora, não prolongar esta angústia (agora sim!) que se instalou em mim. O medo do desconhecido é uma cena do caraças. Eu sinto-me tão verde, mas com tanta vontade de dar de mim e ao mesmo tempo tanto medo de fazer asneira - e de não me integrar, de as pessoas não gostarem de mim, e, e, e...!

Enfim. Sejam bem-vindos a uma nova fase da minha vida. Este é, oficialmente, o blog de uma estagiária.

23
Jan16

O que tem de ser, tem de ser

Já fez um ano que a minha avó faleceu. Não assinalei a data aqui no blog porque, na altura, não me sentava ao computador e escrever não era tarefa fácil. Lembrei aquele dia acendendo-lhe duas velas (como, de resto, faço muitas vezes), usando o último anel que ela me deu (que também uso muitas vezes) e indo à missa em que o seu nome foi invocado (o que, ao contrário das outras duas coisas, nunca faço). 

Não foi um dia mais especial que os outros, porque lembro-me dela mesmo muitas vezes. Acendo muitas vezes as tais velas que tenho ao lado de uma foto dela, muito novinha, onde parecia uma autêntica modelo. Há dias em que a sinto comigo e há outros em que a quero comigo - nesses (e são muitos), ligo as velas e uso coisas que ela me deu, para a sentir um pouquinho mais perto de mim. Só não levei o último anel que ela me deu para a cirurgia porque sabia que não podia entrar com nada no bloco - senão, por entre todas as peças e amuletos que tenho, este seria sem dúvida o que vinha comigo.

Ao longo deste ano lembrei-me muito dela e tenho pena que ela não saiba disso; acho que, em vida, não lhe trasmiti todo o amor e carinho que sentia por ela. Na verdade, acho que também só o descobri na totalidade quando ela desapareceu - o que é triste, mas é assim. Nos últimos dias do ano, enquanto batalhava comigo própria e tentava decidir se faria a cirurgia logo no início do ano ou me mantinha no plano original de só a fazer em Fevereiro (e aguentar as dores até lá), lembrei-me muito de algo que ela me dizia, sempre que eu tinha crises de pânico à custa dos médicos. Dizia-me: "nisso não sais nada a mim! Eu sempre enfrentei tudo sem medo: o que tem de ser, tem de ser!" Afirmava sempre isto com ar determinado e peito cheio, com uma mão cheia de experiências que o comprovavam: a cirurgia ao coração (de peito aberto), a cirurgia à anca, ter tido os filhos sozinha em casa.

Foi também nela que pensei quando, no último dia do ano, tomei a decisão de ser operada e, uma semana mais tarde, quando ia a caminho do bloco, de olhos fechados e as mãos juntas ao peito. Quis ser corajosa como ela sempre fora. E sei que hoje, ao lado daquela velinha bem cheirosa que lhe comprei, ela está orgulhosa de mim. Porque "o que tem de ser, tem de ser".

 

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23
Jan16

Com calma

É uma merda quando o nosso corpo não evoluí ou, neste caso, recupera, da forma que nós queríamos. E também é uma merda saber que temos coisas para fazer - e outras que não temos, mas gostávamos - e não nos sentirmos totalmente capazes de o fazer. Não quer dizer que não consigamos, mas dói. Ou chateia. Ou incomoda. Ou fica dorido. E a sensação com que ficamos é a de tentar não repetir. 

Desde segunda que tentei fazer a minha vida normal. Fui ao cabeleireiro, voltei a conduzir, voltei ao curso de fotografia. Fiquei sempre cansada rapidamente, mas só no curso é que me apercebi do quão limitada ainda estava. Depois de três horas sentada, desta vez sem intervalo, a assistir a uma aula muito pormenorizada e a um ritmo demasiado lento, fiquei mesmo muito dorida. Com dores. E extenuada e irritada, tanto por aquilo ainda estar a acontecer como por uma provável quebra de açúcar que me deixou com o humor a níveis negativos. Saí dali derrotada e a saber que tinha de olhar para a agenda, porque as coisas estavam a apertar. Trabalhos para entregar, exames ao virar da esquina (mesmo deixando um para a época de Setembro), coisas por fazer. Pouco tempo, muita coisa e um corpo ainda-não-muito-funcional.

E daí comecei a stressar, porque comecei a ver que algumas coisas iam ser deixadas por fazer: e essa sensação é das piores que tenho - não fazer aquilo com que me tinha comprometido. Foi, aliás, a razão de um sofrimento paralelo enquanto estive em repouso (quase) absoluto: saber que tinha trabalhos para entregar, que não pude completar, deixando uma sobrecarga para todos os meus colegas dos vários grupos que tinha. Eu não sou nem nunca fui a lapa de serviço; sempre fui a que me chateava por os outros não entregaram as suas partes, por o fazerem mal e porcamente ou as entregarem umas horas antes do prazo final; sempre fui aquela que tinha ideias, que ajudava, que impulsionava. E desta vez tive que ser a que não fez, a que deixou para os outros; quis acreditar até à última que ia recuperar o suficiente para, ainda a tempo, fazer algo - mas enganei-me redondamente. E isso, mesmo sabendo que a culpa não é minha e que a saúde vem primeiro, trouxe-me um peso na consciência enorme.

Agora que já me sentia melhor (ou a minha cabeça já me dizia "yey! 'tás boa, faz-te ao trabalho, há um mundo de coisas para fazer!"), senti que o corpo me dizia para abrandar, porque ainda não era hora de levar esta empreitada avante, pelo menos com a envergadura que tinha em mente. Comecei também a ter dores num sítio na cicatriz e todo o medo de algo ter corrido mal e de me ter de submeter a mais alguma coisa tornou a esmagar parte de mim. Queria muito despachar isto, ficar só com uma cadeira por fazer (a tal que vou deixar para Setembro) e tirar boas notas nas restantes; ter um bom trabalho final a fotografia; arrumar e mudar algumas coisas neste quarto; desfrutar de novo da minha liberdade. Mas a dissonância entre o meu corpo e a minha cabeça, a juntar ao medo assoberbado criado pelos macaquinhos da minha mente, fizeram com que caísse.

Voltei à base, ao descanso, à televisão e aos livros por mais um bocadinho. Estou a tentar não dar passos maiores do que a minha perna. 'Bora com calma.

18
Jan16

Liberdade, liberdade, liberdade!

Acabei de vir agora do hospital, sem pontos. Já foram os da perna e já foram os do cóccix - neste fim-de-semana, este últimos já me estavam a incomodar seriamente. Eram pontos muitos grossos, tipo arame, e a maior parte do corte já estava altamente cicatrizado e os pontos a incorporarem-se na carne (não sei explicar melhor isto) - isto fazia com que o mínimo movimento me doesse, em toda a cicatriz. Para além disso, já estava a ficar cansada e sem paciência para esta prisão domiciliária - por um lado tinha aquelas dores, mas por outro já me sentia melhor e sabia que a cicatrização estava a correr lindamente. A impaciência estava a matar-me.

Escrevo-vos sentada, pela primeira vez, desde há quase um mês. Ainda não me sento normalmente, ainda um bocadinho de lado, mas ao menos já me sento. Não sabia que se podia ter tantas saudades de um simples movimento como sentar. Não fazemos ideia de quanto o rabo nos faz jeito, não só para sentar mas para todo um outro mundo de coisas que fazemos no dia-a-dia e nem notamos. Baixarmo-nos, apanhar coisas, esticarmo-nos, deitarmo-nos. Enfim. 

Ainda não estou totalmente livre, porque a cicatrização não está completa e tenho de continuar com o penso. Mas, fora isso, a minha vida pode ir voltando normalmente ao normal. Só o facto de já me poder sentar ajuda-me tanto, tanto, tanto a reaver a minha vida! Poder estudar, trabalhar, escrever aqui, conduzir, escrever postais, andar de carro de uma forma geral (era das coisas que mais me custava, devido aos solavancos). E, claro, poder voltar a sair de casa. Quero ir ao cabeleireiro e cuidar de mim (passar 15 dias de pijama mata um bocadinho a nossa auto-estima), quero ir à praia ver o mar, quero tirar fotos, quero acabar o meu curso de fotografia, quero ir jantar fora, quero cozinhar, quero pôr os exames para trás das costas, quero ir ao cinema, quero ir às compras. No fundo, só quero viver. Fora deste sofá.

Apesar de ainda não totalmente curada, sinto que hoje se fechou mais um capítulo para mim. Daqueles difíceis, mesmo difíceis. Só eu sei (e talvez alguém com paranóias semelhantes às minhas) a prova de superação que isto foi para mim. Uma cirurgia, anestesia geral, ter pontos, um dia de internamento, fazer análises, ter um catéter direto para a veia, fazer o penso umas duas vezes por dia, só sair de casa para ir ao hospital, tirar os pontos. Uau. Uau. Uau. Sinto apenas um misto de alívio, superação e, neste momento, liberdade. 

Hoje, enquanto vinha para casa depois de sair do hospital, chorei. Por sentir que o martírio acabou. Nesse momento, e por coincidência, o Jamie Cullum cantava na rádio (algo raro, o que ainda me soube melhor). Deu-me ainda mais a sensação de um novo início.

O meu ano começa agora. Mais livre, mais feliz e com mais vontade de viver. Sobrevivi (ufa!).

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