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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

25
Mar21

Cansada desta liberdade condicional

Fiz 26 anos no sábado. Faço parte daquele conjunto de azarados que, pelo segundo ano consecutivo, teve de festejar o seu aniversário confinado. E apesar de não desejar que isto seja mais um prenúncio do que aí vem, sinto que de facto os meus 25 anos foram confinados, com a vida restringida apenas àquilo que mais é essencial. 

Estou a enfrentar um muro, neste momento - a fase mais pesada desde que tudo isto da pandemia começou. E não - nem a perspetiva de um casamento me anima! Estou cansada que os dias me saibam sempre ao mesmo - de acordar, vestir-me, tomar o pequeno, ir trabalhar, almoçar, voltar a trabalhar, ir para casa, fazer o jantar, tomar banho, estar uma hora no sofá e dormir. Se no início a coisa se passou (até porque nunca confinei, no que ao trabalho diz respeito) - porque haviam séries para ver, porque era Inverno e sabia bem estar debaixo da manta, porque até me sabia bem almoçar em casa - neste momento estou exausta da repetição dos dias. Sinto que a vida me está a passar pelos dedos e, neste caso, não há mesmo nada que possa fazer. Sinto que estou a envelhecer, mas que não vivi.

Estamos todos com a vida resumida ao seu sumo, ao essencial dos essenciais. E é uma tristeza. Quem gosta de fazer desporto não pode ir jogar futebol com os amigos, andar de bicicleta e passar uma fronteira qualquer, nadar ou fazer uma jogatina de ténis. Há duas semanas não podíamos sequer passear à beira-mar ou sentarmo-nos na praia. Não se pode pescar. Quem gosta de ir às compras não pode comprar nada a não ser arroz, pão e outros bens com os quais não conseguimos de facto viver. Não podemos estar com a nossa família. Não podemos ir a um restaurante, nem comer fora num dia especial. Até há dias nem ao parque podíamos ir, para fazer um picnic. Nem um café em chávena de porcelana estamos autorizados a beber, quando vamos à padaria. Não podemos viajar. Não podemos sorrir a um desconhecido - porque isso significa que estamos sem máscara perante alguém que não partilha casa connosco.

De alguma forma sinto que o desânimo começa a ser geral; tentamos compensar os mais próximos com palavras motivadoras e de esperança, mas no fundo estamos todos no mesmo poço - uns mais fundo que outros. Uns dias mais acima, outros mais abaixo - e assim vamos andando. Sinto isso até na rádio, onde já não parece passar música feliz! Só ouço a "Viagem", do Tiago Bettencourt, a "Por um Triz" da Carolina Deslandes, a "It's a sin" e outras que tais, tão lindas quanto pesadas. Sou só eu?

Estamos numa prisão ao ar livre, em que temos a chave da cela na mão mas não a podemos utilizar. Coisas simples como atividades para descomprimir ou aliviar os nervos foram suprimidas da nossa vida e estamos reduzidos ao trabalho e à vida doméstica. Vivemos, mas não saboreamos. Tudo aquilo que dava sabor à nossa vida foi-nos retirado.

Cheguei ao ponto de loucura em que já tenho saudades de ir jogar padel (eu, que odeio desporto)!!! Tenho saudades de ir comer picanha e um prato de sashimi variado. Tenho saudades de viajar, da adrenalina de sair de um avião e estar num lugar desconhecido. Tenho saudades de receber pessoas em minha casa e jogar jogos de tabuleiro. Tenho saudades de ir fazer compras, de escolher roupa ou coisas para casa. Tenho saudades de estar com a minha família toda. Tenho saudades de ir a um concerto. Tenho saudades de fazer um escape game. 

Acho que se tivéssemos a capacidade de olhar para a nossa vida (e o mundo) de cima, quase como estando no céu, não nos acreditávamos no que nos está a acontecer. Hoje aceitamo-lo porque vemos a desgraça à nossa volta, porque sentimos e temos medo, porque cedemos à pressão e ao inevitável. Mas, na verdade, fomos obrigados a abrir mão de alguns dos nossos direitos mais básicos - nomeadamente a liberdade. E se há dois anos nos dissessem que hoje íamos estar presos, "açaimados" e com tudo fechado, tenho quase a certeza que não acreditaríamos. Dávamos tudo como garantido. E, como diz o outro, éramos felizes e não sabíamos.

A todos os que estejam com um muro à frente, como eu, é pensar que isto há-de passar. E vai melhorar.

22
Nov20

Olá? Está alguém desse lado?

Um desabafo sobre rotinas e reajustes

Alguns anos depois da minha irmã ter saído de casa dos meus pais eu ocupei o quarto dela. Não por ser maior, mas por ter mais luz. Pedi-lhe autorização e fui de móveis e bagagens para o quarto na outra ala da casa - e foi lá que fiquei até sair. Na altura da mudança achei que me ia enganar dezenas de vezes no caminho para o quarto; que ia continuar a virar à esquerda no corredor quando agora tinha de virar à direita. E desde o dia em que para lá fui que nunca me enganei. Nem uma vez. A mudança na minha cabeça foi automática e a rotina pareceu nunca ter sido alterada.

Mas nem todas as mudanças são assim. Saí de casa dos meus pais (vou chamar-lhe assim para vos facilitar a vida, pois para todos os efeitos continuo a considera-la a ser a "minha casa") há sensivelmente um ano e a minha cabeça ainda não se ambientou. Não é que me engane e vá para casa dos meus pais quando quero ir para a minha, ou vice-versa; trata-se mesmo de, mentalmente, ainda não estar totalmente situada. Acontece-me muito acordar de noite desnorteada, pensando estar no meu antigo quarto. Não me faz sentido estar a ver luz num determinado sítio, nem ouvir barulhos da rua... e por momentos tenho de me re-localizar. "Ah, espera. Não estou no meu quarto. A porta é ali. Tenho alguém a dormir ao meu lado".

Acho que isto acontece porque a minha saída de casa foi dos maiores desafios da minha vida, um ajuste constante, uma dor terrível. Não lhe chamo decisão (porque não foi), mas sim um acontecimento natural - fui ficando e ficando... até que um dia fiquei de vez. E se por um lado isso tornou as coisas mais soft, por outro não houve o romper de toda uma rotina que até aí tinha vindo a construir.

O que fiz foi adequar a minha rotina - e a minha vida - às minhas duas casas; às pessoas mais importantes para mim - os meus pais (e irmãos) e o meu namorado. E essa rotina, hoje, não é igual há de um ano quando tudo se transformou. Muda constantemente, num incessante equilíbrio de uma balança com muito mais de dois pratos. Isto porque também eu tenho de entrar na equação - preciso de ter tempo para mim, para as minhas coisas, para estar mentalmente sã. Porque também tem de entrar o meu trabalho, a minha nova vida doméstica e a parca vida social que me resta. E eu vou constantemente mudando, adequando, tentando, ajustando. Até acertar.

Houve uma altura em que tirava as pré-manhãs (o tempo que estou em casa entre acordar e ir trabalhar) para fazer coisas que gostava: tocava 15 minutos de piano, às vezes começava um texto ou acabava de editar outro... Mas era um tempo tão limitado que passava-o constantemente a olhar para o relógio, a saber que tinha de sair dali a cinco minutos. Entretanto, através da Rita Ferro Alvim, descobri o método da "fly lady" (trabalhado pela Secret Slob), que pretende optimizar e organizar a limpeza de uma casa; diria que a base deste método é nunca deixar as coisas em modo-caos, de forma a que em pouco tempo consigamos ter tudo minimamente organizado sem perdermos uma vida a arrumar a casa. Não me quero esticar sobre este assunto (no instagram da Rita há um destaque só dedicado a isto), até porque estou longe de ser especialista e não implementei o método na íntegra, tendo aproveitado apenas algumas coisas que achei que poderiam fazer diferença no meu dia-a-dia.

Alguns exemplos: deixar o lava-loiças limpo à noite e no dia seguinte arrumar logo de manhã toda a loiça que esteve a secar ou na máquina de lavar; fazer a cama antes de sair de casa (não fazia porque preferia deixar a arejar, mas a verdade é que chegava à hora de deitar e só puxava os lençóis para cima e não entrava numa cama feita, tal como gosto); tirar dois minutos do dia para arrumar o(s) hotspot(s) - locais onde temos tendência para acumular tralha (no meu caso é o banco da entrada e a cadeira que acumula roupa no quarto). O objetivo é não deixar acumular tudo para o final do dia, em que já temos de fazer jantares, estender, apanhar e dobrar roupas, entre tantas outras tarefas que fazem parte do dia-a-dia da maioria das famílias. 

Assim, no que diz respeito ao equilíbrio em termos de tempo que dedico às pessoas que amo, diria que o dia é dedicado à família (tomo o pequeno-almoço com a minha mãe e irmã, almoço com os meus pais e por vezes irmãos) e o fim do dia ao meu namorado. A premissa é simples: passar tempo de qualidade com cada um deles. E isso implica uma gestão de tempo muito bem calculada.

No meio disto tudo nem sempre sobra tempo de qualidade para passar comigo mesma, para os meus passatempos. Tocar piano. Tirar fotografias, editá-las. Escrever.

Apesar de às vezes até me sobrar tempo nas alturas em que é suposto - quando o jantar acabou, a cozinha está arrumada, o banho tomado e o sofá e a manta à minha espera -, hoje em dia não consigo ter a disponibilidade mental que tinha há dois anos para conseguir fazer certas coisas. Chego às 21h mentalmente exausta - do trabalho, do planeamento rígido da minha vida, do stress constante em que já me estou a habituar a viver. E talvez por isso (ou por influência do meu namorado) tenha de dormir mais do que antigamente, para no dia seguinte ter forças para fazer tudo de novo. Escrever e até ler exigem um tempo, uma concentração e uma dedicação que, neste momento, não consigo dispensar a essas horas. Preferia mil vezes escrever do que ter visto uma ou duas séries da Netflix - mas as séries não me cansam e, entre isso e jogar Candy Crush, prefiro algo cultural. 

Quando comecei a escrever num blog, fazia-o por necessidade de libertar a alma. Tinha 14 anos - e tinha tempo. Hoje tenho 25 - e aquilo que perdi em tempo ganhei em responsabilidades. Já passei por muitas fases em relação à escrita: já precisei de escrever de como quem precisa de pão para a boca; já me apeteceu não escrever; já me obriguei a escrever; houve alturas em que, em dois dias, escrevia textos para a semana inteira. Passei por fases de desleixo e por fases de um rigor imenso, quase digno de colégio militar. Já estive totalmente desinspirada e, outras vezes, inspiradíssima. Já estive cheia de motivação e ideias - mas também já estive desmotivada ao ponto de achar que não valia a pena continuar com esta página aberta.

Mas este blog é como a vida: ele continua. E por muito que me custe não o atualizar durante duas semanas, obrigo-me a aceitar esta realidade. Se ainda hoje acordo a meio da noite a pensar que estou no meu antigo quarto, completamente desnorteada, é sinal de que ainda não atingi o equilíbrio certo na minha vida - e não posso exigir de mim aquilo que exigia antes, como escrever todos os dias. A minha vida ficou virada do avesso e é natural que eu demore a encontrar as novas costuras. E, desenganem-se: o avesso não é uma coisa má - mas é uma coisa nova. E eu ainda estou a aprender como gerir tudo isto.

Não sei se vocês ainda estão desse lado - mas eu ainda estou aqui. E planeio ficar. 

Continuo a acreditar no ditado inglês que diz que "practice makes perfect" (a prática leva à perfeição). Continuo a desejar escrever todos os dias, porque sei que quanto mais escrever, melhor o vou fazer. Continuo a acreditar em sonhos - e que um dia vou escrever livros. E contínuo a achar que esta é a plataforma certa para ir treinando e ir ganhando uma base de leitores que, construtivamente, me fazem crescer e ser melhor a todos os níveis.

Sei que agora não escrevo todos os dias - mas gostava de o fazer e sei que um dia hei-de voltar a conseguir. E vocês? Ficam por aí?

25
Out20

Eu e o desporto: o que vai para além de uma má relação

É triste andar para trás nos arquivos desde blog - e já são nove anos de memórias -, selecionar as tags "desporto" e "educação física" e perceber que o elo comum em quase todos os posts é a desistência. Não se pode deixar de ver o lado da tentativa, claro - foram muitas as resoluções de ano novo (ou os números deprimentes na balança) que resultaram em inscrições em ginásios e outras experiências; mas saber que tudo isso culminou sempre num fracasso não é uma sensação feliz.

Gostava de estar num lugar de paz em relação a esse assunto, mas não estou. O meu namoro trouxe ao de cima muita coisa que estava escondida em mim, no que diz respeito à atividade física. Tenho a sorte de ter ao meu lado um homem multi-facetado e que, neste caso, é o oposto de mim: é ótimo em tudo o que é desporto e gosta de o praticar. Para meu bem tem-me tentado afastar da nuvem negra que me acompanha neste campo, incentivando-me, ensinando-me com uma paciência e um amor como nunca ninguém tinha feito até aqui; chega ao ponto de entender o meu sofrimento, mesmo não o percebendo.

E se por um lado este esforço tem tido alguns resultados, por outro faz vir ao de cima muita coisa que tinha guardada. Há memórias que surgem do nada, enquanto tento lidar com a frustração de não conseguir fazer um serviço de jeito no padel ou de não conseguir levantar um peso nos workouts que de vez em quando faço em casa.

Lembro-me de quando se sentavam em cima de mim, forçando os meus músculos e articulações a esticarem-se ao máximo de forma a fazer a espargata (devido a uma ideia infeliz da minha irmã - embora bem intencionada - de me inscrever na ginástica acrobática).

Lembro-me de uma professora de educação física me chamar para um teste prático de ginástica (se a memória não me falha) e, como introdução, dizer "lá vem aí o desastre".

Lembro-me de na primeira aula de educação física do sétimo ano, de forma a tentar não prejudicar a minha equipa com as minhas fracas capacidades físicas, me esforçar tanto para correr e dar a estafeta ao colega mais próximo que caí, de cara direta ao chão e de forma tão desamparada que fiquei com um olho negro.

Lembro-me do que senti - a humilhação, a sensação de que o tempo não passava - quando, também no sétimo ano, a minha professora de dança propôs apresentarmos o nosso nome em forma de dança - no centro do pavilhão, com todos os colegas a assistir. Foi talvez a única vez em que amaldiçoei o meu nome. Porque não me chamar "Ana", "Rita" ou "Eva"? Porquê que o meu nome tinha de ter oito letras e eu não saber "escrevê-lo" em modo de dança?

Lembro-me do vaticínio de ficar sempre em último quando os professores davam a liberdade dos colegas escolherem as equipas na aulas de educação física.

Lembro-me de não ter par - porque todos escolhiam outros - e de ter de fazer os exercícios com o professor.

Lembro-me de ser a última a completar o "mega quilómetro" - a prova em que tínhamos de fazer um quilómetro no menor tempo possível - e de ter os meus colegas, com ar de frete de quem já está à espera há muito tempo, a olhar para mim enquanto cruzava a meta. 

Lembro-me de não aguentar um minuto em prancha e, por minha causa (em modo "um por todos e todos por um"), sermos todos obrigados a repetir a sequência de exercícios que já tínhamos terminado até ali.

Lembro-me da minha primeira e última aula de step, num ginásio, em que numa "aula básica" dei um tombo tal no soalho flutuante, depois de tropeçar naquele degrau do demónio, que parecia que tinha acabado de cair um meteoro em plena sala.

Lembro-me do stress e do pânico de ir para as aulas com o PT - algo que ainda hoje não gosto sequer de recordar. Lembro-me de ele me dizer que tinha de aguentar com aquela barra nas costas, que era a mais leve, e que a única alternativa era fazer o exercício sem nada (e da vergonha que isso me fez sentir). Lembro-me de só querer chorar, de ter vontade de vomitar. E de desaparecer, de uma forma geral.

Há uns tempos, a propósito do padel, que de vez em quando "tento jogar" - e a propósito de uma frase em que, obviamente, me auto-criticava -, uma amiga minha perguntou-me, admirada, se eu ainda tinha esta panca em relação ao desporto. Eu disse que sim - e, em modo brincadeira, acrescentei que isto só ia lá com terapia. Não é algo que tenha vontade de fazer (nem ache pertinente nesta altura da minha vida) mas, como diz o ditado, a brincar é que se dizem as verdades. E eu sinto que, mesmo sem ser num especialista, a terapia está a ser feita.

Tem sido este esforço que tenho feito em conjunto com o meu namorado - e a aposta incrível que ele tem feito em mim, um trabalho muito mais psicológico do que físico. E, como tal, tem envolvido uma mistura de sentimentos difícil de gerir - e muito choro, muita frustração, muitas gavetas de memórias que surgem do nada e que eu não queria abrir. É por ele que este ainda não é um post de desistência. E é por ele que, de vez em quando, ainda vou tentando.

Nesta fase, mais do que bater na bola, os desafios são outros. Não consigo tolerar o peso de uma equipa nos meus ombros; jogar a pares, como é o caso do padel, é muito difícil para mim, porque tenho a perfeita noção de que a minha inaptidão prejudica o meu colega de equipa - e mesmo sendo ele família, é algo com que não consigo lidar bem. Não consigo jogar tendo plateia a olhar para mim - e, por plateia, entende-se inclusivamente o par que está do outro lado da rede (que também é família). Não consigo ser competitiva - porque, neste campo, a vida me ensinou a perder - mas também não gosto que me forcem a querer jogar mais, atiçando-me, porque isso não me dá vontade de contra-atacar, mas sim de desistir. Eu não entro em nenhum desporto com a ambição de ganhar. Tentar, só por si, é uma vitória. E dentro da vitória vivem-se dentro de mim batalhas muito duras, difíceis de descrever por palavras, que duvido que algum dia se dissipem na totalidade.

Sinto que na altura em que tentava frequentar ginásios e via as minhas desistências como simples desistências - e as pessoas iam sugerindo outras coisas, e dizendo que não era assim tão mau e mandando alguns bitaites - eu não via a questão com a abrangência e profundidade que ela merecia. Eu estava só no início da escavação do buraco, quando na verdade ali existe uma cratera.

Um dia, ao ler um post no facebook de uma pessoa conhecida que falava também das suas memórias tristes em educação física, da pressão e incompreensão dos professores, da sensação de ser deixada para trás e gozada pelos colegas, eu percebi que não era a única. Não sei se na altura lhe chamou trauma, mas eu subentendi-o. E, olhando para tudo o que escrevi - e para o que tenho meditado sobre o assunto nos últimos meses - acho que o partilho. 

Estou no caminho de aceitar as minhas desistências todas ao longo destes anos - e, lá está, de tentar olhar para elas como tentativas. Estou a tentar perceber que, de facto, aqueles pequenos atos e vergonhas que passei em miúda - que sempre tentei desvalorizar, assim como todos à minha volta - deixaram uma mossa que não achei possível. E estou, aos poucos e com alguém que me compreende, que puxa por mim mas não desmesuradamente, a curar as feridas profundas que hoje percebo que tenho. Quer consiga ou não, sei, por certo, que ficarão cicatrizes. E - longe da vitimização - não me permitirei mais desvalorizá-las.

13
Set20

Um ano de tatuagem. Arrependimento?

Fez há dias um ano que fiz a minha tatuagem. Mentiria se dissesse que foram muitas as vezes em que falei sobre ela - e foram ainda menos as ocasiões em que me fizeram alguma pergunta (em grande parte porque durante a maior parte do tempo uso relógio, fazendo com que ninguém note que tenho a pele marcada para a vida). Ainda assim, quando o assunto vem à baila, a pergunta é sempre a mesma: "doeu?". E eu acho curioso como isso não reflete aquele que foi o meu maior receio na altura, mas que por outro lado demonstra muito do estilo de vida atual: o pensamento focado no agora, sendo que o futuro a ele o pertence. A mim apoquentava-me a ideia do arrependimento, do poder mudar de ideias. Não eram os 15 minutos de dor; era o futuro, os anos que tenho pela frente, que me preocupavam.

Entretanto, desse futuro de que receava, já passou um ano. Arrependimentos: zero.

Gosto muito da minha tatuagem - e guardo dois momentos deste ano em que ela foi particularmente importante para mim. O primeiro foi em Dezembro, no dia em que fui operada à fístula criada por o quisto que tive no cóccix. Em momentos importantes sou muito de amuletos, de algo físico que me sirva de suporte e inspiração (uso normalmente peças dadas ou herdadas das minhas avós, curiosamente); no momento da entrada no bloco, por força das circunstâncias, uma pessoa vê-se despida de tudo - da roupa, dos anéis, dos adereços. Quase de si própria. A ideia que fica é que somos só um nome, associado a um diagnóstico que tem no seu foco uma cura - e que os bisturis, e todo aquele aparato de instrumentos que vemos à nossa volta, estão prontos a trabalhar sem se importarem com quem está deitado naquela cama. A solidão - e o medo, acima de tudo - que senti ali, enquanto estava sozinha (e foi por pouco tempo!), foram aterradores. E a única coisa que tinha para me agarrar, a única coisa que era minha no meio daquelas roupas e toucas e fios que estavam coladas ao meu corpo - e médicos, e luzes, e instrumentos, e aquele cheiro a éter que nos entra pelos pulmões até à alma - eram as minhas aspas. Foram elas a última coisa que vi quando me senti a desfalecer, um minuto depois de ter pedido encarecidamente para me porem a dormir e me tirarem daquele inferno. 

Uns meses mais tarde, no meio de uma crise de inspiração brutal - não só na escrita como na vida em geral, em que me sentia completamente incapaz de escrever o que quer que fosse e de completar uma tarefa com sucesso -, o meu namorado agarrou-me no braço e mostrou-me aquilo que eu tinha feito questão de desenhar na pele. E relembrou-me o porquê de a ter feito. Disse-me: "fugiste das letras, escolheste outro caminho, mas as letras não fogem de ti. Nunca". Fez-me ver que posso não escrever um dia, dois, cinco ou quinze; que de facto não o faço com a frequência que queria, mas que eventualmente ia voltar a fazê-lo - era só uma questão de tempo, porque as palavras não me fogem, só se escondem por uns tempos.

No fundo, um pouco como a minha tatuagem: anda quase sempre escondida, mas está sempre lá. Foi muito importante em momentos chave e, só por isso, já compensou o risco. Compensou o medo, a dor, o receio do futuro. Fez a diferença - e isso basta para ter valido a pena.

 

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06
Jun20

Ter ou não ter filhos: eis a questão

Devem ser muito poucos os temas que considero serem centrais na minha vida e que eu, durante estes nove anos, não tenha abordado no blog. Mas há um que, se a memória não me atraiçoa, eu fui desviando sempre: os filhos. Fi-lo porque não queria deixar aqui registada uma opinião (ou um conjunto de pensamentos) de que, no futuro, me pudesse vir a arrepender. Mas os anos passaram-se e nada mudou. E esta é uma questão que sempre tomou uma certa (des)proporção na minha vida precisamente por eu ter uma postura disruptiva em relação à maioria dos que me rodeiam.

Eu nunca quis ter filhos.

Não me lembro de, em nenhuma fase da minha vida, os querer ter tido - nem mesmo quando não sabia o que isso implicava (e falo desde a sua concepção, passando pelo nascimento e terminando na educação de uma criança). Recordo-me de brincar (poucas vezes) com nenucos, com as minhas primas, e de não lhes chamar filhos. Eu não queria filhos. Nunca quis. Ainda hoje não faço questão de os ter.

"Isso passa-te".

"Nunca digas nunca".

"Com a idade vais ver que queres."

Quem está nos meus calcanhares sabe que são estas as frases que preenchem a nossa vida, no que a este tema diz respeito. Sobre isto todos se tornam leitores da sina: todas as pessoas sabem o nosso futuro, como se não existissem excepções à regra. Como se não houvesse, de facto, pessoas que não queiram pôr crianças no mundo.

A sensação é de incompreensão total. 

Tudo isto piora quando se está numa relação estável e, a olho nu, todas as condições estão reunidas para que o casal possa finalmente procriar. São chamados os "três estágios de perguntas-de-tias" - sendo que, hoje em dia, o segundo se vai saltando com alguma frequência. Quando se está solteiro a pergunta é sempre a mesma: "então e namorados, nada?". Já quando se arranja namorado todas as atenções se viram para o nosso anelar - "estamos à espera de casório!!!". Se a segunda fase for ultrapassada (por questões religiosas, monetárias ou, simplesmente, por teimosia dos visados), chegamos ao terceiro estágio: "então e bebés?!?!?!". 

Se a pressão é enorme para todos os que estão nesta fase, pior é para aqueles que têm um desejo diferente da maioria e que ousam dize-lo em público. "Eu não quero ter filhos". A frase é seguida por olhares reprovadores ao longo de toda a mesa, de julgamentos mentais e, acima de tudo, de desprezo para com os "pobres coitados que ainda não sabem o que querem e que, com a mania que vão mudar o mundo, ainda o dizem em voz alta". Afirmar que não se quer ter filhos é ainda hoje visto como uma afronta àquilo que é o propósito da vida. É uma coisa de adolescente revolucionário. De quem ainda não cresceu o suficiente para não sentir o chamamento. 

O problema é quando a idade passa e nós mantemos as nossas convicções. É o meu caso. Fui esperta o suficiente para adotar um discurso que, ainda que honesto, fosse flexível o suficiente para um dia mudar de ideias: sempre disse que, apesar de não ter o desejo de ter filhos, a possibilidade ficaria em aberto se encontrasse alguém que quisesse dar continuidade à família. Como via a minha vida como um caminho solitário, solteira, nunca foi uma preocupação - mas, entretanto, encontrei a pessoa ideal para mim. De tudo o que fomos falando - e isto aconteceu logo numa fase inicial -, este sempre foi o nosso único ponto de discórdia. Ele, um autêntico encantador de crianças, gostava de ter filhos. Eu fui sempre clara no meu desejo "anti-natura" e quis que ele soubesse que isto era um problema - e se ele fizesse questão de ter herdeiros, então eu preferia que cada um seguisse a sua vida. A decisão é hoje óbvia: estamos juntos. Como sempre disse - e não menti - a possibilidade está em aberto. Mas transformou-se num monstro que me persegue de cada vez que alguém me vem com o terceiro estágio do discurso-das-tias ou até pelo simples facto de ver o meu namorado a interagir de forma carinhosa com uma criança.

Sinto-me culpada. Culpada por, eventualmente, o privar de uma coisa que ele deseja. Culpada por ser assim, "diferente"; por pensar tanto no assunto, por racionalizar uma coisa que a grande parte das pessoas olha de um ponto de vista emocional. Eu não quero ter filhos porque não me agrada a ideia de uma gravidez - não gosto sequer de pensar na mudança de corpo e na bomba atómica hormonal em que ele se transforma. Detesto a ideia do parto. É-me totalmente estranha a romantização da amamentação. Porque dispenso a privação de sono, a privação de momentos só para mim, a privação de momentos a dois. Porque não me atrai a ideia de ter alguém ao dependuro durante todo o dia, dependente de mim a 100%; porque não gosto de pensar que não posso ir de férias para o outro lado do mundo porque não vou pôr a criança num avião durante 21 horas. Porque, ao contrário de muitos, para poder fazer tudo isto de que me vou privar, não quero deixar um filho - uma decisão minha, uma responsabilidade minha, um dever meu - à mercê de outros (ainda que família) que não têm de levar com uma criança aos berros e limpar cocós só porque me apetece ir passear. Porque não gosto do risco de pôr um ser no mundo que, por muito boas intenções que eu tenha e boa educação que lhe dê, pode vir a ser um traste. Porque nem sequer gosto particularmente de crianças. Porque me agonia a ideia de viver para alguém, dedicar-lhe a minha vida, e passado vinte e poucos anos ele me dizer que quer ir de erasmus para ter novas experiências e conhecer novas pessoas.

Percebem a ideia?

Não há nada na ideia de ter um filho que me agrade. Posso listar uma série de razões pelas quais gostava de ter crianças - mas nenhuma delas me envolve a mim. É sempre a pensar nos outros - na alegria e no prazer que lhes daria ao ver crescer a família. E, para mim, acima de tudo... ver nascer um pai. 

Muito para além dos medos físicos que possa ter (sim, estamos a falar do parto) o maior tem que ver com a parte psicológica. Há outros que nem sequer se colocam: não tenho medo de não amar o meu filho, de não conseguir cuidar dele e educa-lo; não tenho medo do acréscimo de responsabilidade. Tenho a certeza de que o faria bem. Mas tenho um pavor colossal de que o papel de mãe faça de mim uma pessoa infeliz. Tenho a certeza absoluta que há muitas mulheres com filhos que não são felizes naquele papel - mas também sei que a maioria não consegue ser racional o suficiente para o perceber ou pelo menos entender a razão do problema. Também sei que, quem o sente, não o diz - afinal que tipo de mãe é que diz uma coisa dessas? Que ingratidão é essa, ter o privilégio de deitar um ser ao mundo e não usufruir de tal coisa? Quem é esse "ser horrendo" que admite que era mais feliz antes de ter filhos? Quem é que consegue ser tão racional ao ponto de amar um filho até às entranhas mas saber que ele não veio alterar a sua vida para melhor? É um paradoxo gigante para o qual não estamos preparados. É um julgamento pessoal demasiado pesado para se conseguir lidar - e muito menos aceitar. E é uma dor que acresce às outras, numa pessoa que já se encontra só por si dorida e frágil na posição que se encontra.

Cheguei à idade que sempre achei que seria a ideal para procriar: porque o corpo recupera bem, porque sou nova e tenho mais capacidade para lidar com a falta de sono e os problemas normais que surgem quando se tem um bebé. Fui uma filha tardia, ambos os meus pais com mais de 40 anos na altura, e sempre disse a mim mesma que, se um dia me tornasse mãe, não gostava de os ter assim tão tarde - tão simplesmente porque sinto na pele as consequências de ter pais mais velhos e detesto a ideia de os poder perder ainda em tenra idade. Costumo dizer que, comparado com os meus irmãos, terei eternamente menos anos de convivência com os meus pais - tudo porque eles me levam um belos anos de avanço; eles ficarão inevitavelmente com mais memórias, porque passaram com eles mais anos de vida. E eu não quero que, para os meus filhos, isso seja uma questão.

Tenho tentado procurar respostas com base na experiência dos outros - mas são poucas as pessoas que me interessa ouvir. Apesar de pertinentes, não é importante para mim ouvir histórias de mulheres que sempre quiseram ter filhos, porque sei que nunca me compreenderão. Mas conhecer algumas pessoas que têm filosofias e medos parecidos com os meus é-me essencial. Independentemente de terem cedido à pressão da sociedade e do relógio biológico, acabando por ter filhos, ou tendo-se mantido convictas na sua crença: o que me importa é a capacidade de análise, a racionalização e, claro, a honestidade. Perceber qual a sua percepção dos resultados: abdicar de tudo aquilo que idealizavam como a vossa vida ideal em prol de um filho compensou? Os medos que existiam eram justificados? Ou, depois de se passar de "prazo de validade" há remorsos em não ter filhos? 

No fundo eu não quero ser mãe: mas gostava muito, muito, muito de querer ser. Gostava de ser quem não sou. E, talvez por isso, vivo diariamente assombrada por uma pergunta: devo correr o risco? Porque nesta decisão em particular não há volta atrás; não há botão de delete, não há um papel que se assine e que acabe com aquela responsabilidade. Estou dentro de uma panela de pressão com todos os ingredientes que, na minha cabeça, defini serem os ideias para ter filhos: tenho uma vida estável, um namorado com desejos de ter uma família e estou na idade que acho ser a perfeita para ter crianças. Mas, ao contrário das previsões do resto do mundo, eu não mudei. Continuo com as mesmas ideias que tinha - ainda que gostasse muito de dar esse presente a todos os que me rodeiam. E isso pesa-me na consciência. Na cabeça. No coração. E na alma. É uma dor enorme, uma dúvida com a qual me debato todos os dias - e que sei que nunca terá uma resposta certa. E, por pouca matemática que saibamos, é certo que as contas que não dão um resultado exato são sempre as que nos dão mais dores de cabeça a resolver.

16
Abr20

38 não é só um número de calças - é de auto-estima

No início do ano ganhei coragem para ter um encontro com a balança. Depois chorei. 

Há momentos na vida que são de reviravolta e não têm de ser necessariamente especiais ou bonitos. Não há uma fórmula mágica. Lembro-me perfeitamente de há uns dez anos me ter olhado ao espelho, enquanto mexia na cara, e reparei no quão horrorosas estavam as minhas unhas roídas. Deixei de as roer a partir daquele momento. Foi um clique.

Aqui também foi um bocadinho assim. Não se emagrece tão rápido como se deixa de roer as unhas, mas aquilo despoletou uma ação. Passados vinte minutos estava a ligar para uma clínica de nutrição e decidi-me mesmo a perder o peso a que me tinha proposto (na altura até escrevi aqui, nos meus objetivos, que queria despedir-me de pelo menos 5kgs).

Demorei mais uns dois meses até voltar a subir à balança; as calças já começavam a ficar largas, mas eu tinha medo de que o esforço não estivesse a dar resultados. Quando ganhei forças vi que tinha perdido quase seis quilos. Vitória! Fiquei tão feliz! E agora que já tenho uma série de hábitos enraizados, decidi que queria ir pelo menos para os 60kgs - na loucura até um bocadinho menos, que sempre foi o meu peso de sonho.

E depois apareceu o Covid-19. Não sou das que está em casa e precisa de deixar mensagens no frigorífico para me lembrar de que não tenho fome, mas nestas coisa das dietas a rotina é muito importante. E, mesmo continuando a trabalhar,  muito mudou. Para além disso o fator stress também tem de entrar em conta - há quem coma mais para compensar, há quem coma menos. Eu sou das que me vingo na comida (obviamente...).

Ainda assim digo, com orgulho, que devo ser a única pessoa no país inteiro que, desde que isto começou, não fiz um pão ou um bolo. Comecei a dieta numa altura cheia de aniversários e festas e jantares e dei por mim a ter de saber gerir esta questão: por um lado não posso não comer (podendo até passar por mal educada), mas por outro não posso aproveitar a situação para me vingar e comer por todos os dias em que não o fiz. 

Por isso, neste momento, limito-me a tentar levar essa estratégia avante (nomeadamente com a Páscoa e seus  pães-de-ló e amêndoas do demónio) e, pelo menos, não engordar. No entanto, graças às mudanças de rotina e de horários, surgiu algo positivo: comecei a treinar! Corrijo: o meu namorado começou a treinar. Eu vi-o uma e outra vez a suar as estopinhas ali à minha frente, enquanto copiava os exercícios que passavam na televisão, enquanto eu continuava refastelada no sofá a ler o meu livro. Até que fiquei com vergonha de mim própria e da minha falta de força de vontade. Resultado: treinos de meia hora a 45 minutos, cinco vezes por semana (fazemos descanso de três em três treinos). E a verdade é que se antes emagreci, hoje sinto-me mais tonificada (em relativamente pouco tempo). 

No meio de tudo isto as calças iam-me começando a cair pelo rabo abaixo. Um dia, mal entrei em casa, disseram-me: "essas calças ficam-te horríveis de tão grandes". E, aproveitando os Shoppings Days da Mango, mandei vir uma série de calças 38 - número que não visto há, seguramente, seis ou sete anos (senão mais). Quando chegaram fiquei nervosa. Quando me serviram fiquei estupidamente feliz.

Sempre me irritaram as discrepâncias dos tamanhos das roupas de marca para marca - e sei que algumas calças que tinham escrito "40" eram, na verdade, um 42 (embora, mentalmente, não o aceitasse). E, também por isto, é errado medirmo-nos por uma tabela que não é constante. No entanto é inevitável não sentirmos a felicidade de fechar um botão que, há três meses, não conseguiria caber na sua casa. E é também uma responsabilização acrescida das minhas próprias ações, sabendo que consegui e lutei por caber naquelas calças - e que terei de as manter se quiser continuar a entrar nelas e a apertar o fecho. E, acima de tudo, é aprender a gostar mais de mim. A não desviar o olhar do espelho quando entro na banheira. E perceber que não sou perfeita, mas que ao menos lutei para me sentir melhor com o meu próprio corpo.

 

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07
Abr20

Um ano da melhor decisão da minha vida

Há um ano tomei uma decisão. Uma das mais importantes da minha vida. Tomei-a com toda a convicção de quem faz algo em que acredita - independentemente do medo de arriscar naquilo que sempre mais a assustou: uma relação amorosa. Dei o passo consciente de tudo aquilo que ia ter de enfrentar, o que fez com o momento que muitos vêem como o mais romântico de uma relação (o início, o primeiro beijo) fosse, para mim, um autêntico salto no escuro. Não sabia para onde ia, mas sabia que queria saltar. Não foi instinto, não foi um golpe de paixão, não foi um impulso. Foi decisão. E, por muito pouco romântico que pareça, ter a certeza de que queremos fazer algo deste género vale muito mais do que um beijo apaixonado, dado de rompante, de quem não vê o dia de amanhã com a pessoa a quem acabou de tocar com os lábios.

Falhei quando achei que estava consciente do que vinha a seguir. 

Falhei por achar que era aquela "A" decisão. Foram muitas "AS" decisões que tomei ao longo deste ano - e algumas foram muito, muito difícieis. Descobri que pesar amores, compara-los, dói muito; que relativizar, pensar a longo prazo e tentar imaginar a vida no futuro com a pessoa que amamos tem tanto de maravilhoso como de assustador (por todos os danos colaterais que implica). E soube, pela primeira vez na vida, que cabe muita dor dentro da felicidade.

Falhei por achar que a minha boa capacidade de gerir o tempo iria dar conta do recado e do desafio que tinha pela frente. E passei a saber que há algo muito difícil de fazer numa relação - e que foi, sem dúvida, o maior desafio deste ano: gerir o tempo que temos para nós, com o outro, com a nossa família e com os nossos amigos. Que percentagem dar para cada lado? Com quem ir almoçar no fim-de-semana? Com quem ir passar férias? E, no meio disto tudo, de não nos esquecermos de sermos nós mesmos; de não darmos tudo aos outros e ficarmos sem nada para nós. Durante muitos destes 12 meses o piano, a escrita, a leitura e outras atividades que gosto de fazer foram postas de parte em prol da minha relação e de tudo o que gira à sua volta.

Mas, acima de tudo, falhei redondamente quando achei que isto não era vida para mim. Que, a partir do momento em que o descobri, podia ter a escolha de não o ter como meu. Porque quando a vida nos dá um presente assim, nem sequer temos o direito de o desperdiçar. É como ver que nos saiu o Euromilhões e deitar o boletim fora: mais do que estúpido, seria um desrespeito para com o destino e a sorte que nos calhou na rifa.

Sorte. Digo-o todos os dias. Tenho - e tive - muita sorte. Por ter encontrado alguém que me fez alterar a minha perspectiva de vida, por este ser um homem por quem me apaixono diariamente, que gosta e cuida de mim, com quem consigo falar sobre tudo, que me respeita, ouve e mima - e de ele próprio saber que tudo isto é recíproco. E isto bastaria para haver química, amor e carinho - mas podia não ser o suficiente para vivermos os dois pacíficamente, como se partilhássemos casa há uma vida. Acima de tudo partilhamos valores, princípios e lemas de vida. Acreditamos nas mesmas coisas. Temos, sem querer, a mesma forma de viver.

Há uns dias, depois de pousar o meu livro na mesinha de cabeceira e me preparar para dormir, disse-lhe: "já viste a sorte? Se eu gostasse de fumar um charro sempre que chegasse stressada a casa ou de ir beber uns copos com os amigos à noite... se calhar a nossa relação não era igual". Ele respondeu: "gostava de ti na mesma. Talvez menos um bocadinho". Esse bocadinho pode não ser um pormenor. Lá está: o amor e carinho podiam estar lá, mas a facilidade de convivência podia não ser a mesma que temos hoje. Porque partilhamos pilares que ambos consideramos essenciais.

Acreditando na lei das probabilidades, nunca acharia isto possível. Encontrar alguém de quem eu goste. Encontrar alguém que goste de mim. Que por acaso não bebe álcool. Que por acaso não fuma. Que por acaso vê a família como o diamante mais precioso que há na vida. Que por acaso tem uma casa onde cabemos os dois, em que há espaço para cada um conseguir vestir a melhor versão de si próprio. Que por acaso gosta das minhas comidas. Que por acaso gosta de cães. Que por acaso gosta de miúdos (e roubou o coração aos meus sobrinhos). 

Que, por acaso, se sentou ao meu lado numa pós-graduação na faculdade.

Que, por acaso, era a peça que me faltava para ser feliz.

 

É caso para dizer que há acasos felizes. O dia 7 de Abril de 2019 não foi um deles: foi uma decisão (que implicou muitas e que vale todas elas). Foi a mais acertada que fiz até hoje, aproveitando o melhor acaso da minha vida.

 

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29
Mar20

Uma dissertação sobre os (meus) hábitos de leitura

E como a pandemia está a fazer com que volte a ler, depois de anos praticamente parada

Diz-se por aí que todos somos leitores: o difícil é encontrar o nosso livro. Aquele que nos enceta neste universo encantado da literatura e que nos abre portas para um admirável mundo novo (e este trocadilho, hã?). Aquele que nos faz apaixonar por personagens fictícias, tomar-lhes as dores e as alegrias, quase viver por elas. Aquele que nos dá vontade de passar o almoço e o jantar, só para conseguirmos adiantar mais um par de capítulos. Aquele que queremos devorar mas que, ao mesmo tempo, não queremos que chegue ao fim: este que será, sempre, o paradoxo de qualquer leitor. A alegria de saborear um bom livro e a tristeza de saber que esse prazer terá um fim, bem marcado e delineado, na página 356. 

Eu concordo totalmente que basta um (e só um) livro para nos fazer gostar de ler. Mas sei hoje, por experiência própria, que são preciso vários livros para manter essa chama acesa. Não vamos ler para sempre "Uma Aventura", o "Triângulo Jota" ou o "Cherub"; também não nos podemos manter eternamente nos livros juvenis, de paixonetas impossíveis, de amores proibidos e num eterno rol de novas experiências. Se por um lado acho que há uma evolução natural da leitura à medida que crescemos, que faz com que deixemos de nos interessar por uma determinada categoria de livros e passemos a gostar de outra, acredito mesmo que têm de existir "livros âncora" que nos prendam nessa nova fase enquanto leitores. Algo que mantenha a chama acesa. Caso contrário o hábito perde-se, a fome de devorar páginas e capítulos esvai-se e todo o processo terá de se repetir.

E se custa pôr um miúdo a ler (porque não querem, porque jogar computador é muito mais fixe, porque as letras são muito pequenas, porque tem muitas páginas e nunca mais vão chegar ao fim), convencer um adulto a voltar a ter hábitos de leitura é igualmente difícil (mesmo que o processo de persuasão seja interior e seja ele próprio a tentar fazer esse esforço): porque não há tempo, porque o trabalho nos ocupa a mente e não temos cabeça para mais mundos para além do nosso, porque há tarefas domésticas para executar, porque à noite o sono é demasiado para ler um par de páginas, porque a Netflix é mais fácil, não dá tanto trabalho nem custa tanto dinheiro. 

Não sei se já repararam, mas estou a falar por experiência própria. Eu era, aqui há uns anos, uma devoradora de livros. Hoje, se ler meia-dúzia de livros por ano já é muito - e é algo que me entristece imensamente, porque era um hábito que eu adorava ter. Mas sinto que fiz uma má gestão das minhas leituras, não evoluí; como sempre tive uma lacuna grande na minha vida social (e amorosa), fiquei-me por romancezinhos adolescentes que me davam uma boa sensação de preenchimento, que me faziam viver no lugar das personagens - e era o suficiente para mim. Mas se por um lado as narrativas acabam por ir dar todas ao mesmo, a minha idade ia avançando, mesmo que a minha vida social estivesse estagnada desde os início da minha vida adulta. E eu fartei-me. Ler já não me sabia bem. Muitas vezes, em vez de me preencher, só me lembrava daquilo que não tinha: amigos, verões super preenchidos de noites quentes e felizes, alguém de quem eu gostasse e que gostasse de mim de volta. 

Tentei evoluir para outro tipo de leituras, mas o hábito da leitura é uma das muitas coisas que precisam de ser bem cimentadas para que consigamos evoluir. Ninguém passa de um "Harry Potter" para um "Guerra e Paz" - há um caminho a percorrer. Há uma tolerância à frustração que tem de ser desenvolvida e trabalhada, para que consigamos ultrapassar pedras no caminho (que, neste caso, são livros que não apreciamos) e não nos deixemos abater e desistir. E eu não tinha as minhas bases bem fixas, porque estagnei. E, eventualmente, parei. Fiz muitas tentativas para reatar a relação tão especial que tinha com os livros, principalmente nas férias (altura em que, por não ter nada para fazer, era mais fácil não ter alternativas que me dissuadissem), mas eram sempre coisas fugazes. Lia na altura, mas assim que voltava a casa, os coitados ficavam a morar ad aeternum na mesinha de cabeceira. E todos os dias em que me deitava, que olhava para eles e não me apetecia pegar-lhes, era um momento triste.

Aproveitei toda esta fase da pandemia para tentar reaproximar-me à leitura. Não porque tenha mais tempo, mas porque sinto necessidade de me distanciar do mundo real, que hoje em dia me angustia ao ponto de ter ataques de ansiedade recorrentes. Precisava de um escape. E olhei para a minha prateleira, parada há tantos meses, e saquei do meu maior trunfo: um livro que tinha comprado mal saiu, mas que acabei por nunca mais ler, tal a minha falta de vontade. "O desaparecimento de Stephanie Mailer", de Joël Dicker, é quase a minha bisca, neste jogo que pretendo mesmo ganhar. 

Ainda não acabei o livro, mas estou a adora-lo. O escritor suíço já tinha um lugar no meu coração e acho que neste momento, mesmo não tendo terminado esta obra, já está no meu top de autores favoritos. Independentemente deste ser o meu novo "livro-âncora" ou não, conseguiu que eu saísse do mundo onde mora uma pandemia mortífera e que passasse a estar, por alguns minutos, em Orphea. Que passasse a andar com o livro no carro, de um lado para o outro, aguardando qualquer momento morto para ler mais umas páginas. Que tivesse vontade de ler. E que tivesse, acima de tudo, um mundo alternativo onde morar durante um pouco. E isso, nos dias de hoje, vale ouro. 

Espero conseguir continuar e que isto seja só o início. Que começou por eu precisar de tirar a cabeça do caos que se vive à nossa volta, mas que continuará pelos dias todos, quando tudo já estiver normal, e eu só quiser saborear algumas páginas antes de adormecer.

24
Mar20

O desabafo de uma não-heroína

Hoje acordei a pensar em como gostava de ter um supermercado ou um salão de unhas de gel. No primeiro caso, dentro deste cenário meio apocalíptico em que vivemos, era minha obrigação continuar a trabalhar; no segundo, era obrigada a fechar. Tudo isto por indicações superiores, lavando as minhas mãos de culpas futuras que vão - garanto - cair sobre todos dentro de pouco tempo.

No meio disto tudo, não somos todos heróis. Eu não fico em casa. Mas eu também não sou médica, não sou operadora de caixa, não sou polícia, não faço parte da proteção civil, não sou bombeira, não sou padeira, não sou talhante, não sou peixeira, não sou enfermeira, não limpo hospitais, não sou condutora de autocarros e não desinfeto espaços públicos. Sou, como se dizia antigamente, "industrial". E os industriais - e todos os operários que trabalham nessa mesma indústria - caem num limbo problemático no meio deste caos todo. Têm nas suas costas, segundo o primeiro-ministro, o dever de fazer com que o país não pare; mas têm na sua consciência, ouvindo todos os outros que dizem ser extremamente necessário o recolher obrigatório para conter a propagação deste vírus, e tendo a plena noção de que sendo a indústria uma coisa pouco apta para o teletrabalho, que se estão a pôr a eles, às suas famílias e os seus funcionários em risco (ainda que relativo) para que tudo continue a andar. Devemos proporcionar-lhes todas as condições de higiene necessárias, diz o ministro. Se eles as tomam ou não, já não é minha responsabilidade.

Mas são as minhas costas que me doem. É o meu sistema nervoso. São as mãos que me tremem e a pálpebra que teima em não parar quieta. É o sono que não me dá descanso. É o peso da responsabilidade que é posta em cima de mim: porque por um lado tenho o dever de fazer a economia andar (e felizmente tenho encomendas para satisfazer, compromissos para manter), mas por outro tenho o dever cívico de proteger os meus (família, amigos e funcionários). E neste caso não posso lavar as mãos desta responsabilidade: os decretos não dizem se devo continuar ou parar de laborar. Há um buraco na lei, como quem diz: "decide tu".

Tenho de decidir se quero deixar de honrar os meus compromissos e deixar na mão os meus clientes fiéis, que se assim for provavelmente não voltarão a colocar encomendas depois de tudo isto passar, levando-me à falência. Tenho de decidir se me quero pôr em risco, a mim e aos meus, aos meus funcionários e às famílias deles, em prol de continuar a ter dinheiro para lhes pagar o salário ao fim do mês. Tenho de decidir se quero endividar a minha empresa, com uma taxa de juro baixa mas que mesmo assim vai dar lucro aos bancos, de forma a tentar salva-la no futuro - sem saber se, mesmo assim, continuarei à tona da água. Tenho de decidir se sou forte o suficiente para ouvir opiniões contrárias - de quem, curiosamente, não tem este peso em cima dos ombros. 

Eu não sou heroína de nada - porque ninguém decide por mim. Mas gostava. Porque medo todos temos. O peso da responsabilidade é que não.

20
Mar20

25 anos em tempo de Corona

Sempre levei muito a sério o provérbio do "não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti".

Eu detesto festas de anos. Sempre detestei. Já é assim desde miúda, mas nessa altura as razões prendiam-se com o medo que tinha dos escorregas nos parques de diversões escolhidos para festejar a data e porque abominava aqueles bicos de pato com queijo e fiambre que antecediam ao soprar das velas, num bolo de pastelaria igualmente abominável. Agora que penso, passaram os anos e eu não mudei assim tanto: não ando em escorregas e não vou a parques de diversões; detesto bicos de pato e ainda por cima não como queijo; e continuo a achar que um bolo de pastelaria não é digno o suficiente para festejar uma data tão importante. Se é bolo de anos, é para ser em bom - nem que seja feito pelo próprio aniversariante (que é, na maior parte das vezes, o meu caso).

Pois que hoje completo 25 anos de vida. E, dado ser um quarto de século, ia abrir uma exceção: fazer uma festa. Queríamos que não fosse o simples "soprar das velas"; íamos convidar a toda a minha família e até, na loucura, alguns amigos - algo que sempre evitei, porque me faz confusão a mistura de núcleos que não têm nada em comum entre si a não ser conhecerem o aniversariante. Foi sempre isto que detestei em festas de anos; se no dia-a-dia já me sentia muitas vezes excluída e posta de parte, nestas festas a sensação agudizava-se, pois chegava a não conhecer ninguém, e via-me sozinha no meio de uma multidão. Posta de parte porque não alinhava nas brincadeiras. E à parte, porque nunca fui fã do conceito de festa, que envolve barulho e muita confusão.

Mas são 25 anos. Era ano de exceção - não só pelo número bem redondo mas também pela fase da vida que vivo. É o primeiro ano que festejo com um namorado ao lado, que retirou de mim a sensação eterna de estar só, independentemente de estar só com ele ou ter o mundo à minha volta; é o afirmar de uma nova fase, pessoal e profissional - tão importantes e tão vincadas que é impossível ignorar. Por ter toda a gente que importa à minha volta.

Por todos percebermos isso, queríamos celebrar.

Esquecemo-nos que a vida dá muitas voltas. E que raio de volta esta, que mexeu não só comigo, não só como os outros, mas com o mundo inteiro. As séries e os livros de suspense e ficção científica não podiam ter adivinhado o que se avizinhava - num dia tínhamos uma vida normal, noutro estamos presos em casa. As notícias gritam estado de emergência. Contágio à mínima coisa. Mortes. Infetados. De um dia para o outro fecha tudo, de uma noite para a outra não sabemos se continuamos a trabalhar ou se devemos ficar em casa.

Hoje faço 25 anos. Em 25 anos é a primeira vez que não estou com os meus irmãos, seus cônjuges e filhos neste dia que marca o meu nascimento. Foi a primeira vez que não pude abraçar a minha mãe mal abri a porta da cozinha. Em que não pude dar um beijo ao meu pai quando o vi a chegar. Foi a primeira vez desde que cozinho que não fiz um bolinho para que todos pudéssemos comer ao jantar, depois do cabrito assado da minha mãe (o meu prato de eleição). 

É um dia tão feliz como triste: por saber que os anos continuam a contar e que a minha vida está recheada de coisas boas, mas por outro lado por não as conseguir partilhar com quem verdadeiramente amo e faz parte de mim e desta jornada. Que estes tempos de isolamento e de diversidade sirvam para percebermos a importância de pequenas coisas que há um par de dias tínhamos como garantidas. E não falo da festa de anos.

O beijo de uma mãe.

O abraço de um pai.

O canto em uníssono dos meus irmãos a entoarem-me o "Parabéns a Você" - um momento que até hoje passava à frente sem grandes dramas -, enquanto espero para soprar as velas, sem medo de infetar o bolo. 

 

Façamo-nos valer das novas tecnologias, que nos aproximam em tempos de distância. E que este aniversário, que decerto ficará para sempre na minha memória, sirva de exemplo para perceber o que realmente importa. Bem dizem que a "velhice" traz conhecimento associado.  E um quarto de século já é alguma coisinha ;)

 

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