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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

25
Ago19

Pensamentos de uma lista-holic

A linha que separa uma pessoa organizada de um comportamento obsessivo-compulsivo

Mais um ano, mais um campismo de família. Desta vez foi por um triz que se realizou – confesso que a vontade era pouca, muito provocada pela fraca adesão da família durante este ano. Mas cá estamos, desta vez em Vila Praia de Âncora.

O campismo é muito divertido mas implica uma logística um tanto ao quanto complicada. Há uma grande desvantagem neste tipo de férias: independentemente do número de pessoas que venham, a mala do carro vem sempre cheia. É tenda, mesa, cadeiras, colchões, sacos-cama, lancheira, camping-gas, coisas para lavar a loiça... tanta coisa que o risco de nos esquecermos de algo é muito elevado.

Cresci com um pai extremamente organizado, que antes de qualquer viagem me aparecia no quarto com uma lista, dentro de uma pequena mica, que passava a ditar em voz alta: “cuecas, meias, cartão de cidadão, dinheiro, máquina fotográfica, pasta dos dentes (...)”. Eu ia anuindo com a cabeça ou, pelo contrário, apontando o que faltava.

Passaram alguns anos e o bicho da organização passou a morar em mim. E, como diz o ditado, a necessidade aguça o engenho: a verdade é que a lista do meu pai, apesar de muito completa, é dirigida a homens (tinha falta de coisas tipicamente femininas, como artigos de higiene ou roupas que só mulheres usam) e só contemplava objetos para viagens normais. O campismo exige todo um outro nível de planeamento. Por isso fiz-me ao piso e desenvolvi a minha própria lista – uma folha A4, dividida por categorias (objetos de campismo, roupas, comidas, higiene, eletrónicos e outros), para que nada faltasse. Sinto-me, honestamente, muito orgulhosa do meu feito!

Por isso, por achar que as listas têm uma beleza própria e por achar piada ao meu próprio sentido de organização, partilhei há dias uma imagem da minha lista no instagram. Recebi várias mensagens com emojis a chorar a rir e outras tantas, mais direta ou indiretamente, a dizer que eu era maluca. E eu fiquei a pensar naquilo.

O que distingue uma pessoa organizada de outra com um transtorno obsessivo compulsivo? Sim, eu sou organizada; sim, dá-me prazer ver tudo organizado por categorias, enfiado em compartimentos próprios. Gosto que as coisas tenham sítios para estar, adoro saber onde posso encontrar tudo. Não gosto de caos. Não gosto que faltem coisas que sinto que vou precisar – daí a necessidade de uma lista vasta neste tipo de férias.

A questão é que não me dá um chilique ou calores quando as coisas estão fora do sítio. Não fico stressada se vir que me faltou alguma coisa. Sei lidar tranquilamente com isso. E penso que é essa a linha que separa uma coisa da outra: não só a forma como fazemos as coisas, mas acima de tudo como reagimos às contrariedades, ao oposto daquilo que gostamos e desejamos.

Sou uma orgulhosa lista-holic, gabo-me da minha organização. Para os que acham o contrário, também dou bem por maluca. Uma maluca organizada, se faz favor.

 

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24
Mai19

Empresária wannabe: quando lidar com os outros é o nosso calcanhar de Aquiles

De todas as coisas que me assustavam na ideia de trabalhar na fábrica - eram, e ainda são, muitas - a maior delas era a relação com os meus funcionários. Tinha muito medo da reação deles perante a direção de uma mulher, muito jovem, com idade para ser filha e até neta de alguns deles. Nos primeiros tempos comparei a minha relação com eles como os humanos têm com os ratos: eu tinha medo deles, mas na verdade eram eles que praticamente fugiam de mim.

Agora que já fiz daquilo a minha segunda casa esse sentimento já se diluiu; eles habituaram-se à minha presença, ao meu olhar curioso, um bocadinho inquisitivo e a puxar pelo sentido crítico, e eu à forma de estar e de trabalhar deles. Mas a gestão de recursos humanos continua a ser (e acho que será sempre) o meu ponto crítico à frente das empresas. Tão simplesmente porque implica lidar com pessoas - e aquilo que elas são e não são, fazem e não fazem, dizem ser e fazer, o que querem mostrar e o que não querem dizer, o que sentem e não querem transparecer - e com uma série de preconceitos que vêm de há muitos anos relativamente aos patrões e seus empregados. Há um gap grande entre nós e não fui eu que o criei - ele já estava lá. E a verdade é que por muito que tente, não consigo mudar as coisas; estou a lutar contra a maré.

Agora em época de eleições sinto isso mais do que nunca. Fico arrepiada de cada vez que ouço o PCP a dizer que os patrões isto, os patrões aquilo, e que todos os "camaradas" são explorados por quem os chefia. Não me identifico minimamente com esta relação de amor-ódio entre patrões e funcionários que ainda hoje se respira em muitos sítios, em particular nos locais mais tradicionais - e irrita-me muito que ainda hoje se alimente este tipo de sentimentos, nomeadamente para arrecadar votos. O objetivo final de tudo isto é que todos tenhamos uma vida digna e boa, dentro das limitações de cada um - e esquecemo-nos de que nunca seremos felizes se odiarmos todos os dias a pessoa que nos paga ao fim do mês ou, no caso contrário, as pessoas que permitem que o nosso negócio funcione. Eu desligo a rádio ou mudo de canal de cada vez que ouço este discurso, mas preocupa-me que os outros não façam o mesmo. O 25 de Abril foi há 40 anos, as diferenças e dicotomias da altura não são as de agora - parem de as eternizar!

Eu sei que preciso tanto dos meus funcionários quanto eles de mim, e preferia que estivéssemos taco a taco, com respeito mútuo, em vez do pedestal em que os patrões tantas vezes se colocam e que tanta revolta traz aos seus empregados. Mas eu tenho 24 anos, tenho esperança nestas coisas que muitos dizem ser utopias. Ouço, com alguma preocupação, as vozes da experiência: "eles comem-te viva", "vão fazer de ti o que querem", "não podes deixar" e sou consecutivamente arrastada para aquele velho paradigma, o amor-ódio de que me queria distanciar. Tento arranjar um meio termo.

E para isso foi importante para mim ter trabalhado por conta de outrem antes de ter começado esta aventura. Senti na pele as dores de quem é mandado; de ser repreendida sem ter culpa e de não ser recompensada por fazer algo de bom; de não me sentir bem liderada, de pensar que as coisas deviam ser feitas de outra forma mas não ter o poder de mudar isso. No fundo, essa experiência tornou-me mais empática; ensinou-me a colocar-me nos calcanhares dos outros - algo que espero nunca esquecer, o que acontece com a maior parte dos líderes, que se tornam impermeáveis as emoções e vidas de quem corre à sua frente.

Mas nunca sei até que ponto posso ir. Até onde posso acreditar. Até que ponto posso perdoar. Não posso ser naive e achar que é tudo um mar de rosas e que toda a gente vai ser sincera, honesta e boa pessoa para comigo; estamos a falar de gente marcada pelo passar dos anos, por antigas lideranças e patrões, que só quer levar a água ao seu canteiro. Algumas delas marcadas pela revolução, época rainha nas discrepâncias entre patrões e funcionários. Não posso esperar que, só por eu aparecer, uma esponja se passe pela história e seja tudo pacífico. Nem sequer posso querer que pessoas com o dobro ou o triplo da minha idade percebam ou compreendam a minha visão da vida e dos negócios. Mas também não posso começar de pé em riste, já a prevenir tudo o que de mau pode acontecer. Lá está: o ideal seria o meio termo. Mas como se consegue uma proeza dessas, quando muitas vezes a própria gestão nos exige pouca humanidade?

Para mim, a este nível, a única forma de fazer as coisas é ir lidando com elas no dia-a-dia, antecipar apenas o inevitável. Porque a verdade é que as pessoas são imprevisíveis. Tive a minha prova de fogo quando decidi dispensar alguém, por considerar que essa pessoa já não tinha capacidades físicas para fazer bem o seu trabalho e por me aperceber que tinha outras alternativas melhores para aquele caso. Nem dormia direito ao pensar naquela derradeira conversa. Como é que se consegue ser empático e humano quando vamos despedir alguém - ainda que tenhamos razões para isso e lhes dermos tudo a que têm direito? Como é que esquecemos que aquela pessoa também tem uma vida, contas para pagar, bocas para alimentar? Será que isto de ser patrão obriga a uma permeabilidade dos sentimentos, quase como fazem os médicos em relação à dor e à vida dos outros? Um negócio só consegue ser bem gerido com este tipo de palas ou é exatamente o contrário - serão essas palas que eventualmente nos destroem o negócio?

Como se vê, tenho muito mais perguntas que respostas, muitos mais medos que certezas. A única coisa que sei é que agi, até agora, de bem com a minha consciência. Fiz o melhor que pude, para ambos os lados. E acho que só assim é que faz sentido, até ao fim do caminho. Mesmo que Steve Jobs tenha razão quando diz que "if you want to make everyone happy, don't be a leader - sell ice cream" ("se queres fazer toda a gente feliz, não sejas um líder - vende gelados"). Acho é que quando disse isso, nem ele se lembrou que o vendedor de gelados também tem uma empresa para gerir.

 

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18
Abr19

O flagelo das carteiras que foram feitas para os assaltantes

A maioria das mulheres tem uma pancada com sapatos e carteiras. Eu não. A minha praia são mais os mais casacos.

Os sapatos nunca serão uma grande paixão, uma vez que não tenho um pézinho de Cinderella para os enfiar. Há uns anos, comprar coisas para calçar era, para mim, uma atividade vinda diretamente dos infernos; ultimamente a coisa tem vindo a melhorar e, nos dias em que estou inspirada, até consigo retirar algum prazer em comprar proteções para o meu tão querido "pé de urso". Tenho hoje uma sapateira bem mais recheada - e com coisas giras! - do que aquilo que alguma vez achei possível, desde que me apareceu este problema crónico no pé direito. Ainda assim, está longe de ser aquele tópico divertidíssimo que as mulheres-tipo falam com um brilhozinho nos olhos.

No que diz respeito às malas não acho que valha a pena ter muitas, porque dá demasiado trabalho mudar as tralhas todas de umas carteiras para as outras; juro que admiro aquelas pessoas que escolhem uma mala por dia, para combinar com o outfit! Prefiro mochilas, onde cabe tudo, e sempre em cores neutras, para combinar com qualquer tipo de roupa.

Mas neste meu último aniversário meti na cabeça que queria uma carteira. Uma coisa bonita, mais clássica, para ficar bem naqueles dias de blazer e salto alto, para dar todo um ar de empresária séria (ainda que wannabe). Mas, como criatura esquisita que sou, havia vários requisitos a serem cumpridos: não podia ser transparente (este tópico dava um post - porque raio é que agora existem malas transparentes?!),  tinha de ter possibilidade de ter fita a tiracolo, precisava de ter dimensões suficientes para albergar a minha agenda e caderno de trabalho mas não ser demasiado grande ou pesada, não ser da Parfois e companhia de forma a não encontrar uma mala igual em cada esquina, não custar os olhos da cara e ter fecho zip. Simples, certo?

Nãooooo! A conjugação de todos estes fatores tornou esta missão mais impossível que a do Tom Cruise - e o meu pai pode testemunha-lo, que diz ele que nunca viu tantas malas na vida!

Ou eram feias. Ou caras. Ou feitas com materiais duros e nada confortáveis. Ou eram enormes. Ou autênticas pochetes. Ou pesadas para o tamanho que tinham. E, acima de tudo, 90% delas são pensadas para ladrões, onde basta pôr uma mãozinha discreta para apanhar tudo o que estiver a jeito. Cadê os fechos, gente? Agora as malas só fecham com pequenos ímanes centrais ou cordéis, que tornam o acesso à mala mais fácil do que comprar canábis (que, lembre-se, ainda é ilegal). Para encontrar um fecho éclair é preciso procurar neste mundo e no outro e a probabilidade de os encontrar só em parcelas centrais da mala ou em pequenos bolsos é muito grande. Não há malas com fecho, hoje em dia. Fica tudo ali à mão de semear, restando-nos ter esperança e boa fé no mundo e nas pessoas, esquecendo totalmente de entidades tão diversas como ladrõeszecos e pickpockets.

Portanto, das quatro, uma: 1) ou há falta de cabeças pensantes por detrás do design destas malas; 2) a moda está a sobrepôr-se totalmente à racionalidade; 3) isto é tudo um complô dos fabricantes de malas para sermos mais facilmente assaltados e irmos a correr comprar outra mala supostamente mais segura, alimentando assim o seu próprio negócio; 4) ou então sou eu que sou uma gaja demasiado esquisita e exigente para comprar até uma simples mala. É só escolher! Ainda assim, no dia em que se lembrarem de fazer carteiras giras e seguras, mandem-me email, sim?

 

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(imagem retirada daqui)

Estão a ver? É só pôr ali uma mãozinha jeitosa e discreta e já está, lá se foi o iPhone X!

 

28
Mar19

Existe excesso de método e de organização?

Se falarem com a minha mãe é provável que ela vos diga que eu sou um nadinha desarrumada. Eu diria que tenho dias, até porque não consigo viver com as coisas desalinhadas e fora do sítio durante muito tempo. Mas uma coisa é inegável: eu sou organizada. Adoro ter um sítio para tudo, arranjar soluções lógicas para guardar cada coisa num respetivo local. Tenho montes de caixas, caixinhas, caixotes, sacas, saquinhas, sacolas e tudo o que sirva para compartimentar espaços e deixar tudo no seu devido lugar.

Custa-me um bocadinho admitir isto, mas cá vai: organizar as coisas com método e lógica é algo que me dá prazer. Não só por gostar de saber onde estão os objetos mas também porque gosto de pensar em formas inteligentes de as arrumar. Há só um pequeno senão: por vezes meto-me em empreitadas tão grandes, tão complexas, que é preciso muita força de vontade (que, às vezes, perco) para as terminar, acabando as coisas por ficar em banho-maria durante demasiado tempo. Aliás, basta olhar para os meus objetivos para este ano e perceber que dois dos pontos têm que ver com organização (a elaboração do álbum de vida dos meu avós, que implica scannar e catalogar todas as fotos tiradas ao longo da sua vida, e a própria reorganização das minhas fotos, algo que já comecei e que prevejo que me vá demorar um ano inteiro a concluir). 

Só há uns dias é que percebi que isto de organizar tudo é uma mania já antiga. Relembrei os tempos em que fazia colares, pulseiras e outras bijutarias e cheguei à conclusão que passava mais tempo na minha bancada a organizar as coisas (pôr as peças por cores, colocar etiquetas nas gavetas, fazer uma utilização optimizada do espaço, pôr os diferentes tipos de mosquetões em saquinhos vários, etc.) do que propriamente a conceber peças.

Sabendo disto e pensando que me enfio em projetos que prevejo que demorem um ano a serem concretizados, ontem passou-me uma ideia terrível pela cabeça: será que há um limite para o método e para a organização? Existe isto da "organização em excesso"? Ou seja: organizar tanto que às vezes não compensa o retorno e as vantagens que traz, acabando por ser trabalho, tempo e até material gasto em vão?

Eu, organizadora assumida, gosto de pensar que não. Que a longo prazo, o tempo que poupamos a não procurar as coisas compensa tudo o resto. Mas suponho que dependa das perspetivas e da forma de ser de cada um de nós. Eu acho que já não tenho cura: só a ideia de me livrar das minhas caixinhas e etiquetas me dá suores frios, por isso prefiro perder tempo a organizar tudo, não me vá dar um fanico. Se me der, ao menos morro descansada: quem ficar a arrumar as minhas coisas saberá onde está tudo. Isto dá ou não dá paz a uma pessoa?

 

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10
Mar19

A história por detrás das fotografias

Estou a cumprir com um dos meus objetivos de 2019 e já me lancei à empreitada que vai ser arrumar a minha gigante pasta de fotos digitais - aliás, pastas, no plural. Centenas delas. Se o quiser cumprir vai ter mesmo de ser assim: aos pouquinhos mas com muita frequência e desde do início do ano, que isto não vai ser uma coisa que vá conseguir resolver de um dia para o outro só para fazer "check" na resolução de ano novo.

A primeira fase já está completa: dividir todas as pastas pré-existentes por anos. Agora entrei na segunda, bem mais demorada: esmiuçar pastas macro (coisas como "fotos de iphone"), com milhares de fotos incategorizadas - e tantas outras incategorizáveis - que depositei no meu computador só com o objetivo de reaver espaço no meu telemóvel ou cartões de memória a abarrotar pelas costuras. Este tipo de pastas são o meu pior pesadelo e aquilo que aconselho sempre a que ninguém faça - mas é como diz no ditado, "faz o que eu digo, não faças o que eu faço".

No que aos telemóveis diz respeito esta é mesmo a saída mais comum; já há muitos anos que arquivo com data as fotos tiradas com a máquina, mas os telemóveis com câmara vieram acrescentar todo um nível de complexidade a este campo: porque inicialmente as partilhas das fotos para o computador não eram tão fáceis, porque tiramos fotografias a coisas absolutamente desnecessárias e desinteressantes (muita vezes só com o objetivo de registar algo, coisa que antes fazíamos utilizando o bloco de notas, por exemplo) e porque, por ser um telemóvel e não apenas um dispositivo que tira fotografias, vamos deixando acumular. Já deitei milhares de fotos fora - entre selfies, fotos de livros, de outras coisas que queria comprar, 45789 imagens manhosas dos meus cães e etc. - e já criei pastas para outras tantas que encontrei e que perderia caso não estivesse a fazer esta seleção. A fase seguinte, depois de me desfazer destas pastas monstruosas e de ter tudo dividido por anos, vai ser entrar em cada uma das subpastas e deitar todas as fotos más-repetidas-tremidas-desfocadas para a reciclagem. Mas até lá chegarmos, upa upa - temos muito caminho para percorrer!

A parte boa disto tudo é que tenho apanhado uns tesourinhos que me fazem quase ganhar o dia. Vídeos e fotos que nem sabia que existiam, ora dos meus sobrinhos a cantarem-me os parabéns, ora de colegas de turma a dançarem no balneário, entre outras pérolas. Mas é a mexer em fotos antigas que relembro que há duas fase de Carolina. Quase tipo A.C. e D.C., mas em que o "C.", em vez de Cristo, é o meu nome. Há uma fase clara em que sinto que renasci. Mais: há uma foto que marca esse momento.

Depois de um episódio triste que marcou a minha pré-adolescência, que já relatei há alguns anos aqui, sinto que congelei no tempo. Houve um período de mais de um ano em que passei um borrão e não era eu, era apenas uma fase de transição. Olho para as fotos dessa altura - fáceis de distinguir, porque foi a fase em que estive mais gordinha em de toda a minha vida - e não me reconheço. Honestamente, já quase nem me lembro. Percebo hoje o esforço que fiz para voltar a gostar de mim mesma, depois de me ter deixado engordar daquela forma e sou capaz de entender os sorrisos que fui reavendo com o passar do tempo. Assim se mede a intensidade de um acontecimento: não só pela forma como reagimos na altura em que ele aconteceu, mas também pela maneira (e dificuldade) com que nos reerguemos depois de ele passar. Sei que, para além de mim, mais ninguém consegue ver este tipo de coisas apenas a olhar para uma foto.

Durante as minhas limpezas dei de caras com a foto que durante mais tempo esteve no background do meu telemóvel. Ninguém diria que aquela simples fotografia, onde nem a cara aparece, foi um turning point. Lembro-me bem de a tirar, na casa de banho, com a minha camisola preferida do momento: da Zara, com muito elastano, com riscas transversais brancas e cinzentas. Bem justinha ao corpo. Foi ela que me fez aceitar que já não era a miúda gordinha que tinha sido. Fez também ela parte da minha transição para aquilo que sou hoje. 

É isto que adoro nas fotografias, a capacidade de me fazerem viajar no tempo, de conseguirem ajudar a (re)construir um bocadinho da história de alguém - e principalmente a minha. Relembrar o que fui, o que pensava, onde estava, o porquê de ter tirado aquela fotografia. Como era. Quem era.

Tenho pena que hoje em dia se use tanto a fotografia para manipular os outros: ora para se fingir que se tem a vida perfeita, o dinheiro para comprar uma mala Louis Vuitton, que se vai ao ginásio cinco vezes por semana ou para vender um produto qualquer de maquilhagem. Não quer dizer que essas fotos não tenham histórias por detrás; quer só dizer que não foram tiradas com o propósito certo - e o propósito certo, em muitas ocasiões, é mesmo não ter um propósito.

A fotografia vai muito além da cara cortada, do queixo marcado por algumas espinhas da adolescência e de uma camisola às riscas. É tudo aquilo que não se vê nos pixels, mas que eu sei que é tão ou mais importante do que tudo aquilo que lhes dá cor. É a capacidade de viajarmos no tempo. De voltarmos a calçar os nossos próprios sapatos e pensarmos "afinal é por isto que cheguei aqui". Cada foto é uma história, só que muitas vezes não nos lembramos dela.

 

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05
Mar19

Os sete tipos de pessoas nos estádios de futebol

No sábado voltei ao Dragão para fazer uma coisa que já queria há muito: ver um clássico. É claro que não me saiu como planeado porque queria ver o Porto ganhar, mas a vida é mesmo assim, nem tudo corre como gostaríamos. Neste aspeto evoluí para uma postura que faz de mim uma pessoa muito mais feliz: fico muito contente quando ganhamos, mas estou-me mais ao menos nas tintas se perdermos. Antigamente ficava irritada, frustrada e triste quando saímos derrotados, sentia alguma amargura em relação às pessoas dos outros clubes, irritava-me com posts no facebook a gozar com tudo e todos. Isto até há uns anos, em que passei uma fase em que me desliguei do futebol. Hoje em dia já voltei a vibrar mas numa onda muito mais razoável, saudável e cheia de fair-play. No fundo, cresci. O que não consigo perceber é como é que há pessoas maiores e vacinadas que só conseguem ver para um lado, que insultam e que apedrejam, tudo em nome de um clube. Não me revejo nesse tipo de comportamentos, atitudes e forma de estar perante o futebol.

Por isto tudo é-me completamente indiferente todos os comentários que me deixaram naquele dia, depois de ter partilhado uma foto no estádio nas minhas redes sociais - "foste no dia errado", "saíste foi de mãos a abanar" e outras coisas do género. Todos os dias são certos para fazermos algo que gostamos e para apoiar a nossa equipa do coração; e nunca se sai de mãos a abanar de uma experiência que envolve uma massa humana de 50 mil pessoas que se juntam em torno de um gosto comum. Se preferia que o Porto tivesse ganho? Óbvio. Se isso me tirou sono à noite? Oh, meus amigos!

Para provar que se retira sempre algo de bom das experiências, mesmo quando o nosso ego sai ferido do estádio, decidi fazer uma compilação dos tipos de pessoas que assistem a jogos no estádio. A verdade é que ver um jogo num estádio é muito mais do que ver um jogo - porque, aliás, se vê muito melhor em casa, com as repetições e os ângulos todos, para não deixar dúvidas. Mas estar ali é sentir a vibração das pessoas, é sentir que o nosso grito pode dar força aos jogadores para marcarem golo, é sentir que a nossa paixão é partilhada na mesma intensidade com outras tantas pessoas e que fazemos parte de algo. Mas a verdade é que cada um se expressa de diferentes formas. Ora vejamos alguns dos tipos de espetadores que se podem encontrar num estádio num estádio:

 

Os treinadores de bancada. todos conhecemos alguém assim. "Põe o Marega a jogar à direita!", "achas normal aquele manco estar no onze?", "substitui o Oliver!" e outras coisas que tais são algumas das deixas que saem da boca deste estilo de pessoas. É gente que está prontinha a substituir o Sérgio Conceição (ou qualquer outro treinador). Como aprenderam tudo isto? Na melhor universidade possível: a da vida. Não há como enganar.

 

Os insultadores. Por vezes os treinadores de bancada são também insultadores, mas nem todos os insultadores são treinadores de bancada. Este tipo de pessoas tem um vasto vocabulário ao nível do vernáculo e muitos conhecimentos sobre a classe animal. Consideram-se nesta categoria todos aqueles que passam o jogo a gesticular com os braços e a fazer ginástica com os dedos, principalmente o dedo médio. O arbitro é normalmente a maior vítima.

 

As chaminés. Todos os jogos de futebol são situações de stress. Mas um clássico é o stress completo. É difícil ir a um jogo de futebol e não sair de lá com a roupa empestada de fumo devido às pessoas que não largam o cigarro durante os 90 minutos. Mais do que os treinadores de bancada e os insultadores (que por vezes dão um espetáculo dentro do espetáculo), este é o tipo de pessoa que mais me incomoda.

 

Os bichos carpinteiros. Outra forma de aliviar o stress acumulado. Coçam a cabeça, as costas, os braços. Sentam-se de 1023 formas diferentes. Esperneiam, bracejam, levantam-se. Roem as unhas, mexem as pernas como quem tivesse bebido 30 cafés. Azar é das pessoas quem ficam atrás dos bichos carpinteiros, que têm de andar de um lado para o outro (o oposto do deles) para conseguir ver alguma coisa do jogo.

 

Os pensativos. O estilo mais calmo. Talvez calmo demais. Vêem o jogo como quem vê um filme do Manoel da Oliveira - sem stress, sem ânimo, sem vida. Só estão, impávidos e serenos, quase amorfos. E quando é golo só dão um sorrisinho matreiro, mantendo-se sentados enquanto toda a gente à volta salta de alegria, pensando em relação aos jogadores: "não fazem mais que a vossa obrigação, pá".

 

Os radiofónicos. De modo a contornar a grande dificuldade do futebol ao vivo (não saber quem chuta a bola, quem marca golo, quem fez a falta), os radiofónicos são aquela malta prevenida que ouve o relato enquanto assiste ao jogo. Normalmente são homens, espécie a quem o multitasking não assiste, por isso mantêm-se caladinhos e concentrados durante o decorrer do jogo, sem grandes conversas - porque ou se ouve o relato ou se está na treta com o vizinho do lado. As duas coisas é que não, que o tico e o teco não dão para tanto. 

 

Os distraídos. "O quê, foi golo?", é o expoente máximo que dirige a maioria destas pessoas. É compreensível: a envolvência do estádio é coisa para distrair qualquer alma e, por vezes, o olhar vai para o sítio errado na hora H. Ou, aliás, na hora G, de golo. Acontece ao melhores. Derivado disto há todo um outro rol de distrações estilo "mas quem fez falta?", "quem apanhou cartão amarelo?" ou "quem foi o banana que deixou a bola sair de campo?".

 

Por aí, com que estilo é que vocês se revêem?

 

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27
Fev19

O maior mal das estradas portuguesas

Gosto muito de conduzir. Não sei bem porquê, mas uma das melhores coisas que me podem dizer é que conduzo bem. Talvez por ser um elogio muitas vezes guardado para os homens.

Mas a verdade é que o estado caótico do trânsito nas cidades é capaz de tirar todo e qualquer prazer que exista na condução. Isso e o facto da maioria das pessoas ter claramente ganho a sua carta no bolo-rei. (Soei a velho de restelo, não foi?). Pronto, vou ser mais razoável: acho que o facto de se conduzir tão mal, com maus hábitos enraízadissimos, faz com que rapidamente as pessoas se esqueçam das normas da condução. Lembro-me bem de me dizerem que um mês depois de tirar a carta já não iria usar piscas nem fazia perpendiculares. E eu mantenho-me aqui firma e hirta, a mexer no manípulo dos piscas para cima e para baixo e a contornar ângulos de 90º tentando-que-perfeitos de cada vez que estou num cruzamento - porque acho que são normas que fazem sentido, que precavêm acidentes e problemas e que contribuem para uma maior fluidez do trânsito. Mas sei que deixar de fazer estas coisas - e tantas outras - é fácil, principalmente quando quase ninguém as pratica.

Ainda assim, e apesar da baixa qualidade dos portugueses ao nível da condução, o principal problema das estradas não se prende com questões de jeito ou gosto pela condução. É tão somente uma questão de civismo e respeito pelo próximo. Chama-se estacionamento em segunda mão.

Tenho este post entalado há três dias, altura em que fui buzinada e insultada na estrada (entretanto, aconteceu de novo). Se há coisa coisa que eu não gosto é de ser criticada; mas se há coisa que eu detesto é ser criticada injustamente. O que aconteceu em ambas situações foi o seguinte: num troço com pouca visibilidade fui obrigada a mudar de faixa - dedicada aos veículos que vinham no sentido oposto - por culpa de uma carrinha e um carro (respetivamente) estacionados em segunda-mão. Eu não sou nenhuma santa ao volante - meto-me e tento encontrar o meu espaço, mas não sou aselha (disso, tenho noção) - por isso achei que tinha tempo e espaço, dentro da curta visibilidade que tinha, para poder ultrapassar os obstáculos. Na verdade, continuo a pensar que tinha: mas muitas das pessoas que vêm no sentido contrário fazem questão de apertar o acelerador para poder ter com quem embirrar e despejar as suas frustrações depois de um dia de trabalho.

Mesmo que os meus cálculos fossem errados, mesmo que eu não tivesse tempo, mesmo que eu não tivesse visto bem, mesmo que eu tivesse arriscado (o que é obrigatório em horas de ponta, em que estão constantemente a passar carros no sentido contrário) eu não estou a fazer aquilo por livre vontade. Eu não estou a sair da minha via porque me apeteceu. Estou a faze-lo porque há um terceiro envolvido que, por achar que as suas prioridades são mais importantes do que a dos restantes humanos, decidiu deixar a sua viatura no meio da estrada - e está a prejudicar-me tanto a mim como a todos os outros, incluindo os da outra faixa de rodagem. E eu só gostava que toda a raiva que me foi a mim dirigida fosse, em metade, em direção a quem deixa o carro à vontadinha no meio da estrada.

E sim, todos temos telhados de vidro. Eu também tenho - mas com a consciência muito, muito tranquila, por o ter feito meia dúzia de vezes ao longo dos meus anos de carta, em situações muitíssimo esporádicas. Isto porque acho inaceitável. Acho de um egoísmo, de uma falta de civismo e de respeito para com o próximo brutal. E o pior é que é um comportamento massivo, que está a ficar cada vez mais enraizado na nossa sociedade e, desta forma, a ser aceite (faz lembrar o consumo de marijuana - é ilegal, mas já tanta gente o faz que se tornou moralmente aceite e quase já deixou de assumir o estatuto de droga). 

Não tenho problemas em admitir que sou radicalista e que acho que um sistema altamente punitivo resolveria o assunto - viu-se bem a diferença do estacionamento com parquímetros no Porto a partir do momento em que uma empresa começou a deixar bilhetinhos laranjas com multas de cada vez que alguém não punha moedinha. Antes não se arranjava um lugar - hoje, há-os às dezenas. Aliás, o caricato no meio disto tudo é que as pessoas preferem deixar os carros em segunda-mão, onde sabem não ser multadas, do que em lugares legais, mas pagos. É indecente.

Desafio-vos a sair de casa e, no percurso até ao vosso trabalho, contarem o número de carros que têm de contornar, qual corrida de obstáculos. Acho que muito dificilmente farão o caminho sem impedimentos. Porque o estacionamento em segunda mão é, para mim, o maior problema das estradas portuguesas - muito mais do que os aselhas e os pouco dotados para a arte da condução.

Não, ir buscar os filhos "ali num instantinho" ao infantário não é desculpa.

Não, ir só ali comprar pão não é desculpa.

Não, deixar o carro em segunda mão enquanto se almoça ou janta não é aceitável. É i-naceitável.

Não, parar os camiões para descarregar bebidas, para poupar o lombo do trabalhador, não é desculpa. 

Não há desculpas. 

Estamos a falar do benefício de uma ou duas pessoas contra o malefício de centenas (sim, porque não são só as pessoas que têm de ultrapassar ou deixar que os outros ultrapassem, mas também todos aqueles que têm de esperar atrás desses) que, por aquele "instantinho", vêem as suas vidas atrasadas. Que, por aquela coisa "que toda a gente faz e que não tem mal nenhum", até são insultadas e buzinadas de forma gratuita. Que, porque "tem mesmo de ser", sofrem acidentes.

Porque o vosso tempo não vale mais que o meu. Porque as vossas prioridades não são maiores que as minhas.  Porque se têm direitos, também têm deveres. Porque a estrada não é vossa, nem minha, mas sim de todos.

25
Fev19

Não sei o que sou nem o que fui

Há três anos que não sei o que sou. De cada vez que tenho de preencher um formulário ou apresentar-me formalmente fico bloqueada, tentando prender-me a uma classificação que claramente ainda não existe no dicionário. Há uns dias, na pós-graduação, falava-se em "tudologos" - aquelas pessoas que fazem tudo nos sítios onde trabalham - e eu achei que era a única descrição justa para muito do que fui fazendo nos últimos tempos.

Quando trabalhava no jornal apresentava-me como gestora de conteúdos, designação de que me lembrei depois de alguns meses de luta interior para descobrir o que realmente era. De qualquer das formas, para evitar perguntas, os meus cartões não tinham função. Esclareci, desde o início, que não era jornalista (por opção e por não possuir carteira); mas ia dizer o quê? Paginadora, designer, gestora de redes sociais, publicista?

Hoje em dia, se quiser ir pela via mais fácil, digo que sou estudante – escondendo apenas que aquilo que estou a tirar é um curso pós-laboral, que ocupa duas noites por semana. Ninguém precisa de saber esse tipo de detalhes insignificantes, não é verdade?

Entretanto também dou aulas de piano – aqui a coisa começa a complicar-se. Faço-o assim num part-time muito, muito part-time, só um par de horitas por semana. Isto para além de cobrir as faltas e férias dos outros. Sou uma professora de piano de substituição? Sou meia professora? Professora nas horas vagas?

E resta-nos o caso mais sério, aquele que – espero – vai evoluir nos próximos tempos. Agora trabalho com o meu pai nas fábricas da família. Sou o quê, aprendiz de CEO? Mera observadora? Assistente? A que faz perguntas chatas? Deverei arranjar um nome catita em inglês, para parecer mais requintado? Tipo CEO to be? Chief to-become? Manager Aprentice, estilo o reality show americano? Ou, simplesmente, a filha do patrão – o nome que provavelmente mais passa na cabeça de todos de cada vez que me apresento? 

Hei-de escrever sobre isto, sobre o peso que os filhos dos patrões carregam nos ombros, mas fica para outra altura. Até lá, tenho de arranjar uma função para pôr no LinkedIn, só para não pensarem que não ando a fazer nenhum quando na verdade ando a tentar encontrar uns minutinhos para respirar.

Tudologa é um bocadinho presunçoso, não é?

14
Fev19

Posso ser solteira? Por favor?

Já há muito tempo que vivemos numa sociedade em que estar solteiro é visto como uma coisa má. Mas hoje, mais do que nunca, isso se evidencia - a começar pelos programas de televisão, altamente empenhados em arranjar "a alma gémea" de qualquer um, utilizando métodos altamente inovadores e de eficácia, digamos, duvidosa. Vejamos: casar pessoas sem elas nunca se terem conhecido (Casados à Primeira Vista), fazer dates em restaurantes (First Dates) e dentro de carros (O Carro do Amor) ou juntar uma dúzia de miúdos dentro da mesma casa para ver quem se engata primeiro (Love on Top). Para vir estão outras maravilhas como os serem os pais a eleger o novo namorado da filha, escolher (ou, neste caso, eliminar) potenciais parceiros tendo por base o aspeto das suas partes iíntimas (Naked Attraction) ou ainda ter conversas muito intensas e profundas com um "match" enquanto estão deitados numa cama... usando apenas lingerie. Tudo formas maravilhosas de se conhecer a fundo uma pessoa, não é? 

É engraçado como toda a gente parece estar ansiosa por arranjar alguém mas depois desencanta as formas mais escabrosas e descabidas para o fazer. Os programas são claramente a nova moda, mas também podíamos falar do Tinder, do facebook e afins. Acho que o problema principal é o objetivo ser, à partida, encontrar alguém com quem ter uma relação amorosa - passa-se logo à frente uma possível amizade, logo aniquilada por se dar um passo maior que a própria perna. Mas estas são, provavelmente, as mesmas pessoas que se queixam de já não haver relações a sério, com um bom fundo, que é tudo feito com base em questões superficiais. Querem o quê, se os escolhem os outros pelo tamanho das mamas ou se põem o futuro nas mãos de produções de programas que nunca vos viram à frente?

Neste momento a pressão da sociedade para se arranjar um/a companheiro/a é de tal forma que nós quase que nascemos com essa ambição máxima. Já não precisamos que nos digam que só se é feliz quando se partilha a cama e a vida, isso já nos está embutido. A pressão é nossa. Não vale a pena dizer "deixem os solteiros em paz" quando são a maioria das vezes eles próprios quem mais se impõe para mudar de estado civil - e, aparentemente, agora vale tudo. Já não sabemos estar sozinhos.

Eu sou solteira por defeito - defeito por ter nascido assim, solteira, sem amarras (no sentido de default) e por não ter paciência, tolerância e disponibilidade (mental) para dedicar tanto tempo a alguém (no sentido de falha de personalidade). Vejo todo este fenómeno com alguma estranheza e, confesso, alguma impaciência. Já não tenho pachorra para quem me pergunta se tenho namorado, se anda "mouro na costa" ou quando têm claramente mais vontade de me ver casada do que eu própria tenho. E este Dia dos Namorados lembra-me sempre isto, esta necessidade contemporânea de atualizar o estado de uma relação no facebook e de partilhar fotos mimosas de mãos dadas.

Acho graça como tanta gente critica ultimamente o Natal, por se ter tornado numa festividade comercial, mas mal pensa nisso relativamente ao São Valentim, que não é nada mais do que comercial. É curioso ver como este é um dia que já temos muito enraizado na nossa vida, até mais do que alguns feriados. Quando olhamos para os nossos calendários em Fevereiro já sabemos que ali para o meio está o dia mais piroso do ano. E é de tal forma que não deixamos de o celebrar (penso que em grande parte por termos medo que a "nossa metade" fique triste por deixarmos passar esta data em branco).

E isto é um cliché, mas é verdade: o dia dos namorados, do pai, da mãe, dos irmãos e dos avós devia ser todos os dias. Não devíamos precisar de reminders para isso. E gastar 50 euros por cabeça num jantar só para provar que é amor serve de muito pouco. O mesmo se pode dizer daqueles peluches enormes, pirosos, que eventualmente vão acabar no sótão porque não há sítio melhor para os pôr. Ah, e das rosas, que pagamos neste dia ao quíntuplo do preço daquilo que pagamos nos outros 360 dias do ano (há que contabilizar o dia anterior ao dos namorados, cujas vendas aumentam à custa dos mais precavidos, e o dia da mãe e respetivo dia anterior, que segue a mesma lógica comercial). 

Não quero ser aqui a velha do Restelo, mas gostava de relembrar nascemos sozinhos e morremos da mesma forma - com ou sem anel no dedo, papéis assinados, com ou sem averbamentos na nossa ficha do registo civil. Acho bem que nos divirtamos pelo caminho e, quem quiser e tiver disposição, que o partilhe com alguém de quem gosta - mas esta pressa, esta necessidade quase absurda de se ter alguém faz-me muita comichão. 

Posto isto, resta-me desejar-vos um bom dia dos namorados. Para os comprometidos, para os que "é difícil", para os que têm amigos coloridos ou room-mates. E, claro, para os solteiros. Lembrem-se que os 50 euros que gastariam entre flores, jantares e bonecada dá para uma mariscada das boas. Não é bem a mesma coisa, mas dá para um orgasmo gastronómico. Digam lá que é mau? 

 

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12
Fev19

Antes um calendário da Pirelli que do Benfica

Estou agora a imiscuir-me no meio industrial. Nasci no seio dele, mas há coisas que há quinze anos atrás me passavam ao lado - e ainda bem, porque não tinha sequer idade para as perceber. Coisas tão simples e tão complexas como a relação patrão-colaboradores ou a própria interação dos empregados entre si. Quando era criança achava mais graça aos processos e não estava tão preocupada com esta vertente, que agora me é essencial, tendo em conta que estou a tentar assumir o papel de liderança dentro de uma empresa. 

Aprendi muito na minha passagem pelo jornal, quanto mais não fosse porque ouvi muitas opiniões (que eu às vezes concordava, outras não) e vi outras empresas, transpondo agora um bocadinho desses conhecimentos e daquilo que vi para a minha realidade atual e tentando tornar isto o melhor possível.

Há uns dias, enquanto tentava aprender um dos processos aqui da fábrica, deparei-me com uns cartazes e calendários do "Benfica Campeão" colados numa das paredes. Ora o tetra, ora a reconquista, ora o penta que aí vinha - não sei, nem olhei bem, vermelho e branco não é a minha praia. Mas fiquei a matutar naquilo e como não gostava da imagem que aquilo transmitia. E não, não é por ser do Benfica: podia ser do Porto, do Sporting ou do Leixões. É por ser de futebol. Veio-me à memória um escritório da fábrica onde cresci, quase pintado de azul e branco da cabeça aos pés, como quem grita "este escritório é de um portista doente". E isso não é bom, porque no futebol quase todas as reações, discussões e opiniões saem diretamente do coração. E, numa empresa, aquilo que queremos é cabeça.

Lembro-me perfeitamente de uma vez, no Leroy Merlin, ter mandado uma piada sobre o Benfica a um colaborador que estava a ajudar a carregar para o nosso carro umas placas pesadíssimas que viriam a forrar a piscina. Não sei o conteúdo da piada, da boca, da indireta ou da brincadeira, creio que até foi ele que começou e eu não me deixei ficar, mas lembro-me perfeitamente do desfecho: o senhor deixou o carrinho e foi-se embora, deixando-me a mim e à minha mãe a carregar aquele peso bruto. Tudo por causa do futebol. Escusado será dizer que, de cada vez que vou a uma destas lojas, me lembro da gentileza e racionalidade deste homem, que manchou a imagem do sítio onde trabalha por uma atitude parva e irrefletida.

Há quem critique as pessoas por adornarem as secretárias com as fotos dos filhos, quem deteste ir a oficinas automóveis porque se depara com calendários cheios de mulheres em poses indecentes. Pode ser piroso e revelar muito sobre quem os tem, mas não há muito a comentar sobre isso. Já coisas com teor futebolístico são, para mim, bem piores, pois criam cisões graves à partida entre as pessoas, sem estas sequer se conhecerem. Um cartaz de futebol é uma posição expressa de um gosto clubístico e pode criar pequenas guerras perfeitamente desnecessárias. Então e se as pessoas que partilham o mesmo espaço não forem todas do mesmo clube? E se alguém doente por um outro clube visitar o sítio em questão e se puser a mandar postas de pescada sobre o golo mal anulado do jogo de domingo? É irreal pensar que alguém que se dá ao trabalho de colar posters ou adornar o seu escritório com coisas do seu clube não vai ripostar a um desafio desse género. E muito dificilmente uma conversa destas vai ter a algum sítio bom ou culminar com elogios e uma ideia positiva de quem está do outro lado.

Não quer isto dizer que vá andar por aí a tirar posters alheios das paredes ou acabar com pregões clubísticos, qual extremista. Mas, a longo prazo, preferia que eles não existissem. Mal por mal, tragam os da Pirelli.

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