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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

01
Fev19

Um reencontro forçado - um texto do concurso de escrita criativa

Dado o feedback sobre no último texto sobre o concurso de escrita criativa, aqui vai uma das minhas participações. O mote: um reencontro entre quatro amigos, 20 anos depois de se terem visto pela última vez.

 

A sua respiração estava pesada, depois de começar a subir a escadaria. Nestes momentos lembrava-se que já não tinha quinze anos e que a idade começava a pesar – nomeadamente nas suas pernas, que se faziam sentir depois de meia dúzia de degraus.

Ao cimo, um homem estava encostado ao corrimão, abatido. Quando chegou ao topo, viu-lhe a camisa apertada pela barriga, a cabeça calva e os olhos azuis, que naquele preciso momento deixaram de ser estranhos.

- João, não me reconheces? – disse, ainda a recuperar a respiração.

- Não posso crer! Joel, aos anos! – Encontraram-se num abraço ruidoso, por entre as palmadas características de quem não se vê há demasiado tempo. – Como estás?

- Pergunta mais “como estamos”. Velhos, pá. E gordos, olha só para ti… para nós! – respondeu, arrependendo-se logo do que dissera, esquecendo-se que já não estava a falar com o amigo de antigamente.

- É verdade… Enfim, pena encontrarmo-nos nesta situação. Como é que soubeste? – perguntou João.

- Li no jornal. Quis vir cá vê-lo. E tu?

- Também. É assim a vida… Está lá dentro o Manel, encontrei-o há pouco.

Entraram na sala escura e Joel sentiu um misto de sentimentos. Que bom era voltar a estar na mesma sala com quem partilhava as suas raízes; que triste ser esta a ocasião. Lá estavam os quatro, de novo, vinte anos depois. Os seus três melhores amigos da primária: João, o aventureiro; Manel, o dono da casa com o melhor quintal da vila; e o Carlos, o autor das histórias mais memoráveis. Que saudades tinha daqueles tempos, em que jogar à bola e saber quem seria a vítima das próximas tropelias era a maior das suas preocupações.

Hoje, arranjar flores foi o seu principal problema. Não podia deixar de se despedir do seu velho amigo.

31
Jan19

A minha experiência num concurso de escrita criativa

A minha irmã diz que eu entro em tudo para ganhar - quem a ouvir, quase pensa que sou uma fera competitiva! Mas a verdade - aliás, a minha verdade -, é que gosto de dar o meu melhor em tudo o que faço. No entanto, entendo perfeitamente que se devem escolher as batalhas em que lutamos, porque ser-se bom a tudo é perfeitamente irrealista. Por exemplo: se eu, algures no secundário, ficasse chateada por perder todos os jogos que fazia em educação física, era hoje um pessoa em profundo estado de depressão.

Foi então com este espírito que me inscrevi, o ano passado, num concurso de escrita criativa. Nunca foi meu objetivo ganhar (até porque o prémio - publicar um livro - não me interessava, visto que não tenho nada escrito para publicar...), mas fi-lo pelo gozo da participação e para testar os meus próprios limites no que à escrita diz respeito. Isto porque, apesar de adorar escrever, sinto que não consigo sair muito deste meu registo pessoal e introspetivo, que resultam numa espécie de crónicas ou artigos de opinião, o que pode ser um grande entrave para um dos meus grandes sonhos, que é publicar um livro de ficção; sempre achei que a minha capacidade de imaginar histórias e narrativas que extravasassem a minha vida era muito limitada, e isso entristecia-me. E por isso atirei-me ao desafio, para ver se conseguia pensar fora da caixa.

Acho que nesse aspeto consegui superar-me, embora com algumas dificuldades. Eram-nos dados temas todas as semanas, que tinham depois de ser explorados em textos muito curtos, que de alguma forma tinham de contar uma história com princípio, meio e fim. Se adorei? Confesso que não, embora a culpa não seja tanto do conteúdo do concurso mas sim da sua forma. Vou elencar algumas das coisas que fui achando:

 

- Textos muito curtos, embora explorem a capacidade de síntese de quem escreve, são quase sempre redutores no desenvolvimento de uma narrativa. Se queremos contar a história toda, temos de cortar nos detalhes; se queremos dar detalhes, temos de sacrificar a história. É um meio termo muito difícil, ainda para mais quando a nossa escrita está a ser avaliada. Percebo que é importante para quem avalia impor uma medida pequena para que seja mais fácil a leitura, mas acaba por sacrificar um pouco o conceito do próprio concurso.

 

- Sinto que a avaliação não espelhava a qualidade dos textos e não os diferenciava entre si. Com isto não quero dizer que me tenha sentido injustiçada ou ache que os meus textos eram melhores que os dos outros; a questão é que todos eles - os meus e os dos outros - eram avaliados de forma praticamente igual. A escala de pontuações era de um a 20 - no entanto, era quase tudo despachado de 13 a 16. Faz lembrar aqueles professores que nunca dão 20, porque nunca ninguém chegará a atingir esse nível de genialidade. Acho que se há uma escala, é para ser usada em toda a sua dimensão, sendo que a partir do momento em que nos assumimos como avaliadores, não devemos ter medo de dar nem pontuações baixas, nem pontuações altas. Dar sempre 13, 14, 15 e 16, como dizia o outro, é "peanurs".

 

- Por fim, e ainda no campo da avaliação - e confesso que isto foi das coisas que mais me desmotivou -, o facto de me ter apercebido que ganhavam sempre as mesmas pessoas. Não vejam isto como mau perder da minha parte ou mesmo uma insinuação de qualquer espécie: mas eu acho estranho que, num concurso de escrita, ganhem quase sempre os mesmos. Escrever não é como na matemática, em que sabemos ou não sabemos; na escrita, há dias em que estamos menos inspirados, outros em que o tema não nos diz tanto, e ainda outros em que o estilo da narrativa que nos exigem não é a nossa praia. Acho difícil, num concurso com temas tão diversos, que as melhores pontuações sejam sempre para os mesmos. Percebo que se possa gostar mais de um estilo de escrita do que de outros, revelando aí já alguma tendência, mas que nesses casos deve ser atenuada com racionalidade extra e sensibilidade ao ponto de percebermos que um texto é bom e está bem escrito, ainda que não seja o nosso estilo de eleição.

 

E então o que é que retirei de tudo isto? Primeiro, que sou capaz de escrever outras coisas para além das que partilho aqui - embora sejam estas, sem dúvida, que me dão mais gozo (para além de serem as mais puras e as que mais me libertam a mente). Segundo, que me importo pouco se as pessoas gostam ou não daquilo que eu escrevo, a partir do momento em que me sinto confiante com aquilo que fiz.

A verdade é que produzia sempre aqueles textos sob pressão - de tempo e de número de palavras - por isso nunca pude mesmo dar vida a uma ideia, conforme teria gostado. Achei alguns dos temas interessantes e que teriam pano para mangas, se houvesse mais liberdade para os explorar - e com isto consegui perceber que até consigo desenvolver ideias e personagens, ainda que sempre um tanto ao quanto rebuscadas, o que me deixou mais descansada em relação ao futuro (embora a minha família tenha ficado um bocadinho preocupada em relação às minhas ideias mirabolantes, que eu por vezes partilhava à hora de almoço, para seu grande regozijo ou horror, dependendo dos casos). Não acho que vá voltar a participar em algo deste género, por me sentir demasiado restringida, mas acho uma ideia gira para quem quiser alargar os seus horizontes, criar hábitos de escrita ou até sair de uma crise de página branca. E, quem sabe, até pode ser o início de um bom livro.

(querem que publique aqui um dos textos que escrevi, só para terem uma ideia do que saiu dali?)

24
Jan19

A escrita tem um timing próprio

Não deixa de ser irónica a história deste post. Lembro-me bem do dia em que o comecei a escrever: 15 de Novembro de 2018, rabo alapado no chão frio da copa da minha cozinha, enquanto esperava que a Molly tivesse os seus filhotes (agora tenho-a atrás de mim, a aturar um deles enquanto este lhe morde as orelhas por diversão).

Dizia eu, nessa altura, que me tinha apercebido que a escrita tem o seu tempo próprio e muitas vezes não funciona fora dele. Tenho a agenda cheia de temas para desenvolver aqui - coisas que aponto quando me lembro, mas que na altura não tenho tempo para escrever ou cuja ideia sinto não estar suficientemente madura para eu me debruçar totalmente sobre ela. E lá vai, mais uma, apontada a caneta azul turquesa ou rosa choque, ter com tantas outras que se ajuntam tristemente à espera da sua vez.

Quando finalmente tenho uma hora para estar em frente a uma página em branco, mesmo olhando para aquela página colorida com todos os tópicos quase a gritar "escreve-me!", nada sai. Já passou. Porque quando tive essa ideia estava num determinado local, com um diferente mind set, num enquadramento temporal distinto - e é impossível reproduzir de forma fidedigna essas circunstâncias, de forma a pôr alma e sentimento no texto. A oportunidade foi perdida.

E por isso cada vez percebo mais que, quando uma ideia surge, é agarra-la, sem desculpas. O meu conceito de liberdade e de qualidade de vida passa também por aqui: poder parar para pensar e escrever. Ter um trabalho que me permita faze-lo e, depois, arranjar a força de vontade para usufruir de tal - sim, porque nem só de falta de tempo se fazem as desculpas para não escrever durante dias a fio. 

Voltei a lembrar-me deste texto que tinha nos rascunhos quando, há dois dias, escrevi o último post, "Ainda há blogs com gente dentro". Gostei muito do resultado final - e, pelo feedback, vocês também - e isso deve-se em grande parte por não ter deixado a escrita para depois. Nunca aquele texto teria saído assim se eu não pudesse, na hora, descrever tudo aquilo que senti e me passou pela cabeça naqueles instantes. É a transmissão mais pura e sem filtros daquilo que vai dentro de mim, algo que acaba por não acontecer quando as ideias estão muito tempo em banho-maria. Há vantagens em pensar sobre as coisas (principalmente críticas e coisas mais sérias, que possam pôr em causa o nome de outros), mas não há dúvida que muito do que se ganha em construção de texto e maturação de ideias ao não escrever um texto na hora, perde-se muitas vezes em espontaneidade.

Isto para não falar das ideias que morrem no momento em que não são escritas. Porque como em tudo, há coisas que não sobrevivem fora do seu meio natural - e toda a gente sabe que as palavras são para viver no papel (ainda que papel virtual, como este aqui).

 

Serve portanto este post como uma espécie de walk of shame. Um texto sobre espontaneidade e a volatilidade das ideias, escrito dois meses depois da data em que devia ter sido publicado - que moral, hun?! Isto para não falar do facto de ter dado três vezes mais trabalho do que daria se tivesse sido escrito na íntegra na altura, ao invés de estar a fazer corta-cose entre as partes recentes e mais antigas do texto. Ouviste, Carolina?

09
Jan18

Então e o livro, quando vem?

De vez em quando recebo emails e comentários - ou o tema surge mesmo em conversa com pessoas – a perguntar quando é que vem um livro. Quem me conhece sabe que este é um dos meus maiores sonhos, é uma coisa que eu quero muito fazer, mas quero faze-lo bem. A minha resposta é: “é muito cedo”. E sim, é verdade que hoje em dia há muitos jovens autores, como também é verdade que grandes nomes da literatura só lançaram as suas primeiras obras quando a sua idade já era um posto.

A minha mãe sempre me disse que só há uma forma de fazer as coisas: bem. E eu não acho que tenha maturidade suficiente para escrever um livro. Mas, mais grave que isso, não tenho sequer uma história. Podia dizer-vos que quero dar tempo ao tempo, que neste momento não tenho disponibilidade, que não estou suficientemente segura da minha escrita… tudo isso, que até pode ser verdade. Mas, acima de tudo, uma das razões que me leva adiar este sonho por mais uns anos é o facto de até hoje nunca me ter surgido uma história que eu quisesse contar.

O meu cérebro e a minha vertente literária funcionam, pelo menos para já, na perspetiva de crónicas: pegar em temas do dia a dia e esmiúça-los, passa-los para palavras, explica-los, faze-los ter piada ou ganhar expressão. É raríssimo eu olhar para alguém ou ter uma ideia qualquer e fazer disso um fio condutor para uma história de ficção. Não sei se isso é algo que ainda não cresceu em mim ou se, de facto, não faz parte daquilo que sou. Confesso que esta ultima perspetiva preocupa-me: e se eu não nasci para escrever ficção? Se eu não conseguir manter vivas personagens dentro de mim, dar-lhes uma história de vida e faze-la acontecer no papel? Acho que só o tempo o dirá.

Mas, dizem os outros, até podia lançar um livro de crónicas. Poder, podia, mas não era bem a mesma coisa. Podia lançar um best of com o que escrevi aqui – como muitos bloggers fazem hoje em dia – mas, sinceramente, não é uma ideia que me agrade. É verdade que a comida aquecida no micro-ondas continua a ser boa se a comida inicial também for boa, mas perde-se o elemento surpresa. Não sei quanto a vocês, mas eu não gosto muito de ler a mesma coisa duas vezes. É como comida requentada – eu como-a porque tenho fome, preguiça, não quero dar trabalho e causar desperdício. Porque, se pudesse, faria algo diferente e não perderia tempo com coisas antigas. E os textos requentados, para mim, perdem a piada.

Podia era escrever crónicas novas. Podia. Mas a verdade é que não é bem esse o livro que eu um dia gostava de publicar. E sinto que, nesta fase, lançar um livro seria só mesmo pelo ato simbólico em si e seria só mais um, como agora há milhões. Toda a gente acha que pode escrever um livro – e eu acho bem que exista essa liberdade, mas tenho pena que as pessoas não tenham sentido crítico suficiente para perceber que o papel ali gasto não vai acrescentar nada ao mundo. E eu não quero ser mais uma. Posso não ter a obra mais apreciada pelo público ou pela crítica; ter apenas quatro livros vendidos (um pelos meus pais, e três pelos meus irmãos): mas seria apreciado por mim e eu lançá-lo-ia de consciência tranquila, pensando que segui aquilo que sempre quis e fiz o meu melhor para a época.

Se a vida correr o seu caminho eu terei muitos anos para escrever livros e cumprir o meu sonho. Não quero pôr a carroça à frente dos bois; não quero pagar uma fortuna só para ter o ego cheio; não quero contribuir para esta época de esvaziamento da literatura; não quero fazer só por fazer. E isso pode ser daqui a dois anos ou daqui a trinta. Só o tempo o dirá.

21
Dez17

Uma loja de porta aberta (ou "o tipo de artigos que gosto mesmo de escrever", ou ainda "o início de uma nova rubrica")

Uma das coisas que mais gosto de ler são revistas ou artigos recheados de sugestões e produtos. Adoro conhecer novos gadgets, marcas novas, roupas giras, ideias inovadoras – não meramente os seus preços, como aparece nas revistas de moda, mas o que está por detrás de tudo aquilo. Há quase sempre boas histórias e boas justificações escondidas atrás das boas ideias, de bons produtos, de bons projetos e de bons espaços e conhece-las é um dos meus maiores hobbies.

Acho que a única forma de ser feliz no jornalismo era a fazer isto: dar a conhecer projetos, start-ups, empresas e ideias inspiradoras, fazendo inspirar os outros. É um modelo que me atrai e, se também gostam, aconselho vivamente a que comprem o Observador Lifestyle – que para além de estar graficamente incrível e de ser feita por aquele que é, para mim, o melhor jornal online deste país, foi quem me deu a ideia para este texto, que não é bem um texto, mas o início de uma rubrica.

Já foram várias as pessoas que me pediram para mostrar algumas coisas que eu escrevo no âmbito do meu trabalho. Eu nunca mostrei (com uma exceção, se a memória não me falha) não por ter vergonha ou por não querer que vejam, mas por achar que muito daquilo que escrevo e faço não tem interesse para um público “comum”; para além disso, a maioria dos caracteres que saem das minhas mãos são notícias breves e internacionais que já leram em tantos outros sites, que em nada denotam a minha capacidade ou estilo de escrita.

Mas ao folhear essa revista do Observador lembrei-me que há uma rubrica do jornal onde trabalho, que está sempre a meu cargo, que talvez alguns de vós possam gostar de ler. Por ser um bocadinho ao estilo daquilo que falava acima – dar a conhecer projetos bonitos – é talvez o meu espaço preferido no jornal, onde posso ser mais “eu” enquanto escrevo, trazendo sempre conteúdos exclusivos, porque vou sempre conhecer os sítios e falar com os seus proprietários. Trata-se de um espaço onde eu dou a conhecer lojas diferentes – maioritariamente localizadas no Porto -, contando a sua história e um bocadinho do que se pode encontrar lá. Assim matam um bocadinho e a curiosidade e eu tenho a hipótese de ter algum feedback, coisa que normalmente não obtenho com facilidade. Parece-vos bem? Em breve mostro o primeiro texto.

(Até lá, vão comprar a revista do Observador antes que esgote.)

 

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14
Jan17

E tu, que queres ser quando fores grande?

Quando somos pequeninos perguntam-nos o que queremos ser quando formos grandes. Eu tenho para mim que a maioria das vezes respondemos aquilo que gostamos de fazer, os nossos hobbies. Não é por acaso que 90% dos rapazes respondem que querem ser jogadores de futebol e que muitas das meninas dizem querer ser princesas e outras tantas veterinárias - ora porque gostam das barbies e dos desenhos animados da Disney ora por adorarem animais. 

A ideia não está errada e acho que nós seguimos a nossa vida profissional também à base daquilo que gostamos de fazer (mal fora, não é?). Quem gosta muito de computadores vai para engenharia informática, quem adora animais vai para veterinária, quem gosta de tratar dos outros vai para médico e por aí fora. É claro que isto é uma ideia generalizada, uma vez que há outros fatores que mexem com as nossas decisões relativamente às nossas profissões (coisa que não acontece quando somos pequenos): muitas vezes seguimos as pisadas dos nossos pais, outras fazemos escolhas porque não temos escolha ou então seguimos outros argumentos como a empregabilidade ou o dinheiro. Ainda assim, acho que tentamos sempre conciliar tudo isto com os nossos gostos pessoais, porque ninguém quer ser pró em algo de que não gosta.

Eu claramente escolhi um hobbie como profissão. Ando a refletir nisto porque, primeiro, escolhi algo que tem muitas fases; a realidade é que eu nem sempre escrevo bem, nem sempre me sinto inspirada. Há dias em que eu fico a olhar para a página branca e nada sai - mas, bolas, tem de sair, porque é o meu trabalho! Só me dei conta disso um par de meses depois de ter começado, numa vaga de pura desinspiração - escolhi algo que não é "pão pão, queijo queijo", que não tem certo nem errado, que não é matemático, que depende imenso do meu estado de espírito. E isso é um risco, principalmente quando a boa execução do nosso trabalho depende disso.

E depois há outra questão: eu transformei o hobbie da minha vida no meu trabalho - e quando isso acontece, isso deixa de ser hobbie. Isto parece uma verdade parva de La Palice, mas tem que se lhe diga. Ainda há dias, enquanto ouvia a entrevista da Raquel Tavares para o Alta Definição, ela dizia algo como "o meu amor é o fado, mas a paixão da minha vida é a dança; eu amo cantar, mas as pessoas pagam-me para eu o fazer - já não sou livre de errar, de o fazer livremente, porque tenho expectativas para corresponder. Na dança não - posso dançar como quiser, porque sou livre e não tenho de dar justificações a ninguém" (não citado à letra). E eu só pensei - "é tão isto!". 

Nos últimos 5 meses escrevi mais do que nunca e apesar de em nenhum momento me ter arrependido da escolha que fiz, a verdade é que isso mudou o meu olhar sobre a escrita. Continua a ser aquilo que eu adoro fazer, aquilo que me preenche, mas agora há todo um lado que antes não tinha: o da responsabilidade, o de "liberdade aprisionada". Antes, escrever era a minha cena. Agora, escrever não só é a minha cena como é o meu trabalho. A sorte é que tenho a escrita "off-duty" e a escrita "on-dutty" que, em conjunto, me enchem as medidas e acabam por se compensar mutuamente, fazendo com que dificilmente o lado "hobbie" se extinga por completo.

E daqui se concluem duas coisas: que não tenho dúvidas de que escrever é mesmo um amor para a vida, a minha vida, a escolha certa; e, caraças!, que sou mesmo uma sortuda.

28
Dez16

Mãe, estou na revista!

Estou de volta, depois do furacão natalício e sua consequente ressaca, que me fez dormir durante uma tarde inteira como já não dormia desde o meu primeiro ano de faculdade, quando parecia ter sido ferrada pela mosca tse-tse. Espero que esse Natal tenha sido bom, que o Pai Natal tenha sido generoso e que as férias (se for o vosso caso) vos estejam a saber pela vida, porque por aqui trabalha-se e eu já tenho uma série de posts programados para sair. Preparem-se para uma avalanche de balanços, reflexões e coisas que tais sobre 2016, porque o meu cérebro já não aguenta conter isto por muito mais tempo.

Mas adiante. Para já, quero contar-vos uma novidade boa! Há uns meses recebi um convite da revista "I Like This" para escrever um artigo de opinião sobre a Finlândia, o país que ia ser alvo da 15ª edição desta revista trimestral. Admito que não a conhecia, mas fui pesquisar e aceitei prontamente o convite - porque se gosto de escrever só por si, escrever sobre viagens é um autêntico bónus. Avisei à partida que não tinha estado muito tempo na Finlândia e que queria ser o mais sincera possível em tudo o que dissesse, porque sempre admiti que este não foi um país que me tenha deixado de queixo caído. Correu tudo bem e tudo o que lá está é a perceção real e verdadeira que tive naquelas poucas horas em solo finlandês.

Escrevi e enviei o artigo e as fotos - e agora voilà, já estão espalhados pelas bancas de todo o país. Não escondo que estou super feliz - o artigo é pequenino, mas é aquilo que há vários anos desejo fazer: escrever para contar e partilhar experiências com os outros. Ver algo meu numa revista tão bonita (que é mesmo, tem capas fantásticas e um design muito apelativo e fácil de ler) aquece-me o coração e faz-me ver que é por aqui o caminho.

Eu já comprei a revista - vou guarda-la com todo o carinho e amor na minha caixa de recordações - e vocês podem fazer o mesmo se tiverem curiosidade sobre a Finlândia. Caso contrário (ou caso simplesmente queiram ler o que lá escrevi) podem clicar aqui.

 

Obrigada à I Like This pelo convite!

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11
Dez16

Acabei um caderno, whowww!

Há coisas nesta vida que são difíceis de acabar. As borrachas, por exemplo: quantas borrachas é que eu tive ao longo dos meus anos de escola e quantas é que eu substitui por, de facto, já estarem tão pequeninas que já não serviam para nada? Umas zero, mais coisa menos coisa. Entretanto perdia-as ou alguém brilhante decidia cortar-mas aos bocadinhos ou outra razão parva assim parecida. Eu lembro-me de já ser mais velha e olhar para uma borracha pequenina e encher-me de orgulho por todo o esforço (e trabalho implícito) que aquilo implicou, mas acho que mesmo essa teve uma morte precipitada.

Outra exemplo são os elásticos do cabelo. Nós não deixamos de os usar porque eles rebentam ou porque estão em fim de vida: é porque os perdemos. Os lápis a mesma coisa - sim, há aqueles casos raros em que os lápis parecem miniaturas, mas a maior parte das vezes ficam perdidos no fundo das mochilas ou em estojos antigos, ou simplesmente mudaram de dono à custa de um "empréstimo" inocente.

E depois há os cadernos. No meu caso em particular não se trata de os perder, é mais o facto de gostar tanto de ter sítios por onde escrevinhar que não resisto em saltitar de uns para os outros e nunca os acabo. No fundo, sou uma salta-pocinhas no que diz respeito aos blocos de notas. Não são só aqueles que compro (desculpem, não resisto...) ou os que vêm de oferta (que não são tão giros, claro), mas ainda por cima há imensa gente mos oferece, porque sabe que são coisas que me deixam SEMPRE feliz da vida. Isto resulta numa pilha de cadernos, caderninhos, cadernões, com folha lisa, quadriculada ou pautada, com e sem elástico, com papel reciclado ou normal. Há toda uma panóplia por onde escolher e a maioria deles têm meia-dúzia de páginas escritas e as outras estão deixadas ao abandono. Porque a verdade é que eu adoro cadernos e escrevo de facto muito... mas no computador. Pelo menos até agora. 

Felizmente o meu trabalho veio mudar esse panorama e eu agora escrevo, finalmente!, em blocos de notas. Dá-me jeito ter sempre sítio onde escrever, apontar respostas, números de telemóvel, coisas que me faltam fazer quando a agenda já não tem espaço. Enfim, em resumo: ESCREVO! E portanto estou a começar a dar vazão à minha pilha de blocos e hoje posso gritar ao mundo que, finalmente - e após tantos anos como acumuladora-compulsiva-de-cadernos - ... acabei oficialmente o meu primeiro caderno não-escolar!

Este, por acaso, é particularmente especial, porque imita uma claquete (daquelas dos filmes); comprei-o na altura do Fora da Caixa, porque achei que se adequava perfeitamente aquela fase e àquele propósito. Usei-o para esses meses do programa de televisão, depois ainda serviu como sebenta para os apontamentos do curso de fotografia e agora finalmente para estes meus primeiros quatro meses de trabalho. Todas as páginazinhas ocupadinhas, escritas, rabiscadas e com gatafunhos para dar e vender. Um regalo para a vista, é o que é.

E é isto. Consegui, oficialmente, acabar um caderno. Epá, não há como não estar orgulhosa.

22
Nov16

Momentos de mesa de cabeceira

O momento em que em deito é, normalmente, um momento de reflexão do meu dia. Passo fases em que estou extremamente cansada e caio direta para um sono profundo, mas agora estou outra vez numa época em que, quando me deito, demoro um bocadinho a adormecer e penso em tudo um pouco. Como correu o meu dia, o que devia ter feito e não fiz, o que devia ter respondido naquela determinada discussão, o que vou comer no dia seguinte (sim, eu adoro comer)... de tudo um pouco. É aqui neste limbo entre o sono e o acordada que também escrevo mentalmente muitos dos meus textos e que tenho algumas ideias para temas para o blog.

Confesso que, antigamente, isto de estar na cama a pensar na vida me acontecia mais vezes, agora nem tanto. Ainda assim, quando acontece, tenho em muitas ocasiões a capacidade de me lembrar das coisas no dia seguinte. No entanto, quando acho que o meu texto imaginário está a fluir particularmente bem, lá tenho eu que sair daquele estado meio hipnótico, ligar a luz, abrir a cabeceira, pegar em papel e caneta e começar a escrever, para não ter o risco de ficar sem aquela tirada brilhante.

A minha irmã, sabendo disso, ofereceu-me há uns tempos um bloco de notas intitulado "Momentos de mesa de cabeceira", com muitas páginas com desenhos super giros e fofos, com espaço para escrevermos e desenharmos o que nos vai na alma antes de adormecermos ou logo depois de acordarmos. Só há um par de dias é que lhe dei uso, depois de sentir mesmo a necessidade de escrever um pedaço de texto que tinha na cabeça, mas não deixo de achar a ideia absolutamente genial. Acredito que não seja só eu que tenho boas ideias naquela fase pré-sono, por isso este livrinho preenche de facto uma necessidade, ainda que da forma mais querida que já vi (podia ser só um bloco branco e feio, mas é muito mais especial que isso).

Quando no outro dia o abri para escrever, lembrei-me que podia ser giro partilhar convosco, uma vez que muitas das pessoas que me lêem também escrevem. E já que o Natal está aí à porta, talvez seja um ideia gira. A minha irmã comprou-mo numa loja na Rua de Cedofeita mas, segundo as minhas pesquisas, penso que também existe na Fnac.

 

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18
Nov16

A escrita é como um divã do psiquiatra

Desde que me conheço que sou introvertida, fechada e que tenho muita dificuldade em falar com os outros. Tenho vindo a melhorar, principalmente em conversas de circunstância, mas é-me muito complicado deixar que entrem na minha esfera privada, partilhando pensamentos mais profundos ou - o pior de tudo - sentimentos de todos os géneros.

Durante muito tempo guardei tudo para dentro de mim, qual panela de pressão. Acho que não explodia, mas como havia uma ebulição constante, não era feliz. Considero que não tive uma adolescência difícil (e muito menos uma infância infeliz!), mas carrego muitos problemas dessas fases da minha vida - houve momentos e situações que me marcaram profundamente, que me mudaram enquanto pessoa e que potenciaram aquelas características de que falei acima. Principalmente a nível social; acho que todos os problemas que tenho de interação com outros vieram desses primeiros anos de vida.

Apesar de ter melhorado a muitos níveis e de já conseguir partilhar algumas coisas com pessoas próximas, há muito que fica por dizer. Não me conhecem e, como escrevo aqui todos os dias, até posso parecer uma tagarela - mas acho que, a não ser em dias especialmente iluminados ou quando há muito para dizer em pouco tempo, me posso considerar uma pessoa caladinha. Mas é mesmo aqui, neste blog, que afogo as minhas mágoas e deito tudo cá para fora. Quer dizer, quase tudo. Há coisas que o meu filtro interno não deixa nem nunca deixará passar, mas tenho a noção de que passei a ser muito mais "leve" a partir do momento em que comecei a escrever.

Evito falar sobre assuntos muito sérios e pesados - e, acreditem, há "issues" que tenho que se espelham em coisas bem negras. No entanto, dou por mim a desdramatiza-los em posts normais, em tiradas que às vezes até podem passar ao lado dos comuns dos mortais. São frases que vêm diretamente do meu âmago, lá bem do fundinho do meu ser e que representam assuntos muitas vezes guardados a sete chaves, para não haver hipóteses de me assombrarem por mais tempo. Ontem, por exemplo, escrevi:

"Sei que tudo isto remonta a muitos problemas que tenho e tive: eu sempre fui um desastre a educação física, sempre fui gozada, sempre fui a última ser a escolhida para as equipas, sempre fui a menina que fica no banco de substituição, sempre fui aquela que fica com o professor porque não tem par ou que fica num trio, a "incomodar" os outros dois. Estas "brincadeiras" deixam marcas - e não são superficiais."

Foi no contexto de um texto banal, ainda que o assunto me magoasse. Esse parágrafo surgiu como surgem todos os outros, naturalmente, mas dei por mim a chorar enquanto teclava e relembrava todos os anos em que passei por isto e em que "engarrafei" toda a mágoa que aqueles atos simples do dia a dia me causavam. Mas assim, tão simplesmente, tornei o assunto em algo mais ou menos normal, dando-lhe menos valor.

Abri essa gaveta, arejei-a, fechei-a. E ao abri-la assim tão naturalmente, fiz com que se esvaziasse, perdesse peso - e de todas as vezes em que isso acontece, sinto-me inevitavelmente mais leve. A melhor parte é que o faço respeitando os meus tempos - os tempos certos -, de forma natural e sem ser a ferros, puxados por conversas que me magoariam invariavelmente. Este blog é o meu psiquiatra interno e esta cadeira onde agora me sento é o meu divã. Não pode haver melhor.

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