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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

01
Mai18

Quando é que devemos parar de esperar pelos outros?

Carolina

Acho que nunca cheguei a publicar um texto que há tempos escrevi sobre o facto de ter medo de não estar a "viver a vida" - aquela expressão que, em jovens, todos ouvimos vezes sem conta. "Vive a vida!", dizem-nos os mais velhos enquanto olham o horizonte, claramente revivendo momentos da sua juventude... ou então pensando em tudo aquilo que não fizeram e queriam ter feito.

Isto aterroriza-me. Há um medidor de vivências? De qualidade de vida? Será que o pessoal que curte ao máximo a vida universitária - entre praxes, festas, bebedeiras e queimas - viveu mais do que eu, que não gosto de nada disso? Será que se eu me tivesse obrigado a presenciar isso tudo faria de mim uma pessoa mais feliz (que, ao fim e ao cabo, é o objetivo de estarmos vivos)?

Este conceito confunde-me muito, mas também me atemoriza. Não pelo que não vivi (porque já lá vai e tenho a certeza que aquilo que preenche o conceito de "viver a vida" da maioria, não corresponde ao meu), mas pelo medo que tenho de não viver. Porque por um lado sou nova e tenho a vida pela frente; emas também porque por outro sou nova e é aqui, nesta fase, que o melhor da vida acontece.

Isto - e o facto de estar numa fase altamente contemplativa - tem-me colocado inúmeras questões. Nem eu sei o que é "viver a vida", mas penso que para além de tudo aquilo que já tenho e que é essencial (que em linhas gerais se pode descrever como saúde, família e trabalho) acho que, para mim, tudo o que me faz sentir mais viva, feliz e inspirada é viajar e ouvir espetáculos ao vivo. E por isso comecei a fazer contas e a pensar: "se eu quero viver a vida, é isto que tenho de fazer". O próximo verão em particular pareceu-me  a altura ideal para pôr isto em prática, uma vez que, se tudo correr planeado, terei tempo e dinheiro no bolso. Mas rapidamente me apercebi que faltava só um detalhe nesta equação: as pessoas.

Este "detalhe" não é de hoje, é mesmo algo transversal na minha vida (lembro-me de ter doze anos e jogar monopólio sozinha, porque não tinha com quem jogar) e também um tanto ao quanto paradoxal: sei que não posso viver sem os outros, não quero viver sem os outros, mas também preciso de uma quantidade muito maior que o normal de tempo só para mim.

Já há muito que aceitei o facto de ser assim - o que não quer dizer que lide bem com isso todos os dias, até porque diariamente são-nos impostos novos desafios e as coisas vão modificando. Até aqui todos me diziam para esperar, que com as diferentes fases viriam novas pessoas e que tudo acabaria por surgir naturalmente. Mas acho que se enganaram, provavelmente por o defeito não estar nos outros, mas em mim. Não fiquei com muitos amigos do secundário, fiquei com ainda menos da faculdade e do trabalho também não tenho ninguém que leve de férias. 

E, se pensarmos bem, as duas coisas que destaquei como o meu sinónimo de "viver a vida" fazem-se, normalmente, com companhia. Companhia que eu, normalmente, não tenho. Por isso, olhando para o quadro geral de tudo o que quero fazer, dos "anos de ouro" que tenho pela frente e para as poucas pessoas que tenho no meu caminho, pergunto-me: vale a pena continuar a esperar? Vou continuar a não ir a concertos como o do Sam Smith porque não tenho ninguém que goste das músicas dele? Vou deixar de ir ao cinema à noite porque não tenho ninguém que queira sair do sofá? Vou esperar que o teatro do Harry Potter em Londres acabe porque os meus pais ficam com o coração nas mãos por eu viajar sozinha? Vou deixar de ir à Islândia porque ninguém tem dinheiro para lá ir? 

Sempre tentei que esta minha péssima característica (a solidão crónica) nunca me impedisse de fazer as coisas de que gosto. Da mesma forma que, em miúda, peguei no tabuleiro do Monopólio e comecei a jogar sozinha, também aprendi a relaxar, pegar no carro e ir ver um filme sem ninguém. Mas estou a chegar a uma fase em que sinto que preciso de passar uma linha que, até agora, restringia as atividades a fazer em grupo. É estranho ir a um concerto sozinha. É estranho viajar sozinha. É estranho ir experimentar um restaurante novo sozinha. É estranho para mim e é terrível para os meus pais que sofrem por tudo isto. Mas até quando é que é suposto eu esperar? Quando é que é aceitável eu atirar a toalha ao chão, aceitar que é assim, que sou assim, e que isto não deve mudar? Quando é que eu devo parar de esperar pelos outros para viver a minha própria vida?

24
Abr18

O drama de uma pessoa não beber álcool

Carolina

Estamos em pleno século XXI. Há casais de homens a andar de mão dada na rua; há pessoas que não comem peixe, carne, lacticínios e derivados; há quem diga que não tem género, que não é homem nem mulher; há mulheres que deixam totalmente de depilar o corpo; há muitos países onde a venda de marijuana já é legal; há um Trump na presidência da América; há todo um movimento para acabar com as touradas; acho que até o papa já deu o seu amén ao preservativo!

Vivemos numa época em que supostamente as individualidades são cada vez mais aceites; a época das mentes abertas, da liberdade individual. Aceitam-se coisas que há cem anos atrás davam um diagnóstico de loucura, totalmente impensáveis para os dias de hoje. Desafia-se a cultura, a religião, a moral, os costumes, as regras básicas da igreja - e até a inteligência dos humanos, se quisermos falar do Trump. 

Com mais ou menos opiniões, tudo é aceite. Cada um é como cada qual.

No entanto, de cada vez que me tentam servir um copo de vinho e eu tapo educadamente o copo com a mão, passando a vez ao próximo, sou sujeita a um interrogatório. “Mas não gostas de vinho branco, preferes tinto?”. “Mas não bebes álcool de todo?”. “Mas já experimentaste?”. 

Há tantas coisas aparentemente estranhas a acontecer no mundo e o facto de eu não beber álcool é, e continua a ser, uma questão. Não falha um almoço com quem ainda não me conhece. Nunca. Assim como o remate final: “ainda mudas”.

Se não fosse tão bem educada, dizia aqui umas quantas coisas. Se não fosse tão reservada, dizia outras. Se não estivesse tão cansada de explicar o que não tenho de explicar, até explicava. Como tal, tudo o que me resta é pedir uma água. Fresca, por favor. Sim, porque eu não bebo álcool. Será que isso ainda é permitido?

21
Abr18

Um cabelo à Tokyo... ou quase

Carolina

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No fundo, foram os primeiros a saber. Eu avisei-vos. Deixei aqui um sinal da minha próxima maluqueira!

Não sei se se lembram de, no post sobre a "La Casa de Papel" (que, caso queiram ler algo que não diga só maravilhas da série, penso ser uma boa leitura), eu ter escrito "aquele corte de cabelo da Tokyo está a tentar-me seriamente...!". E, de facto, tentou-me de tal forma que, apesar de todas as reticências que tinha, acabei por passar da ideia à ação em pouquíssimos dias.

Não me perguntem porque é que eu falo tanto do cabelo aqui no meu blog. Acho que desde 2011, ano em que passei a te-lo curto, comecei a vê-lo como uma forma de expressar a minha personalidade, muito para além de uma simples questão estética. Ao longo destes sete anos cortei-o muitas vezes, de diferentes formas, penteando-o de maneiras diferentes; o ano passado fiz uma pausa e deixei-o crescer, porque sentia que estava a acabar por cair sempre no mesmo e porque não estava a ficar tão contente com os resultados finais. Mas, apesar disso, continuei sempre a achar que um cabelo com um bom corte é um cabelo com caráter e personalidade forte. E eu, podendo ter muitos defeitos, tenho algo que ninguém me pode tirar: um caráter vincadíssimo e - penso - algo diferente do normal. Mas, exteriormente, sou super corriqueira e simples, tendo encontrado no cabelo um meio de transparecer aquilo que sou por dentro. Há cabelos compridos que são lindos mas, para mim, não deixam de ser mais só mais uns. Adoro cortes "a sério".

Já há muitos anos que me passava pela cabeça fazer repas (também conhecidas por franjas), mas sempre tive medo. Que me ficassem mal, que fossem um drama para depois deixar crescer, que tivessem necessidade de muita manutenção, que ficassem todas engorduradas por ter muito mais contacto com a pele... uma infinidade de coisas! Mas, apesar de ter cortado o cabelo há relativamente pouco tempo, eu estava louca por mudar. Adoro a sensação de ver uma versão nova de mim mesma ao espelho.

E por isso fui. Recolhi uma série de fotos (como faço sempre), mostrei à cabeleireira, contei-lhe os meu requisitos e receios e depois disse-lhe: "corte por onde quiser, faça o que quiser, deixe isto equilibrado". E assim foi. Quando vi a tesoura a esbarrar-me nas pestanas o coração deu um saltinho, mas passou rápido. Acho que nunca adorei tanto um corte logo à primeira vista. Normalmente detesto ver-me enquanto estou a cortar o cabelo, porque aquelas luzes todas me deixam branca que nem cal e com as olheiras dignas de um panda, mas naquele momento nem quis saber. O meu primeiro pensamento foi que estava igual a quando era miúda, na altura em que a minha mãe ainda tinha rédeas sobre mim e me fazia usar o cabelo curto. O segundo foi "Tokyo". Não é que estava mesmo parecida?!

Admito: estes dois dias com um novo visual foram um boost para o ego. O choque das pessoas é semelhante àquele de há sete anos atrás - o que é curioso, tendo em conta que praticamente só muda a franja em relação a outros cortes anteriores. Mas acho que nunca na minha vida recebi tanto elogio (e, como boa anti-social que sou, não sei lidar com isso). Mas o melhor disto tudo é que, talvez pela primeira vez, eu acredito naquilo que me dizem. O corte está incrível. E, caraças, não é que eu tenho mesmo cara para usar repas?

Durante muitos ano fui lendo, em blogs, facebooks e tumblrs alheios uma frase atribuída a Coco Chanel que diz: "a woman who cuts her hair is about to change her life". Sempre a adorei. Em 2011, quando passei de uma crina até meio das costas para ter o cabelo o nível do queixo, foi isso que aconteceu - dei uma volta a tudo. Se quisermos fazer uma leitura mais aprofundada da coisa, acho que o ano passado, em que o cabelo cresceu como queria, foi o ano em que deixei que a vida levasse o seu rumo natural, sem rédeas. E nestes últimos meses sinto que, apesar das muitas dores de crescimento que tenho tido, voltei a pegar nelas. A minha vida vai, efetivamente, mudar. E um novo corte de cabelo é sempre uma boa forma de o assinalar. Que o positivismo, a boa energia e a confiança desta mudança de visual se transfira para os desafios que estão para vir.

 

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19
Mar18

Um post sobre o último post

Carolina

Este post é sobre o último post. Se não leram, vão ler.

Se não reconhecem aquele estilo de escrita, eu apresento-vos: é de uma Carolina antiga, enterrada algures em mim. Era de uma miúda mais emocional, menos racional; mais misteriosa, menos aberta. Era assim que eu escrevia há uns anos atrás - ou, pelo menos, era assim que eu via a minha escrita "antiga". Olho para aquele post e penso "porra, que texto bonito". Mas também sei que só a mim - e talvez a mais meia-dúzia - é que possa dizer algo.

Não tenho escrito aqui, porque não tenho conseguido pensar em grande coisa por entre o caos que vai na minha cabeça. Mas aquele texto veio das profundezas do meu ser; veio de todas as Carolinas que fui guardando ao longo dos anos, talvez da miúda mais sincera que há em mim. Talvez por isso se pareça aos textos que escrevia quando era mais nova.

Acho que sempre fui naturalmente assim, mas fui crescendo para ser cada dia mais racional. Vi este espaço como uma forma de treinar a minha escrita e partilhar todo o tipo de coisas e, a partir de uma certa altura, achei que não fazia sentido continuar com misteriosismos, metáforas, comparações ou coisas meio em código que ninguém percebia (embora achassem esteticamente bonito e até fizessem um esforço quase heroico para perceber) - porque a verdade é que eu não consigo (nem gosto de) revelar os meus sentimentos ou emoções, mas sei ser incisiva, precisa e dura em relação a tudo o que penso. Gosto de ser clara. Gosto de falar de coisas mundanas. Gosto de ser profunda - mas prefiro ser racionalmente profunda, em vez de emocionalmente profunda.

E por isso tracei uma linha sobre aquilo que partilho ou não partilho. Sei que, por isto, o meu blog perdeu uma carga emocional que, nos seus primórdios, tinha em abundância - e sei que isso é tirar uma parte integrante de mim aqui deste espaço, porque ninguém é só feito de cabeça. Talvez falte aqui coração. Mas este é um defeito transversal em mim: a minha cabeça é para quase todos, o meu coração é de quase nenhuns. Cada vez menos tenho a capacidade de me abrir dessa forma. E portanto encontrei um registo que me é confortável, um mix bem feito daquilo que sou, e que espero que alguns consigam desvendar.  

Aquele texto é uma mistura de um post racional com um post emocional. É o resultado de muitas dores de crescimento, de vários dias a pensar que "ser adulto é isto", de algumas horas duras para a alma, de sentimentos entre a solidão e a incompreensão. E apesar de ser um post "à lá antigamente", tem poucos segredos nele contidos. Quero muito contar os meus planos - aqueles que entretanto perdi -, quero muito continuar a contar-vos a jornada da minha vida, os meus altos e baixos, as minhas aventuras, os meus sucessos, os meus obstáculos. E só não os conto porque, na verdade, ainda não os conheço na totalidade, ainda não os tracei. E sim, estou a sofrer por causa disso. Não gosto do desnorte.

A verdade é que eu normalmente escrevo porque gosto. No início, comecei a escrever porque precisava. E aquele post, escrevi-o porque precisei, como antes acontecia. Porque estava sufocada. Porque enfrentar este teclado é uma das minhas formas de limpar as vias respiratórias. E, na verdade, há anos que isso não acontecia.

 

18
Fev18

Sobre os recomeços (ainda que este não seja um)

Carolina

Mais de uma semana sem publicar. Auch. Que rico pontapé no meu ego esperançoso e no meu lema “quanto mais treinares, melhor escreverás”. Estou a passar uma daquelas fases em que parece que tudo está a acontecer ao mesmo tempo. Aniversários aos fins-de-semana, recitais de piano, tentativa de uma maratona pré-filmes-dos-óscares, entusiasmo máximo (dentro do possível) em relação ao ginásio, almoço num lado, workshop à tarde noutro sítio, aulas de piano, fazer bolos para as festas de aniversário, miúdos de férias aqui em casa. Wow. Isto tudo junto com "aquela semana do mês". E não, não é o que estão a pensar: falo no fecho de mais uma edição do jornal. 

O início de cada mês passou a ser uma altura em que quase me retiro do mundo dos comuns mortais e só me consigo dedicar ao trabalho. Vou poupar-vos os detalhes daquilo que é o processo exaustivo de fechar um jornal, mas deixem-me só dizer que é um processo moroso, trabalhoso e muito contraindicado para os nossos olhos - e eu trato de um mensal, pudera se fosse semanal. Ou diário (credo!). Dezembro foi o primeiro mês em que fiz isto - que coincidiu com o meu projeto natalício e tudo aquilo que envolve esta época - e agora senti que tudo voltou a coincidir no mesmo período temporal. Senti o mundo em cima de mim. A pressão do trabalho em cima de mim. A pressão dos outros em cima de mim. E a pior: a pressão que eu faço sobre mim mesma.

Enfim: o jornal já está impresso. Sobrevivi. Mas daqui a três semanas tenho de ter outro nas mãos, o que resume os poucos dias de "descanso" que terei até lá e todos os alertas que continuam "on" nesta cabeça, a piscar intermitentemente. Quero tantas coisas para mim, quero fazer tanto, tenho tantos objetivos (e quando não os tenho, crio-os) que a tendência, após tempos de mais stress, é cair num pico negativo e emotivo que depois demora algum tempo a sarar (porque não consigo fazer as coisas, porque estou cansada, porque os resultados finais não estão como eu quero ou não aparecem...). Se não escrevi durante uma semana por não ter tido tempo, também não escrevi nos dias seguintes porque não queria vir para aqui destilar as minhas frustrações, que estes dois dias de sol ajudaram a sanar.

Entretanto já recheei a minha lista de tópicos para escrever e, haja tempo e vontade, o blog não terá falta de temas num futuro próximo. Mas isto, por si só, leva-me a um outro assunto: os recomeços. Neste caso, aqui no blog, não se trata de um: esta foi uma paragem rara num blog que, desde há quase sete anos, tem uma média de posts dia-sim-dia-não. Mas se há coisa que me tira do sério são pessoas que estão em eternos recomeços, que não aceitam um fracasso (ou, se não quisermos chamar-lhe assim, talvez um projeto mal conseguido ou uma ideia que não conseguem levar avante, independentemente das razões para tal). Blogs (e vlogs) que têm posts de quatro em quatro meses - mas que dizem querer publicar de quatro em quatro dias -, que passam a vida no "agora é que é!", que mudam de look quase como uma forma de auto-incentivo, que fazem dois posts seguidos e que depois deixam os leitores à espera durante meses. É irritante, principalmente quando temos a noção de que já não escrevemos só para nós - que estamos a "produzir conteúdo" (esta expressão agora está em voga, não está?) também para os outros. Faz-me lembrar o meu eterno dilema com os diários - eu achava sempre que ia escrever lá todos os dias, mas na terceira página já adiava a escrita à ad eternum. Até que aceitei que não fui feita para escrever em diários e me deixei disso.

Essa é só mais uma das razões pela qual gosto de escrever diariamente ou, pelo menos, com uma certa rotina. Não tenho um público suficientemente grande nem exigente ao ponto de vir para aqui saber se eu estou viva, exigir posts ou dizer que está com saudades - mas tal como eu gosto de ir a um restaurante, que sei que está aberto de segunda a sábado, e encontrar as portas abertas, também gosto de ir a um blog e saber que tenho lá algo de novo para ler. É quase um compromisso silencioso, que ninguém assinou ou fechou com um aperto de mãos, e que todos sentimos que está lá. Ninguém gosta de dar com o nariz na porta.

09
Jan18

Então e o livro, quando vem?

Carolina

De vez em quando recebo emails e comentários - ou o tema surge mesmo em conversa com pessoas – a perguntar quando é que vem um livro. Quem me conhece sabe que este é um dos meus maiores sonhos, é uma coisa que eu quero muito fazer, mas quero faze-lo bem. A minha resposta é: “é muito cedo”. E sim, é verdade que hoje em dia há muitos jovens autores, como também é verdade que grandes nomes da literatura só lançaram as suas primeiras obras quando a sua idade já era um posto.

A minha mãe sempre me disse que só há uma forma de fazer as coisas: bem. E eu não acho que tenha maturidade suficiente para escrever um livro. Mas, mais grave que isso, não tenho sequer uma história. Podia dizer-vos que quero dar tempo ao tempo, que neste momento não tenho disponibilidade, que não estou suficientemente segura da minha escrita… tudo isso, que até pode ser verdade. Mas, acima de tudo, uma das razões que me leva adiar este sonho por mais uns anos é o facto de até hoje nunca me ter surgido uma história que eu quisesse contar.

O meu cérebro e a minha vertente literária funcionam, pelo menos para já, na perspetiva de crónicas: pegar em temas do dia a dia e esmiúça-los, passa-los para palavras, explica-los, faze-los ter piada ou ganhar expressão. É raríssimo eu olhar para alguém ou ter uma ideia qualquer e fazer disso um fio condutor para uma história de ficção. Não sei se isso é algo que ainda não cresceu em mim ou se, de facto, não faz parte daquilo que sou. Confesso que esta ultima perspetiva preocupa-me: e se eu não nasci para escrever ficção? Se eu não conseguir manter vivas personagens dentro de mim, dar-lhes uma história de vida e faze-la acontecer no papel? Acho que só o tempo o dirá.

Mas, dizem os outros, até podia lançar um livro de crónicas. Poder, podia, mas não era bem a mesma coisa. Podia lançar um best of com o que escrevi aqui – como muitos bloggers fazem hoje em dia – mas, sinceramente, não é uma ideia que me agrade. É verdade que a comida aquecida no micro-ondas continua a ser boa se a comida inicial também for boa, mas perde-se o elemento surpresa. Não sei quanto a vocês, mas eu não gosto muito de ler a mesma coisa duas vezes. É como comida requentada – eu como-a porque tenho fome, preguiça, não quero dar trabalho e causar desperdício. Porque, se pudesse, faria algo diferente e não perderia tempo com coisas antigas. E os textos requentados, para mim, perdem a piada.

Podia era escrever crónicas novas. Podia. Mas a verdade é que não é bem esse o livro que eu um dia gostava de publicar. E sinto que, nesta fase, lançar um livro seria só mesmo pelo ato simbólico em si e seria só mais um, como agora há milhões. Toda a gente acha que pode escrever um livro – e eu acho bem que exista essa liberdade, mas tenho pena que as pessoas não tenham sentido crítico suficiente para perceber que o papel ali gasto não vai acrescentar nada ao mundo. E eu não quero ser mais uma. Posso não ter a obra mais apreciada pelo público ou pela crítica; ter apenas quatro livros vendidos (um pelos meus pais, e três pelos meus irmãos): mas seria apreciado por mim e eu lançá-lo-ia de consciência tranquila, pensando que segui aquilo que sempre quis e fiz o meu melhor para a época.

Se a vida correr o seu caminho eu terei muitos anos para escrever livros e cumprir o meu sonho. Não quero pôr a carroça à frente dos bois; não quero pagar uma fortuna só para ter o ego cheio; não quero contribuir para esta época de esvaziamento da literatura; não quero fazer só por fazer. E isso pode ser daqui a dois anos ou daqui a trinta. Só o tempo o dirá.

31
Dez17

Em 2017 eu...

Carolina

- voltei a aprender a tocar piano;

- conheci o Jamie Cullum!

- juntei um novo cão à minha matilha;

- fui a Itália (Veneza, Nápoles, Pompeia, Roma), à Croácia (Dubrovnik), ao Montenegro (Kotor), a Malta, a Sicília (Siracusa), à Alemanha (Munique), a Espanha (Madrid) e a Inglaterra (Bristol);

- vibrei pela primeira vez com a Eurovisão e obriguei o meu irmão emigrante a votar no Salvador;

- voltei a ir ao Primavera Sound;

- falei com a Teresa Guilherme ao telemóvel;

- fui pela primeira vez a um arraial minhoto;

- fiz a minha primeira viagem de trabalho;

- fiz dois escape games (e saí de ambos!);

- vi duas vezes o Jamie Cullum ao vivo e fui ver o Salvador à Casa da Música, o que me encheu a alma e o coração;

- passei aquela que foi a única semana sossegada do meu ano no Algarve, na minha praia;

- gastei quatro cadernos em notas;

- acampei no Gerês e em Oleiros;

- passeei por Vila Nova de Cerveira, Marvão, Estremoz, Vila Viçosa e Lisboa;

- fui ao Web Summit;

- comecei a usar um hidratante diário para a cara, porque a idade não perdoa;

- não fui ver o Robert Pattinson - e arrependi-me um bocadinho;

- acabei de ver Game of Thrones, comecei a ver This is Us e The Good Doctor e voltei para a Anatomia de Grey;

- voltei para o ginásio;

- deixei as agendas e criei o meu próprio bullet journal;

- fui à feira do livro mas não comprei nada;

- usei pela primeira vez chapéu;

- criei um instagram para os meus cães;

- não cortei o cabelo;

- pendurei as minhas andorinhas e as minhas sardinhas na parede, finalmente!!!;

- li mesmo muito pouco;

- fui duas vezes ao estádio do Dragão - numa perdemos, noutra ganhámos;

- retomei o meu hábito de ir à feira todas as semana;

- acho que só fui uma vez ao cinema... (shame, shame);

- fui ao Portugal Fashion.

 

Já disse que voltei a tocar piano, que estive com o Jamie Cullum e que descobri o Salvador, a minha nova panca musical? Sendo assim, acho que temos um resumo perfeito do meu ano :)

 

Espero que a vossa check-list deste ano também tenha sido preenchida de coisas boas e que 2018 vos pisque o olho e que rompa com todas as vossas expectativas. Vemo-nos para o ano, sim? Boas entradas!

 

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27
Dez17

O pós projeto de Natal: e agora o que faço da minha vida?

Carolina

Sabem aquela sensação de quando acabam de ler um livro que adoraram ou quando terminam a última temporada de uma série que gostaram muito? Um feeling quase de abandono, de não saber o que havemos de fazer à vida depois daquilo, de quase nos sentirmos "orfãos" de alguma coisa? É isso que eu sinto neste momento depois de ter acabado o meu projeto de Natal. Perdida, quase com horas a mais. Eu estava exausta, mas movida por um objetivo. Agora estou só exausta.

É incrível como as ondas de cansaço que nos invadem depois de relaxarmos de algo que nos stressou e moveu durante meses. No dia 25, depois de a 24 ter passado o dia todo na cozinha e me ter deitado às 4 da manhã, após ter posto a mesa, almoçado e brincado um pouco com o meu sobrinho, decidi "ir ver televisão para a sala". Adormeci por quatro horas. Nessa noite dormi bem, na seguinte também. E continuo a acordar cansada, enquanto sinto os meus trapézios a ficarem mais macios a cada dia que passa - embora nunca fiquem normais, porque as minhas contraturas já têm ali morada fixa. 

Os prazo que eu tinha eram demasiado curtos para um projeto tão ambicioso. Este é um dos exemplo que cabe bem numa coisa que eu digo muito, o "trabalho ingrato". Eu sei que as pessoas têm alguma noção do trabalho que me deu ver todos os vídeos, organiza-los e seleciona-los. Mas eu cresci com a máxima de que só há uma forma de fazer as coisas - bem - e não sei trabalhar de outra forma. Por isso eu fui buscar transições e sons para acompanhar (que tinham de bater certinho com a imagem), as músicas ideais para colocar como fundo (que, em certas batidas, tinham de coincidir com certas imagens), fiz uma introdução completamente desnecessária mas hilariante, que me demorou mais que todos os vídeos juntos, e outros pormenores assim do género que ninguém nota quando o resultado final é harmonioso - e que, aliás, pelo contrário, só se nota quando não estão lá. Isto levou-me muito tempo, obrigou-me a fazer noitadas - coisa que já não fazia há muitos anos -, a gerir o stress e conciliar com o trabalho, o que não foi mesmo nada fácil. Mas, caraças, o resultado valeu mais do que a pena! Não só os vídeos em si, mas também o feedback e as reações despoletadas nos outros - onde se incluíram lágrimas e tantas, tantas gargalhadas, que valem pelo mundo.

Uma das poucas coisas que me leva racionalmente a equacionar ter filhos - porque, como muitos sabem, não é algo que eu alguma vez tenha tido nos meus planos, embora nunca tenha excluído uma possível mudança de opinião ou de estado de espírito, ainda que ache improvável - é a perspectiva de dar continuidade à família, de dar aos outros aquilo que eles me deram a mim: pessoas com sangue do meu sangue, que partilham comigo não só laços de amizade, como laços de vida. Ter uma família grande é das maiores alegrias da minha vida e eu gostava de ser coerente e proporcionar esse crescimento, de dar frutos, de fazer com que os meus filhos sentissem o que sinto quando estou envolta dos meus. 

Sou sempre pessimista e um bocado céptica em relação a tudo, por isso, ao longo deste processo, nunca pensei que os vídeos fizessem tanto sucesso. Como hoje em dia todos temos uma concentração de peixes e o Natal é uma época de convívio e não para estar a olhar para um ecrã, sempre esperei que o pessoal visse, gostasse, mas que fosse deitando o olho enquanto punha o dente numa rabanada ou dava duas de conversa com a pessoa do lado. Mas não. Parou tudo para ver, toda a gente se riu imenso e no fim agradeceu e deu os parabéns - e eu fiquei consoladíssima. Primeiro porque tinha as expectativas baixas e segundo porque consegui proporcionar a toda a gente um momento diferente, de nostalgia, de saudade e ao mesmo tempo de alegria, bem representativo da união de família que se vive e sempre se viveu ao longo destes anos.

Foi um momento feliz - nem sei se foi mais para mim ou para os outros - e pronto, agora eu estou de ressaca, a recuperar do cansaço, da barriga e do coração cheio. Preciso de voltar aos dias normais - passei demasiadas horas sentada, ganhei quilos que não devia - mas isto deu para perceber que eu preciso disto para (sobre)viver. Preciso de coisas que me movam, bem além do trabalho. São este tipo de coisas o combustível da minha vida, que me dão forças para além do cansaço para avançar. É raro serem tão recompensadoras como esta foi, mas é nestes dias que percebo que eu sou pessoa de fazer e não de ver passar os outros. E até ao fim do ano, para além do trabalho, só quero descanso. Depois disso, vou pegar na pá e passar para outra obra. 

21
Dez17

Uma loja de porta aberta (ou "o tipo de artigos que gosto mesmo de escrever", ou ainda "o início de uma nova rubrica")

Carolina

Uma das coisas que mais gosto de ler são revistas ou artigos recheados de sugestões e produtos. Adoro conhecer novos gadgets, marcas novas, roupas giras, ideias inovadoras – não meramente os seus preços, como aparece nas revistas de moda, mas o que está por detrás de tudo aquilo. Há quase sempre boas histórias e boas justificações escondidas atrás das boas ideias, de bons produtos, de bons projetos e de bons espaços e conhece-las é um dos meus maiores hobbies.

Acho que a única forma de ser feliz no jornalismo era a fazer isto: dar a conhecer projetos, start-ups, empresas e ideias inspiradoras, fazendo inspirar os outros. É um modelo que me atrai e, se também gostam, aconselho vivamente a que comprem o Observador Lifestyle – que para além de estar graficamente incrível e de ser feita por aquele que é, para mim, o melhor jornal online deste país, foi quem me deu a ideia para este texto, que não é bem um texto, mas o início de uma rubrica.

Já foram várias as pessoas que me pediram para mostrar algumas coisas que eu escrevo no âmbito do meu trabalho. Eu nunca mostrei (com uma exceção, se a memória não me falha) não por ter vergonha ou por não querer que vejam, mas por achar que muito daquilo que escrevo e faço não tem interesse para um público “comum”; para além disso, a maioria dos caracteres que saem das minhas mãos são notícias breves e internacionais que já leram em tantos outros sites, que em nada denotam a minha capacidade ou estilo de escrita.

Mas ao folhear essa revista do Observador lembrei-me que há uma rubrica do jornal onde trabalho, que está sempre a meu cargo, que talvez alguns de vós possam gostar de ler. Por ser um bocadinho ao estilo daquilo que falava acima – dar a conhecer projetos bonitos – é talvez o meu espaço preferido no jornal, onde posso ser mais “eu” enquanto escrevo, trazendo sempre conteúdos exclusivos, porque vou sempre conhecer os sítios e falar com os seus proprietários. Trata-se de um espaço onde eu dou a conhecer lojas diferentes – maioritariamente localizadas no Porto -, contando a sua história e um bocadinho do que se pode encontrar lá. Assim matam um bocadinho e a curiosidade e eu tenho a hipótese de ter algum feedback, coisa que normalmente não obtenho com facilidade. Parece-vos bem? Em breve mostro o primeiro texto.

(Até lá, vão comprar a revista do Observador antes que esgote.)

 

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28
Nov17

Dezembro, podemos pôr um bocadinho o pé no travão?

Carolina

Ainda só passei uma vez pela época natalícia enquanto trabalhadora - esta vai ser a segunda - mas já percebi que o ano passado não foi uma excepção, mas sim a regra: Novembro e Dezembro são caóticos, os piores meses do ano no que diz respeito ao volume de trabalho, volume de stress, volume de problemas e volume de correrias. Não sei se é assim em todos os tipos de trabalho, mas fazer um jornal mensal nesta altura - e devido à época festiva, que faz com que os últimos quinze dias de Dezembro sejam praticamente inutilizáveis - significa fechar dois jornais num só mês, o que não é propriamente fácil.

Para além disso, algumas coisas estão a mudar no jornal e eu estou a acumular (e a aprender) funções, o que me vai passar a roubar mais tempo; por o Natal estar a chegar também começam os jantares e os almoços, os amigos-secretos e a decisão e a compra das prendas de Natal; como se isso não bastasse, ainda me meti num "projeto de Natal" pessoal, em que estou a recolher gravações da família inteira dos últimos 20 anos - e a passa-las das cassetes para o computador - para depois fazer um best of em plena véspera natalícia. Não quero revelar demasiado, porque tenho muitos cuscos na minha família a ler este blog que estão ávidos de informação, mas depois do grade dia conto um bocadinho desta aventura que me tem ocupado muitas horas nas últimas semanas (nomeadamente para pôr a trabalhar equipamentos que não viam a luz do dia há uns 15 anos).

É claro que isto tudo ainda se conjuga com a vida familiar, o blog, o piano e o ginásio - e mais algumas coisas que vão surgindo pelo meio -, pelo que a gestão não tem sido fácil. Eu bem que tento escrever ao fim-de-semana, mas nem isso tem sido simples - e, confesso, a vontade de passar ainda mais horas em frente ao computador durante as minhas "horas livres" também não é muita. 

Com isto quero dizer duas coisas: a primeira é desculpem pela ausência - eu prezo muito a constância de publicações em qualquer blog e gosto e tento escrever todos os dias aqui, mas há alturas em que, por uma razão ou por outra, não consigo; a segunda é que isto não é, de todo, uma questão de preguiça - porque, quando for, eu admito e passarei aqui para vos dizer "não estou com pachorra para escrever" em vez de perder tempo em explicações como esta. Chateia-me cada vez mais que as pessoas achem que eu não faço nada só porque tenho um trabalho que me permite uma grande flexibilidade de horários; não deixo as coisas por fazer e, até hoje, não tive qualquer razão de queixa por parte das pessoas com quem trabalho ou que me chefiam. Tenho prioridades e o trabalho vem sempre primeiro: mas organizo-me da melhor forma, todos os dias, e de maneiras diferentes com o objetivo final de ter ter tudo pronto e bem feito no menor tempo possível - e, para isso, não me arrasto, não faço fretes, tento ser objetiva e riscar tarefas do caderno. E isto faz com que consiga ter aulas de piano, consiga ir ao ginásio, consiga escrever aqui e que consiga meter-me em projetos natalícios que se calhar só eu é que vou achar piada. E isso, que eu saiba, são coisas suficientes para deixar alguém ocupado até aos dentes. 

(Farei o meu melhor para escrever todos os dias - caso não consiga, já sabem: ando metida entre jornais e cassetes :))

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