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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

31
Mai20

Uma questão de prioridade(s) - e, já agora, respeito

Neste momento apetece-me bater à porta de todos os otimistas (ou deverei dizer ingénuos) que achavam que esta história da pandemia vinha mudar a humanidade. Alguma coisa como: "Truz, truz! O desconfinamento já vos fez acordar para a vida?".

Solidariedade como vimos nestes tempos difíceis é típica nos portugueses: sempre nos socorremos uns aos outros nestes momentos. Mas isso não quer dizer que mudamos; não quer dizer que deixamos de fazer comentários parvos, insolentes, racistas e ofensivos nos comentários das notícias no facebook; não quer dizer que deixamos de nos insultar no trânsito; não quer dizer que daqui em diante o nosso comportamento para com profissionais de saúde e outras pessoas que se arriscam diariamente em prol dos outros seja diferente. O esquecimento faz parte da condição humana - se assim não fosse não tínhamos a capacidade de perdoar e andar para a frente com as nossas vidas, as mulheres não teriam filhos novamente se se recordassem a cada instante das contrações na hora do parto e provavelmente também não voltariam à esteticista se aquele momento em que a banda de cera se descola da pele estivesse bem vivo nas suas memórias. Acredito que há muita coisa nas nossas vidas que vai mudar graças ao aparecimento deste vírus - mas tratam-se de hábitos, não de características pessoais. Essas continuam as mesmas - e com traços típicos do egoísmo humano e da falta de sensibilidade para com o próximo. 

Eu, que não "confinei" por força do meu trabalho, nunca cheguei a ver o mundo pela janela e em modo arco-íris. Mas à medida que as coisas vão voltando à normalidade e que somos obrigados a interagir novamente com mais pessoas no nosso dia-a-dia, e embora nunca tenha acreditado numa mudança nas pessoas, vou-me agora relembrando da massa de que são feitas.

Há dias fui à última da hora ao supermercado, comprar meia-dúzia de coisas que estavam em falta para o jantar - cabia tudo num saquinho de pano que levava ao ombro. Era hora de saída de trabalho, o espaço estava cheio e as filas iam crescendo pelos corredores - de tal forma que abriram três caixas durante o tempo de espera em que lá estive. Fui uma das pessoas que se moveram para uma nova caixa quando o anúncio se ouviu nos altifalantes; a caixa em questão tinha lá pousadas algumas garrafas de vinho, deixadas por um casal de idade que, pelo peso das bebidas e pela sua parca condição física, pediu a um funcionário para as lá deixar. Voltaram pouco depois da caixa abrir, com tantas coisas como as que eu tinha no saco - poucas, portanto. Ambos entre os 70 e os 80 (sendo que a idade não tinha sido branda com nenhum deles), andando com o auxílio de bengalas e claramente perturbados por toda esta logística das máscaras e distanciamentos, tomei a liberdade de os deixar passar à minha frente.

Apesar da distância de segurança consegui ouvir bufar o senhor que se encontrava atrás de mim. E ao meu lado, na fila paralela, um senhor de carrinho cheio ainda me disse: "a fila prioritária é esta onde estou, não essa", apontando para a plaquinha indicativa, sofrendo claramente por um problema que não era o dele. O que respondi não vem ao caso, pois as ações falam por si e o casal já estava a pagar a conta. Mas isto lembra-nos (mesmo a mim, que sempre achei que estes meses fechados em casa não iriam mudar ninguém para melhor) da necessidade de colocar cartazes à porta de todos os espaços públicos, aquando do pico da pandemia, listando todos aqueles que têm prioridade; recorda-nos o porquê de ter de legislar, pedir, obrigar e punir ações que aparentemente seriam de bom senso.

Acredito que estas mesmas pessoas - as que bufam, as que reclamam, as que fazem caras de desagrado tão óbvias que se notam apesar das máscaras - são também aquelas que, neste momento, se insurgem contra as ações racistas daqueles polícias americanos e que colocam posts no facebook apregoando que as "black lives matter". Acho que muita gente não percebe que, atrás das lutas contra o racismo, a xenofobia, a homofobia (entre outros), está uma coisa tão simples como o respeito para com o próximo. Em não olharmos só para os nossos umbigos. E antes de tentarmos lutar pelo que quer que seja, convém que sejamos os primeiros a agir quando as ocasiões nos aparecem à frente - seja em relação a pessoas de outra raça ou simplesmente alguém que precisa de ajuda. A mudança começa em cada um de nós - mais do que gritar no meio da rua com cartazes ou pondo imagens bonitas nas redes sociais.

24
Mar20

O desabafo de uma não-heroína

Hoje acordei a pensar em como gostava de ter um supermercado ou um salão de unhas de gel. No primeiro caso, dentro deste cenário meio apocalíptico em que vivemos, era minha obrigação continuar a trabalhar; no segundo, era obrigada a fechar. Tudo isto por indicações superiores, lavando as minhas mãos de culpas futuras que vão - garanto - cair sobre todos dentro de pouco tempo.

No meio disto tudo, não somos todos heróis. Eu não fico em casa. Mas eu também não sou médica, não sou operadora de caixa, não sou polícia, não faço parte da proteção civil, não sou bombeira, não sou padeira, não sou talhante, não sou peixeira, não sou enfermeira, não limpo hospitais, não sou condutora de autocarros e não desinfeto espaços públicos. Sou, como se dizia antigamente, "industrial". E os industriais - e todos os operários que trabalham nessa mesma indústria - caem num limbo problemático no meio deste caos todo. Têm nas suas costas, segundo o primeiro-ministro, o dever de fazer com que o país não pare; mas têm na sua consciência, ouvindo todos os outros que dizem ser extremamente necessário o recolher obrigatório para conter a propagação deste vírus, e tendo a plena noção de que sendo a indústria uma coisa pouco apta para o teletrabalho, que se estão a pôr a eles, às suas famílias e os seus funcionários em risco (ainda que relativo) para que tudo continue a andar. Devemos proporcionar-lhes todas as condições de higiene necessárias, diz o ministro. Se eles as tomam ou não, já não é minha responsabilidade.

Mas são as minhas costas que me doem. É o meu sistema nervoso. São as mãos que me tremem e a pálpebra que teima em não parar quieta. É o sono que não me dá descanso. É o peso da responsabilidade que é posta em cima de mim: porque por um lado tenho o dever de fazer a economia andar (e felizmente tenho encomendas para satisfazer, compromissos para manter), mas por outro tenho o dever cívico de proteger os meus (família, amigos e funcionários). E neste caso não posso lavar as mãos desta responsabilidade: os decretos não dizem se devo continuar ou parar de laborar. Há um buraco na lei, como quem diz: "decide tu".

Tenho de decidir se quero deixar de honrar os meus compromissos e deixar na mão os meus clientes fiéis, que se assim for provavelmente não voltarão a colocar encomendas depois de tudo isto passar, levando-me à falência. Tenho de decidir se me quero pôr em risco, a mim e aos meus, aos meus funcionários e às famílias deles, em prol de continuar a ter dinheiro para lhes pagar o salário ao fim do mês. Tenho de decidir se quero endividar a minha empresa, com uma taxa de juro baixa mas que mesmo assim vai dar lucro aos bancos, de forma a tentar salva-la no futuro - sem saber se, mesmo assim, continuarei à tona da água. Tenho de decidir se sou forte o suficiente para ouvir opiniões contrárias - de quem, curiosamente, não tem este peso em cima dos ombros. 

Eu não sou heroína de nada - porque ninguém decide por mim. Mas gostava. Porque medo todos temos. O peso da responsabilidade é que não.

26
Fev20

Clubismo e racionalidade: um duo impossível?

Pela primeira vez na minha vida dei por mim a torcer pela equipa contrária. 

Sou portista desde que me conheço. A minha avó fez-me sócia quando ainda não tinha 10 anos e assim me mantenho até hoje - porque sempre gostei de futebol, porque gosto de pensar que estou a continuar algo que foi ela que começou, porque me dá descontos em algumas coisas. Mas, acima de tudo, porque sou muito portista. Já fui muito, muito, muito, muito portista. Hoje sou só muito. E a culpa não é dos campeonatos que não ganhámos ou das desilusões que apanho de cada vez que piso o estádio (acredito que carrego uma sina e que o meu clube perde quando lá vou); acho que cresci, simplesmente. E relativizei.

Penso que já aqui o disse, mas volto a repetir: eu consegui atingir o estágio ideal no que ao futebol diz respeito. Fico muito feliz quando o Porto ganha... mas não me ralo quando perde. (E continuo mega feliz quando o Benfica perde - isso manteve-se). Mas fiquei admirada quando, pela primeira vez em muitos anos, me senti mesmo chateada à custa de um jogo de futebol. E não foi por perder - foi por ganhar. (Se eu algum dia pensei que ia escrever isto!).

Fui ao Dragão assistir ao FCPorto - Portimonense. É facil resumir o jogo: o FCP passou hora e meia a passear pelo campo e, muito de vez em quando, alguns jogadores decidiam fazer pequenos percursos a passo acelerado; já o Portimonense, embora sem grandes chances de golo, manteve-se firme, com garra e vontade, nunca desistindo. Roubando bolas, interrompendo passes, formando uma barreira que, naquele dia, foi praticamente intransponível pela equipa da casa.

E eu passei-me. Fiquei furiosa por ver aqueles jogadores, que ganham milhões - com a minha contribuição, já que sou sócia -, a fazer praticamente nada para ganhar o jogo. Um jogo que, só por acaso, os podia colocar em primeiro lugar. Quando tinham milhares de pessoas a puxar por eles, mesmo quando não o mereciam. (Enquanto lá estava ainda tive tempo para me irritar com o comportamento coletivo que o público tem para com os jogadores quando estes fazem alguma coisa bem - como um bom passe ou um rematezinho à baliza - como se isso não fosse a obrigação deles! Recordei-me de algo que muitos de nós já passamos, enquanto miúdos, quando mostrávamos uma boa nota aos nossos pais e eles nos respondiam que não fazíamos mais do que devíamos. E ali é igual.) Foi de tal modo que dei por mim a torcer para que não marcassem golo, enquanto à minha volta meio mundo praguejava e insultava quem estava em campo, já em desespero de causa por ver o desafio empatado a zero.

Foi o jogo todo naquilo, até que sai um golaço dos pés de um jogador. E aí o FCP passou, para os adeptos, de besta a bestial. Os insultos e a indignação ficaram para trás daqueles 87 minutos. São como crianças em plena birra: para os calar basta dar-lhes aquilo que mais querem e tudo passa. Ficam mansinhos. Já não praguejam - a não ser com o árbitro -, não insultam ou gritam. Porque naquele momento já estava tudo bem. 

E eu ainda mais chateada fiquei. Nem festejei o golo. Fiquei triste que um golpe de sorte tenha dado a vitória a um clube que não a mereceu - mesmo que esse clube seja o meu. E nesse momento parei. Fiquei abismada. A minha racionalidade estava a colocar-se acima do meu clubismo - que, há uns anos, era acérrimo. 

Revi mentalmente o jogo e percebi que a minha irritação e frustração se foram construindo por tudo o que se passava tanto dentro como fora de campo. Irritou-me que os adeptos festejassem loucamente quando o árbitro decidia a favor da sua equipa, não se preocupando sequer se a decisão era a correta; irritou-me a bipolaridade de comportamentos pré e pós golo. E, acima de tudo, chateou-me a falta de luta e de vontade de uma série de jogadores que recebem rios de dinheiro - e que enfrentavam outros que ganham incomparávelmente menos, que estão numa posição altamente desfavorável (tanto no local como na tabela classificativa), e que claramente lutaram com todas as forças que tinham. 

Fui descarregando a minha frustração para cima do meu namorado assim que saímos do estádio. Ele dizia: "mas o Porto ganhou, é isso que importa". E, apesar do meu coração ser azul e branco, na minha cabeça registou-se o pensamento: "é mesmo isso que importa?".

Pelos vistos não é só em matéria de amor que o coração e o cérebro entram em conflito. O futebol dividiu-me a meio. Não sei se sou mais coração ou mais cabeça. Não sei se sou mais paixão ou racionalidade.

Sei que sou Porto, de alma e coração. Só não sei onde é que o cérebro entra nesta equação.

 

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01
Out19

(Tentar) Mudar o mundo com post-its

Sou uma post-it addicted. O meu escritório é neste momento um caos organizado, pintalgado a cores com mensagens que só eu poderei entender como "colmeia alargada", "produzir", "preteridos" ou "materiais out". Aqueles papéis coloridos são a minha forma de organização nesta fase deveras confusa do meu trabalho, em que vejo mais de uma centena de malhas por dia e tento decidir o que fazer, como fazer, quando fazer e onde integrar cada pedaço de pano de uma forma lógica, para mais tarde os poder vender. 

Uso-os também para deixar mensagens e lembretes, tanto lá em casa como no trabalho. Ah, e são essenciais em tudo o que são transições! Quando sobra muito trabalho de um dia para o outro, espeto com post-its em tudo quanto é lado. Ainda pior se for fim-de-semana - sabe-se lá a quantidade de coisas que se esquecem em dois dias de pausa! É a forma de me manter organizada, de não esquecer tarefas e de perceber aquilo que fiz anteriormente; no meio de tantos montes e montinhos que agora crio para segmentar as malhas, chega uma certa altura em que já não sei porquê que separei isto daquilo, ou o que representava o conjunto de folhas que pus a um canto. Por isso: post-its, sempre!

E este hábito já se enraizou de tal forma que muitas vezes dou por mim a pensar "devia andar com post-its na carteira"! Confesso que isto ocorre-me frequentemente quando estou a sair de minha casa, num cruzamento junto a um ATL que lá existe. Nas horas de ponta é um pandemónio, com todos os pais e mães a deixarem os seus filhos praticamente à porta, abandonando os seus veículos nos lugares mais à mão - desprezando completamente o bom funcionamento do trânsito, que a essas horas já é mau só por si. Ele é carros em cima do passeio (que impedem a visão dos condutores que surgem na via perpendicular), carros com quatro piscas em cima da passadeira. E, como uma vez escrevi, não há desculpas para isto. Estaciona-se mais longe, caminha-se mais - mas evita-se que a vida dos outros saia perturbada pelas nossas próprias rotinas e pressas.

A mim apetece-me pegar nos meus papéizinhos e deixar notas.

 

"Se tivesse um filho de cadeira de rodas, não deixaria o carro em cima do passeio".

"Se um dia o seu filho for atropelado por um condutor que não conseguiu ver a passadeira por causa de um carro tão mal estacionado como o seu, gostava ver como reagia".

"Gostava de ser mosca para o ver indignado para com os carros que estão estacionados em cima das passadeiras que o seu filho um dia irá atravessar".

 

Ideias não me faltam. Vontade também não. Mas relativamente à coragem.... não posso dizer o mesmo. Sinto que as reações das pessoas cada vez mais se agudizam e, mesmo não estando a insultar ninguém e sendo uma clara chamada de atenção, tenho medo de represálias. Ainda assim, acho mesmo que os posts-its - estes em particular - podiam ajudar a mudar o mundo. Ou pelo menos pôr as pessoas a pensar nas suas próprias ações, principalmente na estrada.

 

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(há carros que, de tantas asneiras cometidas pelo seu condutor, já estariam pejados de papéis caso toda a gente tivesse as mesmas intenções que eu...)

26
Set19

Eu quero viver fora da gaiola dourada

Desde que vi Narcos que gosto muito de ver documentários sobre narcotraficantes, as suas vidas e as inúmeras peripécias que passam (e que fazem os outros passar) para levar o negócio avante. Não faltam filmes e séries sobre o assunto - e como a televisão está quase sempre ligada no National Geographic ou no Odisseia, não é difícil ir deitando o olho em temas como este.

No outro dia estava a ver um documentário sobre o El Chapo e as suas inúmeras fugas. A certa altura mostram a casa segura em que ele vivia - um autêntico cubículo, com pouco mais do que aquilo que é necessário para viver (uma cama, mesa e cadeiras de plástico, uma mini-televisão) - e eu pensei: "para que raio é que um homem se preocupa em fazer milhões, ainda por cima ilicitamente, se depois tem de viver nestas condições?".

Para mim o dinheiro só faz sentido quando é para ser gasto - principalmente em coisas que nos fazem felizes. De que serve uma carteira recheada se estamos presos, se não somos livres dentro da nossa própria vida?

Poucos dias depois de ver o documentário, cruzei-me com um jogador do Porto num restaurante - a comer sozinho, com os auriculares nos ouvidos enquanto ouvia o resumo de uma partida qualquer de futebol. Só abriu a boca para fazer os pedidos. Tinha uma aliança no dedo - sinal de uma família dividida, que não vive com ele, e cujo fuso horário não ajuda à convivência. Nem um sorriso durante aquele par de horas. E eu voltei a perguntar-me: "para que servem aqueles milhões que eles ganham, a fama, os nomes nos jornais e as camisolas estampadas nas montras das lojas de desporto se depois vivem assim?". Ricos mas isolados do mundo.

Não é que isto seja uma coisa nova. Penso muitas vezes nesta questão de cada vez que vou a um popular restaurante, sempre a arrebentar pelas costuras, e vejo lá o patrão, a correr de um lado para o outro. "Isto é uma mina de ouro", comentamos. E deve ser. Mas muitas vezes não nos lembramos que as minas são, precisamente, locais fechados, onde nos encontramos encurralados e sem grande folga para respirar. Aquele homem pode ser alguém com os bolsos cheios, mas que trabalha de manhã à noite, com apenas uma folga semanal e com 15 dias de férias por ano. De que serve tanto dinheiro se não se pode ir jantar fora com a família - ou, tão simplesmente, jantar em casa com eles, sem o stress do trabalho? Se não se pode ir de férias a não ser na época mais popular do ano? Se nas datas especiais também tiveres de trabalhar? Para mim, serve de pouco.

O meu pai sempre me disse que, no que diz respeito ao trabalho (e mais propriamente aos negócios), o mais difícil é encontrar um equilíbrio. A gestão entre aquilo que ganhamos e a forma como usufruímos é muito, muito complicada. A quantidade de dinheiro que obtemos é normalmente proporcional ao trabalho que temos (e às responsabilidades que somos obrigados a acatar); chega uma altura em que o dinheiro é muito - até porque o tempo é tão pouco que as notas se vão acumulando, por falta de oportunidade para as gastar. Mas e usufruir? Qual é a razão principal para a qual trabalhamos? 

Costumo dizer que este tipo de vidas estão enjauladas numa gaiola dourada. É tudo muito bonito, tudo pintado a ouro: mas as pessoas não deixam de estar por detrás das grades, presas dentro das suas próprias vidas, trabalhos e decisões. E se há coisa que eu sei é que não quero isso para mim.

Quero muito o sucesso da minha empresa. Aliás, luto e anseio pelo meu próprio sucesso - e, admito-o sem problemas, gosto muito de ter dinheiro na carteira e de não ter preocupações de maior. Mas espero perceber quando (e se), um dia, passar por esta ténue linha. Entender que já não estou a lutar para uma melhor qualidade de vida mas, pelo contrário, a pôr um pé na minha própria prisão. Porque nem tudo o que é pintado a ouro é bom. E porque uma vida livre e desafogada pode valer mais do que muitos milhões juntos.

25
Ago19

Pensamentos de uma lista-holic

A linha que separa uma pessoa organizada de um comportamento obsessivo-compulsivo

Mais um ano, mais um campismo de família. Desta vez foi por um triz que se realizou – confesso que a vontade era pouca, muito provocada pela fraca adesão da família durante este ano. Mas cá estamos, desta vez em Vila Praia de Âncora.

O campismo é muito divertido mas implica uma logística um tanto ao quanto complicada. Há uma grande desvantagem neste tipo de férias: independentemente do número de pessoas que venham, a mala do carro vem sempre cheia. É tenda, mesa, cadeiras, colchões, sacos-cama, lancheira, camping-gas, coisas para lavar a loiça... tanta coisa que o risco de nos esquecermos de algo é muito elevado.

Cresci com um pai extremamente organizado, que antes de qualquer viagem me aparecia no quarto com uma lista, dentro de uma pequena mica, que passava a ditar em voz alta: “cuecas, meias, cartão de cidadão, dinheiro, máquina fotográfica, pasta dos dentes (...)”. Eu ia anuindo com a cabeça ou, pelo contrário, apontando o que faltava.

Passaram alguns anos e o bicho da organização passou a morar em mim. E, como diz o ditado, a necessidade aguça o engenho: a verdade é que a lista do meu pai, apesar de muito completa, é dirigida a homens (tinha falta de coisas tipicamente femininas, como artigos de higiene ou roupas que só mulheres usam) e só contemplava objetos para viagens normais. O campismo exige todo um outro nível de planeamento. Por isso fiz-me ao piso e desenvolvi a minha própria lista – uma folha A4, dividida por categorias (objetos de campismo, roupas, comidas, higiene, eletrónicos e outros), para que nada faltasse. Sinto-me, honestamente, muito orgulhosa do meu feito!

Por isso, por achar que as listas têm uma beleza própria e por achar piada ao meu próprio sentido de organização, partilhei há dias uma imagem da minha lista no instagram. Recebi várias mensagens com emojis a chorar a rir e outras tantas, mais direta ou indiretamente, a dizer que eu era maluca. E eu fiquei a pensar naquilo.

O que distingue uma pessoa organizada de outra com um transtorno obsessivo compulsivo? Sim, eu sou organizada; sim, dá-me prazer ver tudo organizado por categorias, enfiado em compartimentos próprios. Gosto que as coisas tenham sítios para estar, adoro saber onde posso encontrar tudo. Não gosto de caos. Não gosto que faltem coisas que sinto que vou precisar – daí a necessidade de uma lista vasta neste tipo de férias.

A questão é que não me dá um chilique ou calores quando as coisas estão fora do sítio. Não fico stressada se vir que me faltou alguma coisa. Sei lidar tranquilamente com isso. E penso que é essa a linha que separa uma coisa da outra: não só a forma como fazemos as coisas, mas acima de tudo como reagimos às contrariedades, ao oposto daquilo que gostamos e desejamos.

Sou uma orgulhosa lista-holic, gabo-me da minha organização. Para os que acham o contrário, também dou bem por maluca. Uma maluca organizada, se faz favor.

 

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24
Mai19

Empresária wannabe: quando lidar com os outros é o nosso calcanhar de Aquiles

De todas as coisas que me assustavam na ideia de trabalhar na fábrica - eram, e ainda são, muitas - a maior delas era a relação com os meus funcionários. Tinha muito medo da reação deles perante a direção de uma mulher, muito jovem, com idade para ser filha e até neta de alguns deles. Nos primeiros tempos comparei a minha relação com eles como os humanos têm com os ratos: eu tinha medo deles, mas na verdade eram eles que praticamente fugiam de mim.

Agora que já fiz daquilo a minha segunda casa esse sentimento já se diluiu; eles habituaram-se à minha presença, ao meu olhar curioso, um bocadinho inquisitivo e a puxar pelo sentido crítico, e eu à forma de estar e de trabalhar deles. Mas a gestão de recursos humanos continua a ser (e acho que será sempre) o meu ponto crítico à frente das empresas. Tão simplesmente porque implica lidar com pessoas - e aquilo que elas são e não são, fazem e não fazem, dizem ser e fazer, o que querem mostrar e o que não querem dizer, o que sentem e não querem transparecer - e com uma série de preconceitos que vêm de há muitos anos relativamente aos patrões e seus empregados. Há um gap grande entre nós e não fui eu que o criei - ele já estava lá. E a verdade é que por muito que tente, não consigo mudar as coisas; estou a lutar contra a maré.

Agora em época de eleições sinto isso mais do que nunca. Fico arrepiada de cada vez que ouço o PCP a dizer que os patrões isto, os patrões aquilo, e que todos os "camaradas" são explorados por quem os chefia. Não me identifico minimamente com esta relação de amor-ódio entre patrões e funcionários que ainda hoje se respira em muitos sítios, em particular nos locais mais tradicionais - e irrita-me muito que ainda hoje se alimente este tipo de sentimentos, nomeadamente para arrecadar votos. O objetivo final de tudo isto é que todos tenhamos uma vida digna e boa, dentro das limitações de cada um - e esquecemo-nos de que nunca seremos felizes se odiarmos todos os dias a pessoa que nos paga ao fim do mês ou, no caso contrário, as pessoas que permitem que o nosso negócio funcione. Eu desligo a rádio ou mudo de canal de cada vez que ouço este discurso, mas preocupa-me que os outros não façam o mesmo. O 25 de Abril foi há 40 anos, as diferenças e dicotomias da altura não são as de agora - parem de as eternizar!

Eu sei que preciso tanto dos meus funcionários quanto eles de mim, e preferia que estivéssemos taco a taco, com respeito mútuo, em vez do pedestal em que os patrões tantas vezes se colocam e que tanta revolta traz aos seus empregados. Mas eu tenho 24 anos, tenho esperança nestas coisas que muitos dizem ser utopias. Ouço, com alguma preocupação, as vozes da experiência: "eles comem-te viva", "vão fazer de ti o que querem", "não podes deixar" e sou consecutivamente arrastada para aquele velho paradigma, o amor-ódio de que me queria distanciar. Tento arranjar um meio termo.

E para isso foi importante para mim ter trabalhado por conta de outrem antes de ter começado esta aventura. Senti na pele as dores de quem é mandado; de ser repreendida sem ter culpa e de não ser recompensada por fazer algo de bom; de não me sentir bem liderada, de pensar que as coisas deviam ser feitas de outra forma mas não ter o poder de mudar isso. No fundo, essa experiência tornou-me mais empática; ensinou-me a colocar-me nos calcanhares dos outros - algo que espero nunca esquecer, o que acontece com a maior parte dos líderes, que se tornam impermeáveis as emoções e vidas de quem corre à sua frente.

Mas nunca sei até que ponto posso ir. Até onde posso acreditar. Até que ponto posso perdoar. Não posso ser naive e achar que é tudo um mar de rosas e que toda a gente vai ser sincera, honesta e boa pessoa para comigo; estamos a falar de gente marcada pelo passar dos anos, por antigas lideranças e patrões, que só quer levar a água ao seu canteiro. Algumas delas marcadas pela revolução, época rainha nas discrepâncias entre patrões e funcionários. Não posso esperar que, só por eu aparecer, uma esponja se passe pela história e seja tudo pacífico. Nem sequer posso querer que pessoas com o dobro ou o triplo da minha idade percebam ou compreendam a minha visão da vida e dos negócios. Mas também não posso começar de pé em riste, já a prevenir tudo o que de mau pode acontecer. Lá está: o ideal seria o meio termo. Mas como se consegue uma proeza dessas, quando muitas vezes a própria gestão nos exige pouca humanidade?

Para mim, a este nível, a única forma de fazer as coisas é ir lidando com elas no dia-a-dia, antecipar apenas o inevitável. Porque a verdade é que as pessoas são imprevisíveis. Tive a minha prova de fogo quando decidi dispensar alguém, por considerar que essa pessoa já não tinha capacidades físicas para fazer bem o seu trabalho e por me aperceber que tinha outras alternativas melhores para aquele caso. Nem dormia direito ao pensar naquela derradeira conversa. Como é que se consegue ser empático e humano quando vamos despedir alguém - ainda que tenhamos razões para isso e lhes dermos tudo a que têm direito? Como é que esquecemos que aquela pessoa também tem uma vida, contas para pagar, bocas para alimentar? Será que isto de ser patrão obriga a uma permeabilidade dos sentimentos, quase como fazem os médicos em relação à dor e à vida dos outros? Um negócio só consegue ser bem gerido com este tipo de palas ou é exatamente o contrário - serão essas palas que eventualmente nos destroem o negócio?

Como se vê, tenho muito mais perguntas que respostas, muitos mais medos que certezas. A única coisa que sei é que agi, até agora, de bem com a minha consciência. Fiz o melhor que pude, para ambos os lados. E acho que só assim é que faz sentido, até ao fim do caminho. Mesmo que Steve Jobs tenha razão quando diz que "if you want to make everyone happy, don't be a leader - sell ice cream" ("se queres fazer toda a gente feliz, não sejas um líder - vende gelados"). Acho é que quando disse isso, nem ele se lembrou que o vendedor de gelados também tem uma empresa para gerir.

 

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18
Abr19

O flagelo das carteiras que foram feitas para os assaltantes

A maioria das mulheres tem uma pancada com sapatos e carteiras. Eu não. A minha praia são mais os mais casacos.

Os sapatos nunca serão uma grande paixão, uma vez que não tenho um pézinho de Cinderella para os enfiar. Há uns anos, comprar coisas para calçar era, para mim, uma atividade vinda diretamente dos infernos; ultimamente a coisa tem vindo a melhorar e, nos dias em que estou inspirada, até consigo retirar algum prazer em comprar proteções para o meu tão querido "pé de urso". Tenho hoje uma sapateira bem mais recheada - e com coisas giras! - do que aquilo que alguma vez achei possível, desde que me apareceu este problema crónico no pé direito. Ainda assim, está longe de ser aquele tópico divertidíssimo que as mulheres-tipo falam com um brilhozinho nos olhos.

No que diz respeito às malas não acho que valha a pena ter muitas, porque dá demasiado trabalho mudar as tralhas todas de umas carteiras para as outras; juro que admiro aquelas pessoas que escolhem uma mala por dia, para combinar com o outfit! Prefiro mochilas, onde cabe tudo, e sempre em cores neutras, para combinar com qualquer tipo de roupa.

Mas neste meu último aniversário meti na cabeça que queria uma carteira. Uma coisa bonita, mais clássica, para ficar bem naqueles dias de blazer e salto alto, para dar todo um ar de empresária séria (ainda que wannabe). Mas, como criatura esquisita que sou, havia vários requisitos a serem cumpridos: não podia ser transparente (este tópico dava um post - porque raio é que agora existem malas transparentes?!),  tinha de ter possibilidade de ter fita a tiracolo, precisava de ter dimensões suficientes para albergar a minha agenda e caderno de trabalho mas não ser demasiado grande ou pesada, não ser da Parfois e companhia de forma a não encontrar uma mala igual em cada esquina, não custar os olhos da cara e ter fecho zip. Simples, certo?

Nãooooo! A conjugação de todos estes fatores tornou esta missão mais impossível que a do Tom Cruise - e o meu pai pode testemunha-lo, que diz ele que nunca viu tantas malas na vida!

Ou eram feias. Ou caras. Ou feitas com materiais duros e nada confortáveis. Ou eram enormes. Ou autênticas pochetes. Ou pesadas para o tamanho que tinham. E, acima de tudo, 90% delas são pensadas para ladrões, onde basta pôr uma mãozinha discreta para apanhar tudo o que estiver a jeito. Cadê os fechos, gente? Agora as malas só fecham com pequenos ímanes centrais ou cordéis, que tornam o acesso à mala mais fácil do que comprar canábis (que, lembre-se, ainda é ilegal). Para encontrar um fecho éclair é preciso procurar neste mundo e no outro e a probabilidade de os encontrar só em parcelas centrais da mala ou em pequenos bolsos é muito grande. Não há malas com fecho, hoje em dia. Fica tudo ali à mão de semear, restando-nos ter esperança e boa fé no mundo e nas pessoas, esquecendo totalmente de entidades tão diversas como ladrõeszecos e pickpockets.

Portanto, das quatro, uma: 1) ou há falta de cabeças pensantes por detrás do design destas malas; 2) a moda está a sobrepôr-se totalmente à racionalidade; 3) isto é tudo um complô dos fabricantes de malas para sermos mais facilmente assaltados e irmos a correr comprar outra mala supostamente mais segura, alimentando assim o seu próprio negócio; 4) ou então sou eu que sou uma gaja demasiado esquisita e exigente para comprar até uma simples mala. É só escolher! Ainda assim, no dia em que se lembrarem de fazer carteiras giras e seguras, mandem-me email, sim?

 

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(imagem retirada daqui)

Estão a ver? É só pôr ali uma mãozinha jeitosa e discreta e já está, lá se foi o iPhone X!

 

28
Mar19

Existe excesso de método e de organização?

Se falarem com a minha mãe é provável que ela vos diga que eu sou um nadinha desarrumada. Eu diria que tenho dias, até porque não consigo viver com as coisas desalinhadas e fora do sítio durante muito tempo. Mas uma coisa é inegável: eu sou organizada. Adoro ter um sítio para tudo, arranjar soluções lógicas para guardar cada coisa num respetivo local. Tenho montes de caixas, caixinhas, caixotes, sacas, saquinhas, sacolas e tudo o que sirva para compartimentar espaços e deixar tudo no seu devido lugar.

Custa-me um bocadinho admitir isto, mas cá vai: organizar as coisas com método e lógica é algo que me dá prazer. Não só por gostar de saber onde estão os objetos mas também porque gosto de pensar em formas inteligentes de as arrumar. Há só um pequeno senão: por vezes meto-me em empreitadas tão grandes, tão complexas, que é preciso muita força de vontade (que, às vezes, perco) para as terminar, acabando as coisas por ficar em banho-maria durante demasiado tempo. Aliás, basta olhar para os meus objetivos para este ano e perceber que dois dos pontos têm que ver com organização (a elaboração do álbum de vida dos meu avós, que implica scannar e catalogar todas as fotos tiradas ao longo da sua vida, e a própria reorganização das minhas fotos, algo que já comecei e que prevejo que me vá demorar um ano inteiro a concluir). 

Só há uns dias é que percebi que isto de organizar tudo é uma mania já antiga. Relembrei os tempos em que fazia colares, pulseiras e outras bijutarias e cheguei à conclusão que passava mais tempo na minha bancada a organizar as coisas (pôr as peças por cores, colocar etiquetas nas gavetas, fazer uma utilização optimizada do espaço, pôr os diferentes tipos de mosquetões em saquinhos vários, etc.) do que propriamente a conceber peças.

Sabendo disto e pensando que me enfio em projetos que prevejo que demorem um ano a serem concretizados, ontem passou-me uma ideia terrível pela cabeça: será que há um limite para o método e para a organização? Existe isto da "organização em excesso"? Ou seja: organizar tanto que às vezes não compensa o retorno e as vantagens que traz, acabando por ser trabalho, tempo e até material gasto em vão?

Eu, organizadora assumida, gosto de pensar que não. Que a longo prazo, o tempo que poupamos a não procurar as coisas compensa tudo o resto. Mas suponho que dependa das perspetivas e da forma de ser de cada um de nós. Eu acho que já não tenho cura: só a ideia de me livrar das minhas caixinhas e etiquetas me dá suores frios, por isso prefiro perder tempo a organizar tudo, não me vá dar um fanico. Se me der, ao menos morro descansada: quem ficar a arrumar as minhas coisas saberá onde está tudo. Isto dá ou não dá paz a uma pessoa?

 

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10
Mar19

A história por detrás das fotografias

Estou a cumprir com um dos meus objetivos de 2019 e já me lancei à empreitada que vai ser arrumar a minha gigante pasta de fotos digitais - aliás, pastas, no plural. Centenas delas. Se o quiser cumprir vai ter mesmo de ser assim: aos pouquinhos mas com muita frequência e desde do início do ano, que isto não vai ser uma coisa que vá conseguir resolver de um dia para o outro só para fazer "check" na resolução de ano novo.

A primeira fase já está completa: dividir todas as pastas pré-existentes por anos. Agora entrei na segunda, bem mais demorada: esmiuçar pastas macro (coisas como "fotos de iphone"), com milhares de fotos incategorizadas - e tantas outras incategorizáveis - que depositei no meu computador só com o objetivo de reaver espaço no meu telemóvel ou cartões de memória a abarrotar pelas costuras. Este tipo de pastas são o meu pior pesadelo e aquilo que aconselho sempre a que ninguém faça - mas é como diz no ditado, "faz o que eu digo, não faças o que eu faço".

No que aos telemóveis diz respeito esta é mesmo a saída mais comum; já há muitos anos que arquivo com data as fotos tiradas com a máquina, mas os telemóveis com câmara vieram acrescentar todo um nível de complexidade a este campo: porque inicialmente as partilhas das fotos para o computador não eram tão fáceis, porque tiramos fotografias a coisas absolutamente desnecessárias e desinteressantes (muita vezes só com o objetivo de registar algo, coisa que antes fazíamos utilizando o bloco de notas, por exemplo) e porque, por ser um telemóvel e não apenas um dispositivo que tira fotografias, vamos deixando acumular. Já deitei milhares de fotos fora - entre selfies, fotos de livros, de outras coisas que queria comprar, 45789 imagens manhosas dos meus cães e etc. - e já criei pastas para outras tantas que encontrei e que perderia caso não estivesse a fazer esta seleção. A fase seguinte, depois de me desfazer destas pastas monstruosas e de ter tudo dividido por anos, vai ser entrar em cada uma das subpastas e deitar todas as fotos más-repetidas-tremidas-desfocadas para a reciclagem. Mas até lá chegarmos, upa upa - temos muito caminho para percorrer!

A parte boa disto tudo é que tenho apanhado uns tesourinhos que me fazem quase ganhar o dia. Vídeos e fotos que nem sabia que existiam, ora dos meus sobrinhos a cantarem-me os parabéns, ora de colegas de turma a dançarem no balneário, entre outras pérolas. Mas é a mexer em fotos antigas que relembro que há duas fase de Carolina. Quase tipo A.C. e D.C., mas em que o "C.", em vez de Cristo, é o meu nome. Há uma fase clara em que sinto que renasci. Mais: há uma foto que marca esse momento.

Depois de um episódio triste que marcou a minha pré-adolescência, que já relatei há alguns anos aqui, sinto que congelei no tempo. Houve um período de mais de um ano em que passei um borrão e não era eu, era apenas uma fase de transição. Olho para as fotos dessa altura - fáceis de distinguir, porque foi a fase em que estive mais gordinha em de toda a minha vida - e não me reconheço. Honestamente, já quase nem me lembro. Percebo hoje o esforço que fiz para voltar a gostar de mim mesma, depois de me ter deixado engordar daquela forma e sou capaz de entender os sorrisos que fui reavendo com o passar do tempo. Assim se mede a intensidade de um acontecimento: não só pela forma como reagimos na altura em que ele aconteceu, mas também pela maneira (e dificuldade) com que nos reerguemos depois de ele passar. Sei que, para além de mim, mais ninguém consegue ver este tipo de coisas apenas a olhar para uma foto.

Durante as minhas limpezas dei de caras com a foto que durante mais tempo esteve no background do meu telemóvel. Ninguém diria que aquela simples fotografia, onde nem a cara aparece, foi um turning point. Lembro-me bem de a tirar, na casa de banho, com a minha camisola preferida do momento: da Zara, com muito elastano, com riscas transversais brancas e cinzentas. Bem justinha ao corpo. Foi ela que me fez aceitar que já não era a miúda gordinha que tinha sido. Fez também ela parte da minha transição para aquilo que sou hoje. 

É isto que adoro nas fotografias, a capacidade de me fazerem viajar no tempo, de conseguirem ajudar a (re)construir um bocadinho da história de alguém - e principalmente a minha. Relembrar o que fui, o que pensava, onde estava, o porquê de ter tirado aquela fotografia. Como era. Quem era.

Tenho pena que hoje em dia se use tanto a fotografia para manipular os outros: ora para se fingir que se tem a vida perfeita, o dinheiro para comprar uma mala Louis Vuitton, que se vai ao ginásio cinco vezes por semana ou para vender um produto qualquer de maquilhagem. Não quer dizer que essas fotos não tenham histórias por detrás; quer só dizer que não foram tiradas com o propósito certo - e o propósito certo, em muitas ocasiões, é mesmo não ter um propósito.

A fotografia vai muito além da cara cortada, do queixo marcado por algumas espinhas da adolescência e de uma camisola às riscas. É tudo aquilo que não se vê nos pixels, mas que eu sei que é tão ou mais importante do que tudo aquilo que lhes dá cor. É a capacidade de viajarmos no tempo. De voltarmos a calçar os nossos próprios sapatos e pensarmos "afinal é por isto que cheguei aqui". Cada foto é uma história, só que muitas vezes não nos lembramos dela.

 

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