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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

06
Jun20

Ter ou não ter filhos: eis a questão

Devem ser muito poucos os temas que considero serem centrais na minha vida e que eu, durante estes nove anos, não tenha abordado no blog. Mas há um que, se a memória não me atraiçoa, eu fui desviando sempre: os filhos. Fi-lo porque não queria deixar aqui registada uma opinião (ou um conjunto de pensamentos) de que, no futuro, me pudesse vir a arrepender. Mas os anos passaram-se e nada mudou. E esta é uma questão que sempre tomou uma certa (des)proporção na minha vida precisamente por eu ter uma postura disruptiva em relação à maioria dos que me rodeiam.

Eu nunca quis ter filhos.

Não me lembro de, em nenhuma fase da minha vida, os querer ter tido - nem mesmo quando não sabia o que isso implicava (e falo desde a sua concepção, passando pelo nascimento e terminando na educação de uma criança). Recordo-me de brincar (poucas vezes) com nenucos, com as minhas primas, e de não lhes chamar filhos. Eu não queria filhos. Nunca quis. Ainda hoje não faço questão de os ter.

"Isso passa-te".

"Nunca digas nunca".

"Com a idade vais ver que queres."

Quem está nos meus calcanhares sabe que são estas as frases que preenchem a nossa vida, no que a este tema diz respeito. Sobre isto todos se tornam leitores da sina: todas as pessoas sabem o nosso futuro, como se não existissem excepções à regra. Como se não houvesse, de facto, pessoas que não queiram pôr crianças no mundo.

A sensação é de incompreensão total. 

Tudo isto piora quando se está numa relação estável e, a olho nu, todas as condições estão reunidas para que o casal possa finalmente procriar. São chamados os "três estágios de perguntas-de-tias" - sendo que, hoje em dia, o segundo se vai saltando com alguma frequência. Quando se está solteiro a pergunta é sempre a mesma: "então e namorados, nada?". Já quando se arranja namorado todas as atenções se viram para o nosso anelar - "estamos à espera de casório!!!". Se a segunda fase for ultrapassada (por questões religiosas, monetárias ou, simplesmente, por teimosia dos visados), chegamos ao terceiro estágio: "então e bebés?!?!?!". 

Se a pressão é enorme para todos os que estão nesta fase, pior é para aqueles que têm um desejo diferente da maioria e que ousam dize-lo em público. "Eu não quero ter filhos". A frase é seguida por olhares reprovadores ao longo de toda a mesa, de julgamentos mentais e, acima de tudo, de desprezo para com os "pobres coitados que ainda não sabem o que querem e que, com a mania que vão mudar o mundo, ainda o dizem em voz alta". Afirmar que não se quer ter filhos é ainda hoje visto como uma afronta àquilo que é o propósito da vida. É uma coisa de adolescente revolucionário. De quem ainda não cresceu o suficiente para não sentir o chamamento. 

O problema é quando a idade passa e nós mantemos as nossas convicções. É o meu caso. Fui esperta o suficiente para adotar um discurso que, ainda que honesto, fosse flexível o suficiente para um dia mudar de ideias: sempre disse que, apesar de não ter o desejo de ter filhos, a possibilidade ficaria em aberto se encontrasse alguém que quisesse dar continuidade à família. Como via a minha vida como um caminho solitário, solteira, nunca foi uma preocupação - mas, entretanto, encontrei a pessoa ideal para mim. De tudo o que fomos falando - e isto aconteceu logo numa fase inicial -, este sempre foi o nosso único ponto de discórdia. Ele, um autêntico encantador de crianças, gostava de ter filhos. Eu fui sempre clara no meu desejo "anti-natura" e quis que ele soubesse que isto era um problema - e se ele fizesse questão de ter herdeiros, então eu preferia que cada um seguisse a sua vida. A decisão é hoje óbvia: estamos juntos. Como sempre disse - e não menti - a possibilidade está em aberto. Mas transformou-se num monstro que me persegue de cada vez que alguém me vem com o terceiro estágio do discurso-das-tias ou até pelo simples facto de ver o meu namorado a interagir de forma carinhosa com uma criança.

Sinto-me culpada. Culpada por, eventualmente, o privar de uma coisa que ele deseja. Culpada por ser assim, "diferente"; por pensar tanto no assunto, por racionalizar uma coisa que a grande parte das pessoas olha de um ponto de vista emocional. Eu não quero ter filhos porque não me agrada a ideia de uma gravidez - não gosto sequer de pensar na mudança de corpo e na bomba atómica hormonal em que ele se transforma. Detesto a ideia do parto. É-me totalmente estranha a romantização da amamentação. Porque dispenso a privação de sono, a privação de momentos só para mim, a privação de momentos a dois. Porque não me atrai a ideia de ter alguém ao dependuro durante todo o dia, dependente de mim a 100%; porque não gosto de pensar que não posso ir de férias para o outro lado do mundo porque não vou pôr a criança num avião durante 21 horas. Porque, ao contrário de muitos, para poder fazer tudo isto de que me vou privar, não quero deixar um filho - uma decisão minha, uma responsabilidade minha, um dever meu - à mercê de outros (ainda que família) que não têm de levar com uma criança aos berros e limpar cocós só porque me apetece ir passear. Porque não gosto do risco de pôr um ser no mundo que, por muito boas intenções que eu tenha e boa educação que lhe dê, pode vir a ser um traste. Porque nem sequer gosto particularmente de crianças. Porque me agonia a ideia de viver para alguém, dedicar-lhe a minha vida, e passado vinte e poucos anos ele me dizer que quer ir de erasmus para ter novas experiências e conhecer novas pessoas.

Percebem a ideia?

Não há nada na ideia de ter um filho que me agrade. Posso listar uma série de razões pelas quais gostava de ter crianças - mas nenhuma delas me envolve a mim. É sempre a pensar nos outros - na alegria e no prazer que lhes daria ao ver crescer a família. E, para mim, acima de tudo... ver nascer um pai. 

Muito para além dos medos físicos que possa ter (sim, estamos a falar do parto) o maior tem que ver com a parte psicológica. Há outros que nem sequer se colocam: não tenho medo de não amar o meu filho, de não conseguir cuidar dele e educa-lo; não tenho medo do acréscimo de responsabilidade. Tenho a certeza de que o faria bem. Mas tenho um pavor colossal de que o papel de mãe faça de mim uma pessoa infeliz. Tenho a certeza absoluta que há muitas mulheres com filhos que não são felizes naquele papel - mas também sei que a maioria não consegue ser racional o suficiente para o perceber ou pelo menos entender a razão do problema. Também sei que, quem o sente, não o diz - afinal que tipo de mãe é que diz uma coisa dessas? Que ingratidão é essa, ter o privilégio de deitar um ser ao mundo e não usufruir de tal coisa? Quem é esse "ser horrendo" que admite que era mais feliz antes de ter filhos? Quem é que consegue ser tão racional ao ponto de amar um filho até às entranhas mas saber que ele não veio alterar a sua vida para melhor? É um paradoxo gigante para o qual não estamos preparados. É um julgamento pessoal demasiado pesado para se conseguir lidar - e muito menos aceitar. E é uma dor que acresce às outras, numa pessoa que já se encontra só por si dorida e frágil na posição que se encontra.

Cheguei à idade que sempre achei que seria a ideal para procriar: porque o corpo recupera bem, porque sou nova e tenho mais capacidade para lidar com a falta de sono e os problemas normais que surgem quando se tem um bebé. Fui uma filha tardia, ambos os meus pais com mais de 40 anos na altura, e sempre disse a mim mesma que, se um dia me tornasse mãe, não gostava de os ter assim tão tarde - tão simplesmente porque sinto na pele as consequências de ter pais mais velhos e detesto a ideia de os poder perder ainda em tenra idade. Costumo dizer que, comparado com os meus irmãos, terei eternamente menos anos de convivência com os meus pais - tudo porque eles me levam um belos anos de avanço; eles ficarão inevitavelmente com mais memórias, porque passaram com eles mais anos de vida. E eu não quero que, para os meus filhos, isso seja uma questão.

Tenho tentado procurar respostas com base na experiência dos outros - mas são poucas as pessoas que me interessa ouvir. Apesar de pertinentes, não é importante para mim ouvir histórias de mulheres que sempre quiseram ter filhos, porque sei que nunca me compreenderão. Mas conhecer algumas pessoas que têm filosofias e medos parecidos com os meus é-me essencial. Independentemente de terem cedido à pressão da sociedade e do relógio biológico, acabando por ter filhos, ou tendo-se mantido convictas na sua crença: o que me importa é a capacidade de análise, a racionalização e, claro, a honestidade. Perceber qual a sua percepção dos resultados: abdicar de tudo aquilo que idealizavam como a vossa vida ideal em prol de um filho compensou? Os medos que existiam eram justificados? Ou, depois de se passar de "prazo de validade" há remorsos em não ter filhos? 

No fundo eu não quero ser mãe: mas gostava muito, muito, muito de querer ser. Gostava de ser quem não sou. E, talvez por isso, vivo diariamente assombrada por uma pergunta: devo correr o risco? Porque nesta decisão em particular não há volta atrás; não há botão de delete, não há um papel que se assine e que acabe com aquela responsabilidade. Estou dentro de uma panela de pressão com todos os ingredientes que, na minha cabeça, defini serem os ideias para ter filhos: tenho uma vida estável, um namorado com desejos de ter uma família e estou na idade que acho ser a perfeita para ter crianças. Mas, ao contrário das previsões do resto do mundo, eu não mudei. Continuo com as mesmas ideias que tinha - ainda que gostasse muito de dar esse presente a todos os que me rodeiam. E isso pesa-me na consciência. Na cabeça. No coração. E na alma. É uma dor enorme, uma dúvida com a qual me debato todos os dias - e que sei que nunca terá uma resposta certa. E, por pouca matemática que saibamos, é certo que as contas que não dão um resultado exato são sempre as que nos dão mais dores de cabeça a resolver.

29
Ago19

A minha caixa de correio voltou a ser feliz

(ou como reativei a minha conta no Postcrossing)

No verão a minha casa transforma-se num autêntico campo de férias, com todos os meus sobrinhos a serem depositados aqui das suas respetivas casas. Neste momento eles já são (quase) todos crescidos, entretém-se sozinhos, não é preciso andar com eles ao colo; mas, ainda assim, não deixam de nos dar preocupações assim como dores de cabeça - neste caso literais, graças ao barulho que fazem, digno de recreio de escola.

O problema nesta fase é tira-los dos eletrónicos. Mesmo tendo um terreno gigante para correr, cães para brincar, terra para lavrar e uma piscina onde mergulhar, preferem o recanto do computador ou o sofá em frente da PlayStation, com todas as tentações do Fortnite, Minecraft, Roblocs e outras coisas que não sei escrever. Pior que isso é disputarem e contarem os minutos, vendo quem joga mais que quem, numa obsessão que nos deixa a todos (graúdos) completamente loucos.

Foi numa tentativa de os arrancar deste ciclo vicioso e irritante que decidi tirar uma coisa do baú: os meus postais. Inscrevi-me no Postcrossing há mais de oito anos, tenho mais de 700 guardados religiosamente, mas a falta de tempo obrigou-me a parar. Para quem não sabe, o Postcrossing é uma atividade baseada no site com o mesmo nome, que consiste na troca de postais entre pessoas de todo o mundo. Antes que perguntem: não, as pessoas não se conhecem. Mas através de pequenos perfis ficamos a conhecer um pouco das suas vidas e dos seus gostos, que nos ajudam a perceber que postais enviar e que mensagem escrever. Por cada postal que mandamos, recebemos um. Isto de forma resumida e poupando-vos a questões mais técnicas - e a factos depressivos, como o aumento pornográfico do preço dos selos desde a altura em que comecei até agora (na ordem dos 20 cêntimos cada!!!).

Reativei a minha conta e consegui arrastar a minha sobrinha Clara para a ideia. Criámos um ritual e, de cada vez que podemos escrever mais uns postalitos, chamo-a para a minha beira. Ora escreve uma, ora escreve outra - e assim nos divertimos, entre escolher que postal enviar e decidir o que dizer. Ela já percebeu toda a dinâmica, entre selos, moradas e códigos e já escreve como gente grande. Fiquei muito feliz por conseguir fazer com que ela entrasse neste mundo analógico. Como li hoje num post da Isabel Saldanha, que cita José Saramago, “Jamais uma lágrima manchará um email". E apesar desta atividade ter pouco de sentimental - por não conhecermos as pessoas e por serem mensagens demasiado curtas, limitadas por aquele quadradinho de papel -, é engraçado perceber como simpatizamos mais com umas pessoas do que com outras apenas pelo inclinar da sua caligrafia, o cheiro do papel ou o cuidado com que escrevem o nosso nome. Nada disto é possível neste mundo das novas tecnologias.

É muito bonito transmitir-lhe isso e é, para além do mais, uma vitória: pelo menos é menos uma a passar tanto tempo nos eletrónicos ;)

Agora volto a sentir-me uma criança na noite de natal de cada vez que vou à caixa de correio - nem que seja pela expectativa de ter lá algo, para mim e para a Clara, que nos encha o coração. E que coisas boas me têm saído na rifa! Estou feliz por ter voltado.

 

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07
Set18

Menu de fim-de-semana: Kid's Meet

Numa altura em que se crítica tanto as crianças por passarem a vida nos "eletrónicos", nomeadamente no YouTube, a ver os miúdos da moda que não conseguem fazer muito para além de parvoíces, é importante lembrar que há conteúdo bem feito, bem produzido e bem pensado por aí. Inclusivamente para os mais novos.

O segmento "Kid's Meet", do canal Cut, é um desses exemplos. Trata-se de um painel de miúdos que conhece alguém com algum tipo de característica diferente e que desconstrói essa personagem (e todo o rol de preconceitos que vêm com ela) através de perguntas e de comentários, muitos deles bem típicos de crianças, um tanto totós como fofinhos. Se por um lado as crianças podem ser cruéis, por outro têm uma empatia que os adultos já foram perdendo, e por isso é bonito ver como se comportam com pessoas que não sem bem iguais a elas.

Quem gostar desta série de episódios está com sorte: há mais de 50 para ver no canal. Coisas como conhecer uma pessoa com Tourette (aquela doença dos tiques), um jovem que acabou de sair de um clínica de reabilitação, um drag queen, um anão ou alguém com 101 anos... tudo formas de aprender sobre os outros e a sua realidade, o que é sempre bom, quer sejamos crianças ou não. É dos vídeos que me dá mais gozo ver quando tenho tempo livre.

Ver a playlist aqui.

 

13
Nov17

Uma infância a jogar Sims (e muitas saudades...)

Não sei se alguma vez falei aqui da minha paixão assolapada por Sims quando era criança - o que é estranho porque, de facto, este jogo foi uma parte quase que essencial da minha infância. Só para perceberem, aquilo era importante o suficiente para eu gastar a minha mesada e todas as minhas poupanças: logo eu, que sempre fui forreta, não gastava nem eu cêntimo em qualquer outra coisa. Mas se saía uma extensão eu estava na fnac a compra-la e a desembolsar o que quer que fosse, perante o olhar surpreendido dos meus pais.

Os Sims são a única razão pela qual eu me contenho a criticar as horas que os meus sobrinhos passam com os eletrónicos - porque eu passava o dia inteiro a jogar aquilo, excluindo refeições e idas à casa de banho. Era uma loucura que nem eu sei como é que os meus pais toleravam - mas foi uma época (anos!) mesmo feliz e, diria até, bastante partilhada. As coisas não eram como são agora: não havia possibilidade de entrarmos nos jogos uns dos outros, mas eu lembro-me de jogar com os meus primos ou de ligar à minha prima a dizer que a minha família tinha tido um bebé, que o pai tinha morrido num fogo (sim, estas coisas aconteciam - e nós fazíamos de propósito) ou que tinha descoberto uma funcionalidade qualquer nova.

Ainda hoje são os jogos que eu guardo - tenho-os todos comigo, mesmo estando em crer que já não funcionariam com os sistemas operativos atuais. Passei muitas horas da minha vida a jogar o Sims 1 e, quando veio o Sims 2, a diferença foi brutal. Aliás, foi representativa da época: as coisas nos videojogos evoluíram tanto num espaço de tempo tão curto que o jogo quase nem parecia o mesmo. Eu criava tantas coisas, tinha tantas expansões, que dei cabo do meu computador e tive de o equipar com aquilo que, à altura, era uma super placa gráfica: por isso, agora que penso, também eu fui uma gamer nos meus tempos áureos (ah ah ah).

Eu era obstinada com aquilo. Chegava ao ponto de ter documentos com todas as famílias que tinha, com a informação sobre os agregados familiares, o que cada um fazia, a planta da casa, entre outras coisas - por isso, como veem, a minha "panca organizacional" não é de agora. Isto afetou-me de tal forma que eu considerei seriamente ir para decoração de interiores: porque mais do que fazer aqueles bonecos viver, eu adorava decorar as casas, os espaços, os negócios... era a minha perdição. E sim, eu era batoteira: como adorava comprar tudo do bom e do melhor, "criava" dinheiro e assim podia decorar as casas conforme queria. Mas tudo dependia da filosofia de cada família: algumas, "as honestas", lutavam para conseguir aquilo que tinham - mas eu perdia a paciência, porque elas ganhavam um salário muito baixo, eu nunca mais tinha dinheiro para comprar as coisas essenciais e desistia com facilidade. Mas, fora isso, posso dizer com bastante orgulho que passaram por mim muitas e muitas gerações de Sims.

Não sei precisar quando deixei de jogar, mas foi algo muito gradual e acho que por culpa de duas coisas: a primeira foi a falta de tempo - com o passar dos anos vêm as responsabilidades, os trabalhos de casa e outros interesses, por isso acabei por ir jogando menos e menos; a segunda foi o facto de ter comprado o Sims 3 e ter ficado cansada. E porquê? Porque eu sou uma miúda do Sims 1, dos bonecos irrealistas, das coisas simples, das casas só com meia dúzia de cores, das mobílias feias, das músicas só com piano. E a passagem para o 2 foi de facto brutal e necessária, foi todo um mundo diferente, mas o 3 já tem tanta, tanta, tanta coisa que eu já não sabia para onde me virar. A verdade é que aquilo cada vez mais se assemelha à vida real, e a complexidade do jogo aumentou de forma brutal e, a meu ver, desproporcional. Quando eu comecei a jogar, as personagens só tinham fome, sono, higiene, conforto, um objetivo de vida e pouco mais; no 3 eles já tinham traços de personalidade vincados, já ficavam rabugentos e a bater nas coisas caso eu não fizesse aquilo que eles queriam ou até tinham vontade própria. Ao clicar no frigorífico, em vez de ter "fazer jantar", tenho dez opções diferentes (incluindo vinte outras com refeições, que tenho de escolher, mas antes preciso de comprar os ingredientes). E ao clicar na cama, em vez de "dormir", eles podem fazer outras dez coisas diferentes - e, se bem me lembro, já nenhuma diz "triqui-triqui", como originalmente, onde a dita ação só podia ser feita numa cama cor-de-rosa, com uma cabeceira em forma de coração e com níveis de pirosice mesmo muito duvidosos.

Curiosamente, jogar Sims é das coisas que recordo com muita, muita saudade. E sinto aquela coisa típica de velha ao pensar "aquele primeiro jogo é que era bom". Eu tenho consciência que os gráficos eram trágicos, mas tenho na memória tantas coisas guardadas que é difícil ultrapassar. Lembro-me bem de passar a ter animais de estimação, de haver discotecas e restaurantes no bairro... e de no 2 poder abrir o meu próprio negócio (eu matava os meus sims com esgotamentos graças a eles... ups), de ir para a faculdade (alugava um quarto numa residencial, atafulhava-o de coisas e fazia a minha criatura passar o tempo quase todo lá para ter A's a tudo... eu sei, era terrível), de passar a ser possível ter apartamentos ou de, finalmente!, passar a haver estações do ano - com chuva, sol, folhas no chão ou trovoada. 

Normalmente há qualquer coisa que me despoleta lembranças ou saudades e, depois desses momentos, venho aqui escrever para aliviar a alma. Mas hoje não. Do nada, abri o YouTube e decidi ouvir as músicas do Sims 1 - aquelas que ouvíamos enquanto construíamos a casa ou andávamos na cidade. QUase odas elas ao piano e todas com um sabor tão característico a infância... Passaram-se não sei quantos anos, mas aqueles sons continuam a viver dentro de mim e eu reconheceria-os até noutro planeta. Esta é a prova de que a vida passa, mas há coisas que ficam: porque, passado todo este tempo, eu sinto que poderia falar ou escrever sobre isto durante mais duas horas sem nunca me cansar, enquanto debitava detalhes e memórias que teimam em não desaparecer.

 

(E depois deste post, tudo o que me apetece é instalar o jogo e fazer uma direta a criar casas e vidas, ignorando o facto de ser adulta e de amanhã ter um dia de trabalho pela frente. Não posso ser pequenina outra vez? Por favooooor?).

 

sims.jpg 

 

18
Abr17

O fim da paz nas estradas portuguesas

Eu sei que esta época de férias é diabólica para os pais, que por sua vez acaba por ser diabólica para os avós (que eventualmente têm que ficar com os netos) ou até para os tios (que, quando é preciso, tomam o lugar dos avós). Eu agora não me posso queixar, porque este ano houve uma série de fatores que fizeram com que os meus sobrinhos não fossem lá parar a casa on a daily basis - e, de qualquer das formas, eu agora trabalho, portanto já não passaria o dia com as crianças de um lado para o outro.

Mas como trabalhadora que sou, sofro o drama diário de quem vai e vem para o trabalho todos os dias, inevitavelmente naquela hora terrível chamada "hora de ponta" - que é incrivelmente adensada por todas as crianças que vão para a escola com os pais. E nisto, desculpem-me os progenitores desesperados por não saberem onde deixar as crianças, mães que meteram férias e já estão por esta hora a arrancar cabelos, avós que já perderam a paciência há vinte anos atrás ou tias que simplesmente não nasceram para isso (sim, estou aqui a rever-me...) mas, para quem trabalha, estas duas semaninhas (e todas as outras que ainda hão de vir no verão) são assim o paraíso na terra. Não há filas, não há confusão, é sempre abrir até estacionar. Uma pequena maravilha.

Mas pronto, acho que hoje é oficialmente o fim da paz. Adeus estradas desimpedidas, adeus ruas de escolas sem trinta carros estacionados em segunda e terceira fila, adeus aos cinco minutinhos extra na cama! You will be missed! 

20
Fev16

Miúda de 95 44#

"Hoje é dia de tomar flúor!"

 

Estou, neste preciso momento, a comer um rebuçado. Talvez este "pequeno" pormenor ajude a perceber a razão pela qual me lembrei de uma recordação de infância, guardada bem nos recônditos da minha memória. Então e qual é essa memória? Os gloriosos dias em que, no primeiro ciclo e em filinha indiana, íamos todos em direção ao lavatório da nossa sala de aula e bochechávamos flúor.

É engraçado como, com o passar dos anos, olhamos para estas recordações com carinho - porque eu lembro-me muito bem de detestar o dia em que a professora se lembrava de nos dar aquele líquido cor-de-rosa e com mau sabor para nós bochecharmos. Sabia mal, cheirava a produto de dentista e era um martírio saber que tinha mesmo de fazer aquilo. Se bem me recordo, tomávamos o flúor uma vez por mês e todos fazíamos figas para que a professora se esquecesse e deixasse passar uma sessão. (In)Felizmente para nós, acho que era coisa que não acontecia muito.

Não sei se, de facto, essa técnica funcionava ou se tais práticas ainda se mantém, mas gosto de acreditar que pelo menos parte da minha (boa) saúde dentária se deve à minha professora. Avé ao flúor!

13
Dez15

Miúda de 95 43#

Os Patinhos

 

Bem, esta é um clássico - nem eu sei como é que não me tinha lembrado disto antes! Acho que todaaaa a gente sabe a música dos patinhos e é incapaz de não relacionar isto com a ida para a cama, todas as noites.

Se bem me lembro, o clipe passava todas as noites na RTP, pelas 21 horas - hora em que, supostamente, os meninos deviam ir lavar os dentes e meter-se na cama. Tenho uma vaga ideia de o ver passar na RTP1 (ou talvez na RTP2, nem sei) mas, acima de tudo, lembro-me de ter o CD dos patinhos! E nem se atrevam a gozar! Havia lá coisa mais estilosa do que aquele baterista com a crista verde que, todas as noites, era puxado por uma bengala para parar de tocar? Era incrível! Aliás, só uma coisa assim espetacular podia estar no ar desde 1998 até 2005 (segundo o wikipédia). Formou-se quase uma lenda! 

Eu sei que isto vai soar a coisa de velha, mas eram giros os tempos em que víamos patinhos antes de adormecer em vez de todas aquelas coisa estranhas que agora passam nos canais infantis sob o nome de "desenhos animados". 

 

 

18
Out15

Miúda de 95 38#

Tesouro, o gelado

 

Quando era miúda - e tal como todas as crianças - pedia coisas só pelos brindes. Eram os happy meal que eu nem sequer gostava mas que tinham o bonequinho grátis, era o epá que nem sequer fazia questão de comer mas que tinha as chicletes no final, era o pingu que tinha uma forma gira e que eu gostava de levar para casa, eram umas drageias com um sabor horrível mas que tinham uma caixa gira... e era o tesouro. 

O tesouro era capaz de ser o que eu mais gostava, principalmente pela ansiedade de não saber o que estava lá dentro e ter de comer tudo para conseguir abrir o alçapão e ver o que estava lá dentro. Mas acreditem, era todo um drama para comer aquilo: ainda era uma caixa grande de gelado, metade de morango e outra metade de baunilha (ambos horríveis), pelo que tinha normalmente de recorrer à ajuda da minha salvadora (também conhecida como minha irmã), que me ajudava a comer aquilo até ao fim - não sem antes reclamar coisas como "só pedes isto por causa do brinde!", "tu não gostas disto, para quê que pedes?", "pedes estas porcarias e depois eu é que tenho de comer!!!". Ou seja, tudo perguntas e afirmações que ela já sabia a resposta - eu fazia olhinhos de bambi e pronto, ela lá comia. A cada colher o alçapão estava cada vez mais perto, o que era uma emoção - quando chegava a hora de abrir, para além da bodega que era por se ter de sujar as mãos com os restos de gelado que havia na caixa, era todo um suspense para saber o que saíria dali.

Normalmente eram umas tatuagens foleiras - o que, olhando para trás, percebo que não valia tanto sacrifício. Mas é a vida - e a prova de que as crianças também lutam (arduamente!) pelos seus objetivos! Nem que isso implique comer uma taça cheia de gelado, essa coisa terrível. 

 

04
Jul15

Miúda de 95 36#

O intervalo noturno do canal Panda

 

Eu já fui uma sortuda por ter televisão quando era miúda (os meus pais não podem dizer o mesmo) e de ter, como é óbvio, o Canal Panda para me fazer companhia. Era isso e as cassetes em espanhol, com os filmes da Disney e etc (que não gostava tanto porque, já na altura, me deprimiam com aquelas histórias tristes). Nada comparado com o que há hoje, como é óbvio - agora há Disney Channel 1 e 2, o Panda normal, o Panda Biggs, o Cartoon Network com dobragem em português, o Baby First e devem haver tantos outros que me estou a esquecer. 

Na minha altura era só o Panda e a RTP2 e não era durante vinte e quatro horas por dia, como se vê agora. A RTP2 era de manhã (como ainda penso que é), o Panda era só durante o dia. Chegava a uma hora da noite (se calhar era mesmo à meia-noite) que fechava a loja e a aparecia uma imagem horrível, a dizer que só voltavam amanhã; mesmo como quem diz "vá, vão para a cama que já são horas de dormir e já estamos fartos de vos aturar". Era triste, principalmente se não conseguíamos adormecer e nos aparecia aquela imagem do demónio.

Eu não gostava, porque era escura e parada, mas conheço muito boa gente que tinha horror àquilo. Tinham mesmo medo! Ainda por cima ouvia-se um panda a dormir e a ressonar. Ou seja, à noite, com tudo escuro, aquela imagem e aquele som... eram mesmo razões para fugir. Ou trocar de canal num ápice, mas correndo o risco de apanhar coisas ainda piores pelo caminho.

Enfim, a verdade é que muitos dos pesadelos das crianças da minha geração deveram-se a esta imagem de fim de emissão. As crianças de hoje em dia não sabem o que nós sofremos com isto.

 

 

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