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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

16
Set20

Chávena de Letras: "O Tatuador de Auchwitz"

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Um bom livro não vive só de uma boa história. Não sei se por "ter vindo" de uma obra em que a escrita era central e crucial (sendo que a história tinha na escrita o seu pulmão de oxigénio, por não "sobreviver" sozinha) ou por ter, simplesmente, um sentido crítico apurado: achei que este livro pobre no que à escrita diz respeito. Falo a todos os níveis: desde o vocabulário, passando pela fraca construção frásica e uma escrita demasiado básica (pontos finais a cada oração, falta de qualquer frase mais trabalhada), pelo parco trabalho na construção das personagens, terminando naquilo que me parecem trechos cheios de "arestas", que não viram a mão de um editor. Não sei que culpa é que a tradução poderá ter no meio disto tudo. Mas continuo a achar estranho a (tão) alta pontuação que é atribuída ao livro.

Acho ainda que o tema dos campos de concentração é abordado pela rama; não sei se sou só eu, mas apesar das atrocidades relatadas, este acaba por não ser um livro pesado. As personagens têm sempre um fundo de esperança que confere à obra uma aura mais leve do que aquilo que esperaria - o que, sendo bom por um lado, por outro acaba por lhe tirar um pouco de credibilidade (porque não há nada de light quando se fala em Auschwitz).

Não obstante, esta é uma bonita história de amor, que sem dúvida mereceu ver a luz do dia. Destaque positivo para o destaque de uma das dualidades mais duras do holocausto: colaborar com os agressores para sobreviver ou morrer com a dignidade intacta. Creio que o peso dos crimes que foram praticados pelos judeus contra judeus, principalmente dentro dos campos, é das questões que mais deve ferir um povo - já para não falar da consciência de quem os praticou.

25
Ago20

Chávena de Letras: "A Única História"

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Julian Barnes é perito em (d)escrever memórias. Mas memórias a sério, de forma fidedigna, com tudo a que têm direito. Narrar uma história no presente é muito diferente faze-lo enquanto se pensa no passado; não se trata só da precisão e dos detalhes que damos (ou não damos, quando contamos alguma coisa de memória, onde algo inevitavelmente nos falha), mas também da perspectiva que ganhamos da nossa própria história.

A nossa visão muda ao longo dos anos - uma queda no presente não tem graça, mas somos capazes de nos rir quando já tiverem passado uns anos. Da mesma forma, o mesmo desgosto amoroso não tem a mesma intensidade na altura em que o vivemos e volvidos uns anos, quando o lembramos; e o mesmo se passa com todo o processo de enamoramento com alguém. A memória tira detalhes e encantamento e normalmente acrescenta uma pitada de racionalidade.

É nisto que Julian Barnes é bom, a fazer este jogo de lembranças e seus confrontos com o presente. Mas se "O Sentido do Fim" me conquistou imediatamente e é ainda hoje um dos livros que recordo com maior carinho (apesar da história praticamente me passar ao lado), "A Única História" não teve a mesma capacidade. Embora tenha achado à partida a narrativa interessante - a ideia de relembrar o amor da nossa vida, todo o processo de enamoramento (e a forma como é visto pelos outros) e, depois, o confronto com os problemas que qualquer relação acarreta, este não me cativou por aí além e, de certeza, não me ficará na memória como a primeira obra que li do autor.

20
Ago20

Chávena de Letras: "Patagónia Express"

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A classificação que dou a este livro (4 de 5 estrelas) aumentou uma estrela na última página. Gostei muito do início do livro, achei a terceira parte algo confusa (e confesso que não sei se percebi totalmente algumas metáforas e comparações que foram feitas), mas o final - a pescadinha de rabo da boca - conquistou-me totalmente. Não considero que isto sejam crónicas de viagem, mas sim um conjunto de textos que, vistos como um todo, são uma imensa declaração de amor.

É dito inicialmente pelo autor que estes eram textos guardados "na gaveta", pelo que se compreende à partida que não tenha de existir uma linha lógica entre as partes (e até entre capítulos). Isto pode, ou não, abonar a favor do livro - dependerá do leitor. Se houve partes e personagens que me conquistaram, outras ficaram aquém.

Ainda assim, gostei. Sepúlveda tem uma escrita poética, limpa e doce. Tenho pena de só ter começado a explorar a sua obra agora (tinha lido um livro do autor antes, ainda na escola, numa leitura conjunta - o que não abonou a favor do livro), tendo a certeza que a sua partida precoce é uma das grandes perdas de 2020 no campo da literatura.

26
Jul20

Chávena de Letras: "Manual de sobrevivência de um escritor"

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Nunca li nada de João Tordo para além deste seu manual de escrita, se assim podemos chamar. Mas mal o vi nas prateleiras virtuais de uma livraria online não resisti em comprar; sou sempre atraída por obras que explorem este ofício, independentemente de o analisarem de um ponto de vista mais técnico ou mais poético e romântico (como é o caso deste).

Apesar de ter sido uma leitura bastante agradável, devo confessar que o rolar das páginas não abonou a favor do livro: achei o início delicioso (a dissertação sobre o que é ser escritor e a forma como ele olha o mundo à sua volta), mas a parte do fim acabou por me soar um bocadinho... vá, presunçosa. Acho que a o meu desagrado começou algures quando o autor escreveu que "A menos que tenhas a sorte de escrever um bestseller à primeira, e vender centenas de milhares de exemplares (o que, habitualmente, significa que escreveste um livro mauzito) (...)" e continuou com aquilo que considera serem os "escritores literários" que, para além de serem aqueles que se dedicam a 100% a esta arte (não tendo mais nenhuma profissão), se depreende que se distinguem dos autores "pimba" (esta comparação com a música é a melhor forma que me ocorre de descrever este tipo de escritores - pelo menos vistos deste prisma -, que não se pautam por uma escrita super eclética, rica e que narram histórias mais corriqueiras). Eu percebo a distinção, mas acho-a preconceituosa. Não acho que se possa comparar Mário Vargas Llosa com Nicholas Sparks - mas, para mim, são ambos escritores: sentam-se, escrevem, corrigem, reescrevem, publicam, publicitam. Também não ouso comparar o Rui Veloso com o Quim Barreiros: mas ambos são, indubitavelmente, cantores, compositores e homens do mundo do espetáculo. São estilos diferentes - mas não tem de haver necessariamente um demérito de nenhum deles derivado ao estilo que preferem. A nossa tendência é, obviamente, juntarmo-nos ao grupo daqueles que consideramos ser os melhores. O autor cita muitos outros "escritores literários" ao longo da obra (o que enriquece imenso o livro) e ambiciona, claramente, fazer parte desse grupo. O que não é mau - mas pode deixar um rasgo de presunção que nem sempre conquista a simpatia de quem lê.

A visão purista da escrita também me dá alguma comichão; João Tordo dá-nos a entender que o escritor é quase refém do seu próprio ofício, que é a escrita que lhe comanda a vida e não o contrário - e que só assim será bem sucedido. Não sei se a visão é partilhada pelos seus colegas de trabalho (já li alguns, mas não muitos, manuais deste género), mas não me consigo identificar com ela. A verdade é que a minha opinião vale o que vale: apesar de sonhar publicar livros, nunca esteve nos meus planos fazer da escrita a minha fonte de rendimentos exclusiva - e, até agora, não publiquei nada, não me podendo considerar uma escritora, embora tenha escrito muitos milhares de palavras ao longo destes anos (mas guardo com carinho algo que Tordo escreve quase no fim da obra: "Faz a ti próprio esta pergunta à maneira de Rilke: Preciso de escrever? E, caso a resposta seja positiva e sincera, então podes chamar a ti próprio «escritor», mesmo que nada tenhas publicado.")

Tirando estes dois pontos, achei muito interessante o enfoque de alguns aspetos pessoais que os autores nem sempre mencionam neste tipo de obras: a dificuldade que é viver da escrita (e as cedências que temos de fazer para viver dela), a relação com a crítica e a maneira de retirarmos o melhor dela e, uma coisa que gostei em particular, a ligação normalmente próxima que os escritores têm com drogas e álcool, que embora a curto prazo possam parecer trazer inspiração, a longo prazo só trazem desgraça. A escrita é leve e rica em exemplos, muitos deles retirados dos livros e da experiência do próprio autor (algo que neste tipo de livros nem sempre é fácil, baseando-se tudo em citações de outros e ideias bonitas mas pouco concretas).

O facto de ser escrito por um autor português é um ponto positivo - e vai direitinho para a prateleira ao lado do "Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão", do Mário de Carvalho, que considero que vai muito na onda deste livro do João Tordo. É um livro para se ir pegando de vez em quando - talvez no dia em que me decida a escrever um livro de fio a pavio, talvez numa altura em que duvide de mim própria e destas minhas ambições literárias ou simplesmente numa altura em que me apeteça reler algumas das passagens que mais me inspiraram.

24
Jul20

A capa da Women's Health: inspiração ou frustração?

Nas últimas semanas meio mundo ficou de queixo caído com a transformação da "youtuber do momento". Helena Coelho passou de uma rapariga perfeitamente normal a uma mulher mega fit e capa de revista, com um tanquinho à maneira e um rabo de fazer inveja às inimigas. 

Nunca fui sua seguidora mas, no meio de tanto burburinho, tive de ir espreitar a Women's Health. No meio da pesquisa vi alguns dos seus insta stories onde contava tudo sobre o seu processo de transformação, dizendo que foi duríssimo, que teve de se aguentar imenso para não comer o que os outros comiam e que não era nada fácil resistir a certas tentações. Mas que, naquele momento, se sentia a mulher mais feliz do mundo.

Devo, desde já, dizer o seguinte: o corpo "inicial" da Helena Coelho (ou, talvez, o correspondente à segunda foto que conseguem ver abaixo) era o corpo que eu desejaria para mim. Não acho as mulheres muito musculadas particularmente bonitas. Gosto, sim, de ver um corpo tonificado, sem nada a abanar. São gostos, não se discutem, mas é um disclaimer importante tendo em conta o que vou dizer aqui para a frente.

Faz-me impressão que numa altura em que tanto se fala na normalização e aceitação do corpo da mulher, aquela seja a imagem do corpo perfeito. Aliás, o pior para mim é que o antes (aquele que eu considero mais bonito, com formas) seja considerado "o mau". Como é que depois podem vir para as redes sociais dizer que todos os corpos são lindos, que "para ter um corpo de praia basta ter um corpo", quando depois se apresentam assim? É lógico que 98% das mulheres se sente frustrada, compreendendo imediatamente que não tem um corpo à altura.

Uma coisa eu não nego: a Helena é uma inspiração, um exemplo de força e de superação. Tinha um objetivo - com o qual eu posso ou não concordar, gostar ou não gostar - e conseguiu atingi-lo. É de louvar! Mas faz-me confusão que só se tenha em conta o resultado e não o percurso; acredito que ao olhar para aquela primeira página nas bancas de todo o país, o dia de lançamento tenha de facto sido um dos mais felizes de sempre. Mas penso que este tipo de comportamentos têm de ser vistos a longo prazo: aquele estilo de corpo só se mantêm com uma alimentação sempre regrada, com a prática de exercício diária e planeada. Senão, ao fim de um mês, desaparecer e não passa daquilo: um momento, uma fotografia bem tirada com as sombras nos sítios certos. Se ela fala no período de mudança como algo duro, em que não pôde comer aquilo que lhe apetecia e em que tinha de treinar em dias em que essa não era a sua vontade... o impacto que isso teve, nesses dias, não conta? Só conta o resultado final?

Do meu ponto de vista, as pessoas que conseguem manter este tipo de corpo durante longos períodos de tempo são aqueles que são realmente felizes a fazer desporto, que o fazem até por necessidade (dizem que o "corpo pede"), porque foram habituados assim desde cedo. De resto, para a maioria, este tipo de vida é um sacrifício. Se assim naõ fosse não havia tantas pessoas gordinhas; não havia tantas desistências nos ginásios. Fazer exercício depois de um dia de trabalho particularmente mau é difícil. Comer uma salada quando os outros estão a comer pizza é difícil. E é assim para, sei lá, 98% das pessoas! Os outros 2% são de facto tão poucos que eu, assim de repente, só me lembro da Carolina Patrocínio. De todos os outros - desde famosos a conhecidos meus, que já atingiram objetivos do género -, recordo-me sempre de os ouvir dizer (e mesmo de ver com os meus próprios olhos) que aqueles corpos não passam de momentos (sessões fotográficas, provas, etc.), resultantes de um esforço particularmente intenso e que não é normalmente prazeroso. 

O que quero dizer é que uma capa daquelas faz a maioria das pessoas sonhar. Diz a Helena que o objetivo é fazer as pessoas acreditarem que conseguem. E é verdade que sim. Mas a que custo? Será que o custo-benefício vale a pena? Rotular aquilo como "o bom" e "o bonito" só vai fazer com que as pessoas que não conseguem lá chegar - e todos sabemos que são a esmagadora maioria - se vão sentir frustradas e, provavelmente, relacionar-se ainda pior com o próprio corpo. E é assim que uma capa que devia ser uma inspiração se transforma em mais uma forma de sentirmos que nos esfregam na cara aquilo que nós próprios não conseguimos.

 

Antes-Depois_1.jpg

(retirado do instagram da Helena Coelho)

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15
Jul20

Chávena de letras: "O Bibliotecário"

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Este é um bom livro de verão - uma obra leve que não exige muito de nós, que dá sempre vontade de virar a página e saber o que conta o capítulo seguinte. É um thriller com uma cadência cativante, que não deixa grandes margens para ficarmos entediados ou termos vontade de pousar o livro. Para os fascinados pela história do antigo Egipto deverá ser uma obra ainda mais entusiasmante, onde a verdade, a ficção e algumas teorias da conspiração se misturam num enredo que só por si já é atrativo. Nota-se uma preocupação do autor em contextualizar e precisar alguns pontos históricos, o que faz com que para além de mero entretenimento, possamos sair desta leitura mais ricos.

Ponto positivo a focar: o facto da personagem principal ser uma mulher que não se detém pelo medo do desconhecido e é levada pela vontade de conhecer mais. Pontos negativos: apesar de adorar a Emily, ela parece um bocadinho lerda inicialmente, não percebendo a dimensão do esquema em que se encontra e caindo em esparrelas básicas. Nota negativa também para a tradução: ao longo do livro há várias falhas - palavras não traduzidas, outras mal escritas, frases com uma formulação dúbia e pouco cuidado em alguns trechos, onde por exemplo se notava a repetição da mesma palavra numa só frase.
Fora isso, é um livro giro que bem entretém.

24
Mai20

Para ver na Netflix: uma série viciante

TigerKingReviewThumbnail.png

 

O trailer do The Tiger King é execrável. Mesmo. Quando começou todo o zum-zum à volta da série e eu me rendi a ver a sua apresentação só pensei: mas está tudo doido?! Mas depois li a opinião da Inês e decidi dar uma chance à série do momento. E fiquei agarrada.

"Americana". É o melhor adjetivo para descrever esta série. Acho que não há outro sítio no planeta onde aquela realidade (que se confunde com profunda loucura) seja possível. Nos EUA há mais tigres em cativeiro do que há no planeta inteiro em meio selvagem: é este o mote da série. E isto acontece porque as pessoas os compram e criam, quase de forma recreativa e doméstica, como se de gatinhos se tratasse. Alguns para entretenimento próprio, outros para fazer negócio: como é o caso do Tiger King, o protagonista desta série, que ganhou dinheiro graças aos felinos que tinha em cativeiro (e principalmente das crias que criava e comprava, de forma a mostra-las ao público e cobrar por fotos com elas).

Mas isto é ver a série pela rama. Para além de Joe King e daqueles que o rodeiam - maridos, amigos e funcionários - entram também outras pessoas do mesmo ramo de negócio. Já para não falar de Carole Baskin, uma acérrima defensora dos animais que se torna alvo de troça (e obsessão) por parte do "Rei dos Tigres" (isto em português soa muito mais foleiro). Pelo meio há um assassinato, divórcios, negócios comprados, incêndios... E muita loucura em cada pitada de episódio, que faz com que, incrivelmente, fiquemos agarrados do princípio ao fim.

Para além disto há dois ingredientes que me parecem essenciais para o sucesso deste mini-documentário. O primeiro é o facto de nada ser reconstituído: todas as imagens são reais, envolvendo todas as pessoas em causa. O segundo é a forma como o realizador joga com estas imagens, misturando-as com os depoimentos, para tornar a série muito apelativa - e, acima de tudo, nos fazer mudar de opinião sobre as personagens a cada episódio que passa. Seria lógico detestarmos o Tiger King - um louco, provavelmente criminoso e abusador dos animais - e sermos fãs das ações de Carole, a suposta defensora dos oprimidos no meio de todo este negócio. Mas será mesmo assim?

Vale a pena ver e cada um tirar as suas próprias conclusões.

 

(O último e oitavo episódio, acrescentado à posteriori e já em tempos de pandemia, é altamente dispensável e não acrescenta nada à série. É um follow up com algumas das personagens e uma forma que a Netflix arranjou para atrair ainda mais pessoas para a série e fazer a mesma render mais uns trocos).

16
Mai20

A importância dos humoristas

Em particular do Ricardo Araújo Pereira e do Bruno Nogueira

Algures em tempo de campanha para as últimas eleições (parece que foi noutra vida, não é? As arruadas com centenas de pessoas que não precisavam de estar a dois metros de distância uma das outras, enquanto entregam flyers sem luvas e sem pensar quantos micro-nano-bichos alguém pode ter lá deixado após um espirro acidental e  coisas do género) eu já queria ter escrito um texto sobre a importância dos humoristas. Aliás: desta nova vaga de humoristas que se consolidou nos últimos anos, que conseguem o mix difícil de não só nos fazer rir como nos chamar à atenção para a realidade. O que eu quero dizer é que há uma linha que separa o Fernando Rocha do Ricardo Araújo Pereira (RAP) e outra que separa o Salvador Martinha do Bruno Nogueira. Não quer dizer que uns sejam melhores que outros, mas são claramente diferentes. Provavelmente o que os distingue é que uns têm como objetivo fazer-nos rir; os outros querem que nos ríamos perante assuntos sérios.

Na altura, o mote do meu post era o impacto do "Gente que Não Sabe Estar", em que o RAP comentava (e gozava) a atualidade política e fazia entrevistas aos principais líderes partidários - tudo isto sempre com o seu toque de ironia e sarcasmo característicos. Pensei muitas vezes na preciosidade que ele tinha em seu poder e, por outro lado, o quão arriscado é deixar uma coisa tão importante nas mãos de um só indivíduo, que também terá a sua preferência política e poderá influenciar os outros sem que estes oiçam a outra parte. Isto porque, para mim, um programa destes tem muito mais impacto do que qualquer grande entrevista, debate ou outros formatos clássicos - e chatos - que se fazem nestas alturas. Chega às massas. As pessoas sabem que se vão rir e não vão adormecer; identificam-se com o que se diz em vez de sentirem que lhes estão a vender banha da cobra; percebem o que é dito e não se perdem no meio dos chavões lançados pelos políticos. Isto para além de conseguir fazer com que percebamos como é que são aquelas pessoas que nos querem representar, para além das suas ideias políticas. Têm sentido do humor, são boa onda, sabem rir-se de si próprias e safar-se quando as questões não são sobre o orçamento de estado? Isso importa. Hoje pouco se vota em partidos, esquerdas ou direitas; tendemos a personificar a política e é-nos essencial perceber quem são essas pessoas. E é por isso que para mim estes programas do RAP em tempos de eleições fazem mais pela política do que 99% dos outros programas e propagandas. Daí a sua importância.

Mas não só na vertente política o humor tem importância. Sempre o teve do ponto de vista do entretenimento: vai ser eternamente um escape e a forma de relaxar de muitos. Mas nesta altura de pandemia penso que foi mais que isso: foi uma tábua de salvação para a sanidade de muitos. E, neste caso, falo especificamente dos diretos feitos pelo Bruno Nogueira no seu Instagram, sob o nome "Como é que o Bicho Mexe". A "série" acabou ontem e uma amiga minha, que a acompanhava religiosamente, dizia-me: "e agora o que vou fazer à noite? Aquilo era essencial para mim! Quando o cansaço começava a bater e os pensamentos maus chegavam, por causa dos medos e da pandemia, lá vinha o direto do Bruno para eu me rir e esquecer tudo". E é verdade.

Já aqui tinha falado sobre esta ideia do BN no post em que nomeava algumas das coisas boas que surgiram graças (e durante) a pandemia. Não era espectadora habitual porque as horas do direto não eram compatíveis com o meu horário de sono - mas vi alguns momentos marcantes, como o Vhils a "construir" o Zeca Afonso na parede de sua casa no 25 de Abril, a Maria João Pires a tocar Debussy no seu piano de cauda e as homenagens que várias pessoas fizeram no dia da mãe às suas mães. E sinto que para além de uma mera forma de entretimento, estes foram episódios quase educativos, mostrando uma cultura muitas vezes não tão tocada ou popular. O Bruno deu a conhecer muita gente que estava nas margens - e mostrou algumas facetas de outras que já conhecíamos mas que se revelaram perante uma pequena câmara no conforto de sua casa, onde aparentemente ninguém os está a ver. Independentemente do número de vezes em que se disse e mencionou "cona", "caralho", "foda-se", "pila" entre outros vocábulos (até deste ponto de vista enriquecedores ao nível do vernáculo), o que BN fez foi importante. Para a cultura, para o entretenimento mas, acima de tudo, para as pessoas.

Isso viu-se ontem quando, após ter dado o mote para as pessoas que assistiam aos diretos colocarem luzes de Natal nas suas varandas, ele saiu à rua para testemunhar com os próprios olhos o impacto do programa que fez. Aliás: da companhia que fez às pessoas. O resultado foi uma mistura entre o hilariante e o emocionante, com milhares de pessoas às janelas e outras tantas na rua (eles iam dizendo ou mostrando onde estavam a passar), assim como a formação de autênticas comitivas atrás do carro adornado com luzinhas, onde ia com o Nuno Markl ao volante. Por vezes mal o conseguíamos ouvir, tal era a potência das buzinadelas e dos berros das pessoas que passavam. Foi uma espécie de procissão, vá, mas a um ritmo mais acelerado e mantendo a distância de segurança. No meio disto tudo a Georgina Rodriguez - a mais que tudo do Ronaldo - comenta, o Bruno liga e do nada dá duas de conversa com o CR7 (já deitado na sua caminha); um carro descaracterizado pela polícia coloca-se atrás deles, fazendo-os pensar que a brincadeira ia acabar, mas que queria só dar o ar da sua graça naquele último programa; o Cal Lookwood, o radialista do pólo norte que ficou famoso em Portugal graças ao Nuno Markl, também disse olá do outro lado do mundo (as maravilhas da tecnologia!); até uma ambulância que passou ligou o altifalante só para dar uma palavra de apreço. Tudo isto com 150 mil pessoas a ver - números que muitas vezes não são atingidos por programas de televisão em canal aberto.

O que aconteceu ontem foi uma demonstração de apreço como não me recordo de ver; foi o exteriorizar da importância que uma simples pessoa pode ter na vida de tantas, principalmente durante estes dois meses difíceis que todos vivemos. Não é fácil ter noção do impacto que estas coisas têm nas pessoas - no caso do RAP, que falei em cima, é impossível quantificar ou ter a certeza sobre aquilo que acho e sobre a importância que teve naquele período político - mas é certamente emocionante perceber que um número incrível de pessoas gosta e valoriza o trabalho de alguém, ao ponto de se dar ao trabalho de sair à rua ou pôr luzes de Natal na varanda em forma de agradecimento. Não sei como é que o Bruno Nogueira se aguentou ao longo daquelas duas horas loucas em que tudo aconteceu; também não sei se, durante estes dois meses, essa comunidade que se formou à volta dele percebeu como é que o bicho mexe. Aquilo que eu sei é que isto vai ficar na memória de muitos e revela bem a importância que o humor e a cultura têm na nossa vida.

 

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13
Mai20

Para ver na Netflix: uma série para nos inspirar

fyc-self-made-1180x520.jpg

 

A Octavia Spencer foi o isco para ter começado a ver esta série. Gosto dela, acho-a boa atriz e o trailer deu-me vontade de ver aqueles quatro episódios. "Self Made" é a história de vida da Madame C. J. Walker, tida como a primeira americana negra a tornar-se multimilionária. Para além de todos estigmas e preconceitos a que teve de fazer frente - se ser mulher no ramo dos negócios já é difícil, sendo negra ainda pior -, a personagem interpretada por Octavia Spencer é obrigada desde muito cedo a fazer pela vida, que nunca lhe é facilitada (tanto pessoal como profissionalmente, muitas vezes acabando mesmo por se misturar).

Dada a sinopse da série, e sabendo à partida que C. J. Walker se tornou multimilionária, não é difícil perceber que, apesar de tudo, esta mulher foi bem sucedida. Diria que o mote da série é ensinar-nos a ver para lá do óbvio e do sucesso aparente; perceber que por detrás de muito dinheiro está muitas vezes muito sofrimento envolvido. E, acima de tudo, lembrar-nos que quem luta por aquilo que deseja, mais tarde ou mais cedo, acabará por receber a recompensa do seu esforço.

Devo confessar que, destas 4 séries que destaco aqui (dos dois últimos posts e um que ainda vai sair a seguir), esta foi a que mais me desapontou (talvez pelos atores envolvidos e por ter gostado do trailer). Não pela história, que é interessante, mas por sentir que numa narrativa tão impactante - onde se fala não só do desprezo para com as pessoas de raça negra como das mulheres em particular - faltou uma espécie de moral, para fechar a história. Há algo que fica por dizer - ainda que não saiba dizer ao certo o quê. (Para os que já viram a série, concordam comigo? Acham que falta ali algo para esta ser excelente?)

Fora esta crítica pessoal, recomendo a série a todos - e em particular a quem estiver à procura de algo rápido e inspirador para ver na plataforma de streaming.

12
Mai20

Para ver na Netflix: uma série para conhecer

The-English-Game.jpg

 

Este é dos casos em que a sinopse engana. "The English Game" é mais - muito mais! - do que uma série sobre os primórdios do futebol. Para mim teve um extra muito interessante, porque tem como epicentro uma tecelagem (como a que dirijo), onde se retrata muito bem o fosso que existia na altura entre patrões e funcionários. É muito curioso ver como ambos os lados lutam em prol do mesmo fim mas de formas diferentes, nunca conseguindo fazer ver à outra parte o seu ponto de vista. Tão antigo e tão atual ao mesmo tempo, não é?

Mas, para além deste "pormaior" que é mais especial para mim do que para a maioria, esta é uma história sobre a luta entre classes - em que uma, que se tem como a "criadora" do jogo, não o quer ver ser corrompido e jogado por operários, que jogam em condições muito diferentes das dos outros -, a forma como umas não sobrevivem sem as outras e, acima de tudo, de como é a dignidade do Homem que faz a diferença no desfecho de uma história. Muitas vezes não só da sua, mas como também da dos outros e da sua comunidade.

"The English Game" não é só uma série para amantes de futebol. Sim: retrata bem o sentimento, a vibração e a sensação de união que o futebol consegue ter como nenhum outro desporto; retrata o sacrifício dos jogadores, a paixão e a compaixão (ou falta dela); retrata o evoluir de um desporto que hoje toda a gente conhece. Mas é, acima de tudo, para quem adora boas histórias e que gosta de as ver bem contadas.

Com uma fotografia lindíssima, personagens ricas e bem construídas, são seis episódios que nos deixam desejosos por mais - mas cujo objetivo já foi mais que conseguido, não fazendo sequer sentido continuar. Como se tudo isto não bastasse, há que juntar a delícia de ouvir recorrentemente o sotaque escocês. De realçar ainda que, como bónus, um dos protagonistas é Edward Holcroft - eu também não o conhecia... mas, caramba, vale a pena não ficar na ignorância!

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