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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

15
Out18

Posts entupidos

Carolina

Não sei se já se aperceberam mas tenho uma série de pancas e manias que, por vezes, não consigo ultrapassar. Uma delas, no que diz respeito ao blog, é não conseguir escrever um post quando outro está por acabar. Isso acontece sempre mas nota-se mais quando estou a escrever diários de bordo: são textos que demoro sempre muito a escrever (pelo menos comparado com o meu padrão), porque implicam uma pesquisa constante nos meus apontamentos, nos itinerários e até noutras fontes (é frequente não saber o nome das igrejas e ando a vasculhar no google, por exemplo) e também uma boa articulação com as minhas fotos. Para além da organização do próprio post - ando muitas vezes com parágrafos e fotos para trás e para a frente para a publicação ficar mais coesa e de leitura mais fácil.

Como não gosto de publicar outros textos enquanto outros estão a ser (lentamente) desenvolvidos nos rascunhos, o blog pára. Num mês escrevi quatro posts por isso mesmo: não foi por falta de ideias ou inspiração - tenho a minha lista de ideias recheada - mas sim porque queria publicar tudo direitinho. Pancas!

E a verdade é que costumo ver sempre o custo/benefício neste tipo de medidas, pois já sei que os diários de bordo são coisas demoradas, o que vai em sentido contrário de uma das coisas que mais prezo aqui no blog: a regularidade das publicações. E a verdade é que o retorno que tenho não é suficiente para o tempo e o trabalho que me dá reunir toda aquela informação e o tempo que passo sem publicar nada. Mas faço destes os meus posts egoístas: canso-me enquanto os faço, "sai-me do pêlo" e privo-me de escrever outras coisas (e a vós de as ler), mas sei que daqui a um ano volto atrás e, enquanto os releio, faço uma autêntica viagem no tempo. Estes posts são melhores que qualquer álbum, qualquer pasta cheia de fotografias, qualquer site turístico. Tudo da minha viagem está ali. E, quando tenho saudades, volto atrás para os ler e é como se tivesse sido ontem.

Por isso desculpem este interregno. Espero ao menos que as anteriores publicações vos façam viajar comigo. Nos próximos tempos vou estar a "desentupir" a minha lista de posts, que foi ficando cheia ao longo deste último mês, que foi um autêntico turbilhão que virou a minha vida de pernas para o ar. Há muito para escrever nos próximos tempos.

03
Set18

Sobre uma tatuagem, a falta de coragem e de loucura

Carolina

Há uns dias estava a rever o Inception e chamou-me à atenção uma frase que a personagem do Leonardo di Caprio diz à Ellen Page: as ideias, a partir do momento em que são implantadas na nossa cabeça, são como um vírus - não saem e tendem a propagar-se, neste caso dentro de nós.

Naquele momento lembrei-me da minha tatuagem - que ainda não é minha, porque não existe. Tive dia e hora marcada para a fazer, faz por esta altura um ano: mas fiquei tão agoniada, tão preocupada, tão atormentada com os "e se's", que desmarquei. Sei ao pormenor o desenho, o sítio; sei quem quero que ma faça, sei o preço, sei a morada; sei a opinião dos meus pais, sei que não adoram, mas sei que não vão deixar de dormir por causa disso. Sei tudo. Só não sei se quero um compromisso desses para o resto da minha vida. Mas também sei que a ideia não me sai da cabeça.

No dia em que a fizer, se a fizer, não quero dar aviso prévio; quero aparece e, oh!, já está. Não quero colher mais opiniões do que as que já tenho, não quero conspurcar a minha mente com ainda mais preconceitos com os que já lá existem - e a verdade é que tenho muitos, mesmo inconscientemente. Lembro-me que na altura em que tinha tatuagem marcada o tema surgiu várias vezes em conversas de família (sem que eu puxasse pelo assunto) e as vozes eram tão dissonantes ("odeio", "adoro", "nem pensar", "porquê mexeres no teu próprio corpo?", "é arte") que acabaram por implantar mais medos dentro de mim. O faz-não-faz estava a consumir-me tanto que deitei a ideia para trás das costas e desisti, ainda que desiludida comigo mesma. Senti (e ainda sinto, na verdade) que não a fiz por ter medo daquilo que os outros iam pensar e por recear as consequências que aquelas marquinhas podiam ter. E, caraças, isso não sou eu! Mas não queria ir contra a vontade dos meus pais que, embora me tivessem dado carta branca, torceram um bocadinho o nariz; tive medo de crescer e não querer ver aquilo no meu pulso; pensei no que os outros podiam pensar quando, numa reunião de negócios importante, o relógio deixasse ver que outrora eu decidi escrever algo em mim; tive medo de, depois de fazer uma tatuagem, querer fazer outra, como toda a gente diz que acontece.

Li muito sobre o assunto - não sobre a ciência de fazer as tatuagens ou os riscos, mas sim sobre o potencial arrependimento e as consequências sociais que ainda hoje existem caso queiramos mexer na nossa própria pele. Nunca cheguei a nenhuma conclusão. Passei sempre por períodos de certeza absoluta e outros de dúvida extrema - e mudava de estado em pouco mais de cinco minutos. Tive tanta certeza de que a ia fazer que tenho aqui, nos rascunhos, um post a descrever o porquê e a explicar a necessidade que eu senti de tatuar algo; mas também tive tantas dúvidas que cheguei ao ponto de desistir. Disse à tatuadora que, quando a fizesse, seria num ápice: decidir, ir e fazer. Não podiam haver muitos dias de hiato, não podia ser algo extremamente pensado (não mais do que já é, entenda-se). Mas isso também não é o que eu sou. 

Voltando ao di Caprio, a ideia é um vírus. Ficou em remissão durante uns meses, mas voltou em força desde a primavera. Faço-não-faço, a minha mente anda nisto tipo pêndulo. Olho para pessoas que admiro, que gosto (por dentro e por fora), e penso "caraças, a tatuagem que ela tem não afeta nada aquilo que penso dela". Mas sei que nem todos são assim. Sei que até eu posso mudar e odiar-me daqui a uns anos por um dia ter tatuado, de alguma forma, um período da minha vida. 

Pergunto-me se algum dia conseguirei tomar uma decisão e passar por cima de todos os argumentos - tanto racionais como emocionais - que se levantam sempre que penso nisso. Pergunto-me se algum dia terei coragem de me render a um compromisso tão grande (espero) como o período da minha vida. Por um lado gostava muito. Por outro... "e se...?".

11
Jul18

Um dia difícil, um mote de vida, uma experiência inesquecível e alimento para os peixes e para a alma

Carolina

Tinham razão: vim para os Açores! Às seis da manhã de ontem estava a entrar para o avião que me traria a São Miguel enquanto fechava o livro que estou a ler no momento, "The Subtle Art of Not Giving a Fuck", de Mark Manson. Parei de ler numa altura em que ele falava da aceitação das experiências negativas, que nos traziam muito mais coisas melhores do que o desejo de coisas positivas. Não sabia que isso ia ser uma aprendizagem para aplicar no próprio dia.

Decidi há uns dias que ia nadar com golfinhos. Marquei, paguei, ouvi tudo com muita atenção e enfiei-me no barco com a convicção de que ia ter um dos momentos da minha vida. Achei que um dos melhores. Enganei-me só neste "pormenor". Mal o barco começou a andar eu soube que aquilo ia ser das coisas mais aventureiras que eu alguma vez tinha feito - e eu não sou aventureira nem gosto de aventuras. Não gosto de coisas em que não detenha o controlo da situação e eu soube que ali não ia poder controlar as coisas - mal sabia que nem o meu próprio corpo. A viagem até ao local onde estavam os golfinhos (talvez a vinte minutos) foi tenebrosa e dolorosa. Os salpicos e os tombos que tinham graça nos primeiros minutos, rapidamente se tornaram em algo horrível que eu só queria que acabasse. Eu já via golfinhos em todo o lado, só pedia a algo ou alguém que eles aparecem rapidamente para aquilo poder parar - até que eventualmente parou.

No início da viagem, o biólogo disse-nos, na brincadeira, "If you get seasick, don't feed the boat, feed the fishes". Todos nos rimos, eu também - eu, que me sentei no primeiro lugar do barquito, porque queria ter vista priviligiada para aquele momento inesquecível. "No topo do barco é mais bumpy", avisaram-me. Eu anuí. Já fiz dois cruzeiros, já andei em iates, em barcos de pesca, em barcarolas e barcos salva-vidas - não ia haver problema. Fi-lo de forma ingénua e quase inconsciente. É importante saber que eu adoro água, adoro mar e tenho medo de muito pouco neste âmbito e nunca pensei que aquilo fosse correr de outra forma que não maravilhosamente bem.

Mas o barco parou e eu passei a saber que aquilo não ia correr bem. Vomitei tantas vezes quantas a embarcação parou para nos deixar sair; vomitei o pouco que tinha no estômago e aquilo que não tinha. Talvez nunca na vida me tenha sentido tão indisposta. Saltei uma vez para a água, muito agitada, e não vi bicho algum. Saltei a segunda, já com menos conteúdo no estômago do que na vez anterior e lá os vi nadar por debaixo de mim e voltei ao barco, afirmando-me derrotada. Não conseguia saltar mais, tinha medo de desmaiar na água. Ia vendo os golfinhos passar, ia ouvindo os relatos de quem chegava ao barco, os "uau"'s, as vozes de quem tinha tido a experiência de uma vida. E eu a lutar ativamente para não cair para o lado. Só queria ir para terra.

Feliz e infelizmente, os meus colegas de atividade não se deixaram perturbar pelo que me estava a acontecer. Apesar de altamente desapoiada, o meu infortunio não os impediu de se divertirem - embora, calculo, nunca seja agradável ver alguém a vomitar de cinco em cinco minutos. Percebi rapidamente algumas das vantagens e desvantagens de viajar sozinho: por um lado, não preocupei ninguém; por outro, estava sozinha ali, a sentir-me nas posições mais vulneráveis da minha vida, e ninguém quis saber. Levei a GoPro mas não consegui tirar uma só foto. Cheguei a um ponto em que duvidei da minha capacidade de me levantar. Fiz a viagem de regresso toda de olhos fechados, sem energia para pestanejar, e com a minha cabeça com dois pensamentos em loop: a música do Boss AC "tu és mais forte e sei que no fim vais vencer" e a frase "TU NÃO PODES DESMAIAR". Só me ocorria aquilo que aconteceria se eu quinasse, que iria de certeza envolver ambulâncias, chamadas de urgência para os meus pais que ficariam em pânico e todo um caos que eu não queria provocar. Soube que desmaiar não era opção.

Não sei como, mas aguentei-me. Saí do barco com o meu próprio pé, a tremer como se estivesse dentro de mim um terramoto de magnitude 10 na Escala de Richter. Ativei o instinto racional, prático e de sobrevivência e sobrevivi.

Não sei o que provocou tudo isto. A velocidade do barco não ajudou, a maré agitada muito menos, assim como o lugar que escolhi na embarcação. Foi uma sucessão de coisas más. Não foi um mal estar médio, foi algo quase totalmente incapacitante. Eu não queria saber dos golfinhos para nada e, quando umas horas depois consegui recuperar, senti uma tristeza horrível: queria tanto aquilo e, no fim de contas, tudo o que desejava era ir embora. Não se trata só de ser um dos piores momentos de que tenho memória da minha vida, mas também da frustração de não ter tido dos melhores momentos da minha vida.

 

"The desire fore more positive experience is itself a negative experience. And, paradoxically, the acceptance of one's negative experience is itself a positive experience".

The Subtle Art of Not Giving a Fuck

 

Comecei nos Açores com o pé esquerdo. Tenho a prova nas costas, no rabo e nas pernas, onde tudo está pisado; no estômago, que ainda não normalizou; e na memória, que ainda treme só de pensar no que aconteceu. Mas que se "fuckem" os golfinhos, o barco e quem não me ligou nenhum. Caraças, o dia de hoje foi brilhante, esta ilha é incrível e eu estou feliz e bem de saúde. Não consigo não deixar de desejar experiências positivas, mas aprendi com a negativa. Já levo bagagem desta viagem, e não estou a falar da do porão. Ontem alimentei os peixes, hoje alimentei a alma e tudo valeu a pena.

20
Jun18

Apaixonada pelos meus vestido de verão

Carolina

Há uns dias a minha mãe, ainda que sem maldade, disse que eu era insossa a vestir-me. A questão é que a insossisse é, para mim, das piores coisas que há. Pessoas insossas, desenxabidas, sensaboronas, amorfas ou qualquer sinónimo de tudo isto dão-me um bocadinho a volta ao estômago. Pessoas que nem sim nem sopas, onde está sempre tudo bem, que não têm uma opinião definida para nada e que têm medo de falar o que quer que seja, são difíceis de lidar. Para mim é mais fácil estar com alguém que tem personalidade, ainda que bata de frente comigo, do que alguém que se esconde por detrás do seu escudo imaginário e não diz nada.

Por isso, quando ela me disse que eu era insossa, eu não achei graça. Porque, de facto, eu sou uma pessoa simples a vestir-me - mas, caraças, insossa não! Acima de tudo, gosto de passar despercebida... e é difícil vestir um corpo onde queremos esconder mil e uma coisas e ainda assim ficarmos bem e, talvez por isso, ao longo do tempo, a minha tendência foi vestir básicos, cores sólidas e não arriscar demasiado. No inverno com malhas e calças de ganga ou pretas e no verão usando t-shirts ou camisas - sempre tudo adornado com algumas peças que, achava eu, sempre iam dando uma graça aos looks.  

A verdade é que eu vejo as coisas nas lojas e nas passarelas e até as acho engraçadas. Sou uma privilegiada porque tenho acesso a novas ideias, novos conceitos de como vestir ou, como se costuma dizer, "sei o que está na moda" (na realidade não sei, quando me perguntam isto fico toda encavacada, acho que é uma pergunta sem resposta certa - mas percebem o que quero dizer). Mas depois penso que não quero mostrar muita perna, ou a peça não tem costas e eu não gosto de dispensar o soutien, ou são calças muito curtas e eu não quero mostrar o meu tornozelo inchado, ou é cai-cai e eu sinto-me sempre sufocada com aqueles soutiens, ou as camisolas têm mangas de morcego e não dá para usar casacos, ou as calças têm cinta baixa e sinto-me com a carne toda de fora, ou as peças são muito apertadas e as minhas formas não são assim tão boas para estarem todas à vista. Enfim! Sim, sou difícil de vestir. Mas já há algum tempo que queria pôr os básicos de lado (ou pelo menos não abusar deles) e tentar coisas mais arrojadas - e a boca da minha mãe foi o rastilho para que isso acontecesse.

A primeira fase da minha investida - aquela que ainda estou neste momento - incidiu nos vestidos. A moda dos vestidos e das calças, neste momento, combina com os requisitos que tenho para o meu corpo: uns são cintados e mais compridos, outros têm a cinta alta, tal como gosto. Já aqui disse: a minha vontade é fazer uma espécie de Arca de Noé com roupas para os próximos cinco a sete anos, porque sei que um dia destes a moda muda e voltam as skinny jeans e os calções e vestidos que deixam ver a prega do rabo e eu vou ficar outra vez sem roupa para comprar. Mas bom, agora tenho é de aproveitar. E se o meu roupeiro já está recheado de calças, como não tinha desde a altura em que era miúda, o mesmo não se podia dizer dos vestidos. Acho que o ano passado vesti os que tinha meia-dúzia de vezes, já demasiado preocupada com a horribilidade das minhas pernas, e portanto é a grande mudança desta estação. Comprei uns quatro, todos abaixo do joelho mas apertados na cinta, e pode dizer-se que foi uma autêntica paixão de verão. Todos têm cores vivas, todos têm padrões e personalidade e, por isso, acho que combinam um bocadinho mais comigo. Eu, honestamente, sinto-me muito feliz com eles. Ando há dois anos a trabalhar diretamente com quem vê, faz e produz moda e a ver imagens de streetstyle e de gente gira, com um estilo que eu às vezes pensava que poderia facilmente ser o meu, só me faltava coragem e "um bocadinho assim". E é fixe conseguirmos estar mais próximos do ideal que desejamos para nós mesmos. 

 

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17
Jun18

Dar-me tempo para viver

Carolina

Sexta-feira foi um dia importante porque, de alguma forma, pus fim a um ciclo. Algures em Março deste ano decidi que ia deixar o trabalho onde estou há quase dois anos e todos estes meses têm sido de preparação para a minha saída. Sexta foi o dia em que, para todos os efeitos, deixei tudo pronto para ir embora; a data que defini para ter tudo em ordem para que o meu trabalho continuasse a ser (bem) feito pelos outros, para que a minha ausência provocasse o menos impacto possível. É tempo de férias. Vou descansar as ideias, ficar morena, desfrutar da ausência de stress e do “pling” dos e-mails a caírem na caixa de correio. Até porque sei que depois nada vai ser como dantes: ainda volto ao escritório, às pessoas que me viram nascer enquanto “trabalhadora”, mas agora quase em modo consultora, para ajudar a lançar mais um projeto. Depois, talvez, o adeus definitivo. Até lá, férias, descanso e viagens, pontuadas por momentos de trabalho, para não esquecer a sensação ;)

Tomar a decisão não foi fácil, dizer que me ia embora não foi fácil, estar estes meses a trabalhar e a saber que estava a preparar a minha própria saída não foi fácil. Acima de tudo, para mim, foi difícil sentir que sou substituível. Não é que, racionalmente, não o soubesse; mas uma das coisas que mais me puxava a trabalhar era saber que fazia parte de algo maior que eu, mas do qual eu era uma peça fundamental. E deixou de ser assim. Passei pelo processo de escolha das pessoas que me iam substituir e ensinei-as até chegar o dia em que praticamente as minhas funções ficaram vazias. Passei-lhes tudo. Do trabalho chato e mais burocrático, passando pela escrita e a parte criativa, assim como a gestão da parte online, entre tantas outras coisas. Algumas que eu ajudei a criar de raiz e que, tenho a certeza absoluta, ninguém conhece melhor que eu. Era quase o meu bebé... que mudou de colo.

A verdade é que eu nunca escondi de ninguém que esta seria uma fase da minha vida passageira, até por sentir que o meu caminho já estava traçado há muitos anos, ainda eu não me tinha desviado de todos os planos iniciais. Para além de que, para mim, é inconcebível trabalhar num sítio a vida inteira (a menos que seja um negócio nosso, do qual não nos podemos "despedir" assim de um momento para o outro) - muito menos na fase em que eu estou, em que preciso de movimento. Tenho muitos anos pela frente, em que vou querer paz e sossego, e não acho que agora seja altura para isso. Tenho 23 anos, trabalho há tempo inteiro há dois, e tenho medo de estar a perder "os melhores anos da minha vida" com responsabilidades crescentes e chatices diárias (ainda que muito minhas), que me tinham vindo a tirar alguma qualidade de vida nos últimos tempos.

Cheguei a um ponto em que comecei a desenhar o meu futuro e a pensar "vai ser só isto?". Fiz todo o meu percurso sem pausas ou paragens. Acabei o secundário, fui para a faculdade; apesar de ter vacilado muito nos meus três anos de curso, completei tudo sem deixar nunca uma cadeira para trás e segui para estágio; no estágio propuseram-me trabalhar, eu disse que sim, e é assim que estamos até agora. Já tinha algumas responsabilidades no meu trabalho atual e uma carga de trabalho valente, que sempre tentei articular com tudo aquilo que queria fazer no dia-a-dia, graças a uma flexibilidade de horários, por vezes, quase heroica. Mas ou parava agora ou continuava com a minha vida estilo maratona, sem parar para respirar.

Percebi que este ia ser o gap da minha vida. Estou entre o trabalho que escolhi e o trabalho que vou ter que fazer (que também escolhi, mas que foi algo "naturalmente imposto" pelo meu dia-a-dia, pela minha infância e pelo estilo de vida que quero manter). Perspetivei o meu futuro a médio prazo enquanto empresária e vi que aí sim, a minha vida vai ser dura; aí é que eu tenho mesmo de trabalhar aos fins-de-semana, fazer horas extraordinárias, passar almoços de amigos ou saídas em prol de um negócio bem sucedido. Aí é que eu vou suar as estopinhas, dar o tudo por tudo - porque aí as coisas dependem de mim e o meu sucesso deverá ser proporcional ao meu esforço (ou assim o esperamos..). Aí é que eu vou sentir o peso da responsabilidade, quando tiver pessoas a meu cargo, salários para pagar e um orçamento para gerir.

Há dois anos fui trabalhar porque quis e voltava a fazer o mesmo - vá-de retro a faculdade! Tive sorte em quase tudo e quase tudo foi incrível. Mas comecei a sentir peso nas costas - da responsabilidade, do medo de não estar a aproveitar estes anos, de estar a levar uma vida apressada e demasiado seguida. Olhei à minha volta e apercebi-me que quase todos os meus colegas estavam a "viver a vida", independentemente do sentido que dessem a essa frase - a namorar, a viajar, a ir de erasmus, a fazer voluntariado num país qualquer que eu nem sei precisar no mapa, a ir de boleia pela Europa, a marcar férias sem terem de se preocupar com o facto de só terem 22 dias úteis para as gozar. E olhei para mim, a levar uma vida sedentária que podia ser a de alguém na casa dos seus trinta e tal anos, e disse que se calhar era a altura de acordar.

É engraçado, porque eu sempre tive escolha. Fui livre de fazer o que quis quando terminei a licenciatura e, curiosamente, acabei por me prender a mim própria. Nos últimos tempos senti-me acorrentada ao trabalho e quando percebi que podia estar a gozar dessa forma os últimos anos de alguma liberdade, quase que entrei em pânico. E quando digo "liberdade", refiro-me a poder ir de férias sem ter de avisar com três meses de antecedência e sem ter de contar os dias úteis; a poder ficar a dormir um bocadinho mais de manhã por ter estado a tossir a noite inteira; a poder empenhar-me com afinco em algo que me está a dar realmente prazer, como é o caso do piano. No fundo, é ter flexibilidade e menos responsabilidade em cima dos ombros.

É claro que tudo isto é muito bonito, se descontarmos toda a carga emocional que esta decisão acarreta. Vai-me custar não ver o meu nome impresso num jornal mensal, a assinar um qualquer texto; vai-me doer não ter uma credencial do Portugal Fashion sem o "P" de press; vai ser duro deixar de ter a companhia diária de algumas pessoas que me enriqueceram, pessoal, profissional e culturalmente; e, acima de tudo, vai-me fazer muita falta sentir-me essencial em algo - ser importante numa estrutura, estar mais que integrada nela, fazer parte de algo (essa coisa em que, ao longo da minha vida, sempre fui tão má). Até porque a lista de coisas que aprendi nestes dois anos é infindável. Vão ser lições que vou carregar para a vida. Uma das mais importantes (e que eu já sabia, mas que continuo a confirmar) é que nem tudo é preto ou branco, como eu quero ver. Não gosto de cinzentos, mas aprendi a resignar-me (um bocadinho, vá...) que eles existem. Nem a minha saída vai ser preto no branco: não trouxe as coisas todas, não deixei as chaves. Vou voltar, tenho trabalho em mãos (já não tenho é as rotinas) e não sei se algum dia vou sair por completo. Mas para alguém como eu, que gosta dos tons nos seus extremos, isso é confuso. Por um lado bom, porque não é algo abrupto; por outro, o vai-não-vai causa-me instabilidade. 

Estou por isso a passar uma fase incerta, entre a alegria de um futuro que eu acho que vai ser risonho e a dor de deixar um trabalho que me deu muito; entre as certezas de um presente com um dia-a-dia de rotinas e de um futuro que terá de ser totalmente governado por mim; entre a vontade de ver o que vem aí e a saudade que já se aloja dentro de mim; no fundo, entre saber se tomei a decisão certa ou a decisão errada. Tem sido também uma lição de "adultismo": tomar uma decisão, leva-la avante e arcar com as consequências. Respirar fundo, ganhar coragem e enfrentar o boi pelos cornos. Ficar magoada. Aprender a curar-me. E saber andar em frente.

Tenho vários planos para o que vem aí mas não sei timings nem nada em concreto. Lá está, é tudo um bocadinho cinzento, e isso inquieta-me profundamente. Ao ponto de não me apetecer escrever - algo que aconteceu muito ao longo dos últimos meses - por ocupar tanto espaço na minha mente. Vai ser uma aventura. Agora é concretiza-la, não me deixar ficar pelas ideias e fazer desta oportunidade aquilo que eu realmente quero dela.

Estou a dar-me tempo para viver a vida. O momento é agora. 

 

 

04
Jun18

Mais um dia na luta

Carolina

Acho que corria o mês de Janeiro quando voltei ao ginásio. No último post que escrevi sobre o assunto (algures em Outubro do ano passado), terminei com a frase "se isto sobreviver ao Natal, sou uma mulher feliz." Pois que não durou. Lá para o fim de Novembro, quando me meti no meu projeto Natalício, larguei (quase) tudo para me dedicar a isso, e o ginásio foi uma das coisas condenadas. O resultado não foi bom: nesse mês, de tanto estar sentada e parada, engordei perto de quatro quilos. Por azar, tinha uma consulta na nutricionista do ginásio poucos dias antes do Natal, onde constatei esse facto (o peso), que até aí desconhecia. A rapariga não foi branda - muito pelo contrário, achei-a rude e com muito pouco jeito para abordar uma questão que todos os nutricionistas deviam saber ser sensível - e eu fiquei em choque.

Tenho sorte em muitas coisas na vida, mas esta não é uma delas. Não tenho uma boa genética, nem um bom metabolismo; uso a comida como conforto em momentos de maior stress e gosto muito pouco de cenas verdes e hiper saudáveis; as dietas comigo só resultam se forem levadas ao extremo ou com auxílios externos; e o gosto de fazer desporto não está no meu ADN. Isto tudo é um mix perigoso, até porque basta olhar para a minha linha genealógica para ver o possível resultado (que é grande, se é que me entendem). E eu tenho pânico de ficar assim. Sofro com isso constantemente e todos os dias me olho ao espelho e penso que nunca me posso desleixar até aquele ponto. Mas, por outro lado, sei que o desleixo não tem de ser grande - basta "um bocadinho assim" para as coisas saírem dos eixos. Bastou um mês embrenhada num projeto para ganhar quatro quilos no lombo.

Então em Janeiro tentei controlar a boca e atirei-me ao ginásio. Quanto à primeira parte, é um caso difícil: o meu pecado tem um nome e chama-se "pão", que é provavelmente o alimento que eu mais gosto na vida. Para além disso, como doces esporadicamente (ainda que, dentro do conceito do esporádico, talvez mais vezes do que devia). Mas não bebo álcool, não tenho night cravings, não ponho açúcar no chá (e não bebo café, onde aí sim, preciso de açúcar) e portanto fica difícil cortar nessas coisas básicas, uma vez que não existem. Quanto ao ginásio, foi uma vitória: fiz um grupinho com alguns membros da minha família e lá íamos nós, tias e primas da vida airada, suar as estopinhas para uma aula qualquer onde tínhamos de saltar para cima de caixas (eu não salto, subo, porque tenho muito amor aos meus dentes), fazer burpees a toda a hora e coisas que tais. Comecei a fazer calo. Caraças, nunca fiquei tão orgulhosa de um calo! Achei mesmo que isto ia de vento em pôpa, já me sentia bem mais confiante.

Porque a questão aqui está no equilíbrio. Eu não sou obcecada pelo meu peso - mas tenho claramente uma panca com aquilo que vejo ao espelho e nas fotos (que nem sequer sei dizer se é, ou não, uma visão real e fidedigna daquilo que eu sou). Isto quer dizer que se eu estiver mais pesada mas visivelmente mais magra e/ou tonificada, é na boa; não é o peso que me importa. Para além disso, trata-se também de tentar fazer uma boa gestão de expectativas. Há uns anos para cá, sempre que me inscrevia no ginásio sonhava com o corpo perfeito: (acrescentar aqui tuuuudooo o que detesto no meu corpo e que gostava de mudar, mas que não vou escrever porque isso ocuparia uma folha A4 inteira). Depois, quando eventualmente desistia e me via praticamente igual, era uma desilusão. E quando comecei esta empreitada, fi-lo consciente de que não ia nunca ter o corpo que sempre quis. Só queria melhorar um bocadinho, naquilo que fosse possível - embora isto já seja admitir quase uma derrota à partida. Mas a verdade é que à medida que vamos fazendo e nos vamos entusiasmando, até pensamos "se calhar até consigo aniquilar aquele músculo do adeus". E as expectativas vão aumentando. Lembro-me bem de sentir a minha auto-motivação durante as aulas, de estar a sofrer horrores, de chegar ao ponto de querer chorar, e de pensar que ia conseguir olhar para uma foto na praia e não ter vergonha de mim mesma. E por isso continuava, até ficar mais vermelha que nem um tomate, a deitar os bofes de fora e de em alguns casos até me sentir a cair para o lado. A levantar pesos, mesmo sabendo que os meus trapézios estavam a gritar por socorro; a ter dores horríveis nos dias seguintes, a lidar com as contraturas nas costas diariamente, ao ponto ir fazer uma massagem para me aliviar a pressão (e quem me conhece sabe que, para eu ir fazer uma massagem, é preciso muito). Caraças, houve uma aula em que saí feliz, contente e satisfeita! Foram uns três meses nisto. Até ao dia.

Começou com uma amigdalite chata, meia gripe, que me deitou abaixo e me deixou sem forças. Depois meteram-se umas complicações no trabalho, que resultaram em horários mais alargados. E, nisto, foi-se o hábito, foi-se o grupo, foi-se tudo. Voltaram os medos. A vergonha. O pânico de ficar disforme, de não caber na roupa. A auto-depreciação. E, pá, eu sou muito boa nisso. Chateio a única pessoa que me ouve (a minha pobre mãe, cansadinha das minhas pancadas), choro as pedras da calçada. Não sei se somos donos do nosso próprio destino, mas sei que temos algo a dizer sobre ele - e eu estou sempre num limbo, entre aceitar que sou assim e de querer mudar a toda a força. Até porque há coisas que eu sei que não mudam (pelo menos sem bisturis pelo meio), porque fazem parte de nós: não há como deixar de ter uma anca larga, uma perna grossa. Mas ter de aceitar essas e querer mudar as outras é um meio termo difícil de alcançar. E mais difícil ainda é o caminho que é preciso percorrer para chegar a qualquer uma delas.

Na altura daquela polémica da Carolina Patrocínio, que andava a subir escadas no ginásio dois dias antes da filha nascer e que depois apareceu linda na sala de partos, eu tinha um post escrito mentalmente para aqui colocar. A primeira coisa que eu lá tinha era uma palavra de apoio à minha homónima, porque também eu gostava de me sentir bonita naquele que dizem ser um dos dias mais felizes na vida de qualquer pessoa; e a segunda é que tenho uma inveja horrível da força da vontade e motivação daquela mulher. E quem diz Carolina Patrocínio diz, por exemplo, Isabel Silva. Lá terão os seus defeitos, mas caraças, acordam com as galinhas para ir treinar, fazem instastories pelo meio e ainda saem de lá felizes. Quem me dera a mim ter metade dessa força.

Ainda assim, continuo a tentar. Um mês e meio de sedentarismo depois, hoje voltei ao ginásio. Este post era só mesmo para assinalar isso.

28
Mai18

Miúda do rio com cheirinho a maresia

Carolina

Sempre achei que era no mar que eu tinha as minhas respostas, o meu sossego, a minha serenidade, a minha inspiração. É lá o meu pôr-do-sol idílico, é o som das ondas que finjo ouvir quando pego num búzio e o aproximo da orelha e é na fotografia da minha praia, escondida no meu porta-moedas, que nos dias difíceis eu arranjo forças para continuar. É o sal da água do mar que me sobe a tensão o suficiente para me manter viva durante todo o ano, é a sensação dos pés na areia que me dá as massagens que preciso e é o sol que me desfaz os nós nos músculos e que me enche a auto-estima, em forma de pele cor-de-chocolate e sardas por todo o nariz.

Foi sempre a praia que me restabeleceu energias, que me transmitiu esperanças e forças. Ainda é. Mas entretanto descobri o rio.

Andava aqui a pensar porque é que me apetece tanto ir acampar - quando não se pode dizer que eu seja uma adepta insaciante da natureza, e muito menos de casas de banho partilhadas - e percebi que para além das saudades do café da manhã, do barulho das sigarras ao adormecer e de poder contar infinitamente o número de estrelas do céu, aquilo de que sinto falta no campismo é do rio e do seu silêncio. Isto porque desde que há três anos para cá comecei a acampar, escolhi sempre sítios do interior, com rios, lagoas, praias fluviais e barragens, fugindo sempre do litoral. E de cada vez que vou apaixono-me sempre mais um bocadinho. 

Adoro o mar: amarei sempre o barulho das ondas, a areia, o sal na pele. Mas mar e praia - e litoral, de uma forma geral - são sinónimo de gente, de cidades grandes (ou maiores), de um permanente ruído de fundo. Falta calma. Falta ar puro. Falta silêncio. Silêncio que só percebemos que existe quando saímos das zonas mais densamente populadas e vamos para o interior despovoado. Esse é um silêncio diferente, devia até ter outro nome. É outro nível. Está à escala da paz interior.

A epifania deu-se este fim-de-semana, quando fui a Baião, onde comi como uma lontra esfomeada (por um preço que, aqui na cidade, mal daria para me sentar num restaurante decente) e depois me refastelei a ver o Douro passar, enquanto ouvia o silêncio. Percebi que, à medida que os anos passam, sou cada vez mais uma miúda de rio. O frio que me percorre a espinha quando salto lá para dentro faz-me sentir viva e o silêncio de tudo aquilo que não ouço casa perfeitamente com a solidão que vive todos os dias em mim. A calmia do rio - ou aquilo que é o meu imaginário de rio (dispenso o Tejo populado, o Douro da Ribeira ou o Leça todo poluído) combina comigo. Penso também em toda aquela comida tradicionalmente deliciosa e naquelas vilas, tão pequenas como lindas, e percebo que tudo faz sentido. Por dentro, sou mesmo uma velhinha de 82 anos, daquelas que gosta de ir comprar o pão caseiro à mercearia onde nos tratam pelo primeiro nome, que acorda às sete da manhã sem despertador e que faz bolos por amor.

Só sou miúda por fora. Por dentro, tenho o silêncio do rio e o cheirinho a maresia.

 

CampismoGeres_Agosto2016 (100).JPG

 

01
Mai18

Quando é que devemos parar de esperar pelos outros?

Carolina

Acho que nunca cheguei a publicar um texto que há tempos escrevi sobre o facto de ter medo de não estar a "viver a vida" - aquela expressão que, em jovens, todos ouvimos vezes sem conta. "Vive a vida!", dizem-nos os mais velhos enquanto olham o horizonte, claramente revivendo momentos da sua juventude... ou então pensando em tudo aquilo que não fizeram e queriam ter feito.

Isto aterroriza-me. Há um medidor de vivências? De qualidade de vida? Será que o pessoal que curte ao máximo a vida universitária - entre praxes, festas, bebedeiras e queimas - viveu mais do que eu, que não gosto de nada disso? Será que se eu me tivesse obrigado a presenciar isso tudo faria de mim uma pessoa mais feliz (que, ao fim e ao cabo, é o objetivo de estarmos vivos)?

Este conceito confunde-me muito, mas também me atemoriza. Não pelo que não vivi (porque já lá vai e tenho a certeza que aquilo que preenche o conceito de "viver a vida" da maioria, não corresponde ao meu), mas pelo medo que tenho de não viver. Porque por um lado sou nova e tenho a vida pela frente; emas também porque por outro sou nova e é aqui, nesta fase, que o melhor da vida acontece.

Isto - e o facto de estar numa fase altamente contemplativa - tem-me colocado inúmeras questões. Nem eu sei o que é "viver a vida", mas penso que para além de tudo aquilo que já tenho e que é essencial (que em linhas gerais se pode descrever como saúde, família e trabalho) acho que, para mim, tudo o que me faz sentir mais viva, feliz e inspirada é viajar e ouvir espetáculos ao vivo. E por isso comecei a fazer contas e a pensar: "se eu quero viver a vida, é isto que tenho de fazer". O próximo verão em particular pareceu-me  a altura ideal para pôr isto em prática, uma vez que, se tudo correr planeado, terei tempo e dinheiro no bolso. Mas rapidamente me apercebi que faltava só um detalhe nesta equação: as pessoas.

Este "detalhe" não é de hoje, é mesmo algo transversal na minha vida (lembro-me de ter doze anos e jogar monopólio sozinha, porque não tinha com quem jogar) e também um tanto ao quanto paradoxal: sei que não posso viver sem os outros, não quero viver sem os outros, mas também preciso de uma quantidade muito maior que o normal de tempo só para mim.

Já há muito que aceitei o facto de ser assim - o que não quer dizer que lide bem com isso todos os dias, até porque diariamente são-nos impostos novos desafios e as coisas vão modificando. Até aqui todos me diziam para esperar, que com as diferentes fases viriam novas pessoas e que tudo acabaria por surgir naturalmente. Mas acho que se enganaram, provavelmente por o defeito não estar nos outros, mas em mim. Não fiquei com muitos amigos do secundário, fiquei com ainda menos da faculdade e do trabalho também não tenho ninguém que leve de férias. 

E, se pensarmos bem, as duas coisas que destaquei como o meu sinónimo de "viver a vida" fazem-se, normalmente, com companhia. Companhia que eu, normalmente, não tenho. Por isso, olhando para o quadro geral de tudo o que quero fazer, dos "anos de ouro" que tenho pela frente e para as poucas pessoas que tenho no meu caminho, pergunto-me: vale a pena continuar a esperar? Vou continuar a não ir a concertos como o do Sam Smith porque não tenho ninguém que goste das músicas dele? Vou deixar de ir ao cinema à noite porque não tenho ninguém que queira sair do sofá? Vou esperar que o teatro do Harry Potter em Londres acabe porque os meus pais ficam com o coração nas mãos por eu viajar sozinha? Vou deixar de ir à Islândia porque ninguém tem dinheiro para lá ir? 

Sempre tentei que esta minha péssima característica (a solidão crónica) nunca me impedisse de fazer as coisas de que gosto. Da mesma forma que, em miúda, peguei no tabuleiro do Monopólio e comecei a jogar sozinha, também aprendi a relaxar, pegar no carro e ir ver um filme sem ninguém. Mas estou a chegar a uma fase em que sinto que preciso de passar uma linha que, até agora, restringia as atividades a fazer em grupo. É estranho ir a um concerto sozinha. É estranho viajar sozinha. É estranho ir experimentar um restaurante novo sozinha. É estranho para mim e é terrível para os meus pais que sofrem por tudo isto. Mas até quando é que é suposto eu esperar? Quando é que é aceitável eu atirar a toalha ao chão, aceitar que é assim, que sou assim, e que isto não deve mudar? Quando é que eu devo parar de esperar pelos outros para viver a minha própria vida?

24
Abr18

O drama de uma pessoa não beber álcool

Carolina

Estamos em pleno século XXI. Há casais de homens a andar de mão dada na rua; há pessoas que não comem peixe, carne, lacticínios e derivados; há quem diga que não tem género, que não é homem nem mulher; há mulheres que deixam totalmente de depilar o corpo; há muitos países onde a venda de marijuana já é legal; há um Trump na presidência da América; há todo um movimento para acabar com as touradas; acho que até o papa já deu o seu amén ao preservativo!

Vivemos numa época em que supostamente as individualidades são cada vez mais aceites; a época das mentes abertas, da liberdade individual. Aceitam-se coisas que há cem anos atrás davam um diagnóstico de loucura, totalmente impensáveis para os dias de hoje. Desafia-se a cultura, a religião, a moral, os costumes, as regras básicas da igreja - e até a inteligência dos humanos, se quisermos falar do Trump. 

Com mais ou menos opiniões, tudo é aceite. Cada um é como cada qual.

No entanto, de cada vez que me tentam servir um copo de vinho e eu tapo educadamente o copo com a mão, passando a vez ao próximo, sou sujeita a um interrogatório. “Mas não gostas de vinho branco, preferes tinto?”. “Mas não bebes álcool de todo?”. “Mas já experimentaste?”. 

Há tantas coisas aparentemente estranhas a acontecer no mundo e o facto de eu não beber álcool é, e continua a ser, uma questão. Não falha um almoço com quem ainda não me conhece. Nunca. Assim como o remate final: “ainda mudas”.

Se não fosse tão bem educada, dizia aqui umas quantas coisas. Se não fosse tão reservada, dizia outras. Se não estivesse tão cansada de explicar o que não tenho de explicar, até explicava. Como tal, tudo o que me resta é pedir uma água. Fresca, por favor. Sim, porque eu não bebo álcool. Será que isso ainda é permitido?

21
Abr18

Um cabelo à Tokyo... ou quase

Carolina

DSC_0062.JPG

 

No fundo, foram os primeiros a saber. Eu avisei-vos. Deixei aqui um sinal da minha próxima maluqueira!

Não sei se se lembram de, no post sobre a "La Casa de Papel" (que, caso queiram ler algo que não diga só maravilhas da série, penso ser uma boa leitura), eu ter escrito "aquele corte de cabelo da Tokyo está a tentar-me seriamente...!". E, de facto, tentou-me de tal forma que, apesar de todas as reticências que tinha, acabei por passar da ideia à ação em pouquíssimos dias.

Não me perguntem porque é que eu falo tanto do cabelo aqui no meu blog. Acho que desde 2011, ano em que passei a te-lo curto, comecei a vê-lo como uma forma de expressar a minha personalidade, muito para além de uma simples questão estética. Ao longo destes sete anos cortei-o muitas vezes, de diferentes formas, penteando-o de maneiras diferentes; o ano passado fiz uma pausa e deixei-o crescer, porque sentia que estava a acabar por cair sempre no mesmo e porque não estava a ficar tão contente com os resultados finais. Mas, apesar disso, continuei sempre a achar que um cabelo com um bom corte é um cabelo com caráter e personalidade forte. E eu, podendo ter muitos defeitos, tenho algo que ninguém me pode tirar: um caráter vincadíssimo e - penso - algo diferente do normal. Mas, exteriormente, sou super corriqueira e simples, tendo encontrado no cabelo um meio de transparecer aquilo que sou por dentro. Há cabelos compridos que são lindos mas, para mim, não deixam de ser mais só mais uns. Adoro cortes "a sério".

Já há muitos anos que me passava pela cabeça fazer repas (também conhecidas por franjas), mas sempre tive medo. Que me ficassem mal, que fossem um drama para depois deixar crescer, que tivessem necessidade de muita manutenção, que ficassem todas engorduradas por ter muito mais contacto com a pele... uma infinidade de coisas! Mas, apesar de ter cortado o cabelo há relativamente pouco tempo, eu estava louca por mudar. Adoro a sensação de ver uma versão nova de mim mesma ao espelho.

E por isso fui. Recolhi uma série de fotos (como faço sempre), mostrei à cabeleireira, contei-lhe os meu requisitos e receios e depois disse-lhe: "corte por onde quiser, faça o que quiser, deixe isto equilibrado". E assim foi. Quando vi a tesoura a esbarrar-me nas pestanas o coração deu um saltinho, mas passou rápido. Acho que nunca adorei tanto um corte logo à primeira vista. Normalmente detesto ver-me enquanto estou a cortar o cabelo, porque aquelas luzes todas me deixam branca que nem cal e com as olheiras dignas de um panda, mas naquele momento nem quis saber. O meu primeiro pensamento foi que estava igual a quando era miúda, na altura em que a minha mãe ainda tinha rédeas sobre mim e me fazia usar o cabelo curto. O segundo foi "Tokyo". Não é que estava mesmo parecida?!

Admito: estes dois dias com um novo visual foram um boost para o ego. O choque das pessoas é semelhante àquele de há sete anos atrás - o que é curioso, tendo em conta que praticamente só muda a franja em relação a outros cortes anteriores. Mas acho que nunca na minha vida recebi tanto elogio (e, como boa anti-social que sou, não sei lidar com isso). Mas o melhor disto tudo é que, talvez pela primeira vez, eu acredito naquilo que me dizem. O corte está incrível. E, caraças, não é que eu tenho mesmo cara para usar repas?

Durante muitos ano fui lendo, em blogs, facebooks e tumblrs alheios uma frase atribuída a Coco Chanel que diz: "a woman who cuts her hair is about to change her life". Sempre a adorei. Em 2011, quando passei de uma crina até meio das costas para ter o cabelo o nível do queixo, foi isso que aconteceu - dei uma volta a tudo. Se quisermos fazer uma leitura mais aprofundada da coisa, acho que o ano passado, em que o cabelo cresceu como queria, foi o ano em que deixei que a vida levasse o seu rumo natural, sem rédeas. E nestes últimos meses sinto que, apesar das muitas dores de crescimento que tenho tido, voltei a pegar nelas. A minha vida vai, efetivamente, mudar. E um novo corte de cabelo é sempre uma boa forma de o assinalar. Que o positivismo, a boa energia e a confiança desta mudança de visual se transfira para os desafios que estão para vir.

 

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