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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

24
Mai19

Empresária wannabe: quando lidar com os outros é o nosso calcanhar de Aquiles

De todas as coisas que me assustavam na ideia de trabalhar na fábrica - eram, e ainda são, muitas - a maior delas era a relação com os meus funcionários. Tinha muito medo da reação deles perante a direção de uma mulher, muito jovem, com idade para ser filha e até neta de alguns deles. Nos primeiros tempos comparei a minha relação com eles como os humanos têm com os ratos: eu tinha medo deles, mas na verdade eram eles que praticamente fugiam de mim.

Agora que já fiz daquilo a minha segunda casa esse sentimento já se diluiu; eles habituaram-se à minha presença, ao meu olhar curioso, um bocadinho inquisitivo e a puxar pelo sentido crítico, e eu à forma de estar e de trabalhar deles. Mas a gestão de recursos humanos continua a ser (e acho que será sempre) o meu ponto crítico à frente das empresas. Tão simplesmente porque implica lidar com pessoas - e aquilo que elas são e não são, fazem e não fazem, dizem ser e fazer, o que querem mostrar e o que não querem dizer, o que sentem e não querem transparecer - e com uma série de preconceitos que vêm de há muitos anos relativamente aos patrões e seus empregados. Há um gap grande entre nós e não fui eu que o criei - ele já estava lá. E a verdade é que por muito que tente, não consigo mudar as coisas; estou a lutar contra a maré.

Agora em época de eleições sinto isso mais do que nunca. Fico arrepiada de cada vez que ouço o PCP a dizer que os patrões isto, os patrões aquilo, e que todos os "camaradas" são explorados por quem os chefia. Não me identifico minimamente com esta relação de amor-ódio entre patrões e funcionários que ainda hoje se respira em muitos sítios, em particular nos locais mais tradicionais - e irrita-me muito que ainda hoje se alimente este tipo de sentimentos, nomeadamente para arrecadar votos. O objetivo final de tudo isto é que todos tenhamos uma vida digna e boa, dentro das limitações de cada um - e esquecemo-nos de que nunca seremos felizes se odiarmos todos os dias a pessoa que nos paga ao fim do mês ou, no caso contrário, as pessoas que permitem que o nosso negócio funcione. Eu desligo a rádio ou mudo de canal de cada vez que ouço este discurso, mas preocupa-me que os outros não façam o mesmo. O 25 de Abril foi há 40 anos, as diferenças e dicotomias da altura não são as de agora - parem de as eternizar!

Eu sei que preciso tanto dos meus funcionários quanto eles de mim, e preferia que estivéssemos taco a taco, com respeito mútuo, em vez do pedestal em que os patrões tantas vezes se colocam e que tanta revolta traz aos seus empregados. Mas eu tenho 24 anos, tenho esperança nestas coisas que muitos dizem ser utopias. Ouço, com alguma preocupação, as vozes da experiência: "eles comem-te viva", "vão fazer de ti o que querem", "não podes deixar" e sou consecutivamente arrastada para aquele velho paradigma, o amor-ódio de que me queria distanciar. Tento arranjar um meio termo.

E para isso foi importante para mim ter trabalhado por conta de outrem antes de ter começado esta aventura. Senti na pele as dores de quem é mandado; de ser repreendida sem ter culpa e de não ser recompensada por fazer algo de bom; de não me sentir bem liderada, de pensar que as coisas deviam ser feitas de outra forma mas não ter o poder de mudar isso. No fundo, essa experiência tornou-me mais empática; ensinou-me a colocar-me nos calcanhares dos outros - algo que espero nunca esquecer, o que acontece com a maior parte dos líderes, que se tornam impermeáveis as emoções e vidas de quem corre à sua frente.

Mas nunca sei até que ponto posso ir. Até onde posso acreditar. Até que ponto posso perdoar. Não posso ser naive e achar que é tudo um mar de rosas e que toda a gente vai ser sincera, honesta e boa pessoa para comigo; estamos a falar de gente marcada pelo passar dos anos, por antigas lideranças e patrões, que só quer levar a água ao seu canteiro. Algumas delas marcadas pela revolução, época rainha nas discrepâncias entre patrões e funcionários. Não posso esperar que, só por eu aparecer, uma esponja se passe pela história e seja tudo pacífico. Nem sequer posso querer que pessoas com o dobro ou o triplo da minha idade percebam ou compreendam a minha visão da vida e dos negócios. Mas também não posso começar de pé em riste, já a prevenir tudo o que de mau pode acontecer. Lá está: o ideal seria o meio termo. Mas como se consegue uma proeza dessas, quando muitas vezes a própria gestão nos exige pouca humanidade?

Para mim, a este nível, a única forma de fazer as coisas é ir lidando com elas no dia-a-dia, antecipar apenas o inevitável. Porque a verdade é que as pessoas são imprevisíveis. Tive a minha prova de fogo quando decidi dispensar alguém, por considerar que essa pessoa já não tinha capacidades físicas para fazer bem o seu trabalho e por me aperceber que tinha outras alternativas melhores para aquele caso. Nem dormia direito ao pensar naquela derradeira conversa. Como é que se consegue ser empático e humano quando vamos despedir alguém - ainda que tenhamos razões para isso e lhes dermos tudo a que têm direito? Como é que esquecemos que aquela pessoa também tem uma vida, contas para pagar, bocas para alimentar? Será que isto de ser patrão obriga a uma permeabilidade dos sentimentos, quase como fazem os médicos em relação à dor e à vida dos outros? Um negócio só consegue ser bem gerido com este tipo de palas ou é exatamente o contrário - serão essas palas que eventualmente nos destroem o negócio?

Como se vê, tenho muito mais perguntas que respostas, muitos mais medos que certezas. A única coisa que sei é que agi, até agora, de bem com a minha consciência. Fiz o melhor que pude, para ambos os lados. E acho que só assim é que faz sentido, até ao fim do caminho. Mesmo que Steve Jobs tenha razão quando diz que "if you want to make everyone happy, don't be a leader - sell ice cream" ("se queres fazer toda a gente feliz, não sejas um líder - vende gelados"). Acho é que quando disse isso, nem ele se lembrou que o vendedor de gelados também tem uma empresa para gerir.

 

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15
Abr17

"Só faz falta quem cá está"

Mentimos todos os dias. Não quer dizer que sejam mentiras grandes ou que seja por mal. Às vezes é simplesmente mais prático. O clássico é a resposta "está tudo bem". A verdade é que quem nos conhece não precisa de perguntar esse tipo de coisas: simplesmente sabe. Quem nos pergunta, no meio da rua, "'tá tudo?" são pessoas que nós já não vemos há uma série de anos, colegas de trabalho com quem só almoçamos na mesma mesa enquanto se esvazia a marmita ou, no geral... o resto das pessoas. E ninguém diz "não, não estou bem": porque não há tempo, porque não há abertura ou proximidade para isso. Eu acho que o "está tudo bem" já quase se tornou numa expressão idiomática, de tanto ser dita e tão pouco verdadeira.

Mas não é a única. Eu adoro expressões, ditados e esse tipo de coisas e todos os valores subliminares que têm por detrás. Ainda há pouco lia um comentário que dizia "deixa lá, só importa quem cá está!" e só consegui pensar que aquilo soava a uma gigante mentira, por um lado com um tom motivacional e por outro com um toque profundamente magoado e chateado. Refleti seriamente nas vezes em que ouvi isto - e aquelas em que eu própria o disse - e percebi que é uma daquelas expressões que só sai quando há uma ferida por sarar. 

Se "só importa quem cá está" não haveria desgostos de amor profundos, não haveria lutos que duram uma vida, não haveria as dores de alma que existem devido a zangas, desencontros e mal entendidos. Nós somos feitos de todos os contactos que fazemos ao longo da vida - porque, como diz um dos meus filmes favoritos de sempre, "our fingertips don't fade from the life we touch". E há pouco, quando li o tal "só importa quem cá está", quase que ouvi uma vozinha irritada a dizer "somos melhores sem eles, não precisamos deles para nada, não fazem cá falta, eles que vão, que continuem as vidinhas miseráveis deles enquanto nós aqui continuamos a sambar na cara das inimigas - magoadas, doídas, doridas, mas sempre em cima, que mostrar que eles fazem falta só por cima do nosso cadáver!".

Mas a verdade é esta: as pessoas fazem-nos falta. E se dizemos que "só importa quem cá está", é porque ainda mais falta fazem. É porque ainda dói, é porque a ferida ainda não sarou. E normalmente só é uma expressão que usamos quando as pessoas saem pelo próprio pé, quando há um "abandono", quando existe um fim causado por alguém - o que, na verdade, ainda pode custar mais do que uma perda involuntária (como a morte).

Acho que já toda a gente esteve nesta situação - em que perdeu alguém de quem gostava mas, para não dar mais importância ao assunto, disse para si mesmo que "só importa quem cá está". Eu já o fiz, tantas e tantas vezes. Aliás, diria que vivo quase sobre essa máxima: há várias pessoas que considerava valiosas e que saíram da minha vida tão rápido como entraram, às vezes sem um acenar de adeus. E dói. Eu, nesse aspeto, sou uma pessoa muito dorida (e pouco disponível para aceitar mais pessoas só pensando na eventualidade delas depois irem embora). Mas o "mais engraçado" no meio disto tudo é que, no caso em específico em que surgiu este comentário, eu faço parte dos que já lá não estão. Estou do outro lado da barricada. Ou seja, pondo-me no meu devido lugar, a interpretação correta e literal é "já não fazes falta". Mas a mim, quem lá está, faz-me falta. Eu tenho saudades. "Saí" por questões práticas da vida, porque o meu dia-a-dia assim o ditou, mas não quer dizer que tenha deixado de gostar das pessoas lá envolvidas.

E ao ler aquilo pensei em todas as vezes que me senti abandonada por pessoas. E em como elas também podem ter razões práticas da vida para terem feito o que fizeram, para terem saído da minha vida conforme saíram. Mas a verdade é, que no fim de contas, as nossas dores são sempre as que doem mais: mesmo relativizando, mesmo quando nos colocamos nos calcanhares alheios. E um adeus é sempre um adeus. E toda a gente sabe como as despedidas são uma valente merda.

11
Set16

Eu, os números de telemóvel e a invasão da esfera pessoal de cada um

Não sei se é por ter convivido durante toda a minha vida com pessoas bastante mais velhas que eu, mas tenho enraizados em mim alguns hábitos e regras de conduta que me custa muito quebrar. Coisas que na minha cabeça advém simplesmente do que acho ser boa educação, mas que se calhar não passam de velhos hábitos e velhas regras que, nos dias de hoje, não fazem sentido ter.

Não se liga para as pessoas depois das 22 horas. Não se começa a comer sem a pessoa mais velha o fazer. Não se dá o número de telemóvel sem se pedir autorização à pessoa em questão. Diz-se "com licença" ou "bom dia" quando estamos a sair de um elevador com pessoas que não conhecemos. Sei lá - são tantas pequeninas coisas que são tão normais para mim que tenho dificuldade em lembrar-me delas. Na verdade, só quando alguém as quebra é que eu me apercebo que elas existem dentro de mim.

Nos últimos dias tenho sido confrontada com todas as minhas "regras intrínsecas" envolvendo telemóveis. Não sou jornalista, mas como estou a trabalhar num sítio muito pequenino em que é preciso fazer de tudo, ser qualquer coisa parecida com jornalista é uma das atividades que tenho (esta semana foi tudo o que fiz, uma vez que o site onde vou trabalhar a maior parte do tempo ainda não está pronto). Posto isto, muito do que tenho de fazer é ligar para as pessoas - o que, para mim, é uma dor quase semelhante a beliscões consecutivos em todas as partes do meu corpo. Eu sou má a lidar com pessoas no geral, mas sou ainda pior a falar ao telemóvel - e tenho de me preparar psicologicamente antes de fazer cada chamada, respirar três vezes e ganhar coragem de cada vez que clico no botãozinho verde. (E agora vocês perguntam-se: e porque raio escolheste essa profissão? Acreditem, há dias em que me pergunto o mesmo). Mas a verdade é que já me sinto a melhorar e sei que é uma questão de tempo até esse desconforto me passar.

Mas enfim, aqui o busílis da questão está mesmo na transmissão despreocupada de números de telemóvel. Talvez eu pense como uma criatura do século passado, mas para mim um número de telemóvel ainda é algo pessoal. Mas, só no meu primeiro dia de trabalho, deram-me meia dezena de números de telefone para quem ligar, onde se incluíam figuras públicas - e eu fiquei um bocadinho atarantada. Talvez sejam muitos traumas juntos: detestar falar ao telemóvel, não gostar de falar com estranhos e achar sempre que sou chata e estou a incomodar as pessoas. Mas a verdade é que eu só pensava como iria abordar a questão e como eventualmente seria despachada a pontapé: "olá, eu sou a Carolina, colaboradora de um jornal ...", "mas como raio é que conseguiu o meu número?!?!?!"

Esta conversa ainda não aconteceu (a figura de quem falei foi, por acaso, super simpática e atenciosa), mas sei que um dia será o dia. Talvez pense à imagem daquilo que gosto que façam comigo. Vejo o telemóvel como uma coisa privada e não gosto que ande nas bocas do mundo - mas já percebi que, metendo-me neste universo, o meu telemóvel não será diferente do dos outros e fará parte dessas trocas infindáveis sem qualquer aviso prévio ou preocupação. Admito que me faz confusão. Sinto que estou a entrar na esfera privada de alguém e que os outros podem eventualmente entrar na minha - e, por isso, percebo que não gostem e tenham tendência a correr-me a pontapé.

Se calhar sou eu que sou retrógrada, já ninguém pensa assim e estamos de facto num admirável mundo novo. Ou então as pessoas têm simplesmente dinheiro para ter mais do que um telemóvel e o problema fica automaticamente resolvido. Mas, para mim, que me vejo obrigada a ligar a torto e a direito para pessoas que nunca vi à frente (e que eventualmente também vão guardar o meu número na lista delas) não deixa de ser estranho.

31
Jul16

Uma noite mágica na livraria Lello (e a aposta em todo um verão épico)

Acho que este verão bateu em mim o facto de este ser o meu último período de férias grandes. Em Setembro começo a trabalhar e inicio oficialmente o meu período de vida adulta, com dias de férias contados e todo o drama que é trabalhar. Ao meu lado só vejo pessoas ainda a acabar a licenciatura, a seguir para mestrado, a tirar um gap year ou a ir fazer voluntariado no estrangeiro e eu aqui, prestes a perder a liberdade que tive até agora mas que até aqui não tinha dado grande importância.

Por isso fiz um compromisso comigo própria em aproveitar este verão da melhor forma que conseguir, apostando todas as fichas nestes meses de calor e respondendo "sim" a coisas a que normalmente diria não ou arranjaria uma desculpa para me esquivar. É para ir a um concerto antes de seguir para Estocolmo e dormir só uma hora? Bora. É para entrar num castelo com encenações assustadoras a meio da noite mesmo sendo medricas para xuxu? Bora. É para ir para a Régua? Bora.

E foi neste espírito de "bora, não há nada a perder e este é o teu último verão a sério" que também enviei email para a Lello, candidatando-me para ser voluntária no evento do lançamento do novo livro do Harry Potter. Estava na Rússia, a pagar net a preço de ouro, e passei por um post no facebook que dizia que eles estavam a aceitar candidaturas para voluntários nesse dia. Escrevi uma coisa muito rápida e simples e, para minha surpresa, poucos dias depois recebi um email a dizer que fui selecionada.

Não me vou debruçar aqui sobre o trabalho de "voluntariado" que fizemos nem discutir essa questão tão sensível (fica para breve). Eu estou numa de me meter em coisas que me ocupem tempo, que me tirem de casa e me façam conhecer pessoas novas - e foi isso que fiz, independentemente do que ia (ou não) receber, do trabalho que ia ter e ia fazer. O que me importava era ir, fazer parte. E assim foi.

Durante dois dias esfalfei-me. Carimbei, ensaquei e alarmei centenas de livros (sim, aquela preciosidade passou-me pelas mãos dois dias antes do lançamento oficial - e confesso, dei uma olhadela antes do tempo). Carreguei com eles escadas a cima, uma vez e outra. Levei com centenas deles em cima, que caíram em cima de mim estilo dominó quando retiramos uma caixa que não devia ter saído do sítio. Fiz de porteira durante horas a fio, andei pelas filas a dizer a mesma coisa cerca de quarenta e duas mil vezes e dei por mim a ter uma fila de pessoas só para falar comigo para me fazerem perguntas a que já tinha respondido cerca de cinquenta e oito mil vezes essa noite. Nunca falei com tanta gente na vida. Sei que para a grande maioria das pessoas o evento foi um flop (basta ver as publicações e comentários na página do evento no facebook) e isso também foi perceptível para nós, que tentamos proporcionar a melhor experiência possível mas não conseguimos fazer milagres. Ainda assim, penso que enquanto voluntários foi uma experiência brutal.

Já depois da meia noite, enquanto carimbava talões e entregava o tão esperado livro, via na cara das pessoas a emoção total. As músicas da banda sonora do Harry Potter estavam a passar na loja e, honestamente, houve um momento em que me arrepiei - quando entregávamos o livro, parecia que estávamos a passar a tocha olímpica ou algo de uma importância incrível, tal a comoção das pessoas que estavam à nossa frente. Foi incrível e valeu todas as horas de trabalho duro que todos nós, voluntários, passamos ali. Penso que é algo que nunca esquecerei.

Outra coisa incrível foi a interação com as pessoas - não só as centenas com quem falei na porta ou nas filas, enquanto distribuía comida, inquéritos ou simplesmente respondendo a questões - mas também com os outros voluntários. Senti a mesma coisa no barco: estamos num sítio onde ninguém nos conhece e podemos fazer reset em nós próprios, sem ter de gerir as expectativas dos outros ou de quem já espera e pensa certas coisas de nós. No fundo, perante pessoas e todo um mundo novo, podemos ser quem quisermos, reinventarmo-nos e "escolhermos" que pessoa somos e quem queremos ser, sem nada que nos prenda a tudo o resto. E essa sensação é espetacular. Posso ser a Carolina incrivelmente simpática que acho que normalmente não sou; posso ser a Carolina que está sempre a sorrir que não sou de certeza no dia-a-dia; posso ser uma versão light de mim, porque sei que aqueles tempos vão ser ligeiros e felizes e que os problemas só vêm depois, e aí já posso ser quem sou habitualmente. 

Apesar da confusão e dos milhares de pessoas, do trabalho quase abusivo e de alguma ingratidão que possamos ter sentido, acho que é uma noite que nunca esquecerei e que sei que não poderia ter vivido de outra forma (porque não iria lá apenas como "espectadora" normal). Foi mágico, tal e qual como o (nosso) Harry Potter.

 

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03
Dez13

Os portuenses

Este post é para todos aqueles que, sem conhecer, falam sobre os portuenses com cinco pedras da mão (e que normalmente são portugueses e não estrangeiros, porque a maioria dos estrangeiros adora o Porto). Eu sei que a imagem que passa para o exterior é só dos adeptos do FCPorto a atirem pedras e petardos para outros adeptos e até para o próprios jogadores, mas a verdade é que nem todos somos assim. Não partimos estações de serviço por diversão ou andamos aí ao murro só porque alguém tem um cachecol vermelho. Isso é o que fazem parecer, não é a realidade.

Hoje, tinha eu estacionado o carro para ir para a faculdade e preparava-me para tirar o bilhete do parquímetro, quando um senhor abre a janela e me pergunta, com um daqueles papéizinhos na mão: "vai demorar? Ainda tem uma hora". Eu agradeci-lhe, mas disse-lhe que sim, que infelizmente ia demorar - fui burra, porque basta-me ter um papelzinho para a minha consciência não ficar pesada, porque no fundo eu demoro sempre mais tempo do que o limite que está no papel. Mas enfim, o que conta é a intenção.

Da mesma forma que vários senhores já me vieram ajudar a estacionar o carro, em dias que eu não estava para ali virada e o carro parecia nunca encaixar. Viam, ajudavam e iam à sua vida. É uma coisa normal por aqui.

Vejo muito turista que parece meio perdido no meio da cidade, a olhar para o mapa como um burro olha para um palácio, e que é ajudado - voluntariamente - por pessoas. Desde os mais novos aos mais velhos - e que giro que é ver aquelas senhoras, com mais idade e sotaque acentuado, a tentar ajudar pessoas que não se conseguem fazer expressar para além do inglês! Eu própria sinto-me invadida por este espírito e já não é a primeira, a segunda ou a terceira vez que ajudo pessoas meias perdidas (e eu não sou pessoa de falar, prontamente, com desconhecidos). 

Tenho pena que os meios de comunicação social só passem este tipo de imagens negativas de quem vive na Invicta: somos os rudes, os mal-educados, os que têm o sotaque "mais feio", os mais brejeiros, os mais arruaceiros, os mais incultos. E isso porque só mostram uma amostra - que existe - mas que não demonstra aquilo que verdadeiramente somos. Porque nós somos muito mais do que isso.

13
Set13

Propriedade

Nós, seres humanos, necessitamos de ter algo em nossa posse. Somos feitos para ter. Se não fosse isso, Marx podia ser considerado um génio e o comunismo até poderia funcionar. Mas não. Nós queremos que aquela casa, aqueles sapatos caros e aquele relógio nos pertença. Pagamos por ele e dão-nos um papelzinho que, embora lá não diga, simboliza "este bem pertence ao fulaninho x". É isso que gostamos, embora o possamos negar com toda a veemência. 

Como não podemos comprar as pessoas, criou-se o casamento, em que elas ficam um bocadinho mais agarradas a nós do que antes. Mas, mesmo assim, não nos pertencem. Não temos um papel que significa que aquele sujeito é nosso ou que aquela mulher é nossa "mercadoria", mas a verdade é que o sentimos. O sentimento de posse está lá. A partir do momento em que gostamos um bocadinho mais de alguém, é como se a outra pessoa já fizesse parte de nós, tal e qual os sapatos que nós adoramos e que parecem uma extensão dos nossos próprios pés.

Mas tal como os sapatos se gastam, o relógio se perde e a casa de desfaz, em algum momento, muito provavelmente, as pessoas vão deixar de ser "nossas". Não há nenhum contrato ou factura que nos salve; há um tempo para tudo. E nós podemos continuar a pensar que somos donos dos sapatos que já estão no lixo, no relógio caríssimo que já está no pulso de outrem ou na casa que já está demolida, mas a verdade é que já não os temos. E as pessoas também partem para outra. Bem dizia o João Pedro Pais que "ninguém é de ninguém, mesmo quando se ama alguém"...

07
Set13

Os maus da fita

Eu sou uma pessimista nata e espero sempre o pior das pessoas. No entanto, penso que a maioria das pessoas, por si só, não é má. Grande parte das vezes em que nos magoamos uns aos outros, não é intencionalmente - acontece, proporcionou-se, teve de ser. Não é como nas novelas, em que o vilão faz planos maquiavélicos para tramar não sei quem, quase traçando em papel os movimentos e estratagemas que pretende executar - apesar de que, com dezoito anos vividos, posso dizer que conheço algumas pessoas assim do género, óptimas para me basear em personagens maléficas para futuros livros.

É por isso que, ainda hoje, me faz um bocadinho de confusão esta violência gratuita e bem direcionada que acontece aqui na internet. O facto de o anónimo ter aparecido, ajudou todo um conjunto de pessoas a arranjar o mínimo de coragem para se atirarem para cima daqueles que gostam menos e resultou nisto que se vê hoje, com as suas inúmeras consequências (como os suicídios devido ao ask.fm e outras coisas que tais). Continuo a ficar parva quando me apercebo que há pessoas que perdem tempo a ler o meu blog e a comentar, claramente ressabiadas comigo, como se eu tivesse dito ou feito alguma coisa para as ofender. A minha questão é: acham que eu já não eliminei blogs da minha lista porque deixei de gostar daquilo que escreviam? Acham que eu vou a blogs benfiquistas, quando sou portista? Acham que eu me vou pôr a ler blogs de extrema esquerda quando não apoio essa filosofia? Não, não leio. E se leio e noto algum tipo de modificação, deixo de ler. Porque uma coisa é ser assíduo num blog e comentar, argumentar, dar uma opinião num post onde, particularmente, não estejamos de acordo, mas que tal possa ser discutível; outra é deixar insultos, insinuações e declarações feitas, pensadas e repensadas para magoar quem escreve o blog. Não me cabe na cabeça. E quando tal acontece, retomo os meus pensamentos sobre a existência de pessoas más e vejo que, se calhar, até estou enganada: elas existem, de todos os tamanhos e feitios, muito mais do que se pensa. Não magoam os outros por acaso: são como os maus das telenovelas e fazem por magoar. E isso é triste.

05
Set13

Quando comprar até é incómodo

Eu fico doente quando sou maltratada em lojas ou algum tipo de serviço. Normalmente, largo mesmo aquilo que pretendia comprar ou fazer quando me apercebo da "qualidade" dos atendedores - pura e simplesmente irrita-me a ideia de que parte daquilo que eu vou pagar vai fazer parte do salário deles. E eu não pago para ser maltratada.

A primeira situação flagrante em que isso aconteceu foi numa escola de condução onde fui antes de me inscrever naquela que, depois, viria a ser a minha. A senhora mal nos olhou, falou-nos como quem o fazia por obrigação, sendo seca e ríspida quando nós até tentamos pôr uma pinga de bom humor na conversa. Utilizando uma expressão comum no norte, ela estava com umas "trombas" terríveis, como que me dizendo "não estou para aturar mais ninguém".  Seja feita a sua vontade! Vim-me embora e nunca mais pensei em lá pôr os pés.

Aqui há dias, no Algarve, passou-se outra parecida - e, não fiquem ofendidos os algarvios, mas este tipo de situações são bastante comuns por essas terras. A simpatia não é muito comum por aquelas bandas e ser mal recebido em lojas e restaurantes é o pão nosso de cada dia - algo que me desgosta muito, tendo em conta que eu adoro o Algarve e, a cada ano que lá passo, vejo essa hospitalidade como um ponto fraco da região. Mas enfim: entrei eu numa loja na marina de Vilamoura e, vendo uns sapatos que gostei, tirei da caixa e experimentei - entenda-se que só havia uma empregada à vista e que as caixas estavam lá à mão (assim estilo Seaside), com os números e tudo discriminado; aquela não era uma loja personalizada, subentendia-se que o cliente poderia estar à vontade. Mas afinal não. Quando a senhora vê que estou a experimentar, diz-me rispidamente que quando se experimenta sapatos tem de se pedir ajuda à funcionária, fazendo uma cara de profundo desagrado como se eu tivesse cometido um crime de pior espécie.

Fiquei orgulhosa de mim quando não arranquei o sapato do pé e deixei aquilo desarrumado como estava. Tirei o sapato, arrumei, e limitei-me a entregar um vestido que tencionava comprar na caixa. Ao contrário dela, não demonstrei qualquer tipo de má educação. Limitei-me a rogar-lhe uma pragazita e a jurar que não iria dar um centavo que fosse para o rendimento dela. Às vezes parece que estamos a fazer um favor a alguém, ao comprar o que quer que seja - e eu não sou cá de fazer favores.

14
Ago13

Hoje é difícil ser-se anónimo

A curiosidade faz parte da nossa essência. Se, por um lado, ela "matou o gato", por outro fez com que avançássemos em todos os sentidos. Não seríamos o ser evoluído que somos se não fossemos curiosos - é isso que nos faz avançar, querer saber mais, encontrar algo para além daquilo que já sabemos. E, como em tudo, pode ter boas e más utilidades.

Falo-vos nesta nossa característica porque, pensando na questão do anonimato, acho óbvio que, em algum momento, alguém faça por saber quem se esconde por detrás de uma máscara, de um blog, de um facebook sem foto de perfil. Leio vários blogs em que os autores optam por não se expor - e eu admito que isso traz inúmeras vantagens (ao ponto de, muitas vezes, querer voltar atrás na minha decisão de me "ter mostrado"; não que tivesse tido muitas hipóteses em contrário, tendo em conta que já me tinha exposto noutro contexto, mas enfim) - mas só funciona em blogs com dimensões pequenas, sem grande visibilidade. A partir do momento em que um certo número de pessoas sabe mais sobre alguém, começa automática e inconscientemente a construir uma imagem dessa pessoa e, eu diria, é perfeitamente natural que se queira saber como ela é. Nós ainda não somos computadores e, como tal, faz-nos uma certa falta associarmos uma cara a todas aquelas informações que absorvemos através daquilo que os autores de blogs e sites dizem. Somos assim. Mesmo que não sejamos a pessoa mais cusca e curiosa da cidade, apetece-nos saber mais.

Depois disso, é ver quem é melhor nas artes da coscuvilhice. Eventualmente, acaba-se por se encontrar algo. Manter uma imagem longe de uma personalidade não é fácil: e, como se costuma dizer, "quem procura, encontra". Ou se é muito rígido, cuidadoso e, diria, quase obsessivo em relação a isso, de modo a não deixar escapar nenhum pormenor, ou então não há anonimato que dure para sempre.

13
Jun13

Mundo pequeno

É, de facto, estranha a nossa reacção - de bloggers, entenda-se - quando alguém se dirige a nós e nos tece, por exemplo, um elogio. Quer dizer, devíamos demonstrar logo um profundo agrado, falar, mostrarmo-nos tão extrovertidos como somos neste mundo - mas a verdade é que isso não acontece. A maioria dos bloggers que conheço (e eu faço parte do leque) procura sempre um buraquinho onde se esconder sempre que alguém nos reconhece - não porque não gostemos do reconhecimento, não que não nos sintamos lisonjeados por isso, mas sim porque há uma barreira invisível no computador que nos separa e que nos deixa eternamente distantes; mas, naquele momento em que nos confrontam, deparamo-nos com a ligação desses dois mundos que, na nossa mente, têm uma parede a separa-los. Nós escrevemos muitas vezes mais do que dizemos, e pensar que aquele alguém que está à nossa frente lê essa parte de nós é estranho e intrusivo - porque no fundo, representam a transição do mundo virtual para o mundo real, algo que nem sempre estamos preparados para lidar.

Aqui há dias fui a casa de uma amiga de uma amiga (não se confundam!) e reconhecia-a. Não quis dizer nada, até porque não tinha bem a certeza se era quem eu estava a pensar, e fiz um teste a mim mesma: eu sabia que o sofá dela - porque já o tinha visto em vídeo - era de x cor; se se confirmasse, era mesmo ela, senão deixava o assunto morrer. Mas a verdade é que o sofá era mesmo igual ao que tinha em mente e isso tirou-me qualquer tipo de dúvidas. Não disse nada, porque sei que é estranho para a maioria dos bloggers chegar uma pessoa de rompante e dizer "ahhhhh, eu conheço-te, leio o teu blog!". Deixei a conversa andar e quando a minha amiga que me disse "ah, tens de ir ver o blog dela", eu respondi que, enfim, já lia. E a reacção esperada chegou: "ahhhh, não vejas! É tão estranho, não vejas nada!".

O mundo é pequeno e é perfeitamente normal que, no meio de encontros, desencontros e coincidências nos esbarremos com alguém de quem gostamos, que lemos ou que vemos na internet e a quem tenhamos um elogio para dar - e é tão giro quando isso acontece! E às vezes nós, sem intenção, afugentamos as pessoas com a nossa vergonha típica e os "não leias!", "não escrevo nada bem, deixa-te dessas coisas!" - mas acreditem: é ignorar. São posições de defesa de quem não está habituado mas que, no fundo, gosta muito daquilo que faz e de receber opinião - só não está é habituado a um feedback dado pessoalmente.

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