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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

18
Jan26

Viver não é sempre uma escolha

Há dias entrei num hipermercado e, à procura de umas canetas específicas, passei pela zona de livros e estacionário. Em destaque estava o livro de Joana Cruz, chamado "Escolhi Viver". Não peguei nele, não li a contracapa, não vi o preço - percebi logo que se tratava de um resumo da passagem e vivência da radialista pelo (e com o) cancro. Este tipo de situações são o pior do luto - são triggers invisíveis que nos esmurram, esbofeteiam e pontapeiam do nada, numa situação completamente normal e corriqueira do dia-a-dia, mas que do nada se torna num autêntico ringue e em que temos de nos segurar para não ficarmos KO. 

Apesar de estar sem a minha irmã há quase ano e meio este tipo de situações ainda acontecem com frequência. Há coisas que vejo e que ouço que me deixam triste, outras mais sensível e ainda outras, como é o caso, que me deixam profundamente magoada e irritada. A culpa não é da Joana Cruz, que certamente só quis fazer o melhor possível para as pessoas que estão a passar por uma situação semelhante; mas chateia-me que ninguém que esteja numa situação como a minha nunca tenha dito "ah, espera, este título se calhar não é o melhor". Sabem porquê?

Porque a minha irmã escolheu viver. Escolheu viver até nos momentos em que estávamos a negociar a sua inevitável morte - em que pensámos a fundo como íamos gerir as coisas, até onde podíamos e devíamos ir. A minha irmã esticou a corda até ao limite - limites esses que alguns médicos nem sequer quiseram acompanhar. A minha irmã teve das atitudes mais positivas de sempre ao longo do seu tratamento e, mesmo nos paliativos, dizia sempre que só queria continuar viva.

Escolher viver só é válido quando temos escolha. Admito que se escolha viver quando alguém que está desesperado, prestes a atirar-se de uma ponte, volte para trás; admito que se escolha viver quando se tem o último destino traçado e apareça um tratamento inovador que está disponível em cima da mesa, mesmo que implique medo e incerteza. Admito que se escolha viver todos os dias quando se acorda e se tente fazer o melhor por aquele dia. Mas não se escolhe viver quando o corpo não deixa que a vida continue. Não é uma escolha. Porque a minha irmã escolheu viver e morreu na mesma.

Percebo a ideia que o livro quer provavelmente transmitir: que a positividade faz parte de um processo de cura, que contribuir positivamente para o tratamento - através de exercício, alimentação e outras directrizes saudáveis - ajuda muito a combater aquele pequeno demónio em forma de células que habita tantos corpos. Mas não é tudo. Há situações em que se luta, luta, luta e perde-se na mesma. Há situações em que se quer muito, muito, muito viver e morre-se na mesma. Há situações em se tenta tudo, tudo, tudo e o destino é aquele que mais se teme. 

Aquele título é injusto e mexe comigo porque faz acreditar que ficar curado do cancro é uma escolha - e isso é mentira. Porque se fosse verdade eu não estaria a escrever este texto e a minha irmã estaria aqui ao meu lado. 

22
Out25

Um ano depois

O que mais me choca na morte é a vida que vem depois. Porque continua. Como é que continua? Como é que acordamos quando um dos nossos amores maiores falece? Como é que se continua a respirar, a trabalhar, a sorrir? Como é que se vive? Como é que tudo não pára naquele momento, se a nossa terra, aparentemente, parou de girar? Como é que os telejornais não comunicam aquele terramoto das nossas vidas, como é que não é visível a destruição à nossa volta, se a dor arrebentou na escala de Richter e não há nenhuma das nossas paredes que continue intacta?

É um sentimento estranho porque, por um lado, queremos de facto que tudo pare - é isso que faz sentido. Mas, por outro, agarramo-nos à vida como uma uma tábua que flutua num mar de dor. Algo dentro de nós sabe que o sol vai nascer no dia seguinte e que temos de continuar. É um paradoxo que passa a viver dentro de nós: a vontade de parar com tudo isto, que deixou de fazer sentido; e a obrigação de viver, de saborear, de compensarmos com a nossa própria vivência a vida que o outro perdeu precocemente.

Nem sequer sei bem como amanheceu no dia seguinte à morte da minha irmã e agora dou por mim, aqui e agora, 365 amanheceres depois. Como é que se passou um ano... eu não sei. Suponho que pelo segredo mais mal guardado da vida: ela continua. Independentemente de tudo. Nunca vai ser igual, nunca vai ser completa, mas continua. E não é por nos faltar uma peça do puzzle que vamos parar de o montar. Peça por peça, continuamos.  

Continuamos, ignorando o óbvio. Continuamos, apesar do número de telefone não atribuído. Apesar da ausência no Natal. Apesar da foto no cemitério. Continuamos, porque a vida não pode morrer para todos. Aprendemos a abraçar os gatilhos invisíveis que a vida põem à nossa frente e que nos lembram os maus momentos, passamos a ouvir a voz de quem partiu e seus conselhos na nossa cabeça em vez de fazermos uma chamada telefónica e aceitamos o buraco negro que passou a viver no nosso coração mas que não pode, de forma nenhuma, absorver toda a luz que nos rodeia. O luto é uma pedra pesada, cuja massa e volume não se alteram: nós é que crescemos à sua volta e nos habituamos a ele.

Passou um ano e a vida mudou. Com a morte da minha irmã acabou a instabilidade total dos dias, mas veio toda uma adaptação que ainda não está concluída. Sonho com a minha irmã dia-sim, dia-não - e penso nela todos os dias, a quase todas as horas; assim como penso na morte, na doença e no medo da vida com dor. Perdi receios, mas o trauma trouxe-me medos. Falo muito sobre ela e frequentemente sobre o que aconteceu o ano passado, mas há ainda muito por processar - talvez por isso tenha pedaços daquilo que um-dia-poderá-ser-um-livro já escrito sobre o processo de acompanhar alguém doente, sobre o luto e sobre o ponto de vista libertador de ver a morte como o último reduto. Mas o assunto é tão pesado e a tentação de o evitar é tão grande que duvido que alguém o queira sequer ler.

Lamento muito que a viagem que fizemos naqueles oito meses tenha culminado assim. Tenho pena por ela, que não merecia e que sofreu demasiado, e por nós... que vimos a desgraça a acontecer, sem nada poder fazer. Há momentos em que não acredito que ela morreu, em que uma qualquer memória triste me atinge como um murro vindo do vazio. Esses são os dias piores. Porque no meu dia-a-dia está bem presente que não posso falar com ela, mas parece simplesmente que ela foi para um destino paradisíaco qualquer e se esqueceu do telemóvel. Talvez essa seja uma boa definição de céu. Espero que assim seja, e que ela esteja num dos seus incríveis bikinis, a apanhar sol em cima de uma espreguiçadeira, como tanto gostava; que esteja numa praia com o mar calmo e clarinho - e que espere por nós, um dia. 

Tenho saudades, mana. Espero que estejas orgulhosa de mim.

 

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