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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

16
Mai20

A importância dos humoristas

Em particular do Ricardo Araújo Pereira e do Bruno Nogueira

Algures em tempo de campanha para as últimas eleições (parece que foi noutra vida, não é? As arruadas com centenas de pessoas que não precisavam de estar a dois metros de distância uma das outras, enquanto entregam flyers sem luvas e sem pensar quantos micro-nano-bichos alguém pode ter lá deixado após um espirro acidental e  coisas do género) eu já queria ter escrito um texto sobre a importância dos humoristas. Aliás: desta nova vaga de humoristas que se consolidou nos últimos anos, que conseguem o mix difícil de não só nos fazer rir como nos chamar à atenção para a realidade. O que eu quero dizer é que há uma linha que separa o Fernando Rocha do Ricardo Araújo Pereira (RAP) e outra que separa o Salvador Martinha do Bruno Nogueira. Não quer dizer que uns sejam melhores que outros, mas são claramente diferentes. Provavelmente o que os distingue é que uns têm como objetivo fazer-nos rir; os outros querem que nos ríamos perante assuntos sérios.

Na altura, o mote do meu post era o impacto do "Gente que Não Sabe Estar", em que o RAP comentava (e gozava) a atualidade política e fazia entrevistas aos principais líderes partidários - tudo isto sempre com o seu toque de ironia e sarcasmo característicos. Pensei muitas vezes na preciosidade que ele tinha em seu poder e, por outro lado, o quão arriscado é deixar uma coisa tão importante nas mãos de um só indivíduo, que também terá a sua preferência política e poderá influenciar os outros sem que estes oiçam a outra parte. Isto porque, para mim, um programa destes tem muito mais impacto do que qualquer grande entrevista, debate ou outros formatos clássicos - e chatos - que se fazem nestas alturas. Chega às massas. As pessoas sabem que se vão rir e não vão adormecer; identificam-se com o que se diz em vez de sentirem que lhes estão a vender banha da cobra; percebem o que é dito e não se perdem no meio dos chavões lançados pelos políticos. Isto para além de conseguir fazer com que percebamos como é que são aquelas pessoas que nos querem representar, para além das suas ideias políticas. Têm sentido do humor, são boa onda, sabem rir-se de si próprias e safar-se quando as questões não são sobre o orçamento de estado? Isso importa. Hoje pouco se vota em partidos, esquerdas ou direitas; tendemos a personificar a política e é-nos essencial perceber quem são essas pessoas. E é por isso que para mim estes programas do RAP em tempos de eleições fazem mais pela política do que 99% dos outros programas e propagandas. Daí a sua importância.

Mas não só na vertente política o humor tem importância. Sempre o teve do ponto de vista do entretenimento: vai ser eternamente um escape e a forma de relaxar de muitos. Mas nesta altura de pandemia penso que foi mais que isso: foi uma tábua de salvação para a sanidade de muitos. E, neste caso, falo especificamente dos diretos feitos pelo Bruno Nogueira no seu Instagram, sob o nome "Como é que o Bicho Mexe". A "série" acabou ontem e uma amiga minha, que a acompanhava religiosamente, dizia-me: "e agora o que vou fazer à noite? Aquilo era essencial para mim! Quando o cansaço começava a bater e os pensamentos maus chegavam, por causa dos medos e da pandemia, lá vinha o direto do Bruno para eu me rir e esquecer tudo". E é verdade.

Já aqui tinha falado sobre esta ideia do BN no post em que nomeava algumas das coisas boas que surgiram graças (e durante) a pandemia. Não era espectadora habitual porque as horas do direto não eram compatíveis com o meu horário de sono - mas vi alguns momentos marcantes, como o Vhils a "construir" o Zeca Afonso na parede de sua casa no 25 de Abril, a Maria João Pires a tocar Debussy no seu piano de cauda e as homenagens que várias pessoas fizeram no dia da mãe às suas mães. E sinto que para além de uma mera forma de entretimento, estes foram episódios quase educativos, mostrando uma cultura muitas vezes não tão tocada ou popular. O Bruno deu a conhecer muita gente que estava nas margens - e mostrou algumas facetas de outras que já conhecíamos mas que se revelaram perante uma pequena câmara no conforto de sua casa, onde aparentemente ninguém os está a ver. Independentemente do número de vezes em que se disse e mencionou "cona", "caralho", "foda-se", "pila" entre outros vocábulos (até deste ponto de vista enriquecedores ao nível do vernáculo), o que BN fez foi importante. Para a cultura, para o entretenimento mas, acima de tudo, para as pessoas.

Isso viu-se ontem quando, após ter dado o mote para as pessoas que assistiam aos diretos colocarem luzes de Natal nas suas varandas, ele saiu à rua para testemunhar com os próprios olhos o impacto do programa que fez. Aliás: da companhia que fez às pessoas. O resultado foi uma mistura entre o hilariante e o emocionante, com milhares de pessoas às janelas e outras tantas na rua (eles iam dizendo ou mostrando onde estavam a passar), assim como a formação de autênticas comitivas atrás do carro adornado com luzinhas, onde ia com o Nuno Markl ao volante. Por vezes mal o conseguíamos ouvir, tal era a potência das buzinadelas e dos berros das pessoas que passavam. Foi uma espécie de procissão, vá, mas a um ritmo mais acelerado e mantendo a distância de segurança. No meio disto tudo a Georgina Rodriguez - a mais que tudo do Ronaldo - comenta, o Bruno liga e do nada dá duas de conversa com o CR7 (já deitado na sua caminha); um carro descaracterizado pela polícia coloca-se atrás deles, fazendo-os pensar que a brincadeira ia acabar, mas que queria só dar o ar da sua graça naquele último programa; o Cal Lookwood, o radialista do pólo norte que ficou famoso em Portugal graças ao Nuno Markl, também disse olá do outro lado do mundo (as maravilhas da tecnologia!); até uma ambulância que passou ligou o altifalante só para dar uma palavra de apreço. Tudo isto com 150 mil pessoas a ver - números que muitas vezes não são atingidos por programas de televisão em canal aberto.

O que aconteceu ontem foi uma demonstração de apreço como não me recordo de ver; foi o exteriorizar da importância que uma simples pessoa pode ter na vida de tantas, principalmente durante estes dois meses difíceis que todos vivemos. Não é fácil ter noção do impacto que estas coisas têm nas pessoas - no caso do RAP, que falei em cima, é impossível quantificar ou ter a certeza sobre aquilo que acho e sobre a importância que teve naquele período político - mas é certamente emocionante perceber que um número incrível de pessoas gosta e valoriza o trabalho de alguém, ao ponto de se dar ao trabalho de sair à rua ou pôr luzes de Natal na varanda em forma de agradecimento. Não sei como é que o Bruno Nogueira se aguentou ao longo daquelas duas horas loucas em que tudo aconteceu; também não sei se, durante estes dois meses, essa comunidade que se formou à volta dele percebeu como é que o bicho mexe. Aquilo que eu sei é que isto vai ficar na memória de muitos e revela bem a importância que o humor e a cultura têm na nossa vida.

 

bn.png

 

26
Out18

Menu de fim-de-semana: Bumba na Fofinha

Já é um must do humor internauta, mas eu não podia deixar de a mencionar, principalmente agora que lançou o seu canal internacional: a Bumba na Fofinha. Se em português já tinha graça, em inglês também não é exceção, até porque tudo nela tem piada, independentemente da língua que fale - passando pelas caras que faz, às expressões que usa (já não sei o que seria da minha vida sem expressões como “suar do bigode”) passando pela essencial construção de cada vídeo, sempre muito bem pensada.

Este destaque à Bumbini, como ela carinhosamente se auto-apelida, não vem assim por acaso. O lançamento do seu canal internacional acontece por ela estar a fazer uma viagem pelo sudeste asiático, durante três meses, sozinha. Sim, leram bem: uma mulher, sozinha, do outro lado do mundo onde ninguém percebe uma palavrinha de português (e inglês já vai com sorte) e com um fuso horário do arco da velha. Muitos chamar-lhe-iam “coragem”. Eu chamo-lhe mais força de vontade - e, claro, uma inspiração (eu já estou a pensar na minha próxima!). Apesar dessa região do mundo não ser uma das que mais me atrai ou que está na minha lista de viagens a médio prazo, viajar sozinha já é, por si só, um elo comum suficientemente forte para eu estar mais do que interessada nos seus relatos. É sempre bom ouvir falar das suas aventuras, peripécias e ver como ultrapassa as potenciais dificuldades - sempre com muita graça à mistura, claro!

Vão lá seguir os dois canais da rapariga, vá. Ah! E não se esqueçam do instagram. Aqueles instastories são autênticas pérolas.

 

O primeiro vídeo do canal internacional:

 

E um dos vídeos mais conhecidos do seu canal principal: 

05
Mar12

Os humoristas

Admito, sou desprovida de humor. Não acho piada à maioria das piadas e sou pouco tolerante a brincadeiras e partidas - e isso detecta-se ao longe, através do meu semblante, a maior parte das vezes, serrado.

Apesar de odiar stand up comedy e programas tipo Gato Fedorento, gosto do sentido crítico dos humoristas e do tom irónico e sarcástico com que fazem as suas piadas. Não gosto de os ouvir falar (com raras excepções), mas gosto de os ler - aqueles que sabem, de facto, escrever. Basta, aliás, olhar ali para o lado direito e ver que estou a ler um livro de crónicas do Bruno Nogueira (que, já para o fim, começa a cansar porque aquilo vira o disco e toca o mesmo).

 

Mas eu venho falar-vos da terrível aquisição da RFM. Tinham eles tudo sobre controle, com o café das manhã a dar sucesso, e não é que chamam o Nilton? O Nilton, meu deus? Sim, ele teve piada na primeira manhã que lá foi. E agora a qualidade tem descido de dia para dia (será que já desceu abaixo de zero?). Entretanto, a comercial provou ser bem mais inteligente e contratou o Ricardo Araújo Pereira - o tal que eu, de vez em quando, gosto de ouvir. E esse sim, escreve bem, e com coisas com alguma piada (até ver). Mas o Nilton, meu deus, o Nilton?

Realmente, isto caminha tudo para o caos. E não há nada que se salve.

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