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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

05
Mar19

Os sete tipos de pessoas nos estádios de futebol

No sábado voltei ao Dragão para fazer uma coisa que já queria há muito: ver um clássico. É claro que não me saiu como planeado porque queria ver o Porto ganhar, mas a vida é mesmo assim, nem tudo corre como gostaríamos. Neste aspeto evoluí para uma postura que faz de mim uma pessoa muito mais feliz: fico muito contente quando ganhamos, mas estou-me mais ao menos nas tintas se perdermos. Antigamente ficava irritada, frustrada e triste quando saímos derrotados, sentia alguma amargura em relação às pessoas dos outros clubes, irritava-me com posts no facebook a gozar com tudo e todos. Isto até há uns anos, em que passei uma fase em que me desliguei do futebol. Hoje em dia já voltei a vibrar mas numa onda muito mais razoável, saudável e cheia de fair-play. No fundo, cresci. O que não consigo perceber é como é que há pessoas maiores e vacinadas que só conseguem ver para um lado, que insultam e que apedrejam, tudo em nome de um clube. Não me revejo nesse tipo de comportamentos, atitudes e forma de estar perante o futebol.

Por isto tudo é-me completamente indiferente todos os comentários que me deixaram naquele dia, depois de ter partilhado uma foto no estádio nas minhas redes sociais - "foste no dia errado", "saíste foi de mãos a abanar" e outras coisas do género. Todos os dias são certos para fazermos algo que gostamos e para apoiar a nossa equipa do coração; e nunca se sai de mãos a abanar de uma experiência que envolve uma massa humana de 50 mil pessoas que se juntam em torno de um gosto comum. Se preferia que o Porto tivesse ganho? Óbvio. Se isso me tirou sono à noite? Oh, meus amigos!

Para provar que se retira sempre algo de bom das experiências, mesmo quando o nosso ego sai ferido do estádio, decidi fazer uma compilação dos tipos de pessoas que assistem a jogos no estádio. A verdade é que ver um jogo num estádio é muito mais do que ver um jogo - porque, aliás, se vê muito melhor em casa, com as repetições e os ângulos todos, para não deixar dúvidas. Mas estar ali é sentir a vibração das pessoas, é sentir que o nosso grito pode dar força aos jogadores para marcarem golo, é sentir que a nossa paixão é partilhada na mesma intensidade com outras tantas pessoas e que fazemos parte de algo. Mas a verdade é que cada um se expressa de diferentes formas. Ora vejamos alguns dos tipos de espetadores que se podem encontrar num estádio num estádio:

 

Os treinadores de bancada. todos conhecemos alguém assim. "Põe o Marega a jogar à direita!", "achas normal aquele manco estar no onze?", "substitui o Oliver!" e outras coisas que tais são algumas das deixas que saem da boca deste estilo de pessoas. É gente que está prontinha a substituir o Sérgio Conceição (ou qualquer outro treinador). Como aprenderam tudo isto? Na melhor universidade possível: a da vida. Não há como enganar.

 

Os insultadores. Por vezes os treinadores de bancada são também insultadores, mas nem todos os insultadores são treinadores de bancada. Este tipo de pessoas tem um vasto vocabulário ao nível do vernáculo e muitos conhecimentos sobre a classe animal. Consideram-se nesta categoria todos aqueles que passam o jogo a gesticular com os braços e a fazer ginástica com os dedos, principalmente o dedo médio. O arbitro é normalmente a maior vítima.

 

As chaminés. Todos os jogos de futebol são situações de stress. Mas um clássico é o stress completo. É difícil ir a um jogo de futebol e não sair de lá com a roupa empestada de fumo devido às pessoas que não largam o cigarro durante os 90 minutos. Mais do que os treinadores de bancada e os insultadores (que por vezes dão um espetáculo dentro do espetáculo), este é o tipo de pessoa que mais me incomoda.

 

Os bichos carpinteiros. Outra forma de aliviar o stress acumulado. Coçam a cabeça, as costas, os braços. Sentam-se de 1023 formas diferentes. Esperneiam, bracejam, levantam-se. Roem as unhas, mexem as pernas como quem tivesse bebido 30 cafés. Azar é das pessoas quem ficam atrás dos bichos carpinteiros, que têm de andar de um lado para o outro (o oposto do deles) para conseguir ver alguma coisa do jogo.

 

Os pensativos. O estilo mais calmo. Talvez calmo demais. Vêem o jogo como quem vê um filme do Manoel da Oliveira - sem stress, sem ânimo, sem vida. Só estão, impávidos e serenos, quase amorfos. E quando é golo só dão um sorrisinho matreiro, mantendo-se sentados enquanto toda a gente à volta salta de alegria, pensando em relação aos jogadores: "não fazem mais que a vossa obrigação, pá".

 

Os radiofónicos. De modo a contornar a grande dificuldade do futebol ao vivo (não saber quem chuta a bola, quem marca golo, quem fez a falta), os radiofónicos são aquela malta prevenida que ouve o relato enquanto assiste ao jogo. Normalmente são homens, espécie a quem o multitasking não assiste, por isso mantêm-se caladinhos e concentrados durante o decorrer do jogo, sem grandes conversas - porque ou se ouve o relato ou se está na treta com o vizinho do lado. As duas coisas é que não, que o tico e o teco não dão para tanto. 

 

Os distraídos. "O quê, foi golo?", é o expoente máximo que dirige a maioria destas pessoas. É compreensível: a envolvência do estádio é coisa para distrair qualquer alma e, por vezes, o olhar vai para o sítio errado na hora H. Ou, aliás, na hora G, de golo. Acontece ao melhores. Derivado disto há todo um outro rol de distrações estilo "mas quem fez falta?", "quem apanhou cartão amarelo?" ou "quem foi o banana que deixou a bola sair de campo?".

 

Por aí, com que estilo é que vocês se revêem?

 

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12
Fev19

Antes um calendário da Pirelli que do Benfica

Estou agora a imiscuir-me no meio industrial. Nasci no seio dele, mas há coisas que há quinze anos atrás me passavam ao lado - e ainda bem, porque não tinha sequer idade para as perceber. Coisas tão simples e tão complexas como a relação patrão-colaboradores ou a própria interação dos empregados entre si. Quando era criança achava mais graça aos processos e não estava tão preocupada com esta vertente, que agora me é essencial, tendo em conta que estou a tentar assumir o papel de liderança dentro de uma empresa. 

Aprendi muito na minha passagem pelo jornal, quanto mais não fosse porque ouvi muitas opiniões (que eu às vezes concordava, outras não) e vi outras empresas, transpondo agora um bocadinho desses conhecimentos e daquilo que vi para a minha realidade atual e tentando tornar isto o melhor possível.

Há uns dias, enquanto tentava aprender um dos processos aqui da fábrica, deparei-me com uns cartazes e calendários do "Benfica Campeão" colados numa das paredes. Ora o tetra, ora a reconquista, ora o penta que aí vinha - não sei, nem olhei bem, vermelho e branco não é a minha praia. Mas fiquei a matutar naquilo e como não gostava da imagem que aquilo transmitia. E não, não é por ser do Benfica: podia ser do Porto, do Sporting ou do Leixões. É por ser de futebol. Veio-me à memória um escritório da fábrica onde cresci, quase pintado de azul e branco da cabeça aos pés, como quem grita "este escritório é de um portista doente". E isso não é bom, porque no futebol quase todas as reações, discussões e opiniões saem diretamente do coração. E, numa empresa, aquilo que queremos é cabeça.

Lembro-me perfeitamente de uma vez, no Leroy Merlin, ter mandado uma piada sobre o Benfica a um colaborador que estava a ajudar a carregar para o nosso carro umas placas pesadíssimas que viriam a forrar a piscina. Não sei o conteúdo da piada, da boca, da indireta ou da brincadeira, creio que até foi ele que começou e eu não me deixei ficar, mas lembro-me perfeitamente do desfecho: o senhor deixou o carrinho e foi-se embora, deixando-me a mim e à minha mãe a carregar aquele peso bruto. Tudo por causa do futebol. Escusado será dizer que, de cada vez que vou a uma destas lojas, me lembro da gentileza e racionalidade deste homem, que manchou a imagem do sítio onde trabalha por uma atitude parva e irrefletida.

Há quem critique as pessoas por adornarem as secretárias com as fotos dos filhos, quem deteste ir a oficinas automóveis porque se depara com calendários cheios de mulheres em poses indecentes. Pode ser piroso e revelar muito sobre quem os tem, mas não há muito a comentar sobre isso. Já coisas com teor futebolístico são, para mim, bem piores, pois criam cisões graves à partida entre as pessoas, sem estas sequer se conhecerem. Um cartaz de futebol é uma posição expressa de um gosto clubístico e pode criar pequenas guerras perfeitamente desnecessárias. Então e se as pessoas que partilham o mesmo espaço não forem todas do mesmo clube? E se alguém doente por um outro clube visitar o sítio em questão e se puser a mandar postas de pescada sobre o golo mal anulado do jogo de domingo? É irreal pensar que alguém que se dá ao trabalho de colar posters ou adornar o seu escritório com coisas do seu clube não vai ripostar a um desafio desse género. E muito dificilmente uma conversa destas vai ter a algum sítio bom ou culminar com elogios e uma ideia positiva de quem está do outro lado.

Não quer isto dizer que vá andar por aí a tirar posters alheios das paredes ou acabar com pregões clubísticos, qual extremista. Mas, a longo prazo, preferia que eles não existissem. Mal por mal, tragam os da Pirelli.

19
Fev18

O parafutebol (ou como o Bruno de Carvalho contribui para a degradação do futebol português)

Tinha os meus nove anos e era louquinha pelo FCPorto. Nem digo por "futebol", porque eu estava-me pouco borrifando para os outros clubes. Eu era do Porto. Ponto. Via os jogos, punha o cachecol com o símbolo ao peito e fazia de tudo para ir ao estádio. Era - e sou - orgulhosamente sócia, mas também era miúda e fazia coisas que eram de miúdos. Detestava Lisboa, dizia mal do Benfica a todo e qualquer benfiquista que se aproximasse mais de dois metros de mim e gozava pelos campeonatos que, na altura, eles perdiam consecutivamente.

E depois cresci. Fui ficando com menos tempo para ver futebol e portanto aquela febre clubística que eu tinha foi desaparecendo. Isto coincidiu também com uma fase menos boa do FCPorto e, tudo junto, fez com que tivesse mais juízo, racionalidade e imparcialidade no que ao futebol diz respeito. Mas também fui ficando mais crescida e percebi que aquilo que eu fazia era típico de uma idade e que estava na altura de deixar isso para trás. Deixei de irritar os outros - e até de demonstrar grandes clubismos em público, a menos que esteja num local próprio para isso. Por um lado porque deixou de me dar prazer, por outro porque percebi que um dia são eles, no outro sou eu, e aquilo que eu um dia digo pode cair-me em cima no outro a seguir (estás a ler isto, Sousa Tavares?). E com isto tiro também a capacidade dos outros me irritarem - algo que acontecia sempre que diziam mal do meu Portinho - pelo menos quando falamos de atitudes dentro do limite do razoável. 

Continuo a adorar de paixão o meu clube. Agora que sou maior de idade já posso ir ao estádio sem um pendura e estou numa fase em que acabo por falar bastante de futebol, por só trabalhar com homens um tanto ao quanto fanáticos. O Porto está a recuperar e por isso eu tinha tudo para revitalizar esta minha alma de dragão - já sem os histerismos de antigamente - mas agora há toda uma outra razão para não me entusiasmar. Não se trata do futebol em si - é, aliás, tudo o que se passa à volta dele. Hoje em dia o futebol é muito mais aquilo que se joga fora de campo do que dentro dele.

São os comentadores de bancada que ocupam todas as noites os canais informativos, com ataques pessoais e comentando os ataques dos outros, e cada vez menos os lances, os jogos e os jogadores; são os próprios clubes que enchem as redes sociais de queixumes e porcaria; são os diretores de comunicação que se põem a mandar postas de pescadas e revelações, qual wikileaks; é arguidos para um lado, suspeitos por outro. É tudo um nojo. Ah! E depois temos o Bruno de Carvalho, que cai em toda uma outra categoria ("asco", talvez?).

Não sou fã do senhor, mas penso que isso é uma coisa natural. O que não me parece natural é quem gosta dele - e, caros sportinguistas, escusam de me dizer que ele fez muito pelo clube, que vestiu a camisola e que é um leão às direitas. De direita, só parece ter o ar ditatorial com que diz que os sócios devem deixar de ver televisão e comprar jornais, e que "todos, mas todos os comentadores afetos ao Sporting" devem abandonar de imediato os programas. Todos temos a nossa vertente pessoal e profissional. Ele pode ser um óptimo presidente (até custa a escrever...) mas uma pessoa que afirma que ajudou um treinador a ser despedido de outro clube - e o faz com orgulho, a alto e bom som -, para mim, é lixo. E depois, se ouvirmos tudo o que ele diz e comenta sobre todos os assuntos em geral - e já tendo em conta o pedido de boicote aos media - só lhe resta mesmo algum estatuto abaixo de lixo.

Eu acho que não estou a ofender ninguém com este texto. Qualquer sportinguista com o mínimo de imparcialidade e racionalidade percebe tudo isto. O pior são mesmo os outros. Mais preocupante do que ter uma pessoa destas a falar nos media, é ter quem os ouça. E quando eu ouvi os urros e as palmas vindas da plateia de cada vez que Bruno de Carvalho dizia uma das suas baboseiras, um bocadinho da minha esperança na humanidade ia pelo cano. E muito mais se foi quando percebi que, depois do apelo do Sr. Presidente, os adeptos não têm mais nada senão tentar bater em jornalistas. É de arrepiar, não só pelo ato em si, mas por percebermos que pessoas deste calibre têm tanto impacto em pessoas "normais". Se passarmos isto a outra escala, percebemos como é que o Holocausto existiu, percebemos a existência de um Hitler, percebemos aquelas paradas, aquelas lágrimas, aquele patriotismo. Percebemos que as pessoas ficam cegas, surdas e burras quando há algo "maior" que as controla. E isso é puramente assustador. E é este capítulo sujo e paralelo do futebol (chamei-lhe "parafutebol", estou numa de neologismos) que me faz afastar cada vez mais deste desporto.

Não importam os 5-0, as chicotadas psicológicas ou as "tacitas" mais pequenas. Passou a ser um desporto de guerrilha. Mais vale, um dia destes, irmos buscar as espadas. Depois é só esperar até ver jorrar o sangue. Afinal de contas, desde os tempos medievais que é disso que o povo gosta.

18
Jan18

Porque é que os homens discutem pormenorizadamente os lances de futebol?

Acho que hoje em dia passo mais tempo rodeada de homens do que por mulheres, muito por culpa do trabalho. E, como não podia deixar de ser, um os tópicos recorrentes é o futebol. Mas uma das coisas que eu não percebo - nem nunca percebi, para dizer a verdade - é a necessidade que eles têm de descrever pormenorizadamente as jogadas de futebol.

"Bom, aquilo foi um golaço que nem te passa. O Danilo passou a bola ao Marega do meio campo e ele, no lado esquerdo, finta o defesa lateral do Ave, depois centra para o Aboubakar, que chuta para a baliza mas a bola bate na trave. O Herrera está na recarga, ganha a bola de cabeça com um salto incrível, passa para o Brahimi e ele com um chuto de uma potencia incrível remata para o canto superior direito da baliza. O redes ainda tentou atirar-se, a luva quase chegava lá, mas aquilo era indefensável, pá." (Sim, o "pá" é um detalhe importante nas conversas masculinas).

Eu tenho a teoria de que os homens que escutam isto só apanham a parte de quem fez o centro e quem marcou o golo. Mas, se estiver enganada, quero desde já dar os parabéns aos homens deste mundo por terem a capacidade de imaginar todo este cenário nas suas cabeças. E congratular também todos os outros que decoram estes lances e detalhes, prontos para ir para o café discutir tudo ao pormenor, como quem estudou aplicadamente para um exame.

E a verdade é que eu acharia isto natural se estivéssemos em 1979, quando não havia jogos na televisão, repetições e internet - não havia outra forma de dar a entender ou mostrar as coisas. Mas porquê que esta prática se mantém agora quando, passado dez minutos, está tudo no Sapo Desporto e daí a umas horas os lances passam cinco vezes nos noticiários, 12 vezes naqueles debates com gente-que-finge-que-discute-futebol e 31 vezes nos canais especializados? Porquê que no café não sacam do telemóvel e vêem no youtube, em vez de fingirem que estão num daqueles relatos de rádio?

Porque o mais curioso disto tudo é que até podia ser uma coisa geracional - mas não é! Lembro-me desde sempre de ouvir os meus colegas rapazes a discutirem lances como se fosse a coisa mais interessante do mundo - ou, pior, a descrever aquele "golaço" que marcaram no campo da escola que, como é lógico, ninguém tem interesse em saber. 

Enfim, homens e futebol. Vai ser sempre uma cena estranha.

24
Jan17

O estádio é uma tentação de distrações

No sábado fui com três dos meus sobrinhos ao futebol. O mais velho pediu-me para o levar e, perante o dia de sol que se esperava e pela raridade que agora é haver jogos durante a tarde, peguei nos outros dois e fui com a minha irmã até ao estádio. Já tinha levado o mais velho e achei justo os gémeos também terem a sua oportunidade. Ir ao estádio é algo que adoro e que adorava ainda mais quando era pequena, por isso é algo que fico feliz por lhes poder proporcionar. Mas bom, este post não é para me vangloriar pelo facto de ter levado os putos ao futebol. Quer dizer, não sendo sobre isso, não devemos no entanto esquecer de que sou, de facto, a melhor tia do mundo por ter tido a coragem de ir com os três juntos ao estádio, mas enfim. 

A verdade é que, mesmo gostando muito de ir ao Dragão e de sentir toda aquela vibe portista, acabo por não ver futebol. Parece ridículo, mas não é: quando vemos os jogos na televisão, só olhamos para a televisão; no estádio há literalmente uma multidão de coisas por onde nos distrairmos. Lembro-me que sempre foi este o meu "problema". A certa altura está tudo a assobiar e a gritar "vai para a rua" e eu fico a olhar para o céu, esperando uma explicação divina para aquilo que está a acontecer. E isto é o menos. O pior é quando falho os golos - e, acreditem, é com muito embaraço quando digo que isto acontece frequentemente.

No sábado foi igual. A certa altura a minha irmã dá-me um toque para eu reparar num senhor que estava à nossa frente e que, apesar de ser super carinhoso e cuidadoso, fazia um totó no cabelo da filha da forma mais desajeitada à face da terra. A situação teve graça precisamente por este contraste: apesar de todos os cuidados, aquele apanhado estava uma absoluta tragédia e nós olhávamos, meio embevecidas, meio gozonas, para aquela situação. O puxo ficou feito e a situação passou. Mas passado 30 segundos o pai voltou a agarrar a filha, apertando-a contra si num gesto amoroso, e desta vez fui eu que não resisti em dar um toque à minha irmã para apreciar à situação. E naqueles segundos entre chamar à atenção/ olhar/ apreciar/ comentar... o estádio levanta-se em euforia. E, claro, eu e a minha irmã ficamos sentadas, sem conseguir acompanhar os impulsos rápidos do resto da malta. Conclusão: perdemos o primeiro golo.

E podia ter sido o único, mas não foi. A certa altura marcou o Rio Ave e a minha irmã estava no telemóvel. Eu estava convicta em ver o jogo atentamente, só deitava o olho ao ecrã do iPhone se ele tremesse, mas como não se passava nada, não resisti em catrapiscar aquilo que ela estava a fazer no dela. E a certa altura só se ouve um suspiro generalizado, uma espécie de "afffffff" profundo, um som que só é descritível para quem já ouviu. E eu percebo o que se está a passar e digo-lhe, revoltada: "o Rio Ave marcou!". E ela aqui entra em negação: "não marcou nada! Oh! Não marcou...". Pois que marcou e nós tornamos a não ver.

A situação até podia ser resolvida se repetissem os golos no ecrã, mas não, somos obrigadas a ficar na ignorância. E eu sei que a culpa é minha, sei que não devia estar a olhar para o senhor da frente enquanto faz o totó à filha; que não devia estar a apreciar a disparidade entre homens e mulheres no estádio; que não devia estar a bufar para o fumo do cigarro do senhor da frente não me vir para a cara; que não devia estar a pensar na sande de panado que vou comer a seguir; que não devia pensar nas senhoras que depois limpam o estádio; que não devia estar a olhar para os apanha bolas e como queria ser um deles quando era criança. Mas, olhem, é mais forte que eu. Sou uma adepta vergonhosa e peço perdão (mas ao menos levo os sobrinhos ao futebol, dêem-me um desconto...).

 

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23
Out16

Mudam-se os tempos, mas as vontades nem por isso

Ontem levei o meu sobrinho mais velho ao Estádio do Dragão. Ele nunca tinha ido e estava em pulgas, eufórico com a novidade. Leva-lo ao estádio era algo que já há muito que gostava de fazer com ele; foi um momento marcante para mim, lembro-me do quão encantada fiquei quando pisei aquele sítio pela primeira vez e queria muito poder proporcionar-lhe uma experiência semelhante. Como ele começou há tempos a interessar-se por futebol, jogadores e etc., achei que seria a altura ideal.

E adorou, pois claro. Eu fiz questão de ir ver um jogo mais "fácil" (embora, nos dias de hoje e no estado em que o FCPorto se encontra, todos os jogos são uma incógnita), para termos mais probabilidades de ganhar - e vencemos por três, o que já deu para tirar a barriga de misérias e para ele saltar de emoção vezes suficientes. Para além disso, à saída, ainda apanhamos o Helton, que é um querido e estava a tirar fotos com a malta toda - e tirou uma também com ele, por isso o batismo não podia ter sido melhor. A pior parte foi mesmo no fim, porque como em qualquer batismo... apanhamos com água. Muita água. O rapaz até ficou atarantado de tão encharcado que ficou - eu, tia, mais velha e experiente, já estou mais habituada a estas coisas, mas devo confessar que já não apanhava com uma carga de água tão grande há uns anos largos. 

Mas enfim, o mais giro disto tudo eram as coisas que ele me ia dizendo no decorrer do jogo - que eram exatamente as coisas que eu dizia e pensava quando era mais nova! Primeiro disse-me que gostava de ser um daqueles meninos que estão atrás dos painéis publicitários, a apanhar e mandar bolas (eu também dizia que queria ser menino e ir para as escolinhas só para ir para lá); depois ainda se lembrou dos outros meninos que entram com os jogadores em campo, porque também gostava de ir de mão dada a eles - principalmente com o Herrera e o André Silva, os seus preferidos (eu era igual, mas a minha crush era mais o Vitor Baía, o Derlei ou o Benny McCarthy); durante o intervalo começou a dizer que fixe, fixe era estar nos lugares mais baixos para poder falar com os jogadores - e no fim do jogo, quando saímos para a zona das comidas onde existem televisões, viu o André Silva a entregar a camisola a uma miúda e enfatizou ainda mais este pensamento, acrescentando que o melhor lugar era mesmo ao ladinho do túnel (e eu era tal e qual: pedia encarecidamente ao meu pai para ir para os lugares de baixo para os ver mais de perto, algo que ele sempre me negou por se ver muito pior o jogo).

Senti-me um bocadinho velha quando o ouvi repetir tudo aquilo que em tempos ia na minha cabeça e, pior, quando achei que fazia sentido responder as mesmas coisas que o meu pai me respondia a mim. Ok, talvez não tão pragmática (não lhe disse "mas para quê que tu queres uma camisola mal-cheirosa de um jogador de futebol de 20 anos!?"), mas disse-lhe que, de facto, ver os jogos nos lugares de baixo era muito pior e outras coisas que tais. A parte boa é que continuo a ser uma criança como ele em certas coisas: continuo a querer ser pequenina e andar nas escolinhas de futebol para ser apanha bolas e, na verdade, também gostava de ter uma camisola de um jogador qualquer. Também ainda não cheguei à fase de preferir ver os jogos em casa do que no estádio mas devo admitir que aquelas correntes de ar não são boas para ninguém (e sim, passei a minha vida a perguntar-lhe "não tens frio?", "aperta lá o casaco"...) e que, quando cheguei ao carro estilo pingo, só queria um sofá onde me esticar e uma mantinha quente sobre o corpo.

Afinal de contas estou velha, mas só um bocadinho.

 

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14
Jul16

Sobre o fim de uma embirração pessoal

Acho que há certos momentos da nossa vida em que temos de ceder, deixar o orgulho de parte e poder admitir que, porventura, estávamos errados. Ou então superar simplesmente coisas em que temos razão mas que não passam de atos únicos, irrefletidos e que não têm necessáriamente de rotular para sempre a vida de uma pessoa. Talvez essa evolução se chame crescer, não sei. 

Hoje anuncio, para regozijo de muitos, o fim de uma embirração pessoal de há muitos anos e que tanta gente batalhou. Tem dois nomes, é dado como o melhor jogador do mundo e chama-se Cristiano Ronaldo. E não, não foi pelas lágrimas que ele verteu nesta última final; tratou-se sim de uma "desembirração" gradual já ao longo dos últimos, talvez, dois anos. Como disse, as razões que evocava para não simpatizar com ele continuam lá, mas acho que está na hora de serem ultrapassadas e de ver para além disso. Escrevo isto depois de ver um vídeo que me apareceu no facebook com ele a cumprimentar fãs em todo e qualquer lado, a consola-los - alguns doentes e com incapacidades físicas visíveis - e o meu coraçãozinho de gelo derreteu. Achei que era uma boa altura para pôr um ponto final nisto e anuncia-lo definitivamente ao mundo.

Isto não implica que eu passe a simpatizar mais com o Real Madrid do que com o Barcelona; não quer dizer que eu ache correto que se continue a fazer dele o herói e indispensável da seleção, quando neste euro se provou que - embora ele tenha lutado muito - os outros não lhe ficaram nada atrás e se tenha de defender o menino de ouro quando ele faz qualquer coisa mal ou não jogue assim tão bem, quando os outros jogadores não têm o mesmo tratamento. Mas quer dizer que posso elogiar um golo ou uma ação dele sem que me lancem olhares do tipo "ai é??? mas não és tu que o detestas?!" e que possa verter uma lagrimita quando ele sai de campo a chorar baba e ranho ou quando se emociona quando levanta mais uma bota de ouro.

Continuo a dizer que temos todo o direito de simpatizar ou não com determinadas pessoas - quer tenhamos ou não razões para isso. Há primeiras impressões que marcam, determinadas ações que não nos passam ao lado e que rotulam imediatamente determinadas pessoas. Mas acho que também temos o direito de mudar as nossas opiniões e posições, agir de acordo com a nossa consciência e a nossa própria evolução. Continuo a ter um punhado cheio de embirrações pessoais, mas hoje uma caiu oficialmente por terra. (Estejam descansadinhos que ainda tenho muito com que me entreter com todos os outros que sobram.)

 

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11
Jul16

Espera... não foi um sonho?

A alegria de quando se ganha algo no futebol é tão grande, tão imensa, explode tanto no peito que às vezes não parece verdade. Uma pessoa deita-se, dorme - se conseguir dormir - e quando acorda quase tem de se beliscar para saber que é verdade.

Eu abri a pestana, vi o cachecol depositado ao calhas em cima da cama depois de ter ido para a rua com ele ao pescoço e percebi que sim, que foi tudo real. 

Lamento sinceramente a todas as pessoas que se acham superiores e intelectuais e se recusam a ver e vibrar com os 22 jogadores atrás de uma bola. Porque, meus amigos, não sabem o que perdem. Creio que hoje Portugal acordou com um ânimo, uma alegria e uma força que não via há muitos anos - e isso não tem preço.

11
Jul16

Nação valente!

Muitos se questionam o porquê de se gastar tanto dinheiro no futebol, de tanta gente gostar de ver 22 "cães a um osso". E a resposta está aqui: está na união, na movimentação de massas incrível que eu acho que só o futebol é capaz de mover. E isto serve para quem não gosta de futebol, para quem não sabe o que é um off-side, para quem não gosta o Ronaldo ou não sabia que o José Fontes sequer existia. Porque, quando se fala de uma nação ou uma cidade, há um elo de ligação que supera tudo o resto e que faz todas as célulazinha do nosso corpo vibrar.

Até eu, que desisti da seleção em 2004 (quase como um desgosto de amor épico), vibrei. E, meus amigos, acreditem ou não: até chorei quando o Ronaldo chorou. Porque não há manias ou embirrações que sobrevivam a injustiças e às evidências: foi uma injustiça alguém que se dedicou uma vida inteira ao futebol não poder contribuir para a sua equipa ganhar. Senti que era este ano e depois da fase de grupos achei que era sempre a andar; ainda ontem afirmei e reafirmei aos mais cépticos que íamos ganhar. E ganhamos. E até eu fui para a rua de cachecol ao peito, embebido em mofo, que já há 12 anos que não via a luz do dia!

Não precisamos de jogar bonito (que não jogamos). Também não precisamos de jogar bem (que também não aconteceu). Valeu-nos a garra, a sinceridade e a humildade, que para mim foram sem dúvida os ingredientes desta vitória épica. Não gostei particularmente dos jogos de Portugal em campo, mas adorei o jogo que fizemos no "exterior": não precisamos de bocas para ganhar, de mandar indiretas bem diretas para os nossos oponentes, de jogar sujo fora de campo. Foi limpinho, foi à rasca, mas foi merecido. Esta foi pelo Euro 2004 e por toda a festa que há 12 anos já devia ter sido nossa.

Ganhamos, car*lho! 

 

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07
Jul16

Por falar em vitórias...

Estamos nas finais! E eu em dupla final: enquanto portuguesa, nas finais do euro; enquanto estudante, na final do curso. E estou mesmo muito feliz pelas duas razões. Sobre Portugal falo depois (respirem fundo, que não vou dizer mal do Ronaldo), mas sobre a final do curso quero falar agora.

A verdade é que ainda me falta um exame, que faltei graças à operação que fiz em Janeiro. Mas é uma cadeira fácil e tudo menos importante, pelo que quase que sinto que a tenho meio feita; fazer e entregar o relatório soube-me ao golpe final destes três anos de licenciatura, o culminar de tudo isto. Se o estágio foi maravilhoso, fazer o relatório foi doloroso. Todas as palavrinhas que lá estão saíram a ferros, num fim-de-semana prolongado que, por um lado, teimava em não passar e, por outro, passava depressa demais para aquilo que eu precisava.

Hoje dou por mim a pensar, de vez em quando: "será que escrevi aquilo no relatório? era importante". Porque a verdade é que o meu cérebro parecia estar a entrar em colapso: já não sei o que fiz, o que disse, o que escrevi ou devia ter escrito. Sei que acabei com um alívio enorme por ter entregue e, ao mesmo, uma irritação colossal por ter deixado aquilo para a última, em algo que era tão importante e que devia espelhar o melhor possível aqueles três meses tão maravilhosos para mim. Senti que devia ter feito mais, que devia estar melhor - e agora, já relaxada, penso nas várias coisas que ficaram por escrever. Talvez por isso, não esperava grande nota - por eu própria ter ficado desiludida comigo mesma.

Mas no início desta semana soube o resultado, naquela que é a cadeira mais importante de todo o curso. 18. Acabo o curso com um 18 e não podia estar mais feliz.

 

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