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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

01
Fev21

Uma história com princípio, meio e sim! #3

Casar pela igreja? It's a no for me!

O casamento pela igreja era uma não-questão. Isto porque era daquelas que, para além de saber bem aquilo que queria, era também dos tópicos em que eu não iria ceder (isto tendo em conta o noivo que tenho; se fosse alguém extremamente devoto, a história poderia ser diferente).

Se há coisa que eu prezo na vida é a coerência - foi assim que fui ensinada e é algo que gostaria de manter. Se é verdade que as pessoas mudam, também o é que não mudam assim taaaanto. A minha parca ligação com a igreja é algo constante - em nenhuma fase da minha vida fui praticante ou tive um contacto mais presente com a religião. Sou batizada mas, para além disso, só pus os pés em igrejas para funerais e casamentos (nunca fui à catequese). Costumo dizer que sou católica pela cultura que tenho e pelos princípios com que rejo a minha vida - a preocupação com o bem do próximo, a solidariedade, etc.

Tenho fé - mas não é algo que caiba dentro dos "parâmetros" normais, justificada por um Deus. Não a encontro em locais de cariz religioso. A minha fé materializa-se no acreditar numa qualquer forma de perpetuação das pessoas que já partiram e que fizeram parte da minha vida; sinto a sua presença em pequenos detalhes do dia-a-dia, e em mim própria, em várias ocasiões... e é nisso que acredito. Mas, para mim, isso em nada tem que ver com a igreja. 

Diria até que, ao nível da igreja-instituição, a minha relação tem-se vindo a degradar. A ideia dos peditórios, dos dogmas, das ideias fixas e pouco flexíveis e os escândalos afastam-me cada vez mais desse tipo de práticas.

O curioso é que embora sempre tenha gostado de marcar a minha posição, a religião é um tema muito sensível, sobre o qual tive dificuldade em impor o meu ponto de vista numa fase inicial da minha vida. Apesar de nunca ter sabido qualquer tipo de reza, não gostava de estar calada numa igreja onde todos pareciam saber os cânticos e os rituais; tinha a tendência de mexer os lábios para dar a ideia de que estava a dizer algo e procurava manter um ritmo natural daquele levanta-senta chato a que somos submetidos em todas as missas. Cheguei até a fazer uma leitura no funeral da minha avó e a andar com o cestinho a fazer a recolha das dádivas! E esse foi o ponto de viragem.

Aquela não era eu. Nunca fiz parte de grupos e nunca me preocupei por não fazer parte de um rebanho - pelo contrário, sempre me orgulhei disso. Porque é que ali, naquele sítio, tinha de ser diferente? Porque é que tinha de fingir saber fazer algo que de facto não sabia? Porque é que tentava fazer parte de algo que não me dizia nada?

Deixei de me benzer quando entro numa igreja. Deixei de mexer os lábios durante a missa. Deixei de me sentir pressionada naquele ambiente tão cheio de rituais e aceitei que não os sabia. Sento-me e levanto-me à medida que os outros o fazem e não me importo de ser a última a fazê-lo. Recusei fazer uma leitura no funeral do meu avô. Porque se é para ser coerente, é para o ser em toda a linha. 

Por isso, relativamente ao casamento, não é preciso dizer nada, pois não? Se nunca fui praticante, porque me havia de casar pela igreja? Por ser bonito? Por ter um altar? Por ser costume? Não.

Não me esqueço de algo que o padre que celebrou o casamento do meu irmão lhe disse. Podendo falhar-me aqui alguma coisa na sua narrativa, a ideia é que hoje em dia só vamos à igreja em três ocasiões, transportados pelos 3 C's: primeiro por um carrinho, quando somos batizados; depois de carrão, quando casamos; e por fim de carrela, quando morremos. Eu quero ser coerente e quebrar este ciclo. Quando fui batizada não tive escolha (e, honestamente, não é algo que me afete) - mas hoje, adulta, acho que devo ir de encontro às minhas crenças e as minhas práticas (ou, neste caso, à falta delas). Se não frequento a igreja no dia-a-dia, também não me faz sentido lá ir num dia que para mim é tão importante.

Nos dois casamentos a que fui, ambos os padres, de diferentes paróquias, fizeram menção a esta hipocrisia em que todos vivemos mas que fazemos questão de assobiar para o lado de cada vez que nos toca a nós. Que devíamos frequentar a igreja no dia-a-dia, não só nestes dias especiais; que as igrejas não eram só para este tipo de celebrações. E a verdade é que estão corretos - estão a pedir coerência.

Aqui entre nós, devo confessar que quando vejo aquelas fotos dos noivos de joelhos no altar, compenetradíssimos nos seus pensamentos, penso para mim: "será que eles estão a fazer o que eu faço durante a missa inteira? A pensar o que vou fazer para o jantar durante a próxima semana ou que emails ainda tenho por responder?".

No dia do meu casamento eu quero ser feliz - e isso implica, provavelmente, quebrar tradições e fazer o menor número de fretes possível. Não quero uma celebração chata, num local que não me diz nada para além da sua beleza arquitetónica e regida por alguém que acha ter em si a palavra de um Deus em que não acredito. No meu casamento eu quero ser eu. E, como tal, a igreja nunca esteve na equação. 

 

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20
Mai16

Os ovinhos de Santa Clara

Restam-m três dias de estágio e as saudades já apertam. Tem sido uma experiência enriquecedora a todos os níveis - tenho aprendido muito. Sobre mim, sobre a vida, sobre os outros, sobre a comunicação nas empresas, sobre a têxtil, sobre figuras públicas, sobre família, filhos, pais, religião, moda. Tive a sorte de cair no meio de uma equipa de mulheres que são loucas à sua maneira peculiar mas incrivelmente saudável; que trabalham mas que convivem, que riem até chorar e que choram quando assim tem de ser; que tanto falam pelos cotovelos como estão no segundo seguinte concentradíssimas a olhar para o papel que têm à frente. Mas sobre tudo isto falo daqui a mais uns dias, quando já não tiver de viajar todos os dias para a frente do mar; quando já não entrar por aquela porta e já não me rir, no máximo, nos 5 minutos seguintes por qualquer patetice que por lá se passa.

Como disse, um dos tópicos que também aprendi nestes três meses foi religião e fé. Sempre foi algo em que me senti "pobre" em conhecimento, porque apesar de ouvir falar e discutir alguns assuntos, tenho de facto pouca experiência. Cresci no seio de uma família de cultura cristã, mas aqui em casa ninguém é praticante - e dividimo-nos entre os crentes, os agnósticos e os ateus. Eu fico entre as últimas duas categorias, dependendo da fase da minha vida. Fui batizada mas nunca pus um pé na catequese - e o único ponto negativo que tiro disso é mesmo a minha falta de cultura no que diz respeito a assuntos religiosos, porque nunca senti nenhuma ligação a este tipo de coisas de forma a me apetecer ingressar nestas aulas. Os meus pais deram-me o poder de decisão e eu sempre disse que não queria ir - e não me arrependo minimamente. 

Mas nestes últimos tempos no escritório temos discutido as questões da religião e fé quanto baste - duas filhas das minhas colegas vão fazer a comunhão e eu, leiga como sou, aproveito para sorver toda a informação possível e aprender o mais possível. Também me tenho rido quanto baste - uma delas está a aprender as músicas para cantar no coro e eu vou pesquisando as músicas no youtube, para ela ir treinando, e é toda uma risota. Discutimos também os rituais, como se faz isto e aquilo, das confissões aos padres até às festas que se fazem em casa. Enfim!

Nas últimas duas semanas andamos toda atentas à previsão do tempo, sempre na expectativa de estar um sol radiante este fim-de-semana, para que tudo corra na perfeição. No entanto, depois de tanta expectativa, treino e conversas, o dia aproximava-se cada vez mais e a previsão de tempo não era a melhor. E no escritório decidiram passar para o plano de emergência. E qual é o plano de emergência, perguntam vocês? Pôr ovinhos em Santa Clara.

Não se sintam totós, porque eu também nunca tinha ouvido falar disto na vida - mas, pela pesquisa que fiz, é uma tradição até conhecida nos sites de casamentos para quem prefere ter um casamento abençoado sem ser molhado. Segundo diz a "lenda", quando se precisa de bom tempo e as previsões não são as melhores, deve-se levar uma dúzia de ovinhos à igreja de Santa Clara. Devem ser caseiros (não há cá forretices!) e, pelos vistos, devem ser levados por uma mulher amiga e próxima da família da noiva ou anfitriã da festa (dependo do evento). É deixar lá os ovinhos, ter uma conversinha com a "senhora" e esperar o melhor. 

A emergência agora era mesmo encontrar os ovos caseiros - e eu aí fiz a minha boa ação do dia e levei uma parte dos ovos, patrocinados diretamente pelas minhas galinhas. Não sou de acreditar nestas coisas, mas tinha piada se resultasse - e não custa tentar, em prol de umas festas mais quentinhas. É esperar que resulte. 

07
Jan15

Charlie Hebdo (ou brincar com o que não se deve)

Acho que já confessei aqui um dos meus maiores preconceitos - que tende a crescer e a agravar-se à medida que o tempo passa - é em relação aos muçulmanos. Já fui à Turquia, um país relativamente ocidentalizado, e não gostei. Gostei das mesquitas, gostei de muitas outras coisas: mas não das pessoas. Mesmo sabendo que só uma pequena parcela daquele povo é terrorista, mesmo sabendo que são pessoas, como nós, ocidentais.

Mas, gostando ou não, acima de tudo deve haver respeito mútuo. É óbvio que, com o SIS a executar jornalistas e outros cidadãos todos os dias, respeito é algo que não existe, mas creio que por os outros errarem, não devemos fazer o mesmo. Sempre me ensinaram que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros, e aqui se insere a liberdade de expressão. "Charlie Hebdo", um jornal satírico francês, brincou várias vezes com o fogo. Numa das 398 reportagens que já vi hoje sobre o assunto, viam-se várias capas do jornal, algumas delas bem fortes, com Maomé em posições duvidosas e em brincadeiras, para mim, pouco respeitosas e que passavam claramente dos limites.

É claro que a sangria que aconteceu hoje em Paris não tem justificação possível - muito menos meia dúzia de imagens publicadas ao longo dos anos sobre esse assunto. É terrorismo puro. E, sim, um atentado à liberdade de expressão - mas também esta tem limites. Podemos criticar, investigar, argumentar, descobrir, difundir - é esse o papel do jornalistas. Porque, como tanto se apregoa aí por esse facebook neste dia de tragédia, "não há armas que travem o papel e a caneta". Mas há barreiras (quase) intransponíveis. Da mesma forma que os cristãos não gostam que brinquem com a figura do Papa ou de Deus, acho natural que os muçulmanos se sintam ofendidos quando trabalham com a imagem de Maomé ou líderes muçulmanos da forma como os cartoonistas daquela revista faziam. A diferença é que nós, ocidentais, pomos processos em tribunal por difamação - já eles: matam. E fazem-no à grande, de forma a que nós nos recordemos.

Mas, enfim, o que podíamos esperar de uma religião que mata as mulheres à pedrada? 

 

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01
Ago14

Esse deus que não existe

Considero-me uma cristã cultural e interesseira. Explicando: cultural porque fui educada segundos os princípios cristãos, porque uso expressões como "valha-me deus" (e nunca com letra maiúscula, porque não o considero um nome próprio); interesseira porque só me lembro da religião quando me interessa (ou, deverei dizer, quando estou desesperada). Fora isso, considero-me ateia, porque não acredito em nada. Não vou a igrejas (a não ser para apreciar a arquitetura, estilo, beleza), nunca fui à catequese, nunca assisti a uma missa, nunca me senti ligada a qualquer entidade superior. E, a cada dia que passa, acredito menos em qualquer poder divino, num deus todo poderoso e grandioso e bondoso e omnipresente e, e, e...

Porque olho à minha volta, para as pessoas, para as notícias, para os blogs, e vejo tanto mal a correr nestas páginas e na televisão. tanta morte, tanta tristeza, e tanta desgraça e sei que não pode haver nada de grande a "olhar por nós". Pode haver quem mereça, pode haver povos que o peçam, pode haver maldade suficiente que compense alguns grandes desgostos. Mas eu tenho a certeza absoluta que há gente que não merece tamanhas tristezas na vida, que qualquer maldade que tenham feito não se equipara à que "Deus" lhes devolveu a elas. 

26
Jul13

O Papa Francisco

No dia em que fizeram o anúncio do novo Papa entrei um bocadinho em pânico: achei que o chefe da igreja era o senhor que foi fazer o anúncio, um homem com uma clara deficiência e uma grande dificuldade em falar. Vi tudo um bocado mal parado, mas quando percebi o mal-entendido, fiquei logo muito mais descansada. Gostei logo do novo Papa e da sua simplicidade.

Apesar de não frequentar a igreja e de nem sequer acreditar em espiritualidades (ando entre o agnóstico e o ateu), acho o Papa uma figura importante para o mundo em geral, e este encheu-me as medidas. Vale dizer que eu não gostava nada, mas nada mesmo, do cardeal anterior, portanto o contraste com este acaba por ser ainda maior.

Muitos depositam no Papa Francisco a esperança de ele mudar a igreja - eu acho que, apesar de tudo, tal não é possível. Aliás, eu estou a pedir a todos os santinhos que, com tanta simplicidade e exposição, o senhor não acabe com uma bala algures como aconteceu com João Paulo II. O conservadorismo da igreja e de muitos dos seus apoiantes, muitas vezes, não dá bom resultado para estes santos padres tão acarinhados, simpáticos e abertos para o mundo.

Mas enfim, mudando ou não as estruturas da igreja, coisas mais profundas, acho que só a sua presença está a ter consequências muito positivas: está a desmistificar a igreja; está a mostrar que é um homem como outros, que é capaz de falar sem ter um discurso à frente, cumprimentar quem o acarinha, desejar uma boa refeição ao povo sem ser formal, falar com os jornalistas aceitando a sua condição de figura maior da igreja mas não se tratando como alguém demasiado importante. Tal como eu, tantas outras pessoas que não se ligam à igreja passaram a gostar mais desta instituição apenas pela imagem que o Papa passa dela. E isso, se virmos bem, acaba por ser muito importante. Que por lá fique durante muito tempo, o Papa Francisco.

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