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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

29
Mar20

Uma dissertação sobre os (meus) hábitos de leitura

E como a pandemia está a fazer com que volte a ler, depois de anos praticamente parada

Diz-se por aí que todos somos leitores: o difícil é encontrar o nosso livro. Aquele que nos enceta neste universo encantado da literatura e que nos abre portas para um admirável mundo novo (e este trocadilho, hã?). Aquele que nos faz apaixonar por personagens fictícias, tomar-lhes as dores e as alegrias, quase viver por elas. Aquele que nos dá vontade de passar o almoço e o jantar, só para conseguirmos adiantar mais um par de capítulos. Aquele que queremos devorar mas que, ao mesmo tempo, não queremos que chegue ao fim: este que será, sempre, o paradoxo de qualquer leitor. A alegria de saborear um bom livro e a tristeza de saber que esse prazer terá um fim, bem marcado e delineado, na página 356. 

Eu concordo totalmente que basta um (e só um) livro para nos fazer gostar de ler. Mas sei hoje, por experiência própria, que são preciso vários livros para manter essa chama acesa. Não vamos ler para sempre "Uma Aventura", o "Triângulo Jota" ou o "Cherub"; também não nos podemos manter eternamente nos livros juvenis, de paixonetas impossíveis, de amores proibidos e num eterno rol de novas experiências. Se por um lado acho que há uma evolução natural da leitura à medida que crescemos, que faz com que deixemos de nos interessar por uma determinada categoria de livros e passemos a gostar de outra, acredito mesmo que têm de existir "livros âncora" que nos prendam nessa nova fase enquanto leitores. Algo que mantenha a chama acesa. Caso contrário o hábito perde-se, a fome de devorar páginas e capítulos esvai-se e todo o processo terá de se repetir.

E se custa pôr um miúdo a ler (porque não querem, porque jogar computador é muito mais fixe, porque as letras são muito pequenas, porque tem muitas páginas e nunca mais vão chegar ao fim), convencer um adulto a voltar a ter hábitos de leitura é igualmente difícil (mesmo que o processo de persuasão seja interior e seja ele próprio a tentar fazer esse esforço): porque não há tempo, porque o trabalho nos ocupa a mente e não temos cabeça para mais mundos para além do nosso, porque há tarefas domésticas para executar, porque à noite o sono é demasiado para ler um par de páginas, porque a Netflix é mais fácil, não dá tanto trabalho nem custa tanto dinheiro. 

Não sei se já repararam, mas estou a falar por experiência própria. Eu era, aqui há uns anos, uma devoradora de livros. Hoje, se ler meia-dúzia de livros por ano já é muito - e é algo que me entristece imensamente, porque era um hábito que eu adorava ter. Mas sinto que fiz uma má gestão das minhas leituras, não evoluí; como sempre tive uma lacuna grande na minha vida social (e amorosa), fiquei-me por romancezinhos adolescentes que me davam uma boa sensação de preenchimento, que me faziam viver no lugar das personagens - e era o suficiente para mim. Mas se por um lado as narrativas acabam por ir dar todas ao mesmo, a minha idade ia avançando, mesmo que a minha vida social estivesse estagnada desde os início da minha vida adulta. E eu fartei-me. Ler já não me sabia bem. Muitas vezes, em vez de me preencher, só me lembrava daquilo que não tinha: amigos, verões super preenchidos de noites quentes e felizes, alguém de quem eu gostasse e que gostasse de mim de volta. 

Tentei evoluir para outro tipo de leituras, mas o hábito da leitura é uma das muitas coisas que precisam de ser bem cimentadas para que consigamos evoluir. Ninguém passa de um "Harry Potter" para um "Guerra e Paz" - há um caminho a percorrer. Há uma tolerância à frustração que tem de ser desenvolvida e trabalhada, para que consigamos ultrapassar pedras no caminho (que, neste caso, são livros que não apreciamos) e não nos deixemos abater e desistir. E eu não tinha as minhas bases bem fixas, porque estagnei. E, eventualmente, parei. Fiz muitas tentativas para reatar a relação tão especial que tinha com os livros, principalmente nas férias (altura em que, por não ter nada para fazer, era mais fácil não ter alternativas que me dissuadissem), mas eram sempre coisas fugazes. Lia na altura, mas assim que voltava a casa, os coitados ficavam a morar ad aeternum na mesinha de cabeceira. E todos os dias em que me deitava, que olhava para eles e não me apetecia pegar-lhes, era um momento triste.

Aproveitei toda esta fase da pandemia para tentar reaproximar-me à leitura. Não porque tenha mais tempo, mas porque sinto necessidade de me distanciar do mundo real, que hoje em dia me angustia ao ponto de ter ataques de ansiedade recorrentes. Precisava de um escape. E olhei para a minha prateleira, parada há tantos meses, e saquei do meu maior trunfo: um livro que tinha comprado mal saiu, mas que acabei por nunca mais ler, tal a minha falta de vontade. "O desaparecimento de Stephanie Mailer", de Joël Dicker, é quase a minha bisca, neste jogo que pretendo mesmo ganhar. 

Ainda não acabei o livro, mas estou a adora-lo. O escritor suíço já tinha um lugar no meu coração e acho que neste momento, mesmo não tendo terminado esta obra, já está no meu top de autores favoritos. Independentemente deste ser o meu novo "livro-âncora" ou não, conseguiu que eu saísse do mundo onde mora uma pandemia mortífera e que passasse a estar, por alguns minutos, em Orphea. Que passasse a andar com o livro no carro, de um lado para o outro, aguardando qualquer momento morto para ler mais umas páginas. Que tivesse vontade de ler. E que tivesse, acima de tudo, um mundo alternativo onde morar durante um pouco. E isso, nos dias de hoje, vale ouro. 

Espero conseguir continuar e que isto seja só o início. Que começou por eu precisar de tirar a cabeça do caos que se vive à nossa volta, mas que continuará pelos dias todos, quando tudo já estiver normal, e eu só quiser saborear algumas páginas antes de adormecer.

24
Mar20

O desabafo de uma não-heroína

Hoje acordei a pensar em como gostava de ter um supermercado ou um salão de unhas de gel. No primeiro caso, dentro deste cenário meio apocalíptico em que vivemos, era minha obrigação continuar a trabalhar; no segundo, era obrigada a fechar. Tudo isto por indicações superiores, lavando as minhas mãos de culpas futuras que vão - garanto - cair sobre todos dentro de pouco tempo.

No meio disto tudo, não somos todos heróis. Eu não fico em casa. Mas eu também não sou médica, não sou operadora de caixa, não sou polícia, não faço parte da proteção civil, não sou bombeira, não sou padeira, não sou talhante, não sou peixeira, não sou enfermeira, não limpo hospitais, não sou condutora de autocarros e não desinfeto espaços públicos. Sou, como se dizia antigamente, "industrial". E os industriais - e todos os operários que trabalham nessa mesma indústria - caem num limbo problemático no meio deste caos todo. Têm nas suas costas, segundo o primeiro-ministro, o dever de fazer com que o país não pare; mas têm na sua consciência, ouvindo todos os outros que dizem ser extremamente necessário o recolher obrigatório para conter a propagação deste vírus, e tendo a plena noção de que sendo a indústria uma coisa pouco apta para o teletrabalho, que se estão a pôr a eles, às suas famílias e os seus funcionários em risco (ainda que relativo) para que tudo continue a andar. Devemos proporcionar-lhes todas as condições de higiene necessárias, diz o ministro. Se eles as tomam ou não, já não é minha responsabilidade.

Mas são as minhas costas que me doem. É o meu sistema nervoso. São as mãos que me tremem e a pálpebra que teima em não parar quieta. É o sono que não me dá descanso. É o peso da responsabilidade que é posta em cima de mim: porque por um lado tenho o dever de fazer a economia andar (e felizmente tenho encomendas para satisfazer, compromissos para manter), mas por outro tenho o dever cívico de proteger os meus (família, amigos e funcionários). E neste caso não posso lavar as mãos desta responsabilidade: os decretos não dizem se devo continuar ou parar de laborar. Há um buraco na lei, como quem diz: "decide tu".

Tenho de decidir se quero deixar de honrar os meus compromissos e deixar na mão os meus clientes fiéis, que se assim for provavelmente não voltarão a colocar encomendas depois de tudo isto passar, levando-me à falência. Tenho de decidir se me quero pôr em risco, a mim e aos meus, aos meus funcionários e às famílias deles, em prol de continuar a ter dinheiro para lhes pagar o salário ao fim do mês. Tenho de decidir se quero endividar a minha empresa, com uma taxa de juro baixa mas que mesmo assim vai dar lucro aos bancos, de forma a tentar salva-la no futuro - sem saber se, mesmo assim, continuarei à tona da água. Tenho de decidir se sou forte o suficiente para ouvir opiniões contrárias - de quem, curiosamente, não tem este peso em cima dos ombros. 

Eu não sou heroína de nada - porque ninguém decide por mim. Mas gostava. Porque medo todos temos. O peso da responsabilidade é que não.

20
Mar20

25 anos em tempo de Corona

Sempre levei muito a sério o provérbio do "não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti".

Eu detesto festas de anos. Sempre detestei. Já é assim desde miúda, mas nessa altura as razões prendiam-se com o medo que tinha dos escorregas nos parques de diversões escolhidos para festejar a data e porque abominava aqueles bicos de pato com queijo e fiambre que antecediam ao soprar das velas, num bolo de pastelaria igualmente abominável. Agora que penso, passaram os anos e eu não mudei assim tanto: não ando em escorregas e não vou a parques de diversões; detesto bicos de pato e ainda por cima não como queijo; e continuo a achar que um bolo de pastelaria não é digno o suficiente para festejar uma data tão importante. Se é bolo de anos, é para ser em bom - nem que seja feito pelo próprio aniversariante (que é, na maior parte das vezes, o meu caso).

Pois que hoje completo 25 anos de vida. E, dado ser um quarto de século, ia abrir uma exceção: fazer uma festa. Queríamos que não fosse o simples "soprar das velas"; íamos convidar a toda a minha família e até, na loucura, alguns amigos - algo que sempre evitei, porque me faz confusão a mistura de núcleos que não têm nada em comum entre si a não ser conhecerem o aniversariante. Foi sempre isto que detestei em festas de anos; se no dia-a-dia já me sentia muitas vezes excluída e posta de parte, nestas festas a sensação agudizava-se, pois chegava a não conhecer ninguém, e via-me sozinha no meio de uma multidão. Posta de parte porque não alinhava nas brincadeiras. E à parte, porque nunca fui fã do conceito de festa, que envolve barulho e muita confusão.

Mas são 25 anos. Era ano de exceção - não só pelo número bem redondo mas também pela fase da vida que vivo. É o primeiro ano que festejo com um namorado ao lado, que retirou de mim a sensação eterna de estar só, independentemente de estar só com ele ou ter o mundo à minha volta; é o afirmar de uma nova fase, pessoal e profissional - tão importantes e tão vincadas que é impossível ignorar. Por ter toda a gente que importa à minha volta.

Por todos percebermos isso, queríamos celebrar.

Esquecemo-nos que a vida dá muitas voltas. E que raio de volta esta, que mexeu não só comigo, não só como os outros, mas com o mundo inteiro. As séries e os livros de suspense e ficção científica não podiam ter adivinhado o que se avizinhava - num dia tínhamos uma vida normal, noutro estamos presos em casa. As notícias gritam estado de emergência. Contágio à mínima coisa. Mortes. Infetados. De um dia para o outro fecha tudo, de uma noite para a outra não sabemos se continuamos a trabalhar ou se devemos ficar em casa.

Hoje faço 25 anos. Em 25 anos é a primeira vez que não estou com os meus irmãos, seus cônjuges e filhos neste dia que marca o meu nascimento. Foi a primeira vez que não pude abraçar a minha mãe mal abri a porta da cozinha. Em que não pude dar um beijo ao meu pai quando o vi a chegar. Foi a primeira vez desde que cozinho que não fiz um bolinho para que todos pudéssemos comer ao jantar, depois do cabrito assado da minha mãe (o meu prato de eleição). 

É um dia tão feliz como triste: por saber que os anos continuam a contar e que a minha vida está recheada de coisas boas, mas por outro lado por não as conseguir partilhar com quem verdadeiramente amo e faz parte de mim e desta jornada. Que estes tempos de isolamento e de diversidade sirvam para percebermos a importância de pequenas coisas que há um par de dias tínhamos como garantidas. E não falo da festa de anos.

O beijo de uma mãe.

O abraço de um pai.

O canto em uníssono dos meus irmãos a entoarem-me o "Parabéns a Você" - um momento que até hoje passava à frente sem grandes dramas -, enquanto espero para soprar as velas, sem medo de infetar o bolo. 

 

Façamo-nos valer das novas tecnologias, que nos aproximam em tempos de distância. E que este aniversário, que decerto ficará para sempre na minha memória, sirva de exemplo para perceber o que realmente importa. Bem dizem que a "velhice" traz conhecimento associado.  E um quarto de século já é alguma coisinha ;)

 

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14
Fev20

Hoje há sopa para jantar

Uma espécie de texto sobre o dia dos namorados - ou como este dia deve ser a rotina

Lembro-me bem de, já a meio da viagem do Japão, dizer ao meu namorado que tinha "saudades de fazer sopa". Repeti a expressão vezes suficientes para ela ser uma espécie de "coisa nossa". 

A sopa foi a refeição que criou rotina em nossa casa. Sendo ambos trabalhadores, o fim do dia é o tempo de excelência (que é como quem diz: o único) para estarmos juntos. Uns meses depois de começarmos a namorar definimos que iríamos jantar sempre juntos - e o meu jantar sempre se baseou na sopa. Era coisa que nunca tinha feito - todos sabemos que a sopa da mãe é a melhor do mundo - mas aprendi a reproduzi-la à minha forma. E hoje digo-o com orgulho: acho que faço boa sopa. Se calhar porque com todo os ingredientes vai uma boa dose de amor.

Mesmo em tempos que não os de dieta, onde a sopa é mesmo uma das minhas maiores aliadas, aquele momento diário de puxar da tábua, cortar o alho e a cebola para fazer o estrugido, de escolher o que tenho no frigorífico para deitar para dentro do tacho e esperar que tudo aquilo coza, enquanto emana o seu cheirinho característico, é mágico para mim. Mesmo nos dias em que não me apetece ter esse trabalho. Mesmo quando a cebola me faz chorar as pedras da calçada. Mesmo quando chego do trabalho derreada, só com vontade de um banho e um sofá para me deitar. Porque fazer sopa passou a significar casa. Passou a ser a minha rotina. A nossa rotina.

A verdade é que a "sopa" não acaba no momento em que a passo com a varinha mágica. Também significa estar a comê-la ao lado de quem amo, enquanto cada um partilha as idiossincrasias do seu dia - mais os problemas, as chatices, os desabafos ou, por contrário, as coisas boas que nas horas antes aconteceram. Não acaba no momento em que lavamos os pratos, já depois da sopa sorvida, em que cada um arruma a cozinha o mais rapidamente possível, por sabermos que a seguir vem a parte que mais desejamos: o descanso. O mimo. O sofá.

A sopa é tudo isso. É a rotina.

Tenho saudades de fazer sopa em semanas muito agitadas, com jantares e eventos e dias demasiado caóticos para caberem na agenda. Tive saudades de fazer sopa quando fui de férias, tanto para o Algarve como para o Japão. Tive saudades - muitas! - de fazer sopa quando fui operada e a minha mobilidade era reduzida. E vou ter sempre saudades quando a rotina me faltar. Quando ele me faltar.

Hoje é só mais um dia como os outros - sempre disse, enquanto solteira, que queria que assim fosse. Mas há sopa para o jantar - com tudo o que isso significa. E que bom que é!

 

21
Jan20

Acreditar em mim

Olhei de relance ao espelho enquanto lavava os dentes e se ouvia no meu telemóvel a "Talvez de Eu Dançasse", do Miguel Araújo. Estava a pensar numa série de coisas que me tinham acontecido nos últimos dias. E a rever mentalmente conversas que tive. E, do nada, caiu-me a ficha. Percebi o que era "acreditar em mim".

O assunto colocou-se devido à minha necessidade de, neste ano, perder peso. Se bem se lembram foi este o primeiro objetivo que escrevi na minha lista para 2020 e estou a levar a questão muito a sério, sem dietas malucas ou princípios infundados. Fui ao nutricionista, pedi ajuda naquilo que acho que são as minhas fraquezas, procurei alternativas - e o resto compete-me a mim. Não sou ignorante na matéria e já sabia o que ia ouvir: faltam-me legumes sólidos na alimentação, em substituição dos hidratos, e fazer exercício. Sobre isto, também sei o que me dizem sempre: "tens de encontrar um desporto que gostes". E eu encolho os ombros, sabendo bem que não vale a pena responder a algo que do outro lado não querem ouvir ou aceitar. Rematei apenas: "é mais fácil passar a gostar de legumes". E, acreditem: eu odeio legumes.

Não há nenhum desporto que eu goste e eu não preciso de os experimentar a todos. Porque isto vai muito para além de uma modalidade ou das suas características e idiossincrasias. Sou eu. Eu e os meus demónios. Cada pessoa tem a sua história e é muito fácil dizer que "toda a gente tem de gostar minimamente de desporto, nem que seja uma só modalidadezinha!" quando não estamos na pele do outro. É muito fácil dizer o que quer que seja (sobre qualquer assunto) quando não sabemos as razões, as vivências, as histórias e os fantasmas de quem está à nossa frente.

Não se trata de ser natação, ginástica, futebol, basquetebol, corrida ou andebol. Posso saber as regras de todos mas continuarão a ser, para mim, bichos de sete cabeças. Porque cresci a ouvir que não os sabia fazer. Já escrevi várias vezes sobre o impacto que teve sobre mim, e a minha auto-estima, o facto de ter sido sempre - durante a minha vida escolar - a última a ser escolhida para as equipas em educação física. Não esqueço o olhar de tédio - ou, por outro lado, de divertimento - quando os meus colegas me esperavam na meta da pista de atletismo do estádio, quando eu finalmente conseguia completar um quilómetro de corrida, terminando a prova uns dois minutos depois deles. Não se apaga da minha memória um momento em que, algures no quinto ano, uma professora diz "aí vem o desastre" enquanto eu entro para fazer uma prestação individual de uma modalidade qualquer. E também me recordo bem do olhar de "nhé" da minha professora de dança sempre que apreciava as minhas coreografias, encomendadas por ela nessa mesma aula. Nota para quem não me conhece (mas que, por esta altura, já deve estar a desconfiar do que aí vem): eu hoje em dia não danço.

Há coisas que têm um impacto inigualável e muito pouco expectável na nossa vida. Coisas que às vezes só percebemos mais tarde, quando escavamos até à raiz. Coisas que se disfarçam, com que se vive, mas que não desaparecem. E que vêm ao de cima em momentos de fragilidade. No meu caso apareciam quando ia a aulas de grupo (circuito, GAP ou localizada) e tinha uma vontade tremenda de chorar a meio dos exercícios, que se tornavam em ataques de choro mal punha um pé fora do ginásio; apareciam quando tive a infeliz ideia de contratar um PT e, antes das aulas, tinha vómitos de tão nervosa que ficava. E aparecem agora, quando se toca na ferida, e os outros tratam o assunto como alguém que simplesmente não gosta de exercício. Porque é muito mais que isso.

Ontem, a este propósito, o meu namorado disse-me que acreditava em mim. E perguntou-me: "porque é que tu não acreditas em ti?". E eu levei sempre este cliché, o "acreditarmos em nós mesmos", como um sinónimo de acharmos que somos capazes de algo. Do género: "eu sei perfeitamente que sou capaz de emagrecer, acredito em mim". Mas hoje, ao lavar os dentes, lembrei-me de outra coisa que ele me disse: "porque é que sempre acreditaste nas coisas que os outros te disseram e hoje não acreditas em mim?". E eu percebi que fiz da verdade dos outros, a minha verdade. Não se trata de saber que consigo, que sou capaz. Trata-se de saber aquilo que sou. E não, não é a mesma coisa. 

É saber que tenho duas pernas e dois braços, que não tenho aquela aptidão que muita gente tem para o desporto - que não chuto naturalmente uma bola, que não atiro direito para o cesto e que sou um tanto ao quanto desconchavada a correr - mas que consigo fazer as coisas. É saber que sou chatinha. Que sou organizada. Que cozinho bem. Que não gosto de aspirar. Que devia limpar o carro e não limpo.

É conhecer-me. E saber que posso fazer as coisas, independentemente de gostar ou não, de ser melhor ou pior. E que as opiniões dos outros não têm de ser as minhas. Que é inevitável ouvi-las, porque não controlamos as ações dos outros, mas que é uma escolha (mesmo que isso implique trabalho, racional e emocional) absorvê-las e fazer com que passem a ser as nossas opiniões.

Tenho quase 25 anos e, apesar de ser toda independente e nariz arrebitado, não sabia o que era acreditar em mim. Que bela idade para mudar. Talvez se eu dançasse....

 

13
Set19

A história do par de aspas que mora na minha pele

Quando era mais nova dizia muitas vezes que "tudo o que é preciso são 20 segundos de coragem". Ainda hoje acredito nisso - embora perceba que não é só a coragem que tem de estar envolvida. A nossa capacidade de lidar com as consequências dessa coragem, o capado que temos para aguentar com o ricochete também é muito importante. Mas a verdade é que, depois daqueles 20 segundos, o resto vem por acréscimo, porque o que custa é o início. Dar o passo inicial.

Em relação à tatuagem que há muitos anos estava nos meus planos, tive vários momentos de coragem. Cheguei a ter data e hora marcada para a fazer; passado um ano voltei a tentar marcar. Mas eis outro problema sobre esta teoria: quando o tempo se mete entre a coragem e a ação, está o caldo entornado. O tempo de espera - e todos os pensamentos, vozes, opiniões e comentários que fui recolhendo e que me invadiam nesses hiatos - demoveu-me sempre.

 

"Não percebo qual é a necessidade de alterares o teu próprio corpo."

"As pessoas reles é que têm tatuagens."

"Se é uma coisa assim tão pequena que até vais esconder, para quê que vais fazer?!"

"Daqui a uns anos vais-te arrepender."

"Ninguém faz só uma tatuagem. Daqui a uns tempos estás toda rabiscada."

 

Foi como tinha de ser - e foi o ideal. Sem planeamento. "Pode vir agora", disseram-me do outro lado da linha, quando liguei para o estúdio de tatuagens. E eu fui. Sozinha, sem tempo para arrastar ninguém comigo. Sem tempo para me arrepender. E não dando tempo para que o peso de uma marcação e a necessidade que iria ter de esconder da maioria das pessoas aquilo que ia fazer pesasse na minha consciência. Decidi não lidar com as opiniões mas sim com os comentários. Lidar com as consequências e não com os avisos. Lidar com os olhares de espanto em vez dos de reprovação.

Hoje, uma semana depois de a ter feito, gosto muito do que vejo. Dei que a podia ter feito há quatro anos, altura em que me deu vontade, e que estaria tudo bem. Mas que agora, para além de muito mais certezas, faz tudo muito mais sentido.

As aspas significam a conexão com as letras; são as rainhas do jornalismo, que vive das fontes, das citações, das opiniões e dos discursos dos outros. São a forma de pormos os outros a falar. E a pensar. Cabe um mundo de letras dentro de um par de aspas.

E esse mundo é algo que fará eternamente parte de mim - mesmo que eu já pouco me lembre do curso que tirei, dos dois anos que trabalhei como jornalista e que hoje em dia escreva menos do que dantes. Sinto que me afastei radicalmente do mundo das palavras e, no que toca a trabalho, não planeio uma reaproximação. Mas não deixa de ser uma paixão pela qual lutei - desde o 11º ano, em que deixei as ciências, até aos momentos de pânico no jornal, em que tinha que me debater contra mim própria para falar com as pessoas de forma a obter algo para escrever no papel. E embora hoje esteja longe dessa realidade, todos esses embates e lutas (internas e externas) serviram para alguma coisa. 

Estas pequenas bolinhas no meu pulso não servem por isso só para me lembrar daquilo que gosto e que fará para sempre parte de mim; têm também o objetivo de me lembrar que acreditando, eu consigo. E que as lutas são para se ganhar - mesmo que no fim mudemos de ideias.

Agora sei que posso fugir à vontade das letras. Porque o mundo das letras jamais voltará a fugir de mim.

 

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25
Ago19

Pensamentos de uma lista-holic

A linha que separa uma pessoa organizada de um comportamento obsessivo-compulsivo

Mais um ano, mais um campismo de família. Desta vez foi por um triz que se realizou – confesso que a vontade era pouca, muito provocada pela fraca adesão da família durante este ano. Mas cá estamos, desta vez em Vila Praia de Âncora.

O campismo é muito divertido mas implica uma logística um tanto ao quanto complicada. Há uma grande desvantagem neste tipo de férias: independentemente do número de pessoas que venham, a mala do carro vem sempre cheia. É tenda, mesa, cadeiras, colchões, sacos-cama, lancheira, camping-gas, coisas para lavar a loiça... tanta coisa que o risco de nos esquecermos de algo é muito elevado.

Cresci com um pai extremamente organizado, que antes de qualquer viagem me aparecia no quarto com uma lista, dentro de uma pequena mica, que passava a ditar em voz alta: “cuecas, meias, cartão de cidadão, dinheiro, máquina fotográfica, pasta dos dentes (...)”. Eu ia anuindo com a cabeça ou, pelo contrário, apontando o que faltava.

Passaram alguns anos e o bicho da organização passou a morar em mim. E, como diz o ditado, a necessidade aguça o engenho: a verdade é que a lista do meu pai, apesar de muito completa, é dirigida a homens (tinha falta de coisas tipicamente femininas, como artigos de higiene ou roupas que só mulheres usam) e só contemplava objetos para viagens normais. O campismo exige todo um outro nível de planeamento. Por isso fiz-me ao piso e desenvolvi a minha própria lista – uma folha A4, dividida por categorias (objetos de campismo, roupas, comidas, higiene, eletrónicos e outros), para que nada faltasse. Sinto-me, honestamente, muito orgulhosa do meu feito!

Por isso, por achar que as listas têm uma beleza própria e por achar piada ao meu próprio sentido de organização, partilhei há dias uma imagem da minha lista no instagram. Recebi várias mensagens com emojis a chorar a rir e outras tantas, mais direta ou indiretamente, a dizer que eu era maluca. E eu fiquei a pensar naquilo.

O que distingue uma pessoa organizada de outra com um transtorno obsessivo compulsivo? Sim, eu sou organizada; sim, dá-me prazer ver tudo organizado por categorias, enfiado em compartimentos próprios. Gosto que as coisas tenham sítios para estar, adoro saber onde posso encontrar tudo. Não gosto de caos. Não gosto que faltem coisas que sinto que vou precisar – daí a necessidade de uma lista vasta neste tipo de férias.

A questão é que não me dá um chilique ou calores quando as coisas estão fora do sítio. Não fico stressada se vir que me faltou alguma coisa. Sei lidar tranquilamente com isso. E penso que é essa a linha que separa uma coisa da outra: não só a forma como fazemos as coisas, mas acima de tudo como reagimos às contrariedades, ao oposto daquilo que gostamos e desejamos.

Sou uma orgulhosa lista-holic, gabo-me da minha organização. Para os que acham o contrário, também dou bem por maluca. Uma maluca organizada, se faz favor.

 

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19
Jul19

Faltam cinco meses para acabar o ano

Não houve maneira de fazer tudo com o preciosismo que queria e a exigência pela qual me pautei ao longo da minha vida. 2019 foi, até aqui, um ano de muitas conquistas, mas também com uma lista longa de coisas de que prescindi. Escrevi pouquíssimo, deixei de ler livros, cancelei a minha inscrição no ginásio, mal toquei piano, parei com os meus projetos relacionados com a organização de fotografias, não passei em blogs e muitas notícias passaram-me ao lado, ignorei que os fins-de-semana eram para descansar, adiei interminavelmente cafés, passei em branco muitos jantares, deixei de ir de férias com os meus pais em troca de cumprir prazos, trabalhos e ir a aulas. Houve momentos complicados. A gestão de tempo moeu-me. A pouca dedicação para coisas de que gosto foi difícil de aceitar.

Ter surgido um namorado nesta altura da minha vida não ajudou. Sofri, e ainda sofro, com a gestão que faço entre ele e tudo resto - querendo, ao mesmo tempo, estar com ele e não deixar de fazer nada. Conciliar isto com a relação fortíssima que sempre tive com os meus pais foi duro - e culpei-me muito por, durante tantos anos, ter dito que queria ficar sozinha. Não porque não acreditasse nisso, mas por sentir que não os preparei para este golpe duro que foi, de um dia para o outro, ter o meu coração dividido entre eles, de quem o meu amor será eterno, e outra pessoa. A verdade é que nem eu estava preparada, toda esta nova dinâmica apanhou-me desprevenida. Estamos todos ainda em fase de adaptação.

Mas eu queria muito que chegasse o dia em que a minha vida ia estabilizar, ter uma rotina que não implicasse prazos de trabalhos de grupo, de exames ou reuniões. Ansiei por estas férias - que, durante meses achei que não iam existir - por saber que seriam o fim de uma fase e o início de outra. Por ver nesta a oportunidade de finalmente equilibrar a balança.

Os dias de descanso estão a saber-me pela vida e, de cada vez que acordo, sinto vontade de recomeçar. Em pegar em tudo aquilo que ficou a meio, por acabar. Em voltar a fazer coisas que me fazem feliz - ler, escrever, aprender a tocar peças novas no meu piano. E arrancar com todos os planos novos que tenho em mente - e de fazer deles parte do meu dia, como fiz do curso o meu objetivo de um ano. Agora com mais força, mais completa e mais feliz. Por tudo aquilo que aprendi. Tudo aquilo que consegui. E, acima de tudo, por tudo o que conquistei.

 

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18
Jun19

O cansaço mora em mim

No 11º ano tive de ter explicações de matemática. Foi uma grande derrota pessoal para alguém que sempre quis ser independente em tudo - mesmo na arte de aprender. Era-me indiferente que os meus colegas tivessem aulas extras de todas as disciplinas e que, por causa disso, tivessem altas notas nos testes - tudo aquilo que eu conseguia era por mim própria, não tinha a papa feita por ninguém, era o meu suor e o meu raciocínio que estavam ali em peso. Sentia quase como se jogássemos em diferentes campeonatos - um com ajuda, outro sem. E mesmo não havendo vergonha em pedir auxílio, sempre foi uma bandeira que gostei de erguer - ainda hoje é assim, mesmo que seja uma parvoíce de todo o tamanho.

Por isso tenho sofrido nos últimos tempos do curso, em que a carga matemática é cada vez maior. Lembro-me muitas vezes da minha angústia algures em 2012, enquanto olhava para senos, cossenos e radianos e não conseguia digerir o que estava à minha frente. Tenho uma relação muito problemática com as coisas que não percebo. Comem-me viva.

Mas agora tenho um problema extra: se com a trigonometria ficava irritada por não saber mas descansada por ter a noção de que aquilo não seria algo essencial na minha vida, agora fico em pânico por me sentir incapaz em alguns tópicos que podem ser essenciais na gestão de uma empresa. Ponho-me constantemente em causa. 

Há dias em que eu acredito que essas dificuldades são só teóricas e altamente potenciadas pelo cansaço de um ano de curso, de muitas mudanças e de uma fase que se avizinha mais complicada para mim; mas há outros em que esses pensamentos me deitam abaixo e me convencem de que nunca vou conseguir. Olho para os outros - aqueles a quem agora tenho de pedir ajuda -, que parecem fazer aquilo com uma perna às costas, com ficheiros Excel todos bonitos e a frustração toma conta de mim. Martirizo-me por já não ter capacidade de concentração em aulas com termos económico-financeiros que não domino, por não ter ouvido com atenção, apontado melhor. Penso no dinheiro que investi, que os meus pais investiram em mim, e sinto-me gradualmente mais incapaz.

Acho que estou a chegar a um breaking point. Estou a acusar o cansaço. E preciso de férias para poder voltar a acreditar em mim e nas minhas capacidades.

29
Abr19

Crónicas de uma ex-solteira: A decisão

Vamos lá fazer isto estilo penso rápido. 1, 2, 3... Tenho namorado!

Agora que já todos recuperamos do choque (eu incluída - talvez tenha sido a pessoa com mais dificuldade em aceitar, na verdade) vou explicar o título deste texto. O "ex-solteira" é agora óbvio para todos, a parte d'"a decisão" pode não ser clara. Mas passar a ter namorado foi mesmo isso: uma decisão. Sinto que de alguma forma isto pode tirar algum encantamento à coisa, quase como se não houvesse magia e o amor não fosse lindo e essas coisas todas dos contos de fadas - mas, desculpem dizer-vos, é a verdade. Não decidi conhece-lo nem criar a ligação que rapidamente criei com ele, mas foi de forma totalmente consciente que avancei para lá disso. Pensando em todos os prós e em todos os contras, vantagens e desvantagens, medos e receios; só me faltou mesmo pesar numa balança física para me ajudar a decidir.

Isto porque quando eu dizia que não queria ter namorado não era só para fazer conversa. Quando dizia que queria ser totalmente independente, capaz de nunca abdicar de algo por não ter alguém ao meu lado, não era para me convencer a mim própria - era a atitude que eu assumia perante o mundo. E quando dizia que a vida era melhor sem aturar homens, também era algo em que eu acreditava (na verdade, ainda acredito).

Para mim, arranjar um namorado foi muito mais do que um simples "arranjar um namorado". Foi abdicar das minhas crenças, contrariar aquilo que tenho dito desde há muitos anos. E seria hipócrita da minha parte dizer que isso não me custou.

Porque a verdade é que são muito poucos os relacionamentos que eu vejo e penso: "gostava de ter uma pessoa assim ao meu lado, ter aquela dinâmica com alguém". E não se trata da pessoa ser bonita ou feia, trabalhar ali ou acolá, ter mais ou menos dinheiro. Trata-se das atitudes, da tolerância, do respeito. Às vezes, entre amigas, discutia-se o "homem perfeito". E eu não tinha como o descrever, não sabia a cor do cabelo, dos olhos, a altura, o tipo de cara ou de corpo; sabia, somente, aquilo que não queria. E, acreditem, a lista é grande. Porque assisti a muita coisa ao longo dos anos e disse a mim mesma que nunca quereria aquilo para mim; percebo perfeitamente o porquê das pessoas se manterem nos relacionamentos apesar de certas atitudes - porque já não concebem a vida sem essa pessoa, porque já estão habituadas, porque são financeiramente dependentes ou porque compreendem que foi simplesmente um dia mau - mas eu não queria (nem quero!) isso para mim. Se para ter umas coisas precisava de ter outras, como quem compra um pack que não é possível vender em partes separadas, então eu preferia estar sozinha. Sempre levei o ditado "mais vale só que mal acompanhada" muito a sério.

Já gostei de outras pessoas antes, mas sempre achei que não eram para mim - e que por isso não valia a pena fomentar coisas que na minha cabeça, logo à partida e por uma série de razões, não tinham futuro. Mas houve, neste caso, um detalhe que fez a diferença: fui sempre honesta, disse sempre a verdade. O que, atenção!, não faz de mim uma mentirosa até aqui, mas é aquilo que sempre fui: extremamente cuidadosa em exteriorizar sentimentos. Eu não mentia, só não dizia; quanto muito... fugia.

Ao aperceber-me do que se passava disse logo tudo: a minha posição perante os relacionamentos, a minha visão futura relativamente a filhos, aquilo que eu não tolerava nos outros e aquilo que possivelmente os outros não tolerariam em mim - neste último caso, fiz uma lista muitooo grande. E esperei que ele fugisse.

Ele ficou.

E eu diria que aquilo que aconteceu a partir do momento em que ele decidiu não arredar pé não foi um processo de conquista e muito menos de sedução. Foi de convencimento. De me mostrar que podia valer a pena e que as coisas são como nós as fazemos, que o nosso relacionamento não tem de ser como o dos outros: é como nós o quisermos. E eu avancei com essa premissa sempre presente: de que quando as coisas não estiverem bem, diz-se; e se depois de serem faladas não continuarem bem, ter em mente que o "para sempre" não existe e que foi bom enquanto tudo durou.

Muita gente me diz que eu não pareço nada apaixonada, que estou a ser mega racional, ficando confusas perante os meus comportamentos ou simplesmente com coisas que eu digo. A verdade é que eu detesto estar apaixonada - sempre detestei. Aquela sensação de estar na corda bamba, da nossa felicidade estar dependente de outra pessoa - deixo-a alegremente para os outros, que tanto parecem gostar dela e que a vendem quase como se da melhor lagosta se tratasse! O coração na boca, o estômago em mil bocadinhos, as mãos que tremem, o vai-não-vai, a dúvida inicial. A irracionalidade, sentir que não temos pleno controlo das nossas atitudes porque as nossas hormonas tomam conta do comando e deixam o cérebro de lado... Não é para mim. Deixa-me num sofrimento atroz, numa angústia diária (tira-me a fome, dá-me vómitos) e obriga-me a um controlo muito mais apertado das minhas ações, quase como um doublecheck para verificar que os meus comportamentos foram solicitados pelo cérebro e não por outro órgão qualquer. E por isso, quando esta sensação passou e eu pude descomprimir - ser eu! - tudo ficou melhor.

E ele continuava lá.

Não sei o que estou, nem quero saber. Se calhar é isto, a paixão, e o que sempre senti antes era outra coisa qualquer - mas, pelo que descrevem, não me parece. Se calhar isto que vivo é outra coisa, uma palavra que ninguém inventou. Mas a verdade é que não tenho necessidade de rotular o que sinto, porque não tenho dúvidas. E ele também não, que é o que mais importa.

Sei que se não gostasse dele não escreveria este texto. Sei que se não gostasse dele não teria baixado as armas, desfeito os muros e as paredes e baixado as inúmeras pontes de forma a permitir que ele entrasse na minha vida. Sei que se não gostasse dele nunca abdicaria daquilo em que acreditei e preguei durante tantos anos. Sei que se não gostasse dele, e não confiasse nele a 100%, nunca me disponibilizaria para estar nas suas mãos.

Nunca fui de ter namorados, "curtes" ou amigos coloridos. Nunca fui sequer de reparar em quem passava à minha volta. Digo-lhe muitas vezes: és tudo o que nunca quis. Porque não podemos ter aquilo que achamos não existir. E se é difícil eu apaixonar-me por alguém, impossível é eu gostar tanto assim de uma pessoa, mesmo sabendo que quem me comanda é a cabeça. Esse é "O" feito.

Devo-o a ele.

 

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