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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

02
Jun18

Hoje em dia é tudo instagram

Carolina

Acabei o último post dizendo que não havia instabooks. A verdade é que não me dei ao trabalho de procurar, esperei simplesmente (e esperançosamente) que eles não existissem - porque, hoje em dia, existe tudo o que é passível de ser “instagramável”, que é como quem diz “tudo o que fica bem na fotografias”. O que tem tanto de bonito como de fútil.

Pensei muito nisto no Brasil, onde o meu primeiro momento de “pânico” na viagem foi quando achei que ia integrar uma comitiva de instagramers, bloggers e influencers. Percebi que o hotel estava pejado delas logo no primeiro pequeno-almoço, quando uma rapariga passou cerca de vinte minutos a tirar fotos aos seus pratos e a fazer instastories de todo o material comestível disponível no buffet. Quando eu digo vinte minutos, foram mesmo vinte minutos: ao ponto de nem sequer chegar a vê-la comer! Mexia um prato, trocava outro, tirava a foto de 47 ângulos diferentes, fazia zoom in e zoom out... e nisto o café já devia estar frio. Notei também devido à presença constante de câmaras e de telemóveis e, claro, pela forma como elas se vestiam só para ir comer, demonstrando que não eram pessoas da mesma "classe" que todas as outras presentes na sala. Entre maquilhagens e vestidos esvoaçantes, tenho a certeza que passavam mais tempo a arranjar-se para ir comer antes de ir para a praia do que eu costumo demorar antes de ir para um qualquer evento de maior importância - o que é indiferente, desde que elas gostem... mas que não deixa de ser uma prisão para elas, porque Deus-me-livre de ir tomar o pequeno-almoço com o cabelo apanhado e as olheiras de quem acabou de acordar! Não vá alguém pedir uma foto, claro! ;) E foi por isso com o maior alívio que eu percebi que não ia andar com elas no evento. Se me senti desintegrada com os três jornalistas que me acompanharam nesta viagem, se tivesse de andar com elas sentir-me-ia pior que o patinho feio durante quatro dias. 

A situação mais caricata que vivi durante aqueles dias foi numa das minhas manhãs na praia. Estava deitada a ler o meu livro na areia e surge um grupo destas raparigas, em conjunto com um fotógrafo, prontas para uma sessão fotográfica. Uma vem educadamente falar comigo e diz: "olá, desculpe incomodar! Posso pedir um favor a você?". Respondi que sim. "Pode emprestar o seu livro, para tirar uma foto?". Eu não sei precisar a minha cara naquele momento, mas deve ter sido engraçada. "S... sim." E entreguei o livro de João Pinto Coelho à brasileira, que prontamente se deitou na espreguiçadeira, abriu a obra em parte incerta e fingiu ler com muito afinco. Uma série de disparos depois, vem entregar-mo, rematando: "ao menos o livro é bom?". "Muito bom", disse-lhe, esperando que ao menos fizesse boa publicidade ao livro de um autor português. (Poupo-vos a pergunta: apesar dos meus esforços em encontrar a blogger em questão e a foto em particular, as minhas pesquisas foram infrutíferas).

Toda esta necessidade de tirar fotos para ficar bem e parecer melhor mexe-me um bocadinho com as entranhas. Não é só tornar a realidade mais bonita do que aquilo que ela é: trata-se de mentir mesmo. Eu tenho noção de como é que tudo isto funciona e estava lá nesta situação em particular - e em todas as outras, enquanto comiam os seus próprios cabelos esvoaçantes à medida que andavam sensualmente pela praia, quando o mar lhes dava chicotadas nas costas e elas pareciam estar a saborear o cheiro a maresia ou em puros momentos de narcisismo ou mesmo má-educação, enquanto tiravam selfies a meio dos desfiles. Mas a verdade é que muita gente não sabe disto - principalmente as miúdas mais novas, que acham que os pequenos-almoços são sempre incríveis, que aquelas pessoas que seguem têm tempo para ser lindas, bonitas e cultas ao ponto de até lerem na praia, pensando que tudo é um mar de rosas.

A verdade é que hoje em dia é tudo para o Instagram. Eu vejo aqueles fatos de banho com 59 fitas espalhadas pelo corpo e sei que nenhuma influencer que se preze quer ficar com aquelas 59 marcas no corpo; sei que são fatos-de-banho para a foto. Vejo aquelas agendas com frases inspiradoras e percebo que são apenas para "flatlays" perfeitas. Reparo naqueles saltos assustadoramente finos e sei que a foto deve compensar a dor nos pés ao final do dia. E vi muitas, muitas vezes todos aqueles sorrisos momentâneos, enquanto a câmara se apontava para elas, e que se desvaneciam imediatamente quando olhavam para o ecrã, já com o dedo pronto para retocar e esconder qualquer imperfeição.

Esta rede social ganhou uma dimensão ainda mais irreal do que o facebook, na medida em que tudo tem de ser bonito e perfeito; em que não só as fotos são 100% cuidadas como o próprio feed é mexido com muito carinho e amor, qual bonequinho de porcelana. Acho incrível - no bom e no mau sentido - como é que alguém tem paciência para prever o seu feed antes de publicar uma foto, só para perceber se o "conjunto" fica bonito e coerente. Porque, aparentemente, a vida para estas pessoas é isto: a beleza de tudo, em tudo. E eu não acho mal que se veja o bright side of life. No meio das minhas pesquisas para encontrar a blogger-do-livro, deparei-me com fotos incríveis da praia e do resort onde estive e pensei "bolas, aquilo era assim tão bonito?". De facto elas tornam o banal em algo incrível, transformam o bonito em tendência. Mas, pelo meio, espelham uma vida irreal que (mesmo inconscientemente) todos acabamos por ter como referência: porque queremos aquele pequeno-almoço completo e de aspeto delicioso, queremos um rabo sem estrias, queremos os biquinis mais giros do mercado, queremos aquela maquilhagem perfeita, queremos as viagens, queremos aquele carro XPTO, queremos o relógio em promoção, queremos um fotógrafo que nos tire aquelas fotos bonitas. Só nos esquecemos que a vida é também tudo o resto. Tudo o que não é instagram. Se calhar, tudo o que é de mais real. Basta pensar num cozido à portuguesa: pouco bonito e fotogénico, mas delicioso e autêntico. E a verdade é que há um mar de coisas estilo cozido à portuguesa espalhadas por aí.

30
Mai18

Desculpem, mas preciso de falar sobre a eutanásia

Carolina

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Nunca fui muito de pensar na morte. Desde muito pequena que é um assunto que me perturba muito, pela perda e pela incerteza do que vem a seguir, pelo que é algo que eu conscientemente evito pensar. Mas, curiosamente, a eutanásia e a morte assistida sempre foram dois temas que me interessaram e, depois do chumbo de ontem no parlamento a propósito deste tópico, senti urgência em escrever. Já há muito que evito temas polémicos, mas dei por mim a não adormecer à noite por estar perturbada com o assunto.

Isto porque não consigo conceber o porquê de tanto drama à volta disto. À parte de questões de regulamentação, legislação e afins, este devia ser um problema “simples”. Mais simples que o do aborto, por exemplo! Não se trata de uma sentença de morte, de uma decisão dos outros: é uma decisão nossa, sobre a nossa própria vida, quando ela muitas vezes já nos tirou os meios de fazermos o que quer que seja com ela. É um direito, devia ser uma liberdade - tal como é liberdade eu decidir ir jantar fora e comer quatro hambúrgueres, tal como sou livre de fazer um piercing ou laquear as minhas trompas (puristas dirão que estou a mutilar o meu corpo - e no entanto eu posso faze-lo). É o meu corpo, a minha vida. E, em situações normais, eu sou também livre de acabar com ela. Sou livre de me atirar da ponte, de tomar 40 comprimidos de uma vez, de cortar os pulsos. Quem não é livre são aqueles que, por doença, já há muito estão presos no seu próprio corpo e não podem tomar nenhuma destas decisões. Por estes dias, só estamos a confirmar o quão enjaulados eles estão nos próprios corpos, que já não estão em condições de carregar almas.

Todo o ruído que se ouve em volta deste assunto agonia-me. Em alguns casos enoja-me. Dizerem que o Serviço Nacional de Saúde serve para curar e não para matar é simplesmente ídilico - morrem todos os dias centenas de pessoas nos hospitais, muitas vezes em condições degradantes, e ninguém se preocupa com isso. Pergunto-me quantos médicos já terão praticado "a eutanásia", por mera misericórdia (e a pedido desesperado dos doentes, claro), mesmo sabendo que não podiam; por terem percebido que aquele voto que fizeram sobre salvar a vida de alguém já estava totalmente inválido naquele caso; por respeito pela dignidade humana, por pena de um ser em sofrimento, por verem que não há mais vida ali para ser vivida. Eu desconfio sinceramente que muitos já o terão feito.

A argumentação dos cuidados paliativos passa-me ao lado - estes devem ser melhorados, trabalhados e fomentados (força nisso!), mas não deviam ser a única alternativa quando estamos em fase terminal. É um caminho diferente, paralelo. Há dores que a morfina não tira - em particular a dos outros, que sofrem com o doente - e há pessoas que não querem chegar àquele estado de degradação. Porque é que temos simplesmente de aceitar o nosso destino, se sabemos que ele vai ser miserável e vai causar sofrimento não só a nós, mas também aos nossos? Temos de esperar pela decisão de Deus - esse, que eu e tantos outros não acreditamos que existe? 

O que aconteceu ontem entristeceu-me profundamente. Porque conheço casos, porque acho que nesta situação me consigo pôr no lugar do outro, porque já desejei que um ente querido morresse para não o ver sofrer mais e porque sei que não estou livre de um dia uma destas situações me bater à porta. Nem eu, nem ninguém. E eu acho que todos aqueles deputados que ontem votaram não, se um dia se virem em situações onde eles próprios ou os seus passam o dia com dores crónicas, diarreias constantes, bacias constantemente atestadas com vomitado, algálias enfiadas em sítios que não queriam e toda a sua qualidade de vida anulada e confinada a uma cama, vão pensar no momento em que tomaram essa decisão. E no egoísmo que foi e no sofrimento que se podia poupar a tantos, que vão ter de continuar a esperar. A esperar pela sua morte ou esperar que a sociedade mude de ideias em relação ao que fazer sobre a vida de cada um de nós. Que hipocrisia, acharmos que podemos mandar assim na vida dos outros.

(A sorte deles - e a nossa sorte - é que agora é uma questão de tempo até isto mudar. Tal como mudou com o aborto. Tal como mudou com o casamento gay. Porque, cada vez mais, cada um sabe de si. Graças a Deus! - irónico, não é?)

17
Mai18

Narcos: o retrato de uma realidade que preferíamos nem conhecer

Carolina

 

Tenho de confessar que foi um parto difícil. Comecei a ver Narcos há uns dois meses atrás: no início com uma frequência quase diária mas depois – e principalmente na terceira temporada – com cada vez mais espaçamento entre episódios. Ah, e com a Casa de Papel pelo meio – com tanto frenesim à volta da série espanhola, vi-me obrigada a trocar o sotaque colombiano pelo espanhol durante uns tempos, para matar a curiosidade.

Acho que uma coisa é consensual: esta não é uma série levezinha, para se ver à sexta-feira à noite e ficar bem-disposto. Pelo contrário – é violenta, é dura, é crua. Mas acho que também falo pela maioria quando digo que, dentro do género, é espetacular.

Gostei mais das duas primeiras temporadas do que da última – a constante procura pelo Pablo Escobar apimenta a coisa, enquanto que os últimos episódios, embora bons, não têm aquele je ne sais quoi. O facto de o Murphy - uma das personagens centrais nos dois primeiros conjuntos de episódios - desaparecer sem razão aparente não ajuda (trazia algo à série, embora o Peña tenha sido sempre aquele com maior jogo de cintura) mas acima de tudo acho que isso acontece porque, ao longo da série (e embora saibamos o seu desfecho, porque é algo biográfico), acabamos por simpatizar com o Pablo e pensar “como é que ele vai dar a volta desta vez?”. E sim, eu sei que isto é uma coisa horrível de se dizer. Pablo Escobar era um assassino da pior espécie, um terrorista (ainda nós não ouvíamos falar da Al-Qaeda e já ele tinha mandado um avião abaixo, entre tantos outros exemplos) da pior espécie. Mas, para mim, uma série é boa quando nos consegue pôr a gostar dos maus da fita. E embora aqui seja necessário ter em mente que aquele homem existiu mesmo e que fez mal a milhares de pessoas (milhões, se contarmos com as vidas arruinadas pela droga), é impossível não vibrar com toda aquela perseguição.

Por falar em bons e maus da fita, este é outro dos aspetos positivos da séries: nós percebemos que, em casos como estes, não há os bons. São todos maus; os objetivos é que são diferentes. Os meios que usam e a forma de agir é igual, porque chega-se a um ponto a que só lutando com as mesmas armas é que se consegue chegar a algum lado.

Tal como aconteceu com o The Crown, ainda que numa dimensão diferente, esta série deu-me uma perspetiva muito interessante e penso que muito mais realista daquilo que se vive nestes ambientes. Não imagino o que seja governar um país literalmente ingovernável, que quem manda é quem tem todo o dinheiro, comprando tudo, todos e qualquer sítio por onde passam. É incrível perceber as mudanças de planos e de “equipa” e, acima de tudo, o poderio que um grupo deste género pode ter numa ou mais sociedades. E também é interessante refletir sobre o pouco que nos chega acerca disto aqui na Europa, onde pessoas não são diariamente mortas às mãos de cartéis, que mais do que matar a sangue frio, o fazem de forma organizada e planeada, como qualquer bom terrorista.

A todos os que não sejam sensíveis (há muito sangue, muita violência e sexo quanto baste) e se sintam atraídos pelo tema, aconselho vivamente. Agora vou virar-me para o Orange is the New Black. Depois dou notícias ;)

19
Abr18

Desconcerto... desconcertante

Carolina

Na terça-feira fui ver o Desconcerto, com a Luísa Sobral, o Miguel Araújo, o António Zambujo e o César Mourão. Não sabia ao que ia - acho que ninguém sabia. Na verdade, com estes quatros nomes em palco, uma pessoa nem precisa de saber para o que vai - sabe simplesmente que vai ser bom. E foi.

O espetáculo consistia num conjunto de momentos, pré-pensados, que davam origem a músicas, compostas e feitas completamente de improviso (ou com apenas pouquíssimos minutos para pensar no assunto). O primeiro "número" consistiu, por exemplo, em fazer uma canção sobre a mala de uma das senhoras da plateia - o César Mourão (que era, no fundo, o cicerone de todo o espetáculo) vasculhou a mala em causa e foi sacando algumas informações acerca da vida pessoa, enquanto a Luísa e o Miguel iam compondo uma música com aquilo que iam ouvindo e o Zambujo pensava na melodia. 

Esta ideia é espetacular se não houver erros de casting na escolha das pessoas da plateia; o espetáculo passa a viver muito daquilo que elas dizem, do à vontade que têm, do seu sentido de humor e disponibilidade. E, infelizmente, houve alguns... chegou a apetecer-me gritar coisas como “inventa qualquer coisa, mulher” ou “sorri, estás no palco com a nata da música portuguesa neste preciso momento!”. Mas contive-me (com esforço...).

Acima de tudo, aquilo que senti - e que me fez adorar aquelas duas horinhas - foi que a grande diferença deste para um concerto normal era a proximidade artista-publico. Nós estávamos lá dentro, era como se fôssemos da família. Já tinha ido a espetáculos de todos eles (exceto do Mourão, porque comédia não é propriamente a minha praia, embora lhe ache graça) e sempre senti a inevitável distância do artista para com a sua plateia, ainda que que eles sejam calorosos, queridos e interativos com quem está à frente deles. Mas aqui era diferente - também pode ter ajudado o facto de eu estar na primeira fila e sentir tudo ali a acontecer - porque eles agiam de uma forma natural e pouco programada... levantavam-se para ir ao computador escrever a letra, iam buscar a folha à impressora enquanto os outros tocavam, paravam as musicas para rir um bocadinho e trocar uma piada e acho que o Zambujo até foi à casa de banho enquanto se esperava por uma letra. Pareciam mesmo simples pessoas, sabem? Nós tendemos a esquecermo-nos disto quando os artistas estão em palco.

Mas depois percebemos que eles não são simples pessoas (e refiro-me maioritariamente à Luísa e ao Miguel). Podem ser pessoas como nós (que o são, obviamente, mas percebem a ideia) mas têm um dom que as pessoas simples não têm. Improvisar musicas e letras é uma coisa - o Mourão é mestre nisso, como todos sabem. Mas compor coisas incríveis em cinco minutos é outra. Não se trata de escrever - isso até eu faço com uma perna às costas - mas sim de criar um poema, bonito, musical e às vezes até com simbolismo por detrás, com coisas corriqueiras ou até parvas ouvidas há um par de minutos. É incrível.

Eu sempre achei estranho o processo de construção de uma música e, por ser uma realidade que me é alheia, pensei que era algo difícil. Mas depois disto, ao ouvir músicas feitas em dez minutos e que eu compraria e consumiria, sem problemas, no caminho para casa em plena rádio, percebi que quem é bom nisto o faz com uma perna às costas. É um dom, ponto final. E apesar dos outros dois serem muito bons, caraças!, a Luísa e o Miguel são do melhor! Já era fã deles, mas saí de lá completa e totalmente rendida - só tenho pena de não ter podido repetir a dose, porque este é o género de espetáculo que se pode ir quatro vezes seguidas e ser sempre diferente.

Não sei de onde é que, de um momento para o outro, apareceram tantos músicos portugueses tão bons. Há dez anos "música portuguesa" era sinónimo de pimba, fado ou algo com um toque meio revolucionário. E depois veio isto. Um misto perfeito: pessoas simples (mas com dons), simpáticas e com reis fora da barriga, que constroem cenas lindas, tão profundas como leves, bonitas e incríveis. E o melhor é que a tendência se está a reproduzir e nascem em Portugal cada vez mais artistas incríveis. E toda a gente que gosta de música sabe que há poucas sensações tão boas como a inspiração profunda que se sente durante e depois de um bom concerto, não é verdade?

 

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06
Abr18

La Casa de Papel: pormenores de papel numa história de ferro

Carolina

Troquei Narcos pela Casa de Papel. Já aqui o confessei: não me dou bem como info-excluída. Estou habituada a ser uma outsider em tudo, mas no que diz respeito à cultura gosto de saber do que se fala e ter também a chance de mandar palpites e meia dúzia de bitaites. E falava-se tanto e tão bem desta série espanhola que eu - por agora - troquei o castelhano "acolombianado" do Narcos (só me faltam uns cinco episódios) pelo espanhol serrado de nuestros hermanos. E fui com as expectativas mesmo muito elevadas. Talvez por isso tenham caído um pouco por terra.

 

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Acabei ontem de ver a primeira temporada - foi quase cronometrado, mesmo a tempo de ver a estreia da segunda, que está a partir de hoje no Netflix - e fiquei desiludida. Isto porque acho que quase tudo na vida se torna muito bom devido aos detalhes - quando eles estão lá e estão bem, nós nem damos por eles; quando eles falham, por vezes tornam-se “pormaiores”. E acho que há muitos detalhes que faltam nesta Casa de Papel, uma série com uma bela ideia original mas que peca por pequenos erros de execução e de lógica que me custam a engolir. Para mim, tornam aquilo que poderia ser uma série de excelência numa boa série; fica uma história de ferro um bocadinho fragilizada com os seus detalhes pobres e maleáveis como o papel. Acredito que muito daquilo que eu reparei passe em branco para os outros: ora porque estavam mais interessados ou concentrados na trama principal, ora porque não estão para pensar muito, ora porque não estão suficientemente atentos para os notar. Eu ia com as expectativas em alta e a partir do momento em que reparei na primeira “falha”, fui engatando nas outras todas.

Quero, no entanto, dizer que isto são “falhas” para mim - já tive esta discussão com pessoas que menosprezavam completamente os detalhes que a mim me fizeram comichão. O problema para mim está no facto desta série ser (em teoria) uma representação da realidade: existe a casa da moeda, existem assaltos onde há reféns. Ou seja, é algo feito “neste mundo”, o que implica que exista alguma coerência e coesão na construção da história e dos seus detalhes. Eu não ouso criticar Game of Thrones, Harry Potter ou os Hunger Games, tão simplesmente porque os autores podem dizer “mas foi assim que eu imaginei”. São coisas irreais. Todos sabemos que não há dragões, que as vassouras não voam e que não vivemos em Panem. Eles podem fazer o que quiserem. Por isso é que se distingue a ficção do fantástico - uma coisa é uma interpretação da realidade, outra é a criação de uma realidade completamente diferente!

 

 

Acho as personagens bem construídas e complexas o suficiente para dar sumo à série, mas isso às vezes leva às tais incongruências que falei acima - sentimos que já começamos a conhecer aquela pessoa e, do nada, ela tem uma ação completamente diferente daquilo seria de esperar, por tudo aquilo que nos foi mostrado anteriormente. E para encerrar este capítulo de críticas, resta-me acrescentar que há cenas desnecessariamente longas: não sobre o assalto em si, mas sim sobre as histórias paralelas. Acho que, para uma mini-série, tudo tem de ser medido com muito cuidado para não ficar desproporcional - e às vezes, para além da dimensão pessoal de cada uma das personagens ganhar uma importância muito grande, passam-se minutos a ver coisas que já se tinham percebido à partida.

E agora passando à parte boa e óbvia: a série é absolutamente viciante, senão não tinha o sucesso que está a ter. Muitos dos episódios terminam em cliffhangers e às vezes, por muito sono que tenhamos, não temos alternativa senão ver o próximo. Nesta ótica, a série está muito bem pensada e construída - ao ponto de mesmo quem está um bocado irritado por todos os "errinhos" e "falhas" que acima mencionei, continuar a ver aquilo como se não houvesse amanhã. As reviravoltas constantes, a emoção e (eu diria mesmo) o desespero para saber se tudo vai resultar prende-nos sempre ao ecrã. Ponto muito positivo também para a fotografia (belos contrastes entre os cinzentos e os vermelhos) e para a banda sonora. Entre a "My life is goin on" e a "Bella Ciao", poucos sairão do sofá sem cantarolar aquilo que por lá se ouve.

As personagens são empáticas e carismáticas, principalmente os assaltantes. Alguns dos reféns sofrem do mal dos clichés e algumas fragilidades, mas todas as personagens conseguem arrancar-nos algum sentimento - quer seja pelo lado positivo como negativo. E, como dizia o outro, não importa o que sentes - o que importa é que sintas algo. E, vá lá, vamos à pergunta que se impõe: qual é a minha personagem preferida? É difícil escolher entre a Nairobi e a Tokyo, não consigo... E o fofinho do Rio? Não dá. Mas digo-vos: aquele corte de cabelo da Tokyo está a tentar-me seriamente...!

Por fim, dizer que é óptimo estarmos todos a alargar os nossos horizontes a uma série que não é americana, onde não se fala inglês e que, ainda para mais, é feita aqui tão perto - dá-nos a noção de que não é preciso atravessar o Atlântico para se ver e fazer coisas de qualidade. Concluo com aquele que, para mim, é um dos pontos chave da série: ela põe-nos a torcer pelos maus da fita! Aposto que não há ninguém que a veja e que torça pela polícia. É impossível! Agora resta saber se eles se safam.

Vou ali ver à Netflix e já volto. 

06
Mar18

Vamos pôr a conversa em dia sobre o Festival da Canção

Carolina

Este foi o primeiro ano em que vi o festival da canção. Acho que não fui caso único - muitos dos que nunca viram, começaram a ver; muitos dos que já tinham desistido, voltaram a assistir; e, pelo estilo da coisa, os que antes eram acompanhantes assíduos, agora já podem não achar graça à coisa. Digo isto porque para além de todo este fôlego que o Salvador Sobral deu ao Festival da Canção, é impossível não dar os louros à RTP, que deu uma volta de 180º ao programa. Se compararmos este novo formato com aquele em que a famosa Suzy ganhou, parecem ser duas coisas completamente diferentes - e é natural que os fãs de um não sejam precisamente os fãs do outro. Ainda que a diversidade musical continue a existir - não houve, este ano, nenhum exemplo "pimbalhão", mas podia - o antigo festival era muito mais "popularucho" e fraco, tanto em letras, como em melodias, passando por interpretes e mesmo autores.

E foram estes dois últimos factores que mudaram no formato - e que mudaram mesmo "o" formato. Diria mesmo que os autores e compositores foram a chave de tudo, mais ainda que os intérpretes. Isto porque, este ano em particular, acho que houve músicas incríveis com interpretações muito más. O problema é que as músicas têm de ser avaliadas como um todo e não se pode passar uma canção só por ela ter uma letra bonita. Para além disso, ouvindo apenas a música uma vez, aquilo que nos fica é a ideia que o intérprete nos passa (tanto vocalmente como fisicamente) - não conseguimos prestar a atenção devida à letra, nem à construção da melodia. Essa é a maior razão para muitas pessoas não terem gostado da "Amar pelos Dois" o ano passado - a figura do Salvador é estranha, com todas aquelas caretas e movimentos de mãos que muitas vezes o fazem parecer um autêntico totó. Se calhar, se a ouvissem na rádio, gostariam da música logo à partida: mas a presença do intérprete, naquele caso, pode ter sido um obstáculo.

Este ano não aconteceu o mesmo no que diz respeito à presença dos artistas, mas não tenho dúvidas de que muitas músicas foram altamente prejudicadas pela escolha do/a cantor/a. O exemplo mais óbvio é a música "Anda Estragar-me os Planos" que, para mim, tem a letra mais bonita de todas. É in-crí-vel. Mas a interpretação é feita de uma forma tão sorumbática, estranha, grave, meio monocórdica e pouco convicta que vai tudo pelo cano (a figura e a sua presença também não ajudam). A melhor forma de vermos isto é tendo um termo de comparação. Basta ouvir a interpretação da Joana Barra Vaz apresentada no festival e uma do Salvador, que ele colocou no seu facebook, e ver a diferença. Esta música, na voz dele, voltava a ganhar os prémios todos.

O mesmo acontece com a "Só Por Ela", de Peu Madureira. A letra é muito bonita, a melodia também - mas aquele estilo faduncho deu um tom pesado à música, quando ela, cantada docemente, se torna algo completamente diferente. A prova? Está aqui, no instagram da Carolina Deslandes, que a interpreta incrívelmente. Não tenho dúvidas que esta seria a música vencedora se tivesse sido ela a cantar. Sei que havia muita gente fã da música conforme ela foi apresentada, mas acho que não batia a cara com a careta. Faltava ali algo. E aquilo não era fado, mas também não era outra coisa qualquer. Era incoerente e de certa forma inconsistente. E a música, mais uma vez, não era a culpada - mas sim quem a cantou.

Mas falemos da vaca fria: a música vencedora. Estão prontos para o que eu vou dizer a seguir? De certeza? Estão bem sentadinhos? Então pronto: eu gosto da canção. Mais uma vez, não adoro a interpretação. Mas como disse, neste caso, não temos outra hipótese senão avaliar as composições como um todo - e de tudo o que nos foi apresentado na final, esta foi a que eu mais gostei. Para mim, "O Jardim" e a "Para Sorrir Não Preciso de Nada" - as que estiveram taco a taco para vencer - têm imenso em comum. Tanto a voz da Catarina Miranda como a Claúdia Pascoal são dois vidrinhos - parece que se vão partir a cada nota que atingem. Eu não sou apreciadora desta característica, nao adoro vozes frágeis e muito menos quando se posicionam lá em cima, nos agudos - e, na verdade, acho que também o público gosta de vozes mais seguras. Em ambas há a sensação de que desafinam, quando na verdade (pelos a mim, que não sou um expert) elas simplesmente tremem com a voz, porque é assim que cantam. Se isso dá um efeito estranho? Dá. Se acontece mais com a Claúdia Pascoal? Acho que sim. E acho que a Catarina Miranda terá outra imponência, tanto na voz como na presença, mas no final foi a música que contou. Nem sequer vou avaliar se a emoção da Pascoal é, ou não, sincera (já vi muito escrito sobre este tópico); para mim, prevalece o facto da letra ser mais bonita, fazer mais sentido, ter dor, luto e esperança nela contida. Na outra música, não sinto grande coisa. Mas, curiosamente, outra coisa que penso que têm em comum é o facto de primeiro se estranharem e depois se entranharem - não gostei de nenhuma delas quando as ouvi pela primeira vez, e fui apreciando à medida que as fui ouvindo e conhecendo melhor (ao ponto de já ter feito uma versão minha, ao piano, d'"O Jardim).

Aquilo que ninguém podia esperar era que acontecesse o que aconteceu o ano passado. É verdade que o festival melhorou imenso, mas não podemos ter sempre músicas brilhantes; não podemos ter sempre combinações música-autor-compositor-arranjo perfeitas. Eu lembro-me como se fosse ontem da minha pele de galinha quando ouvi apenas cinco segundos da "Amar pelos Dois". E isso é raro. E se não ganhámos a Eurovisão durante cinquenta e tal anos, também não podemos agora exigir, quais ditadores, que ganhemos outra logo de seguida.

Eu não conheço as músicas dos outros países, não sei a competição que vamos ter, mas por todas as razões e mais algumas penso que não vamos trazer o troféu para casa. O trabalho da Isaura e da Claúdia Pascoal vai ser ingrato, pois vão estar sempre na sombra do Salvador Sobral e à luz de todas as comparações. Mas não acho que vamos fazer má figura. Pelo contrário. Mais uma vez, acho que é uma música que sabe tocar, mesmo quando não sabemos o que está lá "escrito"; tem alguma alma e só precisa de ser aceite e mais rapidamente entranhada, em vez de estranhada. E acho injusto tudo aquilo que se anda a escrever, entre plágios (a sério? agora virou moda?) e artistas dizendo que "esta canção não representa o povo e a cultura portuguesa". O que é uma música que representa um povo? Vamos lá cantar o hino? Vamos falar do bacalhau e dos pastéis de nata? Da corrupção e do Palácio de Belém? Dos Descobrimentos e do Pedro Álvares Cabral? É como no ano passado, quando meio mundo dizia que a música do Salvador não era música de festival. Pois não era. Talvez por isso é que ganhou.

05
Mar18

Os vestidos dos Óscares (ou o convite que motivou toda aquela desgraça)

Carolina

Já se sabia que este ano os Óscares iam ser marcados por todos aqueles movimentos anti-assédio sexual e pró-poder feminino, tal como havia acontecido nas outras entregas de prémios - embora, daquilo que eu vi, até tenha sido tudo bem mais ligeiro que nas outras cerimónias. Foi light em tudo, aliás: foram muitas as figuras de peso que faltaram a esta gala e nada do que por lá passou teve o fator "uau" ou sequer o esforço para o ser (cadê aqueles vestidos enormes, que ocupavam 2/3 da passadeira ou aqueles grandiosos e todos aprincesados?).

A cor e a diversidade voltaram à passadeira vermelha, mas não deixou de haver elos comuns entre a maior parte das celebridades. O primeiro é que apesar de podres de ricos, famosos e de terem à disposição os melhores estilistas do mundo, conseguem a proeza de se vestir horrivelmente; o segundo foi o convite que muitas das senhoras receberam e que eu, graças aos meus connects em Hollywood, tive hipótese de dar conhecer. Ei-lo:

 

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É verdade. Para além do típico dress code de gala, este ano houve muita gente que recebeu este convite especial. E, como bons cumpridores que são, eis os resultados - para todos os gostos e feitios:

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Maminhas-aparentemente-tortas:

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Maminhas-quase-a-fugir-pela-lateral:

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 Maminhas-aparentemente-escondidas-mas-pouco:

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Maminhas-de-facto-escondidas-mas...ups!:

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Maminhas que precisavam de mais pano e um bocadinho menos de gravidade. Ou "ai-valha-me-deus-que-isto-está-a-transbordar!":

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Maminhas-que-não-têm-segredos-até-ao-umbigo:

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 Quanto a todos os outros que não receberam este convite especial, aqui vai disto:

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 Selma Hayek ainda não despiu o fato de pequena sereia que usou no Carnaval. Até o cabelo ainda está assim meio molhado-visgoso, recheado daquela gosma especial que envolve estas criaturas míticas. Aqueles acessórios que traz por cima ainda são os colares que recebeu no Mardi Gras.

 

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 Não interessa se não gostamos do vestido, se não gostamos da senhora, se está fora de moda ou lhe fica mal. Isto é tudo uma questão de inveja. Rita Moreno usou este vestido nos Óscares há 56 anos atrás. E com 86 anos em cima voltou a caber no vestido que usou com 30. Sambando na cara das inimigas. Eu não caibo na roupa que tinha há dois anos, quanto mais!

 

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 Não me digam que houve matiné no cabaré ali do lado e ninguém avisou a rapariga que hoje não se podia entrar pela porta das traseiras?!

 

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 A Camilla veio arranjar o cabelo a Faro e, quando ia embora, passou-lhe aquele mini-tornado por cima. Nem a laca a safou.

 

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Em todas as festas recebem-se prendas indesejadas. Daquelas muito direitinhas e insossas, sabem? E o pior é que continuam a sê-lo mesmo que sejam bem embrulhadas com um laço gigante. Blhec.

 

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 Nem quero acreditar que a Emma Stone me fez isto. Não quero olhar, não quero ver, não quero saber. Espero ao menos que a reunião de negócios de que ela acabou de sair tenha corrido bem.

 

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 Acho a Gina Rodriguez uma fofinha e apesar de também ter recebido aquele convite especial, soube usa-lo da melhor forma. Foi um dos meus favoritos.

 

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 A Emily Blunt ainda não conseguiu despir o papel de rainha do gelo de um filme que interpretou em 2016. O vestido não é mau, só o conjunto vestido-cabelo-pele-fundo é demasiado branco. Um bocadinho de auto-bronzeador há três dias atrás e estava um brinco.

 

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 Da rainha do gelo passamos para o calor de Baywatch. Foi só acrescentar as pernas ao fato-de-banho e voilà.

 

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Será que a Viola andou pela passadeira a mascar pastilha elástica? Com aquela cor de vestido, aquele decote, aquele penteado e aquelas argolas... o lugar mais improvável para ela estar nestes preparos é mesmo os Óscares. (Fui só eu que comecei a cantar "Chiclete, prova! Chiclete, mastiga! Chiclete, deita fora! Chiclete, sem demora!" quando viu isto?)

 

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 The statue itself. Esta tem mais de quatro quilos... mas pouco.

 

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 É um real infortúnio ser engolida por um pedaço de relva precisamente no dia das cerimónia dos Óscares.

 

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 Desculpem... quando eu falei em vestidos grandiosos não era isto que eu queria dizer.

 

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Vê-se logo que esta senhora é uma boa dona de casa. Primeiro porque sabe a melhor técnica de todas para limpar o linóleo da cozinha (rabo no chão e trapos vestidos) e segundo porque aquelas unhacas são ideias para limpar os restos de comida que ficam presos naquelas tampas cheias de orifícios dos robôts de cozinha. Aliás, aquelas coisas que ela tem lá coladas ainda são restos do almoço.

19
Fev18

O parafutebol (ou como o Bruno de Carvalho contribui para a degradação do futebol português)

Carolina

Tinha os meus nove anos e era louquinha pelo FCPorto. Nem digo por "futebol", porque eu estava-me pouco borrifando para os outros clubes. Eu era do Porto. Ponto. Via os jogos, punha o cachecol com o símbolo ao peito e fazia de tudo para ir ao estádio. Era - e sou - orgulhosamente sócia, mas também era miúda e fazia coisas que eram de miúdos. Detestava Lisboa, dizia mal do Benfica a todo e qualquer benfiquista que se aproximasse mais de dois metros de mim e gozava pelos campeonatos que, na altura, eles perdiam consecutivamente.

E depois cresci. Fui ficando com menos tempo para ver futebol e portanto aquela febre clubística que eu tinha foi desaparecendo. Isto coincidiu também com uma fase menos boa do FCPorto e, tudo junto, fez com que tivesse mais juízo, racionalidade e imparcialidade no que ao futebol diz respeito. Mas também fui ficando mais crescida e percebi que aquilo que eu fazia era típico de uma idade e que estava na altura de deixar isso para trás. Deixei de irritar os outros - e até de demonstrar grandes clubismos em público, a menos que esteja num local próprio para isso. Por um lado porque deixou de me dar prazer, por outro porque percebi que um dia são eles, no outro sou eu, e aquilo que eu um dia digo pode cair-me em cima no outro a seguir (estás a ler isto, Sousa Tavares?). E com isto tiro também a capacidade dos outros me irritarem - algo que acontecia sempre que diziam mal do meu Portinho - pelo menos quando falamos de atitudes dentro do limite do razoável. 

Continuo a adorar de paixão o meu clube. Agora que sou maior de idade já posso ir ao estádio sem um pendura e estou numa fase em que acabo por falar bastante de futebol, por só trabalhar com homens um tanto ao quanto fanáticos. O Porto está a recuperar e por isso eu tinha tudo para revitalizar esta minha alma de dragão - já sem os histerismos de antigamente - mas agora há toda uma outra razão para não me entusiasmar. Não se trata do futebol em si - é, aliás, tudo o que se passa à volta dele. Hoje em dia o futebol é muito mais aquilo que se joga fora de campo do que dentro dele.

São os comentadores de bancada que ocupam todas as noites os canais informativos, com ataques pessoais e comentando os ataques dos outros, e cada vez menos os lances, os jogos e os jogadores; são os próprios clubes que enchem as redes sociais de queixumes e porcaria; são os diretores de comunicação que se põem a mandar postas de pescadas e revelações, qual wikileaks; é arguidos para um lado, suspeitos por outro. É tudo um nojo. Ah! E depois temos o Bruno de Carvalho, que cai em toda uma outra categoria ("asco", talvez?).

Não sou fã do senhor, mas penso que isso é uma coisa natural. O que não me parece natural é quem gosta dele - e, caros sportinguistas, escusam de me dizer que ele fez muito pelo clube, que vestiu a camisola e que é um leão às direitas. De direita, só parece ter o ar ditatorial com que diz que os sócios devem deixar de ver televisão e comprar jornais, e que "todos, mas todos os comentadores afetos ao Sporting" devem abandonar de imediato os programas. Todos temos a nossa vertente pessoal e profissional. Ele pode ser um óptimo presidente (até custa a escrever...) mas uma pessoa que afirma que ajudou um treinador a ser despedido de outro clube - e o faz com orgulho, a alto e bom som -, para mim, é lixo. E depois, se ouvirmos tudo o que ele diz e comenta sobre todos os assuntos em geral - e já tendo em conta o pedido de boicote aos media - só lhe resta mesmo algum estatuto abaixo de lixo.

Eu acho que não estou a ofender ninguém com este texto. Qualquer sportinguista com o mínimo de imparcialidade e racionalidade percebe tudo isto. O pior são mesmo os outros. Mais preocupante do que ter uma pessoa destas a falar nos media, é ter quem os ouça. E quando eu ouvi os urros e as palmas vindas da plateia de cada vez que Bruno de Carvalho dizia uma das suas baboseiras, um bocadinho da minha esperança na humanidade ia pelo cano. E muito mais se foi quando percebi que, depois do apelo do Sr. Presidente, os adeptos não têm mais nada senão tentar bater em jornalistas. É de arrepiar, não só pelo ato em si, mas por percebermos que pessoas deste calibre têm tanto impacto em pessoas "normais". Se passarmos isto a outra escala, percebemos como é que o Holocausto existiu, percebemos a existência de um Hitler, percebemos aquelas paradas, aquelas lágrimas, aquele patriotismo. Percebemos que as pessoas ficam cegas, surdas e burras quando há algo "maior" que as controla. E isso é puramente assustador. E é este capítulo sujo e paralelo do futebol (chamei-lhe "parafutebol", estou numa de neologismos) que me faz afastar cada vez mais deste desporto.

Não importam os 5-0, as chicotadas psicológicas ou as "tacitas" mais pequenas. Passou a ser um desporto de guerrilha. Mais vale, um dia destes, irmos buscar as espadas. Depois é só esperar até ver jorrar o sangue. Afinal de contas, desde os tempos medievais que é disso que o povo gosta.

18
Fev18

Sobre os recomeços (ainda que este não seja um)

Carolina

Mais de uma semana sem publicar. Auch. Que rico pontapé no meu ego esperançoso e no meu lema “quanto mais treinares, melhor escreverás”. Estou a passar uma daquelas fases em que parece que tudo está a acontecer ao mesmo tempo. Aniversários aos fins-de-semana, recitais de piano, tentativa de uma maratona pré-filmes-dos-óscares, entusiasmo máximo (dentro do possível) em relação ao ginásio, almoço num lado, workshop à tarde noutro sítio, aulas de piano, fazer bolos para as festas de aniversário, miúdos de férias aqui em casa. Wow. Isto tudo junto com "aquela semana do mês". E não, não é o que estão a pensar: falo no fecho de mais uma edição do jornal. 

O início de cada mês passou a ser uma altura em que quase me retiro do mundo dos comuns mortais e só me consigo dedicar ao trabalho. Vou poupar-vos os detalhes daquilo que é o processo exaustivo de fechar um jornal, mas deixem-me só dizer que é um processo moroso, trabalhoso e muito contraindicado para os nossos olhos - e eu trato de um mensal, pudera se fosse semanal. Ou diário (credo!). Dezembro foi o primeiro mês em que fiz isto - que coincidiu com o meu projeto natalício e tudo aquilo que envolve esta época - e agora senti que tudo voltou a coincidir no mesmo período temporal. Senti o mundo em cima de mim. A pressão do trabalho em cima de mim. A pressão dos outros em cima de mim. E a pior: a pressão que eu faço sobre mim mesma.

Enfim: o jornal já está impresso. Sobrevivi. Mas daqui a três semanas tenho de ter outro nas mãos, o que resume os poucos dias de "descanso" que terei até lá e todos os alertas que continuam "on" nesta cabeça, a piscar intermitentemente. Quero tantas coisas para mim, quero fazer tanto, tenho tantos objetivos (e quando não os tenho, crio-os) que a tendência, após tempos de mais stress, é cair num pico negativo e emotivo que depois demora algum tempo a sarar (porque não consigo fazer as coisas, porque estou cansada, porque os resultados finais não estão como eu quero ou não aparecem...). Se não escrevi durante uma semana por não ter tido tempo, também não escrevi nos dias seguintes porque não queria vir para aqui destilar as minhas frustrações, que estes dois dias de sol ajudaram a sanar.

Entretanto já recheei a minha lista de tópicos para escrever e, haja tempo e vontade, o blog não terá falta de temas num futuro próximo. Mas isto, por si só, leva-me a um outro assunto: os recomeços. Neste caso, aqui no blog, não se trata de um: esta foi uma paragem rara num blog que, desde há quase sete anos, tem uma média de posts dia-sim-dia-não. Mas se há coisa que me tira do sério são pessoas que estão em eternos recomeços, que não aceitam um fracasso (ou, se não quisermos chamar-lhe assim, talvez um projeto mal conseguido ou uma ideia que não conseguem levar avante, independentemente das razões para tal). Blogs (e vlogs) que têm posts de quatro em quatro meses - mas que dizem querer publicar de quatro em quatro dias -, que passam a vida no "agora é que é!", que mudam de look quase como uma forma de auto-incentivo, que fazem dois posts seguidos e que depois deixam os leitores à espera durante meses. É irritante, principalmente quando temos a noção de que já não escrevemos só para nós - que estamos a "produzir conteúdo" (esta expressão agora está em voga, não está?) também para os outros. Faz-me lembrar o meu eterno dilema com os diários - eu achava sempre que ia escrever lá todos os dias, mas na terceira página já adiava a escrita à ad eternum. Até que aceitei que não fui feita para escrever em diários e me deixei disso.

Essa é só mais uma das razões pela qual gosto de escrever diariamente ou, pelo menos, com uma certa rotina. Não tenho um público suficientemente grande nem exigente ao ponto de vir para aqui saber se eu estou viva, exigir posts ou dizer que está com saudades - mas tal como eu gosto de ir a um restaurante, que sei que está aberto de segunda a sábado, e encontrar as portas abertas, também gosto de ir a um blog e saber que tenho lá algo de novo para ler. É quase um compromisso silencioso, que ninguém assinou ou fechou com um aperto de mãos, e que todos sentimos que está lá. Ninguém gosta de dar com o nariz na porta.

06
Fev18

Um post um tanto ao quanto adulto no Delito de Opinião

Carolina

Comecei a escrever diariamente em 2009, em blogs que hoje em dia já não andam por aí e cujos textos só moram na cabeça de alguns. Acho que ainda sou uma miúda, mas na altura era MESMO miúda - não tinha sequer feito o 9º ano. Não fazia ideia que a escrita ia ser uma parte essencial da minha vida e do que estava para vir; e muito menos esperava que fosse isso a mudar o rumo da minha formação e vida profissional (uma vez que tinha ideias muito fixas relativamente aquilo que queria fazer no futuro).

Lembro-me de ir ver os rankings dos blogs mais visitados do país - numa altura em que o "meu" Twilight Portugal estava nos lugares cimeiros, ao lado d'"A Pipoca Mais Doce" e outros blogs de futebol, se a memória não me falha - e de estar lá o nome do Delito de Opinião. Eu era miúda, não lia esse tipo de blogs. O Delito era (e é) um blog adulto. Tem opiniões de quem já teve uns anos para pensar sobre muitos assuntos e sabe apresentar argumentos de acordo com aquilo que acha, já para não falar do traquejo e da experiência de escrita que a maioria dos autores tem no lombo. Fala sobre política, livros, filmes e coisas do dia a dia - mas, pá, de forma adulta. Com algumas palavras difíceis, com uma aura de quem sabe o que diz - mesmo que não concordemos com o que está lá escrito.

Leio pontualmente alguns posts deste espaço que, para mim, é uma das bandeiras do Sapo - em grande parte por se ter aguentado durante todos estes anos, pela frequência de posts e diversidade - e foi mesmo com enorme espanto que, aqui há dias, recebi um convite para escrever lá um texto. Disse logo que sim, mas depois vi-me grega para saber o que escrever. "O quê que eu vou escrever no Delito? O quê que se escreve para pessoas adultas? O quê que se diz num blog sério?". Pensei durante uns dias e decidi dissertar sobre um tema que, mais tarde ou mais cedo, iria discutir aqui: a série Casa do Cais. Mete youtubers, dinheiro público, adolescentes e comportamentos fora do padrão/cada vez mais no padrão: um mix perfeito para uma boa troca de ideias e para um post completo. Sério. Adulto, talvez.

 

"Foi com enorme surpresa que, aqui há uns tempos, vi um anúncio na RTP a uma série que claramente pretendia chamar a atenção de um público mais jovem: chamava-se Casa do Cais e tinha como “actores” vários youtubers portugueses, com um guião inspirado na história real acerca da vinda de um desses youtubers para Lisboa, após ter saído da sua terra natal, o Entroncamento (detalhe que só vim a descobrir mais tarde)."

 

Hoje convido-vos, por isso, a ler o meu post do costume, mas num estaminé diferente. Hoje escrevi no Delito. Caraças, hoje percebi que cresci. Talvez esteja a ficar adulta como os outros.

 

Casa do Cais: retrato real ou forçado de uma geração?

(clicar para ler)

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