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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

21
Jan20

Acreditar em mim

Olhei de relance ao espelho enquanto lavava os dentes e se ouvia no meu telemóvel a "Talvez de Eu Dançasse", do Miguel Araújo. Estava a pensar numa série de coisas que me tinham acontecido nos últimos dias. E a rever mentalmente conversas que tive. E, do nada, caiu-me a ficha. Percebi o que era "acreditar em mim".

O assunto colocou-se devido à minha necessidade de, neste ano, perder peso. Se bem se lembram foi este o primeiro objetivo que escrevi na minha lista para 2020 e estou a levar a questão muito a sério, sem dietas malucas ou princípios infundados. Fui ao nutricionista, pedi ajuda naquilo que acho que são as minhas fraquezas, procurei alternativas - e o resto compete-me a mim. Não sou ignorante na matéria e já sabia o que ia ouvir: faltam-me legumes sólidos na alimentação, em substituição dos hidratos, e fazer exercício. Sobre isto, também sei o que me dizem sempre: "tens de encontrar um desporto que gostes". E eu encolho os ombros, sabendo bem que não vale a pena responder a algo que do outro lado não querem ouvir ou aceitar. Rematei apenas: "é mais fácil passar a gostar de legumes". E, acreditem: eu odeio legumes.

Não há nenhum desporto que eu goste e eu não preciso de os experimentar a todos. Porque isto vai muito para além de uma modalidade ou das suas características e idiossincrasias. Sou eu. Eu e os meus demónios. Cada pessoa tem a sua história e é muito fácil dizer que "toda a gente tem de gostar minimamente de desporto, nem que seja uma só modalidadezinha!" quando não estamos na pele do outro. É muito fácil dizer o que quer que seja (sobre qualquer assunto) quando não sabemos as razões, as vivências, as histórias e os fantasmas de quem está à nossa frente.

Não se trata de ser natação, ginástica, futebol, basquetebol, corrida ou andebol. Posso saber as regras de todos mas continuarão a ser, para mim, bichos de sete cabeças. Porque cresci a ouvir que não os sabia fazer. Já escrevi várias vezes sobre o impacto que teve sobre mim, e a minha auto-estima, o facto de ter sido sempre - durante a minha vida escolar - a última a ser escolhida para as equipas em educação física. Não esqueço o olhar de tédio - ou, por outro lado, de divertimento - quando os meus colegas me esperavam na meta da pista de atletismo do estádio, quando eu finalmente conseguia completar um quilómetro de corrida, terminando a prova uns dois minutos depois deles. Não se apaga da minha memória um momento em que, algures no quinto ano, uma professora diz "aí vem o desastre" enquanto eu entro para fazer uma prestação individual de uma modalidade qualquer. E também me recordo bem do olhar de "nhé" da minha professora de dança sempre que apreciava as minhas coreografias, encomendadas por ela nessa mesma aula. Nota para quem não me conhece (mas que, por esta altura, já deve estar a desconfiar do que aí vem): eu hoje em dia não danço.

Há coisas que têm um impacto inigualável e muito pouco expectável na nossa vida. Coisas que às vezes só percebemos mais tarde, quando escavamos até à raiz. Coisas que se disfarçam, com que se vive, mas que não desaparecem. E que vêm ao de cima em momentos de fragilidade. No meu caso apareciam quando ia a aulas de grupo (circuito, GAP ou localizada) e tinha uma vontade tremenda de chorar a meio dos exercícios, que se tornavam em ataques de choro mal punha um pé fora do ginásio; apareciam quando tive a infeliz ideia de contratar um PT e, antes das aulas, tinha vómitos de tão nervosa que ficava. E aparecem agora, quando se toca na ferida, e os outros tratam o assunto como alguém que simplesmente não gosta de exercício. Porque é muito mais que isso.

Ontem, a este propósito, o meu namorado disse-me que acreditava em mim. E perguntou-me: "porque é que tu não acreditas em ti?". E eu levei sempre este cliché, o "acreditarmos em nós mesmos", como um sinónimo de acharmos que somos capazes de algo. Do género: "eu sei perfeitamente que sou capaz de emagrecer, acredito em mim". Mas hoje, ao lavar os dentes, lembrei-me de outra coisa que ele me disse: "porque é que sempre acreditaste nas coisas que os outros te disseram e hoje não acreditas em mim?". E eu percebi que fiz da verdade dos outros, a minha verdade. Não se trata de saber que consigo, que sou capaz. Trata-se de saber aquilo que sou. E não, não é a mesma coisa. 

É saber que tenho duas pernas e dois braços, que não tenho aquela aptidão que muita gente tem para o desporto - que não chuto naturalmente uma bola, que não atiro direito para o cesto e que sou um tanto ao quanto desconchavada a correr - mas que consigo fazer as coisas. É saber que sou chatinha. Que sou organizada. Que cozinho bem. Que não gosto de aspirar. Que devia limpar o carro e não limpo.

É conhecer-me. E saber que posso fazer as coisas, independentemente de gostar ou não, de ser melhor ou pior. E que as opiniões dos outros não têm de ser as minhas. Que é inevitável ouvi-las, porque não controlamos as ações dos outros, mas que é uma escolha (mesmo que isso implique trabalho, racional e emocional) absorvê-las e fazer com que passem a ser as nossas opiniões.

Tenho quase 25 anos e, apesar de ser toda independente e nariz arrebitado, não sabia o que era acreditar em mim. Que bela idade para mudar. Talvez se eu dançasse....

 

13
Set19

A história do par de aspas que mora na minha pele

Quando era mais nova dizia muitas vezes que "tudo o que é preciso são 20 segundos de coragem". Ainda hoje acredito nisso - embora perceba que não é só a coragem que tem de estar envolvida. A nossa capacidade de lidar com as consequências dessa coragem, o capado que temos para aguentar com o ricochete também é muito importante. Mas a verdade é que, depois daqueles 20 segundos, o resto vem por acréscimo, porque o que custa é o início. Dar o passo inicial.

Em relação à tatuagem que há muitos anos estava nos meus planos, tive vários momentos de coragem. Cheguei a ter data e hora marcada para a fazer; passado um ano voltei a tentar marcar. Mas eis outro problema sobre esta teoria: quando o tempo se mete entre a coragem e a ação, está o caldo entornado. O tempo de espera - e todos os pensamentos, vozes, opiniões e comentários que fui recolhendo e que me invadiam nesses hiatos - demoveu-me sempre.

 

"Não percebo qual é a necessidade de alterares o teu próprio corpo."

"As pessoas reles é que têm tatuagens."

"Se é uma coisa assim tão pequena que até vais esconder, para quê que vais fazer?!"

"Daqui a uns anos vais-te arrepender."

"Ninguém faz só uma tatuagem. Daqui a uns tempos estás toda rabiscada."

 

Foi como tinha de ser - e foi o ideal. Sem planeamento. "Pode vir agora", disseram-me do outro lado da linha, quando liguei para o estúdio de tatuagens. E eu fui. Sozinha, sem tempo para arrastar ninguém comigo. Sem tempo para me arrepender. E não dando tempo para que o peso de uma marcação e a necessidade que iria ter de esconder da maioria das pessoas aquilo que ia fazer pesasse na minha consciência. Decidi não lidar com as opiniões mas sim com os comentários. Lidar com as consequências e não com os avisos. Lidar com os olhares de espanto em vez dos de reprovação.

Hoje, uma semana depois de a ter feito, gosto muito do que vejo. Dei que a podia ter feito há quatro anos, altura em que me deu vontade, e que estaria tudo bem. Mas que agora, para além de muito mais certezas, faz tudo muito mais sentido.

As aspas significam a conexão com as letras; são as rainhas do jornalismo, que vive das fontes, das citações, das opiniões e dos discursos dos outros. São a forma de pormos os outros a falar. E a pensar. Cabe um mundo de letras dentro de um par de aspas.

E esse mundo é algo que fará eternamente parte de mim - mesmo que eu já pouco me lembre do curso que tirei, dos dois anos que trabalhei como jornalista e que hoje em dia escreva menos do que dantes. Sinto que me afastei radicalmente do mundo das palavras e, no que toca a trabalho, não planeio uma reaproximação. Mas não deixa de ser uma paixão pela qual lutei - desde o 11º ano, em que deixei as ciências, até aos momentos de pânico no jornal, em que tinha que me debater contra mim própria para falar com as pessoas de forma a obter algo para escrever no papel. E embora hoje esteja longe dessa realidade, todos esses embates e lutas (internas e externas) serviram para alguma coisa. 

Estas pequenas bolinhas no meu pulso não servem por isso só para me lembrar daquilo que gosto e que fará para sempre parte de mim; têm também o objetivo de me lembrar que acreditando, eu consigo. E que as lutas são para se ganhar - mesmo que no fim mudemos de ideias.

Agora sei que posso fugir à vontade das letras. Porque o mundo das letras jamais voltará a fugir de mim.

 

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25
Ago19

Pensamentos de uma lista-holic

A linha que separa uma pessoa organizada de um comportamento obsessivo-compulsivo

Mais um ano, mais um campismo de família. Desta vez foi por um triz que se realizou – confesso que a vontade era pouca, muito provocada pela fraca adesão da família durante este ano. Mas cá estamos, desta vez em Vila Praia de Âncora.

O campismo é muito divertido mas implica uma logística um tanto ao quanto complicada. Há uma grande desvantagem neste tipo de férias: independentemente do número de pessoas que venham, a mala do carro vem sempre cheia. É tenda, mesa, cadeiras, colchões, sacos-cama, lancheira, camping-gas, coisas para lavar a loiça... tanta coisa que o risco de nos esquecermos de algo é muito elevado.

Cresci com um pai extremamente organizado, que antes de qualquer viagem me aparecia no quarto com uma lista, dentro de uma pequena mica, que passava a ditar em voz alta: “cuecas, meias, cartão de cidadão, dinheiro, máquina fotográfica, pasta dos dentes (...)”. Eu ia anuindo com a cabeça ou, pelo contrário, apontando o que faltava.

Passaram alguns anos e o bicho da organização passou a morar em mim. E, como diz o ditado, a necessidade aguça o engenho: a verdade é que a lista do meu pai, apesar de muito completa, é dirigida a homens (tinha falta de coisas tipicamente femininas, como artigos de higiene ou roupas que só mulheres usam) e só contemplava objetos para viagens normais. O campismo exige todo um outro nível de planeamento. Por isso fiz-me ao piso e desenvolvi a minha própria lista – uma folha A4, dividida por categorias (objetos de campismo, roupas, comidas, higiene, eletrónicos e outros), para que nada faltasse. Sinto-me, honestamente, muito orgulhosa do meu feito!

Por isso, por achar que as listas têm uma beleza própria e por achar piada ao meu próprio sentido de organização, partilhei há dias uma imagem da minha lista no instagram. Recebi várias mensagens com emojis a chorar a rir e outras tantas, mais direta ou indiretamente, a dizer que eu era maluca. E eu fiquei a pensar naquilo.

O que distingue uma pessoa organizada de outra com um transtorno obsessivo compulsivo? Sim, eu sou organizada; sim, dá-me prazer ver tudo organizado por categorias, enfiado em compartimentos próprios. Gosto que as coisas tenham sítios para estar, adoro saber onde posso encontrar tudo. Não gosto de caos. Não gosto que faltem coisas que sinto que vou precisar – daí a necessidade de uma lista vasta neste tipo de férias.

A questão é que não me dá um chilique ou calores quando as coisas estão fora do sítio. Não fico stressada se vir que me faltou alguma coisa. Sei lidar tranquilamente com isso. E penso que é essa a linha que separa uma coisa da outra: não só a forma como fazemos as coisas, mas acima de tudo como reagimos às contrariedades, ao oposto daquilo que gostamos e desejamos.

Sou uma orgulhosa lista-holic, gabo-me da minha organização. Para os que acham o contrário, também dou bem por maluca. Uma maluca organizada, se faz favor.

 

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19
Jul19

Faltam cinco meses para acabar o ano

Não houve maneira de fazer tudo com o preciosismo que queria e a exigência pela qual me pautei ao longo da minha vida. 2019 foi, até aqui, um ano de muitas conquistas, mas também com uma lista longa de coisas de que prescindi. Escrevi pouquíssimo, deixei de ler livros, cancelei a minha inscrição no ginásio, mal toquei piano, parei com os meus projetos relacionados com a organização de fotografias, não passei em blogs e muitas notícias passaram-me ao lado, ignorei que os fins-de-semana eram para descansar, adiei interminavelmente cafés, passei em branco muitos jantares, deixei de ir de férias com os meus pais em troca de cumprir prazos, trabalhos e ir a aulas. Houve momentos complicados. A gestão de tempo moeu-me. A pouca dedicação para coisas de que gosto foi difícil de aceitar.

Ter surgido um namorado nesta altura da minha vida não ajudou. Sofri, e ainda sofro, com a gestão que faço entre ele e tudo resto - querendo, ao mesmo tempo, estar com ele e não deixar de fazer nada. Conciliar isto com a relação fortíssima que sempre tive com os meus pais foi duro - e culpei-me muito por, durante tantos anos, ter dito que queria ficar sozinha. Não porque não acreditasse nisso, mas por sentir que não os preparei para este golpe duro que foi, de um dia para o outro, ter o meu coração dividido entre eles, de quem o meu amor será eterno, e outra pessoa. A verdade é que nem eu estava preparada, toda esta nova dinâmica apanhou-me desprevenida. Estamos todos ainda em fase de adaptação.

Mas eu queria muito que chegasse o dia em que a minha vida ia estabilizar, ter uma rotina que não implicasse prazos de trabalhos de grupo, de exames ou reuniões. Ansiei por estas férias - que, durante meses achei que não iam existir - por saber que seriam o fim de uma fase e o início de outra. Por ver nesta a oportunidade de finalmente equilibrar a balança.

Os dias de descanso estão a saber-me pela vida e, de cada vez que acordo, sinto vontade de recomeçar. Em pegar em tudo aquilo que ficou a meio, por acabar. Em voltar a fazer coisas que me fazem feliz - ler, escrever, aprender a tocar peças novas no meu piano. E arrancar com todos os planos novos que tenho em mente - e de fazer deles parte do meu dia, como fiz do curso o meu objetivo de um ano. Agora com mais força, mais completa e mais feliz. Por tudo aquilo que aprendi. Tudo aquilo que consegui. E, acima de tudo, por tudo o que conquistei.

 

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18
Jun19

O cansaço mora em mim

No 11º ano tive de ter explicações de matemática. Foi uma grande derrota pessoal para alguém que sempre quis ser independente em tudo - mesmo na arte de aprender. Era-me indiferente que os meus colegas tivessem aulas extras de todas as disciplinas e que, por causa disso, tivessem altas notas nos testes - tudo aquilo que eu conseguia era por mim própria, não tinha a papa feita por ninguém, era o meu suor e o meu raciocínio que estavam ali em peso. Sentia quase como se jogássemos em diferentes campeonatos - um com ajuda, outro sem. E mesmo não havendo vergonha em pedir auxílio, sempre foi uma bandeira que gostei de erguer - ainda hoje é assim, mesmo que seja uma parvoíce de todo o tamanho.

Por isso tenho sofrido nos últimos tempos do curso, em que a carga matemática é cada vez maior. Lembro-me muitas vezes da minha angústia algures em 2012, enquanto olhava para senos, cossenos e radianos e não conseguia digerir o que estava à minha frente. Tenho uma relação muito problemática com as coisas que não percebo. Comem-me viva.

Mas agora tenho um problema extra: se com a trigonometria ficava irritada por não saber mas descansada por ter a noção de que aquilo não seria algo essencial na minha vida, agora fico em pânico por me sentir incapaz em alguns tópicos que podem ser essenciais na gestão de uma empresa. Ponho-me constantemente em causa. 

Há dias em que eu acredito que essas dificuldades são só teóricas e altamente potenciadas pelo cansaço de um ano de curso, de muitas mudanças e de uma fase que se avizinha mais complicada para mim; mas há outros em que esses pensamentos me deitam abaixo e me convencem de que nunca vou conseguir. Olho para os outros - aqueles a quem agora tenho de pedir ajuda -, que parecem fazer aquilo com uma perna às costas, com ficheiros Excel todos bonitos e a frustração toma conta de mim. Martirizo-me por já não ter capacidade de concentração em aulas com termos económico-financeiros que não domino, por não ter ouvido com atenção, apontado melhor. Penso no dinheiro que investi, que os meus pais investiram em mim, e sinto-me gradualmente mais incapaz.

Acho que estou a chegar a um breaking point. Estou a acusar o cansaço. E preciso de férias para poder voltar a acreditar em mim e nas minhas capacidades.

29
Abr19

Crónicas de uma ex-solteira: A decisão

Vamos lá fazer isto estilo penso rápido. 1, 2, 3... Tenho namorado!

Agora que já todos recuperamos do choque (eu incluída - talvez tenha sido a pessoa com mais dificuldade em aceitar, na verdade) vou explicar o título deste texto. O "ex-solteira" é agora óbvio para todos, a parte d'"a decisão" pode não ser clara. Mas passar a ter namorado foi mesmo isso: uma decisão. Sinto que de alguma forma isto pode tirar algum encantamento à coisa, quase como se não houvesse magia e o amor não fosse lindo e essas coisas todas dos contos de fadas - mas, desculpem dizer-vos, é a verdade. Não decidi conhece-lo nem criar a ligação que rapidamente criei com ele, mas foi de forma totalmente consciente que avancei para lá disso. Pensando em todos os prós e em todos os contras, vantagens e desvantagens, medos e receios; só me faltou mesmo pesar numa balança física para me ajudar a decidir.

Isto porque quando eu dizia que não queria ter namorado não era só para fazer conversa. Quando dizia que queria ser totalmente independente, capaz de nunca abdicar de algo por não ter alguém ao meu lado, não era para me convencer a mim própria - era a atitude que eu assumia perante o mundo. E quando dizia que a vida era melhor sem aturar homens, também era algo em que eu acreditava (na verdade, ainda acredito).

Para mim, arranjar um namorado foi muito mais do que um simples "arranjar um namorado". Foi abdicar das minhas crenças, contrariar aquilo que tenho dito desde há muitos anos. E seria hipócrita da minha parte dizer que isso não me custou.

Porque a verdade é que são muito poucos os relacionamentos que eu vejo e penso: "gostava de ter uma pessoa assim ao meu lado, ter aquela dinâmica com alguém". E não se trata da pessoa ser bonita ou feia, trabalhar ali ou acolá, ter mais ou menos dinheiro. Trata-se das atitudes, da tolerância, do respeito. Às vezes, entre amigas, discutia-se o "homem perfeito". E eu não tinha como o descrever, não sabia a cor do cabelo, dos olhos, a altura, o tipo de cara ou de corpo; sabia, somente, aquilo que não queria. E, acreditem, a lista é grande. Porque assisti a muita coisa ao longo dos anos e disse a mim mesma que nunca quereria aquilo para mim; percebo perfeitamente o porquê das pessoas se manterem nos relacionamentos apesar de certas atitudes - porque já não concebem a vida sem essa pessoa, porque já estão habituadas, porque são financeiramente dependentes ou porque compreendem que foi simplesmente um dia mau - mas eu não queria (nem quero!) isso para mim. Se para ter umas coisas precisava de ter outras, como quem compra um pack que não é possível vender em partes separadas, então eu preferia estar sozinha. Sempre levei o ditado "mais vale só que mal acompanhada" muito a sério.

Já gostei de outras pessoas antes, mas sempre achei que não eram para mim - e que por isso não valia a pena fomentar coisas que na minha cabeça, logo à partida e por uma série de razões, não tinham futuro. Mas houve, neste caso, um detalhe que fez a diferença: fui sempre honesta, disse sempre a verdade. O que, atenção!, não faz de mim uma mentirosa até aqui, mas é aquilo que sempre fui: extremamente cuidadosa em exteriorizar sentimentos. Eu não mentia, só não dizia; quanto muito... fugia.

Ao aperceber-me do que se passava disse logo tudo: a minha posição perante os relacionamentos, a minha visão futura relativamente a filhos, aquilo que eu não tolerava nos outros e aquilo que possivelmente os outros não tolerariam em mim - neste último caso, fiz uma lista muitooo grande. E esperei que ele fugisse.

Ele ficou.

E eu diria que aquilo que aconteceu a partir do momento em que ele decidiu não arredar pé não foi um processo de conquista e muito menos de sedução. Foi de convencimento. De me mostrar que podia valer a pena e que as coisas são como nós as fazemos, que o nosso relacionamento não tem de ser como o dos outros: é como nós o quisermos. E eu avancei com essa premissa sempre presente: de que quando as coisas não estiverem bem, diz-se; e se depois de serem faladas não continuarem bem, ter em mente que o "para sempre" não existe e que foi bom enquanto tudo durou.

Muita gente me diz que eu não pareço nada apaixonada, que estou a ser mega racional, ficando confusas perante os meus comportamentos ou simplesmente com coisas que eu digo. A verdade é que eu detesto estar apaixonada - sempre detestei. Aquela sensação de estar na corda bamba, da nossa felicidade estar dependente de outra pessoa - deixo-a alegremente para os outros, que tanto parecem gostar dela e que a vendem quase como se da melhor lagosta se tratasse! O coração na boca, o estômago em mil bocadinhos, as mãos que tremem, o vai-não-vai, a dúvida inicial. A irracionalidade, sentir que não temos pleno controlo das nossas atitudes porque as nossas hormonas tomam conta do comando e deixam o cérebro de lado... Não é para mim. Deixa-me num sofrimento atroz, numa angústia diária (tira-me a fome, dá-me vómitos) e obriga-me a um controlo muito mais apertado das minhas ações, quase como um doublecheck para verificar que os meus comportamentos foram solicitados pelo cérebro e não por outro órgão qualquer. E por isso, quando esta sensação passou e eu pude descomprimir - ser eu! - tudo ficou melhor.

E ele continuava lá.

Não sei o que estou, nem quero saber. Se calhar é isto, a paixão, e o que sempre senti antes era outra coisa qualquer - mas, pelo que descrevem, não me parece. Se calhar isto que vivo é outra coisa, uma palavra que ninguém inventou. Mas a verdade é que não tenho necessidade de rotular o que sinto, porque não tenho dúvidas. E ele também não, que é o que mais importa.

Sei que se não gostasse dele não escreveria este texto. Sei que se não gostasse dele não teria baixado as armas, desfeito os muros e as paredes e baixado as inúmeras pontes de forma a permitir que ele entrasse na minha vida. Sei que se não gostasse dele nunca abdicaria daquilo em que acreditei e preguei durante tantos anos. Sei que se não gostasse dele, e não confiasse nele a 100%, nunca me disponibilizaria para estar nas suas mãos.

Nunca fui de ter namorados, "curtes" ou amigos coloridos. Nunca fui sequer de reparar em quem passava à minha volta. Digo-lhe muitas vezes: és tudo o que nunca quis. Porque não podemos ter aquilo que achamos não existir. E se é difícil eu apaixonar-me por alguém, impossível é eu gostar tanto assim de uma pessoa, mesmo sabendo que quem me comanda é a cabeça. Esse é "O" feito.

Devo-o a ele.

 

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07
Mar19

Os meus auto-retratos

Muitas das fotos que partilho aqui e nas minhas redes sociais são auto-retratos. Já tinha falado disto aqui, neste post, mas nunca expliquei ao certo como o fazia e o porquê de o fazer.

Sempre que me dizem que sou muito fotogénica digo para não acreditarem em tudo o que vêem. Não sou pouco fotogénica, é verdade, mas as fotos que mostro ao mundo são resultado de muita paciência e persistência da minha parte de forma a tirar a fotografia, aos meus olhos, perfeita. Tenho sempre uma visão muito concreta daquilo que quero - do ângulo, do sítio onde me posiciono, do tipo de focagem - e pôr essa visão nas mãos de alguém, mais do que perigoso, é injusto. As pessoas não estão dentro da minha cabeça, não são obrigadas a ler e a perceber tudo aquilo que eu quero. Por isso, e em vez de ser chata e demasiado exigente com quem já me está a fazer um favor, desde há uns dois anos para cá que sou eu que tiro as minhas próprias fotos (a não ser em eventos ou qualquer outra ocasião especial).

Como? Escolho um fundo, trato da luminosidade - quanto mais, melhor, e de preferência sempre luzes amareladas (com luzes brancas fico com um ar de morta -, preparo o tripé, a máquina (tem de estar em modo automático, o manual vai interferir com a focagem, e com o modo de fotografia em controlo remoto) e o próprio comando (o que tenho não é da marca, que custam uma fortuna, mas dos comprados no ebay).

Depois é só disparar. E paciência caso os resultados não saiam brilhantes à primeira. Ou à segunda. Ou à terceira. Ou à 56ª vez. ;)

 

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A escolha do set é sempre essencial: não convém ter muitos ruídos. Normalmente fotografo sempre no meu quarto e fico sempre próxima da câmara, de forma a que fique eu focada e tudo o resto bem mais esbatido.

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O controlo remoto que mandei vir da internet. Não funciona às mil maravilhas (basta afastar-me a mais de metro e meio que ele começa a querer falhar) e os próprios materiais são fracos, mas serve para o efeito e o preço (perto de um euro) compensa imenso o investimento. O meu já tem uns anos e continua no ativo.

 

Neste caso, queria fotografar um momento fofinho com a Molly e o Panzer. Eis o resultado:

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Outros auto-retratos:

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Autoretrato_Agosto18 (9).JPG

Auto-retrato_Fev18 (10).JPG

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14
Fev19

Posso ser solteira? Por favor?

Já há muito tempo que vivemos numa sociedade em que estar solteiro é visto como uma coisa má. Mas hoje, mais do que nunca, isso se evidencia - a começar pelos programas de televisão, altamente empenhados em arranjar "a alma gémea" de qualquer um, utilizando métodos altamente inovadores e de eficácia, digamos, duvidosa. Vejamos: casar pessoas sem elas nunca se terem conhecido (Casados à Primeira Vista), fazer dates em restaurantes (First Dates) e dentro de carros (O Carro do Amor) ou juntar uma dúzia de miúdos dentro da mesma casa para ver quem se engata primeiro (Love on Top). Para vir estão outras maravilhas como os serem os pais a eleger o novo namorado da filha, escolher (ou, neste caso, eliminar) potenciais parceiros tendo por base o aspeto das suas partes iíntimas (Naked Attraction) ou ainda ter conversas muito intensas e profundas com um "match" enquanto estão deitados numa cama... usando apenas lingerie. Tudo formas maravilhosas de se conhecer a fundo uma pessoa, não é? 

É engraçado como toda a gente parece estar ansiosa por arranjar alguém mas depois desencanta as formas mais escabrosas e descabidas para o fazer. Os programas são claramente a nova moda, mas também podíamos falar do Tinder, do facebook e afins. Acho que o problema principal é o objetivo ser, à partida, encontrar alguém com quem ter uma relação amorosa - passa-se logo à frente uma possível amizade, logo aniquilada por se dar um passo maior que a própria perna. Mas estas são, provavelmente, as mesmas pessoas que se queixam de já não haver relações a sério, com um bom fundo, que é tudo feito com base em questões superficiais. Querem o quê, se os escolhem os outros pelo tamanho das mamas ou se põem o futuro nas mãos de produções de programas que nunca vos viram à frente?

Neste momento a pressão da sociedade para se arranjar um/a companheiro/a é de tal forma que nós quase que nascemos com essa ambição máxima. Já não precisamos que nos digam que só se é feliz quando se partilha a cama e a vida, isso já nos está embutido. A pressão é nossa. Não vale a pena dizer "deixem os solteiros em paz" quando são a maioria das vezes eles próprios quem mais se impõe para mudar de estado civil - e, aparentemente, agora vale tudo. Já não sabemos estar sozinhos.

Eu sou solteira por defeito - defeito por ter nascido assim, solteira, sem amarras (no sentido de default) e por não ter paciência, tolerância e disponibilidade (mental) para dedicar tanto tempo a alguém (no sentido de falha de personalidade). Vejo todo este fenómeno com alguma estranheza e, confesso, alguma impaciência. Já não tenho pachorra para quem me pergunta se tenho namorado, se anda "mouro na costa" ou quando têm claramente mais vontade de me ver casada do que eu própria tenho. E este Dia dos Namorados lembra-me sempre isto, esta necessidade contemporânea de atualizar o estado de uma relação no facebook e de partilhar fotos mimosas de mãos dadas.

Acho graça como tanta gente critica ultimamente o Natal, por se ter tornado numa festividade comercial, mas mal pensa nisso relativamente ao São Valentim, que não é nada mais do que comercial. É curioso ver como este é um dia que já temos muito enraizado na nossa vida, até mais do que alguns feriados. Quando olhamos para os nossos calendários em Fevereiro já sabemos que ali para o meio está o dia mais piroso do ano. E é de tal forma que não deixamos de o celebrar (penso que em grande parte por termos medo que a "nossa metade" fique triste por deixarmos passar esta data em branco).

E isto é um cliché, mas é verdade: o dia dos namorados, do pai, da mãe, dos irmãos e dos avós devia ser todos os dias. Não devíamos precisar de reminders para isso. E gastar 50 euros por cabeça num jantar só para provar que é amor serve de muito pouco. O mesmo se pode dizer daqueles peluches enormes, pirosos, que eventualmente vão acabar no sótão porque não há sítio melhor para os pôr. Ah, e das rosas, que pagamos neste dia ao quíntuplo do preço daquilo que pagamos nos outros 360 dias do ano (há que contabilizar o dia anterior ao dos namorados, cujas vendas aumentam à custa dos mais precavidos, e o dia da mãe e respetivo dia anterior, que segue a mesma lógica comercial). 

Não quero ser aqui a velha do Restelo, mas gostava de relembrar nascemos sozinhos e morremos da mesma forma - com ou sem anel no dedo, papéis assinados, com ou sem averbamentos na nossa ficha do registo civil. Acho bem que nos divirtamos pelo caminho e, quem quiser e tiver disposição, que o partilhe com alguém de quem gosta - mas esta pressa, esta necessidade quase absurda de se ter alguém faz-me muita comichão. 

Posto isto, resta-me desejar-vos um bom dia dos namorados. Para os comprometidos, para os que "é difícil", para os que têm amigos coloridos ou room-mates. E, claro, para os solteiros. Lembrem-se que os 50 euros que gastariam entre flores, jantares e bonecada dá para uma mariscada das boas. Não é bem a mesma coisa, mas dá para um orgasmo gastronómico. Digam lá que é mau? 

 

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30
Dez18

Em 2018 eu...

- Mudei de vida, despedi-me e agarrei no desafio de embarcar nas empresas da família;

- Voltei à universidade;

- Viajei sozinha pela primeira vez - o destino foi os Açores, e foi uma paixão que será eterna;

- Fui ao Brasil, à Áustria, à Eslováquia, à Hungria e à República Checa;

- Fui muito de força contra o vidro de uma janela;

- Voltei a ouvir o Salvador Sobral ao vivo - mas não pus os pés em nenhum festival;

- Estive ao lado da Molly o dia todo, enquanto esperei que nascessem os seus 8 bebés lindos;

- Fiz repas e adorei;

- Comprei um piano de cauda;

- Visitei Palmela, Serra da Arrábida, Sesimbra, Setúbal, Óbidos e Caldas da Rainha;

- Perdi-me no Gerês e fui praticamente ameaçada por uma daquelas vacas gigantes que lá andam;

- Fiz férias no Algarve - as piores dos últimos anos - e acampei em Oleiros;

- Fui a Baião comer um anho incrível com o pessoal do piano;

- Também foi com eles que fui ver o Yann Tiersen;

- Perdi o meu último avô;

- Comecei a dar aulas de piano;

- Deixei cair o meu telemóvel na sanita e estive mais de uma semana desligada dos eletrónicos;

- Decidi abandonar a Apple e comprar um Xiaomi;

- Comecei a usar óculos;

- Escrevi pouco e li ainda menos;

- No último terço do ano consegui retomar as minhas idas ao cinema;

- Ri-me imenso à custa da telenovela do Bruno de Carvalho;

- Fiz três Escape Rooms - só não saí de um;

- Comecei a fazer pó de imersão nas unhas;

- Vi a Casa de Papel e Narcos; continuei a ver a Anatomia de Grey, This is Us e The Good Doctor;

- Ri-me a bandeiras despregadas com o Casados à Primeira Vista;

- Vi mais um familiar nascer no meu dia de anos;

- Organizei todas as fotos dos meus avôs paternos e aprendi muito sobre a sua história;

- Só comi um pão com chouriço e não fui às festas da cidade;

- Fui à terra onde nasceu o meu avô e até conheci uma prima;

- Fui duas vezes ver a Avenida Q;

- Inscrevi-me num concurso de escrita criativa.

 

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16
Dez18

Caixa d'óculos

Já há alguns anos que sabia que via mal. Quando entrei na faculdade tínhamos de fazer umas provas, incluindo à visão, que deram - à primeira vistoria - uns resultados trágicos de apenas 70% de visão no olho direito. É lógico que eu não estava assim tão cegueta e aquele teste foi feito às três pancadas. Fui mesmo ao oftalmologista que me disse que, apesar de ver pior do tal olho, não era razão para alarme e que, caso não tivesse efeitos secundários, o uso de óculos era dispensável.

Passaram-se cinco anos desde essa altura. A primeira lembrança deste meu mal veio numa aula de piano. Estava no último teclado da sala e, para olhar para uma pauta projetada no quadro, fechava os olhos mais do que qualquer asiático. "Precisas de óculos, mulher!", gozou a professora. Pouco tempo depois comecei o meu curso executivo. Na fila do meio, os powerpoints liam-se com alguma dificuldade, mas tudo o que era escrito no quadro - principalmente a vermelho e a verde - passava-me ao lado. E as legendas do Netflix, mais pequeninas que o normal? Nos dias de maior cansaço, era um esforço extra. E aí eu soube que tinha chegado a altura. 

Durante este processo lembrei-me muitas vezes de uma história que vivi com a minha irmã. Certa vez, no Algarve, ao esquecer-se das suas lentes e tendo lá em casa umas compradas por uma das minhas primas - com mais dioptrias que ela -, decidiu experimentar. E, naquele momento, parece que entrou num mundo novo. "Eu vejo pó!", dizia ela, espantadíssima. Eu não cheguei a esse ponto, mas já não me lembrava do quão nítidas podiam ser as coisas. Vivia há já algum tempo num mundo esbatido.

Adaptei-me muito bem aos meus novos amiguinhos - só as primeiras três utilizações é que me deixaram um bocadinho confusa, mas resisti - e agora são-me indispensáveis na carteira, e muito mais em qualquer situação de aula. Não os uso sempre - só quando preciso ou conduzo à noite -, mas infelizmente apercebo-me que estou a ver gradualmente pior quando estou sem eles. Pelos vistos é normal, para mal dos meus pecados.

Cá em casa dizem que pareço uma professora. Eu ainda não sei se gosto ou não, mas não lhes ofereço qualquer resistência - sinto-me cegueta e um bocadinho incapaz quando não consigo ler coisas que antigamente via. Portanto é isto. Oficialmente caixa d'óculos.

 

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