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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

11
Jan22

Os escolhidos do ano de 2021

A escrita é assim: tem vida própria, leva-nos para onde quer. Esta lista que hoje aqui trago nasceu para um post que ganhou outra vida, aquele que acabou por ser o resumo do meu ano. Aquilo que escrevi era para ser só uma breve introdução e, quando dei conta, já era todo um texto com princípio, meio e fim, já demasiado profundo, não abrindo espaço para listas ou coisas um bocadinho mais supérfluas. Deixei que seguisse o seu caminho independente e fiquei com esta lista das minhas escolhas do ano para outra altura. E aqui está ele!

Não vou matar dois coelhos de uma só cajadada: vão ser muitos! A maioria dos temas ou nomes que aqui trago estavam à espera de um texto (mais propriamente uma "review da semana") há demasiado tempo, por isso vou fazer uma pequenina descrição de tudo aquilo que gostei no ano que findou, fazendo ao mesmo tempo uma "mixórdia de temáticas" de coisas muito boas.

 

Produto do ano

- Pão da Granélia -

Estive muito, muito, muito indecisa entre dois produtos - vou prometer a mim mesma que escrevo sobre o outro - mas tenho de escolher aquele que mais chama o meu coração: o pão da Granélia.

A Granélia é uma mercearia que abriu no centro do Maia há relativamente pouco tempo, que tem a sua ideia base na venda a granel (podem comprar hidratos e leguminosas como arroz e feijão ou especiarias como caril ou matcha, levando apenas um frasquinho) mas que está recheada de outras coisas boas: produtos biológicos, locais e de boa qualidade assim como outras soluções ecológicas para produtos de limpeza, higiene corporal entre outras coisas. Mas a melhor de todas é mesmo o pão de fermentação natural. Não é produzido lá - é comprado no Pão da Terra (que fica em Matosinhos mas é fora de mão para mim) - mas revendido nesta mercearia, e é só a melhor coisa do mundo. Eu adoro pão - e já tinha escrito aqui (texto sobre um pão igualmente bom, mas não TÃO bom) que o melhor pão do mundo era o sourdough que o meu irmão me trazia de Inglaterra quando vinha cá passar férias. Pois que este é o sourdough. O tal! O maravilhoso! Mas em Portugal, e aqui tão pertinho, ao virar da esquina. Como resistir?!

Os pães estão disponíveis à quarta e à sexta-feira em várias modalidades, mas têm de ser encomendados com antecedência. Eu vou lá de duas em duas semanas buscar o meu - tenho de me conter para não comer meio quilo de pão logo no primeiro dia, por isso congelo-o para não me tentar e vou descongelando ao longo dos dias quando tomo o pequeno almoço. Foi a descoberta do ano!

 

Podcast do ano

- Conta-me Tudo -

2021 foi o ano dos podcasts. De manhã, antes de sair de casa, faço sempre uma arrumação geral para que ao fim da tarde o peso das tarefas domésticas não seja tão grande e tenhamos, eu e o Miguel, algum tempo de qualidade juntos. Mas arrumar ou limpar em silêncio é um tédio. E eu já ouço muita música enquanto trabalho... por isso virei-me para os podcasts, que cumprem uma função mais extensiva que a música: dá para rir, chorar e informar, mas tem sempre como base o entretenimento.

Este hábito começou com o conselho do meu ex-chefe para ouvir o Extremamente Desagradável, da Joana Marques. Na "review de 2021" o Spotify diz que este é o meu podcast favorito (porque ouvi não sei quantos episódios de rajada até ficar em dia), mas não é verdade. Não que não goste (senão não ouvia), mas porque acho que os humoristas têm uma tarefa inglória ao tentarem ter piada todos os dias. É verdade que é um estilo de humor diferente, mas não deixa de ser um bocadinho desgastante - para ela e para nós.

Aquele que eu mais gostei foi o Conta-me Tudo, do David Cristina. Não só pela diversidade de histórias, de temas mas, acima de tudo, pelo leque de emoções que nos faz sentir; para além disso é curto e ideal para ouvir enquanto me arranjo ou faço as lides domésticas - entre fazer a cama, esticar o cabelo e pôr a comida a descongelar, um episódio fica ouvido.

Ouvi também alguns episódios do Reset, da Bumba na Fofinha, vários d'O Avesso da Canção, da Luísa Sobral (aconselho muito o episódio do Miguel Araújo e o do Pedro Abrunhosa) e também do E Projetos Para o Futuro, do Nuno Markl em parceria com a Delta (curtinhos e perfeitos para quando o tempo e a paciência não abundam). Quando não havia mais para ouvir, entretinha-me com A Noite da Má Língua - e enquanto me ria com as opiniões parvas de uns e uns tiros certeiros de outros, ficava a par das notícias do dia-a-dia, em vez de pensar só em fait divers.

Neste momento estou à procura de novos podcasts para me entreter, por isso se tiverem sugestões, chutem!

 

Série do Ano

- Sex Education -

Sei que não é a escolha mais óbvia, por isso carece de contexto. Sempre gostei muito da ideia original do Sex Education mas fiquei muitíssimo desiludida com a segunda temporada - de tal maneira que não a vi até ao fim. Achei que desvirtuaram a linha de ação (e personalidade) de algumas personagens e até o enredo me estava a irritar. Dei uma segunda oportunidade e vi a terceira temporada, lançada em 2021, e voltei a ficar agarrada e fã. 

É claro que o fim da Casa de Papel é digno de menção, mas ao contrário da Sex Education não acho que as últimas temporadas tenham dado a volta ao texto e melhorado - como já tinha escrito aqui, a série devia ter parado no primeiro assalto e fechado com chave de ouro. Squid Game leva o prémio de série mais viciante, mas é demasiado dark para o meu gosto pessoal. Por fim, mencionar as Doce - a série em português que mais gostei no ano passado. Espero que existam mais, com a mesma qualidade, neste 2022.

 

Documentário do ano

- Three Identical Strangers -

Three Identical Strangers é um documentário sobre o (re)encontro de irmãos trigémeos, separados à nascença, que aconteceu por mero acaso. É sobre a forma caricata como se encontraram uns aos outros, mas vai muito mais a fundo: porque é que eles foram separados? Será que tinham semelhanças apesar de terem vivido mais de duas décadas sem se conhecerem? E como é que o reencontro os afetou? As respostas são pouco óbvias e muito mais obscuras do que aquilo que se pensaria.

Não sei porque é que me marcou tanto - se pela história engraçada, se pelo twist que acabou por ter -, mas a verdade é que falo dele com regularidade e por isso penso ser justo dar-lhe este "prémio". O documentário estava na Netflix mas penso que entretanto saiu. 

 

Música do ano

- You Get What You Give, dos New Radicals - 

O Spotify dita que a música do meu ano é a Spring 1, uma revitalização do clássico de Vivaldi pelo Max Richter - mais uma vez porque a ouvi vezes sem fim, principalmente enquanto escrevia ou precisava de me sentir inspirada. Mas vou de novo desdizer a plataforma de streaming: apesar de adorar a Spring 1, não considero que tenha sido a música do meu ano.

Por alguma razão que desconheço, a You Get What You Give, dos New Radicals, é a música que eu associo ao meu casamento - e o facto de eu ter contraído matrimónio foi, sem dúvida, o evento central do meu ano (ou pelo menos da primeira metade). Por isso, e embora seja um bocadinho estranho escolher uma música de 1998 como a minha música de 2021, é o que vai acontecer.

Podendo dividir a coisa em dois semestres, a Adele marca sem dúvida a segunda parte do ano, com o seu novo álbum. A minha música preferida é a "I Drink Wine", mas aquela que descreve melhor 2021 é a "Hold On". Destaque extra para a lusofonia, com a minha música preferida do ano em português: Onde Vais, da Bárbara Bandeira e Carminho.

 

 

Livro do ano

- Almoço de Domingo, de José Luís Peixoto - 

Não é difícil escolher o livro do ano porque só li... dois. Eu sei, é vergonhoso. Ao menos um deles foi óptimo!

Gostei mesmo de ler este "Almoço de Domingo" - desde a estória até à construção peculiar da narrativa (algo a que os leitores de José Luís Peixoto já devem estar habituados, mas eu não). Há livros deste autor que, devido à estrutura e estilo de escrita peculiares, não me convencem. Abri uma exceção para este e ainda bem. Fiquei inspirada pela história de vida e pela força de Rui Nabeiro, de quem não sabia muito, mas de quem me senti muito mais próxima quando acabei de ler a última página.

 

"Quando acumulamos suficiente tempo, os domingos transformam-se num período de vida. Recordamos os domingos como uma unidade, anos inteiros só de domingos, estações inteiras compostas apenas por domingos: os domingos de verão, os domingos de outono, todos os domingo de inverno e, de novo, as promessas feitas pelos domingos de primavera. Foram dias separados por semanas, antecedidos por sábados com ilusões próprias, sucedidos por segundas-feiras com agendas precisas, tarefas fatais que exigiam ser feitas, mas tudo se dissipa até ficar apenas uma amálgama de domingos. Ao serem vividos, transformaram-se nessa amálgama, como um almoço de domingo infinito, a crescer permanentemente a partir do seu interior."

 

 

Programa de TV do ano

- Trafficked by Mariana van Zeller -

Sou completamente viciada nesta série que estreou o ano passado no National Geographic. A campanha promocional foi grande mas eu só me interessei mesmo pelo programa quando percebi que a jornalista era portuguesa, quando ouvi parte da entrevista que a Mariana deu ao Era O Que Faltava, da Rádio Comercial. E que jornalista! Que "tomates"!

A Mariana van Zeller mete-se no meio de gangs, de bunkers cheios de armas, de florestas recheadas de narcotraficantes e em mundos que só ouvimos falar nos filmes ou nas otícias, naquele que parece ser um mundo e uma realidade muito distantes. São normalmente 45 minutos de programa que devem exigir horas e horas e horas de pesquisa e de tentativas falhadas para ter alguém que dê a cara (ou pelo menos a voz) por todas as coisas ilegais de que já ouvimos falar mas com as quais nunca tivemos proximidade. 

A segunda temporada está agora a passar no National Geographic aos sábados, às 22h30. A primeira, para mim, ainda é melhor. Vale muito, muito, muito a pena!

 

O (meu) post do ano

- Uma História com Princípio, Meio e Sim! -

Toda a rubrica "Uma História com Príncipio, Meio e Sim!" foi um exercício muito bom, bonito e "depurador" para mim - e marcou claramente o meu ano a nível de escrita, pois foi aí que me foquei acima de tudo, defraudando todos os outros temas sobre os quais costumo dissertar. Esta série de textos foi dolorosa em alguns momentos e curativa noutros. Fi-la muito mais para mim do que para os outros, mas eu queria muito deixar registos desta fase tão conturbada da minha vida - um evento tão bom misturado com sentimentos tão difíceis... foi uma gestão complicada que quis documentar. Dentro deles, o post do vestido de noiva foi o mais lido e também o mais sentido - hoje choro quando o leio. Mas o mais importante de todos, o post do meu ano, foi o último, em que falo do casamento e da terapia.

 

A viagem do ano

- Maldivas -

Só fiz duas, Maldivas e Açores, e ainda quero escrever sobre ambas (ainda que já leve meio ano de atraso). Mas é claro que as Maldivas - perdoa-me Açores!!! - arrecadam este meu galardão, pois roubaram o meu coração. Quero tanto voltar!

 

A palavra do ano

- Resiliência

 

A foto do ano

Não há "a" foto. Há muitas, felizmente! E tendo em conta que este ano tive um fotógrafo por minha (nossa) conta num dia tão especial, a foto do ano tinha de ser uma das muitas que ele nos tirou. Mas de tão boas é difícil escolher... por isso, em vez de uma, vão duas:

 

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O vídeo do ano

Não há grandes dúvidas: o casamento foi o evento do meu ano e tudo roda à volta dele. Ainda não tinha mostrado nenhum vídeo daquele dia, por isso fica aqui em modo best of (este é o teaser, mais curtinho, bom para terem um glimpse daquilo que foi este dia tão bonito). 

 

24
Mai20

Para ver na Netflix: uma série viciante

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O trailer do The Tiger King é execrável. Mesmo. Quando começou todo o zum-zum à volta da série e eu me rendi a ver a sua apresentação só pensei: mas está tudo doido?! Mas depois li a opinião da Inês e decidi dar uma chance à série do momento. E fiquei agarrada.

"Americana". É o melhor adjetivo para descrever esta série. Acho que não há outro sítio no planeta onde aquela realidade (que se confunde com profunda loucura) seja possível. Nos EUA há mais tigres em cativeiro do que há no planeta inteiro em meio selvagem: é este o mote da série. E isto acontece porque as pessoas os compram e criam, quase de forma recreativa e doméstica, como se de gatinhos se tratasse. Alguns para entretenimento próprio, outros para fazer negócio: como é o caso do Tiger King, o protagonista desta série, que ganhou dinheiro graças aos felinos que tinha em cativeiro (e principalmente das crias que criava e comprava, de forma a mostra-las ao público e cobrar por fotos com elas).

Mas isto é ver a série pela rama. Para além de Joe King e daqueles que o rodeiam - maridos, amigos e funcionários - entram também outras pessoas do mesmo ramo de negócio. Já para não falar de Carole Baskin, uma acérrima defensora dos animais que se torna alvo de troça (e obsessão) por parte do "Rei dos Tigres" (isto em português soa muito mais foleiro). Pelo meio há um assassinato, divórcios, negócios comprados, incêndios... E muita loucura em cada pitada de episódio, que faz com que, incrivelmente, fiquemos agarrados do princípio ao fim.

Para além disto há dois ingredientes que me parecem essenciais para o sucesso deste mini-documentário. O primeiro é o facto de nada ser reconstituído: todas as imagens são reais, envolvendo todas as pessoas em causa. O segundo é a forma como o realizador joga com estas imagens, misturando-as com os depoimentos, para tornar a série muito apelativa - e, acima de tudo, nos fazer mudar de opinião sobre as personagens a cada episódio que passa. Seria lógico detestarmos o Tiger King - um louco, provavelmente criminoso e abusador dos animais - e sermos fãs das ações de Carole, a suposta defensora dos oprimidos no meio de todo este negócio. Mas será mesmo assim?

Vale a pena ver e cada um tirar as suas próprias conclusões.

 

(O último e oitavo episódio, acrescentado à posteriori e já em tempos de pandemia, é altamente dispensável e não acrescenta nada à série. É um follow up com algumas das personagens e uma forma que a Netflix arranjou para atrair ainda mais pessoas para a série e fazer a mesma render mais uns trocos).

13
Mai20

Para ver na Netflix: uma série para nos inspirar

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A Octavia Spencer foi o isco para ter começado a ver esta série. Gosto dela, acho-a boa atriz e o trailer deu-me vontade de ver aqueles quatro episódios. "Self Made" é a história de vida da Madame C. J. Walker, tida como a primeira americana negra a tornar-se multimilionária. Para além de todos estigmas e preconceitos a que teve de fazer frente - se ser mulher no ramo dos negócios já é difícil, sendo negra ainda pior -, a personagem interpretada por Octavia Spencer é obrigada desde muito cedo a fazer pela vida, que nunca lhe é facilitada (tanto pessoal como profissionalmente, muitas vezes acabando mesmo por se misturar).

Dada a sinopse da série, e sabendo à partida que C. J. Walker se tornou multimilionária, não é difícil perceber que, apesar de tudo, esta mulher foi bem sucedida. Diria que o mote da série é ensinar-nos a ver para lá do óbvio e do sucesso aparente; perceber que por detrás de muito dinheiro está muitas vezes muito sofrimento envolvido. E, acima de tudo, lembrar-nos que quem luta por aquilo que deseja, mais tarde ou mais cedo, acabará por receber a recompensa do seu esforço.

Devo confessar que, destas 4 séries que destaco aqui (dos dois últimos posts e um que ainda vai sair a seguir), esta foi a que mais me desapontou (talvez pelos atores envolvidos e por ter gostado do trailer). Não pela história, que é interessante, mas por sentir que numa narrativa tão impactante - onde se fala não só do desprezo para com as pessoas de raça negra como das mulheres em particular - faltou uma espécie de moral, para fechar a história. Há algo que fica por dizer - ainda que não saiba dizer ao certo o quê. (Para os que já viram a série, concordam comigo? Acham que falta ali algo para esta ser excelente?)

Fora esta crítica pessoal, recomendo a série a todos - e em particular a quem estiver à procura de algo rápido e inspirador para ver na plataforma de streaming.

12
Mai20

Para ver na Netflix: uma série para conhecer

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Este é dos casos em que a sinopse engana. "The English Game" é mais - muito mais! - do que uma série sobre os primórdios do futebol. Para mim teve um extra muito interessante, porque tem como epicentro uma tecelagem (como a que dirijo), onde se retrata muito bem o fosso que existia na altura entre patrões e funcionários. É muito curioso ver como ambos os lados lutam em prol do mesmo fim mas de formas diferentes, nunca conseguindo fazer ver à outra parte o seu ponto de vista. Tão antigo e tão atual ao mesmo tempo, não é?

Mas, para além deste "pormaior" que é mais especial para mim do que para a maioria, esta é uma história sobre a luta entre classes - em que uma, que se tem como a "criadora" do jogo, não o quer ver ser corrompido e jogado por operários, que jogam em condições muito diferentes das dos outros -, a forma como umas não sobrevivem sem as outras e, acima de tudo, de como é a dignidade do Homem que faz a diferença no desfecho de uma história. Muitas vezes não só da sua, mas como também da dos outros e da sua comunidade.

"The English Game" não é só uma série para amantes de futebol. Sim: retrata bem o sentimento, a vibração e a sensação de união que o futebol consegue ter como nenhum outro desporto; retrata o sacrifício dos jogadores, a paixão e a compaixão (ou falta dela); retrata o evoluir de um desporto que hoje toda a gente conhece. Mas é, acima de tudo, para quem adora boas histórias e que gosta de as ver bem contadas.

Com uma fotografia lindíssima, personagens ricas e bem construídas, são seis episódios que nos deixam desejosos por mais - mas cujo objetivo já foi mais que conseguido, não fazendo sequer sentido continuar. Como se tudo isto não bastasse, há que juntar a delícia de ouvir recorrentemente o sotaque escocês. De realçar ainda que, como bónus, um dos protagonistas é Edward Holcroft - eu também não o conhecia... mas, caramba, vale a pena não ficar na ignorância!

06
Mai20

Para ver na Netflix: uma série para pensar

Acho que nesta altura do campeonato todos podemos concordar que a Netflix mudou completamente a forma como vemos e consumimos séries. Começando pela possibilidade de ver tudo de uma só vez, quando quisermos e onde quisermos, e terminando na luta contra o estigma que existia relativamente a séries de língua não-inglesa. (Quem diria, há meia-dúzia de anos, que o mundo iria estar louco por uma série sobre um roubo produzida em Espanha e falada em espanhol?)

Pelo meio, na minha opinião, teve outra grande conquista: transformar documentários, histórias e biografias em algo apetecível. Pode aprender-se imenso a ver Netflix - tanto como no Discovery, no National Geographic ou no Canal de História. Posso estar errada, mas acho que existe a ideia (talvez por ser verdade?), de que muitos dos programas que por lá passam são chatos e maçadores. De certeza que também os há na Netflix, mas os produtores e realizadores contratados pelo canal de streaming têm uma visão muito diferenciadora deste tipo de programas. Só assim é possível agarrar as massas a histórias que, de outra forma, não seriam vistas por mais do que umas centenas de pessoas.

É claro que dinheiro gera dinheiro e aquilo que eram inicialmente pequenas produções são agora coisas gigantes, com budgets a abarrotar pelas costuras mas que fazem o gasto valer a pena, tal é a qualidade dos programas. Tudo isto continuando com o seu espírito inicial, dando ênfase não só a grandes séries, como a outras mais pequenas (e poucos episódios, algo que adoro!) e com conteúdos que, até há poucos anos, eram feitos somente para públicos de nicho.

Nos próximos quatro dias vou falar-vos de quatro séries documentais, sobre pessoas ou histórias reais: Unorthodox, The English Game, The Tiger King e Self Made.

 

Uma série para pensar: Unorthodox

 

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Esta série retrata a vida de Esther Shapiro, uma rapariga que cresceu no seio de uma comunidade judaica ortodoxa. A história é contada com recursos a flashbacks, que intercalam com a atualidade, que faz com que rapidamente se perceba que ela decidiu fugir daquele estilo de vida, onde se sentia prisioneira.

Em quatro episódios entendemos o porquê dela sentir necessidade de sair da comunidade hassídica e ficamos a conhecer muitos dos hábitos dos judeus ortodoxos - desde raparem o cabelo às raparigas quando casam, passando pelos banhos de purificação e acabando nos eruv, os circuitos fechados onde os judeus podem passear no seu dia de descanso. Nada disto nos é dado de mão beijada: não são explicados os rituais ou as razões por detrás deles - cabe-nos a nós pesquisar, se tivermos essa curiosidade. Mas eu diria que é impossível não tentar perceber alguns daqueles ritos e algumas cenas da série, tal a estranheza que nos provoca. Diria mais (perdoem-me os mais sensíveis): não é estranheza, é quase asco. A certa altura dei por mim a pensar que pouco distingue um judeu de um muçulmano (a religião que, diria, mais é criticada), quando ambos levam a sua crença aos extremos; percebi, finalmente, alguns estigmas, preconceitos e até ódios que existem em relação aos judeus, que deverão ter em alguns destes costumes a sua raiz. 

Não é uma série boa para os aficcionados do inglês: é falada maioritariamente em iídiche, embora com algum inglês pelo meio (uma vez que retrata a comunidade de Williamsburg, em Nova Iorque), pelo que é normal sentir alguma estranheza no início - que é compensada pela qualidade da série. Para mim há apenas um ponto negativo, que descobri nas minhas pós-pesquisas: a história de Esther (que na verdade se chama Deborah Feldman) não aconteceu exatamente como foi retratada na série, embora a ideia esteja lá.

Fora isso, é fácil saber se uma série é boa: quando nos faz pensar, pesquisar e querer saber mais. Em todos os pontos coloquei um "check", o que me fez sentir uma pessoa mais rica depois de tudo o que aprendi.

(Para os que viram, gostaram e ficaram com curiosidade, encontrei um artigo muito interessante na NIT, que desmonta e explica alguns dos rituais vistos na série.) Ler aqui.

08
Abr20

La Casa de Papel: uma continuação desnecessária de uma história que já tinha fim

(mas, ainda assim, uma série que nos agarra do primeiro ao último segundo)

Há que saber parar. 

Foi este o pensamento que esteve na minha cabeça enquanto vi a quarta temporada de "La Casa de Papel". Terminei-a ontem e, logo depois, fui ler o post que escrevi há quase precisamente dois anos quando vi o final da primeira temporada. O engraçado no meio disto tudo é que os anos passaram, a história e as personagens evoluíram e a minha opinião permanece exatamente a mesma.

 

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Escrevi, na altura, que era uma história de ferro com pormenores de papel. Hoje continuo a dizer que os pormenores são frágeis como o papel, mas atrever-me-ia a dizer que a história perdeu alguns alicerces que lhe davam aquela estabilidade de ferro de que falei. Sinto que lhe falta tempo, que o guião foi escrito à pressa - algo que acontece mesmo, pois nestas duas últimas temporadas a história era escrita ao mesmo tempo que decorriam as filmagens, muitas vezes sem os próprios atores prepararem a cena que iam filmar (algo que podem vêr no documentário "La Casa de Papel, El Fenómeno") - e isto faz com exista alguma falta da coesão que existia nas duas primeiras temporadas. 

"O problema para mim está no facto desta série ser (em teoria) uma representação da realidade: existe a casa da moeda, existem assaltos onde há reféns. Ou seja, é algo feito “neste mundo”, o que implica que exista alguma coerência e coesão na construção da história e dos seus detalhes. Eu não ouso criticar Game of Thrones, Harry Potter ou os Hunger Games, tão simplesmente porque os autores podem dizer “mas foi assim que eu imaginei”. São coisas irreais. Todos sabemos que não há dragões, que as vassouras não voam e que não vivemos em Panem. Eles podem fazer o que quiserem. Por isso é que se distingue a ficção do fantástico - uma coisa é uma interpretação da realidade, outra é a criação de uma realidade completamente diferente!"

Aquilo que já tinha ressalvado nesse post (e na citação acima) continua a ser um problema para mim. Tiram-me do sério alguns detalhes completamente irrealistas ou mudanças súbitas de espírito de algumas personagens, que demonstra alguma precipitação na escrita, falta de fundo e background na história de cada uma das pessoas retratadas e, acima de tudo, perder por vezes a noção da "big picture", olhando para cada personagem como alguém isolado e não perceber que algo sai fora do contexto.

 

 

No entanto, não há dúvidas sobre uma coisa: La Casa de Papel continua a ser das séries mais viciantes que já vi, uma característica que não pode ser menosprezada. A ação a cada minuto, o fim de cada episódio com cliffhangers e os twists na história são a imagem de marca da série e isso mantém-se. (Confesso que, a certa altura, o stress que isto me estava a causar levou a que fosse ver como é que tudo acabava; no estado de caos que o país e o mundo atravessam tudo o que não preciso é de mais uma fonte de nervosismo. Asseguro que saber alguns detalhes chave e o final não me tirou qualquer tipo de interesse ou  vontade de deixar de ver. Tenho poucos problemas com spoilers.) O lado ardiloso da série, com todos aqueles planos inimagináveis pensados ao milímetro pelo professor também se mantém - mas senti que esta temporada teve muito mais violência do que inteligência.

A ideia original de roubar algo sem, no entanto, roubar alguém perdeu-se no meio de um enredo que ficou subitamente demasiado complexo e onde jogam agora muitas variáveis. O objetivo de não se aliar a imagem de um ladrão a uma pessoa má (no fundo, fazendo-nos gostar daqueles que normalmente seriam os maus da fita) ficou debilitado nesta temporada, em que se vive um ambiente de guerra constante e onde as más ações acabam por ser quase involuntárias. Sinto que a ideia inicial é a mesma, mas não está tão bem conseguida, muito por culpa da evolução natural das personagens e dos acontecimentos, que acabam por aliar o stress aos sentimentos que já todos nutrem uns pelos outros. 

Por isso digo que há que saber parar. Percebo que não seja fácil dizer que não quando nos oferecem budgets milionários para dar continuidade a uma série de extremo sucesso; é natural que todos queiram continuar a ganhar dinheiro, ainda mais quando são os próprios clientes, os fãs, que pedem por mais. Mas quase sempre isso implica sacrificar a qualidade da coisa. 

A quarta temporada da Casa de Papel satisfaz, é muito melhor que a terceira, mas não deixa de ser um acrescento desnecessário a uma história que já tinha fim. Um fim genial como poucas séries têm.

17
Mai18

Narcos: o retrato de uma realidade que preferíamos nem conhecer

 

Tenho de confessar que foi um parto difícil. Comecei a ver Narcos há uns dois meses atrás: no início com uma frequência quase diária mas depois – e principalmente na terceira temporada – com cada vez mais espaçamento entre episódios. Ah, e com a Casa de Papel pelo meio – com tanto frenesim à volta da série espanhola, vi-me obrigada a trocar o sotaque colombiano pelo espanhol durante uns tempos, para matar a curiosidade.

Acho que uma coisa é consensual: esta não é uma série levezinha, para se ver à sexta-feira à noite e ficar bem-disposto. Pelo contrário – é violenta, é dura, é crua. Mas acho que também falo pela maioria quando digo que, dentro do género, é espetacular.

Gostei mais das duas primeiras temporadas do que da última – a constante procura pelo Pablo Escobar apimenta a coisa, enquanto que os últimos episódios, embora bons, não têm aquele je ne sais quoi. O facto de o Murphy - uma das personagens centrais nos dois primeiros conjuntos de episódios - desaparecer sem razão aparente não ajuda (trazia algo à série, embora o Peña tenha sido sempre aquele com maior jogo de cintura) mas acima de tudo acho que isso acontece porque, ao longo da série (e embora saibamos o seu desfecho, porque é algo biográfico), acabamos por simpatizar com o Pablo e pensar “como é que ele vai dar a volta desta vez?”. E sim, eu sei que isto é uma coisa horrível de se dizer. Pablo Escobar era um assassino da pior espécie, um terrorista (ainda nós não ouvíamos falar da Al-Qaeda e já ele tinha mandado um avião abaixo, entre tantos outros exemplos) da pior espécie. Mas, para mim, uma série é boa quando nos consegue pôr a gostar dos maus da fita. E embora aqui seja necessário ter em mente que aquele homem existiu mesmo e que fez mal a milhares de pessoas (milhões, se contarmos com as vidas arruinadas pela droga), é impossível não vibrar com toda aquela perseguição.

Por falar em bons e maus da fita, este é outro dos aspetos positivos da séries: nós percebemos que, em casos como estes, não há os bons. São todos maus; os objetivos é que são diferentes. Os meios que usam e a forma de agir é igual, porque chega-se a um ponto a que só lutando com as mesmas armas é que se consegue chegar a algum lado.

Tal como aconteceu com o The Crown, ainda que numa dimensão diferente, esta série deu-me uma perspetiva muito interessante e penso que muito mais realista daquilo que se vive nestes ambientes. Não imagino o que seja governar um país literalmente ingovernável, que quem manda é quem tem todo o dinheiro, comprando tudo, todos e qualquer sítio por onde passam. É incrível perceber as mudanças de planos e de “equipa” e, acima de tudo, o poderio que um grupo deste género pode ter numa ou mais sociedades. E também é interessante refletir sobre o pouco que nos chega acerca disto aqui na Europa, onde pessoas não são diariamente mortas às mãos de cartéis, que mais do que matar a sangue frio, o fazem de forma organizada e planeada, como qualquer bom terrorista.

A todos os que não sejam sensíveis (há muito sangue, muita violência e sexo quanto baste) e se sintam atraídos pelo tema, aconselho vivamente. Agora vou virar-me para o Orange is the New Black. Depois dou notícias ;)

21
Abr18

Um cabelo à Tokyo... ou quase

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No fundo, foram os primeiros a saber. Eu avisei-vos. Deixei aqui um sinal da minha próxima maluqueira!

Não sei se se lembram de, no post sobre a "La Casa de Papel" (que, caso queiram ler algo que não diga só maravilhas da série, penso ser uma boa leitura), eu ter escrito "aquele corte de cabelo da Tokyo está a tentar-me seriamente...!". E, de facto, tentou-me de tal forma que, apesar de todas as reticências que tinha, acabei por passar da ideia à ação em pouquíssimos dias.

Não me perguntem porque é que eu falo tanto do cabelo aqui no meu blog. Acho que desde 2011, ano em que passei a te-lo curto, comecei a vê-lo como uma forma de expressar a minha personalidade, muito para além de uma simples questão estética. Ao longo destes sete anos cortei-o muitas vezes, de diferentes formas, penteando-o de maneiras diferentes; o ano passado fiz uma pausa e deixei-o crescer, porque sentia que estava a acabar por cair sempre no mesmo e porque não estava a ficar tão contente com os resultados finais. Mas, apesar disso, continuei sempre a achar que um cabelo com um bom corte é um cabelo com caráter e personalidade forte. E eu, podendo ter muitos defeitos, tenho algo que ninguém me pode tirar: um caráter vincadíssimo e - penso - algo diferente do normal. Mas, exteriormente, sou super corriqueira e simples, tendo encontrado no cabelo um meio de transparecer aquilo que sou por dentro. Há cabelos compridos que são lindos mas, para mim, não deixam de ser mais só mais uns. Adoro cortes "a sério".

Já há muitos anos que me passava pela cabeça fazer repas (também conhecidas por franjas), mas sempre tive medo. Que me ficassem mal, que fossem um drama para depois deixar crescer, que tivessem necessidade de muita manutenção, que ficassem todas engorduradas por ter muito mais contacto com a pele... uma infinidade de coisas! Mas, apesar de ter cortado o cabelo há relativamente pouco tempo, eu estava louca por mudar. Adoro a sensação de ver uma versão nova de mim mesma ao espelho.

E por isso fui. Recolhi uma série de fotos (como faço sempre), mostrei à cabeleireira, contei-lhe os meu requisitos e receios e depois disse-lhe: "corte por onde quiser, faça o que quiser, deixe isto equilibrado". E assim foi. Quando vi a tesoura a esbarrar-me nas pestanas o coração deu um saltinho, mas passou rápido. Acho que nunca adorei tanto um corte logo à primeira vista. Normalmente detesto ver-me enquanto estou a cortar o cabelo, porque aquelas luzes todas me deixam branca que nem cal e com as olheiras dignas de um panda, mas naquele momento nem quis saber. O meu primeiro pensamento foi que estava igual a quando era miúda, na altura em que a minha mãe ainda tinha rédeas sobre mim e me fazia usar o cabelo curto. O segundo foi "Tokyo". Não é que estava mesmo parecida?!

Admito: estes dois dias com um novo visual foram um boost para o ego. O choque das pessoas é semelhante àquele de há sete anos atrás - o que é curioso, tendo em conta que praticamente só muda a franja em relação a outros cortes anteriores. Mas acho que nunca na minha vida recebi tanto elogio (e, como boa anti-social que sou, não sei lidar com isso). Mas o melhor disto tudo é que, talvez pela primeira vez, eu acredito naquilo que me dizem. O corte está incrível. E, caraças, não é que eu tenho mesmo cara para usar repas?

Durante muitos ano fui lendo, em blogs, facebooks e tumblrs alheios uma frase atribuída a Coco Chanel que diz: "a woman who cuts her hair is about to change her life". Sempre a adorei. Em 2011, quando passei de uma crina até meio das costas para ter o cabelo o nível do queixo, foi isso que aconteceu - dei uma volta a tudo. Se quisermos fazer uma leitura mais aprofundada da coisa, acho que o ano passado, em que o cabelo cresceu como queria, foi o ano em que deixei que a vida levasse o seu rumo natural, sem rédeas. E nestes últimos meses sinto que, apesar das muitas dores de crescimento que tenho tido, voltei a pegar nelas. A minha vida vai, efetivamente, mudar. E um novo corte de cabelo é sempre uma boa forma de o assinalar. Que o positivismo, a boa energia e a confiança desta mudança de visual se transfira para os desafios que estão para vir.

 

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06
Abr18

La Casa de Papel: pormenores de papel numa história de ferro

Troquei Narcos pela Casa de Papel. Já aqui o confessei: não me dou bem como info-excluída. Estou habituada a ser uma outsider em tudo, mas no que diz respeito à cultura gosto de saber do que se fala e ter também a chance de mandar palpites e meia dúzia de bitaites. E falava-se tanto e tão bem desta série espanhola que eu - por agora - troquei o castelhano "acolombianado" do Narcos (só me faltam uns cinco episódios) pelo espanhol serrado de nuestros hermanos. E fui com as expectativas mesmo muito elevadas. Talvez por isso tenham caído um pouco por terra.

 

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Acabei ontem de ver a primeira temporada - foi quase cronometrado, mesmo a tempo de ver a estreia da segunda, que está a partir de hoje no Netflix - e fiquei desiludida. Isto porque acho que quase tudo na vida se torna muito bom devido aos detalhes - quando eles estão lá e estão bem, nós nem damos por eles; quando eles falham, por vezes tornam-se “pormaiores”. E acho que há muitos detalhes que faltam nesta Casa de Papel, uma série com uma bela ideia original mas que peca por pequenos erros de execução e de lógica que me custam a engolir. Para mim, tornam aquilo que poderia ser uma série de excelência numa boa série; fica uma história de ferro um bocadinho fragilizada com os seus detalhes pobres e maleáveis como o papel. Acredito que muito daquilo que eu reparei passe em branco para os outros: ora porque estavam mais interessados ou concentrados na trama principal, ora porque não estão para pensar muito, ora porque não estão suficientemente atentos para os notar. Eu ia com as expectativas em alta e a partir do momento em que reparei na primeira “falha”, fui engatando nas outras todas.

Quero, no entanto, dizer que isto são “falhas” para mim - já tive esta discussão com pessoas que menosprezavam completamente os detalhes que a mim me fizeram comichão. O problema para mim está no facto desta série ser (em teoria) uma representação da realidade: existe a casa da moeda, existem assaltos onde há reféns. Ou seja, é algo feito “neste mundo”, o que implica que exista alguma coerência e coesão na construção da história e dos seus detalhes. Eu não ouso criticar Game of Thrones, Harry Potter ou os Hunger Games, tão simplesmente porque os autores podem dizer “mas foi assim que eu imaginei”. São coisas irreais. Todos sabemos que não há dragões, que as vassouras não voam e que não vivemos em Panem. Eles podem fazer o que quiserem. Por isso é que se distingue a ficção do fantástico - uma coisa é uma interpretação da realidade, outra é a criação de uma realidade completamente diferente!

 

 

Acho as personagens bem construídas e complexas o suficiente para dar sumo à série, mas isso às vezes leva às tais incongruências que falei acima - sentimos que já começamos a conhecer aquela pessoa e, do nada, ela tem uma ação completamente diferente daquilo seria de esperar, por tudo aquilo que nos foi mostrado anteriormente. E para encerrar este capítulo de críticas, resta-me acrescentar que há cenas desnecessariamente longas: não sobre o assalto em si, mas sim sobre as histórias paralelas. Acho que, para uma mini-série, tudo tem de ser medido com muito cuidado para não ficar desproporcional - e às vezes, para além da dimensão pessoal de cada uma das personagens ganhar uma importância muito grande, passam-se minutos a ver coisas que já se tinham percebido à partida.

E agora passando à parte boa e óbvia: a série é absolutamente viciante, senão não tinha o sucesso que está a ter. Muitos dos episódios terminam em cliffhangers e às vezes, por muito sono que tenhamos, não temos alternativa senão ver o próximo. Nesta ótica, a série está muito bem pensada e construída - ao ponto de mesmo quem está um bocado irritado por todos os "errinhos" e "falhas" que acima mencionei, continuar a ver aquilo como se não houvesse amanhã. As reviravoltas constantes, a emoção e (eu diria mesmo) o desespero para saber se tudo vai resultar prende-nos sempre ao ecrã. Ponto muito positivo também para a fotografia (belos contrastes entre os cinzentos e os vermelhos) e para a banda sonora. Entre a "My life is goin on" e a "Bella Ciao", poucos sairão do sofá sem cantarolar aquilo que por lá se ouve.

As personagens são empáticas e carismáticas, principalmente os assaltantes. Alguns dos reféns sofrem do mal dos clichés e algumas fragilidades, mas todas as personagens conseguem arrancar-nos algum sentimento - quer seja pelo lado positivo como negativo. E, como dizia o outro, não importa o que sentes - o que importa é que sintas algo. E, vá lá, vamos à pergunta que se impõe: qual é a minha personagem preferida? É difícil escolher entre a Nairobi e a Tokyo, não consigo... E o fofinho do Rio? Não dá. Mas digo-vos: aquele corte de cabelo da Tokyo está a tentar-me seriamente...!

Por fim, dizer que é óptimo estarmos todos a alargar os nossos horizontes a uma série que não é americana, onde não se fala inglês e que, ainda para mais, é feita aqui tão perto - dá-nos a noção de que não é preciso atravessar o Atlântico para se ver e fazer coisas de qualidade. Concluo com aquele que, para mim, é um dos pontos chave da série: ela põe-nos a torcer pelos maus da fita! Aposto que não há ninguém que a veja e que torça pela polícia. É impossível! Agora resta saber se eles se safam.

Vou ali ver à Netflix e já volto. 

27
Fev18

A culpa é da Netflix

A Netflix é um buraco negro. Um poço sem fundo. Um horizonte sem fim à vista.

A Netflix é o antro de toda e qualquer procrastinação dos dias de hoje. Passou a ser a razão pela qual muita gente tosse ao telefone e diz ao chefe “estar doente” ou aos amigos, com quem tinha combinado uma saída, “que está a chocar uma gripe e é melhor ficar em casa”. É a SportTV dos dias de hoje, para quem gosta de outros campeonatos e maratonas, e para todos os “ernestos” que tentam roubar as palavras-passes dos honestos que pagam dez euros por mês para olharem para este infinito televisivo.

A Netflix não é a culpada por eu não escrever aqui, mas podia, porque seria demasiado humilde da minha parte assumir as responsabilidades perante algo que, na verdade, está somente a meu cargo (hoje em dia é assim que se faz, não é? Descartar tudo para cima dos outros, mesmo que esses “outros” sejam objetos inanimados que não têm como responder em sua defesa?). Deitemos as culpas sobre Narcos, então, já que o que não falta lá são tipos com as costas largas.

 

Mas agora a sério: a verdade é que, apesar de tudo isto, eu venho aqui anunciar-me como uma utilizadora muito controlada desta plataforma tão boa que é quase demoníaca. Eu acho que sou das poucas pessoas à face da terra capaz de consumir apenas um episódio de qualquer série, sem ter vontade de a devorar de uma só vez.

Confesso até que me faz confusão quem consegue estar uma tarde inteira a ver a mesma coisa. A mim, o sono prega-me uma rasteira e, a meio do segundo episódio, já estou encostada a um canto do sofá só a ouvir o ruído de fundo.

Eu gosto de prolongar o prazer, gosto de saber que amanhã tenho mais um bocadinho de série para ver. E se não for amanhã, vejo para a semana. Dou-me bem com as séries transmitidas na televisão, em que vejo só um episódio de sete em sete dias (com excepção das vezes em que, do nada, decidem não transmitir o dito sem aviso prévio, e aí apetece-me esganar alguém...). Assim consigo espalhar as séries pelos dias da semana, vejo uma num dia, um no outro e consigo encaixar tudo no meu horário.

O pior é que nem todos são utilizadores moderados como eu. Às vezes introduzo séries ao pessoal aqui de casa (só naquela de não estar sozinha no sofá e poder comentar estas coisas à hora das refeições) e, quando dou conta, já eles me passaram a perna e estão dois ou três episódios à minha frente. O quê que acontece depois? Para eu continuar a desfrutar da sua companhia, passo a vida a “comer” episódios, até eventualmente desistir da série por apanhar tudo aos bocados.

Aconteceu com a segunda temporada do The Crown, que eu ainda hei-de voltar a ver. Aconteceu com a série sobre o Einstein, que dava no National Geographic (e que, infelizmente, não sei se voltarei a pegar). E, neste preciso momento, acontece com o Narcos. Acreditem que eu vinha escrever, mas dizem-me “o que é que vais fazer? Eu vou ver mais um episódio” e eu, fraca, cedo à tentação. Pouco depois, e porque o sofá à noite não me dá tréguas, já estou a tirar uma sesta em vez de olhar para a televisão. Ou seja: nem série, nem escrita, nem piano, nem o raio que o parta.

Como se já não bastasse ter de apanhar o fio à meada das séries que vou deixando pelo caminho (ou que me roubam pelo caminho, talvez seja melhor dizer assim...), há tantas outras que me passam a vida a piscar o olho mal abro o raio do Netflix. La Casa de Papel, Stranger Things, Tempo entre Costuras, The End of the F**king World. O Outlander que também deixei pelo caminho, assim como Making a Murderer...

Caraças, quem criou a Netflix deve estar a rir-se na cara de quem precisa de trabalhar. (E eu aqui, a roubar horas do meu sono, com a consciência pesada de quem pecou – que é como quem diz, passou mais horas nesta aplicação do que devia e agora está a escrever a horas impróprias para consumo.)

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