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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

04
Set18

Chávena de letras - "O Projeto Rosie"

Carolina

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 Ler as primeiras páginas aqui.

 

Achei este livro muito "queridinho". Adoro ler livros sobre pessoas que não se adaptam à sociedade (neste aspeto, esta obra lembra-me um pouco o "A Educação de Eleonor"), talvez porque me fazem sentir melhor comigo própria. Penso sempre: "ufa, afinal há quem seja pior que eu!". Ambos fazem com que esta característica tenha piada, de tão profunda que é e de cenas tão caricatas que proporciona. É a racionalidade levada a limite. 

É uma histórinha impossível de acontecer mas que bem dispõe e cuja escrita é agradável. Nota apenas para o final: não sei se fui eu que estava desatenta, mas não o achei nada óbvio. Tive de pensar, reler e voltar atrás para ter a certeza se percebi bem - e já vi perguntas aqui no Goodreads relacionadas com isso, daí achar que pode não estar tão bem conseguido. 

De resto, óptima leitura de praia.

 

P.S. Esta obra tem uma sequela, chamada "O Efeito Rosie", também editada em português pela Editorial Presença. Talvez o leia em breve.

04
Jul18

Cinco razões por que todos os amantes de livros devem ter uma conta no Goodreads

Carolina

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Já aqui escrevi muito sobre o Goodreads. Se tivesse que classificar a minha relação com esta rede social dos livros diria, à boa moda do facebook, que "é difícil". Tenho fases em que vou lá todos os dias, outras em que não ponho lá os pés durante meses. Isto reflete a inconstância dos meus hábitos de leitura, também eles cheios de altos e baixos, em que não leio nada durante demasiado tempo e depois, numa semana, vão logo três livros de um só trago. 

Agora que estou de "férias alargadas", com mais tempo, e depois de uma semana e meia de praia-com-água-fria (que implica não passar tempo nenhum no mar, tendo que me entreter sempre na areia), voltei aos livros. E, se voltei aos livros, voltei ao Goodreads. E sempre que volto gosto sempre: acho que é um site bem construído, que preenche totalmente os objetivos a que se propõe e com inúmeras vantagens. Fiz por isso uma lista (quem é que adora listas como eu?!) com cinco boas razões para que todos aqueles que gostam de livros criem lá uma conta. Vamos a isto:

 

1 - É a melhor forma de ter uma ideia geral de um livro e da sua qualidade 

Não me julguem se me virem a vaguear na Fnac com o telemóvel numa mão e um livro na outra. Não se trata de ter de ter sempre o telemóvel a postos para qualquer mensagem que caia, mas sim de ter o Goodreads aberto. Raramente faço compras por impulso no que toca a livros: se vejo algo que me interessa, vou à aplicação e dou uma vista de olhos nas críticas e na pontuação, só para perceber se vale a pena. É quase como se fosse o IMDB para os livros: neste caso, se a pontuação não passar das três estrelas, é melhor deixar o dito na prateleira.



2 - Poder ler e partilhar reviews 

Ao contrário de todas as outras redes sociais, aqui não sou selectiva em relação aos meus "amigos". Aceito toda a gente, porque isso significa ter mais diversidade quando vou ver a minha "dashboard". Tenho uma série de livrólicos lá - alguns que também partilham espaço aqui no Sapo - a quem presto mais atenção e de quem gosto de ler as críticas. Sim, porque apesar da pontuação já dizer algo sobre a opinião de cada um, as reviews são essenciais para mim: gosto de ler o que os outros acharam de determinadas obras e gosto de comentar, se também for caso. A minha mãe diz sempre que um livro é potencialmente milhões de livros - um por cada pessoa que o lê - e, nessa medida, é incrível como todos temos visões diferentes sobre precisamente a mesma obra, o mesmo conjunto de palavras e frases. E, ao contrário da maioria dos assuntos, a literatura é das coisas em que, às vezes, conseguimos mudar de perspetiva, ideias e interpretações, consoante aquilo que os outros nos dizem. E o Goodreads tem essa magia.



3 - Ajuda-nos a ler mais, estabelecendo metas

Não sei quanto a vós, mas eu gosto sempre de ter objetivos em relação a quase tudo na vida. Os livros não são exceção. Todos os inícios de ano o Goodreads convida-nos a determinar uma meta para o número de livros que lemos durante esse ano. Depois vai-nos dizendo se estamos atrasados ou adiantados, consoante o objetivo. Eu falho miseravelmente há dois anos consecutivos e estou a tentar não repetir a façanha este ano, mas essa "pressão" obriga-me a ler mais. É uma espécie de incentivo extra: quando estou a meio de um livro mais chato, que não me puxa tanto, há uma vozinha no meu cérebro que me diz "vá lá, senão nunca mais lês os 12 livros a que te propuseste! E olha que para alguém que gosta tanto de ler, um livro por mês já é uma miséria, Maria Carolina". E pronto, lá se vão mais umas páginas.



4 - Conhecer novas obras, estar a par das novidas, das tendências e dos lançamentos

No Goodreads uma coisa é certa: vamos todos os dias ver um novo livro que até ali desconhecíamos - ora porque os nossos "amigos" o lêem, ora porque "amigos dos amigos" o leram, ou deram like ou outra coisa qualquer. E esse poderá ser mais um dos nossos livros favoritos, quem sabe! Podemos também seguir muitos autores que, despertados para esta nova realidade, também têm lá conta e nos vão presenteando com novos lançamentos e novidades. Dizer também que esta é a plataforma ideal para perceber o quê que está a dar no mundo dos livros: quando há um fenómeno qualquer na literatura mundial (como o Fifty Shades of Grey ou A Rapariga do Comboio) é fácil de perceber, porque todaaa a gente está a ler a mesma coisa no mesmo período de tempo.

Para descobrir novos (e bons) livros há anualmente um concurso interno (os Goodreads Choice Awards), em que cada um dos utilizadores pode votar no que, para si, é o melhor livro do ano nas diferentes categorias (ficção, romance, humor, fantástico, infanto-juvenil, entre tantas outras). Mais do que os vencedores, eu dou sempre uma vista de olhos nos nomeados, de onde normalmente resulta uma compra de dois ou três livros que me chamaram particularmente à atenção - e que leio em inglês, por nessa altura ainda não existir tradução, mas que meio ano depois já estão espalhados nas livrarias em língua portuguesa. 


5 - É o auxiliar de memória perfeito

Esta é a razão pela qual estou seeeeempre a dizer à minha mãe para criar uma conta. A verdade é que passado uns tantos anos de se ler livros em modo non-stop nos vamos esquecendo das coisas. Nem sequer tem que ver com a idade: a nossa memória não tem espaço para tudo e só o que é mesmo bom é que nos fica marcado. E, mesmo assim, não são poucas as vezes em que digo "adorei esse livro" e, quando me perguntam do que trata, eu já não sei responder. Uma pessoa fica com uma ideia vaga do que leu e passa ao próximo. E por isso é que o Goodreads é espetacular, principalmente se nos dermos ao trabalho de escrever sobre cada um dos livros que lemos. Eu posso não me lembrar se li o livro Y ou Z e muito menos aquilo que achei dele mas, se o li, ele está lá. É uma espécie de biblioteca virtual, em que podemos arrumar os livros conforme queremos (e em várias prateleiras, que ainda por cima não ocupam espaço!), e que nos permite deixar uma marca e uma opinião sobre cada uma das obras que nos passaram pelas mãos. No fundo, é um registo aberto de uma das atividades melhores que há na vida.

 

Estão à espera de quê? E não se esqueçam de me amigar, aqui.

27
Jun18

Call Me by Your Name - o livro, a opinião e uma leitura simultânea

Carolina

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É preciso, antes da crítica, fazer um disclaimer importante: quando comprei este livro já tinha visto o filme, sabendo por isso de antemão a linha da história e que eventualmente o final me ia deixar com o coração partido. O filme, apesar de espetacular, não supera o livro, que (para mim) é soberbo.

Esta obra, mais do que uma história de amor, é um conjunto complexo (e muito fidedigno) de pensamentos quase infindáveis, que nos faz mergulhar dentro da cabeça de um adolescente que claramente se está a apaixonar mas que está em negação. E isto tem muito de bom, mas algo de mau: é incrível testemunharmos a evolução da personagem, perceber como o livro está bem construído e é fiel à complexa mente humana, mas esta constante torrente de pensamentos não necessariamente linear e incoerente pode ser cansativa, até porque o livro tem muito poucas pausas (sem capítulos, apenas quatro partes distintas). Mas enfim, até isso é real: às vezes o pensamento e as dúvidas constantes que assombram a nossa cabeça também são cansativas. Talvez tenha sido esse o objetivo do autor.

Acho que este é provavelmente o livro que li que melhor relata a complexidade que as relações humanas acarretam, ainda para mais quando são de teor amoroso. O querer e não quer, o medo de avançar, de estragar o que já existe, de atingir situações sem ponto de retorno. A eterna duvida se aquela pessoa vale a pena. Isto é algo constante na obra, nunca cessa; não é como na maioria dos romances, em que depois da duvida inicial as personagens se mudam de malas e bagagens e se atiram de cabeça para uma relação. Identifiquei-me muito em muitas passagens porque toda eu sou dúvidas nisto das relações. Aquela coisa de nos negarmos a nós próprios algo que emocionalmente sabemos que queremos mas que racionalmente não temos a certeza ser a escolha certa; de chegarmos ao ponto de querer que algo de mal aconteça só para não termos o poder de decisão, para que a culpa não seja nossa por aquilo não ter acontecido, arranjando na vida ou no destino um bode expiatório para a nossa própria cobardia. O vai-não-vai de Elio, as interpretações que faz das ações de Oliver e tudo o que vem a perceber depois é algo que faz jus à realidade e tiro o chapéu ao autor por conseguir descrever todo esse processo mental para o papel.

Aqui se prova que não há amores gay ou hetero, simplesmente há histórias de amor. E que bela história de amor, esta (ainda que triste, por isso preparem os lenços). Prova-se também que não é preciso descrever tudo ao pormenor (sim, estou a falar de ti, 50 Shades of Grey) para um livro ser extremamente sexy e erótico. Acho que toda a obra transmite, desde o inicio ao fim, um clima de romance e de uma tensão sexual difícil de encontrar.

Tudo para dizer que gostei muito, muito do livro - e que penso que será daqueles em que posso pegar daqui a uma dúzia de anos, dar-lhe novos significados, identificar-me com outras coisas, encontrar novos detalhes, e voltar a adorar.

Se vale a pena ler depois de ter visto o livro? Vale sempre a pena ler as histórias originais e, apesar da interpretação muito fidedigna, este não é excepção.

 

Curiosamente, li este livro ao mesmo tempo que a Beatriz, do "Procrastinar Também é Viver". Entre trocas de instastories - ferramenta através da qual nos apercebemos que estávamos a ler a mesma obra, na mesma altura - achamos que seria giro publicar as nossas reviews ao mesmo tempo, quase como uma comparação em tempo real. Porque, como a minha mãe diz, cada livro pode ser um milhão de livros, consoante o número de pessoas que o lê :) Sendo eu uma grande fã da Beatriz e levando muito a sério todas as suas críticas e conselhos literários, acho que este nosso timing não podia ser melhor. Passem pelo "estaminé" dela e digam de vossa justiça! 

31
Mai18

Um poema da Rupi Kaur por dia, nem sabes o bem que te fazia

Carolina

Não sou miúda de poesias. A única poesia que realmente aprecio é a de Fernando Pessoa (que está duplamente representado no meu quarto, com duas estátuas que adoro de paixão), até porque muitas vezes nem sequer se trata de poesia. Acho que ele tem quadras lindas, sei até algumas de cor, mas foi no Livro do Desassossego que me encontrei muitas vezes em alturas mais tristes. Lembro-me de me sentar no chão, encostada à cama, e de abrir o livro de forma aleatória e de encontrar algo que me acalentasse a alma. Acontecia sempre. Curiosamente, por ter esta forma distinta de o explorar, acho que nunca o li de uma ponta à outra.

Entretanto começaram a aparecer-me no feed do instagram (pelas mãos de Rui Maria Pêgo, caso queiram saber) uns pequenos poemas muito fofinhos, com uns desenhos a acompanhar, que me chamaram à atenção. Eram assinados por Rupi Kaur, aquilo que eu vim a descobrir ser uma “instapoet”. Descobri que ela tinha dois livros (que só depois me lembrei que já tinha visto no Goodreads com ótimas críticas, e penso que até nomeado para aqueles prémios anuais do site) e mandei-os vir pelo Book Depository. E a sensação que eu tenho é que, embora não tenham nada que ver entre si, estes são para mim outros Livro's do Desassossego.

Não que me identifique com tudo – felizmente!, porque há muita dor ali envolvida, nomeadamente devido a uma violação – mas há coisas tão bonitas, tão gerais mas ao mesmo tempo tão concretas, que não há como não nos sentirmos profundamente tocados. A escrita dela é de uma delicadeza incrível e de uma sensibilidade fora do normal. É incrível como parece simples, mas tem tanta coisa lá dentro.

Também já ouvi parte de uma TedTalk dela, mas confesso que não adorei. A forma como ela escreve os poemas é também a forma como ela fala – e o seu discurso está cheio de respirações, suspiros, movimento de mãos e de corpo deveras invulgares, que no fundo dão alma e pontuação a tudo aquilo, mas que não me conquistam no discurso falado. O tema (a violação) também não me prende, por isso não vi até ao fim, mas acho que é de tal forma único que acho que todos deviam ver, nem que fosse um bocadinho, só para ver como é possível ter não só poesia nas mãos, mas também em todo o resto do corpo.

Eu, para já, vou-me ficar pela leitura. O “the sun and her flowers” é, na minha opinião, melhor que o “milk and honey”, mas há coisas lindas em ambos. Para nossa sorte, muito do que lá está escrito está também na internet, por isso basta procurar. Se gostarem muito, façam como eu e mandem vir os livros, que funcionam quase como uma coletânea. Até porque todos sabemos que não há nada que se compare ao cheiro e ao toque de um livro. Os reais. Felizmente, ainda não há cá “instabooks”.

 

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09
Jan18

Então e o livro, quando vem?

Carolina

De vez em quando recebo emails e comentários - ou o tema surge mesmo em conversa com pessoas – a perguntar quando é que vem um livro. Quem me conhece sabe que este é um dos meus maiores sonhos, é uma coisa que eu quero muito fazer, mas quero faze-lo bem. A minha resposta é: “é muito cedo”. E sim, é verdade que hoje em dia há muitos jovens autores, como também é verdade que grandes nomes da literatura só lançaram as suas primeiras obras quando a sua idade já era um posto.

A minha mãe sempre me disse que só há uma forma de fazer as coisas: bem. E eu não acho que tenha maturidade suficiente para escrever um livro. Mas, mais grave que isso, não tenho sequer uma história. Podia dizer-vos que quero dar tempo ao tempo, que neste momento não tenho disponibilidade, que não estou suficientemente segura da minha escrita… tudo isso, que até pode ser verdade. Mas, acima de tudo, uma das razões que me leva adiar este sonho por mais uns anos é o facto de até hoje nunca me ter surgido uma história que eu quisesse contar.

O meu cérebro e a minha vertente literária funcionam, pelo menos para já, na perspetiva de crónicas: pegar em temas do dia a dia e esmiúça-los, passa-los para palavras, explica-los, faze-los ter piada ou ganhar expressão. É raríssimo eu olhar para alguém ou ter uma ideia qualquer e fazer disso um fio condutor para uma história de ficção. Não sei se isso é algo que ainda não cresceu em mim ou se, de facto, não faz parte daquilo que sou. Confesso que esta ultima perspetiva preocupa-me: e se eu não nasci para escrever ficção? Se eu não conseguir manter vivas personagens dentro de mim, dar-lhes uma história de vida e faze-la acontecer no papel? Acho que só o tempo o dirá.

Mas, dizem os outros, até podia lançar um livro de crónicas. Poder, podia, mas não era bem a mesma coisa. Podia lançar um best of com o que escrevi aqui – como muitos bloggers fazem hoje em dia – mas, sinceramente, não é uma ideia que me agrade. É verdade que a comida aquecida no micro-ondas continua a ser boa se a comida inicial também for boa, mas perde-se o elemento surpresa. Não sei quanto a vocês, mas eu não gosto muito de ler a mesma coisa duas vezes. É como comida requentada – eu como-a porque tenho fome, preguiça, não quero dar trabalho e causar desperdício. Porque, se pudesse, faria algo diferente e não perderia tempo com coisas antigas. E os textos requentados, para mim, perdem a piada.

Podia era escrever crónicas novas. Podia. Mas a verdade é que não é bem esse o livro que eu um dia gostava de publicar. E sinto que, nesta fase, lançar um livro seria só mesmo pelo ato simbólico em si e seria só mais um, como agora há milhões. Toda a gente acha que pode escrever um livro – e eu acho bem que exista essa liberdade, mas tenho pena que as pessoas não tenham sentido crítico suficiente para perceber que o papel ali gasto não vai acrescentar nada ao mundo. E eu não quero ser mais uma. Posso não ter a obra mais apreciada pelo público ou pela crítica; ter apenas quatro livros vendidos (um pelos meus pais, e três pelos meus irmãos): mas seria apreciado por mim e eu lançá-lo-ia de consciência tranquila, pensando que segui aquilo que sempre quis e fiz o meu melhor para a época.

Se a vida correr o seu caminho eu terei muitos anos para escrever livros e cumprir o meu sonho. Não quero pôr a carroça à frente dos bois; não quero pagar uma fortuna só para ter o ego cheio; não quero contribuir para esta época de esvaziamento da literatura; não quero fazer só por fazer. E isso pode ser daqui a dois anos ou daqui a trinta. Só o tempo o dirá.

05
Jan18

Chávena de letras - "Turtles all the way down"

Carolina

 Comprei este livro mal ele saiu, ansiosa por um livro que me fizesse ultrapassar o cansaço antes de dormir ou a preguiça de pegar num livro quando tinha uns minutos livres. Queria muito acaba-lo antes do fim do ano, mas não fui capaz. Muito porque este foi o livro de John Green que menos gostei... porque não parecia de John Green. Não me consegui relacionar com as personagens como antes e o enredo central é também dos mais fracos que me lembro.

A temática dos comportamentos obsessivo-compulsivos e dos distúrbios de ansiedade, embora importantes (essenciais?) de abordar, transformam muitas vezes o livro em algo menos prazeroso. Real, mas pouco convidativo à leitura: porque apesar de representar quase na perfeição aqueles ataques de pânico (been there, done that), é morosamente exaustivo (vulgo: chato). Os pensamentos circulam a mil à hora, sem pausas ou abrandamentos, e andam sempre à volta do mesmo, sem que consigamos sair daquele ciclo vicioso. E muitos dos caracteres escritos neste livro baseiam-se nisso. Chega até a ter uma página inteira entre a discussão mental entre o “anjo” e o “diabo”, em que quase os conseguimos imaginar em cada ombro da personagem principal, puxando a brasa à sua sardinha. (Tanto que eu decidi saltar a página).
E não sei se é por eu já ter passado por episódios que de alguma forma de relacionam com os da Aza, mas a leitura não me trouxe prazer. Incomodou-me, até - e se calhar é mesmo esse o objetivo, estar na pele de alguém com estes problemas. Só que não é o meu objetivo quando leio um livro.
Para além de tudo mais, achei o final previsível. A questão do título é explicada, tem graça, mas não me parece ter dimensão suficiente no livro para lhe dar o nome. Mas enfim: são escolhas.
Acredito que esta seja uma obra um tanto ao quanto emocional para o autor, mas dá-me ideia que foi escrita à pressa, em cima do joelho. Para mim, deixou muito a desejar.

(Lido em inglês)

22
Out17

Relembrar o gosto da leitura

Carolina

Há dias estava a pensar na evolução que fiz enquanto apreciadora de letras – de escrita, de livros, de leitura – e de como isso me mudou enquanto pessoa e, acima de tudo, em como alterou o rumo da minha vida. E cheguei à conclusão de que sou uma “leitora auto-construída”.

Eu nunca na minha vida pensei seguir um caminho que envolvesse letras. Nunca. Passei os meus primeiros anos de escola a odiar português – não tanto como educação física, mas quase. Não gostava de descodificar textos, não gostava de escrever, não gostava de ler, odiava fazer ditados (devido à quantidade absurda de erros ortográficos que dava), não percebia nada de gramática e tinha um ódio de estimação por trabalhos de casa longos, que obrigassem a grandes dissertações. Tinha notas miseráveis, nunca passava de um 3 medíocre na pauta e era uma das disciplinas que estava sempre condenada à desgraça.

Até ao dia em que comecei a ler, por impulso da minha irmã – devia ter os meus 13 anos. Não era a primeira vez que tentava, já tinha pegado no Harry Potter e nos livros de Uma Aventura, mas nunca tinha resultado – desistia sempre. E lembro-me de gostar do primeiro livro que li de uma ponta à outra, mas de nunca ter sido uma coisa natural: a mão não ia buscar o livro à mesinha de cabeceira de forma instintiva, não era algo que eu desejasse por antecipação. Era quase como ir ao mar quando a água está fria: custa muito lá entrar, mas só quando lá estamos é que percebemos o quão bom aquilo é. E quando saímos o ciclo volta a ser o mesmo: está frio, dá vontade de não entrar, esquecemo-nos do bom que é estar lá dentro e por isso estamos em constante negociação connosco próprios.

Hoje sei que a leitura é, acima de tudo, um hábito. São rotinas que se criam, a que depois de sucedem ciclos viciosos. E depois há incentivos que cada um vai criando para si próprio: para mim, há poucas coisas que me sabem tão bem como gastar dinheiro em livros, por exemplo; o prazer de deambular por uma livraria e trazer os escolhidos para casa é enorme; escrever críticas sobre o que acabei de ler é outra coisa que me dá gozo, assim como trocar impressões sobre escritores com outras pessoas que também gostam de ler. Tudo isso me dá prazer. Mas tudo isso se esquece com facilidade.

É engraçado como mudei o rumo da minha vida à custa das letras, por algo que inicialmente odiava. Hoje, escrever é uma parte essencial do meu trabalho, e é curioso ver como isso aconteceu por uma série de escolhas. Neste caso, não posso dizer que as letras me escolheram a mim: porque fui eu que as escolhi a elas. Foi por elas que bati o pé a ciências e a quase todos os que me rodeavam. E começou em nada, num pequenino ódio de estimação, inicialmente contrariado pelo meus familiares, e depois por mim, de forma sucessiva.

A minha relação com as letras – e nomeadamente com a leitura – é parecida com aquilo que devem ser as relações dos casais. Segundo ouço, o segredo é irem-se apaixonando uma e outra vez – mas, pelo meio, há sempre períodos de desamor, em que é preciso ter paciência e lentamente saber reaprender a amar, talvez até por razões diferentes.

Apesar de ter continuado a escrever (ainda que menos..), já há algum tempo que os meus hábitos de leitura deixaram de ser o que eram. Nunca li trinta livros num ano, nunca fui um bicho-papão, mas já há uns anos para cá que gostava de manter uma média razoável de leituras que, nos últimos dois anos, caíram a pique. E eu fiquei desgostosa. Perdi o hábito da leitura, em todas aquelas situações que me auto-ensinei a ler. E quando lia era por obrigação, numa tentativa de retomar o hábito e não por gostar daquilo que se estava a passar enquanto folheava as páginas – e depois de várias tentativas falhadas, desistia, escondia o livro como quem se esconde de vergonha, e tentava esquecer.

Mentia se dissesse que essa fase já passou. Estou a fazer por voltar a ler – a comprar livros que me intriguem, a voltar a pôr um livro na mesinha de cabeceira, a deixar de pensar que tenho demasiado sono e negociar comigo mesma uma leitura de um capítulo - mas não é fácil voltar a hábitos que não nos são inatos. E eu detesto dizer isto! Detesto dizer que a leitura - algo tão importante para mim e tão relacionado com a escrita - não é uma coisa que vive em mim permanentemente. Mas, de facto, não é. E, de tempos a tempos, temos de nos voltar a reconquistar. E cá estamos nós para ir à luta.

30
Jun17

Chávena de letras "O Falcão de Malta"

Carolina

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Sinopse aqui

 

Este é um policial clássico, com tudo o que tem direito: um detetive privado que acha que sabe tudo e que tira ilacões incríveis, mulherengo e galã, imprevisível, um filho da mãe mas também respeitador de uma moral que rege as suas ações e forma de atuar; uma cliente mentirosa e enganadora mas ao mesmo tempo coquete e irresistível; os polícias lerdos que nunca conseguem levar a deles avante; os rufias, um como sempre bonacheirão, e toda a envolvência deste tipo de obras dos inícios do século XX, onde não faltavam os cigarros em todos os sítios, o whiskey, a penumbra e etc.

Para quem gosta de policiais, esta é sem dúvida uma boa forma de passar um par de dias entretido e sem ter vontade de pousar o livro.
Nota para esta edição de bolso da Livros do Brasil, versão da Porto Editora, que é pequena, leve mas com uma letra boa para se ler, fazendo destas edições os livros perfeitos para se andar de um lado para o outro sempre com companhia sem estar a carregar um autêntico pedregulho na carteira.

28
Jun17

Chávena de letras - "O Livreiro de Paris"

Carolina

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Sinopse e primeiras páginas aqui

 

A maior crítica que posso fazer a este livro é o facto de ser enganador. Quando me falam em Paris e livros já é meio caminho andado para ler o que quer que seja - mas eu espero que o livro seja, de facto, passado em Paris e fale de livros. O que, neste livro, só acontece parcialmente. É aquilo que dá o mote à história, mas não passa disso.
A ideia da farmácia literária é muito boa, mas muito mal explorada - e a autora, apercebendo-se disso, dá um "docinho" ao leitor no final da obra para ver se ele se esquece que, durante o livro, pouco se desenvolve esta ideia, que é sem dúvida a melhor que a obra tem. Há partes que são absolutamente dispensáveis, incluindo o diário de Manon - confesso até que passei alguns trechos à frente. A escrita não é má, mas nada de excepcional - há partes do diálogo em que nem sempre se percebe quem é que fala e há falhas ao nível do descodificar das emoções (e consequentes reações); por vezes, parecia que as coisas aconteciam do nada, um ataque de choro ou de raiva caído do céu, meio descontextualizado.
Para mim, este é um livro sobre perda e sobre reencontro connosco próprios - de um ponto de vista, claro, muito romanceado. Estas três estrelas não são sinónimo do livro ser mau - simplesmente não era o livro que eu queria ler e que eu acreditava ser.

26
Jun17

Harry Potter: 20 anos a espalhar magia

Carolina

Mentia se dissesse que foi o Harry Potter que me iniciou na leitura - esse galardão vai para o Triângulo Jota, que me ensinou a gostar de ler. Também não estaria a ser correta se afirmasse que essa série foi o maior amor literário da minha vida: nunca, nada nem ninguém, vai alguma vez destronar aquilo que o Twilight representou para mim. Mas a verdade é que essa saga teve muito que ver com a fase da vida em que eu estava, porque a apanhei no início e vivi quase de uma ponta à outra com os sentimentos à flor da pele.

Mas quando, algures em 2010 - já os livros estavam cá fora, assim como metade dos filmes -, li o Harry Potter, soube que era para a vida, um amor diferente. Não é uma história de amor para corações eternamente românticos, não é um policial que se devore e se esqueça no dia seguinte. É uma lição de vida sobre a diferença, sobre a coragem, sobre a amizade, sobre a força, sobre a união mas também sobre a solidão. E, acima de tudo, sobre a magia - e o poder da imaginação. O Harry Potter mora em nós a partir do momento em que o conhecemos, os corredores de Hogwarts passam a ser os nossos corredores, a Hermione e o Ron os nossos confidentes. 

Para mim, todos os livros que tenham a capacidade de tele-transportar os seus leitores para outros mundos merecem ser lidos - sejam maus ou bons aos olhos da crítica. Já o escrevi aqui e repito quantas vezes forem necessárias: qualquer obra que inicie alguém na literatura já fez o seu papel; aquele livro passou a valer a pena, mesmo que seja uma desgraça. E, mesmo que o Harry Potter não tivesse tantas - tantas! - outras qualidades, teve a capacidade de mostrar a milhões de crianças, jovens e adultos que temos todos a possibilidade de viver num mundo paralelo, com ou sem magia, durante muito ou pouco tempo: basta abrir um livro. 

Acho que não há maior prova disso do que aquilo que se viu hoje nas redes sociais. Ao invés de uma desgraça, de um vídeo parvo e viral ou de discussões políticas, o meu feed encheu-se de magia, de saudade, de agradecimentos profundos; de óculos arredondados, de raios na testa e de trechos inesquecíveis. A minha geração - a "inculta", a "geração à rasca", "aqueles que estão a deixar o papel morrer" - parou, pensou, partilhou e escreveu massivamente sobre uma saga que toldou os seus tempos, que lançou um dos seus maiores ídolos e inspirações. Sei que a maioria das pessoas que leu estes livros se sente agradecido à J. K. Rowling por aquelas horas passadas a ler, num mundo tão mágico e tão especial como é Hogwarts, como é a Londres dos Muggles ou Privet Drive. 

Faz hoje 20 anos que foi publicado o Harry Potter e a Pedra Filosofal. Só há uns sete é que eu entrei, tal e qual na plataforma 9 3/4, neste mundo - mas a entrada foi tão rápida e tão drástica que sei que, por muito que faça, nunca mais vou de lá sair. Harry Potter, para mim, são momentos muito especiais (como o da foto em baixo, o ano passado, na livraria Lello); é Natal, é conforto, é um porto seguro. É o sinónimo de que a magia acontece, dentro e fora de páginas. E representou um dos grandes alentos que me fez ler mais e, acima de tudo, tentar escrever ainda melhor. Saber que alguém que aqui viveu teve a capacidade e a inspiração para construiu todo este mundo, torna tudo muito mais real, quase como se a possibilidade de isto acontecer a algum de nós - ou a mim - possa estar ao virar da esquina. E por isso, para além de tudo o resto, a J. K. deu-me - e dá-me - também esperança. Porque a magia acontece. E tal como nos provou o Harry Potter... ela sozinha não basta, mas com força de vontade... até o impossível se consegue.

 

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