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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

11
Jan22

Os escolhidos do ano de 2021

A escrita é assim: tem vida própria, leva-nos para onde quer. Esta lista que hoje aqui trago nasceu para um post que ganhou outra vida, aquele que acabou por ser o resumo do meu ano. Aquilo que escrevi era para ser só uma breve introdução e, quando dei conta, já era todo um texto com princípio, meio e fim, já demasiado profundo, não abrindo espaço para listas ou coisas um bocadinho mais supérfluas. Deixei que seguisse o seu caminho independente e fiquei com esta lista das minhas escolhas do ano para outra altura. E aqui está ele!

Não vou matar dois coelhos de uma só cajadada: vão ser muitos! A maioria dos temas ou nomes que aqui trago estavam à espera de um texto (mais propriamente uma "review da semana") há demasiado tempo, por isso vou fazer uma pequenina descrição de tudo aquilo que gostei no ano que findou, fazendo ao mesmo tempo uma "mixórdia de temáticas" de coisas muito boas.

 

Produto do ano

- Pão da Granélia -

Estive muito, muito, muito indecisa entre dois produtos - vou prometer a mim mesma que escrevo sobre o outro - mas tenho de escolher aquele que mais chama o meu coração: o pão da Granélia.

A Granélia é uma mercearia que abriu no centro do Maia há relativamente pouco tempo, que tem a sua ideia base na venda a granel (podem comprar hidratos e leguminosas como arroz e feijão ou especiarias como caril ou matcha, levando apenas um frasquinho) mas que está recheada de outras coisas boas: produtos biológicos, locais e de boa qualidade assim como outras soluções ecológicas para produtos de limpeza, higiene corporal entre outras coisas. Mas a melhor de todas é mesmo o pão de fermentação natural. Não é produzido lá - é comprado no Pão da Terra (que fica em Matosinhos mas é fora de mão para mim) - mas revendido nesta mercearia, e é só a melhor coisa do mundo. Eu adoro pão - e já tinha escrito aqui (texto sobre um pão igualmente bom, mas não TÃO bom) que o melhor pão do mundo era o sourdough que o meu irmão me trazia de Inglaterra quando vinha cá passar férias. Pois que este é o sourdough. O tal! O maravilhoso! Mas em Portugal, e aqui tão pertinho, ao virar da esquina. Como resistir?!

Os pães estão disponíveis à quarta e à sexta-feira em várias modalidades, mas têm de ser encomendados com antecedência. Eu vou lá de duas em duas semanas buscar o meu - tenho de me conter para não comer meio quilo de pão logo no primeiro dia, por isso congelo-o para não me tentar e vou descongelando ao longo dos dias quando tomo o pequeno almoço. Foi a descoberta do ano!

 

Podcast do ano

- Conta-me Tudo -

2021 foi o ano dos podcasts. De manhã, antes de sair de casa, faço sempre uma arrumação geral para que ao fim da tarde o peso das tarefas domésticas não seja tão grande e tenhamos, eu e o Miguel, algum tempo de qualidade juntos. Mas arrumar ou limpar em silêncio é um tédio. E eu já ouço muita música enquanto trabalho... por isso virei-me para os podcasts, que cumprem uma função mais extensiva que a música: dá para rir, chorar e informar, mas tem sempre como base o entretenimento.

Este hábito começou com o conselho do meu ex-chefe para ouvir o Extremamente Desagradável, da Joana Marques. Na "review de 2021" o Spotify diz que este é o meu podcast favorito (porque ouvi não sei quantos episódios de rajada até ficar em dia), mas não é verdade. Não que não goste (senão não ouvia), mas porque acho que os humoristas têm uma tarefa inglória ao tentarem ter piada todos os dias. É verdade que é um estilo de humor diferente, mas não deixa de ser um bocadinho desgastante - para ela e para nós.

Aquele que eu mais gostei foi o Conta-me Tudo, do David Cristina. Não só pela diversidade de histórias, de temas mas, acima de tudo, pelo leque de emoções que nos faz sentir; para além disso é curto e ideal para ouvir enquanto me arranjo ou faço as lides domésticas - entre fazer a cama, esticar o cabelo e pôr a comida a descongelar, um episódio fica ouvido.

Ouvi também alguns episódios do Reset, da Bumba na Fofinha, vários d'O Avesso da Canção, da Luísa Sobral (aconselho muito o episódio do Miguel Araújo e o do Pedro Abrunhosa) e também do E Projetos Para o Futuro, do Nuno Markl em parceria com a Delta (curtinhos e perfeitos para quando o tempo e a paciência não abundam). Quando não havia mais para ouvir, entretinha-me com A Noite da Má Língua - e enquanto me ria com as opiniões parvas de uns e uns tiros certeiros de outros, ficava a par das notícias do dia-a-dia, em vez de pensar só em fait divers.

Neste momento estou à procura de novos podcasts para me entreter, por isso se tiverem sugestões, chutem!

 

Série do Ano

- Sex Education -

Sei que não é a escolha mais óbvia, por isso carece de contexto. Sempre gostei muito da ideia original do Sex Education mas fiquei muitíssimo desiludida com a segunda temporada - de tal maneira que não a vi até ao fim. Achei que desvirtuaram a linha de ação (e personalidade) de algumas personagens e até o enredo me estava a irritar. Dei uma segunda oportunidade e vi a terceira temporada, lançada em 2021, e voltei a ficar agarrada e fã. 

É claro que o fim da Casa de Papel é digno de menção, mas ao contrário da Sex Education não acho que as últimas temporadas tenham dado a volta ao texto e melhorado - como já tinha escrito aqui, a série devia ter parado no primeiro assalto e fechado com chave de ouro. Squid Game leva o prémio de série mais viciante, mas é demasiado dark para o meu gosto pessoal. Por fim, mencionar as Doce - a série em português que mais gostei no ano passado. Espero que existam mais, com a mesma qualidade, neste 2022.

 

Documentário do ano

- Three Identical Strangers -

Three Identical Strangers é um documentário sobre o (re)encontro de irmãos trigémeos, separados à nascença, que aconteceu por mero acaso. É sobre a forma caricata como se encontraram uns aos outros, mas vai muito mais a fundo: porque é que eles foram separados? Será que tinham semelhanças apesar de terem vivido mais de duas décadas sem se conhecerem? E como é que o reencontro os afetou? As respostas são pouco óbvias e muito mais obscuras do que aquilo que se pensaria.

Não sei porque é que me marcou tanto - se pela história engraçada, se pelo twist que acabou por ter -, mas a verdade é que falo dele com regularidade e por isso penso ser justo dar-lhe este "prémio". O documentário estava na Netflix mas penso que entretanto saiu. 

 

Música do ano

- You Get What You Give, dos New Radicals - 

O Spotify dita que a música do meu ano é a Spring 1, uma revitalização do clássico de Vivaldi pelo Max Richter - mais uma vez porque a ouvi vezes sem fim, principalmente enquanto escrevia ou precisava de me sentir inspirada. Mas vou de novo desdizer a plataforma de streaming: apesar de adorar a Spring 1, não considero que tenha sido a música do meu ano.

Por alguma razão que desconheço, a You Get What You Give, dos New Radicals, é a música que eu associo ao meu casamento - e o facto de eu ter contraído matrimónio foi, sem dúvida, o evento central do meu ano (ou pelo menos da primeira metade). Por isso, e embora seja um bocadinho estranho escolher uma música de 1998 como a minha música de 2021, é o que vai acontecer.

Podendo dividir a coisa em dois semestres, a Adele marca sem dúvida a segunda parte do ano, com o seu novo álbum. A minha música preferida é a "I Drink Wine", mas aquela que descreve melhor 2021 é a "Hold On". Destaque extra para a lusofonia, com a minha música preferida do ano em português: Onde Vais, da Bárbara Bandeira e Carminho.

 

 

Livro do ano

- Almoço de Domingo, de José Luís Peixoto - 

Não é difícil escolher o livro do ano porque só li... dois. Eu sei, é vergonhoso. Ao menos um deles foi óptimo!

Gostei mesmo de ler este "Almoço de Domingo" - desde a estória até à construção peculiar da narrativa (algo a que os leitores de José Luís Peixoto já devem estar habituados, mas eu não). Há livros deste autor que, devido à estrutura e estilo de escrita peculiares, não me convencem. Abri uma exceção para este e ainda bem. Fiquei inspirada pela história de vida e pela força de Rui Nabeiro, de quem não sabia muito, mas de quem me senti muito mais próxima quando acabei de ler a última página.

 

"Quando acumulamos suficiente tempo, os domingos transformam-se num período de vida. Recordamos os domingos como uma unidade, anos inteiros só de domingos, estações inteiras compostas apenas por domingos: os domingos de verão, os domingos de outono, todos os domingo de inverno e, de novo, as promessas feitas pelos domingos de primavera. Foram dias separados por semanas, antecedidos por sábados com ilusões próprias, sucedidos por segundas-feiras com agendas precisas, tarefas fatais que exigiam ser feitas, mas tudo se dissipa até ficar apenas uma amálgama de domingos. Ao serem vividos, transformaram-se nessa amálgama, como um almoço de domingo infinito, a crescer permanentemente a partir do seu interior."

 

 

Programa de TV do ano

- Trafficked by Mariana van Zeller -

Sou completamente viciada nesta série que estreou o ano passado no National Geographic. A campanha promocional foi grande mas eu só me interessei mesmo pelo programa quando percebi que a jornalista era portuguesa, quando ouvi parte da entrevista que a Mariana deu ao Era O Que Faltava, da Rádio Comercial. E que jornalista! Que "tomates"!

A Mariana van Zeller mete-se no meio de gangs, de bunkers cheios de armas, de florestas recheadas de narcotraficantes e em mundos que só ouvimos falar nos filmes ou nas otícias, naquele que parece ser um mundo e uma realidade muito distantes. São normalmente 45 minutos de programa que devem exigir horas e horas e horas de pesquisa e de tentativas falhadas para ter alguém que dê a cara (ou pelo menos a voz) por todas as coisas ilegais de que já ouvimos falar mas com as quais nunca tivemos proximidade. 

A segunda temporada está agora a passar no National Geographic aos sábados, às 22h30. A primeira, para mim, ainda é melhor. Vale muito, muito, muito a pena!

 

O (meu) post do ano

- Uma História com Princípio, Meio e Sim! -

Toda a rubrica "Uma História com Príncipio, Meio e Sim!" foi um exercício muito bom, bonito e "depurador" para mim - e marcou claramente o meu ano a nível de escrita, pois foi aí que me foquei acima de tudo, defraudando todos os outros temas sobre os quais costumo dissertar. Esta série de textos foi dolorosa em alguns momentos e curativa noutros. Fi-la muito mais para mim do que para os outros, mas eu queria muito deixar registos desta fase tão conturbada da minha vida - um evento tão bom misturado com sentimentos tão difíceis... foi uma gestão complicada que quis documentar. Dentro deles, o post do vestido de noiva foi o mais lido e também o mais sentido - hoje choro quando o leio. Mas o mais importante de todos, o post do meu ano, foi o último, em que falo do casamento e da terapia.

 

A viagem do ano

- Maldivas -

Só fiz duas, Maldivas e Açores, e ainda quero escrever sobre ambas (ainda que já leve meio ano de atraso). Mas é claro que as Maldivas - perdoa-me Açores!!! - arrecadam este meu galardão, pois roubaram o meu coração. Quero tanto voltar!

 

A palavra do ano

- Resiliência

 

A foto do ano

Não há "a" foto. Há muitas, felizmente! E tendo em conta que este ano tive um fotógrafo por minha (nossa) conta num dia tão especial, a foto do ano tinha de ser uma das muitas que ele nos tirou. Mas de tão boas é difícil escolher... por isso, em vez de uma, vão duas:

 

C&M_TheStorytellers-1977.jpg

C&M_TheStorytellers-2035.jpg

 

O vídeo do ano

Não há grandes dúvidas: o casamento foi o evento do meu ano e tudo roda à volta dele. Ainda não tinha mostrado nenhum vídeo daquele dia, por isso fica aqui em modo best of (este é o teaser, mais curtinho, bom para terem um glimpse daquilo que foi este dia tão bonito). 

 

11
Fev21

Chávena de Letras: "O enigma do quarto 622"

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Quinto livro de Dicker no cardápio e sua consolidação como um dos meus escritores favoritos da atualidade - embora esta não seja, para mim, a sua melhor obra.

O problema de se escrever recorrentemente livros muito bons é que a nossa expectativa fica demasiado alta - e a queda, quando se dá nesses casos, também é maior. Apesar da história, como todas as outras que escreveu, nos prender até ao fim do livro, este "O Enigma do Quarto 622" peca por alguns trechos um bocadinho parvos (deixo um pequeno excerto, que guardei mal li, por me parecer imediatamente ridiculo e digno de livro de crianças: "Arma ficou furiosa. Pegou numa esferográfica e, num gesto de raiva, cobriu de traços negros o rosto de Lev, antes de rasgar a fotografia, para o fazer desaparecer. Ah, como o odiava, a este destruidor de lares que destruía a vida do seu patrão!") e por uma série de recursos levados quase à exaustão - das reviravoltas na história até às analepses (demasiado) recorrentes. Chegam a ser a analisadas quatro fases da vida das personagens em simultâneo - e a certa uma altura já não sabemos muito bem em que patamar estamos. Isto dificulta muito a análise posterior da obra; depois de tantas "trocas e baldrocas" gostava de tirar algumas dúvidas a limpo (sim, nem todas as explicações me satisfazeram) e, de tanto andar para a frente e para trás, é quase impossível encontrar as respostas que procuro. Em 600 páginas, é como encontrar uma agulha no palheiro.

Diria que o autor se perdeu no meio da sua própria armadilha, em que normalmente prende os leitores, que não deixa que larguem as páginas até chegarem ao fim. É talvez um livro demasiado longo para o que seria necessário. Ainda estou para perceber se gosto, ou não, do facto dele se ter incluído a ele próprio no rol de personagens (mais: se ter escolhido como personagem principal). Vou investigar, mas creio que há algo de muito pessoal nesta história - talvez uma homenagem ao tal editor?

Apesar de tudo isto, é mais um bom livro para acrescentar à estante. Óptimo para se ler nas férias, quando temos tempo para ler as 600 páginas praticamente de uma só vez, enquanto a curiosidade nos corrói por dentro. O fim, esse, é uma reviravolta daquelas (quando achávamos que o golpe maior estava dado, zás, eis que Dicker saca do seu último trunfo). Nisso, o escritor é rei. E, talvez por isso, continue a salivar por cada novo livro que escreve.

29
Jan21

Chávena de letras: "A Amiga Genial"

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Mal percebi o estilo de escrita de Elena Ferrante fiquei de pé atrás: se por um lado tem uma beleza própria (que muitos descrevem como "crua"), por outro não é claramente aquilo de que costumo gostar. Não se pode dizer que seja um estilo descritivo - mas é, de algum modo, exaustivo. O facto de se tratarem de memórias, de todos os eventos relatados serem fruto de ações passadas, faz com que lhes sejam sempre acrescentadas análises e pensamentos que tornam o livro, embora mais interessante, também mais massudo. Há poucos diálogos, poucas movimentações imediatas. O livro vai ao sabor da vida, no fundo; da vida das duas amigas.

Percebi a razão deste fenómeno relativamente cedo; acho que muitos se devem rever nestas memórias, nas zangas e peripécias de infância e de adolescência, do tempo passar muito rápido nuns momentos e lentamente noutros; das mudanças de humor repentinas, nas mudanças de corpo que por vezes nos parecem igualmente rápidas; calculo que seja fácil esteriotipar os nossos amigos em personagens como Alfonso, Enzo ou Gino; se calhar até mesmo na relação entre Lila e Lenú, que me parece tudo menos saudável e me causou desconforto durante a maior parte do livro. Senti que a parte mais feliz da minha leitura foi quando, finalmente, se separaram - no fundo, acho que não passa da minha personalidade rabugenta a falar a mais alto, enquanto remói no pensamento de que se é mais feliz só, do que mal acompanhado.

Mas, acima de tudo, percebo a dificuldade que é contar bem uma história que não tem muito que contar - e Ferrante, quer gostemos ou não do estilo, fá-lo de forma exímia. É a vida, no fundo. Nem sempre há histórias para contar, nem sempre há um herói ou um mau da fita, não tem de se tirar uma moral de tudo o que se lê (ou vive). Enfim... É a vida, com tudo o que de entediante e entusiasmante tem nas suas diferentes fases.

Resta a questão: vou ler os seguintes? Confesso que não sei. Gostei da história e das personagens ricas, mas não sei se sou capaz de manter uma leitura entusiasmada quando sair do regime de férias (em que 80% do meu tempo pode ser dedicado à leitura) e voltar à vida normal; sinto que este é um livro que necessita de alguma concentração e que ganha se a sua leitura for seguida e feita num período relativamente curto - muito por culpa do elevado número de personagens, muito intrincadas entre elas, que por vezes acabam por se confundir na cabeça do leitor. Os próprios acontecimentos, suas relações e desavenças acabam por se misturar se não estiver tudo bem fresco e claro. Como a escrita, mais pesada e exaustiva, não me puxa por aí além, e por achar que não vou conseguir manter o ritmo que acho desejável para esta história, a minha continuidade nesta tetralogia ainda está em dúvida.

16
Set20

Chávena de Letras: "O Tatuador de Auchwitz"

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Um bom livro não vive só de uma boa história. Não sei se por "ter vindo" de uma obra em que a escrita era central e crucial (sendo que a história tinha na escrita o seu pulmão de oxigénio, por não "sobreviver" sozinha) ou por ter, simplesmente, um sentido crítico apurado: achei que este livro pobre no que à escrita diz respeito. Falo a todos os níveis: desde o vocabulário, passando pela fraca construção frásica e uma escrita demasiado básica (pontos finais a cada oração, falta de qualquer frase mais trabalhada), pelo parco trabalho na construção das personagens, terminando naquilo que me parecem trechos cheios de "arestas", que não viram a mão de um editor. Não sei que culpa é que a tradução poderá ter no meio disto tudo. Mas continuo a achar estranho a (tão) alta pontuação que é atribuída ao livro.

Acho ainda que o tema dos campos de concentração é abordado pela rama; não sei se sou só eu, mas apesar das atrocidades relatadas, este acaba por não ser um livro pesado. As personagens têm sempre um fundo de esperança que confere à obra uma aura mais leve do que aquilo que esperaria - o que, sendo bom por um lado, por outro acaba por lhe tirar um pouco de credibilidade (porque não há nada de light quando se fala em Auschwitz).

Não obstante, esta é uma bonita história de amor, que sem dúvida mereceu ver a luz do dia. Destaque positivo para o destaque de uma das dualidades mais duras do holocausto: colaborar com os agressores para sobreviver ou morrer com a dignidade intacta. Creio que o peso dos crimes que foram praticados pelos judeus contra judeus, principalmente dentro dos campos, é das questões que mais deve ferir um povo - já para não falar da consciência de quem os praticou.

25
Ago20

Chávena de Letras: "A Única História"

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Julian Barnes é perito em (d)escrever memórias. Mas memórias a sério, de forma fidedigna, com tudo a que têm direito. Narrar uma história no presente é muito diferente faze-lo enquanto se pensa no passado; não se trata só da precisão e dos detalhes que damos (ou não damos, quando contamos alguma coisa de memória, onde algo inevitavelmente nos falha), mas também da perspectiva que ganhamos da nossa própria história.

A nossa visão muda ao longo dos anos - uma queda no presente não tem graça, mas somos capazes de nos rir quando já tiverem passado uns anos. Da mesma forma, o mesmo desgosto amoroso não tem a mesma intensidade na altura em que o vivemos e volvidos uns anos, quando o lembramos; e o mesmo se passa com todo o processo de enamoramento com alguém. A memória tira detalhes e encantamento e normalmente acrescenta uma pitada de racionalidade.

É nisto que Julian Barnes é bom, a fazer este jogo de lembranças e seus confrontos com o presente. Mas se "O Sentido do Fim" me conquistou imediatamente e é ainda hoje um dos livros que recordo com maior carinho (apesar da história praticamente me passar ao lado), "A Única História" não teve a mesma capacidade. Embora tenha achado à partida a narrativa interessante - a ideia de relembrar o amor da nossa vida, todo o processo de enamoramento (e a forma como é visto pelos outros) e, depois, o confronto com os problemas que qualquer relação acarreta, este não me cativou por aí além e, de certeza, não me ficará na memória como a primeira obra que li do autor.

20
Ago20

Chávena de Letras: "Patagónia Express"

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A classificação que dou a este livro (4 de 5 estrelas) aumentou uma estrela na última página. Gostei muito do início do livro, achei a terceira parte algo confusa (e confesso que não sei se percebi totalmente algumas metáforas e comparações que foram feitas), mas o final - a pescadinha de rabo da boca - conquistou-me totalmente. Não considero que isto sejam crónicas de viagem, mas sim um conjunto de textos que, vistos como um todo, são uma imensa declaração de amor.

É dito inicialmente pelo autor que estes eram textos guardados "na gaveta", pelo que se compreende à partida que não tenha de existir uma linha lógica entre as partes (e até entre capítulos). Isto pode, ou não, abonar a favor do livro - dependerá do leitor. Se houve partes e personagens que me conquistaram, outras ficaram aquém.

Ainda assim, gostei. Sepúlveda tem uma escrita poética, limpa e doce. Tenho pena de só ter começado a explorar a sua obra agora (tinha lido um livro do autor antes, ainda na escola, numa leitura conjunta - o que não abonou a favor do livro), tendo a certeza que a sua partida precoce é uma das grandes perdas de 2020 no campo da literatura.

26
Jul20

Chávena de Letras: "Manual de sobrevivência de um escritor"

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Nunca li nada de João Tordo para além deste seu manual de escrita, se assim podemos chamar. Mas mal o vi nas prateleiras virtuais de uma livraria online não resisti em comprar; sou sempre atraída por obras que explorem este ofício, independentemente de o analisarem de um ponto de vista mais técnico ou mais poético e romântico (como é o caso deste).

Apesar de ter sido uma leitura bastante agradável, devo confessar que o rolar das páginas não abonou a favor do livro: achei o início delicioso (a dissertação sobre o que é ser escritor e a forma como ele olha o mundo à sua volta), mas a parte do fim acabou por me soar um bocadinho... vá, presunçosa. Acho que a o meu desagrado começou algures quando o autor escreveu que "A menos que tenhas a sorte de escrever um bestseller à primeira, e vender centenas de milhares de exemplares (o que, habitualmente, significa que escreveste um livro mauzito) (...)" e continuou com aquilo que considera serem os "escritores literários" que, para além de serem aqueles que se dedicam a 100% a esta arte (não tendo mais nenhuma profissão), se depreende que se distinguem dos autores "pimba" (esta comparação com a música é a melhor forma que me ocorre de descrever este tipo de escritores - pelo menos vistos deste prisma -, que não se pautam por uma escrita super eclética, rica e que narram histórias mais corriqueiras). Eu percebo a distinção, mas acho-a preconceituosa. Não acho que se possa comparar Mário Vargas Llosa com Nicholas Sparks - mas, para mim, são ambos escritores: sentam-se, escrevem, corrigem, reescrevem, publicam, publicitam. Também não ouso comparar o Rui Veloso com o Quim Barreiros: mas ambos são, indubitavelmente, cantores, compositores e homens do mundo do espetáculo. São estilos diferentes - mas não tem de haver necessariamente um demérito de nenhum deles derivado ao estilo que preferem. A nossa tendência é, obviamente, juntarmo-nos ao grupo daqueles que consideramos ser os melhores. O autor cita muitos outros "escritores literários" ao longo da obra (o que enriquece imenso o livro) e ambiciona, claramente, fazer parte desse grupo. O que não é mau - mas pode deixar um rasgo de presunção que nem sempre conquista a simpatia de quem lê.

A visão purista da escrita também me dá alguma comichão; João Tordo dá-nos a entender que o escritor é quase refém do seu próprio ofício, que é a escrita que lhe comanda a vida e não o contrário - e que só assim será bem sucedido. Não sei se a visão é partilhada pelos seus colegas de trabalho (já li alguns, mas não muitos, manuais deste género), mas não me consigo identificar com ela. A verdade é que a minha opinião vale o que vale: apesar de sonhar publicar livros, nunca esteve nos meus planos fazer da escrita a minha fonte de rendimentos exclusiva - e, até agora, não publiquei nada, não me podendo considerar uma escritora, embora tenha escrito muitos milhares de palavras ao longo destes anos (mas guardo com carinho algo que Tordo escreve quase no fim da obra: "Faz a ti próprio esta pergunta à maneira de Rilke: Preciso de escrever? E, caso a resposta seja positiva e sincera, então podes chamar a ti próprio «escritor», mesmo que nada tenhas publicado.")

Tirando estes dois pontos, achei muito interessante o enfoque de alguns aspetos pessoais que os autores nem sempre mencionam neste tipo de obras: a dificuldade que é viver da escrita (e as cedências que temos de fazer para viver dela), a relação com a crítica e a maneira de retirarmos o melhor dela e, uma coisa que gostei em particular, a ligação normalmente próxima que os escritores têm com drogas e álcool, que embora a curto prazo possam parecer trazer inspiração, a longo prazo só trazem desgraça. A escrita é leve e rica em exemplos, muitos deles retirados dos livros e da experiência do próprio autor (algo que neste tipo de livros nem sempre é fácil, baseando-se tudo em citações de outros e ideias bonitas mas pouco concretas).

O facto de ser escrito por um autor português é um ponto positivo - e vai direitinho para a prateleira ao lado do "Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão", do Mário de Carvalho, que considero que vai muito na onda deste livro do João Tordo. É um livro para se ir pegando de vez em quando - talvez no dia em que me decida a escrever um livro de fio a pavio, talvez numa altura em que duvide de mim própria e destas minhas ambições literárias ou simplesmente numa altura em que me apeteça reler algumas das passagens que mais me inspiraram.

15
Jul20

Chávena de letras: "O Bibliotecário"

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Este é um bom livro de verão - uma obra leve que não exige muito de nós, que dá sempre vontade de virar a página e saber o que conta o capítulo seguinte. É um thriller com uma cadência cativante, que não deixa grandes margens para ficarmos entediados ou termos vontade de pousar o livro. Para os fascinados pela história do antigo Egipto deverá ser uma obra ainda mais entusiasmante, onde a verdade, a ficção e algumas teorias da conspiração se misturam num enredo que só por si já é atrativo. Nota-se uma preocupação do autor em contextualizar e precisar alguns pontos históricos, o que faz com que para além de mero entretenimento, possamos sair desta leitura mais ricos.

Ponto positivo a focar: o facto da personagem principal ser uma mulher que não se detém pelo medo do desconhecido e é levada pela vontade de conhecer mais. Pontos negativos: apesar de adorar a Emily, ela parece um bocadinho lerda inicialmente, não percebendo a dimensão do esquema em que se encontra e caindo em esparrelas básicas. Nota negativa também para a tradução: ao longo do livro há várias falhas - palavras não traduzidas, outras mal escritas, frases com uma formulação dúbia e pouco cuidado em alguns trechos, onde por exemplo se notava a repetição da mesma palavra numa só frase.
Fora isso, é um livro giro que bem entretém.

10
Abr20

Chávena de Letras: "Raparigas como Nós"

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Fico sempre um bocadinho "chateada" quando percebo que a minha opinião não se enquadra com a da maioria - não na vida em geral (aí, estou-me a borrifar) mas nos livros o caso é diferente. Quando uma massa grande de pessoas diz uma coisa e uma ou outra ovelhas ronhosas entendem dizer o contrário, a probabilidade é que sejam as ovelhinhas que estão erradas.

Neste caso, a esmagadora maioria das reviews que li era positivas - muito positivas. Já me haviam falado do livro, vi-o à venda, gostei muito da capa chamativa e, ainda por cima, era assinado por uma escritora portuguesa. Tinha tudo para correr bem.

Mas a verdade é que eu não sou uma rapariga como as "Raparigas como Nós". Acho que o segredo do sucesso da obra foi o facto dos leitores se identificarem, de reviverem na Isabel (a personagem principal) e nas suas experiências a sua própria adolescência. Amores, desamores, drogas, amigos, outros que deixam de o ser, grupinhos, os populares e os "feios"... enfim, o normal. Talvez por eu ter tido uma adolescência muito pacífica e um tanto anormal (muito fora dos círculos comuns, com muito poucos amigos - e em particular sem uma melhor amiga, tal como a Isabel tem a Alice -, e com opiniões demasiado fortes que não me permitiam "entrar" em grupos), este livro disse-me pouco.

Tem 420 páginas e sinto que a história podia ser contada, com a mesma riqueza e informação, em 350. A parte II do livro, com cerca de 70 páginas, foi para mim altamente maçadora - aquelas descrições sem fim de um amor platónico e parvo de miúdos tirou-me a paciência e li muitas das páginas na diagonal, retendo apenas o que me pareceu útil. Confesso que a personagem principal também não me apaixonou inicialmente, mas fui gradualmente gostando dela - e, acima de tudo, do facto de se manter firme nas suas convicções (confesso que achei que ia vacilar). Foi subindo, à medida que as páginas iam passando, na minha consideração. E isso, para mim, é o melhor do livro -a par do lado moral que transporta consigo e que nos pode ensinar algo, principalmente se formos mais novos.

Também por ter lido algumas reviews consegui antever com facilidade o fim do livro - e, talvez por si, fiquei longe de me sentir despedaçada, como muita gente diz ter-se sentido. Sinto que conheço aquela história, é uma realidade algo próxima, e o final pareceu-me óbvio. Triste, mas feliz ao mesmo tempo.

Do livro retenho duas lições importantes: 1) projetamos muitas vezes os nossos sonhos e fantasias nas pessoas com quem estamos quando elas não correspondem necessariamente à realidade, acabando com relações que até podiam dar certo se não houvesse essa dose de expectativas; 2) há o primeiro amor e depois há o amor de uma vida - e eles não são necessariamente coincidentes.

Não adorei o livro - longe disso - mas acho que Helena Magalhães pode vir a dar cartas. Continuarei atenta.

05
Abr20

Chávena de letras: "O desaparecimento de Stephanie Mailer"

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Jöel Dicker deu-me, há uns anos, um dos melhores livros que li até hoje: "A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert". Bastou um só livro para o considerar um escritor incrível. Continuei a achar, apesar de "O Livro dos Baltimore" e o "Os Últimos Dias dos Nossos Pais" (que, não sei porquê, não escrevi crítica) não me terem cativado como a primeira obra que li do autor.
Agora, a chama voltou. "O Desaparecimento de Stephanie Mailer" é um daqueles livros que não queremos pousar; em que apetece pôr uma placa de "ocupado" em cima da nossa testa até termos a certeza que chegámos à última página. É maravilhoso.

Não o achei tão esteticamente bonito como o Harry Quebert - que está recheado de frases maravilhosas e que nos fazem pensar muito no sentido da vida -, mas igualmente viciante e empolgante (uma característica que, para mim, é difícil de encontrar). Cada personagem tem um background interessante e poderoso, que condiciona as ações que teve ou tem, e que são reveladas a conta-gotas para que a curiosidade nunca deixe de se apoderar de nós.

O final surpreende. Peca por ser "apressado", quando ata todos os nós que faltavam para fechar plenamente a história, mas não deixa de ser um livro extraordinário. Quanto mais não seja por me ter dado vontade de ler mais e mais e mais após o seu fim.

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