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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

05
Set19

Chávena de Letras - "Janela Indiscreta - O que dizem as Estrelas"

por Mário Augusto

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Sou há muito tempo uma fã confessa de Mário Augusto. Foi ele que, indiretamente, me indicou o caminho para o jornalismo numa altura da minha vida em que eu estava particularmente perdida - e em que no encontramos num programa de televisão, ele enquanto entrevistador e eu como entrevistada (em 2010). Vi aí uma forma de aliar várias das minhas paixões e o meu objetivo passou a ser uma espécie de sua sucessora: "a" jornalista de cinema no país.

Esse sonho já lá vai - não quero nada com jornalismo. E mesmo do cinema tenho-me distanciado bastante. Mas o bichinho daquela ambição continua lá, assim como a admiração que tenho por este senhor. Acho-o extremamente humilde; daquelas personalidades que não conhecemos mas que pensamos "este homem deve ser mesmo boa pessoa".

Não podia, portanto, deixar passar este seu último livro. Queria muito saber as suas opiniões pessoais sobre as estrelas - esperando o seu polimento clássico e o seu típico cuidado com as palavras - e aprender algumas das peripécias por que passou, para poder absorver aquilo que é um bocadinho da sua vida, aquela que eu um dia também quis ter.

Nesse sentido, o livro não me encheu as medidas. Queria mais! Mas não deixa de ser uma obra de aprendizagem sobre o cinema, a sua história e evolução - e a perspectiva dos seus protagonistas (e do Mário Augusto) sobre isso mesmo. Há um grande enfoque sobre as diferenças sentidas pelos atores entre o cinema, a televisão e o teatro, assim como a forma como lidam com a fama e a gestão das suas carreiras. No fim, aprendemos que uma estrela de Hollywood se faz de um mix de trabalho, empenho, talento... e sempre uma pitada de sorte.

Não é um livro que vá recordar daqui a muito tempo, mas estou certa de que me vai servir para me ajudar a lembrar de pequenas histórias e dicas que Mário Augusto foi deixando ao longo da obra. Destaque para as sugestões de filmes que dá no fim de cada capítulo sobre os atores/realizadores... aguçou-me a vontade de passar umas belas horas em frente ao ecrã.

26
Jul19

Chávena de Letras - "Estar vivo aleija"

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Sou suspeita: gosto bastante do Ricardo Araújo Pereira. Talvez por isso tenha saído um bocadinho desapontada depois da leitura deste livro, pois senti que conhecia muito daquilo que li: a história das batatas da avó (uma das suas melhores crónicas, para mim), do pão parvamente cortado e outros "clássicos", já dados a conhecer na rádio e noutras entrevistas.

Ainda assim, todas elas são pautadas pela sua piada inteligente, tão característica, e por pitadas de sarcasmo e acidez que dão mais sabor à leitura.

As crónicas são curtas, de fácil leitura - mesmo que o tema não cative (como houve alguns, no meu caso, relacionados com política brasileira), não é um "sacrifício" que dure muito.

É um bom livro para se ir lendo, crónica a crónica, quando nos apetece; ou para ler de fio a pavio, numa boa tarde de verão, enquanto ouvimos interiormente a tão conhecida voz do Ricardo a ler as suas piadas exclusivamente para nós.

 

As minhas crónicas favoritas: "Aquele Momento", "Amor e Batatas", "Curriculum Vitae", "Maus-tratos a Livros", "Chamaram-me um Nome" e "Perigo: Importantes Lições de Vida".

20
Jul19

Chávena de letras - "O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares"

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Já há muito tempo que me tinham aconselhado a leitura d'"O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares", nomeadamente aqui no blog, em alturas em que desesperei por algo que me voltasse a querer reaver os meus bons hábitos de leitura. Fui adiando até um dia comprar o livro... E adiando ainda mais até o começar a ler.

Não sou pessoa de gostar de temas fantasmagóricos e de coisas assustadoras; ninguém me apanha a ver um filme de terror ou a ler sobre espíritos. Não é para mim. E quando li a sinopse deste livro achei podia resvalar para alguma destas temáticas.

Agora percebo que não. Há muito pouco de assustador aqui - pelo menos não mais que nos restantes livros de fantasia - e, pelo contrário, não há falta de coisas ternurentas a que nós agarrarmos. Vejo o porquê de mo terem aconselhado em tempos onde a leitura não esteja a fluir: este é um livro que se lê de rajada, em que a narrativa empolgante é ajudada pelo correr fácil das páginas, a escrita simples e as imagens que fazem acompanhar todas as descrições de criaturas peculiares, remetendo-nos para os tempos de criança, em que a nossa imaginação era auxiliada pelas ilustrações e outros desenhos.

É uma obra boa para ler no verão, que não nos faz querer parar de ler até sabermos o seu desfecho  A história está nitidamente desenhada para ter uma continuação - que, se não me engano, já existe - visto que há, claramente, muitos mundos para explorar neste universo criado por Riggs.

Gostei.

17
Jul19

Chávena de letras - "Se esta rua falasse"

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Os livros da Alfaguara têm o dom de me conquistar pela capa. Este "Se esta rua falasse" não foi excepção. O título também ajudou.

Mas a verdade é que tudo o resto me desiludiu. Não gostos de livros abertos, sem fins claros. Esta é uma obra pura, até dolorosamente pura, que retrata a vida dos pretos na América até há umas décadas atrás; as injustiças, as desigualdades, a diferença de tratamento em relação aos brancos. Algo que, se calhar, dura até hoje - ainda que mais disfarçado. Os paradoxos daquilo que se sente, do que se quer fazer... É tudo tão real quanto confuso.

Em termos da narrativa, foi como se não saísse do sítio. Passaram-se nove meses, entre o início e o fim do livro, excluindo os flashbacks - e tudo parece ter ficado igual. É um tanto ao quanto desmotivante - embora espelhe exatamente aquilo que o livro quer transmitir. A inércia. A tristeza. A incapacidade de fazermos algo.

Não digo que não seja um bom livro. Só não é o meu tipo de livro, algo cuja leitura me dê prazer.

20
Abr19

Chávena de Letras - Penas de Pato, de Miguel Araújo

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Gosto muito do Miguel Araújo. Aliás, sempre gostei, antes de saber que gostava - na altura em que era uma fangirl dos Azeitonas e já cantava as suas músicas de trás para a frente. Mas não sei até que ponto um bom letrista tem de ser um bom escritor. À partida crê-se que sim, que saberá manipular bem as palavras, articular ideias... Mas se escrever músicas fosse igual a escrever textos, quase todos nós o faríamos - e não é bem assim.

Mas com este livro prova-se bem que Miguel Araújo não é (só) bom letrista. É simplesmente (muito) bom com palavras, de uma forma geral. Para mim este conjunto de crónicas apresentam-se como uma forma de testes, de várias tentativas de diferentes estilos de escrita e de articulação de ideias. Ora mais Saramago, sem pontos finais e com vírgulas; ora mais Pessoa, com a sua veia mais poética; ora mais ao jeito de um investigador literado, quando se põe a dissertar sobre música; ora mais Miguel Araújo, no seu jeito particular de transmitir ideias. Coisas tão diferentes quanto boas, provando que ele é bom em muito mais do que um só estilo. E estes pequenos textos têm muitas vezes a peculiaridade de nos fazer pensar "mas isto é tão óbvio, como é que eu nunca pensei nisto?!".

E muito por culpa disso, a maior vantagem deste livro foi que à passagem de cada crónica voltava a mim a vontade de escrever. Lembrei-me que a razão deste livro existir (algum meio de comunicação social pedir a outra pessoa para escrever textos todas as semanas, sobre um tema à escolha) é também uma das razões que me alimenta o sonho de escrever; o sonho de que um dia me paguem para fazer aquilo que para mim não é trabalho.

Um livro leve, para ler de fio a pavio e que nos põe a pensar nas coisas simples da vida.

04
Set18

Chávena de letras - "O Projeto Rosie"

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 Ler as primeiras páginas aqui.

 

Achei este livro muito "queridinho". Adoro ler livros sobre pessoas que não se adaptam à sociedade (neste aspeto, esta obra lembra-me um pouco o "A Educação de Eleonor"), talvez porque me fazem sentir melhor comigo própria. Penso sempre: "ufa, afinal há quem seja pior que eu!". Ambos fazem com que esta característica tenha piada, de tão profunda que é e de cenas tão caricatas que proporciona. É a racionalidade levada a limite. 

É uma histórinha impossível de acontecer mas que bem dispõe e cuja escrita é agradável. Nota apenas para o final: não sei se fui eu que estava desatenta, mas não o achei nada óbvio. Tive de pensar, reler e voltar atrás para ter a certeza se percebi bem - e já vi perguntas aqui no Goodreads relacionadas com isso, daí achar que pode não estar tão bem conseguido. 

De resto, óptima leitura de praia.

 

P.S. Esta obra tem uma sequela, chamada "O Efeito Rosie", também editada em português pela Editorial Presença. Talvez o leia em breve.

04
Jul18

Cinco razões por que todos os amantes de livros devem ter uma conta no Goodreads

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Já aqui escrevi muito sobre o Goodreads. Se tivesse que classificar a minha relação com esta rede social dos livros diria, à boa moda do facebook, que "é difícil". Tenho fases em que vou lá todos os dias, outras em que não ponho lá os pés durante meses. Isto reflete a inconstância dos meus hábitos de leitura, também eles cheios de altos e baixos, em que não leio nada durante demasiado tempo e depois, numa semana, vão logo três livros de um só trago. 

Agora que estou de "férias alargadas", com mais tempo, e depois de uma semana e meia de praia-com-água-fria (que implica não passar tempo nenhum no mar, tendo que me entreter sempre na areia), voltei aos livros. E, se voltei aos livros, voltei ao Goodreads. E sempre que volto gosto sempre: acho que é um site bem construído, que preenche totalmente os objetivos a que se propõe e com inúmeras vantagens. Fiz por isso uma lista (quem é que adora listas como eu?!) com cinco boas razões para que todos aqueles que gostam de livros criem lá uma conta. Vamos a isto:

 

1 - É a melhor forma de ter uma ideia geral de um livro e da sua qualidade 

Não me julguem se me virem a vaguear na Fnac com o telemóvel numa mão e um livro na outra. Não se trata de ter de ter sempre o telemóvel a postos para qualquer mensagem que caia, mas sim de ter o Goodreads aberto. Raramente faço compras por impulso no que toca a livros: se vejo algo que me interessa, vou à aplicação e dou uma vista de olhos nas críticas e na pontuação, só para perceber se vale a pena. É quase como se fosse o IMDB para os livros: neste caso, se a pontuação não passar das três estrelas, é melhor deixar o dito na prateleira.



2 - Poder ler e partilhar reviews 

Ao contrário de todas as outras redes sociais, aqui não sou selectiva em relação aos meus "amigos". Aceito toda a gente, porque isso significa ter mais diversidade quando vou ver a minha "dashboard". Tenho uma série de livrólicos lá - alguns que também partilham espaço aqui no Sapo - a quem presto mais atenção e de quem gosto de ler as críticas. Sim, porque apesar da pontuação já dizer algo sobre a opinião de cada um, as reviews são essenciais para mim: gosto de ler o que os outros acharam de determinadas obras e gosto de comentar, se também for caso. A minha mãe diz sempre que um livro é potencialmente milhões de livros - um por cada pessoa que o lê - e, nessa medida, é incrível como todos temos visões diferentes sobre precisamente a mesma obra, o mesmo conjunto de palavras e frases. E, ao contrário da maioria dos assuntos, a literatura é das coisas em que, às vezes, conseguimos mudar de perspetiva, ideias e interpretações, consoante aquilo que os outros nos dizem. E o Goodreads tem essa magia.



3 - Ajuda-nos a ler mais, estabelecendo metas

Não sei quanto a vós, mas eu gosto sempre de ter objetivos em relação a quase tudo na vida. Os livros não são exceção. Todos os inícios de ano o Goodreads convida-nos a determinar uma meta para o número de livros que lemos durante esse ano. Depois vai-nos dizendo se estamos atrasados ou adiantados, consoante o objetivo. Eu falho miseravelmente há dois anos consecutivos e estou a tentar não repetir a façanha este ano, mas essa "pressão" obriga-me a ler mais. É uma espécie de incentivo extra: quando estou a meio de um livro mais chato, que não me puxa tanto, há uma vozinha no meu cérebro que me diz "vá lá, senão nunca mais lês os 12 livros a que te propuseste! E olha que para alguém que gosta tanto de ler, um livro por mês já é uma miséria, Maria Carolina". E pronto, lá se vão mais umas páginas.



4 - Conhecer novas obras, estar a par das novidas, das tendências e dos lançamentos

No Goodreads uma coisa é certa: vamos todos os dias ver um novo livro que até ali desconhecíamos - ora porque os nossos "amigos" o lêem, ora porque "amigos dos amigos" o leram, ou deram like ou outra coisa qualquer. E esse poderá ser mais um dos nossos livros favoritos, quem sabe! Podemos também seguir muitos autores que, despertados para esta nova realidade, também têm lá conta e nos vão presenteando com novos lançamentos e novidades. Dizer também que esta é a plataforma ideal para perceber o quê que está a dar no mundo dos livros: quando há um fenómeno qualquer na literatura mundial (como o Fifty Shades of Grey ou A Rapariga do Comboio) é fácil de perceber, porque todaaa a gente está a ler a mesma coisa no mesmo período de tempo.

Para descobrir novos (e bons) livros há anualmente um concurso interno (os Goodreads Choice Awards), em que cada um dos utilizadores pode votar no que, para si, é o melhor livro do ano nas diferentes categorias (ficção, romance, humor, fantástico, infanto-juvenil, entre tantas outras). Mais do que os vencedores, eu dou sempre uma vista de olhos nos nomeados, de onde normalmente resulta uma compra de dois ou três livros que me chamaram particularmente à atenção - e que leio em inglês, por nessa altura ainda não existir tradução, mas que meio ano depois já estão espalhados nas livrarias em língua portuguesa. 


5 - É o auxiliar de memória perfeito

Esta é a razão pela qual estou seeeeempre a dizer à minha mãe para criar uma conta. A verdade é que passado uns tantos anos de se ler livros em modo non-stop nos vamos esquecendo das coisas. Nem sequer tem que ver com a idade: a nossa memória não tem espaço para tudo e só o que é mesmo bom é que nos fica marcado. E, mesmo assim, não são poucas as vezes em que digo "adorei esse livro" e, quando me perguntam do que trata, eu já não sei responder. Uma pessoa fica com uma ideia vaga do que leu e passa ao próximo. E por isso é que o Goodreads é espetacular, principalmente se nos dermos ao trabalho de escrever sobre cada um dos livros que lemos. Eu posso não me lembrar se li o livro Y ou Z e muito menos aquilo que achei dele mas, se o li, ele está lá. É uma espécie de biblioteca virtual, em que podemos arrumar os livros conforme queremos (e em várias prateleiras, que ainda por cima não ocupam espaço!), e que nos permite deixar uma marca e uma opinião sobre cada uma das obras que nos passaram pelas mãos. No fundo, é um registo aberto de uma das atividades melhores que há na vida.

 

Estão à espera de quê? E não se esqueçam de me amigar, aqui.

27
Jun18

Call Me by Your Name - o livro, a opinião e uma leitura simultânea

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É preciso, antes da crítica, fazer um disclaimer importante: quando comprei este livro já tinha visto o filme, sabendo por isso de antemão a linha da história e que eventualmente o final me ia deixar com o coração partido. O filme, apesar de espetacular, não supera o livro, que (para mim) é soberbo.

Esta obra, mais do que uma história de amor, é um conjunto complexo (e muito fidedigno) de pensamentos quase infindáveis, que nos faz mergulhar dentro da cabeça de um adolescente que claramente se está a apaixonar mas que está em negação. E isto tem muito de bom, mas algo de mau: é incrível testemunharmos a evolução da personagem, perceber como o livro está bem construído e é fiel à complexa mente humana, mas esta constante torrente de pensamentos não necessariamente linear e incoerente pode ser cansativa, até porque o livro tem muito poucas pausas (sem capítulos, apenas quatro partes distintas). Mas enfim, até isso é real: às vezes o pensamento e as dúvidas constantes que assombram a nossa cabeça também são cansativas. Talvez tenha sido esse o objetivo do autor.

Acho que este é provavelmente o livro que li que melhor relata a complexidade que as relações humanas acarretam, ainda para mais quando são de teor amoroso. O querer e não quer, o medo de avançar, de estragar o que já existe, de atingir situações sem ponto de retorno. A eterna duvida se aquela pessoa vale a pena. Isto é algo constante na obra, nunca cessa; não é como na maioria dos romances, em que depois da duvida inicial as personagens se mudam de malas e bagagens e se atiram de cabeça para uma relação. Identifiquei-me muito em muitas passagens porque toda eu sou dúvidas nisto das relações. Aquela coisa de nos negarmos a nós próprios algo que emocionalmente sabemos que queremos mas que racionalmente não temos a certeza ser a escolha certa; de chegarmos ao ponto de querer que algo de mal aconteça só para não termos o poder de decisão, para que a culpa não seja nossa por aquilo não ter acontecido, arranjando na vida ou no destino um bode expiatório para a nossa própria cobardia. O vai-não-vai de Elio, as interpretações que faz das ações de Oliver e tudo o que vem a perceber depois é algo que faz jus à realidade e tiro o chapéu ao autor por conseguir descrever todo esse processo mental para o papel.

Aqui se prova que não há amores gay ou hetero, simplesmente há histórias de amor. E que bela história de amor, esta (ainda que triste, por isso preparem os lenços). Prova-se também que não é preciso descrever tudo ao pormenor (sim, estou a falar de ti, 50 Shades of Grey) para um livro ser extremamente sexy e erótico. Acho que toda a obra transmite, desde o inicio ao fim, um clima de romance e de uma tensão sexual difícil de encontrar.

Tudo para dizer que gostei muito, muito do livro - e que penso que será daqueles em que posso pegar daqui a uma dúzia de anos, dar-lhe novos significados, identificar-me com outras coisas, encontrar novos detalhes, e voltar a adorar.

Se vale a pena ler depois de ter visto o livro? Vale sempre a pena ler as histórias originais e, apesar da interpretação muito fidedigna, este não é excepção.

 

Curiosamente, li este livro ao mesmo tempo que a Beatriz, do "Procrastinar Também é Viver". Entre trocas de instastories - ferramenta através da qual nos apercebemos que estávamos a ler a mesma obra, na mesma altura - achamos que seria giro publicar as nossas reviews ao mesmo tempo, quase como uma comparação em tempo real. Porque, como a minha mãe diz, cada livro pode ser um milhão de livros, consoante o número de pessoas que o lê :) Sendo eu uma grande fã da Beatriz e levando muito a sério todas as suas críticas e conselhos literários, acho que este nosso timing não podia ser melhor. Passem pelo "estaminé" dela e digam de vossa justiça! 

31
Mai18

Um poema da Rupi Kaur por dia, nem sabes o bem que te fazia

Não sou miúda de poesias. A única poesia que realmente aprecio é a de Fernando Pessoa (que está duplamente representado no meu quarto, com duas estátuas que adoro de paixão), até porque muitas vezes nem sequer se trata de poesia. Acho que ele tem quadras lindas, sei até algumas de cor, mas foi no Livro do Desassossego que me encontrei muitas vezes em alturas mais tristes. Lembro-me de me sentar no chão, encostada à cama, e de abrir o livro de forma aleatória e de encontrar algo que me acalentasse a alma. Acontecia sempre. Curiosamente, por ter esta forma distinta de o explorar, acho que nunca o li de uma ponta à outra.

Entretanto começaram a aparecer-me no feed do instagram (pelas mãos de Rui Maria Pêgo, caso queiram saber) uns pequenos poemas muito fofinhos, com uns desenhos a acompanhar, que me chamaram à atenção. Eram assinados por Rupi Kaur, aquilo que eu vim a descobrir ser uma “instapoet”. Descobri que ela tinha dois livros (que só depois me lembrei que já tinha visto no Goodreads com ótimas críticas, e penso que até nomeado para aqueles prémios anuais do site) e mandei-os vir pelo Book Depository. E a sensação que eu tenho é que, embora não tenham nada que ver entre si, estes são para mim outros Livro's do Desassossego.

Não que me identifique com tudo – felizmente!, porque há muita dor ali envolvida, nomeadamente devido a uma violação – mas há coisas tão bonitas, tão gerais mas ao mesmo tempo tão concretas, que não há como não nos sentirmos profundamente tocados. A escrita dela é de uma delicadeza incrível e de uma sensibilidade fora do normal. É incrível como parece simples, mas tem tanta coisa lá dentro.

Também já ouvi parte de uma TedTalk dela, mas confesso que não adorei. A forma como ela escreve os poemas é também a forma como ela fala – e o seu discurso está cheio de respirações, suspiros, movimento de mãos e de corpo deveras invulgares, que no fundo dão alma e pontuação a tudo aquilo, mas que não me conquistam no discurso falado. O tema (a violação) também não me prende, por isso não vi até ao fim, mas acho que é de tal forma único que acho que todos deviam ver, nem que fosse um bocadinho, só para ver como é possível ter não só poesia nas mãos, mas também em todo o resto do corpo.

Eu, para já, vou-me ficar pela leitura. O “the sun and her flowers” é, na minha opinião, melhor que o “milk and honey”, mas há coisas lindas em ambos. Para nossa sorte, muito do que lá está escrito está também na internet, por isso basta procurar. Se gostarem muito, façam como eu e mandem vir os livros, que funcionam quase como uma coletânea. Até porque todos sabemos que não há nada que se compare ao cheiro e ao toque de um livro. Os reais. Felizmente, ainda não há cá “instabooks”.

 

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09
Jan18

Então e o livro, quando vem?

De vez em quando recebo emails e comentários - ou o tema surge mesmo em conversa com pessoas – a perguntar quando é que vem um livro. Quem me conhece sabe que este é um dos meus maiores sonhos, é uma coisa que eu quero muito fazer, mas quero faze-lo bem. A minha resposta é: “é muito cedo”. E sim, é verdade que hoje em dia há muitos jovens autores, como também é verdade que grandes nomes da literatura só lançaram as suas primeiras obras quando a sua idade já era um posto.

A minha mãe sempre me disse que só há uma forma de fazer as coisas: bem. E eu não acho que tenha maturidade suficiente para escrever um livro. Mas, mais grave que isso, não tenho sequer uma história. Podia dizer-vos que quero dar tempo ao tempo, que neste momento não tenho disponibilidade, que não estou suficientemente segura da minha escrita… tudo isso, que até pode ser verdade. Mas, acima de tudo, uma das razões que me leva adiar este sonho por mais uns anos é o facto de até hoje nunca me ter surgido uma história que eu quisesse contar.

O meu cérebro e a minha vertente literária funcionam, pelo menos para já, na perspetiva de crónicas: pegar em temas do dia a dia e esmiúça-los, passa-los para palavras, explica-los, faze-los ter piada ou ganhar expressão. É raríssimo eu olhar para alguém ou ter uma ideia qualquer e fazer disso um fio condutor para uma história de ficção. Não sei se isso é algo que ainda não cresceu em mim ou se, de facto, não faz parte daquilo que sou. Confesso que esta ultima perspetiva preocupa-me: e se eu não nasci para escrever ficção? Se eu não conseguir manter vivas personagens dentro de mim, dar-lhes uma história de vida e faze-la acontecer no papel? Acho que só o tempo o dirá.

Mas, dizem os outros, até podia lançar um livro de crónicas. Poder, podia, mas não era bem a mesma coisa. Podia lançar um best of com o que escrevi aqui – como muitos bloggers fazem hoje em dia – mas, sinceramente, não é uma ideia que me agrade. É verdade que a comida aquecida no micro-ondas continua a ser boa se a comida inicial também for boa, mas perde-se o elemento surpresa. Não sei quanto a vocês, mas eu não gosto muito de ler a mesma coisa duas vezes. É como comida requentada – eu como-a porque tenho fome, preguiça, não quero dar trabalho e causar desperdício. Porque, se pudesse, faria algo diferente e não perderia tempo com coisas antigas. E os textos requentados, para mim, perdem a piada.

Podia era escrever crónicas novas. Podia. Mas a verdade é que não é bem esse o livro que eu um dia gostava de publicar. E sinto que, nesta fase, lançar um livro seria só mesmo pelo ato simbólico em si e seria só mais um, como agora há milhões. Toda a gente acha que pode escrever um livro – e eu acho bem que exista essa liberdade, mas tenho pena que as pessoas não tenham sentido crítico suficiente para perceber que o papel ali gasto não vai acrescentar nada ao mundo. E eu não quero ser mais uma. Posso não ter a obra mais apreciada pelo público ou pela crítica; ter apenas quatro livros vendidos (um pelos meus pais, e três pelos meus irmãos): mas seria apreciado por mim e eu lançá-lo-ia de consciência tranquila, pensando que segui aquilo que sempre quis e fiz o meu melhor para a época.

Se a vida correr o seu caminho eu terei muitos anos para escrever livros e cumprir o meu sonho. Não quero pôr a carroça à frente dos bois; não quero pagar uma fortuna só para ter o ego cheio; não quero contribuir para esta época de esvaziamento da literatura; não quero fazer só por fazer. E isso pode ser daqui a dois anos ou daqui a trinta. Só o tempo o dirá.

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