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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

17
Mai18

Narcos: o retrato de uma realidade que preferíamos nem conhecer

Carolina

 

Tenho de confessar que foi um parto difícil. Comecei a ver Narcos há uns dois meses atrás: no início com uma frequência quase diária mas depois – e principalmente na terceira temporada – com cada vez mais espaçamento entre episódios. Ah, e com a Casa de Papel pelo meio – com tanto frenesim à volta da série espanhola, vi-me obrigada a trocar o sotaque colombiano pelo espanhol durante uns tempos, para matar a curiosidade.

Acho que uma coisa é consensual: esta não é uma série levezinha, para se ver à sexta-feira à noite e ficar bem-disposto. Pelo contrário – é violenta, é dura, é crua. Mas acho que também falo pela maioria quando digo que, dentro do género, é espetacular.

Gostei mais das duas primeiras temporadas do que da última – a constante procura pelo Pablo Escobar apimenta a coisa, enquanto que os últimos episódios, embora bons, não têm aquele je ne sais quoi. O facto de o Murphy - uma das personagens centrais nos dois primeiros conjuntos de episódios - desaparecer sem razão aparente não ajuda (trazia algo à série, embora o Peña tenha sido sempre aquele com maior jogo de cintura) mas acima de tudo acho que isso acontece porque, ao longo da série (e embora saibamos o seu desfecho, porque é algo biográfico), acabamos por simpatizar com o Pablo e pensar “como é que ele vai dar a volta desta vez?”. E sim, eu sei que isto é uma coisa horrível de se dizer. Pablo Escobar era um assassino da pior espécie, um terrorista (ainda nós não ouvíamos falar da Al-Qaeda e já ele tinha mandado um avião abaixo, entre tantos outros exemplos) da pior espécie. Mas, para mim, uma série é boa quando nos consegue pôr a gostar dos maus da fita. E embora aqui seja necessário ter em mente que aquele homem existiu mesmo e que fez mal a milhares de pessoas (milhões, se contarmos com as vidas arruinadas pela droga), é impossível não vibrar com toda aquela perseguição.

Por falar em bons e maus da fita, este é outro dos aspetos positivos da séries: nós percebemos que, em casos como estes, não há os bons. São todos maus; os objetivos é que são diferentes. Os meios que usam e a forma de agir é igual, porque chega-se a um ponto a que só lutando com as mesmas armas é que se consegue chegar a algum lado.

Tal como aconteceu com o The Crown, ainda que numa dimensão diferente, esta série deu-me uma perspetiva muito interessante e penso que muito mais realista daquilo que se vive nestes ambientes. Não imagino o que seja governar um país literalmente ingovernável, que quem manda é quem tem todo o dinheiro, comprando tudo, todos e qualquer sítio por onde passam. É incrível perceber as mudanças de planos e de “equipa” e, acima de tudo, o poderio que um grupo deste género pode ter numa ou mais sociedades. E também é interessante refletir sobre o pouco que nos chega acerca disto aqui na Europa, onde pessoas não são diariamente mortas às mãos de cartéis, que mais do que matar a sangue frio, o fazem de forma organizada e planeada, como qualquer bom terrorista.

A todos os que não sejam sensíveis (há muito sangue, muita violência e sexo quanto baste) e se sintam atraídos pelo tema, aconselho vivamente. Agora vou virar-me para o Orange is the New Black. Depois dou notícias ;)

21
Abr18

Um cabelo à Tokyo... ou quase

Carolina

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No fundo, foram os primeiros a saber. Eu avisei-vos. Deixei aqui um sinal da minha próxima maluqueira!

Não sei se se lembram de, no post sobre a "La Casa de Papel" (que, caso queiram ler algo que não diga só maravilhas da série, penso ser uma boa leitura), eu ter escrito "aquele corte de cabelo da Tokyo está a tentar-me seriamente...!". E, de facto, tentou-me de tal forma que, apesar de todas as reticências que tinha, acabei por passar da ideia à ação em pouquíssimos dias.

Não me perguntem porque é que eu falo tanto do cabelo aqui no meu blog. Acho que desde 2011, ano em que passei a te-lo curto, comecei a vê-lo como uma forma de expressar a minha personalidade, muito para além de uma simples questão estética. Ao longo destes sete anos cortei-o muitas vezes, de diferentes formas, penteando-o de maneiras diferentes; o ano passado fiz uma pausa e deixei-o crescer, porque sentia que estava a acabar por cair sempre no mesmo e porque não estava a ficar tão contente com os resultados finais. Mas, apesar disso, continuei sempre a achar que um cabelo com um bom corte é um cabelo com caráter e personalidade forte. E eu, podendo ter muitos defeitos, tenho algo que ninguém me pode tirar: um caráter vincadíssimo e - penso - algo diferente do normal. Mas, exteriormente, sou super corriqueira e simples, tendo encontrado no cabelo um meio de transparecer aquilo que sou por dentro. Há cabelos compridos que são lindos mas, para mim, não deixam de ser mais só mais uns. Adoro cortes "a sério".

Já há muitos anos que me passava pela cabeça fazer repas (também conhecidas por franjas), mas sempre tive medo. Que me ficassem mal, que fossem um drama para depois deixar crescer, que tivessem necessidade de muita manutenção, que ficassem todas engorduradas por ter muito mais contacto com a pele... uma infinidade de coisas! Mas, apesar de ter cortado o cabelo há relativamente pouco tempo, eu estava louca por mudar. Adoro a sensação de ver uma versão nova de mim mesma ao espelho.

E por isso fui. Recolhi uma série de fotos (como faço sempre), mostrei à cabeleireira, contei-lhe os meu requisitos e receios e depois disse-lhe: "corte por onde quiser, faça o que quiser, deixe isto equilibrado". E assim foi. Quando vi a tesoura a esbarrar-me nas pestanas o coração deu um saltinho, mas passou rápido. Acho que nunca adorei tanto um corte logo à primeira vista. Normalmente detesto ver-me enquanto estou a cortar o cabelo, porque aquelas luzes todas me deixam branca que nem cal e com as olheiras dignas de um panda, mas naquele momento nem quis saber. O meu primeiro pensamento foi que estava igual a quando era miúda, na altura em que a minha mãe ainda tinha rédeas sobre mim e me fazia usar o cabelo curto. O segundo foi "Tokyo". Não é que estava mesmo parecida?!

Admito: estes dois dias com um novo visual foram um boost para o ego. O choque das pessoas é semelhante àquele de há sete anos atrás - o que é curioso, tendo em conta que praticamente só muda a franja em relação a outros cortes anteriores. Mas acho que nunca na minha vida recebi tanto elogio (e, como boa anti-social que sou, não sei lidar com isso). Mas o melhor disto tudo é que, talvez pela primeira vez, eu acredito naquilo que me dizem. O corte está incrível. E, caraças, não é que eu tenho mesmo cara para usar repas?

Durante muitos ano fui lendo, em blogs, facebooks e tumblrs alheios uma frase atribuída a Coco Chanel que diz: "a woman who cuts her hair is about to change her life". Sempre a adorei. Em 2011, quando passei de uma crina até meio das costas para ter o cabelo o nível do queixo, foi isso que aconteceu - dei uma volta a tudo. Se quisermos fazer uma leitura mais aprofundada da coisa, acho que o ano passado, em que o cabelo cresceu como queria, foi o ano em que deixei que a vida levasse o seu rumo natural, sem rédeas. E nestes últimos meses sinto que, apesar das muitas dores de crescimento que tenho tido, voltei a pegar nelas. A minha vida vai, efetivamente, mudar. E um novo corte de cabelo é sempre uma boa forma de o assinalar. Que o positivismo, a boa energia e a confiança desta mudança de visual se transfira para os desafios que estão para vir.

 

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06
Abr18

La Casa de Papel: pormenores de papel numa história de ferro

Carolina

Troquei Narcos pela Casa de Papel. Já aqui o confessei: não me dou bem como info-excluída. Estou habituada a ser uma outsider em tudo, mas no que diz respeito à cultura gosto de saber do que se fala e ter também a chance de mandar palpites e meia dúzia de bitaites. E falava-se tanto e tão bem desta série espanhola que eu - por agora - troquei o castelhano "acolombianado" do Narcos (só me faltam uns cinco episódios) pelo espanhol serrado de nuestros hermanos. E fui com as expectativas mesmo muito elevadas. Talvez por isso tenham caído um pouco por terra.

 

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Acabei ontem de ver a primeira temporada - foi quase cronometrado, mesmo a tempo de ver a estreia da segunda, que está a partir de hoje no Netflix - e fiquei desiludida. Isto porque acho que quase tudo na vida se torna muito bom devido aos detalhes - quando eles estão lá e estão bem, nós nem damos por eles; quando eles falham, por vezes tornam-se “pormaiores”. E acho que há muitos detalhes que faltam nesta Casa de Papel, uma série com uma bela ideia original mas que peca por pequenos erros de execução e de lógica que me custam a engolir. Para mim, tornam aquilo que poderia ser uma série de excelência numa boa série; fica uma história de ferro um bocadinho fragilizada com os seus detalhes pobres e maleáveis como o papel. Acredito que muito daquilo que eu reparei passe em branco para os outros: ora porque estavam mais interessados ou concentrados na trama principal, ora porque não estão para pensar muito, ora porque não estão suficientemente atentos para os notar. Eu ia com as expectativas em alta e a partir do momento em que reparei na primeira “falha”, fui engatando nas outras todas.

Quero, no entanto, dizer que isto são “falhas” para mim - já tive esta discussão com pessoas que menosprezavam completamente os detalhes que a mim me fizeram comichão. O problema para mim está no facto desta série ser (em teoria) uma representação da realidade: existe a casa da moeda, existem assaltos onde há reféns. Ou seja, é algo feito “neste mundo”, o que implica que exista alguma coerência e coesão na construção da história e dos seus detalhes. Eu não ouso criticar Game of Thrones, Harry Potter ou os Hunger Games, tão simplesmente porque os autores podem dizer “mas foi assim que eu imaginei”. São coisas irreais. Todos sabemos que não há dragões, que as vassouras não voam e que não vivemos em Panem. Eles podem fazer o que quiserem. Por isso é que se distingue a ficção do fantástico - uma coisa é uma interpretação da realidade, outra é a criação de uma realidade completamente diferente!

 

 

Acho as personagens bem construídas e complexas o suficiente para dar sumo à série, mas isso às vezes leva às tais incongruências que falei acima - sentimos que já começamos a conhecer aquela pessoa e, do nada, ela tem uma ação completamente diferente daquilo seria de esperar, por tudo aquilo que nos foi mostrado anteriormente. E para encerrar este capítulo de críticas, resta-me acrescentar que há cenas desnecessariamente longas: não sobre o assalto em si, mas sim sobre as histórias paralelas. Acho que, para uma mini-série, tudo tem de ser medido com muito cuidado para não ficar desproporcional - e às vezes, para além da dimensão pessoal de cada uma das personagens ganhar uma importância muito grande, passam-se minutos a ver coisas que já se tinham percebido à partida.

E agora passando à parte boa e óbvia: a série é absolutamente viciante, senão não tinha o sucesso que está a ter. Muitos dos episódios terminam em cliffhangers e às vezes, por muito sono que tenhamos, não temos alternativa senão ver o próximo. Nesta ótica, a série está muito bem pensada e construída - ao ponto de mesmo quem está um bocado irritado por todos os "errinhos" e "falhas" que acima mencionei, continuar a ver aquilo como se não houvesse amanhã. As reviravoltas constantes, a emoção e (eu diria mesmo) o desespero para saber se tudo vai resultar prende-nos sempre ao ecrã. Ponto muito positivo também para a fotografia (belos contrastes entre os cinzentos e os vermelhos) e para a banda sonora. Entre a "My life is goin on" e a "Bella Ciao", poucos sairão do sofá sem cantarolar aquilo que por lá se ouve.

As personagens são empáticas e carismáticas, principalmente os assaltantes. Alguns dos reféns sofrem do mal dos clichés e algumas fragilidades, mas todas as personagens conseguem arrancar-nos algum sentimento - quer seja pelo lado positivo como negativo. E, como dizia o outro, não importa o que sentes - o que importa é que sintas algo. E, vá lá, vamos à pergunta que se impõe: qual é a minha personagem preferida? É difícil escolher entre a Nairobi e a Tokyo, não consigo... E o fofinho do Rio? Não dá. Mas digo-vos: aquele corte de cabelo da Tokyo está a tentar-me seriamente...!

Por fim, dizer que é óptimo estarmos todos a alargar os nossos horizontes a uma série que não é americana, onde não se fala inglês e que, ainda para mais, é feita aqui tão perto - dá-nos a noção de que não é preciso atravessar o Atlântico para se ver e fazer coisas de qualidade. Concluo com aquele que, para mim, é um dos pontos chave da série: ela põe-nos a torcer pelos maus da fita! Aposto que não há ninguém que a veja e que torça pela polícia. É impossível! Agora resta saber se eles se safam.

Vou ali ver à Netflix e já volto. 

27
Fev18

A culpa é da Netflix

Carolina

A Netflix é um buraco negro. Um poço sem fundo. Um horizonte sem fim à vista.

A Netflix é o antro de toda e qualquer procrastinação dos dias de hoje. Passou a ser a razão pela qual muita gente tosse ao telefone e diz ao chefe “estar doente” ou aos amigos, com quem tinha combinado uma saída, “que está a chocar uma gripe e é melhor ficar em casa”. É a SportTV dos dias de hoje, para quem gosta de outros campeonatos e maratonas, e para todos os “ernestos” que tentam roubar as palavras-passes dos honestos que pagam dez euros por mês para olharem para este infinito televisivo.

A Netflix não é a culpada por eu não escrever aqui, mas podia, porque seria demasiado humilde da minha parte assumir as responsabilidades perante algo que, na verdade, está somente a meu cargo (hoje em dia é assim que se faz, não é? Descartar tudo para cima dos outros, mesmo que esses “outros” sejam objetos inanimados que não têm como responder em sua defesa?). Deitemos as culpas sobre Narcos, então, já que o que não falta lá são tipos com as costas largas.

 

Mas agora a sério: a verdade é que, apesar de tudo isto, eu venho aqui anunciar-me como uma utilizadora muito controlada desta plataforma tão boa que é quase demoníaca. Eu acho que sou das poucas pessoas à face da terra capaz de consumir apenas um episódio de qualquer série, sem ter vontade de a devorar de uma só vez.

Confesso até que me faz confusão quem consegue estar uma tarde inteira a ver a mesma coisa. A mim, o sono prega-me uma rasteira e, a meio do segundo episódio, já estou encostada a um canto do sofá só a ouvir o ruído de fundo.

Eu gosto de prolongar o prazer, gosto de saber que amanhã tenho mais um bocadinho de série para ver. E se não for amanhã, vejo para a semana. Dou-me bem com as séries transmitidas na televisão, em que vejo só um episódio de sete em sete dias (com excepção das vezes em que, do nada, decidem não transmitir o dito sem aviso prévio, e aí apetece-me esganar alguém...). Assim consigo espalhar as séries pelos dias da semana, vejo uma num dia, um no outro e consigo encaixar tudo no meu horário.

O pior é que nem todos são utilizadores moderados como eu. Às vezes introduzo séries ao pessoal aqui de casa (só naquela de não estar sozinha no sofá e poder comentar estas coisas à hora das refeições) e, quando dou conta, já eles me passaram a perna e estão dois ou três episódios à minha frente. O quê que acontece depois? Para eu continuar a desfrutar da sua companhia, passo a vida a “comer” episódios, até eventualmente desistir da série por apanhar tudo aos bocados.

Aconteceu com a segunda temporada do The Crown, que eu ainda hei-de voltar a ver. Aconteceu com a série sobre o Einstein, que dava no National Geographic (e que, infelizmente, não sei se voltarei a pegar). E, neste preciso momento, acontece com o Narcos. Acreditem que eu vinha escrever, mas dizem-me “o que é que vais fazer? Eu vou ver mais um episódio” e eu, fraca, cedo à tentação. Pouco depois, e porque o sofá à noite não me dá tréguas, já estou a tirar uma sesta em vez de olhar para a televisão. Ou seja: nem série, nem escrita, nem piano, nem o raio que o parta.

Como se já não bastasse ter de apanhar o fio à meada das séries que vou deixando pelo caminho (ou que me roubam pelo caminho, talvez seja melhor dizer assim...), há tantas outras que me passam a vida a piscar o olho mal abro o raio do Netflix. La Casa de Papel, Stranger Things, Tempo entre Costuras, The End of the F**king World. O Outlander que também deixei pelo caminho, assim como Making a Murderer...

Caraças, quem criou a Netflix deve estar a rir-se na cara de quem precisa de trabalhar. (E eu aqui, a roubar horas do meu sono, com a consciência pesada de quem pecou – que é como quem diz, passou mais horas nesta aplicação do que devia e agora está a escrever a horas impróprias para consumo.)

06
Fev18

Um post um tanto ao quanto adulto no Delito de Opinião

Carolina

Comecei a escrever diariamente em 2009, em blogs que hoje em dia já não andam por aí e cujos textos só moram na cabeça de alguns. Acho que ainda sou uma miúda, mas na altura era MESMO miúda - não tinha sequer feito o 9º ano. Não fazia ideia que a escrita ia ser uma parte essencial da minha vida e do que estava para vir; e muito menos esperava que fosse isso a mudar o rumo da minha formação e vida profissional (uma vez que tinha ideias muito fixas relativamente aquilo que queria fazer no futuro).

Lembro-me de ir ver os rankings dos blogs mais visitados do país - numa altura em que o "meu" Twilight Portugal estava nos lugares cimeiros, ao lado d'"A Pipoca Mais Doce" e outros blogs de futebol, se a memória não me falha - e de estar lá o nome do Delito de Opinião. Eu era miúda, não lia esse tipo de blogs. O Delito era (e é) um blog adulto. Tem opiniões de quem já teve uns anos para pensar sobre muitos assuntos e sabe apresentar argumentos de acordo com aquilo que acha, já para não falar do traquejo e da experiência de escrita que a maioria dos autores tem no lombo. Fala sobre política, livros, filmes e coisas do dia a dia - mas, pá, de forma adulta. Com algumas palavras difíceis, com uma aura de quem sabe o que diz - mesmo que não concordemos com o que está lá escrito.

Leio pontualmente alguns posts deste espaço que, para mim, é uma das bandeiras do Sapo - em grande parte por se ter aguentado durante todos estes anos, pela frequência de posts e diversidade - e foi mesmo com enorme espanto que, aqui há dias, recebi um convite para escrever lá um texto. Disse logo que sim, mas depois vi-me grega para saber o que escrever. "O quê que eu vou escrever no Delito? O quê que se escreve para pessoas adultas? O quê que se diz num blog sério?". Pensei durante uns dias e decidi dissertar sobre um tema que, mais tarde ou mais cedo, iria discutir aqui: a série Casa do Cais. Mete youtubers, dinheiro público, adolescentes e comportamentos fora do padrão/cada vez mais no padrão: um mix perfeito para uma boa troca de ideias e para um post completo. Sério. Adulto, talvez.

 

"Foi com enorme surpresa que, aqui há uns tempos, vi um anúncio na RTP a uma série que claramente pretendia chamar a atenção de um público mais jovem: chamava-se Casa do Cais e tinha como “actores” vários youtubers portugueses, com um guião inspirado na história real acerca da vinda de um desses youtubers para Lisboa, após ter saído da sua terra natal, o Entroncamento (detalhe que só vim a descobrir mais tarde)."

 

Hoje convido-vos, por isso, a ler o meu post do costume, mas num estaminé diferente. Hoje escrevi no Delito. Caraças, hoje percebi que cresci. Talvez esteja a ficar adulta como os outros.

 

Casa do Cais: retrato real ou forçado de uma geração?

(clicar para ler)

11
Dez17

Sou uma fã controlada de Game of Thrones

Carolina

Detesto ser uma info-excluída. E, como tal, há coisa de um ano comecei a ver Game of Thrones. Isto porque sempre que passa uma nova temporada o meu facebook tem, post-sim-post-não, algo relacionado com a série; nos ajuntamentos de família a malta da minha idade só fala da Daenerys, da Sansa e do John Snow - e o mesmo acontece com os poucos amigos que tenho. E eu detestava não perceber nada daquilo, não conhecer os nomes nem a história, por isso só tive uma solução: começar a ver a série.

Há um ano vi duas temporadas de uma só assentada mas entretanto parei. Já antes disso tinha comprado os dois primeiros livros da saga e disseram-me que se eu começasse a ver a série nunca mais ia pegar neles, pelo que esperei que uma vontade divina de ler me assolasse a alma... mas não aconteceu. Os livros continuam ali, intocáveis, até porque não tenho lido praticamente nada e não tinha qualquer força de vontade de ler algo "mastigado". 

O ano foi passando, sem grandes notícias da série, mas quando chegou o verão... boom. Eram spoilers por todo o lado, a mesma quantidade incrível de entrevistas e artigos no meu mural do facebook, conversa entre-cruzadas de pessoas sobre as personagens e as ocorrências dos últimos episódios e eu ali parada na segunda temporada, sob as perguntas impressionadas das pessoas: "mas ainda só vais aí?".

E pronto, fiz-me ao caminho. Vi a série toda. E sim, gostei, mas não consigo sentir aquela maluqueira toda que as pessoas parecem transparecer. Um amigo meu dizia e eu acho que tem razão: o facto de eu ver a série de uma assentada, de ter os episódios ali à minha mercê, de os poder ver quando quiser e nas quantidades que bem me apetecer, tira um bocado a piada, a essência e a magia daquilo. Porque, na verdade, muito do que é Game of Thrones faz-se pela espera, pelo suspense, pelas expectativas - principalmente tendo em conta que as temporadas são curtas e o tempo de espera entre elas é longuíssimo. 

Durante todos estes anos em que não vi a série também fui "recolhendo" spoilers (algo que, confesso, não me afeta muito...), pelo que já sabia quem sobreviveria à matança submetida pelo George R. R. Martin, apesar de não saber porquês nem o decorrer da história. Talvez por isso nunca me afeiçoei a nenhuma personagem que tivesse sido morta nem nunca fui arrebatada pela violência de um episódio. Simplesmente era aquilo e eu aceitava-o, sem grandes revoltas ou espantos - o que pode ser normal em qualquer outra série, mas nesta é no mínimo estranho.

Isto pode querer dizer que não vivi a série da melhor forma - ou, pelo menos, da forma clássica - mas foi o que foi. Acho-a fenomenal e aconselho-a a quem goste do género, embora a ache pesada em muitos aspetos. Vi sempre os episódios antes de dormir e por vezes dava por mim a pensar "se calhar não devia ter visto isto, ainda vou ter pesadelos". Nunca aconteceu. Pelo meio desenvolvi uma paixoneta pelo John Snow (devia ter juízo, não é?) e agora espero ansiosamente, tal como os comuns mortais, pela última temporada. Acho que só aí é que vou poder viver isto com a intensidade com que todos os outros viveram até agora. Ou então não... talvez eu simplesmente já não me surpreenda com nada do que vem daquela mente terrífica do George R. R. Martin. A ver vamos. 

17
Mai17

Review da semana #20

Carolina

The Crown

 

Sou uma hiper entusiasta de todas as famílias reais, mas a inglesa tem, sem dúvida alguma, um lugar especial no meu coração. Adoro a rainha (tenho três mini-estátuas dela...), adoro a Kate, o William, o Harry e as pequenas crianças, claro está. Acompanho com alguma atenção os eventos onde eles aparecem, gosto de ver o protocolo, as vestimentas, os casamentos e essas coisas todas - e por isso era óbvio que ia adorar a série "The Crown", produzida pelo Netflix.

Dizer que é uma série magnifica é dizer pouco. Tudo nela é bom: os atores, os cenários, a banda sonora, a realização... já para não mencionar a fotografia, que é para lá de incrível. Mas, acima de tudo, pela riqueza de detalhes (tanto históricos como visuais). Todos nós podemos ter acesso à história, como é que as coisas se passam, mas isso não tira qualquer magia à série, uma vez que ela está tão bem feita que nos faz sentir tudo aquilo que se vivia à época.

A série tem dez episódios de uma hora e começa no fim do reinado de George VI, passando pela sua morte e consequente início do reinado de Isabel II. Isto envolve, claro está, o casamento de Isabel II com o Duque de Edimburgo, os arrufos com Winston Churchill e os problemas com a Princesa Margaret. No início de cada episódio aparecem alguns flashbacks que, muitas vezes, ajudam a contextualizar o resto do episódio - aparecem as duas princesas ainda pequenas, o não coroado rei Edward VIII (que também entra ativamente na série, sempre em alturas de confronto) entre outros momentos. Para quem não estiver minimamente contextualizado com a história da monarquia inglesa, para além da série ser potencialmente desinteressante, pode ser até um pouco difícil de entender - mas, para os restantes, é um autêntico regalo para os olhos e para a nossa cultura geral. Saber de política mundial (desta época) também pode ajudar a compreender alguns momentos.

Mas o maior elogio que eu posso fazer a esta série é o facto de ela me ter posto a pensar sobre a vida dos reis. Algo que me faça pensar a fundo sobre um assunto merece sempre a minha vénia e, neste caso, fez-me debruçar sobre algo que eu adoro há anos e sobre o qual - agora vejo - não tinha pensado devidamente. Eu, como a grande maioria das pessoas, olha por exemplo para a vida de Kate Middleton como um conto de princesas que se tornou real - nasceu plebeia, conheceu e apaixonou-se por um príncipe, casou-se numa igreja majestosa com um vestido incrivelmente lindo na presença das altas patentes do estado (incluindo a Rainha) e, se tudo correr bem, um dia terá a coroa em cima da cabeça. Parece magnífico, não é? Eu também achava, até ver esta série e perceber que tudo isso deve ser super chato.

Acima de tudo, entendi, primeiro, o quão "ridículo é ser" rainha. Não é fácil explicar isto, mas a série expoe-no demasiado bem: ter empregados para tudo, ter que ostentar uma coroa em cima da cabeça (pensem bem no assunto e imaginem-se a andar com uma coisa pesadíssima na cabeça - e pensar que isso vos dá quase todos os poderes). Em segundo, o quão difícil é executar esse papel - como deve ser difícil ser Papa, por exemplo: é uma responsabilidade demasiado grande, há demasiados deveres quando, na verdade, é só uma pessoa normal que o está executar. Estas pessoas têm de deixar de ser elas próprias para passarem a ser aquele papel; têm de se pôr em segundo lugar (ou muitos mais lugares abaixo), assim como a sua família, para não derrubar nenhum valor das instituições que governam - e na série vê-se muito bem que, por vezes, os valores colidem e há decisões que têm de ser tomadas, por muito que doa a todos os envolvidos.

É difícil explicar algo quando está tão bem feito e demonstra coisas que, de outra forma, é difícil entender. Aqui, pomo-nos nos pés de um rei ou de uma rainha. Percebemos que não é um mar de rosas, que o quem reina passa a ser Rei e deixa praticamente de ser "a Isabel" ou "o Duarte". E as dificuldades que isso traz, tanto a nível pessoal como na relação com os outros - nomeadamente a nossa família. 

A única coisa em que, nesta série, tenho algumas dificuldades é em fazer a ponte da ficção para a realidade - não a nível dos acontecimentos históricos, mas em imaginar (por exemplo) que a Rainha Isabel foi mesmo assim. Acho que nestes episódios, para além de mais bonita, a Rainha é representada de uma forma muito mais simpática e empática do que é na realidade; é lógico que eu nunca a conheci e não era viva nos anos seguintes a ela ser coroada mas, pelo que vejo agora, ela tem um semblante (ainda que ligeiramente simpático) austero e custa-me imagina-la tão querida como ela às vezes é aqui repretratada. Mas enfim, se calhar fiz uma leitura errada da senhora - ou então foram os anos que a tornaram mais amarga o que, tendo em conta tudo aquilo que passou, também não deixa de ser legítimo.

Não posso dizer mais nada. É um must see. Pelo que li, a série foi das mais caras de sempre e terá (felizmente!) uma segunda temporada, que vai dar mais enfoque no Philip do que propriamente na Rainha (o que é uma pena, mas não duvido que será igualmente interessante). Não percam!

 

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13
Fev17

Oh não, ando a ver séries portuguesas!

Carolina

Ando há séculos para vos falar das novas séries da RTP. Quer dizer... "novas" é uma expressão. Ando a adiar este post há tanto tempo que elas já podiam estar quase na segunda temporada e eu ainda aqui estava. Mas enfim, vocês percebem. Acho que pelo caminho até já estrearam outras (shame on me, again), mas vinha falar-vos do "Ministério do Tempo" e do "Sim, Chef".

Com o Ministério do Tempo a RTP fez um alarido de todo o tamanho, uma promoção incrível. E a verdade é que eu acho que deixa muito a desejar. A ideia original é engraçada mas, tal como todos os filmes e séries que envolvem viagens do tempo, acho que há discrepâncias enormes, erros que nem sei bem explicar. Enquanto vejo aquilo surgem-me mil e um problemas e outras mil e uma questões e eu acabo por não desfrutar do que vejo.

Não percebo muito bem aquelas passagens temporais e, no caso específico desta série, não entendo como é que eles depois recrutam o Luís Vaz de Camões ou o Pessoa para o ministério. Depois há outras coisas: lembro-me de uma cena em que a Amélia só dizia que queria ir dormir para casa - mas então ela vai dormir ao século XIX? E depois vai embora, e depois volta? E o tempo que passa noutros tempos é igual ao do tempo dela? Ou seja, enquanto os minutos passam em 1943 também passam em 1851? Acho tudo muito confuso. Por outro lado, acho a caracterização de algumas personagens mesmo muito fraquinha: ainda há dias o Hitler e o Salazar eram os ícones centrais do episódio e os atores eram de bradar aos céus. E ainda há a questão das paisagens: quando se trata de tempos muito antigos, os fundos são autênticas pinturas, há uma total aceitação de que não vão recriar aqueles cenários - e embora eu perceba que mais vale fazer isto do que asneira da grossa, dá um ar pouco autêntico e um bocadinho amador à coisa. Por isso, e embora ache alguma graça ao enredo inicial, acho que há demasiada coisa a estragar, por isso desisti de ver.

O mesmo não se pode dizer do Sim, Chef. Acho a série super, hiper, mega bem conseguida, de rir do início ao fim. Nos primeiros episódios também apareciam assim umas nuvens, ao estilo desenho animado, mas até isso eu achei piada, embora tornasse a série um bocadinho mais acriançada. Acho o casting incrível - os dois atores principais, o chefe e o aprendiz, nasceram para fazer aquilo. O enredo de cada episódio é hilariante, há sempre plot twists pelo meio e cada personagem tem o seu papel - que, ainda pequeno, não deixa de ser essencial, tal e qual como acontece numa cozinha. Pelo que sei, a série é inspirada numa outra estrangeira, mas não acho que lhe tire valor - aquilo faz as minhas quartas-feiras à noite muitooo mais divertidas. Normalmente todas as séries que eu gosto não passam dos primeiros episódios experimentais, mas estou a fazer figas para que esta tenha continuidade e que os roteiristas continuem inspirados.

Por isso, em resumo: para o Ministério do Tempo, embora aprecie a tentativa... avaliação negativa. Para o Sim, Chef... que mais venha! Ah, e já agora, uma nota de apreciação para a RTP, pela tentativa de disrupção das novelas, onde há sempre o anjo, o diabo e o casal sensação, e que já enjoam neste país tão pequenino onde tudo soa ao mesmo. Não tenho visto muito mais séries para além destas, mas apanho alguns anúncios e críticas pela internet fora - e mesmo que algumas não tenham sido tão bem conseguidas, acho que vale pelo esforço!

 

19
Set16

É oficial: sou uma Game of Thron'iana!

Carolina

Ahhhhh, a notícia pela qual todos esperavam! Finalmente comecei a ver Game of Thrones!

O milagre aconteceu há mais ou menos um mês, numa fase mais parada das minhas férias, em que precisava de algo para me entreter. Devorei a primeira temporada em poucos dias; atirei-me logo à segunda, vi tudo de rajada mas não fui a tempo de ver o último episódio antes de ir acampar. E depois, mal voltei, entrei a 200% por cento na vida adulta (ainda à mistura com a vida universitária, porque ainda tive o tal exame e trabalho para fazer), pelo que não consegui ver o dito episódio até há dois dias atrás. Sim, meus amigos, é possível esperar três semanas para ver um final de temporada de Game of Thrones que está guardado no computador e sobreviver!

Conclusões a tirar: estou a gostar muito e agrada-me a ideia de ainda ter várias temporadas pela frente para me ir entretendo (o problema vai ser mesmo arranjar tempo para as ver). A série tem uma onda que eu gosto e tem uma componente de "fantástico" grande, da qual eu sou uma adepta afincada há vários anos. Por outro lado, consegue ser pesada quanto baste em alguns episódios - espadas pelo coração adentro e cavalos cortados pelo pescoço não fazem parte das coisas que goste mais de ver num ecrã (e devo confessar que me custa mais a morte dos animais do que das pessoas). Ainda assim, não é algo que me afaste da série, até porque não a acho "negra" no seu todo (Outlander, por exemplo, consegue ter episódios verdadeiramente pesados, escuros e violentos, tanto física como psicologicamente, e eu não deixo de adorar a série por causa disso).

O que me admira aqui é que, mesmo com este cocktail improvável e pouco fácil de ter clientela, esta é, sem dúvida, a série do momento (quer dizer, agora esmoreceu um bocadinho por só voltar para o ano, mas não há como não lhe atribuir esta nomenclatura). Sei, por falar com as pessoas, que tudo o que mete fantástico ou é profundamente odiado ou adorado - conheço tantas pessoas que adoram como tantas que detestam. Por outro lado, há também muita gente que não tolera violência. Acho que estes dois fatores juntos, numa outra série qualquer sem o prestigio que Game of Thrones conquistou nos últimos anos, podia mesmo ditar um fracasso, a menos que fosse uma coisa de nicho. E aqui, contra tudo aquilo que eu acho, vejo e ouço, é a receita perfeita para um sucesso de massas como nunca antes se viu numa série (nunca esquecendo, claro, a qualidade dos atores, da cenografia e da realização, que numa série de nicho é dificílimo ter, até porque Game of Thrones é exímio em todos estes aspetos).

Devo confessar que, para mim, o lado pior da série consegue ser muitas vezes a história (ou o guião, não sei - como nunca li os livros, não sei onde estão as falhas). Sinto que há muitas pontas deixadas um pouco ao acaso e coisas sem grande explicação aparente (ou explicadas em tempo útil, uma vez que há coisas que só conseguimos entender muito tempo depois), o que muitas vezes dificulta a minha organização mental e faz com que certas partes me passem ao lado. 

No que diz respeito a desgostos em relação a personagens e ao vício do George R. R. Martin tem de matar tudo a torto e a direito, posso afirmar que - até agora - estou a salvo. Tive a grande vantagem de só ver agora a série e, por isso, vir de sobreaviso - tenho tido o cuidado de não me "apegar" demasiado a nenhuma personagem, para não ter nenhum sopapo quando a decidirem matar (e, por acaso, tenho achado tudo mais ao menos previsível). Houve alguns spoilers que também chegaram até aqui (é impossível sobreviver ao facebook em dias de episódio, não é verdade?), pelo que sei que posso estar descansada em relação ao Jon Snow, por exemplo.

E pronto, é isto. Era só para vos dizer que sou agora uma mulher mais atual e completa, agora que percebo (quase) todas as private jokes, mêmes e piadas facebookianas em relação a Game of Thrones. Quando chegar ao fim da última temporada, naquele dia em que me bater uma tristeza profunda por me sentir órfã de série, grito por socorro.

27
Dez14

Miúda de 95 27#

Carolina

A minha sogra é uma bruxa

 

Natal também é época de saudades. Ui, e as saudades que eu tenho, de tudo e mais alguma coisa!

Ainda no outro dia, a caminho da faculdade, me lembrei de uma série que adorava e chorava a rir, que passava na RTP: "A minha sogra é uma bruxa", onde Rosa Lobato Faria fazia de sogra malvada e a Rita Blanco de filha. Depois havia o marido totó que não sabia que a sogra era uma bruxa, os netos dela que tentavam impedir os seus feitiços e, claro, a vizinha cabeleireira que dava um toque especial à série.

A parte boa destas novas novas tecnologias é que tudo se pode rever, tanto na TV como na net, e encontrei os episódios quase todos no YouTube, descarregados por alguém que devia ser tão fã como eu. Apetece-me refastelar-me no sofá e rir como antes.

 

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