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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

06
Dez20

As filosofias de vida baratas não resolvem problemas

Ou um pensamento sobre a morte precoce de Sara Carreira e como mexe com todos nós

Quando tomamos conhecimento de uma tragédia como aconteceu à da família Carreira todos sentimos que levamos um chapadão da vida. Não falo da família nem de amigos próximos: esses terão que aguentar com um terramoto, com demasiadas réplicas, que será muito difícil de ultrapassar; muitos - anónimos, aqueles cujas histórias não são dissiminadas pelos jornais nem pelas redes sociais - não se reerguem após uma perda destas (e eu espero que, dentro dos possíveis, todos os que orbitavam à volta da Sara possam voltar às suas vidas, dentro do novo normal, o mais rapidamente possível).

Falo de nós, os que assistimos à distância. Gostando ou não dos Carreira, não há forma de não nos identificarmos e projetarmos em nós e nos que nos rodeiam aquilo que lhes está a acontecer a eles. Alguns, como eu, têm uma idade próxima da da Sara. Outros terão filhos, netos, amigos, irmãos a quem poderia acontecer exatamente a mesma coisa. E no momento em que nos apercebemos disso cai-nos a ficha. Também a nós nos dói, pois percebemos que poderíamos ser nós, dentro do carro; que poderíamos ser nós a receber a notícia. Aliás: podemos. Basta estarmos vivos.

Depois de acontecerem coisas destas, as redes sociais enchem-se - para além dos merecidos votos de pesar - de filosofias baratas sobre a vida, cuja aplicação só é possível numa existência utópica. "Aproveitar cada dia. Não nos chatearmos. Não fazermos planos. Viver o momento."

Eu falo por mim: vivo absorvida pelo futuro, às vezes demasiado dedicada ao trabalho, muitas vezes preocupada com a gestão da agenda e do tempo, algumas vezes chateada pelas pedras no caminho e eternamente stressada com uma vida que gosto e que escolhi, mas que não me dá margem para muitos erros.

Este ano já não é a primira vez que levo estas chapadas de realidade - na verdade, foram mais que chapadas. Enterrar um antigo colega da primária mexe connosco; e ver no leito de morte alguém que nos criou, e cuja vida e a distância nos separou muito embora o vínculo estivesse lá, também dói muito. E, também por isso, há algo que aprendi e que não falho: todos os dias relembro as pessoas que amo do quanto eu gosto delas. E também evito deitar-me chateada com alguém.

Embora não tenha no meu dia-a-dia a ideia constantemente presente de que a vida é um fósforo (acho que isso faria com que endoidecesse), implementei essas duas regras já tendo em vista de que não sei o que o futuro nos reserva e que quero que todos tenham presente aquilo que sinto por eles. Sei pouco sobre a morte - e dispenso saber mais -, mas tenho a certeza que não levamos qualquer tipo de bens connosco quando morremos; confio, no entanto, que uma consciência tranquila e um coração cheio ajudem ao processo, tanto dos que ficam como dos que vão.

Implementei estas duas regras de forma preventiva, para estar bem comigo mesma e garantir que os que me rodeiam também ficam de consciência tranquila caso aconteça algo. Fora este tipo de ações (e outras momêntaneas, que surgem na hora), opto por descartar as frases bonitas e filosofias que surgem no facebook por estes dias. É irrealista para mim não me preocupar com o dia de amanhã, devendo apenas viver o momento - fazer isso é dizer-me para ir contra a minha própria natureza; é pôr mais um peso em cima de mim, porque não consigo não me preocupar, mas porque sei que não devo (e este ciclo vicioso acaba eventualmente por ser maligno); é ser egoísta, tendo em conta que estou numa posição em que as minhas decisões e ações têm consequências sobre os outros e sobre a sua qualidade de vida. Não me podem pedir para não me preocupar quando sei que a tesouraria vai má e eu tenho salários para pagar no final do mês; não me podem pedir para não me preocupar quando há reclamações para resolver. Também por isso não vale a pena dizerem-me para aproveitar o dia quando há dias em que eu sei que o tempo vai estar negro e há problemas graves para enfrentar. De que serve colocar uma pressão extra sobre nós mesmos quando nós já vivemos num ambiente de stress constante? A ideia, para mim, é exatamente o oposta: descomplicar e não empilhar filosofias que não podemos implementar. Dar ouvidos a este tipo de coisas quando temos plena noção de que não as conseguimos cumprir seria o mesmo que ir à igreja todos os domingos e não ser crente: é inútil e desnecessário.

Hoje em dia, penso que muito por culpa das redes sociais, temos uma tendência e uma necessidade de mostrar ao outros que está tudo bem. Apagamos os dias maus do histórico e fingimos que não aconteceu. Há quase vergonha em demonstrar que, às vezes, não se está bem. Ser infeliz ou mal sucedido não é fixe. Não mostramos quando vamos a um tasco em vez de um restaurante fancy, quando a comida sai torrada e não com um belíssimo aspeto, quando temos olheiras e o cabelo por lavar em vez de uma mela maquilhagem e um sorriso pepso-dente.

E, assim, esquecemo-nos de uma parte essencial da vida. Sim, vai haver dias maus. Sim, vai haver preocupações. E sim: no meu caso, não há forma de eu não estar sempre de olho no futuro - porque é assim que eu sou e não vale a pena contrariar. É aceitar e dar a volta ao texto.

Relativizar é uma alternativa - hoje, por exemplo, é fácil percebermos que temos uma vida óptima quando comparamos o sofrimento que aquela família está a enfrentar. Mas esta técnica nem sempre funciona, porque muitas vezes não nos lembramos realmente do quão poderosas podem ser outras dores (nomeadamente a dos outros). No dia-a-dia, as nossas dores são sempre as piores.

E por isso o que eu faço, tal como na minha vida, é dividir o tempo em slots diferenciados, quase como numa agenda. Há uns dias - num daqueles mesmo pesados e complicados - o meu namorado chegou aqui a casa com um ramo de flores, dizendo-me que um dia mau não tem de acabar mal. E esse é o segredo. É aceitar o que foi mau mas, num slot de tempo diferente, tentar virar a moeda. Fazer por ver o outro lado. No meu caso, é saber que por muito mau que o dia seja, de noite poderei deitar-me no peito do Miguel e senti-lo a meu lado; é saber que tenho o abraço da minha mãe pela manhã; é comer um chocolate, embrulhar uma prenda de Natal, sentar-me no sofá e olhar para a minha árvore, brincar com os meus cães, ir à feira. É tornar preciosos os momentos de que gosto, que me fazem feliz, e apreciá-los um de cada vez - tendo consciência do priviégio que é estar a vivê-los. Esse é mais um dos exercícios que, a par de expressar o meu amor pelos outros, ponho em prática diariamente.

O resto? Para mim, são balelas. O resto vem, resolve-se, trata-se, dá-se a volta. E que bom é poder fazê-lo: é sinónimo de que estamos vivos e prontos para a luta. O problema é mesmo o dia em que não estivermos.

23
Ago20

Ontem um mocho piou

Nos últimos anos tenho desenvolvido uma certa aversão à expressão "empregada de limpeza". Penso que, acima de tudo, se deve ao facto de ser um trabalho muito "mal-amado" por todos, visto como uma profissão de baixo nível. Em resultado disso, muitos acham-se no direito de mal-tratar este tipo de profissionais, proporcionando-lhes condições de trabalho vergonhosas e tratando-os abaixo de cão.

Eu, pelo contrário, considero-a uma profissão tão digna como ser engenheiro ou arquiteto - e não me choca que uma empregada de limpeza receba tanto ou mais que alguém que tirou um curso destes. Tudo depende do mercado, da oferta e da procura (diria que hoje em dia há muito mais bons engenheiros do que boas empregadas e, como tal, penso que o salário deve refletir essa falta de oferta e, ainda por cima, a crescente procura) e, como em tudo, da dedicação e do amor à camisola que cada um tem no seu trabalho. Mas uma empregada (principalmente a tempo inteiro) tem ainda uma condicionante extra, importantíssima: o seu trabalho é no seio de uma família. Para mim, a partir do momento em que alguém é contratado para esse cargo, tem um passe de entrada como membro daquele núcleo e deve ser tratado como tal. A partir daí, normalmente, advém um carinho e uma amizade especiais, típico de alguém que convive connosco diariamente, que nos conhece, que cuida, que sofre com as tristezas e que festeja connosco as alegrias.

Tenho a sorte de sempre ter tido empregadas a trabalhar lá em casa (como disse, evito dizer "empregada", mas infelizmente não há grandes alternativas) - e guardo, de todas, boas memórias. Mas, acima de tudo, há uma que me ficou guardada na memória - e no coração - depois de lá ter trabalhado durante dezoito anos.

Chamava-se Joaquina. Faleceu ontem. 

A D. Joaquina ensinou-me a ler as horas, depois de me ter oferecido o meu primeiro relógio analógico, todo decorado com cãezinhos. Confiou em mim quando lhe pedi a minha "pi" (vulgo: chupeta) uma última vez, no dia do meu sexto aniversário - o mesmo em que prometi a pés juntos, aos meus pais, que deixaria esse vício. Foi ela quem me ensinou a andar de autocarro e deu comigo a primeira voltinha, dizendo-me onde entrar e onde sair. Ofereceu-me a única Barbie que guardo com carinho e a única pulseira de ouro que perdi - e ainda bem, porque é sinal de que a usei, ao contrário das outras que continuam religiosamente guardadas. 

A D. Joaquina subornava-me com amêndoas de chocolate que guardava no bolso da bata, enquanto me pedia para ir com ela passar a ferro para a lavandaria. Fazia os melhores panados do mundo - e também pataniscas. Adorava os bolos de aniversário lá de casa e farturas frias, que eu trazia de propósito para ela na altura das festas da cidade. Sabia as datas de aniversário de todos nós de cor - e era a primeira a ligar-nos, lá pelas 7:30h da manhã. Fazia contas de cabeça mais rápido do que eu as fazia na máquina de calcular, muito embora tenha passado muito pouco tempo na escola. Acreditava que que, quando um mocho cantava de dia, alguém ia morrer - e eu ainda hoje não gosto de ouvir esse pássaro piar.

Há mais de uma década que deixou de trabalhar, depois de lhe ter sido diagnosticada uma doença que não se coadunava com o trabalho árduo e diário que é cuidar de uma casa grande como a minha. Foi lá várias vezes visitar-nos - e, nos últimos anos, fui eu ter com ela, quando as suas pernas já não conseguiam vir até nós. Em quase todas as visitas trazia-me panados na carteira, para que não me esquecesse de que eram os melhores do mundo.

Numa das últimas vezes que estive com ela contei-lhe que tinha namorado ("finalmente", disse-me ela) - e não vou esquecer o seu ar de felicidade por saber que agora tinha alguém para cuidar de mim. Nos últimos tempos falava-lhe, em média, uma vez por mês; e, em cada despedida, ela mandava "um beijo para o teu Miguel" - nome que nunca esqueceu, apesar de nunca o ter conhecido. 

A D. Joaquina foi uma lutadora a vida toda - e, nos últimos anos, eu achei mesmo que ela tinha algo de imortal, tal a magnitude de tudo aquilo que conseguiu ultrapassar. Mas, no fundo, sabia que algum dia ia ceder às provações que lhe eram constantemente colocadas no caminho.

Ontem recebi a notícia ao final da tarde, depois de um almoço em que falei dela. No dia anterior tinha dito ao meu namorado que, um dia em que casássemos, queria que a D. Joaquina estivesse presente. E, algures num almoço da semana passada, sei que o seu nome também veio à baila. Não creio que seja coincidência. 

Ontem, algures, um mocho piou. E não me levou uma empregada de limpeza. Levou-me família. 

 

000320 Aniv NiMaria(3).jpg

21
Fev15

Paz de espírito

Desde miúda que vou a cemitérios sem qualquer tipo de medos ou receios. Ia com a minha mãe, pôr flores no jazigo dos meus avós, que nunca me lembro de conhecer, embora ambos me tenham dado colo, sensivelmente, no meu primeiro ano de vida. No fundo, apesar de ter pisado já vários cemitérios, nunca fui visitar ninguém que me dissesse algo. Até hoje.

Quase dois meses depois da sua morte, fui visitar a minha avó. Queria relembrar o sítio onde ela está, a par dos seus pais, e deixar-lhe umas flores, para que soubesse que me lembro dela. Todos os dias - talvez mais do que me lembrava quando ainda cá estava em vida.

Não tendo eu nenhuma crença específica no que diz respeito à morte, deixo-me ficar pelas possibilidades; não sei o espírito de quem parte fica em terra, se olham por nós, se sabem do que se passa... Não sei nada. Nem quero saber, porque se não descobrimos até agora é porque talvez não devamos saber o que se passa depois de morrermos. Eu quero apenas certificar-me que, se houver alguma coisa do outro lado, ela possa saber que está presente em mim. E no meu quarto, onde coloquei a foto dela de que mais gosto, onde parece uma modelo, na flor dos seus vinte anos. E também na minha memória e, claro, no meu coração.

Os cemitérios são capazes de ser dos poucos sítios da terra que, embora sempre com gente, se mantêm constantemente calmos - e essa calma contagia-se, pelo menos a mim. Ar livre, árvores imponentes, arranjos bonitos por toda a parte, sem telemóveis e redes sociais à mistura. Apenas uma paz palpável, a par da paz de espírito que nos deixa cá dentro. 

01
Fev15

As substituições da vida

Não sou religiosa, a não ser quando me convém. Não acredito em nada de específico, a não ser em coincidências.

No dia 28 de Janeiro fez precisamente um mês de que a minha avó morreu. Passou num abrir e piscar de olhos, como quem não quer a coisa, em dias de estudo ideais para quem quer esquecer coisas tristes. Os exames são péssimos, mas têm essa coisa boa: distraem-nos, dão-nos um objetivo. Assim foi até à passada sexta-feira, quando os exames acabaram - e aí lembrei-me, de tudo e mais alguma coisa. Já me lembrava da minha avó todas as noites, quando fechava os olhos e ela passava da minha memória para os meus olhos. Agora, sem exames, lembro-me muito mais, e tenho saudades. E alguns remorços. E lembro-me de coisas, pormenores escondidos lá atrás na memória.

Por outro lado...

No dia 28 de Janeiro nasceu o meu sobrinho mais novo. O primeiro que me nasce quando tenho de facto alguma idade de ser tia, quando já sou maior de idade e um bocadinho mais de consciência daquilo que é ser tia de alguém. Quando o fui pela primeira vez, tinha apenas 10 anos. Agora, 9 anos depois (quase 10, como raio é que é possível?), vejo tudo de forma diferente. E gosto mais de bebés do que antes - e sinto-me mais confortável em pegar-lhes, vesti-los, vira-los, mima-los como gosto tanto de fazer.

O mesmo dia: apenas um mês separa a morte e a vida. Começo a acreditar que, de alguma forma, as pessoas se substituem. Todos sabemos que uns vão e outros vêm, mas se calhar a vida encarrega-se de nos dar e tirar de forma mais ao menos equitativa e justa (nas vezes em que o faz, que há sempre tragédias). Já não é a primeira vez que acontece, e eu sentia que, de alguma forma, a minha avó ia dar o seu lugar no mundo a este pequerrucho. Ou então não, e é apenas mais uma das milhentas coincidências de que a vida é feita. E eu nessas acredito perfeitamente. 

29
Dez14

Para fechar este triste capítulo

Foi a primeira pessoa próxima que me morreu. Uma situação que se arrastava desde Agosto, numa degradação galopante e aflitiva, que nos desgastou a todos como nunca pensei. Como uma borracha que, de tanto afagar o papel, chega ao fim. A diferença é que a borracha não sofre, não chora, não se chateia, não se irrita, não fica impaciente, não tem de lidar com a dor. A borracha, por ser precisamente uma borracha, não sabe que o fim se aproxima. Mas nós sabíamos. 

Penso simplesmente no alívio que sinto e que partilho com aqueles que estavam a sofrer o mesmo que eu. E aqui inclui-se a minha avó. Não sou uma pessoa religiosa, não sei se a sua alma está no céu ou se há mais para além disto. Mas sei uma coisa: é difícil estar pior do que estava em terra. E talvez em breve estas últimas imagens terríveis se esvaiam da minha memória e o sentimento de culpa se apodere de mim, devido ao alívio que senti quando soube que partiu - porque sou uma novata disto das mortes e tudo mexe comigo de formas que não sei descrever. Mas a única solução para isto é ir vivendo, lidando e respirando. Porque tudo passa. E porque sei que nada fiz de errado e que a vontade de não ver sofrer quem amamos se sobrepõem, às vezes, à própria vida.

Foram 90 anos de uma vida muito bem vivida, muito viajada e, daquilo que conheço, muito feliz. A mim deu-me 19 anos de carinho, com muitos mimos para a sua neta caçula. Guardo no coração aqueles momentos em que me passava pequenas prendas por debaixo da mesa para o meu avô não ver e quando me estendia a mão para a apertar, mesmo já no fim de vida. Do seu sorriso, do seu cabelo sempre tão bem arranjado e do hábito de pintar os lábios sempre depois das refeições, de uma cor bem viva, algo que herdei. E da preocupação constante, ora com os meus exames, ora com os tubarões que andavam no mar algarvio e que, andando lá eu, me poderiam morder. 

Acaba-se assim mais um ciclo. Penso que a minha avó teria gostado de ver a sua família junta, tanto na capela como no seu funeral, a que tantas pessoas assistiram. Pessoas que, conhecendo-a mal ou bem, só queriam o melhor para ela e sabiam da garra de que era feita. Serviu esta ocasião para eu conhecer primos que mal sabia que existiam e trocar palavras com todas as pessoas e conhecer um bocadinho melhor uma família que nem sabia que tinha, mas que gostei muito de conhecer.

Resta-me agradecer a todos os que, por aqui, via facebook ou mensagem me enviaram as condolências e se preocuparam em me dizer algumas palavras de conforto. E à minha família (à que conheço, tão bem!), que apareceu em peso para me dar abraços tão apertados, e que mesmo nestes dois dias super gelados me aqueceram - literalmente - como nunca.

Acabo estes dois dias de perda com o coração cheio, de consciência limpa e com a certeza de que, mesmo não presente fisicamente, a minha avó me influenciará até ao resto dos meus dias, por tudo aquilo que tão bem implantou em mim.

05
Set14

De besta a bestial

Costuma-se dizer que num instante se passa de bestial a besta. Basta um comentário mais infeliz, uma fotografia menos positiva, que aquele que era o génio, o XPTO, o especial, aos olhos da opinião pública, deixa logo de o ser. Assim, fácil, como um estalar de dedos. Mais difícil é o contrário: passar de bestas a bestiais. Mas há uma forma deveras eficaz para o fazer: morrendo. 

Joan Rivers era, na minha opinião, uma mulher detestável, que ganhava a vida a gozar com os trapos dos outros (e, para mim, com as próprias pessoas), a ser má língua. E não, não era uma coisa esporádica. Não segui o início de carreira dela, pelo que não a posso julgar; para ser sincera, também mal vi o fim: pelo menos o "Fashion Police" estava na minha categoria de lixo televisivo. Daquilo que vi e li - porque lia sempre todas as calinadas que metia (uma das últimas sobre o holocausto), todas as pessoas que ela insultava e que acabavam por ripostar -  não merecia qualquer tipo de apreço. Piadas sem piada e gozo a um nível que já ultrapassava o saudável.

Mas não, agora que a senhora morreu não há que dizer dela. Era uma pioneira no humorismo, era espetacular, uma mulher sem fronteiras, e isto, e aquilo - e ou a minha opinião sobre ela é quase única no mundo, ou toda a gente mudou radicalmente perante a sua nova condição. A morte tem este efeito em nós: esquecemos tudo o que é mau, até a nossa própria opinião, talvez com uma esperança inconsciente de que façam o mesmo connosco no futuro. Esquecemo-nos é que não vamos estar cá para ouvir. 

24
Ago14

Sobre a morte

Sempre disse, sem grandes problemas, que me considerava uma pessoa fria: muitos outros o confirmaram, ou em tema de conversa ou atirando-me à cara como se esse fosse o defeito mais grave à face da terra. A verdade é que concordo - sempre concordei, mas a minha frieza não é só dirigida aos outros, mas também a mim.

Isto pode chocar muita gente, mas há uns anos atrás costumava dizer que lá para os 70 anos me suicidaria e acabaria a vida quando eu queria, como eu queria, quando ainda estivesse lúcida o suficiente para isso. Ao contrário de muita gente, não desejo uma vida assim tão longa; não faço disto uma corrida, como se ser o mais velho do mundo constituísse uma grande vitória. Quero ir quando achar que é a minha hora, assim de um suspiro para o outro, sem grande dor, sem grandes trabalhos, sem grandes dramas. Mais do que a morte, magoa-me a aflige-me a dependência, a degradação, a demência. E, por tudo isto, e desde sempre (o que é curioso porque desde nova que o meu pensamento se mantém assim), que pus em questão a evolução da medicina, a esperança média de vida, como se tudo isto fosse um mar de rosas. Pode ficar bem nas estatísticas, mas morrer de velho não é assim tão fácil, e é tudo menos bonito.

A minha frieza volta à ordem do dia. Hoje desejei que, um dia que morra, seja rápido e que não seja demasiado tarde. E que esteja sozinha, à espera de ninguém, para que ninguém sorria para mim como se tudo estivesse bem e que, ao virar da esquina, não derrame lágrimas pela perda que se avizinha.

31
Mar14

Noites menos felizes

Desde miúda que a morte me aterroriza. Aliás, ia para além da morte: pensava quando o mundo acabasse e na possibilidade de não existir mais vida em lado nenhum e aquilo que ficaria... que era nada. Mas não é "nada" como pensamos vulgarmente: é nada, mesmo nada, nada, zero, nada. Um nada impressionante e demasiado grande para uma miúda daquela idade conseguir digerir, e portanto acabava frequentemente a chorar quando pensava nestas coisas. Porque eu sempre soube que, em principio, quando morrer, tantos outros ficam na Terra - o problema é quando houver uma catástrofe qualquer e tudo desaparecer e... nada. Nada. Tudo nada. 

Confesso que ainda hoje esse pensamento me consome, embora muito menos vezes e sem choro à mistura. Esta última vaga de "pensamentos" surgiu nestes dias, à noite, e tem-me roubado muita paz: não penso propriamente no fim do mundo, mas no fim do meu mundo. Tenho medo de morrer, basicamente - ou que um dos meus morra. Um pensamento parvo, eu sei, que ninguém deve ter em mente - e que eu não tenho, normalmente, mas que à noite me invade, não sei bem porquê (suponho que seja do stress, de tudo o que me anda a moer por dentro e dos livros que ando a ler). Tenho medo de morrer sem ter sido feliz, de não ter feito toda uma série de coisas que acho que marcam uma vida, sem olhar para trás e sorrir, sem deixar uma marquinha - por pequena que seja - no mundo (um livro, um livro bastava). E, acima de tudo - mais do que não saber o que está do lado de lá - tenho medo de ter sido eu a provocar essa minha infelicidade, de me sentir culpada por ela.

Enfim, têm sido noites pouco produtivas, pouco felizes e pouco fáceis de digerir. Espero que passe rápido, tal como os meus pesadelos vão e voltam sem avisar. Que hoje caia redonda na cama e que tudo isto tenha sido de ontem e que fique lá, sem me perturbar novamente.

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