Viver não é sempre uma escolha
Há dias entrei num hipermercado e, à procura de umas canetas específicas, passei pela zona de livros e estacionário. Em destaque estava o livro de Joana Cruz, chamado "Escolhi Viver". Não peguei nele, não li a contracapa, não vi o preço - percebi logo que se tratava de um resumo da passagem e vivência da radialista pelo (e com o) cancro. Este tipo de situações são o pior do luto - são triggers invisíveis que nos esmurram, esbofeteiam e pontapeiam do nada, numa situação completamente normal e corriqueira do dia-a-dia, mas que do nada se torna num autêntico ringue e em que temos de nos segurar para não ficarmos KO.
Apesar de estar sem a minha irmã há quase ano e meio este tipo de situações ainda acontecem com frequência. Há coisas que vejo e que ouço que me deixam triste, outras mais sensível e ainda outras, como é o caso, que me deixam profundamente magoada e irritada. A culpa não é da Joana Cruz, que certamente só quis fazer o melhor possível para as pessoas que estão a passar por uma situação semelhante; mas chateia-me que ninguém que esteja numa situação como a minha nunca tenha dito "ah, espera, este título se calhar não é o melhor". Sabem porquê?
Porque a minha irmã escolheu viver. Escolheu viver até nos momentos em que estávamos a negociar a sua inevitável morte - em que pensámos a fundo como íamos gerir as coisas, até onde podíamos e devíamos ir. A minha irmã esticou a corda até ao limite - limites esses que alguns médicos nem sequer quiseram acompanhar. A minha irmã teve das atitudes mais positivas de sempre ao longo do seu tratamento e, mesmo nos paliativos, dizia sempre que só queria continuar viva.
Escolher viver só é válido quando temos escolha. Admito que se escolha viver quando alguém que está desesperado, prestes a atirar-se de uma ponte, volte para trás; admito que se escolha viver quando se tem o último destino traçado e apareça um tratamento inovador que está disponível em cima da mesa, mesmo que implique medo e incerteza. Admito que se escolha viver todos os dias quando se acorda e se tente fazer o melhor por aquele dia. Mas não se escolhe viver quando o corpo não deixa que a vida continue. Não é uma escolha. Porque a minha irmã escolheu viver e morreu na mesma.
Percebo a ideia que o livro quer provavelmente transmitir: que a positividade faz parte de um processo de cura, que contribuir positivamente para o tratamento - através de exercício, alimentação e outras directrizes saudáveis - ajuda muito a combater aquele pequeno demónio em forma de células que habita tantos corpos. Mas não é tudo. Há situações em que se luta, luta, luta e perde-se na mesma. Há situações em que se quer muito, muito, muito viver e morre-se na mesma. Há situações em se tenta tudo, tudo, tudo e o destino é aquele que mais se teme.
Aquele título é injusto e mexe comigo porque faz acreditar que ficar curado do cancro é uma escolha - e isso é mentira. Porque se fosse verdade eu não estaria a escrever este texto e a minha irmã estaria aqui ao meu lado.








