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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

29
Ago19

A minha caixa de correio voltou a ser feliz

(ou como reativei a minha conta no Postcrossing)

No verão a minha casa transforma-se num autêntico campo de férias, com todos os meus sobrinhos a serem depositados aqui das suas respetivas casas. Neste momento eles já são (quase) todos crescidos, entretém-se sozinhos, não é preciso andar com eles ao colo; mas, ainda assim, não deixam de nos dar preocupações assim como dores de cabeça - neste caso literais, graças ao barulho que fazem, digno de recreio de escola.

O problema nesta fase é tira-los dos eletrónicos. Mesmo tendo um terreno gigante para correr, cães para brincar, terra para lavrar e uma piscina onde mergulhar, preferem o recanto do computador ou o sofá em frente da PlayStation, com todas as tentações do Fortnite, Minecraft, Roblocs e outras coisas que não sei escrever. Pior que isso é disputarem e contarem os minutos, vendo quem joga mais que quem, numa obsessão que nos deixa a todos (graúdos) completamente loucos.

Foi numa tentativa de os arrancar deste ciclo vicioso e irritante que decidi tirar uma coisa do baú: os meus postais. Inscrevi-me no Postcrossing há mais de oito anos, tenho mais de 700 guardados religiosamente, mas a falta de tempo obrigou-me a parar. Para quem não sabe, o Postcrossing é uma atividade baseada no site com o mesmo nome, que consiste na troca de postais entre pessoas de todo o mundo. Antes que perguntem: não, as pessoas não se conhecem. Mas através de pequenos perfis ficamos a conhecer um pouco das suas vidas e dos seus gostos, que nos ajudam a perceber que postais enviar e que mensagem escrever. Por cada postal que mandamos, recebemos um. Isto de forma resumida e poupando-vos a questões mais técnicas - e a factos depressivos, como o aumento pornográfico do preço dos selos desde a altura em que comecei até agora (na ordem dos 20 cêntimos cada!!!).

Reativei a minha conta e consegui arrastar a minha sobrinha Clara para a ideia. Criámos um ritual e, de cada vez que podemos escrever mais uns postalitos, chamo-a para a minha beira. Ora escreve uma, ora escreve outra - e assim nos divertimos, entre escolher que postal enviar e decidir o que dizer. Ela já percebeu toda a dinâmica, entre selos, moradas e códigos e já escreve como gente grande. Fiquei muito feliz por conseguir fazer com que ela entrasse neste mundo analógico. Como li hoje num post da Isabel Saldanha, que cita José Saramago, “Jamais uma lágrima manchará um email". E apesar desta atividade ter pouco de sentimental - por não conhecermos as pessoas e por serem mensagens demasiado curtas, limitadas por aquele quadradinho de papel -, é engraçado perceber como simpatizamos mais com umas pessoas do que com outras apenas pelo inclinar da sua caligrafia, o cheiro do papel ou o cuidado com que escrevem o nosso nome. Nada disto é possível neste mundo das novas tecnologias.

É muito bonito transmitir-lhe isso e é, para além do mais, uma vitória: pelo menos é menos uma a passar tanto tempo nos eletrónicos ;)

Agora volto a sentir-me uma criança na noite de natal de cada vez que vou à caixa de correio - nem que seja pela expectativa de ter lá algo, para mim e para a Clara, que nos encha o coração. E que coisas boas me têm saído na rifa! Estou feliz por ter voltado.

 

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01
Ago19

O regresso

Tinha precisamente metade da minha idade quando o meu irmão emigrou. Chorei, não quis que ele fosse. Chorei o suficiente para ele adiar a ida e, no dia seguinte, partir enquanto eu ainda dormia. Deixou-me um bilhete com mil beijos, para gastar sempre que tivesse saudades. Está guardado no meu baú das recordações. Cruzei-me muitas vezes com ele enquanto arrumava a minha caixa e, de todas, o meu coração apertava-se. Lembrava-me o momento da partida. E das saudades.

A verdade é que uma pessoa se habitua à ausência. Não é algo bom de se ouvir, ou sequer de se dizer, mas é o que é; o facto daquelas pessoas não estarem presentes em momentos importantes é colmatado com as chamadas via whatsapp, com as mensagens, com os já habituais "então e novidades?". A partilha continua, mas acostumamo-nos ao delay; à falta do abraço, do beijo, das palmadinhas nas costas. Essas pequenas celebrações que nem notamos no dia a dia.

Mas se a ausência faz parte, as inevitáveis idas nunca chegam a entranhar-se. Foram muitas as visitas que o meu irmão e a sua família nos fizeram ao longo destes anos. O mês de Agosto, que hoje começa, foi sempre, por excelência, a altura mais louca nesta casa: quartos cheios, miúdos a correr por todo o lado, jantares, churrascos, festas, visitas. "O João já está cá? Podemos passar por aí?", já faziam parte das perguntas retóricas desta altura do ano. Até ao momento em que, de malas aviadas, eles voltavam a casa - e nunca, independentemente dos anos passados, esse momento deixou de doer. Nunca as ausências nos Natais deixaram de ser notadas. Nunca a vontade de voltar a partilhar com eles os aniversários e outras festividades se extinguiu. 

Este ano Agosto volta a ser sinónimo de confusão, de churrascos, de miúdos a invadir a casa... mas não é mais uma visita. É o regresso. O alterar da morada, do significado de "casa". É sinónimo de presenças em aniversários, de beijos e palmadinhas nas costas sem data marcada; de poder "ir lá a casa" sem ter apanhar um avião para lá chegar; de conseguir ligar para um número sem que o atendedor nos diga "the number you tried to call is not available". É sinónimo de vida em família.

Hoje o meu irmão regressa, deixa de ser emigrante. O bilhete com mil beijos - hoje, com umas largas dezenas a menos - deixa de ser preciso, porque o vou ter perto de mim.

Hoje voltamos a estar os quatro irmãos juntos, sem fronteiras a separar-nos.

É um sonho de há doze anos tornado realidade.

 

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06
Mai19

A filha do patrão

Nunca fui eu outra coisa. Desde bebé que percorri os corredores das fábricas - ora dentro da barriga da minha mãe, em colos alheios ou já pelo meu próprio pé. Sempre fui filha do patrão e, no alto dos meus seis anos, sabia-o bem. Andava por lá, com o narizinho levantado, por saber o estatuto que tinha. Todos sabiam quem eu era, todos sabiam o meu nome. Eu também sabia o deles. É curioso pensar em como era tão pequena mas já tão sabidola. E ainda é mais curioso ver como a minha sensação de poder por ser a filha do dono foi decrescendo à medida que os anos passaram - hoje, do alto do meu nariz só vejo os meus óculos, e sinto-me só mais uma peça naquele tabuleiro de xadrez, tão importante como as outras.

Quando me despedi do jornal para me dedicar às empresas da família, soube que ia doer. E é difícil tomarmos uma decisão sabendo que depois vamos sofrer as passas do Algarve. Porque não é fácil trabalhar com a família; não é fácil separar o pai-pai do pai-chefe; não é fácil não trazer os problemas, as zangas e as mágoas para casa; não é fácil entranharmo-nos nos sistemas criados por outras pessoas, tentarmos perceber o que vai na cabeça delas. Acima de tudo, não é fácil ter de corresponder às expectativas. E é muito difícil, às vezes, ter de bater o pé por aquilo em que acreditamos. 

Estou há cerca de nove meses nesta aventura e uma das coisas que me apercebi é que um dos processos mais complicados é aceitarmos que não somos necessariamente um prolongamento dos nossos pais. Que não temos a mesma forma de pensar, de agir, de trabalhar, de organizar. E perceber que isso não é nenhum crime. 

O curso deu-me oportunidade de conhecer outras pessoas como eu e de ver como até lido bem em não ser a Carolina, mas sim a "filha do papá" e "neta do avozinho". Não me importo de ser a "menina"; de não ser doutora, engenheira, dona ou senhora (ainda bem!). E é engraçado como em conversa com outras pessoas (mesmo fora do curso, que vou encontrando e que percebo que se estão ou estiveram na mesma situação que eu, dentro de empresas familiares) as situações se repetem. "Parece que estás a descrever a minha realidade", dizem. Porque não é propriamente uma coisa da área de negócio, não depende do tipo de pai ou do tipo de filho. É algo genérico. E é sempre difícil.

Mas já se sabe que as nossas dores são sempre superiores às dos outros. Os que não são filhos do patrão insurgem-se, muitas vezes indignados, pela vida facilitada que temos à partida. E eu percebo. Quando me perguntam, em jeito de provocação, "queres trocar?!", eu digo sempre que não. Porque eu sei que os outros não sabem que também é duro ser somente a filha de alguém, eventualmente não valer pelo seu valor próprio. Não sabem que a comparação das atitudes, ações e forma de estar se torna num bicho de sete cabeças nem que as expectativas criadas pelos nossos pais-patrões e todos à nossa volta se converte num autêntico bicho-papão. Não sabem o que custa não poder dizer que está mal, não sermos livres de nos sentirmos revoltados por isto ou aquilo, por estarmos a ser alvo de uma injustiça qualquer - porque quem manda não é só quem manda, mas também quem sempre nos ama e sempre amou, e os sentimentos confundem-se.

Eu não queria trocar, porque pode não ser fácil... mas a verdade é que eu não sei ser outra coisa senão a filha do patrão.

18
Mar19

A palavra de segurança

Se as vossas mentes são perversas e, ao lerem este título, se lembraram imediatamente das 50 Sombras de Grey e das boas práticas do sadomasoquismo, é bom que tirem já o cavalinho da chuva. Não venho falar dessas palavras de segurança... pelo menos, não nesse contexto (ninguém nos diz que a mesma palavra não pode ter várias funções, não é verdade?).

Lembro-me de ver num vídeo de um casal a fazer um balanço do seu casamento e um dos truques que diziam utilizar para uma boa harmonia dentro de casa era ter uma palavra de segurança. Para quê? Para avisar o outro que a probabilidade de aparvalhar, de se irritar ou se passar à mínima coisa é grande, ainda que o outro não tenha qualquer culpa no cartório. Porque, admitamos, a nossa tendência é sempre essa: atirar para cima dos outros – em particular aqueles que nos são mais próximos, que amamos e que nos aturam todos os dias – as frustrações e irritações do dia-a-dia. Às vezes basta uma frase mal dita, uma interpretação mal feita (que acontece quase sempre, porque as alterações de humor têm muito disso) ou algo dito com uma certa entoação para fazer estalar o vidro e impulsionar alguma discussão. E isto acontece porque, por um lado, quem está irritado não tem tolerância perante o outro e o outro não sabe que tem de ter cuidado com o que diz e com o que faz porque o companheiro está, nesse dia, feita uma autêntica florzinha de cheiro.

Acho que isto acontece com todos nós, independentemente do nosso trabalho ou da nossa personalidade; acontece a quem manda porque tem muitas responsabilidades, acontece a quem é mandado porque o chefe não sabe mandar, acontece a quem não faz nada porque os maus dias são umas espécie de lotaria que pode acontecer a qualquer um, desde que se acorde de manhã.

Há dias assim, nem sempre tudo corre como queremos e lidar com as frustrações é só uma das milhões de coisas que temos de aprender a lidar durante a nossa vida. Há quem faça esta gestão melhor, outros pior, mas parece-me que ter uma forma de avisar os outros que aquele não está a ser um bom dia devia estar em qualquer manual de boas práticas de “como viver em harmonia debaixo do mesmo teto”. Poupavam-se muitas discussões, muitos mal-entendidos, e muitas falhas de percepção – assim como um enorme desgaste emocional, uma vez que não é fácil ter de, diariamente, perceber o estado de humor das pessoas com quem vivemos e ter de as tratar com pézinhos de lã antes de conseguirmos fazer o nosso diagnóstico.

Por isso mais vale evitar chatices e, nesses dias, chegar a casa e gritar “banana!”. Ou “Stupeffy!”, para os fãs de Harry Potter. “Darth Vader”, já que mexe com o lado negro da força, também me parece uma expressão adequada para avisar os outros que constituímos um perigo para a paz caseira. Ou, por exemplo, “rede de pesca”, para quem quem gosta de coisas mais marítimas. Ou simplesmente “dia mau” - embora menos imaginativo, cumpre bem a função. E todos sabemos que há, simplesmente, dias assim.

15
Jan19

Panzer (ou como o meu colo nunca chegou a ficar frio)

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"Desde que tirei o curso de fotografia que estou sempre à procura da foto "mais perfeita". Alinho os horizontes, balanço os brancos e trabalho as sombras, ponho as fotos mais amareladas como gosto, tento sempre que não haja ruído a distrair do foco principal. E, claro, tento pôr-me bonita. 
Mas também gosto de fotos verdadeiras. Esta é uma delas. Tirada na véspera de Natal, nos 20 minutos de pausa que tive depois de fritar os doces natalícios e onde aproveitei para estar com os meus pequenos. Pijama, pantufas, avental, olheiras, cabelo horrível. E ainda bem que nas fotografias não se sente o cheiro a fritos! E, no entanto, uma foto tão bonita como todas as outras. 
Quando adormeceram todos no meu colo, gritei pela minha irmã para ir buscar a máquina e captar o momento. "De avental?", Perguntou. Disse que sim, era como estava, era assim que ia ficar. O Amor é isso tudo.
Desde que eles nasceram - em que os vi sair, bolinhas em sacos, e a respirar pela primeira vez - que conto incessantemente de um a sete, para me certificar que estão todos. Acordei muitas vezes a meio da noite para ter a certeza de que respiravam, punha-os a mamar se via que estavam mais magros e trazia-os à vez ao colo, para os ensinar o significado de mimo.
Agora conto de sete a zero, em contagem decrescente até o colo ficar a vazio. Até ficar frio. E dói. Mas dizem os sábios que amar também é deixar ir, e eu acredito. Que a minha Dora, o Lilo, o Pantufas, a Cuca, a Mel, o Rufus e a Mimosa sejam felizes nas suas novas casas é um dos meus desejos de 2019. Que aqueçam muitos colos como aqueceram o meu."

 

Texto publicado no meu instagram a 30 de Dezembro

 

Escrevi este texto poucos dias antes do fim do ano, quando os meus pequenos texugos estavam a abandonar o meu colo a uma velocidade estonteante. Não é difícil perceber que não estava feliz. Mas mal eles nasceram eu sabia que era assim que ia ser: era lógico que não íamos ficar com os sete, mas cedo combinámos que não íamos ficar com nenhum. Porque já tínhamos muitos, porque seria mais uma despesa, mais trabalho e mais preocupações. Porque aquilo que a minha mãe queria mesmo era uma cria da Molly e do Calvin - e não do vizinho.

Foram indo, um a um. Saí sempre de casa quando sabia que os iam buscar. O colo ia ficando mais frio, mas ao menos não era eu que os tirava de cá. Até que ficaram dois. Rodava-os entre o quentinho do meu abraço, dormia com eles ao peito, via-os a brincar como se não houvesse amanhã ou a dormir em conchinha como se nunca tivessem conhecido outra forma de encaixe. Até que chegou a hora.

Eram os meus dois últimos meninos e, esses, não os queria deixar ir sem lhes apertar aquelas barrigas gordas. Quando deixo ir um, descaradamente em lágrimas em frente aos seus novos donos, aperto o outro no colo. E, quando largo esse, escondo a cara por detrás do casaco de penas para não verem a minha cara. Não fiz por mal, por arrependimento, nem para terem pena de mim - foi somente a dor e a infelicidade de os ver partir a vir ao de cima. O sentimento de que já não sobraria nenhum.

E nesse momento, num vai-não-vai, entregam-me o cão para o colo. Que era meu, que não tinha mal. E eu entreguei-o de volta, em pânico por não honrar um compromisso. Mas, insistindo ainda assim, lá veio ele de volta para as minhas mãos. 

Hoje, o Lilo de que falo no meu post do instagram chama-se Panzer. Todos os dias me rói as pantufas e me ataca com aqueles dentes em forma de agulha. Todos os dias, quando me vê, corre na minha direção com aquelas orelhinhas de abano e com todas as suas regueifas a oscilar para cima e para baixo. E todos os dias - até ao dia em que conseguir - o agarro no meu colo, tal e qual como fiz naquela noite, quando o trouxe para o quente da casa que agora era mesmo a sua.

Muita gente me disse, depois de ficarem a conhecer que ele tinha ficado cá, que "sabia que eu não ia aguentar ficar sem um cão". Pois eu não fazia ideia. A partir do momento em que decidimos dar todos os cães, e acima de tudo quando soube que havia quem quisesse cada um deles, eu nunca ponderei ficar com um (ainda que secretamente desejasse que me tivessem oferecido um no Natal). Só que aconteceu. A minha dor e a sensibilidade de quem estava do outro lado falou mais alto (e ainda hoje, só de me lembrar desse momento, escorrem-me as lágrimas pela cara abaixo).

Foi há precisamente dois meses que nasceram. Tenho tido a sorte de ter notícias de muitos deles e o meu coração está sossegado por saber que estão bem, que são amados e bem cuidados. E a forma como o cachorro da minha vizinha - que acolheu um dos filhos da Molly - corre na minha direção quando me vê, diz-me que eu fiz tudo certo. Não vive comigo, mas pelos vistos ainda lhe cheiro a casa. Talvez o meu colo seja sempre a casa de cada um deles. Do Panzer, será de certeza.

 

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01
Set18

O fim do mistério

Eu tinha um feeling que me dizia que, no dia em que fiz o post, haveriam avanços no caso do rapaz misterioso infiltrado numa festa de carnaval de família. Não me enganei.

O meu irmão “taggou” vários amigos na foto, obrigando-os a ver a foto; eu voltei a chatear a minha família com uma nova foto do intruso encapuzado e também chamei à atenção da minha tia emigrante (beijinhos tia!) para que ela voltasse a olhar para o foto com olhos de ver. Todos os contactos feitos através do meu irmão caíram em saco roto - ainda tive um falso alarme, um homem que caía perfeitamente naquele estilo de rosto mas que dificilmente teria ido parar a uma festa como aquelas - quando, finalmente, caiu a bomba. Tive de esperar dois anos por isto, meus amigos!

A pressão que fiz com a minha tia resultou: ela voltou a mostrar a foto ao meu tio que, por milagre, se recordou daquela cara que afinal não lhe era estranha. O intruso é afinal um sobrinho afastado desse meu tio, que estava cá de visita (vindo de África do Sul, creio), e que deve ter integrado o baralho de cartas para, na altura, estar com ele. Não sei até que ponto o rapaz não se terá integrado, uma vez que absolutamente ninguém se lembra dele (será que recebemos os outsiders assim tão mal?!), mas a verdade é que nunca obtive uma resposta positiva sempre que perguntei sobre quem ele era. Para nosso consolo, ele ao menos estava com uma cara feliz - e, dado todo o espalhafato que foi esse carnaval, deve ter achado que éramos uma família altamente (ainda que, aparentemente, ninguém lhe tenha falado...!) ;)

Venho então por este meio agradecer a vossa participação na resolução deste mistério que assolava a minha mente há demasiado tempo. Não é que tenham reconhecido o rapaz -teriam de morar do outro lado do globo para o conhecer - mas acredito que ao nível da força cósmica talvez tenham ajudado alguma coisa. Pouparam-me dinheiro num detetive privado - creio que essa era a próxima fase do meu estado de loucura.

 

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28
Ago18

O mistério de um rapaz desconhecido numa festa de família

Há 16 anos a minha família organizou aquele que foi para mim – e considero-o ainda hoje – o melhor carnaval de sempre. Como sempre fomos muitos, decidimos vestir-nos de baralho de cartas e pregar um susto aos meus pais, invadindo a minha própria casa e fazendo deles os “jokers” deste baralho.

Foi divertidíssimo, estávamos cheios de adrenalina e todo o processo foi engraçado: as minhas tias fizeram os fatos, pretos e vermelhos (na prática era um vestido e um gorro de cabeça inteira, só com furos para os olhos), e os meus tios fizeram as cartas. Na noite destinada juntamo-nos todos em casa de uma das minhas tias, preparamo-nos e encaminhamo-nos aqui para casa – onde fomos, no inicio, parados pelos meus cães, que assustados com o aparato não nos queriam deixar fazer a invasão (pelo menos não de forma silenciosa). Eu tinha sete anos, não tenho imensas memórias desse dia, mas ficou-me marcado para sempre – e acho que espelha bem o sentido de humor peculiar e o espírito de partilha da minha família.

Há dois anos, enquanto estava a ver as poucas fotos que tenho desse dia, deparei-me com uma cara desconhecida no meio do grupo. Não é certamente da família, pois tê-lo-ia reconhecido; achei que era o namorado de alguém, na altura, ou um amigo (algo pouco provável, porque estávamos só em família, mas nunca se sabe).

Aproveitei as festas de família para questionar cada tio, cada primo, até os meus irmãos. Nada. Todos se riam como uns perdidos de cada vez que alguém dizia “não conheço”. Estive dois anos nisto – a família é tão grande que é difícil apanha-los a todos – e ninguém reconhece aquela cara. Pus no nosso grupo no facebook, voltei a perguntar. Nada. Neste campismo de família fiz uma tentativa final e obtive a mesma resposta. Decidi passar isto para uma esfera pública e colocar no meu facebook um post publico, pedindo a amigos, ex-namorados, primos de primos e quem mais visse a publicação para ver se alguém reconhecia a cara do rapaz. Ninguém. Pedi para o meu irmão partilhar (aquele que mais trazia amigos aqui para casa) e ninguém sabe.

Ou seja: esteve alguém numa festa de família, que não é da família, e que ninguém parece (re)conhecer. O pior é que este não era um evento fácil de “crashar”: tudo foi planeado, os fatos foram feitos para um determinado número de pessoas, assim como as cartas. Não podia haver convidados de última hora – esta pessoa tinha de estar na nossa lista. E eu só pergunto: como é possível?

Só tenho uma foto nítida da cara do rapaz e outras com ele aqui em casa, a vaguear com o grupo, como era suposto. Não há aparentemente nada de errado, para além de ninguém o conhecer e todos agirmos como se o conhecêssemos!

Posto isto, se alguém reconhecer a cara do intruso, que se acuse. Mesmo que seja algum antepassado (embora, a meu ver, ele tenha um ar bastante contemporâneo). Neste momento, em que eu acho que já fiz tudo ao meu alcance para descobrir esta pessoa, já estamos abertos a todo o tipo de teorias, desde fantasmas a vampiros que nos fizeram uma lavagem cerebral para o integrarmos no grupo. Ou talvez um assassino ou ladrão, que se escondeu algures aqui em casa – e quiçá ainda está para aí, 16 anos depois. Em último caso, talvez seja um extraterrestre, que só se vê nas fotografias e não na vida real. Já estou por tudo! (Será que já é evidente que este mistério me está a endoidecer?!)

 

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08
Jun17

Review da semana #20

A review da semana costuma sair à quarta-feira mas, com a falta de tempo, não consegui escrever. Vamos, por isso, fingir que ainda estamos a meio da semana e que este post é publicado no dia certo.

 

Porto Exit Games / Escape Games

 

Eu já queria fazer isto há muito, muito tempo! Mas a falta de oportunidade, conjugada com a preguiça de combinar com as pessoas e todas as logísticas que envolvem juntar grupos, gastar dinheiro e coisas que tais... fui sempre deixando para depois. Mas há coisa de um mês uma das minhas primas decidiu lançar o desafio à família e, finalmente, lá fui eu fazer um escape game!

Cá no Porto há vários, mas nós decidimo-nos pelo Porto Exit Games - em primeiro lugar porque é a mais conhecida, em segundo porque tem versões alargadas para grupos maiores. A adesão da família foi maior do que o esperado - dos que foram, nunca ninguém tinha feito, alguns já tinham ouvido falar e outros iam completamente às cegas. No total fomos 16, por isso tivemos de nos dividir por duas salas e tiramos à sorte quem ficava em qual. O primeiro grupo ficou na Porto Wine Sabotag" (com dificuldade de 60%) e o segundo (onde eu me incluía) ficou no "The Sacrifice" (com uma dificuldade de 80%). Quando me saiu o papelzinho com um 2 - ou seja, indicando que ia para a segunda sala - fiquei logo com o rabinho entre as pernas; não gosto nada de coisas que metem muito suspense ou terror e, pela descrição que eu tinha lido, esta sala era baseada nisso. Aliás, não fui só eu que, quando nos trancaram naquela sala praticamente às escuras, fiquei um bocado apreensiva. Mas correu tudo hiper bem!

Sobre a sala mais fácil não posso dizer muito, porque não sei - neste caso, o segredo está literalmente na alma do negócio e eles têm de confiar na boa fé das pessoas para não estragarem toda a piada e os enigmas do jogo. Nesse aspeto, é um negócio volátil e arriscado - mas eu acho que as pessoas se divertem tanto que tentam não matar a sua essência. Mas enfim, na minha família toda a gente se portou muito bem e não contou nada às pessoas do outro grupo - embora nos apetecesse muito falar sobre as charadas, os enigmas e tudo o que passamos naquela hora (que voou!!), nunca abrimos o bico, até porque um dia destes queremos trocar de salas e ver quem sai mais depressa.

Sobre a sala que eu fiz, posso dizer que adorei. Como éramos oito fizemos a versão extended, que eu depreendo que seja mais longa e difícil ainda, mas a verdade é que conseguimos sair a 14 segundos do fim!!! (Ai a adrenalina!!) Os outros conseguiram sair com um quarto de hora de avanço, mas a sala deles também era mais fácil. A organização aconselha a que se comece precisamente pelo nível mais baixo mas, no nosso caso, como éramos um grupo grande, tivemos de dividir. A senhora que nos recebeu e guiou durante todo o jogo foi muito simpática e divertida e confessou-nos, no fim, que achava que nós não íamos sair - porque a verdade é que para se conseguir sair é preciso desvendar um número de charadas muito elevado, não é mesmo fácil. Quando eu achava que já estavávamos no fim, pumba, mais uma nova surpresa - era sempre assim, parecia que nunca mais acabava!

Apesar do tema ser sombrio e de haver uns barulhos um bocado sinistros, assim como alguns objetos mais creepy, não há que ter dramas em fazer esta sala. Não mete medo nem há nada muito assustador, vive-se perfeitamente. E se vos estiver a dar um fanico têm sempre o botão de pânico, que abre a porta imediatamente. 

Os desafios são de todos os tipos: sensoriais, lógicos, de equipa... enfim, é óptimo para dinâmica de grupo e passa-se uma hora num abrir e piscar de olhos! Eu adorei e voltava a repetir sem dizer um "ai" e gostava mesmo muito de, num futuro próximo, fazer as outras duas salas - a mais fácil e a mais difícil, que dizem que é mesmo tramada. Aconselho vivamente a que experimentem esses escape rooms pelo país fora!

27
Abr17

Os irmãos não se medem às metades

Apesar de eu me achar uma pessoa minimamente interessante, com gostos bastante diversos e com alguma cultura geral, não tenho muita facilidade em falar com os outros num primeiro contacto. Aliás, púnhamos isto em pratos limpos: eu acho que não tenho jeito para lidar com pessoas o que, numa profissão como a minha, pode ser um bocado complicado. Mas normalmente há uma série de tópicos em que eu me sinto extremamente à vontade, que são aqueles que eu ataco quando preciso de encetar uma conversa com alguém ou que preciso de usar quando há um silêncio constrangedor. Falo de viagens, de animais, de fotografia e, acima de tudo, da família. Às vezes pode ser um tópico sensível, mas normalmente é algo que as pessoas falam com alguma tranquilidade.

Eu falo logo dos meus irmãos, porque a nossa diferença de idades é sempre um tópico engraçado, que as pessoas gostam de saber mais e onde acaba por fluir o diálogo. E o fluxo natural da conversa é a outra pessoa contar-me se também tem irmãos. E muitas vezes dizem-me "eu também tenho dois meios irmãos". E eu aí apanho um safanão, acordo para a vida e respondo "ah, pois, os meus irmãos também são meios irmãos...".

Porque a verdade é que eu nunca me lembro disso a não ser que esteja a falar especificamente no assunto ou, como acontece recorrentemente neste tipo de casos, me lembrem que essa coisa dos "meios irmãos" existe. Porque, sinceramente, eu tenho uma teoria: toda a gente que enfatiza que tem "meios irmãos" é porque não os sente realmente como irmãos. Há mesmo quem diferencie os "100% irmãos" e os outros e eu acho isso terrível. Acima de tudo porque não percebo como é que isso é possível. Nenhum dos meus irmãos é "totalmente meu irmão" e eu nunca os senti menos irmãos por não termos ADN's mais semelhantes. 

Eles são, para mim, as melhores prendas da minha vida, os meus segundos pais, a minha inspiração, a minha companhia. Não concordo sempre com eles, às vezes chateio-me, mas acima de tudo, hoje em dia, tenho saudades de os ter sempre por perto e do mimo e do colo que me davam há uns anos atrás. Tenho a sorte de ter uns irmãos incríveis, que são também eles pessoas incríveis - e acredito que, como tudo nesta vida, existem maus irmãos e pessoas não tão boas. Mas a verdade é que isso depende de muita coisa (da educação, do ambiente, da personalidade), mas pouco da carga genética que carregam nas veias.

Da mesma forma que há boas e más pessoas, deve haver bons e maus irmãos - se calhar há irmãos que até podemos querer esquecer (embora eu tenha dificuldade em sequer pensar nisso). Mas esses não contam. Porque a palavra irmão, tal como a palavra "mãe" e "pai", representa muitooo mais do que aquilo que vai no dicionário. Naquelas cinco letras cabe o mundo - mas não cabem metades. Porque os irmãos medem-se por inteiro. 

 

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23
Out16

Mudam-se os tempos, mas as vontades nem por isso

Ontem levei o meu sobrinho mais velho ao Estádio do Dragão. Ele nunca tinha ido e estava em pulgas, eufórico com a novidade. Leva-lo ao estádio era algo que já há muito que gostava de fazer com ele; foi um momento marcante para mim, lembro-me do quão encantada fiquei quando pisei aquele sítio pela primeira vez e queria muito poder proporcionar-lhe uma experiência semelhante. Como ele começou há tempos a interessar-se por futebol, jogadores e etc., achei que seria a altura ideal.

E adorou, pois claro. Eu fiz questão de ir ver um jogo mais "fácil" (embora, nos dias de hoje e no estado em que o FCPorto se encontra, todos os jogos são uma incógnita), para termos mais probabilidades de ganhar - e vencemos por três, o que já deu para tirar a barriga de misérias e para ele saltar de emoção vezes suficientes. Para além disso, à saída, ainda apanhamos o Helton, que é um querido e estava a tirar fotos com a malta toda - e tirou uma também com ele, por isso o batismo não podia ter sido melhor. A pior parte foi mesmo no fim, porque como em qualquer batismo... apanhamos com água. Muita água. O rapaz até ficou atarantado de tão encharcado que ficou - eu, tia, mais velha e experiente, já estou mais habituada a estas coisas, mas devo confessar que já não apanhava com uma carga de água tão grande há uns anos largos. 

Mas enfim, o mais giro disto tudo eram as coisas que ele me ia dizendo no decorrer do jogo - que eram exatamente as coisas que eu dizia e pensava quando era mais nova! Primeiro disse-me que gostava de ser um daqueles meninos que estão atrás dos painéis publicitários, a apanhar e mandar bolas (eu também dizia que queria ser menino e ir para as escolinhas só para ir para lá); depois ainda se lembrou dos outros meninos que entram com os jogadores em campo, porque também gostava de ir de mão dada a eles - principalmente com o Herrera e o André Silva, os seus preferidos (eu era igual, mas a minha crush era mais o Vitor Baía, o Derlei ou o Benny McCarthy); durante o intervalo começou a dizer que fixe, fixe era estar nos lugares mais baixos para poder falar com os jogadores - e no fim do jogo, quando saímos para a zona das comidas onde existem televisões, viu o André Silva a entregar a camisola a uma miúda e enfatizou ainda mais este pensamento, acrescentando que o melhor lugar era mesmo ao ladinho do túnel (e eu era tal e qual: pedia encarecidamente ao meu pai para ir para os lugares de baixo para os ver mais de perto, algo que ele sempre me negou por se ver muito pior o jogo).

Senti-me um bocadinho velha quando o ouvi repetir tudo aquilo que em tempos ia na minha cabeça e, pior, quando achei que fazia sentido responder as mesmas coisas que o meu pai me respondia a mim. Ok, talvez não tão pragmática (não lhe disse "mas para quê que tu queres uma camisola mal-cheirosa de um jogador de futebol de 20 anos!?"), mas disse-lhe que, de facto, ver os jogos nos lugares de baixo era muito pior e outras coisas que tais. A parte boa é que continuo a ser uma criança como ele em certas coisas: continuo a querer ser pequenina e andar nas escolinhas de futebol para ser apanha bolas e, na verdade, também gostava de ter uma camisola de um jogador qualquer. Também ainda não cheguei à fase de preferir ver os jogos em casa do que no estádio mas devo admitir que aquelas correntes de ar não são boas para ninguém (e sim, passei a minha vida a perguntar-lhe "não tens frio?", "aperta lá o casaco"...) e que, quando cheguei ao carro estilo pingo, só queria um sofá onde me esticar e uma mantinha quente sobre o corpo.

Afinal de contas estou velha, mas só um bocadinho.

 

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