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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

15
Nov22

Chávena de Letras - "Pequenas Grandes Mentiras"

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Todas somos, de alguma (e diferente) forma, a Jane, a Madeline ou Celeste. "Pequenas Grandes Mentiras" é, na verdade, um bom exemplo da vida real: todos mentimos em algum momento (provavelmente sobre um ou outro acontecimento do nosso passado - nem que seja com um simples "está tudo bem") e todos gostamos de manter as aparências para o exterior. O problema é quando essas mentiras se tornam no centro da nossa vida; quando se transformam nos nossos alicerces e construímos um castelo em cima de vigas de areia. E todas as personagens deste livro têm telhados de vidro no que às mentiras diz respeito - como todos temos, na vida real.

Decidi ler Liane Moriarty depois de ter ouvido rasgados elogios à sua narrativa no podcast "Vale a Pena", da Mariana Alvim. Não foi este o livro mais visado da autora nos vários comentários feitos por alguns convidados, mas pareceu-me um bom ponto de partida, por ter sido uma obra bastante badalada devido à sua adaptação a série. E a verdade é que não desapontou: a capacidade de nos envolver no enredo, a dúvida constante e a empatia com as personagens não falha - e é o mix perfeito para nos agarrar ao livro, do princípio ao fim. Moriarty não se fica pela clássica dúvida de "quem será o assassino". Aqui, nem sequer sabemos o assassinado, deixando-nos numa ânsia louca para folhear as páginas finais do livro!

A forma como a obra está escrita e construída, sem libertar spoilers a não ser na altura pretendida, é muito boa; a ideia dos depoimentos no final de cada capítulo aguça ainda mais o apetite e engana em vez de ajudar a resolver o mistério - o que ainda torna tudo mais intrigante. Esta era a característica mais mencionada sobre a autora, no podcast: no final, o plot twist é sempre inesperado, por muito bem que já conheçamos a escrita de Moriarty. Eu não sou o estilo de leitora que se agarra a um livro até saber o desfecho nem ocupo a mente em tentar deslindar mistérios, mas gostei muito desta fórmula, que só vem confirmar tudo aquilo que ouvi sobre a autora nos últimos tempos. Como tal, não creio que esta seja a minha última leitura da escritora australiana.

Única nota negativa a apontar: achei a desconstrução da narrativa, no final, muito repentina. Passamos 400 páginas a aprender sobre a dinâmica de Pirwee e de quem a habita, desvendando segredos aos pouquinhos, mas plantando muito mais dúvidas à medida que vamos folheando - e, do nada, descobrimos tudo rapidamente. Muitas das maiores revelações são feitas até de forma "seca", rápida e crua, qual penso rápido. Parece que a autora estava em ânsias para escrever o livro, depois de todo o cuidado e suspense que teve até aquele ponto. Há uma parte de nós que fica feliz, pois satisfaz-nos a curiosidade mórbida de saber o morto e o assassino - mas não diria que a narrativa sai a ganhar.

06
Out22

Chávena de Letras: os dois primeiros livros da série Bridgerton

As duas próximas reviews podem ter spoilers. Os livros foram lidos depois de ter visto a série.

 

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É difícil fazer a análise de um livro quando já temos na nossa posse todos os detalhes da história e conhecemos as personagens. E foi isso que me fez chegar a duas conclusões invulgares, que até podem parecer contraditórias:

1) A série é muito melhor que o livro.

2) O livro é bom (para o estilo) e difícil de "deslargar".

Aquilo que a série fez com o universo Bridgerton é só incrível; é um trabalho digno de aplauso, tendo em conta esta base de partida que, por comparação, é muito mais fraca e superficial. A série abre o espectro deste mundo criado por Julia Quinn, enquanto que o livro é extremamente focado no casal Daphne-Simon. O mais provável é que a série já tenha ido buscar detalhes dos livros futuros, de forma a construir personagens mais complexas e um universo coerente, que se adeque aquilo que vai acontecer a seguir; mas a verdade é que para além desse afunilamento da narrativa que existe no livro, na obra escrita nada mais nos puxa para além do romance. Por outro lado, a série cria todo um mistério à volta da Lady Whisteldown (que é pouco mencionada neste primeiro livro, excluindo as citações no início de cada capítulo), dá vida e conteúdo às personagens em redor dos protagonistas (Eloise, a Bridgerton com mais personalidade na série, não é mencionada no livro, por exemplo; a rainha não existe; mesmo o papel preponderante da Lady Danburry é muito desvanecido), já para não falar de todos os cenários incríveis e a música que a série apresenta.

A verdade é que, pelo menos lido à posteriori, este livro perde por comparação à série - se esta não existisse, eu provavelmente contentava-me com o que tinha lido e nem sequer questionava. Mas aqui entram de novo os contrassensos: será que eu compraria o livro se a série não existisse e se a capa não tivesse a cara das personagens? Definitivamente não. Este é o tipo de obra que faz check em todos os preconceitos de "chick lit" - desde a capa cor de rosa, passando pelo ar apaixonado da menina com as florzinhas no cabelo, culminando com cenas mais quentes que fazem as delícias de qualquer leitora ávida deste estilo de leitura.

Apesar de tudo isto, é muito provável que leia o segundo (e o terceiro, e quarto, sei lá!) - e esta é talvez esta a maior qualidade da escrita de Julia Quinn: deixar-nos presos, tanto enquanto lemos como quando pousamos o livro. Tem uma escrita fácil, fluída, empolgante. E nesta fase em que me encontro, com hábitos de leitura ainda instáveis, esta é a qualidade que mais aprecio e que mais me importa em qualquer obra que leia - mesmo que seja chick lit da mais pura.

 

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Mais uma vez, li o livro depois de ter visto a série. E, de novo, tiro o chapéu à série, por ter sido capaz de ver para além da escrita de Julia Quinn, do enredo demasiado focado só nos protagonistas e por ter conseguido diversificar o interesse noutras personagens, não desprezando ainda assim o desejo ardente entre os dois protagonistas. Tudo aquilo que enalteci na review do primeiro livro, poderia reescrever aqui.

A história central, desta vez, foge mais ao original, comparativamente ao primeiro; tudo o que a série modifica só vem acrescentar valor, por isso não me choca - como é o caso do enlace com Edwina, que no livro nunca chega a acontecer e o arrastar do envolvimento mais sério entre Kate e Anthony, que no livro é um tanto ao quanto repentino e na série demora mais a desenvolver-se. Lady Whistledown continua nas sombras, tendo um pequeno destaque nas páginas finais do livro, o que leva a crer que a cortina se vai abrir nos capítulos seguintes.

O próximo livro será o primeiro que lerei sem ter a série como base de comparação - e confesso-me muito curiosa, por só aí poderei fazer uma crítica mais ponderada, sem cair na tentação de comparar a escrita com a criação televisiva. De qualquer das formas, acho que gostei mais do primeiro livro de Queen e algo me diz que isto vai em decrescendo... Esperemos que esteja errada. O tempo o dirá - o terceiro livro da saga já está na estante à espera de ser lido.

22
Set22

Chávena de Letras: "Balada para Sophie"

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Foram precisos 27 anos para ler uma banda desenhada. E a verdade é que valeu a espera. Que livro! Que beleza. É poesia em forma de desenho, é música em versão papel.

Gostei muito da experiência de ler banda desenhada: na verdade achei uma óptima escolha para alguém que está a tentar restabelecer hábitos de leitura, uma vez que a história decorre rápido, sem grandes descrições e com base em diálogos, fazendo-nos avançar as páginas com vontade e sem demoras. Aprendi que não são precisas muitas palavras para descrever estados de espírito - nem sequer desenhos muito detalhados. A cor de fundo das páginas, o tamanho das letras, a profundidade das personagens... Incrível como tantas pequenas coisas - que nunca ninguém nos ensinou mas que interpretamos naturalmente - nos transmitem, às vezes, o essencial de uma história. E que bonita é está história, que bonita é esta balada (não só para Sophie, mas para todos).

21
Ago22

Cinco coisas que me ajudaram a readquirir hábitos de leitura

O ano ainda não acabou mas já teve duas conquistas muito grandes: a primeira foram os quase 10kg que perdi à custa de muito suor e lágrimas (felizmente o sangue não foi necessário!); foram três meses de dieta muito restrita (agora já aliviada, mas nunca totalmente posta de parte) e já lá vão quase nove meses de treinos praticamente diários, cinco a seis vezes por semana. A segunda conquista foi ter conseguido voltar a ler - que, na verdade, é o tema que me traz cá hoje.

Curiosamente, os dois feitos estão ligados entre si. Porque foi também por ter começado a treinar que consegui voltar a ler. E houve outras coisas que ajudaram - listei cinco, ao todo, e vou contar-vos a seguir:

 

- Um bom, e soft, pontapé de saída: comecei o ano a ler um livro mais técnico, sobre dietas (lá está, primeira conexão!) e alimentação. Na altura era "o" tema da minha vida, por isso queria muito chegar ao fim do livro para fazer uma gestão mais equilibrada da minha alimentação (embora ainda hoje esteja a ser seguida por uma nutricionista). Quando dei por mim já tinha chegado ao fim e já só precisava de continuar.

 

- Diversificar estilos: Quando cheguei ao fim do "XL ao S", divergi para um estilo completamente diferente e novo para mim: a banda desenhada. Li-o num fósforo! E para alguém que sempre se moveu a metas no que diz respeito a livros (embora saibamos todos que quantidade não é igual a qualidade), quase sem saber como, o número ia aumentado sem grande esforço. Só depois de "A Balada para Sophie" é que me voltei para a ficção, com um livro que me tinham oferecido e que tocou o meu coração, por todas as memórias boas que tenho do Japão - "Doce Tóquio".

 

- Definir tempos para ler - e para tudo o resto: uma das principais causas para o decaimento nos hábitos de leitura tem um nome simples e curto, que começa e acaba com a letra "s". Chamam-se séries. Não dão trabalho a ver, não temos de ter a luz do quarto ligada enquanto o nosso marido quer dormir, não temos de estar concentrados, despertos ou cheios de atenção - tudo (aparentes) vantagens. Mas aquilo que eu sempre senti é que ter a televisão ligada enquanto estou a adormecer me deixa agitada, enquanto que se ler fico logo muito mais relaxada; para além do stress, os livros exercitam-nos a mente, obrigando-nos à construção de cenários infinitos, enquanto que na televisão não podemos passar daquilo que escolheram mostrar-nos. No entanto, a verdade é que é difícil resistir a tanto facilitismo e ao hype que é construído em volta de várias séries, que nos deixam rapidamente com um bichinho que nos obriga a ficar colados ao ecrã durante dias seguidos. E se não podes vencê-los, junta-te a eles. Eu não deixei de ver séries - passei foi a vê-las em horários que não substituem a leitura. Que é quando? Na meia hora do demónio do meu dia, em que subo para cima da bicicleta e deixo lá os meus pulmões e, espero, umas quantas quilocalorias. Não consigo estar num aparelho de ginásio sem fazer nada: morro de tédio, começo a concentrar-me nas minhas dificuldades, a pensar em tudo o que podia estar a fazer em vez de estar ali a magoar o rabo - por isso preciso de um entretenimento. E qual é aquela coisa perfeita, que não precisa de muita concentração nem dá muito trabalho? Uma série. E as leituras ficam para a noite, com o seu slot de tempo vago, sem concorrência desleal.

 

- Ouvir o podcast "Vale a Pena": se há muito hype volta das séries, é preciso que o haja também em volta dos livros. E se não é bom comprarmos obras compulsivamente, até às estantes estarem cheias de livros nos quais nunca tocamos, também não nos faz mal ficarmos com aquela vontade de correr para uma livraria depois de termos ouvido rasgados elogios a uma determinada obra. E é por isso que o podcast da Mariana Alvim vale a pena (e passo o trocadilho ;) ) - é um programa com estrutura e feito com um profissionalismo que não é assim tão comum, uma vez que os podcasts são normalmente programas não lucrativos. A ideia é ter todas as terças-feiras um convidado que, normalmente, nada tem que ver com o mundo literário e saber quais os seus três livros favoritos - e perceber o porquê, claro. Dado o leque diverso das pessoas que vão ao programa, as respostas são muito diferentes e cobrem vários tipos de obras e estilos, por isso todas as semanas há uma nova surpresa para descobrir. E se por acaso estivermos numa daquelas fases chatas de um livro que não parece avançar, é uma boa forma de arranjarmos força para o acabar - para no final, claro, termos direito a um novo livro por bom comportamento ;)

 

- Arranjar livros que "colem" as leituras e nos deem vontade de continuar: desde há muitos anos que tenho esta técnica, mas infelizmente deixei de ter livros que servissem como cola e que me despertassem o interesse pela leitura. Para que é que servem? Para nos ajudar a ultrapassar livros que foram mais difíceis de terminar ou até obras cuja digestão não seja fácil. Uso-os, primeiro, por serem leves e fáceis de ler e segundo por, de alguma forma, nos entusiasmarem a continuar e não quebrar o ritmo. Durante muito tempo usei os livros do Tiago Rebelo para este efeito, pois tinham as características que considerava perfeitas: eram obras relativamente curtas, com histórias que agarravam facilmente e páginas que se viravam com facilidade, sem necessidade de pensar ou processar muito sobre o assunto. Li várias obras do autor mas considerei que vinham a perder qualidade, pelo que fiquei sem livros que cobrissem este propósito. Entretanto, com o sucesso da série Bridgerton - e por esta me dar aquele friozinho na espinha e vontade sempre de saber mais sobre o desenrolar da história - decidi começar a ler os livros, e percebi que tinham as características perfeitas para serem "livros cola". E por isso, de vez em quando, lá ando eu com uma obra de "chick lit" pura - mas que me vale umas belas gargalhadas e garante a continuidade das minhas leituras.

Dica extra! - Uma das coisas que fazia com que eu não lesse à noite era não querer incomodar o Miguel enquanto ele já descansava, por ter de estar com a luz ligada. E ao contar isto a uma amiga, ela deu a sugestão que mudou tudo: comprar uma luz estilo mineiro, daquelas que se colocam na cabeça e se compram por alguns euros na Decathlon. Se é um bocado ridículo? É. Se é um game changer? Também. É a solução que todos precisávamos para resolver os nossos problemas matrimoniais!

Em breve partilho as críticas aos livros que tenho lido!

E por aí, o que têm andado a ler neste verão? Há algum podcast sobre livros (e outros) que também gostem?

11
Jan22

Os escolhidos do ano de 2021

A escrita é assim: tem vida própria, leva-nos para onde quer. Esta lista que hoje aqui trago nasceu para um post que ganhou outra vida, aquele que acabou por ser o resumo do meu ano. Aquilo que escrevi era para ser só uma breve introdução e, quando dei conta, já era todo um texto com princípio, meio e fim, já demasiado profundo, não abrindo espaço para listas ou coisas um bocadinho mais supérfluas. Deixei que seguisse o seu caminho independente e fiquei com esta lista das minhas escolhas do ano para outra altura. E aqui está ele!

Não vou matar dois coelhos de uma só cajadada: vão ser muitos! A maioria dos temas ou nomes que aqui trago estavam à espera de um texto (mais propriamente uma "review da semana") há demasiado tempo, por isso vou fazer uma pequenina descrição de tudo aquilo que gostei no ano que findou, fazendo ao mesmo tempo uma "mixórdia de temáticas" de coisas muito boas.

 

Produto do ano

- Pão da Granélia -

Estive muito, muito, muito indecisa entre dois produtos - vou prometer a mim mesma que escrevo sobre o outro - mas tenho de escolher aquele que mais chama o meu coração: o pão da Granélia.

A Granélia é uma mercearia que abriu no centro do Maia há relativamente pouco tempo, que tem a sua ideia base na venda a granel (podem comprar hidratos e leguminosas como arroz e feijão ou especiarias como caril ou matcha, levando apenas um frasquinho) mas que está recheada de outras coisas boas: produtos biológicos, locais e de boa qualidade assim como outras soluções ecológicas para produtos de limpeza, higiene corporal entre outras coisas. Mas a melhor de todas é mesmo o pão de fermentação natural. Não é produzido lá - é comprado no Pão da Terra (que fica em Matosinhos mas é fora de mão para mim) - mas revendido nesta mercearia, e é só a melhor coisa do mundo. Eu adoro pão - e já tinha escrito aqui (texto sobre um pão igualmente bom, mas não TÃO bom) que o melhor pão do mundo era o sourdough que o meu irmão me trazia de Inglaterra quando vinha cá passar férias. Pois que este é o sourdough. O tal! O maravilhoso! Mas em Portugal, e aqui tão pertinho, ao virar da esquina. Como resistir?!

Os pães estão disponíveis à quarta e à sexta-feira em várias modalidades, mas têm de ser encomendados com antecedência. Eu vou lá de duas em duas semanas buscar o meu - tenho de me conter para não comer meio quilo de pão logo no primeiro dia, por isso congelo-o para não me tentar e vou descongelando ao longo dos dias quando tomo o pequeno almoço. Foi a descoberta do ano!

 

Podcast do ano

- Conta-me Tudo -

2021 foi o ano dos podcasts. De manhã, antes de sair de casa, faço sempre uma arrumação geral para que ao fim da tarde o peso das tarefas domésticas não seja tão grande e tenhamos, eu e o Miguel, algum tempo de qualidade juntos. Mas arrumar ou limpar em silêncio é um tédio. E eu já ouço muita música enquanto trabalho... por isso virei-me para os podcasts, que cumprem uma função mais extensiva que a música: dá para rir, chorar e informar, mas tem sempre como base o entretenimento.

Este hábito começou com o conselho do meu ex-chefe para ouvir o Extremamente Desagradável, da Joana Marques. Na "review de 2021" o Spotify diz que este é o meu podcast favorito (porque ouvi não sei quantos episódios de rajada até ficar em dia), mas não é verdade. Não que não goste (senão não ouvia), mas porque acho que os humoristas têm uma tarefa inglória ao tentarem ter piada todos os dias. É verdade que é um estilo de humor diferente, mas não deixa de ser um bocadinho desgastante - para ela e para nós.

Aquele que eu mais gostei foi o Conta-me Tudo, do David Cristina. Não só pela diversidade de histórias, de temas mas, acima de tudo, pelo leque de emoções que nos faz sentir; para além disso é curto e ideal para ouvir enquanto me arranjo ou faço as lides domésticas - entre fazer a cama, esticar o cabelo e pôr a comida a descongelar, um episódio fica ouvido.

Ouvi também alguns episódios do Reset, da Bumba na Fofinha, vários d'O Avesso da Canção, da Luísa Sobral (aconselho muito o episódio do Miguel Araújo e o do Pedro Abrunhosa) e também do E Projetos Para o Futuro, do Nuno Markl em parceria com a Delta (curtinhos e perfeitos para quando o tempo e a paciência não abundam). Quando não havia mais para ouvir, entretinha-me com A Noite da Má Língua - e enquanto me ria com as opiniões parvas de uns e uns tiros certeiros de outros, ficava a par das notícias do dia-a-dia, em vez de pensar só em fait divers.

Neste momento estou à procura de novos podcasts para me entreter, por isso se tiverem sugestões, chutem!

 

Série do Ano

- Sex Education -

Sei que não é a escolha mais óbvia, por isso carece de contexto. Sempre gostei muito da ideia original do Sex Education mas fiquei muitíssimo desiludida com a segunda temporada - de tal maneira que não a vi até ao fim. Achei que desvirtuaram a linha de ação (e personalidade) de algumas personagens e até o enredo me estava a irritar. Dei uma segunda oportunidade e vi a terceira temporada, lançada em 2021, e voltei a ficar agarrada e fã. 

É claro que o fim da Casa de Papel é digno de menção, mas ao contrário da Sex Education não acho que as últimas temporadas tenham dado a volta ao texto e melhorado - como já tinha escrito aqui, a série devia ter parado no primeiro assalto e fechado com chave de ouro. Squid Game leva o prémio de série mais viciante, mas é demasiado dark para o meu gosto pessoal. Por fim, mencionar as Doce - a série em português que mais gostei no ano passado. Espero que existam mais, com a mesma qualidade, neste 2022.

 

Documentário do ano

- Three Identical Strangers -

Three Identical Strangers é um documentário sobre o (re)encontro de irmãos trigémeos, separados à nascença, que aconteceu por mero acaso. É sobre a forma caricata como se encontraram uns aos outros, mas vai muito mais a fundo: porque é que eles foram separados? Será que tinham semelhanças apesar de terem vivido mais de duas décadas sem se conhecerem? E como é que o reencontro os afetou? As respostas são pouco óbvias e muito mais obscuras do que aquilo que se pensaria.

Não sei porque é que me marcou tanto - se pela história engraçada, se pelo twist que acabou por ter -, mas a verdade é que falo dele com regularidade e por isso penso ser justo dar-lhe este "prémio". O documentário estava na Netflix mas penso que entretanto saiu. 

 

Música do ano

- You Get What You Give, dos New Radicals - 

O Spotify dita que a música do meu ano é a Spring 1, uma revitalização do clássico de Vivaldi pelo Max Richter - mais uma vez porque a ouvi vezes sem fim, principalmente enquanto escrevia ou precisava de me sentir inspirada. Mas vou de novo desdizer a plataforma de streaming: apesar de adorar a Spring 1, não considero que tenha sido a música do meu ano.

Por alguma razão que desconheço, a You Get What You Give, dos New Radicals, é a música que eu associo ao meu casamento - e o facto de eu ter contraído matrimónio foi, sem dúvida, o evento central do meu ano (ou pelo menos da primeira metade). Por isso, e embora seja um bocadinho estranho escolher uma música de 1998 como a minha música de 2021, é o que vai acontecer.

Podendo dividir a coisa em dois semestres, a Adele marca sem dúvida a segunda parte do ano, com o seu novo álbum. A minha música preferida é a "I Drink Wine", mas aquela que descreve melhor 2021 é a "Hold On". Destaque extra para a lusofonia, com a minha música preferida do ano em português: Onde Vais, da Bárbara Bandeira e Carminho.

 

 

Livro do ano

- Almoço de Domingo, de José Luís Peixoto - 

Não é difícil escolher o livro do ano porque só li... dois. Eu sei, é vergonhoso. Ao menos um deles foi óptimo!

Gostei mesmo de ler este "Almoço de Domingo" - desde a estória até à construção peculiar da narrativa (algo a que os leitores de José Luís Peixoto já devem estar habituados, mas eu não). Há livros deste autor que, devido à estrutura e estilo de escrita peculiares, não me convencem. Abri uma exceção para este e ainda bem. Fiquei inspirada pela história de vida e pela força de Rui Nabeiro, de quem não sabia muito, mas de quem me senti muito mais próxima quando acabei de ler a última página.

 

"Quando acumulamos suficiente tempo, os domingos transformam-se num período de vida. Recordamos os domingos como uma unidade, anos inteiros só de domingos, estações inteiras compostas apenas por domingos: os domingos de verão, os domingos de outono, todos os domingo de inverno e, de novo, as promessas feitas pelos domingos de primavera. Foram dias separados por semanas, antecedidos por sábados com ilusões próprias, sucedidos por segundas-feiras com agendas precisas, tarefas fatais que exigiam ser feitas, mas tudo se dissipa até ficar apenas uma amálgama de domingos. Ao serem vividos, transformaram-se nessa amálgama, como um almoço de domingo infinito, a crescer permanentemente a partir do seu interior."

 

 

Programa de TV do ano

- Trafficked by Mariana van Zeller -

Sou completamente viciada nesta série que estreou o ano passado no National Geographic. A campanha promocional foi grande mas eu só me interessei mesmo pelo programa quando percebi que a jornalista era portuguesa, quando ouvi parte da entrevista que a Mariana deu ao Era O Que Faltava, da Rádio Comercial. E que jornalista! Que "tomates"!

A Mariana van Zeller mete-se no meio de gangs, de bunkers cheios de armas, de florestas recheadas de narcotraficantes e em mundos que só ouvimos falar nos filmes ou nas otícias, naquele que parece ser um mundo e uma realidade muito distantes. São normalmente 45 minutos de programa que devem exigir horas e horas e horas de pesquisa e de tentativas falhadas para ter alguém que dê a cara (ou pelo menos a voz) por todas as coisas ilegais de que já ouvimos falar mas com as quais nunca tivemos proximidade. 

A segunda temporada está agora a passar no National Geographic aos sábados, às 22h30. A primeira, para mim, ainda é melhor. Vale muito, muito, muito a pena!

 

O (meu) post do ano

- Uma História com Princípio, Meio e Sim! -

Toda a rubrica "Uma História com Príncipio, Meio e Sim!" foi um exercício muito bom, bonito e "depurador" para mim - e marcou claramente o meu ano a nível de escrita, pois foi aí que me foquei acima de tudo, defraudando todos os outros temas sobre os quais costumo dissertar. Esta série de textos foi dolorosa em alguns momentos e curativa noutros. Fi-la muito mais para mim do que para os outros, mas eu queria muito deixar registos desta fase tão conturbada da minha vida - um evento tão bom misturado com sentimentos tão difíceis... foi uma gestão complicada que quis documentar. Dentro deles, o post do vestido de noiva foi o mais lido e também o mais sentido - hoje choro quando o leio. Mas o mais importante de todos, o post do meu ano, foi o último, em que falo do casamento e da terapia.

 

A viagem do ano

- Maldivas -

Só fiz duas, Maldivas e Açores, e ainda quero escrever sobre ambas (ainda que já leve meio ano de atraso). Mas é claro que as Maldivas - perdoa-me Açores!!! - arrecadam este meu galardão, pois roubaram o meu coração. Quero tanto voltar!

 

A palavra do ano

- Resiliência

 

A foto do ano

Não há "a" foto. Há muitas, felizmente! E tendo em conta que este ano tive um fotógrafo por minha (nossa) conta num dia tão especial, a foto do ano tinha de ser uma das muitas que ele nos tirou. Mas de tão boas é difícil escolher... por isso, em vez de uma, vão duas:

 

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O vídeo do ano

Não há grandes dúvidas: o casamento foi o evento do meu ano e tudo roda à volta dele. Ainda não tinha mostrado nenhum vídeo daquele dia, por isso fica aqui em modo best of (este é o teaser, mais curtinho, bom para terem um glimpse daquilo que foi este dia tão bonito). 

 

11
Fev21

Chávena de Letras: "O enigma do quarto 622"

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Quinto livro de Dicker no cardápio e sua consolidação como um dos meus escritores favoritos da atualidade - embora esta não seja, para mim, a sua melhor obra.

O problema de se escrever recorrentemente livros muito bons é que a nossa expectativa fica demasiado alta - e a queda, quando se dá nesses casos, também é maior. Apesar da história, como todas as outras que escreveu, nos prender até ao fim do livro, este "O Enigma do Quarto 622" peca por alguns trechos um bocadinho parvos (deixo um pequeno excerto, que guardei mal li, por me parecer imediatamente ridiculo e digno de livro de crianças: "Arma ficou furiosa. Pegou numa esferográfica e, num gesto de raiva, cobriu de traços negros o rosto de Lev, antes de rasgar a fotografia, para o fazer desaparecer. Ah, como o odiava, a este destruidor de lares que destruía a vida do seu patrão!") e por uma série de recursos levados quase à exaustão - das reviravoltas na história até às analepses (demasiado) recorrentes. Chegam a ser a analisadas quatro fases da vida das personagens em simultâneo - e a certa uma altura já não sabemos muito bem em que patamar estamos. Isto dificulta muito a análise posterior da obra; depois de tantas "trocas e baldrocas" gostava de tirar algumas dúvidas a limpo (sim, nem todas as explicações me satisfazeram) e, de tanto andar para a frente e para trás, é quase impossível encontrar as respostas que procuro. Em 600 páginas, é como encontrar uma agulha no palheiro.

Diria que o autor se perdeu no meio da sua própria armadilha, em que normalmente prende os leitores, que não deixa que larguem as páginas até chegarem ao fim. É talvez um livro demasiado longo para o que seria necessário. Ainda estou para perceber se gosto, ou não, do facto dele se ter incluído a ele próprio no rol de personagens (mais: se ter escolhido como personagem principal). Vou investigar, mas creio que há algo de muito pessoal nesta história - talvez uma homenagem ao tal editor?

Apesar de tudo isto, é mais um bom livro para acrescentar à estante. Óptimo para se ler nas férias, quando temos tempo para ler as 600 páginas praticamente de uma só vez, enquanto a curiosidade nos corrói por dentro. O fim, esse, é uma reviravolta daquelas (quando achávamos que o golpe maior estava dado, zás, eis que Dicker saca do seu último trunfo). Nisso, o escritor é rei. E, talvez por isso, continue a salivar por cada novo livro que escreve.

29
Jan21

Chávena de letras: "A Amiga Genial"

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Mal percebi o estilo de escrita de Elena Ferrante fiquei de pé atrás: se por um lado tem uma beleza própria (que muitos descrevem como "crua"), por outro não é claramente aquilo de que costumo gostar. Não se pode dizer que seja um estilo descritivo - mas é, de algum modo, exaustivo. O facto de se tratarem de memórias, de todos os eventos relatados serem fruto de ações passadas, faz com que lhes sejam sempre acrescentadas análises e pensamentos que tornam o livro, embora mais interessante, também mais massudo. Há poucos diálogos, poucas movimentações imediatas. O livro vai ao sabor da vida, no fundo; da vida das duas amigas.

Percebi a razão deste fenómeno relativamente cedo; acho que muitos se devem rever nestas memórias, nas zangas e peripécias de infância e de adolescência, do tempo passar muito rápido nuns momentos e lentamente noutros; das mudanças de humor repentinas, nas mudanças de corpo que por vezes nos parecem igualmente rápidas; calculo que seja fácil esteriotipar os nossos amigos em personagens como Alfonso, Enzo ou Gino; se calhar até mesmo na relação entre Lila e Lenú, que me parece tudo menos saudável e me causou desconforto durante a maior parte do livro. Senti que a parte mais feliz da minha leitura foi quando, finalmente, se separaram - no fundo, acho que não passa da minha personalidade rabugenta a falar a mais alto, enquanto remói no pensamento de que se é mais feliz só, do que mal acompanhado.

Mas, acima de tudo, percebo a dificuldade que é contar bem uma história que não tem muito que contar - e Ferrante, quer gostemos ou não do estilo, fá-lo de forma exímia. É a vida, no fundo. Nem sempre há histórias para contar, nem sempre há um herói ou um mau da fita, não tem de se tirar uma moral de tudo o que se lê (ou vive). Enfim... É a vida, com tudo o que de entediante e entusiasmante tem nas suas diferentes fases.

Resta a questão: vou ler os seguintes? Confesso que não sei. Gostei da história e das personagens ricas, mas não sei se sou capaz de manter uma leitura entusiasmada quando sair do regime de férias (em que 80% do meu tempo pode ser dedicado à leitura) e voltar à vida normal; sinto que este é um livro que necessita de alguma concentração e que ganha se a sua leitura for seguida e feita num período relativamente curto - muito por culpa do elevado número de personagens, muito intrincadas entre elas, que por vezes acabam por se confundir na cabeça do leitor. Os próprios acontecimentos, suas relações e desavenças acabam por se misturar se não estiver tudo bem fresco e claro. Como a escrita, mais pesada e exaustiva, não me puxa por aí além, e por achar que não vou conseguir manter o ritmo que acho desejável para esta história, a minha continuidade nesta tetralogia ainda está em dúvida.

16
Set20

Chávena de Letras: "O Tatuador de Auchwitz"

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Um bom livro não vive só de uma boa história. Não sei se por "ter vindo" de uma obra em que a escrita era central e crucial (sendo que a história tinha na escrita o seu pulmão de oxigénio, por não "sobreviver" sozinha) ou por ter, simplesmente, um sentido crítico apurado: achei que este livro pobre no que à escrita diz respeito. Falo a todos os níveis: desde o vocabulário, passando pela fraca construção frásica e uma escrita demasiado básica (pontos finais a cada oração, falta de qualquer frase mais trabalhada), pelo parco trabalho na construção das personagens, terminando naquilo que me parecem trechos cheios de "arestas", que não viram a mão de um editor. Não sei que culpa é que a tradução poderá ter no meio disto tudo. Mas continuo a achar estranho a (tão) alta pontuação que é atribuída ao livro.

Acho ainda que o tema dos campos de concentração é abordado pela rama; não sei se sou só eu, mas apesar das atrocidades relatadas, este acaba por não ser um livro pesado. As personagens têm sempre um fundo de esperança que confere à obra uma aura mais leve do que aquilo que esperaria - o que, sendo bom por um lado, por outro acaba por lhe tirar um pouco de credibilidade (porque não há nada de light quando se fala em Auschwitz).

Não obstante, esta é uma bonita história de amor, que sem dúvida mereceu ver a luz do dia. Destaque positivo para o destaque de uma das dualidades mais duras do holocausto: colaborar com os agressores para sobreviver ou morrer com a dignidade intacta. Creio que o peso dos crimes que foram praticados pelos judeus contra judeus, principalmente dentro dos campos, é das questões que mais deve ferir um povo - já para não falar da consciência de quem os praticou.

25
Ago20

Chávena de Letras: "A Única História"

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Julian Barnes é perito em (d)escrever memórias. Mas memórias a sério, de forma fidedigna, com tudo a que têm direito. Narrar uma história no presente é muito diferente faze-lo enquanto se pensa no passado; não se trata só da precisão e dos detalhes que damos (ou não damos, quando contamos alguma coisa de memória, onde algo inevitavelmente nos falha), mas também da perspectiva que ganhamos da nossa própria história.

A nossa visão muda ao longo dos anos - uma queda no presente não tem graça, mas somos capazes de nos rir quando já tiverem passado uns anos. Da mesma forma, o mesmo desgosto amoroso não tem a mesma intensidade na altura em que o vivemos e volvidos uns anos, quando o lembramos; e o mesmo se passa com todo o processo de enamoramento com alguém. A memória tira detalhes e encantamento e normalmente acrescenta uma pitada de racionalidade.

É nisto que Julian Barnes é bom, a fazer este jogo de lembranças e seus confrontos com o presente. Mas se "O Sentido do Fim" me conquistou imediatamente e é ainda hoje um dos livros que recordo com maior carinho (apesar da história praticamente me passar ao lado), "A Única História" não teve a mesma capacidade. Embora tenha achado à partida a narrativa interessante - a ideia de relembrar o amor da nossa vida, todo o processo de enamoramento (e a forma como é visto pelos outros) e, depois, o confronto com os problemas que qualquer relação acarreta, este não me cativou por aí além e, de certeza, não me ficará na memória como a primeira obra que li do autor.

20
Ago20

Chávena de Letras: "Patagónia Express"

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A classificação que dou a este livro (4 de 5 estrelas) aumentou uma estrela na última página. Gostei muito do início do livro, achei a terceira parte algo confusa (e confesso que não sei se percebi totalmente algumas metáforas e comparações que foram feitas), mas o final - a pescadinha de rabo da boca - conquistou-me totalmente. Não considero que isto sejam crónicas de viagem, mas sim um conjunto de textos que, vistos como um todo, são uma imensa declaração de amor.

É dito inicialmente pelo autor que estes eram textos guardados "na gaveta", pelo que se compreende à partida que não tenha de existir uma linha lógica entre as partes (e até entre capítulos). Isto pode, ou não, abonar a favor do livro - dependerá do leitor. Se houve partes e personagens que me conquistaram, outras ficaram aquém.

Ainda assim, gostei. Sepúlveda tem uma escrita poética, limpa e doce. Tenho pena de só ter começado a explorar a sua obra agora (tinha lido um livro do autor antes, ainda na escola, numa leitura conjunta - o que não abonou a favor do livro), tendo a certeza que a sua partida precoce é uma das grandes perdas de 2020 no campo da literatura.

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