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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

16
Abr21

Uma história com princípio, meio e sim! #6

Um pontapé no rabo das tradições

Não sou nem nunca fui supersticiosa. Tenho amuletos - uso certas joias, que pertenciam às minhas avós, em dias especiais e em que sinto que preciso de uma força extra - mas nunca acreditei em superstições ou ditos populares. Nunca percebi porque é que não podia passar debaixo de uma escada, abrir o guarda-chuva dentro de casa, ter chapéus em cima da cama ou não devia pousar a carteira no chão (aparte da questão óbvia da sujidade). Adoro gatos pretos e o número 13 é para mim tão válido como o 7, o 12 ou o 14; sou também a prova de que varrerem-me os pés não é sinal de ficar solteira para sempre (muitas foram as vezes em que a D. Joaquina, por brincadeira, me tirou o pó de cima dos pés - mas a verdade é que, se tudo correr bem, caso-me em breve!) e sei também que um mocho piar não é necessariamente sinal de morte, como ela própria dizia (embora a todos os minutos morra de facto alguém, não tem é de ser próximo). 

Fui ignorando - e até desprezando - todas estas lenga-lengas ao longo da minha vida. Sim, deixei de passar por debaixo de escadas e tirava os chapéus de cima da cama quando me chamavam à atenção, não porque acreditasse, mas porque não estava para contrapôr questões de fé e era mais fácil evitar certos atos do que chatear-me por causa deles.

Para meu grande azar o casamento é um ato recheado de superstições e tradições - a maioria delas parva e desnecessária, pelo menos para mim. Mas, para azar dos outros, o casamento foi também aquele acontecimento que eu tomei como mais meu; em que decidi deixar-me de medos e merdas, de opiniões, expectativas e desejos dos outros e fazer aquilo que de facto queria. Isto foi em grande parte impulsionado por tudo o que li nos vossos comentários, a maior parte dizendo que teriam feito isto e aquilo diferente (pois fizeram certas coisas por pressão dos pais, da família ou em nome da tradição) ou que, pelo contrário, não se arrependem um minuto de certa decisão que tomaram e que foi contra a vontade de todos. E o facto de não casar pela igreja é só a ponta do iceberg. Neste momento, todas as ideias que eu ou o Miguel tenhamos, parvas ou não, entram para a equação - e o que importa é que gostemos delas e que espelhem aquilo que somos. As opiniões alheias não passam disso: opiniões. Tenho ouvido muitas (e pedido outras, inclusivamente neste post), mas é nossa escolha ouvi-las ou não.

As tradições caem num saco em que eu ouço, mas não ligo. E, confesso, algumas dá-me até algum gozo contrariar. Vejamos:

Começa pelo facto de não se poder dormir com o noivo na noite anterior ao casamento. Oi?! Mas então eu vou dormir onde? Vou voltar a casa dos meus pais depois de um ano e meio a dormir com ele? A noite já será de certeza má, com o stress e a ansiedade, não é preciso estranhar a cama para ajudar à festa.

Isto faz com que nos vejamos na manhã do casamento, antes da cerimónia - o que, só por si, dizem que já dá azar. Uma chatice!

A ideia que a noiva tem de carregar "something old, something new, something borrowed, something blue" (traduzindo, "algo antigo, algo novo, algo emprestado e algo azul") é das que, apesar de igualmente parva, eu acho graça. Não vou trocar uma jóia que queira usar por uma outra só para cumprir com a superstição mas, a calhar bem, é capaz de ser a única coisa que me trará sorte neste casamento. E, pensando bem, a parte do antigo e do emprestado sempre implica alguma poupança - algo que, no que diz respeito ao casamento, nunca é de desprezar!

Pérolas. Não sabia, mas dizem também que a noiva deve usa-lás para uma casamento duradouro. Será por isso que tantas mulheres ficaram presas em casamentos infelizes durante anos a fio? Porque usaram pérolas e isso não deixou que se separassem? É que se o efeito é assim tão forte, prefiro não arriscar. (Mas, mais uma vez, nunca se sabe - tudo depende do vestido, que ainda não está sequer em fase de concepção).

E como a noiva não tem coisas suficientes para se preocupar, ainda tem de andar com uma liga pirosa na perna, a fazer comichão o dia inteiro, para depois o noivo (ou outra pessoa que pague - a sério que esta moda existiu?!) a ir tirar com a boca. É que é já a seguir!

Só para acabarmos com o tópico "beleza e roupa", falta a tradição mais enraizada de todas: o noivo e a noiva não podem ver as respetivas vestimentas até ao dia do casamento! Ou seja: a pessoa cuja a opinião mais me importa - aquele que quero agradar, a pessoa mais importante de toda a festa - é a única que não pode opinar. A pessoa a quem pergunto de manhã se estou bonita ou se a roupa me fica bem, não pode dizer nada sobre o vestido mais importante da minha vida. A pessoa a quem compro roupa e a quem dou sugestões de vestimenta é aquela que não posso acompanhar na prova. Faz tanto sentido, não faz? É como aquela lógica muita aplicada no nosso dia-a-dia... a lógica da batata, conhecem? Por mim, e se não fosse fazer a prova em horário de expediente, o Miguel vinha comigo. À falta disso, sobram as fotos, que já dão uma ideia mas sempre deixam o "wow" para o dia especial (embora o meu namorado fique sempre WOW num fato, quer seja em foto ou ao vivo).

Falta ainda outro clássico: ser "entregue" pelo meu pai ao meu noivo, qual mercadoria pronta a ser expedida. É muito provável que o meu pai me leve até ao altar, porque até agora não encontrei outra forma prática de fazer as coisas, mas já deixei tudo em pratos limpos: eu não sou propriedade de ninguém e não sou "entregue" a ninguém. Não vou deixar de ser de um para ser de outro. Não sou mais do Miguel a partir dali do que sou do meu pai. Serei sempre filha - mas posso não ser sempre mulher do meu noivo, embora espere que assim seja. Por isso não há nada que mude, a não ser o facto de ter uma aliança no dedo. Mas não seja por isso - estou sempre aberta a presentes do género por parte dos meus progenitores ;)

Há muitas outras que poderia falar e que não pretendo ter no meu casamento: a noiva chegar atrasada (porque faz parte dos princípios da boa educação, não é verdade?), o arroz atirado no fim da cerimónia (porque nestes dias a conversa do desperdício e de não deitar comida fora não é uma narrativa que interesse), os votos decorados por toda a população mundial ("na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe"), o lançar do buquet ou a abertura da pista de dança com uma valsa, seguida de uma dança com os pais e sogros. 

Porque da mesma forma que eu sei que não foi por ter usado um anel da minha avó que isto ou aquilo correu melhor, também sei que só há duas coisas que podem fazer com que este casamento acabe mal: eu e o Miguel. Não vai ser o facto de eu ver o seu fato ou ele ver o meu vestido, não vai ser por dormirmos juntos na noite anterior ou por eu não levar pérolas como adereço. Se o casamento correr bem e se formos casados até aos 90 anos, o mérito é nosso. Se um dia nos separarmos, a culpa é também nossa. Só muda o verbo, os sujeitos são os mesmos. E isso é independente de todas as tradições, superstições ou parvoíces que queiramos levar a cabo (ou não) num dia tão especial para nós. Da minha parte, eu passo. Se por ele estiver tudo bem - e porque, mais uma vez, só estes dois sujeitos importam nesta equação - tudo o resto é conversa. Literalmente.

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16
Mar21

Uma história com princípio, meio e sim 5#

!AJUDA DO PÚBLICO! O baile de um casamento pode começar de dia?

E assim se estraga o ritmo de escrita. Janeiro e a metade de Fevereiro foram um mimo, mas depois lá se foi tudo pelo cano. É quase paradoxal o estado de estagnação em que todos vivemos neste momento, comparando com o nosso estado de espírito; se por um lado me sinto também parada, inerte, com falta de fazer coisas, por outro estou cansada, extenuada como se andasse a mil à hora e o mundo estivesse a girar ao mesmo ritmo de há dois anos. É estranho.

E mais estranho ainda é estar a preparar um casamento neste ambiente. Apesar do processo não estar de todo parado, tudo o que é colossal está ainda em stand-by: eu não tenho vestido e ainda não fiz sequer a primeira prova com a pessoa que mo vai fazer; o noivo não tem fato (e ninguém tem coisas para vestir, de uma forma geral); ainda não voltámos à quinta depois da primeira visita, por isso ainda não decidimos nem experimentámos menus, nem conseguimos organizar a festa em si; e o casamento pelo civil, com todas as conservatórias fechadas, ainda nem sequer foi tratado. Por outro lado todos os detalhes mais pequenos já estão tratados ou escolhidos: alianças ainda não compramos mas já sabemos quais queremos, já temos cones de papel personalizados para colocar as pétalas, já temos caixinha para as alianças, alguns souvenirs, alguma decoração. Ah, e os convites! Muitos deles já foram entregues e, com a rapidez na resposta, não tarda nada e temos de nos atirar ao pesadelo de organizar as mesas.

Mas, neste momento, mais do que qualquer outra coisa, sinto-me muito preocupada com o planeamento da festa. Sinto-me uma incompetente ao tentar organizar um casamento - e uma festa - quando só assisti a dois casórios em toda a minha vida e nunca fui a festas ou entrei sequer numa discoteca. Pior: eu e o Miguel somos aqueles dois gatos pingados que ficamos sentados na mesa enquanto toda a gente faz a dança do quadrado em plena pista de dança, durante o auge da festa. Por isso a questão que se põe é: como é que esses dois seres, que neste caso são os noivos, vão realizar uma boa festa? Tenho muito medo que as pessoas saiam do meu casamento a pensar "que seca que isto foi"...

Aquilo que tenho feito é ouvir a opinião de pessoas conhecidas e que são, claramente, party people. Pessoas já calejadas em festas e casamentos, que sabem o que resulta ou que, pelo contrário, faz com que existam momentos mortos. Não sei quanto a vós, caros leitores, mas se também se encontram neste leque de pessoas que gostam de abanar o capacete (ou se simplesmente tiverem uma opinião pertinente a dar), ajudem aqui esta alma perdida.

Vou casar a um domingo. O casamento vai começar cedo, antes do almoço, de maneira a que aproveitemos bem o dia e que quem quiser sair cedo, de forma a poder estar acordado e decente para trabalhar no dia seguinte, o possa fazer. Isto não quer dizer que o casamento tenha de acabar à 1 da manhã obrigatoriamente; o que quero é que as pessoas que têm que sair a essa hora sintam que se divertiram e que aproveitaram todas as fases do casamento devidamente. Que partilharam um momento feliz connosco, que comeram, beberam e se divertiram à fartazana, mesmo que a festa não se alongue pela noite dentro. 

O plano é: casar - acepipes e fotos - almoço - corte de bolo - abertura de pista - jantar - continuar a dançar. A questão aqui é que a abertura da pista, a correr como planeado, vai ser durante a tarde - e aquilo que me parece é que as pessoas acham estranho dançar de tarde. Eu nunca fui de dançar - e, como tal, é-me indiferente fazê-lo de manhã, à tarde ou à noite. Mas há uma mística qualquer em relação à noite que eu desconheço e que deve também ter que ver com a bebida (que, só por acaso, eu também não consumo). 

No meio de todo este processo dizem-nos sempre que o casamento é nosso e que devemos fazer como acharmos melhor. Mas, por outro lado, também nos dizem que apesar de sermos nós a casar, a festa é para os outros. Dá-se uma no cravo e outra na ferradura, basicamente. Eu sei bem que este é o nosso casamento e tenho feito um esforço muito grande para o fazer à minha medida, sendo que planeio ignorar à grande algumas tradições amplamente implementadas. Mas a verdade é que seria impensável fazer isto totalmente à nossa visão: se assim fosse não haveria necessidade de haver álcool envolvido nem faria sentido haver pista de dança, pois nenhum de nós tem na dança um entretenimento. Por mim organizava a festa como faço (ou idealizo) um Natal ou um ajuntamento de família e amigos: com música, muita conversa e jogos de tabuleiro à mistura. Mas cedemos a algumas coisas porque é um casamento, porque faz sentido e há coisas que para todos os efeitos são obrigatórias para que todos estejam felizes e confortáveis - acho que seríamos linchados se, em vez de champanhe para brindar, puséssemos champomy porque nenhum de nós bebe álcool, não é?

A questão aqui é: qual a linha que separa as coisas "obrigatórias" das outras em que podemos mexer? Faz-vos confusão o baile ser de dia (ou pelo menos parte dele?? Qual é a mística que se perde? O que faz de um casamento um BOM casamento? Ajudem!

 

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11
Fev21

Chávena de Letras: "O enigma do quarto 622"

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Quinto livro de Dicker no cardápio e sua consolidação como um dos meus escritores favoritos da atualidade - embora esta não seja, para mim, a sua melhor obra.

O problema de se escrever recorrentemente livros muito bons é que a nossa expectativa fica demasiado alta - e a queda, quando se dá nesses casos, também é maior. Apesar da história, como todas as outras que escreveu, nos prender até ao fim do livro, este "O Enigma do Quarto 622" peca por alguns trechos um bocadinho parvos (deixo um pequeno excerto, que guardei mal li, por me parecer imediatamente ridiculo e digno de livro de crianças: "Arma ficou furiosa. Pegou numa esferográfica e, num gesto de raiva, cobriu de traços negros o rosto de Lev, antes de rasgar a fotografia, para o fazer desaparecer. Ah, como o odiava, a este destruidor de lares que destruía a vida do seu patrão!") e por uma série de recursos levados quase à exaustão - das reviravoltas na história até às analepses (demasiado) recorrentes. Chegam a ser a analisadas quatro fases da vida das personagens em simultâneo - e a certa uma altura já não sabemos muito bem em que patamar estamos. Isto dificulta muito a análise posterior da obra; depois de tantas "trocas e baldrocas" gostava de tirar algumas dúvidas a limpo (sim, nem todas as explicações me satisfazeram) e, de tanto andar para a frente e para trás, é quase impossível encontrar as respostas que procuro. Em 600 páginas, é como encontrar uma agulha no palheiro.

Diria que o autor se perdeu no meio da sua própria armadilha, em que normalmente prende os leitores, que não deixa que larguem as páginas até chegarem ao fim. É talvez um livro demasiado longo para o que seria necessário. Ainda estou para perceber se gosto, ou não, do facto dele se ter incluído a ele próprio no rol de personagens (mais: se ter escolhido como personagem principal). Vou investigar, mas creio que há algo de muito pessoal nesta história - talvez uma homenagem ao tal editor?

Apesar de tudo isto, é mais um bom livro para acrescentar à estante. Óptimo para se ler nas férias, quando temos tempo para ler as 600 páginas praticamente de uma só vez, enquanto a curiosidade nos corrói por dentro. O fim, esse, é uma reviravolta daquelas (quando achávamos que o golpe maior estava dado, zás, eis que Dicker saca do seu último trunfo). Nisso, o escritor é rei. E, talvez por isso, continue a salivar por cada novo livro que escreve.

07
Fev21

Seis coisas que considero importantes num currículo ou numa candidatura

No último meio ano passaram-me centena de currículos pelos olhos. Infelizmente para mim a tarefa ainda não está concluída. Foram cinco anúncios espaçados ao longo do tempo, muitos currículos analisados criteriosamente e colocados depois numa short-list, culminando numa dezena de entrevistas presenciais e uma pré-contratação em que me deixaram ficar na mão passado quatro dias (quando, no terceiro, me tinham pedido um adiantamento). Ou seja: ainda não encontrei a pessoa certa para o cargo que preciso de preencher. 

É um trabalho dupla ou triplamente frustrante, porque o recrutamento é algo que não me traz qualquer tipo de prazer e porque se está a mostrar infrutífero apesar de eu tentar ao máximo fazer tudo direitinho e de, aparentemente (?), andarem milhares de pessoas atrás de emprego. 

Recrutar pessoas é injusto, é dar não's não fundamentados e sim's sem o devido mérito. Um currículo não mostra nada daquilo que uma pessoa é - e isto serve tanto para o bom como para o mau. Há pessoas que se sabem apresentar e a sua imagem é sobrevalorizada e há outras que, não sabendo, ficam a perder, podendo até ser profissionais de mão cheia. Recrutar é ter de tirar conclusões de forma preconceituosa, recheadas de estereótipos. Mas quem recruta tem de começar por algum lado e seria impossível estar com todos os candidatos presencialmente - sendo o currículo o pontapé de saída para depois se avançar para algo mais. 

Há muita coisa que podia escrever sobre este tema - a falta de pessoas que de facto quer trabalhar e a quantidade ainda menor que se quer sujeitar a trabalhar numa indústria, a lata de algumas ao dizerem que só mandaram o currículo porque o centro de emprego obriga, a dificuldade que é fazer entender o que de facto precisamos e em que consiste o trabalho que estamos a oferecer... Enfim, sinto que contratar alguém para um trabalho não standartizado (caixa de supermercado, repositor de loja, enfermeiro, professor e etc.) é uma autêntica odisseia. Uma que preferia não estar a viver mas que vou ter de voltar a enfrentar (estou a aguardar que a pandemia abrande para poder voltar às entrevistas), porque estou desesperada à procura de alguém que de facto queira aprender, trabalhar e crescer dentro de uma empresa. É uma jornada de desalento, mas sei que tenho de ser a pessoa que mais acredita que é possível - ou, por outro lado, a última a perder a esperança. Há-de existir alguém. Hei-de conseguir. 

Até lá, das poucas coisas boas que posso tirar desta experiência é ter ganho a noção do que é estar do lado do empregador - e assim consigo, eventualmente, ajudar quem está do outro lado, mostrando aquilo que os empregadores (ou, neste caso, eu em particular) queremos e que achamos bom ou mau num documento de apresentação.

Deixo aqui seis dicas que considero importantes para quando estamos a elaborar um currículo ou a candidatarmo-nos a um determinado emprego. (Deixei de fora coisas básicas como "não mentir", suponho que já se saiba que isso não é suposto.) Ora cá vai disto:

 

1 - Ler os anúncios com atenção (ou evitar perguntas parvas e desnecessárias)

Se há coisa em que eu tive cuidado aquando da redação dos vários anúncios que coloquei foi ser detalhada. Quando estive à procura de trabalho sempre me fez muita impressão aqueles anúncios - que infelizmente são a maioria - meio misteriosos, em que não se dizia qual era a empresa, onde se localizava ou qual era o trabalho em si. Eu escrevi tudo. E, por isso, a primeira triagem fazia-se logo pela forma como as pessoas me abordavam a propósito do anúncio - se havia algo que me fazia à partida desistir de alguém (ao ponto de nem sequer abrir o currículo) era fazerem-me perguntas cuja resposta estava espelhada no texto do anúncio. "Onde fica a empresa?", "para onde mando as minhas informações?", "qual é o salário base?", etc. Mais uma vez, somos também aqui obrigados a generalizar: mas a ideia que fica é que de alguém pouco atento, curioso e criterioso. E, logo aí, fica fora de contas. Por isso é essencial ler com muita atenção tudo o que é dito e pedido, para não ficar excluído à partida.

 

2 - Colocar uma foto a fazer bico de pato ou a mostrar o decote como se tivessem vestido um corpete dos anos XIX vestido não vos vai garantir trabalho - quer dizer... agora que penso, depende dos tipos de trabalho (cof cof)

As fotos sempre foram algo a que nunca dei grande atenção, nomeadamente quando estava a trabalhar no meu próprio currículo. Mas isto foi no passado, quando não via as fotos que as outras pessoas colocavam nos seus CV's. Eu juro que não me acreditei quando vi metade das imagens que as pessoas colocavam delas próprias! Fotos com a língua de fora, com o famoso biquinho de pato; fotos claramente com outras pessoas, que foram cortadas da imagem sem dó nem piedade; fotos tiradas de cima, dando destaque a decotes vertiginosos; fotos que metiam medo ao susto, ao ponto de nem sequer vermos o currículo até ao fim. 

Nos dias que correm não acho nada importante ter no currículo uma foto tipo-passe, tirada nu fotografo. A fotografia que escolhi para o meu, por exemplo, foi tirada por mim própria num dos muitos auto-retratos que fiz que e acho que me representa bem - descontraída, arranjada e a sorrir.

Eu vejo (e analiso) o currículo como um todo, que convém ser coerente: temos de ter a consciência de que vamos ser escolhidos (ou não) com base naquilo que lá colocamos (que não é só informação escrita!). Se dizemos que gostamos e temos um curso de fotografia, não vamos ter lá uma imagem cheia de grão, desfocada e em que apareçamos desfavorecidos. Se dizemos que a simpatia é o nosso forte, também não convém colocar uma foto com cara de mau. Percebem? É claro que há limites para esta coerência: se forem pessoas muito divertidas e com uma vida social mega animada não convém pôr fotos na discoteca ou com amigos. Mas há que tentar mostrar quem somos através de todas as vertentes que nos é possível - e isso vai muito além da nossa formação e histórico profissional. 

 

3 - Sim, a idade conta e é importante incluí-la

Quando um recrutador analisa um currículo tem de saber ao certo o que quer - e, inevitavelmente, vai ter fazer julgamentos e tirar ilações de tudo aquilo que vê e lê. Mais uma vez, repito, as conclusões que se tiram podem estar erradas. Pode querer-se alguém mais novo porque à partida tem mais energia, mas nada nos diz que um individuo de 25 anos não é mais preguiçoso e inativo que outro de 50; podemos querer alguém mais responsável e achar que uma pessoa com família formada e uma idade mais avançada é o ideal, mas pode existir um "miúdo" nos seus 20's com uma experiência de vida e responsabilidades muito maiores que alguém com 50 anos. A margem de erro é sempre grande, mas não temos outra alternativa senão tirar conclusões precipitadas e esperar que a lógica esteja a nosso favor - sendo que a triagem final é feita presencialmente, onde se tentar ter um "cheirinho" daquilo que é mesmo real.

Isto tudo para dizer que, de facto, é injusto avaliar alguém pela idade - mas ela define-nos, ainda que não sempre de forma correta. Colocar a nossa idade/data de nascimento no CV ajuda o empregador a fazer uma triagem, pois normalmente tem-se uma ideia do público-alvo ideal para o cargo que se quer ocupar. E se de facto for algo importante, o dado já esta lá; se não for, é só mais um detalhe que se passa a frente. A diferença é mesmo se esse elemento não estiver presente e for importante; a probabilidade de guardarem o currículo para perguntarem é pouca - normalmente esse vai para a pilha dos eliminados e passa-se ao próximo, na esperança que tenha toda a informação que lá esperamos encontrar.

 

4 - E sim, o local onde moram também pode pesar

Este ponto é mais importante para quem vive em grandes cidades - penso que é um problema que se dilui quando se trata de locais mais pequenos ou no interior. Morar perto do trabalho é uma vantagem enorme pois pode evitar constrangimentos no trânsito e no estacionamento ou, para outras pessoas, evitar grandes viagens de transportes públicos (com os quais uma pessoa nunca sabe muito bem com que contar, em termos de horários). Para além disso, há que fazer uma avaliação honesta: tendo em conta o salário que se vai pagar, vale a pena chamar alguém que vive a 30kms e tem de fazer esse percurso diariamente, pagando portagens e gastando gasolina? Mais uma vez, o empregador está a assumir algo sem fazer perguntas ao verdadeiro interessado - e eu digo, mais uma vez, que na realidade não há outra hipótese... De qualquer das formas, diria que este é dos pontos que menos pesa caso encontremos a pessoa certa e soubermos que é aquela que queremos.

 

5 - Os currículos Europass são overrated

Se há uns anos os Europass eram o que se queria (para todos os efeitos são mais fáceis de analisar, pois têm todos a mesma estrutura, embora possam ser densos e pesados), acho que hoje não é bem assim. Sendo totalmente honesta, a mim, dão um bocadinho a ideia de desleixo. Aliás, depende da idade: percebo que pessoas mais velhas, com mais dificuldade em mexer em softwares ou fazer pesquisas mais elaboradas, não passem de um editor de texto; já gente mais nova, que durante toda a sua vida teve em contacto direto com novas tecnologias, já não me parece tão bem. Não é preciso uma coisa XPTO - só algo bonito, minimamente trabalhado, para demonstrar que de facto houve empenho na elaboração daquele documento (o que, por acréscimo, dá a ideia de que de facto se trata de alguém que quer mesmo arranjar um trabalho).  

 

6 - Os currículos podem ser iguais - as cartas de apresentação não

A verdade é que para cada candidatura devia haver um currículo; consoante aquilo que é pedido devemos destacar certas coisas, diminuir outras, tirar coisas que potencialmente nada acrescentam (e com isto não estou a dizer para esconderem nada!). No fundo, potenciar a nossa apresentação. Mas eu sei que para quem precisa e manda uma dezena de currículos por dia isso é impraticável. E, como tal, a solução está nas cartas de apresentação (que pode ser mesmo isso ou, simplesmente, a descrição de um email).

Mas atenção: até aí é preciso saber o que se está a fazer. Dizer que se é "assíduo e pontual' faz-me lembrar os tempos de escola, em que no final de cada período éramos obrigados a fazer a nossa auto-avaliação e a justificar a nota que almejávamos. Mas a escola já lá vai - e ser assíduo e pontual não é uma qualidade que devamos assinar, pois à partida devia ser uma obrigação. Devemos chamar à atenção de especificações sobre nós mesmos que, para o posto de trabalho em questão, sejam pertinentes. Que somos engenhocas e que nos tempos livres gostamos de nos dedicar à bricolage; que em pequenos tínhamos o sonho de ser veterinários e por isso fazemos voluntariado numa associação que alberga animais; que temos uma escrita muito fluida porque desde criança que escrevemos diariamente. Tudo, desde que seja contextualizado. Ninguém quer saber se um trolha escreve desde os três anos; mas se gostar de bricolage e tiver jeito para tudo um pouco, pode ser um belo investimento e adição a uma empresa.

 

Como disse acima, há muito mais coisas que poderia aprofundar sobre este assunto. Será que vale a pena?

01
Fev21

Uma história com princípio, meio e sim! #3

Casar pela igreja? It's a no for me!

O casamento pela igreja era uma não-questão. Isto porque era daquelas que, para além de saber bem aquilo que queria, era também dos tópicos em que eu não iria ceder (isto tendo em conta o noivo que tenho; se fosse alguém extremamente devoto, a história poderia ser diferente).

Se há coisa que eu prezo na vida é a coerência - foi assim que fui ensinada e é algo que gostaria de manter. Se é verdade que as pessoas mudam, também o é que não mudam assim taaaanto. A minha parca ligação com a igreja é algo constante - em nenhuma fase da minha vida fui praticante ou tive um contacto mais presente com a religião. Sou batizada mas, para além disso, só pus os pés em igrejas para funerais e casamentos (nunca fui à catequese). Costumo dizer que sou católica pela cultura que tenho e pelos princípios com que rejo a minha vida - a preocupação com o bem do próximo, a solidariedade, etc.

Tenho fé - mas não é algo que caiba dentro dos "parâmetros" normais, justificada por um Deus. Não a encontro em locais de cariz religioso. A minha fé materializa-se no acreditar numa qualquer forma de perpetuação das pessoas que já partiram e que fizeram parte da minha vida; sinto a sua presença em pequenos detalhes do dia-a-dia, e em mim própria, em várias ocasiões... e é nisso que acredito. Mas, para mim, isso em nada tem que ver com a igreja. 

Diria até que, ao nível da igreja-instituição, a minha relação tem-se vindo a degradar. A ideia dos peditórios, dos dogmas, das ideias fixas e pouco flexíveis e os escândalos afastam-me cada vez mais desse tipo de práticas.

O curioso é que embora sempre tenha gostado de marcar a minha posição, a religião é um tema muito sensível, sobre o qual tive dificuldade em impor o meu ponto de vista numa fase inicial da minha vida. Apesar de nunca ter sabido qualquer tipo de reza, não gostava de estar calada numa igreja onde todos pareciam saber os cânticos e os rituais; tinha a tendência de mexer os lábios para dar a ideia de que estava a dizer algo e procurava manter um ritmo natural daquele levanta-senta chato a que somos submetidos em todas as missas. Cheguei até a fazer uma leitura no funeral da minha avó e a andar com o cestinho a fazer a recolha das dádivas! E esse foi o ponto de viragem.

Aquela não era eu. Nunca fiz parte de grupos e nunca me preocupei por não fazer parte de um rebanho - pelo contrário, sempre me orgulhei disso. Porque é que ali, naquele sítio, tinha de ser diferente? Porque é que tinha de fingir saber fazer algo que de facto não sabia? Porque é que tentava fazer parte de algo que não me dizia nada?

Deixei de me benzer quando entro numa igreja. Deixei de mexer os lábios durante a missa. Deixei de me sentir pressionada naquele ambiente tão cheio de rituais e aceitei que não os sabia. Sento-me e levanto-me à medida que os outros o fazem e não me importo de ser a última a fazê-lo. Recusei fazer uma leitura no funeral do meu avô. Porque se é para ser coerente, é para o ser em toda a linha. 

Por isso, relativamente ao casamento, não é preciso dizer nada, pois não? Se nunca fui praticante, porque me havia de casar pela igreja? Por ser bonito? Por ter um altar? Por ser costume? Não.

Não me esqueço de algo que o padre que celebrou o casamento do meu irmão lhe disse. Podendo falhar-me aqui alguma coisa na sua narrativa, a ideia é que hoje em dia só vamos à igreja em três ocasiões, transportados pelos 3 C's: primeiro por um carrinho, quando somos batizados; depois de carrão, quando casamos; e por fim de carrela, quando morremos. Eu quero ser coerente e quebrar este ciclo. Quando fui batizada não tive escolha (e, honestamente, não é algo que me afete) - mas hoje, adulta, acho que devo ir de encontro às minhas crenças e as minhas práticas (ou, neste caso, à falta delas). Se não frequento a igreja no dia-a-dia, também não me faz sentido lá ir num dia que para mim é tão importante.

Nos dois casamentos a que fui, ambos os padres, de diferentes paróquias, fizeram menção a esta hipocrisia em que todos vivemos mas que fazemos questão de assobiar para o lado de cada vez que nos toca a nós. Que devíamos frequentar a igreja no dia-a-dia, não só nestes dias especiais; que as igrejas não eram só para este tipo de celebrações. E a verdade é que estão corretos - estão a pedir coerência.

Aqui entre nós, devo confessar que quando vejo aquelas fotos dos noivos de joelhos no altar, compenetradíssimos nos seus pensamentos, penso para mim: "será que eles estão a fazer o que eu faço durante a missa inteira? A pensar o que vou fazer para o jantar durante a próxima semana ou que emails ainda tenho por responder?".

No dia do meu casamento eu quero ser feliz - e isso implica, provavelmente, quebrar tradições e fazer o menor número de fretes possível. Não quero uma celebração chata, num local que não me diz nada para além da sua beleza arquitetónica e regida por alguém que acha ter em si a palavra de um Deus em que não acredito. No meu casamento eu quero ser eu. E, como tal, a igreja nunca esteve na equação. 

 

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29
Jan21

Chávena de letras: "A Amiga Genial"

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Mal percebi o estilo de escrita de Elena Ferrante fiquei de pé atrás: se por um lado tem uma beleza própria (que muitos descrevem como "crua"), por outro não é claramente aquilo de que costumo gostar. Não se pode dizer que seja um estilo descritivo - mas é, de algum modo, exaustivo. O facto de se tratarem de memórias, de todos os eventos relatados serem fruto de ações passadas, faz com que lhes sejam sempre acrescentadas análises e pensamentos que tornam o livro, embora mais interessante, também mais massudo. Há poucos diálogos, poucas movimentações imediatas. O livro vai ao sabor da vida, no fundo; da vida das duas amigas.

Percebi a razão deste fenómeno relativamente cedo; acho que muitos se devem rever nestas memórias, nas zangas e peripécias de infância e de adolescência, do tempo passar muito rápido nuns momentos e lentamente noutros; das mudanças de humor repentinas, nas mudanças de corpo que por vezes nos parecem igualmente rápidas; calculo que seja fácil esteriotipar os nossos amigos em personagens como Alfonso, Enzo ou Gino; se calhar até mesmo na relação entre Lila e Lenú, que me parece tudo menos saudável e me causou desconforto durante a maior parte do livro. Senti que a parte mais feliz da minha leitura foi quando, finalmente, se separaram - no fundo, acho que não passa da minha personalidade rabugenta a falar a mais alto, enquanto remói no pensamento de que se é mais feliz só, do que mal acompanhado.

Mas, acima de tudo, percebo a dificuldade que é contar bem uma história que não tem muito que contar - e Ferrante, quer gostemos ou não do estilo, fá-lo de forma exímia. É a vida, no fundo. Nem sempre há histórias para contar, nem sempre há um herói ou um mau da fita, não tem de se tirar uma moral de tudo o que se lê (ou vive). Enfim... É a vida, com tudo o que de entediante e entusiasmante tem nas suas diferentes fases.

Resta a questão: vou ler os seguintes? Confesso que não sei. Gostei da história e das personagens ricas, mas não sei se sou capaz de manter uma leitura entusiasmada quando sair do regime de férias (em que 80% do meu tempo pode ser dedicado à leitura) e voltar à vida normal; sinto que este é um livro que necessita de alguma concentração e que ganha se a sua leitura for seguida e feita num período relativamente curto - muito por culpa do elevado número de personagens, muito intrincadas entre elas, que por vezes acabam por se confundir na cabeça do leitor. Os próprios acontecimentos, suas relações e desavenças acabam por se misturar se não estiver tudo bem fresco e claro. Como a escrita, mais pesada e exaustiva, não me puxa por aí além, e por achar que não vou conseguir manter o ritmo que acho desejável para esta história, a minha continuidade nesta tetralogia ainda está em dúvida.

01
Nov20

Uns são filhos (os supermercados) e outros são enteados (os feirantes)

Há uns dias vi o vídeo do Gustavo Carona (podem ver aqui) e não podia estar mais de acordo. O Covid é um problema sério, que não podemos ignorar - e não é nos hospitais que ele vai ser resolvido. É nas ruas, é nas nossas casas, é nas empresas. Está literalmente nas nossas mãos - essas, que carregam tanta coisa invisível, e que hoje tomam uma importância extrema no que diz respeito ao transporte do vírus ou à sua eliminação (se as lavarmos e desinfetarmos bem e corretamente).

Concordo também com ele no facto de isto não se poder tornar numa luta política - não interessa quem está no poder. De direita ou esquerda, uma coisa eu sei: não queria estar naqueles calcanhares. Não tendo qualquer empatia com as pessoas em questão (e não comungando com muitas das suas convicções políticas), eu não queria ser primeira-ministra, não queria ser ministra da saúde, não queria ser a diretora geral da Direção Geral de Saúde. E há que respeitar as posições que estão a tomar - porque nenhuma vai ser boa e nenhuma vai ser fácil e todas serão controversas.

Mas há aqui um erro generalizado que está a revoltar a população: chama-se falta de coerência. Não deixam as pessoas ir ver um jogo de futebol, ao ar livre, num estádio com espaço para mais de 50 mil indivíduos; mas deixam que exista público na fórmula 1. É para ricos, não é? Também deixam que se vá às touradas. É para chiques, não é? E o Avante? É para camaradas, pois claro.

A mim não me afetam as restrições - dou-me bem com regras e sou boa a respeitá-las. Não me importo de não sair do concelho, não me importo do dever cívico de um recolher obrigatório (embora não possa exercer o meu trabalho em casa, sendo obrigada a fazer a minha vida normal), não me importo de usar máscara na rua, não me importo de esperar na fila do supermercado para não sermos 5628 pessoas à volta da mesma peça de fruta.

Mas importo-me com os contra-censos que mencionei acima. Revoltam-me mais estas cedências estúpidas - em prol de favores, de dinheiro, de tudo o que não devia contar - do que as próprias pessoas envolvidas nestes atos, que apesar de inconscientes só estão lá porque à partida a cancela não estava fechada. E sei que não me revolta só a mim: revolta-nos a todos, porque não é preciso ser nenhum génio para perceber as incongruências que existem.

Sobre as medidas que saíram ontem para os concelhos com risco elevado (que incluem as cidades onde moro), mais uma vez, acato e respeito o que foi decidido - mas a última medida, que proíbe que se façam feiras e mercados, mexe comigo até aos ossos. O Covid afetou-nos a todos: psicologicamente, pelo medo e pelo tempo de confinamento; fisicamente, principalmente àqueles a quem o bicho já pegou e sofreram consequências físicas; e financeiramente, para quem perdeu o emprego, para quem viu os seus postos de trabalho ou empresas em lay-off, para quem perdeu inúmeras oportunidades de negócio num ano que se queria promissor. Serão muito poucos os que beneficiam disto - eu olho à minha volta e não vejo ninguém. Mas a mim ninguém me obrigou a deixar de trabalhar - mas aos feirantes, que vendem bens de primeira necessidade, acabaram-lhes com o negócio. O Continente pode operar, o Pingo Doce, o Mercadona e o Mini-Preço também; mas uma feira ao ar livre, sem ar-condicionados, sem carrinhos que são manipulados por milhares de pessoas e sem tapetes rolantes podem trabalhar. Aqueles que o estado segura e promove; as Sonae's e Jerónimo's Martins desta vida, que mais do que dinehiro, movem influências. Mas os feirantes - pessoas como nós, sem as contas cheias de zeros e sem amigos na assembleia -, que acordam todos os dias às tantas da madrugada para andarem com as tralhas às costas, de sítio para sítio, para se fazerem à vida e terem o seu ganha-pão, têm de ficar em casa.

Eu, podendo, deixava de ir a super-mercados - ia sempre à feira. Estar antes das oito da manhã a fazer compras ao ar livre é terapêutico para mim - e a qualidade daquilo que compro é infinitamente melhor. A minha sopa não é a mesma se não for feita com as coisas que compro vindas da terra, ainda sujas, ali da Póvoa do Varzim.

Mas a D. Carolina já não me pode vender batatas, alho-francês, courgete ou agrião.

A senhora das flores já não vai estar lá com aqueles raminhos bonitos que dou semanalmente à minha mãe.

Já não posso ir comprar a manga do Algarve à D. Carla, nem a uva sem grainha ou o melão doce que me deixa sempre experimentar antes de comprar.

Não posso ir comprar os fidalgos da minha mãe à senhora que me chama sempre "meu amor".

O senhor das árvores de fruto já não me vai dizer que trouxe, finalmente, os pêssegos-paraguaios carecas para eu plantar no quintal.

Por isso hoje, mais do que pelas multidões na Nazaré, concertos ou filas para o que quer que seja, estou triste - e revoltada! - pelas pessoas que todas as semanas me enchem os armários, o frigorífico e a alma. Pelas pessoas que me tratam com empatia, que me aconselham aquele fruto em vez daquele, que me deixam pagar na semana seguinte se se apercebem que não trouxe trocos suficientes. Tudo o que não acontece num supermercado, onde eu - como todos - sou tratada como um número e constantemente enganada por cupões e cartões e cadernetas autocolantes. 

É incoerente, triste e, acima de tudo, revoltante. 

16
Set20

Chávena de Letras: "O Tatuador de Auchwitz"

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Um bom livro não vive só de uma boa história. Não sei se por "ter vindo" de uma obra em que a escrita era central e crucial (sendo que a história tinha na escrita o seu pulmão de oxigénio, por não "sobreviver" sozinha) ou por ter, simplesmente, um sentido crítico apurado: achei que este livro pobre no que à escrita diz respeito. Falo a todos os níveis: desde o vocabulário, passando pela fraca construção frásica e uma escrita demasiado básica (pontos finais a cada oração, falta de qualquer frase mais trabalhada), pelo parco trabalho na construção das personagens, terminando naquilo que me parecem trechos cheios de "arestas", que não viram a mão de um editor. Não sei que culpa é que a tradução poderá ter no meio disto tudo. Mas continuo a achar estranho a (tão) alta pontuação que é atribuída ao livro.

Acho ainda que o tema dos campos de concentração é abordado pela rama; não sei se sou só eu, mas apesar das atrocidades relatadas, este acaba por não ser um livro pesado. As personagens têm sempre um fundo de esperança que confere à obra uma aura mais leve do que aquilo que esperaria - o que, sendo bom por um lado, por outro acaba por lhe tirar um pouco de credibilidade (porque não há nada de light quando se fala em Auschwitz).

Não obstante, esta é uma bonita história de amor, que sem dúvida mereceu ver a luz do dia. Destaque positivo para o destaque de uma das dualidades mais duras do holocausto: colaborar com os agressores para sobreviver ou morrer com a dignidade intacta. Creio que o peso dos crimes que foram praticados pelos judeus contra judeus, principalmente dentro dos campos, é das questões que mais deve ferir um povo - já para não falar da consciência de quem os praticou.

25
Ago20

Chávena de Letras: "A Única História"

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Julian Barnes é perito em (d)escrever memórias. Mas memórias a sério, de forma fidedigna, com tudo a que têm direito. Narrar uma história no presente é muito diferente faze-lo enquanto se pensa no passado; não se trata só da precisão e dos detalhes que damos (ou não damos, quando contamos alguma coisa de memória, onde algo inevitavelmente nos falha), mas também da perspectiva que ganhamos da nossa própria história.

A nossa visão muda ao longo dos anos - uma queda no presente não tem graça, mas somos capazes de nos rir quando já tiverem passado uns anos. Da mesma forma, o mesmo desgosto amoroso não tem a mesma intensidade na altura em que o vivemos e volvidos uns anos, quando o lembramos; e o mesmo se passa com todo o processo de enamoramento com alguém. A memória tira detalhes e encantamento e normalmente acrescenta uma pitada de racionalidade.

É nisto que Julian Barnes é bom, a fazer este jogo de lembranças e seus confrontos com o presente. Mas se "O Sentido do Fim" me conquistou imediatamente e é ainda hoje um dos livros que recordo com maior carinho (apesar da história praticamente me passar ao lado), "A Única História" não teve a mesma capacidade. Embora tenha achado à partida a narrativa interessante - a ideia de relembrar o amor da nossa vida, todo o processo de enamoramento (e a forma como é visto pelos outros) e, depois, o confronto com os problemas que qualquer relação acarreta, este não me cativou por aí além e, de certeza, não me ficará na memória como a primeira obra que li do autor.

20
Ago20

Chávena de Letras: "Patagónia Express"

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A classificação que dou a este livro (4 de 5 estrelas) aumentou uma estrela na última página. Gostei muito do início do livro, achei a terceira parte algo confusa (e confesso que não sei se percebi totalmente algumas metáforas e comparações que foram feitas), mas o final - a pescadinha de rabo da boca - conquistou-me totalmente. Não considero que isto sejam crónicas de viagem, mas sim um conjunto de textos que, vistos como um todo, são uma imensa declaração de amor.

É dito inicialmente pelo autor que estes eram textos guardados "na gaveta", pelo que se compreende à partida que não tenha de existir uma linha lógica entre as partes (e até entre capítulos). Isto pode, ou não, abonar a favor do livro - dependerá do leitor. Se houve partes e personagens que me conquistaram, outras ficaram aquém.

Ainda assim, gostei. Sepúlveda tem uma escrita poética, limpa e doce. Tenho pena de só ter começado a explorar a sua obra agora (tinha lido um livro do autor antes, ainda na escola, numa leitura conjunta - o que não abonou a favor do livro), tendo a certeza que a sua partida precoce é uma das grandes perdas de 2020 no campo da literatura.

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