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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

16
Mar18

A vida não espera por ti

Carolina

Nunca percebi aquela coisa dos vilões das telenovelas fazerem "planos maléficos" contra os seus inimigos - não percebo como é que isso se faz, se há algum tipo de verdade nesse sentido da palavra. Mas também nunca percebi as pessoas que não têm planos. Planos de vida, planos para o futuro. Para amanhã, para hoje, para as férias, para o verão.

Eu tenho necessidade de ter planos para tudo. Não gosto de andar à deriva. Não gosto de me perder a menos que o meu plano seja mesmo perder-me. E eu uso agendas, uso blocos, uso este blog como testemunho de todos os planos que tenho. Os objetivos que traço. As datas que determino. As coisas que quero. E gosto de ter tempo para pensar em tudo, para não dar passos em falso.

Mas no meio disto tudo, desta papelada toda, de todas as datas e planos que tenho na minha cabeça, esqueço-me que o relógio continua a andar. E que não é só o meu que anda - o dos outros também. A vida passa. E a minha vida - quer eu queira quer não - cruza-se com a de quem me rodeia. E há momentos em que os ponteiros coincidem. E pumba. A vida não espera. Não espera que eu termine os meus planos. Não espera que eu esteja preparada. Não espera que eu tenha o meu discurso pronto. Não espera que eu tenha todos os argumentos, todas as armas.

 

Tenho há algum tempo a cabeça cheia de planos. É um conjunto infinito de remendos, cosidos a ideias de há muitos anos e colados a medos. Caraças, muitos medos. E, de um momento para o outro, sinto que, como numa rajada de vento, todos eles se espalharam por mim toda. Buuuuuf. Não os agrafei, nem tive tempo para pôr clips. Confiei que nesta altura não vinham tempestades, mas foi-se tudo pelo ar. Não eram castelos de papel - mas quase. Há remendos por todo o lado; o sopro da vida tapou-me os olhos, entupiu-me as vias respiratórias. Não vejo, não respiro. Não tinha ordenado os meus planos, esqueci-me de numerar as páginas, está tudo num caos.

É hora de apanhar as folhas, arranjar os vincos, ir buscar aquela página que ficou lá atrás. E olhar para o relógio, perceber que ele não pára, mas que felizmente é fim-de-semana, e temos tempo para reorganizar. Porque, de facto, a vida não "são dois dias", mas em dois dias dá muitas voltas.

A vida não espera. A única coisa que se pode esperar da vida é que ela continua. E o nosso remédio é continuarmos com ela.

 

01
Mar18

Devemos incluir os blogs no nosso currículo?

Carolina

Detesto ter de fazer o meu currículo. Detestei da primeira vez que o fiz e detesto de cada vez que tenho de o atualizar (algo que acontece frequentemente, para efeitos formais, mesmo estando a trabalhar). É ingrato termos de resumir todo o nosso percurso num papel, em pequenas frases, que podem estar recheadas de mentiras ou que podem não chegar aos calcanhares daquilo que somos na realidade. Mas enfim, tem de ser, sei que não há muitas formas melhores que sirvam para o efeito.

Mas no meio de todo este processo de escrita e concepção deste documento sou sempre invadida por imensas dúvidas: devo fazer um currículo vitae normal, estilo europass, insosso e desenxabido, ou devo fazer uma coisa mais visual, mais dinâmica e bonita? Devo incluir hobbies e um breve resumo de mim própria ou restrinjo-me ao percurso profissional e académico?

No meio disto tudo, surge-me sempre uma pergunta: incluo ou não incluo os blogs que tenho e tive? É que isto pode ser interpretado de várias formas e tem muitos pontos de vista. Antes de mais, o mais óbvio: só com aquele ponto estamos a dar muitas informações sobre nós próprios, basta alguém aceder ao dito site. Nem todos os blogs são diários abertos, mas todos têm muito de quem os escreve, nem que sejam opiniões - o que, só por si, já revela muito do que cada um é. E essa exposição à partida pode ser tão boa como má.

Depois há o risco da pessoa que lê o currículo não saber o trabalho que dá ter um blog. Ou ser preconceituosa e pensar "olha, esta já teve um blog sobre Twilight, deve mesmo ser uma pessoa hiper adulta, ah ah ah". E, como sempre, há o outro lado da moeda: podemos sempre apanhar alguém que se apercebe e sabe que para se manter um blog durante anos a fio é preciso ter paciência, perseverança e empenho.

Penso muito nisto. Sempre que chego à parte de referir "outras experiências" fico sempre bloqueada. Digo, não digo. Digo, não digo. Sou da opinião de que devemos adequar o nosso currículo perante o objetivo que temos ou diferentes propostas de trabalho - evidenciando umas coisas ou tirando outras que, para aquela situação, não sejam relevantes. Mas, neste caso (e no meu em particular), os blogs são uma parte essencial da minha vida há muito tempo.

Escrevo neste blog há sete anos, tenho blogs há nove. Durante cerca de quatro anos levantei-me todos os dias às sete da manhã, antes de ir para as aulas, para deixar posts programados para o dia inteiro; organizei eventos e falei para vários meios de comunicação social quando a maioridade não estava sequer à vista; fiz parte (e fiz por!) de um blog que estava no top 5 dos mais visitados do país, numa altura em que os blogs eram, por um lado muito mais genuínos e movimentados, mas por outro tinham muito menos "nome"; o primeiro dinheiro que eu ganhei foi um cheque da Google, devido a esse mesmo blog. Já este, ainda que mais pequeno em termos de escala e número de posts, está no ar vai fazer sete anos: viu-me cheia de medo, a trocar as ciências pelas letras; viu-me a entrar na faculdade, a detestar a faculdade, a sair da faculdade; viu-me a estagiar, a fazer as minhas últimas férias grandes, a arranjar o meu primeiro trabalho. E tudo o que se passou no meio disso. Já me "vê" há muitos anos, basicamente.

E isto, tudo isto, é de valor. Eu sei que é e não tenho vergonha de o mostrar. Só tenho medo que não o entendam - porque, lá está, o currículo é curto, o tempo para olhar para ele é pouco e a hipótese de nos explicarmos é menor ainda. Pôr ou não pôr, eis a questão.

19
Fev18

O parafutebol (ou como o Bruno de Carvalho contribui para a degradação do futebol português)

Carolina

Tinha os meus nove anos e era louquinha pelo FCPorto. Nem digo por "futebol", porque eu estava-me pouco borrifando para os outros clubes. Eu era do Porto. Ponto. Via os jogos, punha o cachecol com o símbolo ao peito e fazia de tudo para ir ao estádio. Era - e sou - orgulhosamente sócia, mas também era miúda e fazia coisas que eram de miúdos. Detestava Lisboa, dizia mal do Benfica a todo e qualquer benfiquista que se aproximasse mais de dois metros de mim e gozava pelos campeonatos que, na altura, eles perdiam consecutivamente.

E depois cresci. Fui ficando com menos tempo para ver futebol e portanto aquela febre clubística que eu tinha foi desaparecendo. Isto coincidiu também com uma fase menos boa do FCPorto e, tudo junto, fez com que tivesse mais juízo, racionalidade e imparcialidade no que ao futebol diz respeito. Mas também fui ficando mais crescida e percebi que aquilo que eu fazia era típico de uma idade e que estava na altura de deixar isso para trás. Deixei de irritar os outros - e até de demonstrar grandes clubismos em público, a menos que esteja num local próprio para isso. Por um lado porque deixou de me dar prazer, por outro porque percebi que um dia são eles, no outro sou eu, e aquilo que eu um dia digo pode cair-me em cima no outro a seguir (estás a ler isto, Sousa Tavares?). E com isto tiro também a capacidade dos outros me irritarem - algo que acontecia sempre que diziam mal do meu Portinho - pelo menos quando falamos de atitudes dentro do limite do razoável. 

Continuo a adorar de paixão o meu clube. Agora que sou maior de idade já posso ir ao estádio sem um pendura e estou numa fase em que acabo por falar bastante de futebol, por só trabalhar com homens um tanto ao quanto fanáticos. O Porto está a recuperar e por isso eu tinha tudo para revitalizar esta minha alma de dragão - já sem os histerismos de antigamente - mas agora há toda uma outra razão para não me entusiasmar. Não se trata do futebol em si - é, aliás, tudo o que se passa à volta dele. Hoje em dia o futebol é muito mais aquilo que se joga fora de campo do que dentro dele.

São os comentadores de bancada que ocupam todas as noites os canais informativos, com ataques pessoais e comentando os ataques dos outros, e cada vez menos os lances, os jogos e os jogadores; são os próprios clubes que enchem as redes sociais de queixumes e porcaria; são os diretores de comunicação que se põem a mandar postas de pescadas e revelações, qual wikileaks; é arguidos para um lado, suspeitos por outro. É tudo um nojo. Ah! E depois temos o Bruno de Carvalho, que cai em toda uma outra categoria ("asco", talvez?).

Não sou fã do senhor, mas penso que isso é uma coisa natural. O que não me parece natural é quem gosta dele - e, caros sportinguistas, escusam de me dizer que ele fez muito pelo clube, que vestiu a camisola e que é um leão às direitas. De direita, só parece ter o ar ditatorial com que diz que os sócios devem deixar de ver televisão e comprar jornais, e que "todos, mas todos os comentadores afetos ao Sporting" devem abandonar de imediato os programas. Todos temos a nossa vertente pessoal e profissional. Ele pode ser um óptimo presidente (até custa a escrever...) mas uma pessoa que afirma que ajudou um treinador a ser despedido de outro clube - e o faz com orgulho, a alto e bom som -, para mim, é lixo. E depois, se ouvirmos tudo o que ele diz e comenta sobre todos os assuntos em geral - e já tendo em conta o pedido de boicote aos media - só lhe resta mesmo algum estatuto abaixo de lixo.

Eu acho que não estou a ofender ninguém com este texto. Qualquer sportinguista com o mínimo de imparcialidade e racionalidade percebe tudo isto. O pior são mesmo os outros. Mais preocupante do que ter uma pessoa destas a falar nos media, é ter quem os ouça. E quando eu ouvi os urros e as palmas vindas da plateia de cada vez que Bruno de Carvalho dizia uma das suas baboseiras, um bocadinho da minha esperança na humanidade ia pelo cano. E muito mais se foi quando percebi que, depois do apelo do Sr. Presidente, os adeptos não têm mais nada senão tentar bater em jornalistas. É de arrepiar, não só pelo ato em si, mas por percebermos que pessoas deste calibre têm tanto impacto em pessoas "normais". Se passarmos isto a outra escala, percebemos como é que o Holocausto existiu, percebemos a existência de um Hitler, percebemos aquelas paradas, aquelas lágrimas, aquele patriotismo. Percebemos que as pessoas ficam cegas, surdas e burras quando há algo "maior" que as controla. E isso é puramente assustador. E é este capítulo sujo e paralelo do futebol (chamei-lhe "parafutebol", estou numa de neologismos) que me faz afastar cada vez mais deste desporto.

Não importam os 5-0, as chicotadas psicológicas ou as "tacitas" mais pequenas. Passou a ser um desporto de guerrilha. Mais vale, um dia destes, irmos buscar as espadas. Depois é só esperar até ver jorrar o sangue. Afinal de contas, desde os tempos medievais que é disso que o povo gosta.

18
Jan18

Porque é que os homens discutem pormenorizadamente os lances de futebol?

Carolina

Acho que hoje em dia passo mais tempo rodeada de homens do que por mulheres, muito por culpa do trabalho. E, como não podia deixar de ser, um os tópicos recorrentes é o futebol. Mas uma das coisas que eu não percebo - nem nunca percebi, para dizer a verdade - é a necessidade que eles têm de descrever pormenorizadamente as jogadas de futebol.

"Bom, aquilo foi um golaço que nem te passa. O Danilo passou a bola ao Marega do meio campo e ele, no lado esquerdo, finta o defesa lateral do Ave, depois centra para o Aboubakar, que chuta para a baliza mas a bola bate na trave. O Herrera está na recarga, ganha a bola de cabeça com um salto incrível, passa para o Brahimi e ele com um chuto de uma potencia incrível remata para o canto superior direito da baliza. O redes ainda tentou atirar-se, a luva quase chegava lá, mas aquilo era indefensável, pá." (Sim, o "pá" é um detalhe importante nas conversas masculinas).

Eu tenho a teoria de que os homens que escutam isto só apanham a parte de quem fez o centro e quem marcou o golo. Mas, se estiver enganada, quero desde já dar os parabéns aos homens deste mundo por terem a capacidade de imaginar todo este cenário nas suas cabeças. E congratular também todos os outros que decoram estes lances e detalhes, prontos para ir para o café discutir tudo ao pormenor, como quem estudou aplicadamente para um exame.

E a verdade é que eu acharia isto natural se estivéssemos em 1979, quando não havia jogos na televisão, repetições e internet - não havia outra forma de dar a entender ou mostrar as coisas. Mas porquê que esta prática se mantém agora quando, passado dez minutos, está tudo no Sapo Desporto e daí a umas horas os lances passam cinco vezes nos noticiários, 12 vezes naqueles debates com gente-que-finge-que-discute-futebol e 31 vezes nos canais especializados? Porquê que no café não sacam do telemóvel e vêem no youtube, em vez de fingirem que estão num daqueles relatos de rádio?

Porque o mais curioso disto tudo é que até podia ser uma coisa geracional - mas não é! Lembro-me desde sempre de ouvir os meus colegas rapazes a discutirem lances como se fosse a coisa mais interessante do mundo - ou, pior, a descrever aquele "golaço" que marcaram no campo da escola que, como é lógico, ninguém tem interesse em saber. 

Enfim, homens e futebol. Vai ser sempre uma cena estranha.

15
Jan18

Livro não há. E então o blog?

Carolina

Há uns dias falava-se aqui em casa de como os meus sobrinhos (e extrapolando até para a malta mais nova, da geração YouTube) vivem com base na constante aprovação dos outros. Quase todos eles já têm redes sociais e festejam cada novo seguidor como se tivessem ganho a lotaria – ou o Euromilhões... ou talvez o Placard, porque já nem devem saber o que é a lotaria. Tudo o que fazem é com vista a ter mais likes: enviam mensagens a dizer que se pusermos gosto nas coisas deles, eles devolvem o botão mágico em todas as nossas publicações e até põem screenshots censurados nos instastories a dizer “foto nova, vão ver!!!”. No fundo, fazem tal e qual como os influencers que eles tanto admiram.

E isso admira-me porque eu não sou nada assim. Quando um dos meus irmãos disse a um dos filhos que só podia ter como amigos pessoas conhecidas, a criança respondeu: “mas o objetivo disto é ter mais likes, se começar a rejeitar qual é o objetivo?”. E isso é um sinónimo de toda a nossa sociedade atual: tão cheia de likes, tão vazia em tudo o resto. Mas continuemos: estava a dizer que não me revejo por esta luta cega de likes e de aprovação exterior. No meio da conversa, dei comigo a pensar: “caraças, se eu fosse assim já não tinha o blog há muito tempo”.

Porque as poucas dúvidas que eu tenho em relação a este espaço prendem-se precisamente com a divulgação que eu faço – ou não faço, neste caso – dele. A minha posição em relação a este estaminé resume-se à frase "não promovo mas não escondo". Isto quer dizer que nunca me ouviram dizer a alguém desconhecido "sabes que eu tenho um blog onde escrevo todos os dias cenas que não interessam ao menino Jesus?"; mas também é muito pouco provável que alguma vez tenha negado a sua existência, sempre que me confrontam com o assunto. E esta sempre foi a minha abordagem por várias razões: 1) nunca quis ser famosa, nunca quis ser blogger, nunca quis fazer deste espaço uma fonte de rendimento; 2) fazer divulgação de algo tem como objetivo trazer mais pessoas - e mais pessoas quer dizer mais haters, mais gente sem nada que fazer da vida, com o objetivo de estragar o dia dos outros... e eu não tenho grande paciência para isso; 3) sinto que apesar de já ter estabelecido uma linha bastante sólida relativamente aos conteúdos aqui no blog, nomeadamente sobre a partilha de temas e conteúdos mais pessoais, este continua a ser um espaço muito meu, onde continuo a dizer coisas que em voz alta não me são fáceis de pronunciar, e por isso custa-me partilha-lo com todo o mundo, não sabendo em que mãos é que esse conhecimento alheio sobre a minha pessoa vai cair. Aquilo que senti das poucas vezes que fui reconhecida na rua foi uma desigualdade imensa: as pessoas sentiam que me conheciam, que eu lhes era algo, enquanto que para mim elas eram totalmente estranhas. E isso, digam o que disserem, é desconfortável.

Tudo isto para dizer que eu não preciso de um público para escrever, apesar de adorar ter um feedback e utiliza-lo para tentar perceber aquilo que resulta e não resulta ao nível de tópicos e na escrita, quase como um estudo muito adiantado para os livros que um dia quero escrever. A verdade é que há quase sete anos que aqui estou e a minha audiência, embora vá crescendo à velocidade que uma tartaruga sobe uma rampa, é sempre a mesma. Nunca há grandes oscilações para além daqueles dias especiais em que sou destacada pelos blogs do sapo e isso não me incomoda. É óbvio que é reconfortante receber elogios e comentários (que na sua maioria são, na verdade, interações – que é o que eu gosto mais) e é por isso que escrevo aqui em vez de escrever no word ou num diário - e sinto e percebo quando uma publicação não tem tanto feedback e tento perceber os porquês. O que não implica que não volte a escrever algo do género se isso for algo que eu goste ou que faça sentido.

Novembro e Dezembro foram o exemplo perfeito disso: notei uma quebra significativa de interações e fico sempre a pensar se quem está desse lado simplesmente desistiu de ler as minhas parvoíces. Mas por outro lado senti-me orgulhosa de mim mesma por, nestes dois meses tão difíceis para mim ao nível da gestão de tempo, ter conseguido colocar aqui conteúdo, tentando nunca menosprezar a qualidade. E sinto que 2018 vai ser feito disso: de um esforço contínuo para continuar a escrever e num registo low-profile, porque é só assim que sei ser. Se há dias em que por um lado gostava de ver isto mais mexido, há outros em que relembro dias mais agitados e de como isso quase nunca me fez mais feliz. 

2017 foi provavelmente o ano com menos posts aqui no blog, mas foi de certeza o ano em que me esforcei mais para os fazer. Estou a ajustar-me a uma nova vida, e nem sempre é fácil manter o ritmo e o meu objetivo que, como nunca escondi, é escrever todos os dias. Mas, acima de tudo, foi provavelmente o único ano na vida deste blog em que eu não pensei em desistir, em "fechar portas", em dizer adeus a este diário aberto. E isso deveu-se ao facto de ter mais para me preocupar e devido esta calmia que aqui se vive, sem polémicas, pedradas ou berros virtuais. 

Há dias em que quero dar um passo em frente; há outros em que sei que se não aconteceu durante estes quase sete anos, nunca mais vai acontecer; e há outros em que simplesmente não quero que aconteça. 2018 vai ser, para este blog - mais do que aquilo que eu fizer dele - aquilo que eu conseguir fazer com ele. E só no fim é que saberemos o quê que isso é.

04
Jan18

Vivemos num país de pré-fabricados

Carolina

Todos os dias fico espantada com a facilidade com que todos já compramos coisas feitas. Vivemos num mundo tão atarefado, tão sem tempo, que queremos as coisas no imediato, sem nos esforçarmos minimamente – e, de preferência, ao melhor preço possível. E isto seria óptimo se as coisas que compramos fora de casa não fossem de pior qualidade... e, acima de tudo, se não se perdesse o que está no meio.

Este tópico veio-me à cabeça pela junção de dois acontecimentos: o primeiro foi o facto de ter levado umas bolachas para o piano (que, como é lógico, fui eu que fiz) e de ver as reações surpreendidas de todos à minha volta; o segundo foi em Cacilhas, aquando do Web Summit, onde fui jantar a uma marisqueira e tinha ao meu lado a decorrer a festa de aniversário de uma menina com não mais de dez anos. Quando chegou a altura de cantar os parabéns, vêm dois bolos da cozinha, claramente comprados previamente pela família. E porquê dois? Porque eram pequenos, comprados no Continente, e a família, com medo que algo faltasse, não esteve com meias medidas e levou logo dois.

Os dois eventos não têm, aparentemente, nada que ver um com o outro. Mas na realidade têm. O elo comum é o espanto e a capacidade de dedicarmos o nosso tempo em prol dos outros. Quando cheguei ao estúdio de piano com as bolachas, toda a gente ficou chocada: “Foste tu que fizeste? Uau, que prendada! O queê, mas fizeste isto de manhã, antes de vir para aqui? Como tiveste tempo? Deves ter acordado de madrugada…”. Pelo contrário, quando vi aquela família num restaurante (onde não me pareceu irem muitas vezes, indo propositadamente para aquela ocasião especial) fiquei eu espantada pela falta de empenho e de esforço por parte de todos aqueles adultos que ali estavam – e ainda eram alguns.

É claro que posso estar a julgar em vão – não sei as circunstância daquela família, do seu tempo e do seu trabalho – mas creio que isto é algo cada vez mais generalizado, e não diz sõ respeito a bolos. Estou em crer que há famílias que já só cozinham o básico, porque todas as refeições provêm de take aways. Tudo é feito fora, comprado fora. Antigamente as frutas vinham do campo, as hortaliças da horta, as roupas eram feitas à mão, os animais mortos em casa. Até os edifícios são agora pré-fabricados, construídos em blocos tipo lego. É assustador.

Para além do processo de aquisição ser mais rápido, também diminui o tempo que desfrutamos as coisas. Já não saboreamos a comida: engolimo-la; já não guardamos as roupas para os nossos filhos: elas estragam-se tão rápido que as deitamos fora. E eu sei que sou a excepção, sei que sou – como sempre – a anormal aqui da parada. Mas eu dou valor ao tempo que passo a fazer as coisas e acho que é esse tempo que as faz boas, mais bonitas, com mais significado. O tempo que eu passo na cozinha – ou o tempo que eu vejo que a minha mãe passa na cozinha quando me faz cabrito assado, por exemplo – faz com que o prato seja mais saboroso; faz com que eu tenha a preocupação de o provar, de o saborear com cuidado. E, acima de tudo, faz com que goste mais dela: porque em vez de ser como aos outros e encomendar o cabrito num sítio qualquer, passou horas a fio na cozinha para fazer o meu prato favorito.

Para mim, cozinhar é uma forma de amar, de dizer que me preocupo o suficiente com os outros para lhes dar um bocadinho do meu tempo. E é impensável para mim ir a uma festa sem levar um bolo – e ainda mais indispensável que, no aniversário de alguém que me é importante, não haja algo com a minha assinatura em cima da mesa. Pode ter sido feito há dois dias atrás, de madrugada ou acabado de sair do forno… mas está. E sei que isso não é regra, mas não deixa de ser estranho para mim que as pessoas pensem de forma diferente.

19
Dez17

A praga dos jantares de Natal (ou a desilusão com os britânicos)

Carolina

No último fim-de-semana estive duas noites em Inglaterra, onde fui buscar um dos meus sobrinhos para vir passar o Natal connosco. Já lá tinha ido uma vez em Novembro, mas nunca tão perto do Natal, o que me permitiu chegar a uma conclusão: se acham que marcar uma mesa em Portugal por esta altura do ano é um filme, nem vos passa o que acontece em Inglaterra. Eles são maluquinhos por jantares de grupo natalícios!

Não estou a gozar quando digo que achei mesmo que não ia conseguir jantar. Éramos quatro e fomos entrando em todos os restaurantes que vimos à procura de mesa. Um. Dois. Três. Quatro. Nada. “Fully booked, I’m sorry”. Estava tudo a abarrotar pelas costuras e eu a ver que iamos acabar no Domino’s para ir buscar uma pizza e comer no hotel. Por sorte, acabamos por entrar num restaurante italiano que tinha uma mesinha onde nos conseguimos encaixar, engolindo algo o mais rapidamente possível, para fugir daquele barulho infernal mal pudemos.

Porque para além de cheios de gente e cheios de barulho, os restaurantes estão cheios visualmente. Eles vestem-se a rigor! E não falo só daqueles corninhos de renas que nós pomos por brincadeira ou daqueles óculos com uns pais-natal: são mesmo fatiotas, de alto a baixo, com direitinho a sapatinho de vela vermelho e tudo. Fatos de Pai Natal, tuxedos pintados nataliciamente, camisolas de malha com desenhos de pinheirinhos, flocos e bonecos de neve, gingerbreads, bengalinhas e tudo o que mais têm direito... Isto para não falar das coroas de papel que toda a gente usa, por saírem sempre em forma de brinde nos típicos crackers - que, para quem não conhece, são uns “rebuçados” feitos em papel com uns brindes lá dentro, que fazem “crack” quando se abrem. Enfim, uma festa!

Isto para não falar dos bêbados. O meu quarto de hotel ficava no sexto andar e às tantas da manhã eu ainda ouvia gritos, risos e garrafas a cair no chão - cujos vestígios, partidos em mil pedacinhos, ainda se notavam bem na manhã seguinte. Já me tinha apercebido disto, mas a cultura de cair-para-o-lado-de-tanto-beber ainda está mais implementada lá do que cá, o que é absolutamente decrépito. No restaurante onde ficamos, um rapaz caiu para o lado em cima da mesa e um dos amigos puxou-o de tal forma que ele varreu os pratos e os copos cheios de cerveja para o chão, qual cenário de filme. A melhor parte? Deixaram-no ficar ali, caído, enquanto foram fazer qualquer coisa - nem um ficou lá! - e, quando voltaram, passaram por cima dos vidros, da cerveja e das pizzas como se um tapete de pétalas de rosa se tratasse.

E eu adoro Inglaterra, sempre disse que se um dia tivesse de emigrar era para lá que iria e, confesso, durante alguns anos o meu homem idílico era um rapaz com british accent - lembram-se daquela velha máxima "don't worry if you're single, God is saving you for a British boy"? - mas, de cada vez que lá ponho os pés, sinto-me mais distante daquele estilo de vida. Adoro as cidades (isto que vos conto foi em Bristol, a sul de Londres) mas a forma de estar de quem lá vive não coincide com a minha - ou, pelo menos, com aquilo que pensava dos ingleses. Talvez fosse uma ideia irrealista. Talvez seja eu que estou mais intransigente a cada dia que passa. Ou então talvez seja apenas a época natalícia a dar com toda a gente em doida. Tudo é relativo: até a praga dos jantares de Natal, para os quais nunca mais vou olhar da mesma forma depois desta experiência. Aqui em Portugal somos uns autênticos meninos.

10
Dez17

Os filmes podem ser chatos, mas são uma cópia da vida

Carolina

Desde muito cedo que me recordo do meu pai de máquina na mão, a tirar fotografias ou a filmar todos os eventos importantes de família, ajuntamentos, ocasiões engraçadas ou simplesmente momentos do dia-a-dia. Sou uma privilegiada por ter fotografias e vídeos de todas as fases da minha vida - mesmo aquelas em que eu não gostava de ser fotografada! Mas de uma forma gradual acabei por ser eu a ficar com a câmara na mão: primeiro porque sempre gostei de fotografar, depois porque tirei um curso e me acho com competências suficientes para tirar boas fotos e porque, tenho de admitir, eu sou muito chata e passo a vida a dizer para o meu pai não tirar fotos com a câmara dele, para tirar com a minha que é melhor, e isto e aquilo - o que acaba, ainda que não propositadamente, por fazer com que a tarefa recaía sobre mim.

Mas, se repararem, eu referi-me sempre a fotos. Eu tiro fotos e adoro tirar fotos. Mas vídeos - outra das coisas que o meu pai fazia imenso - não é a minha praia. Sinto-me capaz de filmar alguma coisa de forma decente, se necessário, mas não é daí que retiro grande prazer. E nem é tanto por filmar, mas mais por depois por ver os filmes; porque a verdade é que eu acho sempre os filmes um tanto ao quanto entediantes - inclusivamente aqueles que eu faço! Acho que quando estamos com uma câmara na mão, e como somos incapazes de prever o futuro, vamos filmando e filmando até termos algo digno de aparecer no nosso filme; algum conteúdo bom, algo que pensemos "isto vai ser giro de ver daqui a uns anos" - mas, nisto, passaram-se minutos. Minutos de pessoas a fazer a mesma coisa, minutos de conversa fiada que não interessa a ninguém, minutos a ver as crianças a descer nos escorregas do parque aquático, minutos a observar o não-sei-quem a dar os primeiros passos, minutos a ver a muda da primeira fralda. E se somarmos todos estes minutos, em todas estas ocasiões... são mesmo muitos minutos. E quando pegamos em cassetes ou CD's antigos para ver, as primeiras filmagens passam-se bem, mas depois quase nunca resistimos em pegar no comando e clicar no forward, à procura de conteúdo que capte a nossa atenção.

E é por ter consciência disso - por perceber que a menos que exista um cuidado imenso da parte de quem filma e posteriormente na edição, os filmes são uma seca - que eu praticamente não faço filmes. Mas nas últimas semanas tenho-me apercebido que faço mal que, apesar da fotografia ser a minha real paixão, eu não devo deixar as filmagens de lado. Porque apesar de ter passado dezenas de horas embrenhada em filmes caseiros, da vida corriqueira da minha família onde muitas vezes nada de especial se passava, reconheço agora que tudo aquilo é um privilégio. Há coisas que as fotografias não captam e que só os filmes passam realisticamente. Os maneirismos, os tiques, o movimento, a forma de sorrir, a forma de sentar ou de cruzar a perna, o movimento das mãos de alguém. E a voz! Ouvir a voz de alguém que já faleceu, quase como se ainda estivessem cá... é quase irreal. Infelizmente os meus avós maternos morreram quando eu era pequena o suficiente para não me recordar e tudo o que eu sei sobre eles, em termos físicos, foi graças aos filmes que vi, muito mais do que as fotografias.

Continuo a achar que ver filmes pode ser entediante, mas cada vez mais percebo que as partes "chatas" destes vídeos são, na verdade, a parte realística da coisa. É a vida a passar, o dia-a-dia. O menino a brincar, a menina a dormir, a senhora a estender a roupa; os aniversários, os natais, as passagens de ano podem ser mais divertidas e bagunçadas que tudo isto, mas os momentos do banho, da sesta, os primeiros passos, as primeiras palavras ou um passeio no jardim não deixam de ser mais importantes. 

Vou passar a filmar mais para que um dia, se algum dos meus sobrinhos (ou eventualmente, ainda que pouco provavelmente, um filho meu) se lembrar de fazer algo parecido com o que eu estou a fazer por estes dias, se possa lembrar das nossas vozes, das nossas maluqueiras, mas também da calmia das nossas vidas.

05
Dez17

Duas considerações sobre a rádio

Carolina

Já há muito tempo que ando para escrever isto, mas nenhuma das ideias é grande e desenvolvida o suficiente para escrever um post indivídual sobre cada uma delas. O tema de ambas é a rádio. Isto porque há muitas coisas na rádio atual que me irritam e outras que eu simplesmente acho curiosas, pelo que me surgem muitas vezes ideias para dissertar sobre este tema. Apesar de estar sempre sintonizada, não sou fiel a nenhuma estação: salto entre a Comercial e a Mega Hits (as principais) e a Cidade e a RFM. Quando só passa publicidade - o pior praga das rádios hoje em dia - ou simplesmente não estou no mood, ligo a pen que tenho com músicas e venho o caminho todo ao som da minha própria banda sonora. Mas enfim, vamos aos dois pontos que hoje quero abordar:

 

1) O conceito de músicas "novas". De cada vez que um locutor da Rádio Comercial anuncia uma música nova eu tenho vontade de mandar um murro eletromagnético, que atravessa o éter, e chega diretamente à bochecha do dito radialista. Isto porque a música nunca - mas nunca! - é nova. Ela pode ser nova na Rádio Comercial, mas não é nova para o resto do mundo. Acho que ainda hoje eles chamam à "Too Good at Goodbyes" a "música nova do Sam Smith". E daqui a um par de meses, quando a "Pray" virar single ou sucesso de vendas - porque tem qualidade para tal - voltará a ser a "música nova do Sam Smith", ainda que já tenha saído num álbum que, na altura, já terá saído há meio ano. Isto não acontece em todas as rádios - na Mega Hits, a rubrica "Lugar às Novas" tem de facto conteúdos inéditos para os meus ouvidos - mas na Comercial é todos os dias. E é irritante. Porque isso não são músicas novas - são os hits do momento!

 

2) Os vídeos. Percebo perfeitamente que hoje em dia as rádios - como tudo, aliás - tenham de estar presentes em todos os meios e redes sociais. É através deles que vejo muitos dos seus conteúdos, quando não os consigo ver em direto. Mas, para mim, a rádio perde a magia quando eu a vejo em vez de só a ouvir. E isto acontece com quase tudo, mas principalmente com a Mixórdia de Temáticas, onde apanho um balde de água fria quando me lembro de ver um vídeo em vez de ouvir o podcast. Adoro o Ricardo Araújo Pereira mas não seguia esta rubrica com particular atenção: quando ouvia, óptimo; quando não ouvia, também não ia procurar. Mas por vezes aparecia-me o vídeo no feed do facebook ou alguém me mandava por achar que eu ia gostar e o meu pensamento é sempre o mesmo: parte da magia da rádio desaparece. Isto porque vejo que ele está a ler - assim como todos os outros, em participações que parecem naturais e espontâneas quando se ouve na rádio - e que tudo aquilo, afinal, é mais do que pensado. E é lógico que eu sei disso, sei que tudo aquilo é escrito ao pormenor para ter piada, mas quando uma pessoa está no carro, concentrada no trânsito e a ouvir aquelas histórias como pano de fundo, descentra-se da irrealidade de tudo aquilo. E é aí que está a magia e é essa a receita do sucesso: tudo parecer tão natural que tem mesmo muita piada. Não sei se há mais pessoas como eu mas esta é a razão pela qual eu, de uma forma geral, evito ver os vídeos daquilo que se passa por detrás dos microfones e prefiro usar a minha imaginação (ou capacidade de abstração) enquanto ouço o que se passa do outro lado. Até porque, como quase sempre, as imagens que criamos na nossa cabeça são normalmente muito melhores que a realidade.

04
Dez17

Eu julgo as pessoas pelos seus carrinhos de compras

Carolina

Julgar é feio, eu sei. Mas, na verdade, isto não se trata bem de um julgamento: é mais um conjunto de ideias, características e histórias que eu obtenho através daquilo que as pessoas levam nos seus carrinhos de compras e pela forma como agem quando estão numa fila de supermercado - e, em minha defesa, posso também dizer que faço o exercício inverso. Ou seja, penso muitas vezes "o quê que as pessoas pensariam de mim perante os produtos que tenho aqui em cima do tapete?"

Isto depende muitos dos dias, do meu estado de humor, da má-língua e até do tipo de compras. Sobre aquelas pessoas que compram poucas coisas - muitas vezes aquisições de última hora ou os ingredientes para o jantar - eu tento adivinhar quais os pratos que vão sair dali; em compras mais substanciais, tento mesmo decifrar o estilo de pessoa, passando primeiro pelos produtos e depois para uma avaliação superficial do próprio indivíduo. Vejamos algumas das categorias que costumo encontrar:

- Os saudáveis (onde se incluem também as fit, que não são necessariamente saudáveis, mas pelo menos parecem): o carrinho está frequentemente recheado de proteínas, carnes brancas, skyrs, óleo de coco, aveia e coisas assim; esta é talvez a tipologia mais rara.

- Os "não-saudáveis": estas não são, necessariamente, as que trazem mais gordices no carrinho, mas sim aquelas pessoas que às vezes têm filhos e lhes levam pacotes de todos os cereais possíveis - estrelitas, chocapic, kellogs com frutos vermelhos -, iogurtes gregos de caramelo, bolachinhas dos crocodilos, rissóis e pizzas congeladas. Dou sempre por mim a pensar "será que esta senhora sabe a quantidade de açúcar que está naqueles cereais?" e na falta de clareza que há neste sentido, não sendo este um julgamento necessariamente pejorativo (no sentido de pessoas gordas, por exemplo) mas sim de alguma desinformação.

- Os gulosos: estes, ao contrário dos não-saudáveis, sabem bem o que levam no carrinho - e que, no caso das mulheres, se vai transferir diretamente para as ancas e, no caso dos homens, para a barriguinha. Chocolates, gomas, sugos, gelados. Tudo uma maravilha... mas não há bela sem senão, e nós sabemos disso.

- Os caça-promoções exagerados: detetam-se à distância através dos carrinhos estilo monopólio - só levam um tipo de produto em quantidades abismais e ridículas, que só um exército é que é capaz de deitar abaixo durante um mês inteiro, seguido, e sem pausas. Mas estava em promoção, por isso vale a pena.

- Os cupõezaólicos: este tipo de pessoa não se vê bem pelo conteúdo do carrinho - a menos que sejamos, também nós, cupõezaólicos e saibamos que tudo o que está ali é patente de uma promoção - mas sim pelos dezassete minutos que as pessoas demoram a ir buscar os cupões, a procurar os cupões, a ler os cupões, a entregar os cupões, a guardar os restantes cupões. Enfim. Cupões e cupões e cupões.

- Os esperançosos: bastante comum no dia dos namorados - uma rosa, morangos e preservativos. É fácil tirar-lhes a pinta.

- Os desorganizados: isto não tem que ver com o conteúdo do carrinho, mas sim com a forma como as coisas estão arrumadas. Estas pessoas chumbaram na disciplina do tetris e estão matam um obsessivo-compulsivo de cada vez que atiram impiedosamente mais um item para dentro do carrinho, não respeitando a regra do mais-pesado-por-baixo e outras coisas que tais;

- Os jovens pré-ressaca: o vodka mais barato da secção, copinhos de plástico e nada para comer, que é para o álcool bater o mais rapidamente possível e eles nem se lembrarem que aquela noite existiu;

 

No fim disto tudo, e fazendo uma avaliação global da minha pessoa, gosto de pensar que sou uma boa mistura entre o saudável e o guloso. Ou então sou simplesmente aquela pessoa que vai só buscar pão e que mal põem o pé fora do supermercado já está com uma bucha na boca, o que me abre toda uma nova categoria: a esfomeada. Assenta-me que nem uma luva.

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