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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

05
Abr19

Doze truques para tirar melhores fotografias

Quando estive a fazer a seleção das fotos da minha excursão ao centro da Europa, há uns meses, lembrei-me que podia enumerar uma série de dicas de modo a melhorar as fotografias que todos tiramos no dia-a-dia (e nas nossas férias e outros dias especiais, como é óbvio). À medida que ia fazendo uma série de correções e dizia a mim mesma "tenho de me lembrar para dizer isto à minha mãe" - pessoa que me tira a maioria das fotos quando viajamos - achei que podia enumerar uma série de truques não só para ela mas também para o mundo, para que as fotografias de todos passem a sair ainda mais bonitas. Na altura fiz uma lista, até anunciei a minha intenção nas redes sociais, mas tempo para pôr isto em prática é que nem vê-lo. Mas hoje foi o dia!

Reuni por isso doze dicas que podem revolucionar a vossa forma de fotografar - algumas mais óbvias que outras e, claro, dependentes também do gosto de cada um. O truque basilar de tudo isto é tentar sempre tirar a melhor foto possível e esquecer a ideia de que "depois edito a foto". A parte da edição é a mais chata, trabalhosa e dispendiosa (em termos de tempo... e também de software) da fotografia, para além de que é preciso dispor de programas, tempo, paciência, dedicação e organização para o fazer. Ou seja: é tentar evitar esse passo e tirar, à partida, as melhores fotos possíveis. De qualquer das formas, já fica o registo: para editar as minhas fotografias utilizo o Adobe LightRoom.

Antes de começar a enumerar, quero apenas dizer o seguinte: é muitas vezes no detalhe que mora uma boa fotografia. Eu gostava das minhas fotos antes de saber fotografar (que é como quem diz "saber mais do que clicar no obturador"), mas passei a adora-las após o curso que tirei, quando comecei a ver as coisas de uma forma mais crítica. É óbvio que é o sentimento que conta, as emoções presentes na foto, o momento... mas, mesmo assim, os pormenores fazem a diferença. E muito do que vou listar aqui não passam de detalhes, insignificantes para alguns, mas que farão a diferença para muitos. O olhar também se educa ;)

Vamos a isto:

 

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Um dos erros mais comuns tem que ver com as fotos tortas. Há espaço para tudo: fotografias tortas, fotografias direitas, fotografias de pernas para o ar... mas normalmente a intenção percebe-se, até pelo nível artístico da imagem. Numa foto "normal" a linha do horizonte deve estar paralela à linha horizontal da foto. Quando se posicionam para tirar a foto, esta é uma das coisas que devem ter em atenção; olhem mais além do que simplesmente o sujeito a quem estão a dirigir a objetiva. 

 

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Esta também é um clássico. Percebo que às vezes faça sentido - quando queremos apanhar um monumento alto, entre outras situações - mas normalmente o excesso de "ar" em cima das nossas cabeças não acrescenta nada. E quando é necessário, é preciso faze-lo com equilíbrio, não deixando apenas a pontinha da cabeça a dizer olá para a foto. Mais vale fazer um bom enquadramento da pessoa ou do elemento, mexer no zoom ou nas pernas e nos braços (o também chamado "zoom à moda antiga"), e pôr tudo em harmonia. Na foto acima, há mais ar que Carolina. E não era bem isso o suposto, certo?

 

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A luz é um dos principais problemas - senão mesmo o maior - no mundo da fotografia. Fotografar pessoas em locais onde estas apanhem tanto sombra como sol é muito chato, porque é muito difícil encontrar um balanço. O ideal é mesmo isto não acontecer - ou se fica de um lado ou do outro. Cuidado com situações clássicas como bonés ou chapéus, que deixam sombras exatamente na parte mais importante a fotografar - a cara de uma pessoa. Caso não haja volta a dar (como nas fotos acima), duas soluções: ou flash (que eu evito a todo o custo) ou fazer tratamento posterior, ao nível dos tons escuros e das sombras. Isto é algo que se contorna melhor (embora não se resolva) com o uso manual da máquina - o automático fica sempre confuso nestas situações.

 

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Outra vez luz. Ou, neste caso, exposição. Espaços muito interiores, sem luz natural, pedem sempre flash quando a máquina está em modo automático. Mais uma vez, sou avessa a esta luz artificial e faço de tudo para não a utilizar. Neste caso, os realces dados na fotografia da direita foram trabalhados à posteriori, mas a foto ganhou muito mais vida.

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Esta já é quase cliché... mas não esquecer!

 

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Quando tiramos uma fotografia há que perceber o que é essencial. A envolvência contribui ou não para embelezar a foto? Se não contribui, sai fora - mesmo que para isso tenhamos de mover o sujeito para outro local. Quando não o fazemos no local e deixamos o problema para a edição, há uma solução fácil quando a fotografia é tirada ao baixo: torna-la vertical. No exemplo acima, as fotos são exatamente as mesmas: uma ao lado de um poste horrível, outra com muito menos ruído. Faz ou não faz a diferença?

 

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Ainda neste âmbito, é importante (à partida) fugir de elementos distrativos - coisas grandes ou coloridas que nos atraiam prioritariamente o olhar, distraindo-nos do essencial. Na foto acima tinha uma placa néon (passível de ser cortada digitalmente) e um balde do lixo verde-alface mesmo ao meu lado, impossível de remover. Apesar de gostar da minha posição e expressão na foto, esta foi uma das muitas imagens que mandei para o lixo - em grande parte por causa destes "pormaiores" que acabam por destruir a fotografia.

 

Luminosidade (4).pngEste é um truque que faz a diferença. Quando fotografamos alguém de perfil convém sempre deixar espaço na direção em que a pessoa dirige o olhar e não o contrário. Aplica-se principalmente quando são fotos horizontais, onde haveria margem para mostrar o objeto para o qual a pessoa olha com tamanho interesse. Fica simplesmente estranho cortar a expansão do olhar de alguém (ver foto da esquerda). Caso isto aconteça uma possível solução é, mais uma vez, tornar a foto vertical.

Ainda sobre isto, relembrar que os elementos centrais da foto não têm de estar, literalmente, no centro! A regra dos terços é sempre uma boa forma de tirar as típicas fotos turísticas de uma forma diferente e desenjoar da máxima de que "no meio está a virtude".

 

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Isto são gostos pessoais, mas a verdade é que às vezes nem nos apercebemos que os temos; nem sabemos porquê, mas gostamos mais de uma foto do que de outra, embora nada seja aparentemente muito diferente... A tonalidade das fotografias é, para mim, essencial - e eu gosto delas com um tom quente, amarelado. Aliás, como na vida! Eu fujo de luzes brancas, gosto muito mais de lâmpadas amareladas. Daí detestar o flash, que dá um tom branco em tudo o que "toca". Acho que a tonalidade amarela dá uma sensação muito mais quente e confortável às fotos. Basta olhar para os exemplos acima, onde para além disso também foi ajustada a linha do horizonte (neste caso a linha do horizonte não se vê, mas percebe-se claramente que a foto está torta através da "linha" dos prédios, que não está paralela à vertical da foto).

 

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Há quem ame e há quem odeie. Eu uso IMENSO o desfoque nas imagens. Adoro. Acho que foi a coisa que mais queria aprender quando fiz o curso de fotografia e aplico-o desde então. Quando se fotografa em automático a forma mais fácil de fazer isto é aproximar-mo-nos da pessoa ou do objeto em questão; em manual, abrir ao máximo o diafragma para que o fundo fique o mais desfocado possível.  Acho que dá um efeito muito bonito quando queremos apenas enquadrar de uma forma subtil o individuo, dando-lhe o mais destaque possível, mas fazendo do fundo algo esbatido, que integra a foto de forma natural e muito pouco ruidosa.

 

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Passo a vida a chatear a minha mãe porque ela corta as fotos. Mas ela fá-lo porque quer, porque gosta de tirar fotos meio-artísticas. E está tudo bem com isso. O que não está bem é cortar um bocado de um braço, uma parte do ombro ou um pedaço da cabeça só para que caiba tudo na foto, ou porque não há mais zoom. Os cortes devem ser dados com um propósito. Ou é ou não é. Há que assumir o corte. Se assim não for, fica estranho. Os cortes só devem ser feitos quando propositados ou quando há espaço para tal. Os assuntos fotografados (e as fotos em geral) precisam de espaço para respirar de uma forma equilibrada. E tirar partes, qual talhante, nunca é boa ideia.

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Por fim, uma das minhas coisas preferidas... brincar com as luzes. Sem flash, claro! Estas fotos em Budapeste deram-me muito trabalho (não tinha tripé), mas continuam a ser das minhas favoritas de sempre. Quando o fundo é rico em luzes e, neste caso em particular, temos um foco de luz que podemos aproveitar para nos iluminar, podem resultar coisas espetaculares. Mas, aqui, é preciso saber do assunto - e ter muita paciência e tolerância à frustração, pois a probabilidade das fotografias saírem mal é grande. Sabendo que queremos tirar fotos deste género o melhor é levar um tripé - ou, à falta de melhor, improvisar um (quem nunca?). A verdade é que os resultados compensam.

 

E por aí? Mais dicas?

10
Mar19

A história por detrás das fotografias

Estou a cumprir com um dos meus objetivos de 2019 e já me lancei à empreitada que vai ser arrumar a minha gigante pasta de fotos digitais - aliás, pastas, no plural. Centenas delas. Se o quiser cumprir vai ter mesmo de ser assim: aos pouquinhos mas com muita frequência e desde do início do ano, que isto não vai ser uma coisa que vá conseguir resolver de um dia para o outro só para fazer "check" na resolução de ano novo.

A primeira fase já está completa: dividir todas as pastas pré-existentes por anos. Agora entrei na segunda, bem mais demorada: esmiuçar pastas macro (coisas como "fotos de iphone"), com milhares de fotos incategorizadas - e tantas outras incategorizáveis - que depositei no meu computador só com o objetivo de reaver espaço no meu telemóvel ou cartões de memória a abarrotar pelas costuras. Este tipo de pastas são o meu pior pesadelo e aquilo que aconselho sempre a que ninguém faça - mas é como diz no ditado, "faz o que eu digo, não faças o que eu faço".

No que aos telemóveis diz respeito esta é mesmo a saída mais comum; já há muitos anos que arquivo com data as fotos tiradas com a máquina, mas os telemóveis com câmara vieram acrescentar todo um nível de complexidade a este campo: porque inicialmente as partilhas das fotos para o computador não eram tão fáceis, porque tiramos fotografias a coisas absolutamente desnecessárias e desinteressantes (muita vezes só com o objetivo de registar algo, coisa que antes fazíamos utilizando o bloco de notas, por exemplo) e porque, por ser um telemóvel e não apenas um dispositivo que tira fotografias, vamos deixando acumular. Já deitei milhares de fotos fora - entre selfies, fotos de livros, de outras coisas que queria comprar, 45789 imagens manhosas dos meus cães e etc. - e já criei pastas para outras tantas que encontrei e que perderia caso não estivesse a fazer esta seleção. A fase seguinte, depois de me desfazer destas pastas monstruosas e de ter tudo dividido por anos, vai ser entrar em cada uma das subpastas e deitar todas as fotos más-repetidas-tremidas-desfocadas para a reciclagem. Mas até lá chegarmos, upa upa - temos muito caminho para percorrer!

A parte boa disto tudo é que tenho apanhado uns tesourinhos que me fazem quase ganhar o dia. Vídeos e fotos que nem sabia que existiam, ora dos meus sobrinhos a cantarem-me os parabéns, ora de colegas de turma a dançarem no balneário, entre outras pérolas. Mas é a mexer em fotos antigas que relembro que há duas fase de Carolina. Quase tipo A.C. e D.C., mas em que o "C.", em vez de Cristo, é o meu nome. Há uma fase clara em que sinto que renasci. Mais: há uma foto que marca esse momento.

Depois de um episódio triste que marcou a minha pré-adolescência, que já relatei há alguns anos aqui, sinto que congelei no tempo. Houve um período de mais de um ano em que passei um borrão e não era eu, era apenas uma fase de transição. Olho para as fotos dessa altura - fáceis de distinguir, porque foi a fase em que estive mais gordinha em de toda a minha vida - e não me reconheço. Honestamente, já quase nem me lembro. Percebo hoje o esforço que fiz para voltar a gostar de mim mesma, depois de me ter deixado engordar daquela forma e sou capaz de entender os sorrisos que fui reavendo com o passar do tempo. Assim se mede a intensidade de um acontecimento: não só pela forma como reagimos na altura em que ele aconteceu, mas também pela maneira (e dificuldade) com que nos reerguemos depois de ele passar. Sei que, para além de mim, mais ninguém consegue ver este tipo de coisas apenas a olhar para uma foto.

Durante as minhas limpezas dei de caras com a foto que durante mais tempo esteve no background do meu telemóvel. Ninguém diria que aquela simples fotografia, onde nem a cara aparece, foi um turning point. Lembro-me bem de a tirar, na casa de banho, com a minha camisola preferida do momento: da Zara, com muito elastano, com riscas transversais brancas e cinzentas. Bem justinha ao corpo. Foi ela que me fez aceitar que já não era a miúda gordinha que tinha sido. Fez também ela parte da minha transição para aquilo que sou hoje. 

É isto que adoro nas fotografias, a capacidade de me fazerem viajar no tempo, de conseguirem ajudar a (re)construir um bocadinho da história de alguém - e principalmente a minha. Relembrar o que fui, o que pensava, onde estava, o porquê de ter tirado aquela fotografia. Como era. Quem era.

Tenho pena que hoje em dia se use tanto a fotografia para manipular os outros: ora para se fingir que se tem a vida perfeita, o dinheiro para comprar uma mala Louis Vuitton, que se vai ao ginásio cinco vezes por semana ou para vender um produto qualquer de maquilhagem. Não quer dizer que essas fotos não tenham histórias por detrás; quer só dizer que não foram tiradas com o propósito certo - e o propósito certo, em muitas ocasiões, é mesmo não ter um propósito.

A fotografia vai muito além da cara cortada, do queixo marcado por algumas espinhas da adolescência e de uma camisola às riscas. É tudo aquilo que não se vê nos pixels, mas que eu sei que é tão ou mais importante do que tudo aquilo que lhes dá cor. É a capacidade de viajarmos no tempo. De voltarmos a calçar os nossos próprios sapatos e pensarmos "afinal é por isto que cheguei aqui". Cada foto é uma história, só que muitas vezes não nos lembramos dela.

 

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07
Mar19

Os meus auto-retratos

Muitas das fotos que partilho aqui e nas minhas redes sociais são auto-retratos. Já tinha falado disto aqui, neste post, mas nunca expliquei ao certo como o fazia e o porquê de o fazer.

Sempre que me dizem que sou muito fotogénica digo para não acreditarem em tudo o que vêem. Não sou pouco fotogénica, é verdade, mas as fotos que mostro ao mundo são resultado de muita paciência e persistência da minha parte de forma a tirar a fotografia, aos meus olhos, perfeita. Tenho sempre uma visão muito concreta daquilo que quero - do ângulo, do sítio onde me posiciono, do tipo de focagem - e pôr essa visão nas mãos de alguém, mais do que perigoso, é injusto. As pessoas não estão dentro da minha cabeça, não são obrigadas a ler e a perceber tudo aquilo que eu quero. Por isso, e em vez de ser chata e demasiado exigente com quem já me está a fazer um favor, desde há uns dois anos para cá que sou eu que tiro as minhas próprias fotos (a não ser em eventos ou qualquer outra ocasião especial).

Como? Escolho um fundo, trato da luminosidade - quanto mais, melhor, e de preferência sempre luzes amareladas (com luzes brancas fico com um ar de morta -, preparo o tripé, a máquina (tem de estar em modo automático, o manual vai interferir com a focagem, e com o modo de fotografia em controlo remoto) e o próprio comando (o que tenho não é da marca, que custam uma fortuna, mas dos comprados no ebay).

Depois é só disparar. E paciência caso os resultados não saiam brilhantes à primeira. Ou à segunda. Ou à terceira. Ou à 56ª vez. ;)

 

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A escolha do set é sempre essencial: não convém ter muitos ruídos. Normalmente fotografo sempre no meu quarto e fico sempre próxima da câmara, de forma a que fique eu focada e tudo o resto bem mais esbatido.

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O controlo remoto que mandei vir da internet. Não funciona às mil maravilhas (basta afastar-me a mais de metro e meio que ele começa a querer falhar) e os próprios materiais são fracos, mas serve para o efeito e o preço (perto de um euro) compensa imenso o investimento. O meu já tem uns anos e continua no ativo.

 

Neste caso, queria fotografar um momento fofinho com a Molly e o Panzer. Eis o resultado:

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Outros auto-retratos:

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Autoretrato_Agosto18 (9).JPG

Auto-retrato_Fev18 (10).JPG

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29
Jan19

Quem não quer um fotógrafo na sua vida?

Rio-me muitas vezes com aquelas imagens que me aparecem inadvertidamente no Facebook a gozar com os maridos e namorados que passam as passas do Algarve para tirar uma foto decente à sua companheira (e, mais difícil que isso, uma fotografia passível da sua aprovação). É vê-los nas posições mais esquisitas, ora deitados ou a fazer o pino, ou até enfiados no mar (vestidos!), com água até à cintura, pela conquista do ângulo perfeito. E a verdade é que, de uma maneira ou de outra, com mais ou menos exageros, todos nós já assistimos a isto.

Eu acho que, principalmente as mulheres, sonham com a fotografia perfeita - aquela que espelha muitas vezes aquilo que elas não são -, sendo por isso irrealisticamente exigentes; mas ficam também legitimamente tristes por sentirem que os seus mais que tudo não conseguem (e alguns não se esforçam sequer para) captar a sua essência. A foto é uma transcrição da realidade - e se um namorado diz à rapariga que ela é linda, mas depois, quando precisa de captar uma prova disso, sai tudo mal e porcamente... Uma pessoa desconfia.

Depois de ter escrito o texto sobre o timing da escrita, lembrei-me de um post que tinha aqui há quase um ano, abandonado e inacabado algures nos rascunhos. Dizia a primeira frase: "Não tenho namorado - nem quero. Mas se um dia tiver, gostava que fosse fotógrafo". Escrevi-o depois de uma viagem a Lisboa, onde fui em trabalho para fazer uma entrevista, e onde testemunhei o trabalho de um fotógrafo incrível. A conversa decorreu num escritório normal, sem grandes decorações ou coisas bonitas - era apenas mais um escritório, com uma mesa e várias cadeiras, e respetivos copos de água para quando a sede apertasse. Mas depois, quando vi as fotos, fiquei de queixo caído. Não importava se o escritório não passava de um escritório, se a pessoa em causa era bonita ou feia - as foto falavam por si, e eram incríveis porque todos os ângulos foram escolhidos ao pormenor, porque eram visto pelos olhos de alguém especial. E a verdade é que isso já nasce com as pessoas - e embora os maridos de todo o mundo se possam esforçar muito, há quem não tenha esse dom. E nós, mulheres, temos de aceitar (o que não significa não pedir para nos tirarem fotografias).

"Os bons fotógrafos sabem tornar uma pessoa pouco bonita em alguém atrativo, conseguem dar vida ao que na realidade foi quase morto, sabem mostrar o importante, o impactante. E talvez isso se alargue à vida, na procura constante dos melhores ângulos para viver. E isso é incrível.", escrevi mais à frente. Porque, no fundo, quem não quereria ter uma visão constantemente mais bonita do mundo e de tudo aquilo que nos rodeia?

15
Jan19

Panzer (ou como o meu colo nunca chegou a ficar frio)

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"Desde que tirei o curso de fotografia que estou sempre à procura da foto "mais perfeita". Alinho os horizontes, balanço os brancos e trabalho as sombras, ponho as fotos mais amareladas como gosto, tento sempre que não haja ruído a distrair do foco principal. E, claro, tento pôr-me bonita. 
Mas também gosto de fotos verdadeiras. Esta é uma delas. Tirada na véspera de Natal, nos 20 minutos de pausa que tive depois de fritar os doces natalícios e onde aproveitei para estar com os meus pequenos. Pijama, pantufas, avental, olheiras, cabelo horrível. E ainda bem que nas fotografias não se sente o cheiro a fritos! E, no entanto, uma foto tão bonita como todas as outras. 
Quando adormeceram todos no meu colo, gritei pela minha irmã para ir buscar a máquina e captar o momento. "De avental?", Perguntou. Disse que sim, era como estava, era assim que ia ficar. O Amor é isso tudo.
Desde que eles nasceram - em que os vi sair, bolinhas em sacos, e a respirar pela primeira vez - que conto incessantemente de um a sete, para me certificar que estão todos. Acordei muitas vezes a meio da noite para ter a certeza de que respiravam, punha-os a mamar se via que estavam mais magros e trazia-os à vez ao colo, para os ensinar o significado de mimo.
Agora conto de sete a zero, em contagem decrescente até o colo ficar a vazio. Até ficar frio. E dói. Mas dizem os sábios que amar também é deixar ir, e eu acredito. Que a minha Dora, o Lilo, o Pantufas, a Cuca, a Mel, o Rufus e a Mimosa sejam felizes nas suas novas casas é um dos meus desejos de 2019. Que aqueçam muitos colos como aqueceram o meu."

 

Texto publicado no meu instagram a 30 de Dezembro

 

Escrevi este texto poucos dias antes do fim do ano, quando os meus pequenos texugos estavam a abandonar o meu colo a uma velocidade estonteante. Não é difícil perceber que não estava feliz. Mas mal eles nasceram eu sabia que era assim que ia ser: era lógico que não íamos ficar com os sete, mas cedo combinámos que não íamos ficar com nenhum. Porque já tínhamos muitos, porque seria mais uma despesa, mais trabalho e mais preocupações. Porque aquilo que a minha mãe queria mesmo era uma cria da Molly e do Calvin - e não do vizinho.

Foram indo, um a um. Saí sempre de casa quando sabia que os iam buscar. O colo ia ficando mais frio, mas ao menos não era eu que os tirava de cá. Até que ficaram dois. Rodava-os entre o quentinho do meu abraço, dormia com eles ao peito, via-os a brincar como se não houvesse amanhã ou a dormir em conchinha como se nunca tivessem conhecido outra forma de encaixe. Até que chegou a hora.

Eram os meus dois últimos meninos e, esses, não os queria deixar ir sem lhes apertar aquelas barrigas gordas. Quando deixo ir um, descaradamente em lágrimas em frente aos seus novos donos, aperto o outro no colo. E, quando largo esse, escondo a cara por detrás do casaco de penas para não verem a minha cara. Não fiz por mal, por arrependimento, nem para terem pena de mim - foi somente a dor e a infelicidade de os ver partir a vir ao de cima. O sentimento de que já não sobraria nenhum.

E nesse momento, num vai-não-vai, entregam-me o cão para o colo. Que era meu, que não tinha mal. E eu entreguei-o de volta, em pânico por não honrar um compromisso. Mas, insistindo ainda assim, lá veio ele de volta para as minhas mãos. 

Hoje, o Lilo de que falo no meu post do instagram chama-se Panzer. Todos os dias me rói as pantufas e me ataca com aqueles dentes em forma de agulha. Todos os dias, quando me vê, corre na minha direção com aquelas orelhinhas de abano e com todas as suas regueifas a oscilar para cima e para baixo. E todos os dias - até ao dia em que conseguir - o agarro no meu colo, tal e qual como fiz naquela noite, quando o trouxe para o quente da casa que agora era mesmo a sua.

Muita gente me disse, depois de ficarem a conhecer que ele tinha ficado cá, que "sabia que eu não ia aguentar ficar sem um cão". Pois eu não fazia ideia. A partir do momento em que decidimos dar todos os cães, e acima de tudo quando soube que havia quem quisesse cada um deles, eu nunca ponderei ficar com um (ainda que secretamente desejasse que me tivessem oferecido um no Natal). Só que aconteceu. A minha dor e a sensibilidade de quem estava do outro lado falou mais alto (e ainda hoje, só de me lembrar desse momento, escorrem-me as lágrimas pela cara abaixo).

Foi há precisamente dois meses que nasceram. Tenho tido a sorte de ter notícias de muitos deles e o meu coração está sossegado por saber que estão bem, que são amados e bem cuidados. E a forma como o cachorro da minha vizinha - que acolheu um dos filhos da Molly - corre na minha direção quando me vê, diz-me que eu fiz tudo certo. Não vive comigo, mas pelos vistos ainda lhe cheiro a casa. Talvez o meu colo seja sempre a casa de cada um deles. Do Panzer, será de certeza.

 

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16
Dez18

Caixa d'óculos

Já há alguns anos que sabia que via mal. Quando entrei na faculdade tínhamos de fazer umas provas, incluindo à visão, que deram - à primeira vistoria - uns resultados trágicos de apenas 70% de visão no olho direito. É lógico que eu não estava assim tão cegueta e aquele teste foi feito às três pancadas. Fui mesmo ao oftalmologista que me disse que, apesar de ver pior do tal olho, não era razão para alarme e que, caso não tivesse efeitos secundários, o uso de óculos era dispensável.

Passaram-se cinco anos desde essa altura. A primeira lembrança deste meu mal veio numa aula de piano. Estava no último teclado da sala e, para olhar para uma pauta projetada no quadro, fechava os olhos mais do que qualquer asiático. "Precisas de óculos, mulher!", gozou a professora. Pouco tempo depois comecei o meu curso executivo. Na fila do meio, os powerpoints liam-se com alguma dificuldade, mas tudo o que era escrito no quadro - principalmente a vermelho e a verde - passava-me ao lado. E as legendas do Netflix, mais pequeninas que o normal? Nos dias de maior cansaço, era um esforço extra. E aí eu soube que tinha chegado a altura. 

Durante este processo lembrei-me muitas vezes de uma história que vivi com a minha irmã. Certa vez, no Algarve, ao esquecer-se das suas lentes e tendo lá em casa umas compradas por uma das minhas primas - com mais dioptrias que ela -, decidiu experimentar. E, naquele momento, parece que entrou num mundo novo. "Eu vejo pó!", dizia ela, espantadíssima. Eu não cheguei a esse ponto, mas já não me lembrava do quão nítidas podiam ser as coisas. Vivia há já algum tempo num mundo esbatido.

Adaptei-me muito bem aos meus novos amiguinhos - só as primeiras três utilizações é que me deixaram um bocadinho confusa, mas resisti - e agora são-me indispensáveis na carteira, e muito mais em qualquer situação de aula. Não os uso sempre - só quando preciso ou conduzo à noite -, mas infelizmente apercebo-me que estou a ver gradualmente pior quando estou sem eles. Pelos vistos é normal, para mal dos meus pecados.

Cá em casa dizem que pareço uma professora. Eu ainda não sei se gosto ou não, mas não lhes ofereço qualquer resistência - sinto-me cegueta e um bocadinho incapaz quando não consigo ler coisas que antigamente via. Portanto é isto. Oficialmente caixa d'óculos.

 

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05
Dez18

A minha árvore de Natal

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Este ano antecipei-me na montagem da árvore de Natal: nem sequer esperei pelo fim-de-semana de 1 de Dezembro, o clássico para inaugurar as decorações natalícias. Sinto que é muito trabalho para tão pouco tempo de "exposição" - e a verdade é que todos os anos me esqueço do quão grande é a árvore, de como sinto que acabei de fazer um treino de pernas depois de a ter montado e do quão bonita ela é, independentemente de como a decoramos. Nota-se muito que o Natal é a minha festividade favorita?

Este ano, para além do dourado, decidimos dar-lhe um toque de vermelho. A minha mãe não adorou - diz que parece demasiado uma árvore de shopping -, já eu gostei muito. É mais impactante do que nos outros anos mas, mesmo assim, adoro-a. Para além disso inovamos um bocadinho: depois de passar um ano a ver árvores de natal alheias, achei boa ideia pôr algumas flores (falsas) na árvore, para lhe dar um bocadinho de cor e dinâmica, para além das típicas bolas-luzes-cordões. 

Quando fui ao Leroy Merlin comprar algumas coisas deparei-me com uma árvore igual, a metade do preço que eu tinha comprado há dois anos - fiquei fula! Aliás, as árvores grandes devem estar na moda: havia uma enorme - perto dos quatro metros -, linda, com um preço assustador de quatro dígitos, mas que enchia o olho a qualquer um. Eu, ainda assim, fico com o prémio de consolação: quando comprei a minha e fiz uma ampla exploração no mercado por uma árvore com mais de dois metros, havia muito pouca oferta. Comprei o que havia e era uma mentira se dissesse que não a adoro de paixão. Fui uma pioneira . De qualquer das formas, se com esta já tenho de ir ao último andar do meu escadote para colocar as decorações, com outra ainda maior tinha obrigatoriamente de comprar uns andaimes - talvez não seja por isso uma óptima ideia.

Posto isto, vou deixar-me de paleio. Aí ficam as fotos e o vídeo da montagem do meu pinheir'inho - um clássico aqui no blog. Que comecem as festividades!

 

 

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21
Mai18

O resumo de uma breve passagem por Fortaleza, Brasil

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O melhor do Brasil: a praia

 

Cheguei há uma semana do Brasil. Já recuperei da ressaca do jet lag e do cansaço acumulado (dormi uma noite e uma manhã inteiras e achei que me tinham posto qualquer coisa na comida, porque nunca me senti tão pedrada na vida) e, não estando fresca que nem uma alface, já estou bem melhor. Um coisa ainda continua igual desde que vim: sinto-me uma pintura ambulante. Porquê? Porque cheia de medo de outras potenciais queimaduras, já que apanhei logo uma no primeiro dia em que lá estive, pedi à minha mãe que me espalhasse protetor solar 50 nas costas e nos braços (os sítios onde não chego). Pois qual não é o meu espanto quando, antes de vir, olho-me ao espelho e percebo que tenho os dedos da minha querida mãezinha tatuados no meu braço e outro tipo de pinturas abstratas em toda a minha dorsal. Estou incrível. Achei que isto ia desvanecer, mas passado uma semana ainda parece uma escultura de barro arredondada. 

De resto, vim do Brasil com mais sardas, uma cor de pele um tanto ao quanto mais saudável (estava com um ar terrivelmente macilento), com várias tapiocas no estômago (eu sabia que aquilo era delicioso e nada como aquela porcaria que vendem aqui!) e mais uma experiência no lombo. Estive em Fortaleza, num evento sobre moda de autor brasileira, e ainda estou em overdose de tanta passarela. Esta foi a primeira press trip que fiz (talvez a última?) e conto mais tarde escrever sobre aquilo que acho destas viagens organizadas. Mas posso já adiantar que uma das coisas mais interessantes é a troca de experiências e opiniões com outros jornalistas do ramo – no meu caso, estive sempre acompanhada por um senhor da Argentina, uma senhora do Uruguai e uma londrina, com quem me dei muito bem e com quem tive oportunidade de praticar o meu inglês.

 

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Hora da lontrice: o melhor prato que lá comi, uma moqueca, e, claro!, a tapioca

 

Não vos vou maçar com detalhes ou opiniões sobre o evento, por ser uma coisa que me cheira mais a trabalho do que a lazer. Mas gostava, como faço sempre, de fazer um mini-resumo da minha viagem – ainda que não haja muito para contar! A verdade por detrás das viagens de trabalho é que são sempre super cansativas, ainda para mais se forem transatlânticas – acima de tudo porque são curtas e intensas, não dando tempo ou chance para uma pessoa se recompor. Neste caso, tive algumas manhãs livres, mas o evento acabava muito tarde, pelo que eu acabava sempre por me deitar para lá da uma da manhã (cinco da manhã aqui) e, como acordava cedo, ora para trabalhar ora porque o sol não me deixava dormir, nunca conseguia repor as energias. O dia que mais aproveitei foi o da vinda, pois só tinha voo à noite – de resto, todos os minutinhos livres foram de praia, que é de facto maravilhosa.

 

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 (descubram o Wally!)

 

Nesta altura é Outono por lá, mas as temperaturas não saíram dos 30 graus – choveu bastante num dos dias, mas foi azar nosso. Segundo vi nas notícias, foi o dia mais chuvoso do ano naquele estado, por isso só posso considerar que tive pontaria. Chovia a sério, muita água e em gotas gordas, mas o ar continuou abafadíssimo como em todos os outros dias (ou talvez pior, que aquela humidade não é feita para “gringos” como nós). Ainda assim a praia estava vazia, ainda que com estas condições incríveis e com uma temperatura óptima – tanto fora como dentro de água. No primeiro dia – o do escaldão, em que não havia sol à vista mas estava muito quente – haviam umas dez pessoas em centenas de metros de areal. Como não adorar?

A verdade é que no aspeto “praia”, o Brasil subiu na minha consideração. Quando fui à Bahia, há mais de uma década, lembro-me que foi uma desilusão. A água era suja e pouco quente, o areal era avermelhado por causa do tipo de rocha lá presente e relativamente pequeno... e havia tubarões a dar à costa, o que não alimentava a confiança para dar grandes braçadas. Aqui era tudo o contrário – apenas uma nota relativamente ao mar, sempre super agitado, que não permitia que uma pessoa respirasse durante sete segundos sem levar com mais uma tromba de água na cara. E havia palmeiras, espreguiçadeiras e todas essas coisas que estão no nosso imaginário quando falamos de países tropicais, por isso tirei a barriguinha de misérias.

Reparei que no hotel onde estava só havia brasileiros; a percentagem de estrangeiros devia rondar os 5%, uma coisa meramente residual, o que é estranho dado o tipo de hospedagem (tudo incluído, parque aquático ali ao lado e praia literalmente em frente).

Isto pode ser explicado pela fraca irrigação que o aeroporto local tem, que vive praticamente de voos internos e que tem das piores condições que vi ultimamente. Para além disso, a cidade em si não tem muito que ver e a pobreza das gentes é evidente. Quase tudo o que vi foi de carro, não tenho uma única foto tirada com a máquina, e não pude explorar nada a fundo. A única coisa que de facto visitei foi o mercado central (um edifício com quatro pisos, gigante, embora bastante feio), mas como fui ao domingo de manhã (e ainda por cima coincidindo com o dia da mãe) muita coisa estava fechada. Há imeeeeensas coisas baratíssimas, principalmente para quem gosta de artesanato mais clássico, como toalhas de mesa rendadas e saídas de praia trabalhadas. Eu vim de lá cheia de tralhas – desde vestidos de praia, biquínis e uma carteira – e fiquei com pena de não ver mais.

 

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PIntura à entrada do mercado

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 No mercado (neste momento, já não queria saber do nível de viscosidade da minha pele ou a horrorosidade do cabelo. Deixei-me vencer pela humidade)

 

Ainda na press trip, visitei um centro comercial, com uma dimensão colossal, que contrasta com tudo o que se vê lá fora: o centro comercial era arejado, minimal, com ótimas lojas; nas ruas está tudo a cair de velho, imensos edifícios cuja construção ficou a meio e outras paisagens típicas de países em desenvolvimento. De facto, safa-se a praia.

Devo admitir que não me lembro se a Bahia era bonita, mas sei que todo aquele caos me assustou imenso. O trânsito era medonho, gente a buzinar por todo o lado, estradas em muito mau estado – e embora aqui isso também não fosse exemplar, era muito melhor do que aquilo que eu me recordo da minha viagem anterior.

Os brasileiros continuam naquela sua típica boa disposição, independentemente da sua qualidade de vida. Confesso que muitas vezes tudo aquilo que me soa a falso, mas uma pessoa acaba por se habituar – já é algo que faz parte da identidade cultural deles. Nunca andei sozinha na rua, mas tive sempre muita atenção em não ter nada valioso comigo, por isso nunca me senti minimamente ameaçada – mas estava sempre atenta e com os olhos em todo o lado, porque já se sabe que uma mulher prevenida vale por duas.

 

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Venda de milho na rua

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Um talho aberto, a que eles chamam "frigorífico" (cof cof cof)

 

Um dos temas mais presentes desta minha viagem foi a exportação e a vontade que eles têm em crescer, particularmente a moda brasileira. Mas, muito honestamente, acho que estão muito longe disso. Não se podem definir objetivos enormes sem se passar pela base – e eles falham numa coisa tão simples como falar inglês. Nem no hotel sabiam! Os estilistas não conseguiam comunicar com a minha colega londrina, era sempre preciso um intermediário; fomos a uma empresa e uma das figuras mais altas não sabia dizer o que faziam noutra língua sem ser a dele. E isso, para mim, é grave. Na moda e em tudo. Também isso terá certamente impacto negativo para o turismo.

Uma pessoa anda por lá e pensa que o que não falta é potencial. Eles têm tudo. Mas falham nas bases: no ensino, nos políticos, na forma de estar – e sabem-no. Em conversa com alguns brasileiros, percebi que eles têm noção tanto daquilo que podiam ser como de tudo o que fazem mal. Criticam objetivamente os políticos, por exemplo, mas acho que ainda falta alguma auto-crítica por parte de cada um deles. Aquele “jeito de ser” que tanto nos encanta neles, tão divertidos quanto leves, tem tanto de encantador como de mau, principalmente para eles próprios, que têm muito para fazer se quiserem sair do eterno status de “em desenvolvimento”.

Dado o meu estado de espírito um bocadinho atribulado durante a viagem, perguntaram-me se me arrependia de ter ido. Nunca. Não sei se, sabendo o que sei hoje, voltaria - mas arrepender-me de uma coisa que fiz pela primeira vez, para pelo menos tentar, nem pensar. Foi só mais um bónus da vida. Nunca pensei voltar ao Brasil e, em menos de uma semana, lá fui eu. Já aprendi umas tantas coisas :)

 

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A praia

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O pôr do sol em frente ao local do evento

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As pinturas nas paredes são a forma mais comum de publicidade - algumas líndissimas!

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O adeus a este país tropical <3

14
Mai18

Um presente para a vida

Já aqui tinha dito: eu queria um piano de cauda. Sempre quis – sempre achei que esta era uma das peças mais bonitas que se pode tem em qualquer sítio – mas, desde que comecei a tocar piano (e o meu velhinho piano vertical já começava a dar de si), esse desejo intensificou-se.

Comecei a perceber que, eventualmente, isso ia acontecer. Quer fosse um presente, quer fosse eu a compra-lo com o dinheiro que tenho de parte, eu sabia que era uma questão de oportunidade. Ia vendo o que aparecia em sites de segunda-mão (comprar um novo estava fora de questão, tanto por questões financeiras – um piano por estrear pode custar o mesmo que um carro ou até um apartamento – como pelo trabalho já nele desenvolvido, um vez que os instrumentos novos tendem a ser mais “esganiçados” e eu prefiro-os mais maduros) e houve um dia em que apareceu um.

Basicamente os astros juntaram-se a meu favor. Era de um pessoa de quem eu já tinha referências e é extremamente competente, o preço era incrivelmente bom, o piano já carrega uma história de mais de cinquenta anos e já está “mole”, fazendo com que o bater nas teclas seja um ato de meiguice e não de luta. Para a idade que tem – e tendo em conta que era um piano em que o antigo proprietário tocava e não servia apenas um objeto de exposição – está em ótimo estado, com pequenas mossas que só nota quem estiver à procura. Tem as teclas em marfim (algo que eu não estava certa se queria, porque se degradam mais facilmente) mas até isso já raramente se vê. E, obviamente, é lindo. Isso é indiscutível. E fica ainda melhor na minha sala do que aquilo que eu imaginava!

Isto serviu como prenda de anos um bocadinho atrasada – o que não importa absolutamente nada, porque um presente destes não tem preço, nem data, nem valor sentimental possível. Não descorando tudo aquilo que recebi ao longo da vida – e foi muito! - acho que esta foi, sem dúvida, a melhor prenda de todas. Um carro, por exemplo, é muito mais útil, é quase indispensável para a minha locomoção... mas esta é uma peça emocional. É todo um outro nível. Passaram-se quase dois meses (sim, atrasei-me a divulgar esta boa nova, mas a malta do instagram já sabia há algum tempo – sigam em @carolinagongui) e eu ainda suspiro de cada vez que entro na sala. Passaram-se quase dois meses e eu ainda dou por mim com a cabeça encostada a ele, enquanto me sento no seu banquinho. Passaram-se quase dois meses e eu ainda agradeço sempre ao meu pai, de cada vez que ele olha para mim enquanto toco (e isso é quase diário). Acho que pode passar o resto da vida e esta será sempre uma das melhores coisas que me caiu nas mãos.

(e enquanto estive no Brasil passou-se quase uma semana sem lhe tocar – e as saudades que eu tive!)

 

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08
Mar18

Um fim-de-semana no centro do país

Eu sou provavelmente a pessoa mais caseira do universo. Adoro estar em casa mas, com a crescente quantidade de trabalho e coisas extra (ginásio e piano), acabo por estar menos no meu habitat natural do que aquilo que gostaria. E apesar dos meus dias serem todos diferentes, de não ter uma rotina e de estar mais tempo fora de casa do que alguma vez estive, sinto-me numa prisão - sinto-me presa nesta vida, ando a sentir-me a sufocar nas minhas crescentes responsabilidades, nas minhas constantes pressões sobre mim própria e nos meus planos para o futuro, enquanto olho à minha volta e toda a gente da minha idade está a usufruir do "bom da vida".

Normalmente, quando estou assim, é quando tomo as decisões mais malucas ou arriscadas para mim. Ainda não saí bem desse estado e ainda não sei o que vem por aí, mas de uma coisa eu sei - ou soube, naquela altura: eu precisava de sair de casa durante um bocadinho. Não tenho possibilidade de tirar férias para já, pelo que já tinha um dos fins-de-semana que se avizinhavam como alvo. Já andava a dizer aos meus pais para irmos a algum lado, fiz uma lista de sítios bonitos em Portugal onde queria ir e estava à espera que os dias chegassem e a meteorologia ajudasse. Mas acabou por resultar mais cedo do que pensei.

Há dois fins-de-semana atrás rumamos por isso até Palmela. Porquê Palmela? Nem eu sei. Foi quase olhar para o mapa, ver uma pousada bonita e seguir viagem. Acho cada vez mais que tenho de conhecer melhor o meu país, já que conheço cada vez mais do mundo. É hipócrita andarmos por aí em aviões quando, a poucas horas de carro, temos tantas coisas incríveis para ver. Tenho especial interesse no interior do país, mas as temperaturas mais altas e o bom tempo arrastaram-nos mais para a região centro, que eu também não conhecia. Tantas vezes fui a Lisboa e nunca tinha posto um pé em Setúbal. Enfim, agora já ;)

O roteiro do fim-de-semana foi simples: Palmela, Serra da Arrábida, Sesimbra, Setúbal, Óbidos, Caldas da Rainha, Mealhada e de volta ao Porto.

 

A nossa visita por Palmela resume-se ao castelo, que ficava a um minuto do sítio onde dormíamos. Aliás, a pousada fica mesmo dentro das suas muralhas. Acho que, tal como a maioria das pousadas, não é super barata, mas é excepcionalmente bonita; os quartos são muito agradáveis e o pequeno-almoço muito bem servido para a dimensão do espaço. Não tem piscina (nesta altura também era a última coisa que queríamos) mas no verão o claustro da Pousada (que foi em tempos um convento) deve ser o sítio ideal para se ler um livro em pleno sossego.

No interior do castelo tem várias lojinhas e um restaurante, bem classificado nos sites conhecidos, mas que estava fechado quando lá fomos (assim como os restantes espaços comerciais). Há, no entanto, uma vista boa para desfrutar e uma série de recantos por entre as muralhas giros de se explorar. Antes de se subir para o castelo há também a indicação de um miradouro, onde se vê, por um lado, a cidade e por outro as serras.

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A vista da cidade

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A vista das serras

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Dentro do Castelo

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A vista do meu quarto

 

No sábado fomos imediatamente ao sítio que eu mais queria ver: Portinho da Arrábida. A minha reação combinou com aquelas águas - foi um banho de água fria. Sim, a cor da água é incrível, mas não passa muito disso. Passamos por várias praias, descemos mesmo até ao Portinho e eu só pensava "é só isto?". Não sei se parei nos lugares errados, se ia com as expectativas demasiado altas ou se tinha simplesmente uma ideia errada do que ia ver, mas nada na serra me tirou a respiração como eu esperava.

Ficamos os três um bocadinho sem graça depois daquela desilusão e deixamos de ter planos. Fomos vendo as placas e seguimos até onde as estradas nos levavam. Primeiro paramos no Castelo de Sesimbra, onde não exploramos muito, mas vimos um dos cemitérios mais curiosos onde já estive - pequeno, com uma organização muito aleatória mas mesmo junto à muralha, dentro do Castelo. Depois vimos a indicação do Cabo Espichel e decidimos seguir caminho até lá. Aquilo sim, era o que esperava. Achei o sítio lindíssimo, uma lufada de ar fresco, fez-me lembrar as praias do Adriático (ainda que à distância). 

 

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A vista do Castelo de Sesimbra

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Cemitério do Castelo junto à muralha

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Cabo Espichel 1

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Cabo Espichel 2

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Cabo Espichel 2

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Igreja no Cabo Espichel (bonita por dentro)

 

Depois disto foi uma confusão. Já eram 13h30 e queríamos almoçar. Pensamos ir a Sesimbra - sítio onde nenhum de nós havia estado mas que sabíamos ser bonito - e seguimos caminho até à marginal, onde havia muitos restaurantes. O problema é que, dado o belo dia que estava, também havia muitas pessoas, muitos carros e zero lugares para estacionar. Já em desespero de causa decidimos pôr o carro num parque coberto - e a experiência foi tão desastrosa que eu até fixei o nome do dito: Parque da Praia da Califórnia. Nunca vi nada assim. No primeiro andar não havia lugares e não havia saída, obrigando a uma inversão de marcha mal parida quando queríamos sair (isto nem devia ser permitido... em caso de incêndio fica lá tudo); a cancela do segundo andar não abria, mas não havia qualquer indicações disso; o terceiro andar era para hóspedes de um hotel; no quarto deu para estacionar mas, quando percebemos que não havia elevador, arrepiamos caminho (o meu pai não consegue fazer esse tipo de esforços) - e quando fomos obrigados a voltar a fazer inversão de marcha dentro do parque para ir embora, demos de caras com um casal escondido atrás de uma parede, que ou estava a namorar (embora a posição não o indicasse) ou estava à espera de ter os carros à sua mercê para poder "explorar". Eu, quando cheguei ao segundo andar, já estava a dizer para irmos embora - todos os meus instintos de defesa (e acreditem que tenho muitos) gritavam para que eu saísse dali para fora. Foi dos parques mais manhosos, mal iluminados e estranhos que entrei em toda a minha vida. E só descansei quando saí de lá.

Depois disso seguimos até Setúbal, onde almoçamos (e depois à noite voltamos). Provei, finalmente, o famoso choco frito! Não sei se foi daquele prato em particular, mas achei o choco muito gordo e grande, estava à espera de algo mais pequeno; também já não estou muito habituada a tanta fritura numa só refeição, mas de facto é um bom petisco. Para comer uma vez por ano, talvez ;) Também não me escapou a torta de azeitão (boa) e o doce do abade, que não me caiu tanto no goto. À noite fiquei-me pelo peixinho grelhado, que parece ser o ex-libris de Setúbal - as montras acabam por ser parecidas com as que vemos aqui em Matosinhos (e eu adoro peixe!), mas os preços são bem mais apetecíveis lá do que aqui.

Entre o pouco tempo que tivemos entre o almoço tardio e o jantar, demos uma volta pela marginal de Setúbal e, mais uma vez, fomos levados pelas placas até ao Moinho de Maré da Mourisca. Infelizmente chegamos já à hora de fecho, mas ainda conseguimos entrar e ver as mós, embora tenha sido só mesmo entrar com um pé e sair com o outro. Há um café no exterior agradável e toda a envolvente é também muito bonita, com o Sado à nossa volta (embora fosse "pouco" Sado, devido à seca). Ainda passeamos e fomos até ao observatório dos pássaros, onde não vimos grande coisa, mas que compensou pelo passeio.

 

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Setúbal

 

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Moinho de Maré da Mourisca

 

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O Sado um tanto ao quanto pantanal no Moinho de Maré da Mourisca, onde supostamente havia pássaros para observar

 

No dia seguinte rumamos a Óbidos, onde eu já queria ir há muito tempo, mas de onde passo a vida a fugir por haver todo o tipo de eventos que enchem aquilo até ao tutano. Achei que estava safa por ser início de ano e qual não é o meu espanto quando vejo cartazes sobre a festa do chocolate que começava nesse fim-de-semana. Arg! Para minha sorte não estavam multidões gulosas prontas para entrar na vila, pelo que foi tudo mais ao menos tranquilo. Não explorei aquilo como queria (estava imenso calor e nós estávamos vestidos para um dia de inverno rigoroso, estávamos com fome e os altos e baixo não são bons para o coração do meu pai), mas prometi a mim mesma voltar em breve. Acho que tudo tem a minha cara. Parece uma feira medieval constante! E, guess what... tinha pão com chouriço! E eu, como boa lontra que sou, não deixei escapar!

 

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Muito glamour enquanto comia o meu pão com chouriço. Mas não dá para esconder aquela esguelha de felicidade típica de lontra ;)

 

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Um autêntico altar dos livros, em Óbidos

 

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Óbidos

 

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Óbidos 2

 

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Óbidos 3

 

Antes de pararmos na Mealhada para almoçar, pedi só mais uma paragem: Caldas da Rainha. Estávamos perto e eu sabia que tão cedo não ia ter uma oportunidade destas. Eu sou doida por loiças e ali fica, nem mais nem menos, que a loja da Bordallo Pinheiro. Pior: tem um outlet! Ainda estivemos à espera que a loja abrisse e depois, com o carro cheio de loiça, rumamos a norte - enchemos a barriga na Mealhada e voltamos a casa. É bom passear, mas a sensação de voltar ao sítio onde realmente pertencemos enche-nos a alma. E dá-nos força para mais umas semanas na rotina-sem-rotina, que era aquilo que eu precisava.

 

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"A" loja

 

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