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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

24
Mai20

Para ver na Netflix: uma série viciante

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O trailer do The Tiger King é execrável. Mesmo. Quando começou todo o zum-zum à volta da série e eu me rendi a ver a sua apresentação só pensei: mas está tudo doido?! Mas depois li a opinião da Inês e decidi dar uma chance à série do momento. E fiquei agarrada.

"Americana". É o melhor adjetivo para descrever esta série. Acho que não há outro sítio no planeta onde aquela realidade (que se confunde com profunda loucura) seja possível. Nos EUA há mais tigres em cativeiro do que há no planeta inteiro em meio selvagem: é este o mote da série. E isto acontece porque as pessoas os compram e criam, quase de forma recreativa e doméstica, como se de gatinhos se tratasse. Alguns para entretenimento próprio, outros para fazer negócio: como é o caso do Tiger King, o protagonista desta série, que ganhou dinheiro graças aos felinos que tinha em cativeiro (e principalmente das crias que criava e comprava, de forma a mostra-las ao público e cobrar por fotos com elas).

Mas isto é ver a série pela rama. Para além de Joe King e daqueles que o rodeiam - maridos, amigos e funcionários - entram também outras pessoas do mesmo ramo de negócio. Já para não falar de Carole Baskin, uma acérrima defensora dos animais que se torna alvo de troça (e obsessão) por parte do "Rei dos Tigres" (isto em português soa muito mais foleiro). Pelo meio há um assassinato, divórcios, negócios comprados, incêndios... E muita loucura em cada pitada de episódio, que faz com que, incrivelmente, fiquemos agarrados do princípio ao fim.

Para além disto há dois ingredientes que me parecem essenciais para o sucesso deste mini-documentário. O primeiro é o facto de nada ser reconstituído: todas as imagens são reais, envolvendo todas as pessoas em causa. O segundo é a forma como o realizador joga com estas imagens, misturando-as com os depoimentos, para tornar a série muito apelativa - e, acima de tudo, nos fazer mudar de opinião sobre as personagens a cada episódio que passa. Seria lógico detestarmos o Tiger King - um louco, provavelmente criminoso e abusador dos animais - e sermos fãs das ações de Carole, a suposta defensora dos oprimidos no meio de todo este negócio. Mas será mesmo assim?

Vale a pena ver e cada um tirar as suas próprias conclusões.

 

(O último e oitavo episódio, acrescentado à posteriori e já em tempos de pandemia, é altamente dispensável e não acrescenta nada à série. É um follow up com algumas das personagens e uma forma que a Netflix arranjou para atrair ainda mais pessoas para a série e fazer a mesma render mais uns trocos).

16
Mai20

A importância dos humoristas

Em particular do Ricardo Araújo Pereira e do Bruno Nogueira

Algures em tempo de campanha para as últimas eleições (parece que foi noutra vida, não é? As arruadas com centenas de pessoas que não precisavam de estar a dois metros de distância uma das outras, enquanto entregam flyers sem luvas e sem pensar quantos micro-nano-bichos alguém pode ter lá deixado após um espirro acidental e  coisas do género) eu já queria ter escrito um texto sobre a importância dos humoristas. Aliás: desta nova vaga de humoristas que se consolidou nos últimos anos, que conseguem o mix difícil de não só nos fazer rir como nos chamar à atenção para a realidade. O que eu quero dizer é que há uma linha que separa o Fernando Rocha do Ricardo Araújo Pereira (RAP) e outra que separa o Salvador Martinha do Bruno Nogueira. Não quer dizer que uns sejam melhores que outros, mas são claramente diferentes. Provavelmente o que os distingue é que uns têm como objetivo fazer-nos rir; os outros querem que nos ríamos perante assuntos sérios.

Na altura, o mote do meu post era o impacto do "Gente que Não Sabe Estar", em que o RAP comentava (e gozava) a atualidade política e fazia entrevistas aos principais líderes partidários - tudo isto sempre com o seu toque de ironia e sarcasmo característicos. Pensei muitas vezes na preciosidade que ele tinha em seu poder e, por outro lado, o quão arriscado é deixar uma coisa tão importante nas mãos de um só indivíduo, que também terá a sua preferência política e poderá influenciar os outros sem que estes oiçam a outra parte. Isto porque, para mim, um programa destes tem muito mais impacto do que qualquer grande entrevista, debate ou outros formatos clássicos - e chatos - que se fazem nestas alturas. Chega às massas. As pessoas sabem que se vão rir e não vão adormecer; identificam-se com o que se diz em vez de sentirem que lhes estão a vender banha da cobra; percebem o que é dito e não se perdem no meio dos chavões lançados pelos políticos. Isto para além de conseguir fazer com que percebamos como é que são aquelas pessoas que nos querem representar, para além das suas ideias políticas. Têm sentido do humor, são boa onda, sabem rir-se de si próprias e safar-se quando as questões não são sobre o orçamento de estado? Isso importa. Hoje pouco se vota em partidos, esquerdas ou direitas; tendemos a personificar a política e é-nos essencial perceber quem são essas pessoas. E é por isso que para mim estes programas do RAP em tempos de eleições fazem mais pela política do que 99% dos outros programas e propagandas. Daí a sua importância.

Mas não só na vertente política o humor tem importância. Sempre o teve do ponto de vista do entretenimento: vai ser eternamente um escape e a forma de relaxar de muitos. Mas nesta altura de pandemia penso que foi mais que isso: foi uma tábua de salvação para a sanidade de muitos. E, neste caso, falo especificamente dos diretos feitos pelo Bruno Nogueira no seu Instagram, sob o nome "Como é que o Bicho Mexe". A "série" acabou ontem e uma amiga minha, que a acompanhava religiosamente, dizia-me: "e agora o que vou fazer à noite? Aquilo era essencial para mim! Quando o cansaço começava a bater e os pensamentos maus chegavam, por causa dos medos e da pandemia, lá vinha o direto do Bruno para eu me rir e esquecer tudo". E é verdade.

Já aqui tinha falado sobre esta ideia do BN no post em que nomeava algumas das coisas boas que surgiram graças (e durante) a pandemia. Não era espectadora habitual porque as horas do direto não eram compatíveis com o meu horário de sono - mas vi alguns momentos marcantes, como o Vhils a "construir" o Zeca Afonso na parede de sua casa no 25 de Abril, a Maria João Pires a tocar Debussy no seu piano de cauda e as homenagens que várias pessoas fizeram no dia da mãe às suas mães. E sinto que para além de uma mera forma de entretimento, estes foram episódios quase educativos, mostrando uma cultura muitas vezes não tão tocada ou popular. O Bruno deu a conhecer muita gente que estava nas margens - e mostrou algumas facetas de outras que já conhecíamos mas que se revelaram perante uma pequena câmara no conforto de sua casa, onde aparentemente ninguém os está a ver. Independentemente do número de vezes em que se disse e mencionou "cona", "caralho", "foda-se", "pila" entre outros vocábulos (até deste ponto de vista enriquecedores ao nível do vernáculo), o que BN fez foi importante. Para a cultura, para o entretenimento mas, acima de tudo, para as pessoas.

Isso viu-se ontem quando, após ter dado o mote para as pessoas que assistiam aos diretos colocarem luzes de Natal nas suas varandas, ele saiu à rua para testemunhar com os próprios olhos o impacto do programa que fez. Aliás: da companhia que fez às pessoas. O resultado foi uma mistura entre o hilariante e o emocionante, com milhares de pessoas às janelas e outras tantas na rua (eles iam dizendo ou mostrando onde estavam a passar), assim como a formação de autênticas comitivas atrás do carro adornado com luzinhas, onde ia com o Nuno Markl ao volante. Por vezes mal o conseguíamos ouvir, tal era a potência das buzinadelas e dos berros das pessoas que passavam. Foi uma espécie de procissão, vá, mas a um ritmo mais acelerado e mantendo a distância de segurança. No meio disto tudo a Georgina Rodriguez - a mais que tudo do Ronaldo - comenta, o Bruno liga e do nada dá duas de conversa com o CR7 (já deitado na sua caminha); um carro descaracterizado pela polícia coloca-se atrás deles, fazendo-os pensar que a brincadeira ia acabar, mas que queria só dar o ar da sua graça naquele último programa; o Cal Lookwood, o radialista do pólo norte que ficou famoso em Portugal graças ao Nuno Markl, também disse olá do outro lado do mundo (as maravilhas da tecnologia!); até uma ambulância que passou ligou o altifalante só para dar uma palavra de apreço. Tudo isto com 150 mil pessoas a ver - números que muitas vezes não são atingidos por programas de televisão em canal aberto.

O que aconteceu ontem foi uma demonstração de apreço como não me recordo de ver; foi o exteriorizar da importância que uma simples pessoa pode ter na vida de tantas, principalmente durante estes dois meses difíceis que todos vivemos. Não é fácil ter noção do impacto que estas coisas têm nas pessoas - no caso do RAP, que falei em cima, é impossível quantificar ou ter a certeza sobre aquilo que acho e sobre a importância que teve naquele período político - mas é certamente emocionante perceber que um número incrível de pessoas gosta e valoriza o trabalho de alguém, ao ponto de se dar ao trabalho de sair à rua ou pôr luzes de Natal na varanda em forma de agradecimento. Não sei como é que o Bruno Nogueira se aguentou ao longo daquelas duas horas loucas em que tudo aconteceu; também não sei se, durante estes dois meses, essa comunidade que se formou à volta dele percebeu como é que o bicho mexe. Aquilo que eu sei é que isto vai ficar na memória de muitos e revela bem a importância que o humor e a cultura têm na nossa vida.

 

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13
Mai20

Para ver na Netflix: uma série para nos inspirar

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A Octavia Spencer foi o isco para ter começado a ver esta série. Gosto dela, acho-a boa atriz e o trailer deu-me vontade de ver aqueles quatro episódios. "Self Made" é a história de vida da Madame C. J. Walker, tida como a primeira americana negra a tornar-se multimilionária. Para além de todos estigmas e preconceitos a que teve de fazer frente - se ser mulher no ramo dos negócios já é difícil, sendo negra ainda pior -, a personagem interpretada por Octavia Spencer é obrigada desde muito cedo a fazer pela vida, que nunca lhe é facilitada (tanto pessoal como profissionalmente, muitas vezes acabando mesmo por se misturar).

Dada a sinopse da série, e sabendo à partida que C. J. Walker se tornou multimilionária, não é difícil perceber que, apesar de tudo, esta mulher foi bem sucedida. Diria que o mote da série é ensinar-nos a ver para lá do óbvio e do sucesso aparente; perceber que por detrás de muito dinheiro está muitas vezes muito sofrimento envolvido. E, acima de tudo, lembrar-nos que quem luta por aquilo que deseja, mais tarde ou mais cedo, acabará por receber a recompensa do seu esforço.

Devo confessar que, destas 4 séries que destaco aqui (dos dois últimos posts e um que ainda vai sair a seguir), esta foi a que mais me desapontou (talvez pelos atores envolvidos e por ter gostado do trailer). Não pela história, que é interessante, mas por sentir que numa narrativa tão impactante - onde se fala não só do desprezo para com as pessoas de raça negra como das mulheres em particular - faltou uma espécie de moral, para fechar a história. Há algo que fica por dizer - ainda que não saiba dizer ao certo o quê. (Para os que já viram a série, concordam comigo? Acham que falta ali algo para esta ser excelente?)

Fora esta crítica pessoal, recomendo a série a todos - e em particular a quem estiver à procura de algo rápido e inspirador para ver na plataforma de streaming.

12
Mai20

Para ver na Netflix: uma série para conhecer

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Este é dos casos em que a sinopse engana. "The English Game" é mais - muito mais! - do que uma série sobre os primórdios do futebol. Para mim teve um extra muito interessante, porque tem como epicentro uma tecelagem (como a que dirijo), onde se retrata muito bem o fosso que existia na altura entre patrões e funcionários. É muito curioso ver como ambos os lados lutam em prol do mesmo fim mas de formas diferentes, nunca conseguindo fazer ver à outra parte o seu ponto de vista. Tão antigo e tão atual ao mesmo tempo, não é?

Mas, para além deste "pormaior" que é mais especial para mim do que para a maioria, esta é uma história sobre a luta entre classes - em que uma, que se tem como a "criadora" do jogo, não o quer ver ser corrompido e jogado por operários, que jogam em condições muito diferentes das dos outros -, a forma como umas não sobrevivem sem as outras e, acima de tudo, de como é a dignidade do Homem que faz a diferença no desfecho de uma história. Muitas vezes não só da sua, mas como também da dos outros e da sua comunidade.

"The English Game" não é só uma série para amantes de futebol. Sim: retrata bem o sentimento, a vibração e a sensação de união que o futebol consegue ter como nenhum outro desporto; retrata o sacrifício dos jogadores, a paixão e a compaixão (ou falta dela); retrata o evoluir de um desporto que hoje toda a gente conhece. Mas é, acima de tudo, para quem adora boas histórias e que gosta de as ver bem contadas.

Com uma fotografia lindíssima, personagens ricas e bem construídas, são seis episódios que nos deixam desejosos por mais - mas cujo objetivo já foi mais que conseguido, não fazendo sequer sentido continuar. Como se tudo isto não bastasse, há que juntar a delícia de ouvir recorrentemente o sotaque escocês. De realçar ainda que, como bónus, um dos protagonistas é Edward Holcroft - eu também não o conhecia... mas, caramba, vale a pena não ficar na ignorância!

06
Mai20

Para ver na Netflix: uma série para pensar

Acho que nesta altura do campeonato todos podemos concordar que a Netflix mudou completamente a forma como vemos e consumimos séries. Começando pela possibilidade de ver tudo de uma só vez, quando quisermos e onde quisermos, e terminando na luta contra o estigma que existia relativamente a séries de língua não-inglesa. (Quem diria, há meia-dúzia de anos, que o mundo iria estar louco por uma série sobre um roubo produzida em Espanha e falada em espanhol?)

Pelo meio, na minha opinião, teve outra grande conquista: transformar documentários, histórias e biografias em algo apetecível. Pode aprender-se imenso a ver Netflix - tanto como no Discovery, no National Geographic ou no Canal de História. Posso estar errada, mas acho que existe a ideia (talvez por ser verdade?), de que muitos dos programas que por lá passam são chatos e maçadores. De certeza que também os há na Netflix, mas os produtores e realizadores contratados pelo canal de streaming têm uma visão muito diferenciadora deste tipo de programas. Só assim é possível agarrar as massas a histórias que, de outra forma, não seriam vistas por mais do que umas centenas de pessoas.

É claro que dinheiro gera dinheiro e aquilo que eram inicialmente pequenas produções são agora coisas gigantes, com budgets a abarrotar pelas costuras mas que fazem o gasto valer a pena, tal é a qualidade dos programas. Tudo isto continuando com o seu espírito inicial, dando ênfase não só a grandes séries, como a outras mais pequenas (e poucos episódios, algo que adoro!) e com conteúdos que, até há poucos anos, eram feitos somente para públicos de nicho.

Nos próximos quatro dias vou falar-vos de quatro séries documentais, sobre pessoas ou histórias reais: Unorthodox, The English Game, The Tiger King e Self Made.

 

Uma série para pensar: Unorthodox

 

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Esta série retrata a vida de Esther Shapiro, uma rapariga que cresceu no seio de uma comunidade judaica ortodoxa. A história é contada com recursos a flashbacks, que intercalam com a atualidade, que faz com que rapidamente se perceba que ela decidiu fugir daquele estilo de vida, onde se sentia prisioneira.

Em quatro episódios entendemos o porquê dela sentir necessidade de sair da comunidade hassídica e ficamos a conhecer muitos dos hábitos dos judeus ortodoxos - desde raparem o cabelo às raparigas quando casam, passando pelos banhos de purificação e acabando nos eruv, os circuitos fechados onde os judeus podem passear no seu dia de descanso. Nada disto nos é dado de mão beijada: não são explicados os rituais ou as razões por detrás deles - cabe-nos a nós pesquisar, se tivermos essa curiosidade. Mas eu diria que é impossível não tentar perceber alguns daqueles ritos e algumas cenas da série, tal a estranheza que nos provoca. Diria mais (perdoem-me os mais sensíveis): não é estranheza, é quase asco. A certa altura dei por mim a pensar que pouco distingue um judeu de um muçulmano (a religião que, diria, mais é criticada), quando ambos levam a sua crença aos extremos; percebi, finalmente, alguns estigmas, preconceitos e até ódios que existem em relação aos judeus, que deverão ter em alguns destes costumes a sua raiz. 

Não é uma série boa para os aficcionados do inglês: é falada maioritariamente em iídiche, embora com algum inglês pelo meio (uma vez que retrata a comunidade de Williamsburg, em Nova Iorque), pelo que é normal sentir alguma estranheza no início - que é compensada pela qualidade da série. Para mim há apenas um ponto negativo, que descobri nas minhas pós-pesquisas: a história de Esther (que na verdade se chama Deborah Feldman) não aconteceu exatamente como foi retratada na série, embora a ideia esteja lá.

Fora isso, é fácil saber se uma série é boa: quando nos faz pensar, pesquisar e querer saber mais. Em todos os pontos coloquei um "check", o que me fez sentir uma pessoa mais rica depois de tudo o que aprendi.

(Para os que viram, gostaram e ficaram com curiosidade, encontrei um artigo muito interessante na NIT, que desmonta e explica alguns dos rituais vistos na série.) Ler aqui.

10
Abr20

Chávena de Letras: "Raparigas como Nós"

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Fico sempre um bocadinho "chateada" quando percebo que a minha opinião não se enquadra com a da maioria - não na vida em geral (aí, estou-me a borrifar) mas nos livros o caso é diferente. Quando uma massa grande de pessoas diz uma coisa e uma ou outra ovelhas ronhosas entendem dizer o contrário, a probabilidade é que sejam as ovelhinhas que estão erradas.

Neste caso, a esmagadora maioria das reviews que li era positivas - muito positivas. Já me haviam falado do livro, vi-o à venda, gostei muito da capa chamativa e, ainda por cima, era assinado por uma escritora portuguesa. Tinha tudo para correr bem.

Mas a verdade é que eu não sou uma rapariga como as "Raparigas como Nós". Acho que o segredo do sucesso da obra foi o facto dos leitores se identificarem, de reviverem na Isabel (a personagem principal) e nas suas experiências a sua própria adolescência. Amores, desamores, drogas, amigos, outros que deixam de o ser, grupinhos, os populares e os "feios"... enfim, o normal. Talvez por eu ter tido uma adolescência muito pacífica e um tanto anormal (muito fora dos círculos comuns, com muito poucos amigos - e em particular sem uma melhor amiga, tal como a Isabel tem a Alice -, e com opiniões demasiado fortes que não me permitiam "entrar" em grupos), este livro disse-me pouco.

Tem 420 páginas e sinto que a história podia ser contada, com a mesma riqueza e informação, em 350. A parte II do livro, com cerca de 70 páginas, foi para mim altamente maçadora - aquelas descrições sem fim de um amor platónico e parvo de miúdos tirou-me a paciência e li muitas das páginas na diagonal, retendo apenas o que me pareceu útil. Confesso que a personagem principal também não me apaixonou inicialmente, mas fui gradualmente gostando dela - e, acima de tudo, do facto de se manter firme nas suas convicções (confesso que achei que ia vacilar). Foi subindo, à medida que as páginas iam passando, na minha consideração. E isso, para mim, é o melhor do livro -a par do lado moral que transporta consigo e que nos pode ensinar algo, principalmente se formos mais novos.

Também por ter lido algumas reviews consegui antever com facilidade o fim do livro - e, talvez por si, fiquei longe de me sentir despedaçada, como muita gente diz ter-se sentido. Sinto que conheço aquela história, é uma realidade algo próxima, e o final pareceu-me óbvio. Triste, mas feliz ao mesmo tempo.

Do livro retenho duas lições importantes: 1) projetamos muitas vezes os nossos sonhos e fantasias nas pessoas com quem estamos quando elas não correspondem necessariamente à realidade, acabando com relações que até podiam dar certo se não houvesse essa dose de expectativas; 2) há o primeiro amor e depois há o amor de uma vida - e eles não são necessariamente coincidentes.

Não adorei o livro - longe disso - mas acho que Helena Magalhães pode vir a dar cartas. Continuarei atenta.

08
Abr20

La Casa de Papel: uma continuação desnecessária de uma história que já tinha fim

(mas, ainda assim, uma série que nos agarra do primeiro ao último segundo)

Há que saber parar. 

Foi este o pensamento que esteve na minha cabeça enquanto vi a quarta temporada de "La Casa de Papel". Terminei-a ontem e, logo depois, fui ler o post que escrevi há quase precisamente dois anos quando vi o final da primeira temporada. O engraçado no meio disto tudo é que os anos passaram, a história e as personagens evoluíram e a minha opinião permanece exatamente a mesma.

 

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Escrevi, na altura, que era uma história de ferro com pormenores de papel. Hoje continuo a dizer que os pormenores são frágeis como o papel, mas atrever-me-ia a dizer que a história perdeu alguns alicerces que lhe davam aquela estabilidade de ferro de que falei. Sinto que lhe falta tempo, que o guião foi escrito à pressa - algo que acontece mesmo, pois nestas duas últimas temporadas a história era escrita ao mesmo tempo que decorriam as filmagens, muitas vezes sem os próprios atores prepararem a cena que iam filmar (algo que podem vêr no documentário "La Casa de Papel, El Fenómeno") - e isto faz com exista alguma falta da coesão que existia nas duas primeiras temporadas. 

"O problema para mim está no facto desta série ser (em teoria) uma representação da realidade: existe a casa da moeda, existem assaltos onde há reféns. Ou seja, é algo feito “neste mundo”, o que implica que exista alguma coerência e coesão na construção da história e dos seus detalhes. Eu não ouso criticar Game of Thrones, Harry Potter ou os Hunger Games, tão simplesmente porque os autores podem dizer “mas foi assim que eu imaginei”. São coisas irreais. Todos sabemos que não há dragões, que as vassouras não voam e que não vivemos em Panem. Eles podem fazer o que quiserem. Por isso é que se distingue a ficção do fantástico - uma coisa é uma interpretação da realidade, outra é a criação de uma realidade completamente diferente!"

Aquilo que já tinha ressalvado nesse post (e na citação acima) continua a ser um problema para mim. Tiram-me do sério alguns detalhes completamente irrealistas ou mudanças súbitas de espírito de algumas personagens, que demonstra alguma precipitação na escrita, falta de fundo e background na história de cada uma das pessoas retratadas e, acima de tudo, perder por vezes a noção da "big picture", olhando para cada personagem como alguém isolado e não perceber que algo sai fora do contexto.

 

 

No entanto, não há dúvidas sobre uma coisa: La Casa de Papel continua a ser das séries mais viciantes que já vi, uma característica que não pode ser menosprezada. A ação a cada minuto, o fim de cada episódio com cliffhangers e os twists na história são a imagem de marca da série e isso mantém-se. (Confesso que, a certa altura, o stress que isto me estava a causar levou a que fosse ver como é que tudo acabava; no estado de caos que o país e o mundo atravessam tudo o que não preciso é de mais uma fonte de nervosismo. Asseguro que saber alguns detalhes chave e o final não me tirou qualquer tipo de interesse ou  vontade de deixar de ver. Tenho poucos problemas com spoilers.) O lado ardiloso da série, com todos aqueles planos inimagináveis pensados ao milímetro pelo professor também se mantém - mas senti que esta temporada teve muito mais violência do que inteligência.

A ideia original de roubar algo sem, no entanto, roubar alguém perdeu-se no meio de um enredo que ficou subitamente demasiado complexo e onde jogam agora muitas variáveis. O objetivo de não se aliar a imagem de um ladrão a uma pessoa má (no fundo, fazendo-nos gostar daqueles que normalmente seriam os maus da fita) ficou debilitado nesta temporada, em que se vive um ambiente de guerra constante e onde as más ações acabam por ser quase involuntárias. Sinto que a ideia inicial é a mesma, mas não está tão bem conseguida, muito por culpa da evolução natural das personagens e dos acontecimentos, que acabam por aliar o stress aos sentimentos que já todos nutrem uns pelos outros. 

Por isso digo que há que saber parar. Percebo que não seja fácil dizer que não quando nos oferecem budgets milionários para dar continuidade a uma série de extremo sucesso; é natural que todos queiram continuar a ganhar dinheiro, ainda mais quando são os próprios clientes, os fãs, que pedem por mais. Mas quase sempre isso implica sacrificar a qualidade da coisa. 

A quarta temporada da Casa de Papel satisfaz, é muito melhor que a terceira, mas não deixa de ser um acrescento desnecessário a uma história que já tinha fim. Um fim genial como poucas séries têm.

05
Abr20

Chávena de letras: "O desaparecimento de Stephanie Mailer"

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Jöel Dicker deu-me, há uns anos, um dos melhores livros que li até hoje: "A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert". Bastou um só livro para o considerar um escritor incrível. Continuei a achar, apesar de "O Livro dos Baltimore" e o "Os Últimos Dias dos Nossos Pais" (que, não sei porquê, não escrevi crítica) não me terem cativado como a primeira obra que li do autor.
Agora, a chama voltou. "O Desaparecimento de Stephanie Mailer" é um daqueles livros que não queremos pousar; em que apetece pôr uma placa de "ocupado" em cima da nossa testa até termos a certeza que chegámos à última página. É maravilhoso.

Não o achei tão esteticamente bonito como o Harry Quebert - que está recheado de frases maravilhosas e que nos fazem pensar muito no sentido da vida -, mas igualmente viciante e empolgante (uma característica que, para mim, é difícil de encontrar). Cada personagem tem um background interessante e poderoso, que condiciona as ações que teve ou tem, e que são reveladas a conta-gotas para que a curiosidade nunca deixe de se apoderar de nós.

O final surpreende. Peca por ser "apressado", quando ata todos os nós que faltavam para fechar plenamente a história, mas não deixa de ser um livro extraordinário. Quanto mais não seja por me ter dado vontade de ler mais e mais e mais após o seu fim.

13
Jan20

Chávena de Letras: "Os Livros que Devoraram o Meu Pai"

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Logo no momento da compra deste livro percebi que, aparentemente, eu já não fazia parte do (suposto) target para o qual esta obra teria sido escrita. "Mas este livro é infanto-juvenil", atirou logo a assistente da Bertrand quando lhe pedi ajuda a encontrar o dito cujo, como se eu não tivesse idade para ler o que bem me apetecesse. "Ou então está incluído no plano Ler+", rematou, como quem põe água na fervura.

O tamanho diminuto do livro, inversamente proporcional ao tamanho da fonte, indicam de facto ser um livro para os mais novos. Mas a verdade é que só vejo adultos a lê-lo, talvez por ter associado o nome de Afonso Cruz (a começar pela Inês, que foi quem me aguçou a curiosade sobre este livro). E é indiferente se é lido por miúdos ou graúdos.

Porque "Os Livros que Devoraram o Meu Pai" é um livro sobre livros; é uma óptima porta de entrada para quem está a (re)entrar neste mundo, independentemente da idade que tenha. É um docinho que nos adoça a curiosidade para alguns coloços da literatura, que nos dá a conhecer algumas das suas personagens e da sua história só para nos deixar espreitar um pouco lá para dentro. A "Divina Comédia", de Dante, " O Estranho Caso de Dr. Jekyll e de Mr. Hyde" de Robert Louis Stevenson ou "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury são alguns exemplos das obras mencionadas, usadas por Afonso Cruz como mundos onde a sua própria personagem habita, entrelaçando as histórias com a sua própria história.

Paralelamente a esta narrativa principal - sobre livros, livros e livros! -, decorre uma secundária que acaba por ganhar projeção no final. Foi esta que me fez gostar menos da obra. Não percebi qual a intenção do autor em levar a história para aquele caminho. Se havia uma lição de moral a retirar ou uma pescadinha de rabo na boca, não as assimilei como deve ser. E, sendo este um livro dedicado aos mais novos, temo que lhes aconteça o mesmo, e que o travo agridoce do final contrarie todo o propósito do livro: que ler é uma aventura paralela à própria vida.

06
Out19

Não se esqueçam de ir às urnas - até porque há alternativas

Não sou ninguém para pedir aos outros para ir votar. Não que tenha telhados de vidro - se a memória não me falha, não faltei a nenhumas eleições desde que sou maior de idade. Mas percebo o porquê dos outros não votarem. Percebo a descredibilização dos políticos e da política. Percebo a indignação. Percebo o descontentamento e a necessidade de o demonstrar de alguma forma. Percebo a sensação de não nos sentirmos representados. Até percebo a falta de credibilidade da própria democracia! Sinto tudo isso. E também sinto que está tudo tão mau que nem vale a pena tentar, que o meu tempo "perdido" entre filas de voto e trânsito nem sequer é bem empregue. Mas tenho ido - por teimosia e por saber que não encontro nada melhor do que uma democracia no cardápio dos sistemas políticos.

Uma das coisas que se ouve muito é o argumento de que "são sempre os mesmos que vão para lá". Também concordo. Mas hoje decido fazer de advogada do diabo e contra-argumentar. Muito embora não possamos escolher quem encabeça os partidos (a menos que sejamos filiados), quem os forma, quem lhes dá a cara ou as ideias que transmitem, a culpa de serem sempre os mesmos a encabeçar as sondagens é nossa. Da sociedade em geral. Porque cada vez mais me apercebo que há pequenos movimentos que apresentam alternativas - nós é que não as ouvimos ou procuramos. Porque desistimos da política e não tomamos a iniciativa de ir procurar, de desbravar para além do que está na superfície. Porque não vemos mais do que os primeiros minutos dos telejornais, em que são sempre os mesmos que falam. Porque, como tudo na vida, os mais pequenos são os oprimidos e não têm voz.

Eu, penso que como a maioria do país, estou farta de muita coisa. Acima de tudo, estou cansada da corrupção e dos abusos de poder. E decidi ser ativa e procurar alternativas. Perdi tempo a ler as ideias, os ideias e as propostas dos partidos mais pequenos; entraram na minha lista mental nomes de novos políticos que não fazia ideia existirem, muito para além de Costa, Rio, Cristas, Martins ou Sousa. E a verdade é que são vários, para todos os gostos e pessoas; da direita à esquerda, dos radicais aos centralistas. Podemos não nos sentir 100% representados (alguma vez isso acontece?) mas, ao menos, tentamos uma alternativa àquilo de que dizemos mal diariamente. Acredito mesmo que é esse o caminho. 

São dez da manhã e eu já fui votar. Votei num partido pequeno, na esperança de fazer a máquina mudar - e, de todas as eleições de que fiz parte, este é sem dúvida o voto que faço de consciência mais tranquila. E por aí, vão votar nos mesmos e ter o gosto de resmungar nos próximos quatro anos ou vão tentar mudar qualquer coisinha? Independentemente da vossa escolha, nos grandes ou pequenos, votem. Não se esqueçam.

 

P.S. Para quem ainda não decidiu, partilho dois links que podem ajudar - e que me ajudaram a consolidar a minha decisão. O primeiro é uma bússola política, que através de um pequeno quizz sobre vários tópicos um tanto ao quanto fraturantes da sociedade, acaba por nos ajudar a posicionar relativamente ao quadrante político em que melhor nos inserimos. 

O segundo é um artigo do Público que, consoante as nossas características pessoais e os temas que mais nos importam, nos mostra as medidas que cada partido propõe nos segmentos que provavelmente mais nos importarão (justiça, ambiente, saúde, por exemplo).

 

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