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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

01
Nov20

Uns são filhos (os supermercados) e outros são enteados (os feirantes)

Há uns dias vi o vídeo do Gustavo Carona (podem ver aqui) e não podia estar mais de acordo. O Covid é um problema sério, que não podemos ignorar - e não é nos hospitais que ele vai ser resolvido. É nas ruas, é nas nossas casas, é nas empresas. Está literalmente nas nossas mãos - essas, que carregam tanta coisa invisível, e que hoje tomam uma importância extrema no que diz respeito ao transporte do vírus ou à sua eliminação (se as lavarmos e desinfetarmos bem e corretamente).

Concordo também com ele no facto de isto não se poder tornar numa luta política - não interessa quem está no poder. De direita ou esquerda, uma coisa eu sei: não queria estar naqueles calcanhares. Não tendo qualquer empatia com as pessoas em questão (e não comungando com muitas das suas convicções políticas), eu não queria ser primeira-ministra, não queria ser ministra da saúde, não queria ser a diretora geral da Direção Geral de Saúde. E há que respeitar as posições que estão a tomar - porque nenhuma vai ser boa e nenhuma vai ser fácil e todas serão controversas.

Mas há aqui um erro generalizado que está a revoltar a população: chama-se falta de coerência. Não deixam as pessoas ir ver um jogo de futebol, ao ar livre, num estádio com espaço para mais de 50 mil indivíduos; mas deixam que exista público na fórmula 1. É para ricos, não é? Também deixam que se vá às touradas. É para chiques, não é? E o Avante? É para camaradas, pois claro.

A mim não me afetam as restrições - dou-me bem com regras e sou boa a respeitá-las. Não me importo de não sair do concelho, não me importo do dever cívico de um recolher obrigatório (embora não possa exercer o meu trabalho em casa, sendo obrigada a fazer a minha vida normal), não me importo de usar máscara na rua, não me importo de esperar na fila do supermercado para não sermos 5628 pessoas à volta da mesma peça de fruta.

Mas importo-me com os contra-censos que mencionei acima. Revoltam-me mais estas cedências estúpidas - em prol de favores, de dinheiro, de tudo o que não devia contar - do que as próprias pessoas envolvidas nestes atos, que apesar de inconscientes só estão lá porque à partida a cancela não estava fechada. E sei que não me revolta só a mim: revolta-nos a todos, porque não é preciso ser nenhum génio para perceber as incongruências que existem.

Sobre as medidas que saíram ontem para os concelhos com risco elevado (que incluem as cidades onde moro), mais uma vez, acato e respeito o que foi decidido - mas a última medida, que proíbe que se façam feiras e mercados, mexe comigo até aos ossos. O Covid afetou-nos a todos: psicologicamente, pelo medo e pelo tempo de confinamento; fisicamente, principalmente àqueles a quem o bicho já pegou e sofreram consequências físicas; e financeiramente, para quem perdeu o emprego, para quem viu os seus postos de trabalho ou empresas em lay-off, para quem perdeu inúmeras oportunidades de negócio num ano que se queria promissor. Serão muito poucos os que beneficiam disto - eu olho à minha volta e não vejo ninguém. Mas a mim ninguém me obrigou a deixar de trabalhar - mas aos feirantes, que vendem bens de primeira necessidade, acabaram-lhes com o negócio. O Continente pode operar, o Pingo Doce, o Mercadona e o Mini-Preço também; mas uma feira ao ar livre, sem ar-condicionados, sem carrinhos que são manipulados por milhares de pessoas e sem tapetes rolantes podem trabalhar. Aqueles que o estado segura e promove; as Sonae's e Jerónimo's Martins desta vida, que mais do que dinehiro, movem influências. Mas os feirantes - pessoas como nós, sem as contas cheias de zeros e sem amigos na assembleia -, que acordam todos os dias às tantas da madrugada para andarem com as tralhas às costas, de sítio para sítio, para se fazerem à vida e terem o seu ganha-pão, têm de ficar em casa.

Eu, podendo, deixava de ir a super-mercados - ia sempre à feira. Estar antes das oito da manhã a fazer compras ao ar livre é terapêutico para mim - e a qualidade daquilo que compro é infinitamente melhor. A minha sopa não é a mesma se não for feita com as coisas que compro vindas da terra, ainda sujas, ali da Póvoa do Varzim.

Mas a D. Carolina já não me pode vender batatas, alho-francês, courgete ou agrião.

A senhora das flores já não vai estar lá com aqueles raminhos bonitos que dou semanalmente à minha mãe.

Já não posso ir comprar a manga do Algarve à D. Carla, nem a uva sem grainha ou o melão doce que me deixa sempre experimentar antes de comprar.

Não posso ir comprar os fidalgos da minha mãe à senhora que me chama sempre "meu amor".

O senhor das árvores de fruto já não me vai dizer que trouxe, finalmente, os pêssegos-paraguaios carecas para eu plantar no quintal.

Por isso hoje, mais do que pelas multidões na Nazaré, concertos ou filas para o que quer que seja, estou triste - e revoltada! - pelas pessoas que todas as semanas me enchem os armários, o frigorífico e a alma. Pelas pessoas que me tratam com empatia, que me aconselham aquele fruto em vez daquele, que me deixam pagar na semana seguinte se se apercebem que não trouxe trocos suficientes. Tudo o que não acontece num supermercado, onde eu - como todos - sou tratada como um número e constantemente enganada por cupões e cartões e cadernetas autocolantes. 

É incoerente, triste e, acima de tudo, revoltante. 

29
Jun20

Uma pequena dissertação sobre máscaras

Retrovisores, terços, tipos de pessoas e máscaras reutilizáveis

Jazem penduradas no retrovisor do carro, quais terços do século XXI. Têm várias coisas em comum com o objeto religioso:

1) visam proteger-nos contra o grande mal do mundo;

2) mas fazem muito pouco quando estão simplesmente paradas, qual objeto decorativo;

3) e, quando mal utilizadas, também de pouco servem.

Falamos de máscaras, pois claro está. Quem nunca se apercebeu deste novo estatuto das máscaras, em que os elásticos fazem de contas e o tecido-não-tecido é o equivalente à cruz de Cristo, é porque não levou o desconfinamento à séria. Eu, como nunca confinei, vi (horrorizada) o fenómeno a acontecer perante os meus olhos.

Horrorizada porque se já era mau ter um terço ali pendurado - que, mal por mal, não deixa de ser uma espécie de joia -, atingimos todo um outro nível de mau gosto quando tivemos a magnífica ideia de pendurar ali as máscaras (e não me digam que "é prático", porque há uma coisa chamada porta-luvas que serve para guardar objetos do género). Horrorizada porque as pessoas não fazem claramente uso total da visão enquanto conduzem - a máscara a baloiçar ali no meio, enquanto tentamos vislumbrar o semáforo, não deve ajudar à causa da boa condução. Horrorizada porque a máscara vai e volta de cada vez que o seu dono faz uma visita ao supermercado - quando devia ir imediatamente para o lixo. E horrorizada - ou talvez espantada - porque um simples objeto faz transparecer muito sobre cada um de nós.

Durante décadas as máscaras foram usadas por profissionais de saúde durante horas a fio, por precaução e obrigação, durante a execução do seu trabalho. Nós, comuns mortais, temos agora de as usar por curtos períodos de tempo e parece que nos estão a tentar matar por asfixia. Bambis!

Quem as usa fora dos ambientes restritamente obrigatórios é frequentemente vítima de bullying (não sei quanto a vós, mas já ouvi vários comentários ao estilo "mas o Carnaval ainda não acabou?" ou "parece que estamos todos no hospital" enquanto circulava na rua). Alguns, os que as usam mesmo quando não são obrigados a tal, são corajosos. Os outros são simplesmente imbecis, juntando-se àqueles que não usam máscara e se sentem ofendidos quando chamados à razão.

Uma das estirpes que mais me incomoda são os hipócritas - ou, vá, os esquecidos. Aqueles que há um ano pediam a abolição das palhinhas e dos cotonetes mas que agora só usam máscaras descartáveis, sabem?

E depois há os que deitam as máscaras para o chão. Essa é fácil: são apelidados, simplesmente, de porcos.

Aquilo que sinto é que, por culpa da DGS, o uso de máscara foi desvalorizado inicialmente (talvez o erro mais crasso desde o início desta crise) e instalou na população a ideia de que se calhar não era um objeto tão simples que poderia fazer a diferença - fazendo-nos ganhar até alguns anticorpos em relação ao seu uso. Sinto que a obrigatoriedade do uso de máscara está a ser levada de ânimo leve em muitos sítios, onde se facilita a entrada sem meios de proteção individual, e onde alguns indivíduos ganham quase uma aura de machos devido à coragem de não temerem o vírus e à ousadia de serem uns fora da lei.

E acho que, já que as pessoas se mostram pouco responsáveis pelo meio ambiente, pela sua saúde e pelas suas próprias carteiras, as máscaras descartáveis deviam ser apenas disponibilizadas àqueles que antes lhes davam uso: os profissionais de saúde. A longo prazo as máscaras reutilizáveis são muito mais amigas do ambiente, ficam muito mais baratas (partindo do princípio de que as pessoas deitam as outras fora... ou deviam) e, por serem um investimento inicial mais pesado, não correrem tanto o risco de serem atiradas para o chão à primeira oportunidade. Para além disso têm, à partida, uma respirabilidade muito melhor do que as outras (esta é para vós, vitimas de asfixia por máscara!) e algumas contém bactericidas para combater os ajuntamentos de pequenos bichinhos que o nosso bafo deixa no pano. Há para todos os gostos, preços e são capazes até de combinar com o outfit (até porque aquele azul cueca das máscaras descartáveis pouco mais combina do que com gangas e a lingerie de ano novo).

Isto não vai ser uma coisa dos próximos dias e não vai acabar tão cedo. Por isso ponham a mão na consciência, escolham uma máscara que vos satisfaça e que seja durável (e lavem-na, por amor da santa!) e, já agora, escondam-na no porta-luvas. Quanto ao terço, talvez não seja pior ideia dar-lhe uso, que por este andar bem vamos precisar de um milagre.

31
Mai20

Uma questão de prioridade(s) - e, já agora, respeito

Neste momento apetece-me bater à porta de todos os otimistas (ou deverei dizer ingénuos) que achavam que esta história da pandemia vinha mudar a humanidade. Alguma coisa como: "Truz, truz! O desconfinamento já vos fez acordar para a vida?".

Solidariedade como vimos nestes tempos difíceis é típica nos portugueses: sempre nos socorremos uns aos outros nestes momentos. Mas isso não quer dizer que mudamos; não quer dizer que deixamos de fazer comentários parvos, insolentes, racistas e ofensivos nos comentários das notícias no facebook; não quer dizer que deixamos de nos insultar no trânsito; não quer dizer que daqui em diante o nosso comportamento para com profissionais de saúde e outras pessoas que se arriscam diariamente em prol dos outros seja diferente. O esquecimento faz parte da condição humana - se assim não fosse não tínhamos a capacidade de perdoar e andar para a frente com as nossas vidas, as mulheres não teriam filhos novamente se se recordassem a cada instante das contrações na hora do parto e provavelmente também não voltariam à esteticista se aquele momento em que a banda de cera se descola da pele estivesse bem vivo nas suas memórias. Acredito que há muita coisa nas nossas vidas que vai mudar graças ao aparecimento deste vírus - mas tratam-se de hábitos, não de características pessoais. Essas continuam as mesmas - e com traços típicos do egoísmo humano e da falta de sensibilidade para com o próximo. 

Eu, que não "confinei" por força do meu trabalho, nunca cheguei a ver o mundo pela janela e em modo arco-íris. Mas à medida que as coisas vão voltando à normalidade e que somos obrigados a interagir novamente com mais pessoas no nosso dia-a-dia, e embora nunca tenha acreditado numa mudança nas pessoas, vou-me agora relembrando da massa de que são feitas.

Há dias fui à última da hora ao supermercado, comprar meia-dúzia de coisas que estavam em falta para o jantar - cabia tudo num saquinho de pano que levava ao ombro. Era hora de saída de trabalho, o espaço estava cheio e as filas iam crescendo pelos corredores - de tal forma que abriram três caixas durante o tempo de espera em que lá estive. Fui uma das pessoas que se moveram para uma nova caixa quando o anúncio se ouviu nos altifalantes; a caixa em questão tinha lá pousadas algumas garrafas de vinho, deixadas por um casal de idade que, pelo peso das bebidas e pela sua parca condição física, pediu a um funcionário para as lá deixar. Voltaram pouco depois da caixa abrir, com tantas coisas como as que eu tinha no saco - poucas, portanto. Ambos entre os 70 e os 80 (sendo que a idade não tinha sido branda com nenhum deles), andando com o auxílio de bengalas e claramente perturbados por toda esta logística das máscaras e distanciamentos, tomei a liberdade de os deixar passar à minha frente.

Apesar da distância de segurança consegui ouvir bufar o senhor que se encontrava atrás de mim. E ao meu lado, na fila paralela, um senhor de carrinho cheio ainda me disse: "a fila prioritária é esta onde estou, não essa", apontando para a plaquinha indicativa, sofrendo claramente por um problema que não era o dele. O que respondi não vem ao caso, pois as ações falam por si e o casal já estava a pagar a conta. Mas isto lembra-nos (mesmo a mim, que sempre achei que estes meses fechados em casa não iriam mudar ninguém para melhor) da necessidade de colocar cartazes à porta de todos os espaços públicos, aquando do pico da pandemia, listando todos aqueles que têm prioridade; recorda-nos o porquê de ter de legislar, pedir, obrigar e punir ações que aparentemente seriam de bom senso.

Acredito que estas mesmas pessoas - as que bufam, as que reclamam, as que fazem caras de desagrado tão óbvias que se notam apesar das máscaras - são também aquelas que, neste momento, se insurgem contra as ações racistas daqueles polícias americanos e que colocam posts no facebook apregoando que as "black lives matter". Acho que muita gente não percebe que, atrás das lutas contra o racismo, a xenofobia, a homofobia (entre outros), está uma coisa tão simples como o respeito para com o próximo. Em não olharmos só para os nossos umbigos. E antes de tentarmos lutar pelo que quer que seja, convém que sejamos os primeiros a agir quando as ocasiões nos aparecem à frente - seja em relação a pessoas de outra raça ou simplesmente alguém que precisa de ajuda. A mudança começa em cada um de nós - mais do que gritar no meio da rua com cartazes ou pondo imagens bonitas nas redes sociais.

16
Mai20

A importância dos humoristas

Em particular do Ricardo Araújo Pereira e do Bruno Nogueira

Algures em tempo de campanha para as últimas eleições (parece que foi noutra vida, não é? As arruadas com centenas de pessoas que não precisavam de estar a dois metros de distância uma das outras, enquanto entregam flyers sem luvas e sem pensar quantos micro-nano-bichos alguém pode ter lá deixado após um espirro acidental e  coisas do género) eu já queria ter escrito um texto sobre a importância dos humoristas. Aliás: desta nova vaga de humoristas que se consolidou nos últimos anos, que conseguem o mix difícil de não só nos fazer rir como nos chamar à atenção para a realidade. O que eu quero dizer é que há uma linha que separa o Fernando Rocha do Ricardo Araújo Pereira (RAP) e outra que separa o Salvador Martinha do Bruno Nogueira. Não quer dizer que uns sejam melhores que outros, mas são claramente diferentes. Provavelmente o que os distingue é que uns têm como objetivo fazer-nos rir; os outros querem que nos ríamos perante assuntos sérios.

Na altura, o mote do meu post era o impacto do "Gente que Não Sabe Estar", em que o RAP comentava (e gozava) a atualidade política e fazia entrevistas aos principais líderes partidários - tudo isto sempre com o seu toque de ironia e sarcasmo característicos. Pensei muitas vezes na preciosidade que ele tinha em seu poder e, por outro lado, o quão arriscado é deixar uma coisa tão importante nas mãos de um só indivíduo, que também terá a sua preferência política e poderá influenciar os outros sem que estes oiçam a outra parte. Isto porque, para mim, um programa destes tem muito mais impacto do que qualquer grande entrevista, debate ou outros formatos clássicos - e chatos - que se fazem nestas alturas. Chega às massas. As pessoas sabem que se vão rir e não vão adormecer; identificam-se com o que se diz em vez de sentirem que lhes estão a vender banha da cobra; percebem o que é dito e não se perdem no meio dos chavões lançados pelos políticos. Isto para além de conseguir fazer com que percebamos como é que são aquelas pessoas que nos querem representar, para além das suas ideias políticas. Têm sentido do humor, são boa onda, sabem rir-se de si próprias e safar-se quando as questões não são sobre o orçamento de estado? Isso importa. Hoje pouco se vota em partidos, esquerdas ou direitas; tendemos a personificar a política e é-nos essencial perceber quem são essas pessoas. E é por isso que para mim estes programas do RAP em tempos de eleições fazem mais pela política do que 99% dos outros programas e propagandas. Daí a sua importância.

Mas não só na vertente política o humor tem importância. Sempre o teve do ponto de vista do entretenimento: vai ser eternamente um escape e a forma de relaxar de muitos. Mas nesta altura de pandemia penso que foi mais que isso: foi uma tábua de salvação para a sanidade de muitos. E, neste caso, falo especificamente dos diretos feitos pelo Bruno Nogueira no seu Instagram, sob o nome "Como é que o Bicho Mexe". A "série" acabou ontem e uma amiga minha, que a acompanhava religiosamente, dizia-me: "e agora o que vou fazer à noite? Aquilo era essencial para mim! Quando o cansaço começava a bater e os pensamentos maus chegavam, por causa dos medos e da pandemia, lá vinha o direto do Bruno para eu me rir e esquecer tudo". E é verdade.

Já aqui tinha falado sobre esta ideia do BN no post em que nomeava algumas das coisas boas que surgiram graças (e durante) a pandemia. Não era espectadora habitual porque as horas do direto não eram compatíveis com o meu horário de sono - mas vi alguns momentos marcantes, como o Vhils a "construir" o Zeca Afonso na parede de sua casa no 25 de Abril, a Maria João Pires a tocar Debussy no seu piano de cauda e as homenagens que várias pessoas fizeram no dia da mãe às suas mães. E sinto que para além de uma mera forma de entretimento, estes foram episódios quase educativos, mostrando uma cultura muitas vezes não tão tocada ou popular. O Bruno deu a conhecer muita gente que estava nas margens - e mostrou algumas facetas de outras que já conhecíamos mas que se revelaram perante uma pequena câmara no conforto de sua casa, onde aparentemente ninguém os está a ver. Independentemente do número de vezes em que se disse e mencionou "cona", "caralho", "foda-se", "pila" entre outros vocábulos (até deste ponto de vista enriquecedores ao nível do vernáculo), o que BN fez foi importante. Para a cultura, para o entretenimento mas, acima de tudo, para as pessoas.

Isso viu-se ontem quando, após ter dado o mote para as pessoas que assistiam aos diretos colocarem luzes de Natal nas suas varandas, ele saiu à rua para testemunhar com os próprios olhos o impacto do programa que fez. Aliás: da companhia que fez às pessoas. O resultado foi uma mistura entre o hilariante e o emocionante, com milhares de pessoas às janelas e outras tantas na rua (eles iam dizendo ou mostrando onde estavam a passar), assim como a formação de autênticas comitivas atrás do carro adornado com luzinhas, onde ia com o Nuno Markl ao volante. Por vezes mal o conseguíamos ouvir, tal era a potência das buzinadelas e dos berros das pessoas que passavam. Foi uma espécie de procissão, vá, mas a um ritmo mais acelerado e mantendo a distância de segurança. No meio disto tudo a Georgina Rodriguez - a mais que tudo do Ronaldo - comenta, o Bruno liga e do nada dá duas de conversa com o CR7 (já deitado na sua caminha); um carro descaracterizado pela polícia coloca-se atrás deles, fazendo-os pensar que a brincadeira ia acabar, mas que queria só dar o ar da sua graça naquele último programa; o Cal Lookwood, o radialista do pólo norte que ficou famoso em Portugal graças ao Nuno Markl, também disse olá do outro lado do mundo (as maravilhas da tecnologia!); até uma ambulância que passou ligou o altifalante só para dar uma palavra de apreço. Tudo isto com 150 mil pessoas a ver - números que muitas vezes não são atingidos por programas de televisão em canal aberto.

O que aconteceu ontem foi uma demonstração de apreço como não me recordo de ver; foi o exteriorizar da importância que uma simples pessoa pode ter na vida de tantas, principalmente durante estes dois meses difíceis que todos vivemos. Não é fácil ter noção do impacto que estas coisas têm nas pessoas - no caso do RAP, que falei em cima, é impossível quantificar ou ter a certeza sobre aquilo que acho e sobre a importância que teve naquele período político - mas é certamente emocionante perceber que um número incrível de pessoas gosta e valoriza o trabalho de alguém, ao ponto de se dar ao trabalho de sair à rua ou pôr luzes de Natal na varanda em forma de agradecimento. Não sei como é que o Bruno Nogueira se aguentou ao longo daquelas duas horas loucas em que tudo aconteceu; também não sei se, durante estes dois meses, essa comunidade que se formou à volta dele percebeu como é que o bicho mexe. Aquilo que eu sei é que isto vai ficar na memória de muitos e revela bem a importância que o humor e a cultura têm na nossa vida.

 

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16
Abr20

38 não é só um número de calças - é de auto-estima

No início do ano ganhei coragem para ter um encontro com a balança. Depois chorei. 

Há momentos na vida que são de reviravolta e não têm de ser necessariamente especiais ou bonitos. Não há uma fórmula mágica. Lembro-me perfeitamente de há uns dez anos me ter olhado ao espelho, enquanto mexia na cara, e reparei no quão horrorosas estavam as minhas unhas roídas. Deixei de as roer a partir daquele momento. Foi um clique.

Aqui também foi um bocadinho assim. Não se emagrece tão rápido como se deixa de roer as unhas, mas aquilo despoletou uma ação. Passados vinte minutos estava a ligar para uma clínica de nutrição e decidi-me mesmo a perder o peso a que me tinha proposto (na altura até escrevi aqui, nos meus objetivos, que queria despedir-me de pelo menos 5kgs).

Demorei mais uns dois meses até voltar a subir à balança; as calças já começavam a ficar largas, mas eu tinha medo de que o esforço não estivesse a dar resultados. Quando ganhei forças vi que tinha perdido quase seis quilos. Vitória! Fiquei tão feliz! E agora que já tenho uma série de hábitos enraizados, decidi que queria ir pelo menos para os 60kgs - na loucura até um bocadinho menos, que sempre foi o meu peso de sonho.

E depois apareceu o Covid-19. Não sou das que está em casa e precisa de deixar mensagens no frigorífico para me lembrar de que não tenho fome, mas nestas coisa das dietas a rotina é muito importante. E, mesmo continuando a trabalhar,  muito mudou. Para além disso o fator stress também tem de entrar em conta - há quem coma mais para compensar, há quem coma menos. Eu sou das que me vingo na comida (obviamente...).

Ainda assim digo, com orgulho, que devo ser a única pessoa no país inteiro que, desde que isto começou, não fiz um pão ou um bolo. Comecei a dieta numa altura cheia de aniversários e festas e jantares e dei por mim a ter de saber gerir esta questão: por um lado não posso não comer (podendo até passar por mal educada), mas por outro não posso aproveitar a situação para me vingar e comer por todos os dias em que não o fiz. 

Por isso, neste momento, limito-me a tentar levar essa estratégia avante (nomeadamente com a Páscoa e seus  pães-de-ló e amêndoas do demónio) e, pelo menos, não engordar. No entanto, graças às mudanças de rotina e de horários, surgiu algo positivo: comecei a treinar! Corrijo: o meu namorado começou a treinar. Eu vi-o uma e outra vez a suar as estopinhas ali à minha frente, enquanto copiava os exercícios que passavam na televisão, enquanto eu continuava refastelada no sofá a ler o meu livro. Até que fiquei com vergonha de mim própria e da minha falta de força de vontade. Resultado: treinos de meia hora a 45 minutos, cinco vezes por semana (fazemos descanso de três em três treinos). E a verdade é que se antes emagreci, hoje sinto-me mais tonificada (em relativamente pouco tempo). 

No meio de tudo isto as calças iam-me começando a cair pelo rabo abaixo. Um dia, mal entrei em casa, disseram-me: "essas calças ficam-te horríveis de tão grandes". E, aproveitando os Shoppings Days da Mango, mandei vir uma série de calças 38 - número que não visto há, seguramente, seis ou sete anos (senão mais). Quando chegaram fiquei nervosa. Quando me serviram fiquei estupidamente feliz.

Sempre me irritaram as discrepâncias dos tamanhos das roupas de marca para marca - e sei que algumas calças que tinham escrito "40" eram, na verdade, um 42 (embora, mentalmente, não o aceitasse). E, também por isto, é errado medirmo-nos por uma tabela que não é constante. No entanto é inevitável não sentirmos a felicidade de fechar um botão que, há três meses, não conseguiria caber na sua casa. E é também uma responsabilização acrescida das minhas próprias ações, sabendo que consegui e lutei por caber naquelas calças - e que terei de as manter se quiser continuar a entrar nelas e a apertar o fecho. E, acima de tudo, é aprender a gostar mais de mim. A não desviar o olhar do espelho quando entro na banheira. E perceber que não sou perfeita, mas que ao menos lutei para me sentir melhor com o meu próprio corpo.

 

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02
Abr20

Coisas boas que surgiram à custa da pandemia

Ou como tentar ver as coisas de um ponto de vista positivo

Não sou uma otimista por natureza. Nunca fui, acho que nunca vou ser. Pelo contrário, sempre tive tendência para ser mais depressiva, ver o lado negro das coisas, das pessoas, das histórias e das situações.

Nesta fase que vivemos cada um aborda o assunto da forma que quer e se sente mais confortável - depende não só da nossa personalidade mas também da maneira como tudo isto nos afeta. Quem está fechado em casa por vontade própria e quem está por obrigação não terão, decerto, a mesma visão; quem é obrigado a trabalhar e quem trabalha porque quer também não deve partilhar opiniões. Mas é o que é. Neste caso, na maior parte das vezes, cada um faz aquilo que tem de ser feito - e tem como sua obrigação aprender a lidar com isso.

Eu, que me mantenho a trabalhar, continuo a ter a mesma rotina de vida, assim como tudo o que lhe diz respeito: tenho as mesmas obrigações em casa e possuo o mesmo tempo para desfrutar dos meus hobbies e fazer coisas de que gosto, para além de tudo o que diz respeito ao trabalho. A minha vida não mudou, como a da maioria dos portugueses, hoje fechados em casa. Mas, curiosamente, olhando ao pormenor, mudaram os hábitos. A televisão mantém-se desligada, pois não me apetece ver esmiuçada toda esta situação - antes estava sempre on, nem que fosse para servir de barulho de fundo ou dar luz à casa. Passa-se o mesmo com as redes sociais, onde divagava frequentemente nos tempos livres; hoje dispenso opiniões alheias ou testemunhos, que só pioram o meu estado de espírito e de ansiedade. Dou uma vista de olhos, páro normalmente para ver coisas com piada e desligo. Agora abro o livro, que anda sempre comigo; leio mais. Toco mais vezes piano, durante mais tempo. Dedico-me mais ao meu namorado. Ligo aos meus pais por videochamada, nem que seja para dizer que a minha sopa estava muito boa. Tenho escrito - e tem sido tão bom! E, no meio disto tudo, percebo que me dediquei àquilo que é a nata da minha vida. Àquilo de que realmente gosto. Muito porque as coisas que me entretinham antes passaram a ser tóxicas nesta fase da vida.

Foi assim que, no meio deste caos todo, percebi que estou a retirar uma bela lição positiva. E que muito mais coisas positivas estão a sair daqui, que muita gente está a fazer o mesmo que eu - embora o objeto, a "nata" de cada um, possa ser diferente. Vejo todos os dias iniciativas que acho graça, que entretêm, que bem dispõem e que não teriam aparecido se não fosse tudo isto. Por isso hoje destaco uma série delas, que apareceram à custa do Covid-19, e que merecem ser apreciadas. Nem que seja para ver o lado positivo da coisa.

 

Nas redes sociais

. As baladas de adormecer do Miguel Araújo, partilhadas pelo cantor no seu facebook e instagram, pelas 21h. Aquilo que ele fazia para as duas filhas (cantar para adormecerem), faz agora, também, para os filhos dos outros - quer estes sejam miúdos ou graúdos. E é muito, muito bonito.

. Num outro registo, Bruno Nogueira também aderiu aos diretos - desta feita no instagram, para os adultos e com um copo de vinho na mão, a partir das 23h. A essa hora aqui a velhota já está frequentemente a dormir, mas dizem as boas línguas (e os vídeos gravados das emissões em direto, que já pude ver - mas que, parece, deixaram de estar disponíveis) que é um deleite e faz muito bem a quem precisa de treinar o ato de gargalhar.

. Ainda num outro registo, parvo mas engraçado, vale a pena deitar o olho no "Big Corona" - o reality show criado pela "A Pipoca Mais Doce" no seu instagram, com episódios praticamente diários, cujos quatro concorrentes são a sua família. Tendo em conta que o Big Brother foi adiado e estamos quase todos enclausurados dentro de casa - só faltam as câmaras - a paródia não podia ser mais oportuna. Para quem é fã deste tipo de programas mas que, ainda assim, tem espírito crítico e sentido de humor, perceberá a ideia. Nada melhor se aplica a este período que as tão faladas "24 sobre 24 horas, sempre fechados no mesmo sítio". 

 

Na cultura

. Esta é uma óptima altura para aproveitarmos para ler tudo aquilo que queríamos e não tínhamos tempo ou que arranjávamos desculpas para adiar (o meu caso). Não têm livros em casa? Tudo bem: há várias livrarias independentes a fazer entregas grátis em casa, só à distância de um clique. A Wook também tem estado recheada de promoções.

. Os livros de cordel voltaram - não para se comprar por capítulos nas papelarias (o objetivo é não sair de casa, lembram-se?) mas em versão online. A página do Bode Inspiratório junta vários escritores (como Mário de Carvalho e Rita Ferro, entre outros nomes menos sonantes mas a que devemos dar oportunidade) e cada um tem de continuar a história do outro, tendo apenas 24 horas para a escrever. Todos os dias sai um capítulo. Podem saber mais aqui

. São mais de livros a sério e não querem gastar dinheiro neste período de incerteza? José Rodrigues dos Santos disponibilizou um dos seus best-sellers - A Fórmula de Deus -, completamente grátis em versão virtual, para que todos o possam ler e passar estes tempos de quarentena mais entretidos.

. Prosa não é a vossa cena? Querem poesia? Na Comunidade Cultura e Arte podem descarregar, gratuitamente, 17 livros de Fernando Pessoa. Diria que ele é das personalidades que mais combinam com o tempo em que vivemos: estranho, meio esquizofrénico e com poemas que se adaptam a todos os nossos estados de espírito.

. Para quem é do Porto, a Livraria Lello também está a oferecer livros em modo "drive-thru": basta fazer a inscrição e passar no local no dia seguinte para o ir levantar (entre as 10h e o 12h), como quem levanta um hambúrguer no McDonalds. Mais informações aqui.

. Para além disso, a Lello disponibiliza online uma série de livros célebres para ler em casa, incluindo os contos de Edgar Allan Poe e, em breve, uma obra de Oscar Wilde. Aqui.

. Ah! Não esquecer o universo Harry Potter, que também tem novidades. J.K. Rowling lançou uma nova plataforma interativa, o "Harry Potter at Home", que ofere conteúdos interativos para miúdos e graúdos que sejam fãs destes livros e filmes - atraindo ao mesmo tempo novos e potenciais "potterheads", disponibilizando gratuitamente o primeiro livro da saga em vários idiomas.

. Saindo dos livros e passando para o teatro: foram vários os espaços que disponibilizaram algumas peças para se assistir online. Caso do Teatro Aberto e tantos outros, que podem consultar aqui.

. Também para quem gosta de sair de casa e não pode - neste caso não falando de salas de espetáculos mas de museus - há centenas de visitas guiadas através da Google Arte e Cultura dos mais variados museus, nos quatro cantos do mundo. É só escolher. Para mim, grande destaque para o museu Anne Frank, que podem "visitar" aqui.

 

Outros destaques (nomeadamente sobre comida)

. É hora de dar valor ao que é nosso e, acima de tudo, de comprar local. Só agora é que muitas pessoas se aperceberam da dependência total que têm dos supermercados - e agora tentam fugir deles a todo o custo, procurando mercados locais, lotas, mini-mercados, feiras (infelizmente fechadas, que tantas saudades me dão...), talhos, frutarias e padarias independentes, entre outros. Fazem-no, ora porque estão cheios, ora porque as entregas estimadas das encomendas online são para daqui a um mês. Os monopólios criados pelos super e hipermercados são pouco saudáveis para a economia - e é bom que as pessoas abram os olhos e vejam as alternativas à sua volta, que também alimentam bocas, sonhos e ambições. Neste momento há muitos pequenos negócios que levam comida e outros bens essenciais a casa de qualquer um - e a plataforma "Hora de Encomendar" é o sítio certo para encontrar quem está próximo de nós e o que têm para oferecer. Aproveitem a oportunidade para saber o que têm de bom perto de vossas casas - e conheçam as pessoas por detrás desses negócios. 

. Diz-se que a necessidade aguça o engenho. Já tinha falado do pão da Pachamama aqui, mas tive sempre muita dificuldade em encontrá-lo. Sempre achei que o negócio devia passar pela entrega em casa e, finalmente, aconteceu! Comprem estes pães maravilhosos, agora à distância de um clique, na novíssima loja virtual da Pachamama

. Tudo isto e muito mais pode ser encontrado em alguns sites que têm feito um acompanhamento mais ao menos permanente às coisas boas que têm surgido graças a esta pandemia. Um deles é o "Fica em Casa", que podem ir consultando aqui.

 

Por aí, têm mais sugestões de coisas giras que tenham surgido por causa deste ambiente apocalíptico que vivemos? Partilhem!

29
Mar20

Uma dissertação sobre os (meus) hábitos de leitura

E como a pandemia está a fazer com que volte a ler, depois de anos praticamente parada

Diz-se por aí que todos somos leitores: o difícil é encontrar o nosso livro. Aquele que nos enceta neste universo encantado da literatura e que nos abre portas para um admirável mundo novo (e este trocadilho, hã?). Aquele que nos faz apaixonar por personagens fictícias, tomar-lhes as dores e as alegrias, quase viver por elas. Aquele que nos dá vontade de passar o almoço e o jantar, só para conseguirmos adiantar mais um par de capítulos. Aquele que queremos devorar mas que, ao mesmo tempo, não queremos que chegue ao fim: este que será, sempre, o paradoxo de qualquer leitor. A alegria de saborear um bom livro e a tristeza de saber que esse prazer terá um fim, bem marcado e delineado, na página 356. 

Eu concordo totalmente que basta um (e só um) livro para nos fazer gostar de ler. Mas sei hoje, por experiência própria, que são preciso vários livros para manter essa chama acesa. Não vamos ler para sempre "Uma Aventura", o "Triângulo Jota" ou o "Cherub"; também não nos podemos manter eternamente nos livros juvenis, de paixonetas impossíveis, de amores proibidos e num eterno rol de novas experiências. Se por um lado acho que há uma evolução natural da leitura à medida que crescemos, que faz com que deixemos de nos interessar por uma determinada categoria de livros e passemos a gostar de outra, acredito mesmo que têm de existir "livros âncora" que nos prendam nessa nova fase enquanto leitores. Algo que mantenha a chama acesa. Caso contrário o hábito perde-se, a fome de devorar páginas e capítulos esvai-se e todo o processo terá de se repetir.

E se custa pôr um miúdo a ler (porque não querem, porque jogar computador é muito mais fixe, porque as letras são muito pequenas, porque tem muitas páginas e nunca mais vão chegar ao fim), convencer um adulto a voltar a ter hábitos de leitura é igualmente difícil (mesmo que o processo de persuasão seja interior e seja ele próprio a tentar fazer esse esforço): porque não há tempo, porque o trabalho nos ocupa a mente e não temos cabeça para mais mundos para além do nosso, porque há tarefas domésticas para executar, porque à noite o sono é demasiado para ler um par de páginas, porque a Netflix é mais fácil, não dá tanto trabalho nem custa tanto dinheiro. 

Não sei se já repararam, mas estou a falar por experiência própria. Eu era, aqui há uns anos, uma devoradora de livros. Hoje, se ler meia-dúzia de livros por ano já é muito - e é algo que me entristece imensamente, porque era um hábito que eu adorava ter. Mas sinto que fiz uma má gestão das minhas leituras, não evoluí; como sempre tive uma lacuna grande na minha vida social (e amorosa), fiquei-me por romancezinhos adolescentes que me davam uma boa sensação de preenchimento, que me faziam viver no lugar das personagens - e era o suficiente para mim. Mas se por um lado as narrativas acabam por ir dar todas ao mesmo, a minha idade ia avançando, mesmo que a minha vida social estivesse estagnada desde os início da minha vida adulta. E eu fartei-me. Ler já não me sabia bem. Muitas vezes, em vez de me preencher, só me lembrava daquilo que não tinha: amigos, verões super preenchidos de noites quentes e felizes, alguém de quem eu gostasse e que gostasse de mim de volta. 

Tentei evoluir para outro tipo de leituras, mas o hábito da leitura é uma das muitas coisas que precisam de ser bem cimentadas para que consigamos evoluir. Ninguém passa de um "Harry Potter" para um "Guerra e Paz" - há um caminho a percorrer. Há uma tolerância à frustração que tem de ser desenvolvida e trabalhada, para que consigamos ultrapassar pedras no caminho (que, neste caso, são livros que não apreciamos) e não nos deixemos abater e desistir. E eu não tinha as minhas bases bem fixas, porque estagnei. E, eventualmente, parei. Fiz muitas tentativas para reatar a relação tão especial que tinha com os livros, principalmente nas férias (altura em que, por não ter nada para fazer, era mais fácil não ter alternativas que me dissuadissem), mas eram sempre coisas fugazes. Lia na altura, mas assim que voltava a casa, os coitados ficavam a morar ad aeternum na mesinha de cabeceira. E todos os dias em que me deitava, que olhava para eles e não me apetecia pegar-lhes, era um momento triste.

Aproveitei toda esta fase da pandemia para tentar reaproximar-me à leitura. Não porque tenha mais tempo, mas porque sinto necessidade de me distanciar do mundo real, que hoje em dia me angustia ao ponto de ter ataques de ansiedade recorrentes. Precisava de um escape. E olhei para a minha prateleira, parada há tantos meses, e saquei do meu maior trunfo: um livro que tinha comprado mal saiu, mas que acabei por nunca mais ler, tal a minha falta de vontade. "O desaparecimento de Stephanie Mailer", de Joël Dicker, é quase a minha bisca, neste jogo que pretendo mesmo ganhar. 

Ainda não acabei o livro, mas estou a adora-lo. O escritor suíço já tinha um lugar no meu coração e acho que neste momento, mesmo não tendo terminado esta obra, já está no meu top de autores favoritos. Independentemente deste ser o meu novo "livro-âncora" ou não, conseguiu que eu saísse do mundo onde mora uma pandemia mortífera e que passasse a estar, por alguns minutos, em Orphea. Que passasse a andar com o livro no carro, de um lado para o outro, aguardando qualquer momento morto para ler mais umas páginas. Que tivesse vontade de ler. E que tivesse, acima de tudo, um mundo alternativo onde morar durante um pouco. E isso, nos dias de hoje, vale ouro. 

Espero conseguir continuar e que isto seja só o início. Que começou por eu precisar de tirar a cabeça do caos que se vive à nossa volta, mas que continuará pelos dias todos, quando tudo já estiver normal, e eu só quiser saborear algumas páginas antes de adormecer.

24
Mar20

O desabafo de uma não-heroína

Hoje acordei a pensar em como gostava de ter um supermercado ou um salão de unhas de gel. No primeiro caso, dentro deste cenário meio apocalíptico em que vivemos, era minha obrigação continuar a trabalhar; no segundo, era obrigada a fechar. Tudo isto por indicações superiores, lavando as minhas mãos de culpas futuras que vão - garanto - cair sobre todos dentro de pouco tempo.

No meio disto tudo, não somos todos heróis. Eu não fico em casa. Mas eu também não sou médica, não sou operadora de caixa, não sou polícia, não faço parte da proteção civil, não sou bombeira, não sou padeira, não sou talhante, não sou peixeira, não sou enfermeira, não limpo hospitais, não sou condutora de autocarros e não desinfeto espaços públicos. Sou, como se dizia antigamente, "industrial". E os industriais - e todos os operários que trabalham nessa mesma indústria - caem num limbo problemático no meio deste caos todo. Têm nas suas costas, segundo o primeiro-ministro, o dever de fazer com que o país não pare; mas têm na sua consciência, ouvindo todos os outros que dizem ser extremamente necessário o recolher obrigatório para conter a propagação deste vírus, e tendo a plena noção de que sendo a indústria uma coisa pouco apta para o teletrabalho, que se estão a pôr a eles, às suas famílias e os seus funcionários em risco (ainda que relativo) para que tudo continue a andar. Devemos proporcionar-lhes todas as condições de higiene necessárias, diz o ministro. Se eles as tomam ou não, já não é minha responsabilidade.

Mas são as minhas costas que me doem. É o meu sistema nervoso. São as mãos que me tremem e a pálpebra que teima em não parar quieta. É o sono que não me dá descanso. É o peso da responsabilidade que é posta em cima de mim: porque por um lado tenho o dever de fazer a economia andar (e felizmente tenho encomendas para satisfazer, compromissos para manter), mas por outro tenho o dever cívico de proteger os meus (família, amigos e funcionários). E neste caso não posso lavar as mãos desta responsabilidade: os decretos não dizem se devo continuar ou parar de laborar. Há um buraco na lei, como quem diz: "decide tu".

Tenho de decidir se quero deixar de honrar os meus compromissos e deixar na mão os meus clientes fiéis, que se assim for provavelmente não voltarão a colocar encomendas depois de tudo isto passar, levando-me à falência. Tenho de decidir se me quero pôr em risco, a mim e aos meus, aos meus funcionários e às famílias deles, em prol de continuar a ter dinheiro para lhes pagar o salário ao fim do mês. Tenho de decidir se quero endividar a minha empresa, com uma taxa de juro baixa mas que mesmo assim vai dar lucro aos bancos, de forma a tentar salva-la no futuro - sem saber se, mesmo assim, continuarei à tona da água. Tenho de decidir se sou forte o suficiente para ouvir opiniões contrárias - de quem, curiosamente, não tem este peso em cima dos ombros. 

Eu não sou heroína de nada - porque ninguém decide por mim. Mas gostava. Porque medo todos temos. O peso da responsabilidade é que não.

20
Mar20

25 anos em tempo de Corona

Sempre levei muito a sério o provérbio do "não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti".

Eu detesto festas de anos. Sempre detestei. Já é assim desde miúda, mas nessa altura as razões prendiam-se com o medo que tinha dos escorregas nos parques de diversões escolhidos para festejar a data e porque abominava aqueles bicos de pato com queijo e fiambre que antecediam ao soprar das velas, num bolo de pastelaria igualmente abominável. Agora que penso, passaram os anos e eu não mudei assim tanto: não ando em escorregas e não vou a parques de diversões; detesto bicos de pato e ainda por cima não como queijo; e continuo a achar que um bolo de pastelaria não é digno o suficiente para festejar uma data tão importante. Se é bolo de anos, é para ser em bom - nem que seja feito pelo próprio aniversariante (que é, na maior parte das vezes, o meu caso).

Pois que hoje completo 25 anos de vida. E, dado ser um quarto de século, ia abrir uma exceção: fazer uma festa. Queríamos que não fosse o simples "soprar das velas"; íamos convidar a toda a minha família e até, na loucura, alguns amigos - algo que sempre evitei, porque me faz confusão a mistura de núcleos que não têm nada em comum entre si a não ser conhecerem o aniversariante. Foi sempre isto que detestei em festas de anos; se no dia-a-dia já me sentia muitas vezes excluída e posta de parte, nestas festas a sensação agudizava-se, pois chegava a não conhecer ninguém, e via-me sozinha no meio de uma multidão. Posta de parte porque não alinhava nas brincadeiras. E à parte, porque nunca fui fã do conceito de festa, que envolve barulho e muita confusão.

Mas são 25 anos. Era ano de exceção - não só pelo número bem redondo mas também pela fase da vida que vivo. É o primeiro ano que festejo com um namorado ao lado, que retirou de mim a sensação eterna de estar só, independentemente de estar só com ele ou ter o mundo à minha volta; é o afirmar de uma nova fase, pessoal e profissional - tão importantes e tão vincadas que é impossível ignorar. Por ter toda a gente que importa à minha volta.

Por todos percebermos isso, queríamos celebrar.

Esquecemo-nos que a vida dá muitas voltas. E que raio de volta esta, que mexeu não só comigo, não só como os outros, mas com o mundo inteiro. As séries e os livros de suspense e ficção científica não podiam ter adivinhado o que se avizinhava - num dia tínhamos uma vida normal, noutro estamos presos em casa. As notícias gritam estado de emergência. Contágio à mínima coisa. Mortes. Infetados. De um dia para o outro fecha tudo, de uma noite para a outra não sabemos se continuamos a trabalhar ou se devemos ficar em casa.

Hoje faço 25 anos. Em 25 anos é a primeira vez que não estou com os meus irmãos, seus cônjuges e filhos neste dia que marca o meu nascimento. Foi a primeira vez que não pude abraçar a minha mãe mal abri a porta da cozinha. Em que não pude dar um beijo ao meu pai quando o vi a chegar. Foi a primeira vez desde que cozinho que não fiz um bolinho para que todos pudéssemos comer ao jantar, depois do cabrito assado da minha mãe (o meu prato de eleição). 

É um dia tão feliz como triste: por saber que os anos continuam a contar e que a minha vida está recheada de coisas boas, mas por outro lado por não as conseguir partilhar com quem verdadeiramente amo e faz parte de mim e desta jornada. Que estes tempos de isolamento e de diversidade sirvam para percebermos a importância de pequenas coisas que há um par de dias tínhamos como garantidas. E não falo da festa de anos.

O beijo de uma mãe.

O abraço de um pai.

O canto em uníssono dos meus irmãos a entoarem-me o "Parabéns a Você" - um momento que até hoje passava à frente sem grandes dramas -, enquanto espero para soprar as velas, sem medo de infetar o bolo. 

 

Façamo-nos valer das novas tecnologias, que nos aproximam em tempos de distância. E que este aniversário, que decerto ficará para sempre na minha memória, sirva de exemplo para perceber o que realmente importa. Bem dizem que a "velhice" traz conhecimento associado.  E um quarto de século já é alguma coisinha ;)

 

aniv25.jpg

 

17
Mar20

As saudades do abraço de um pai (ou de uma mãe)

É uma sensação estranha estar privada do contacto físico com os meus pais. As saudades de um abraço e um beijo dos pais é uma coisa comum de se ouvir - mas da boca de quem os perdeu. No entanto, nestes tempos estranhos que correm, as carícias são proíbidas: não porque eles não estão cá, mas precisamente porque os queremos por muito mais tempo.

Por um lado sou uma sortuda, porque decidimos em conjunto (e pelas várias condicionantes que temos - nomeadamente por eu e o meu pai continuarmos a trabalhar, ainda para mais no mesmo meio) que continuaria a frequentar a casa deles - e por isso falo-lhes sem ser a um telemóvel de distância. Por outro lado, preferia estar em casa - e saber que eles estariam na deles, isolados de qualquer perigo que eu possa vir a transmitir-lhes (independentemente de máscaras, da ausência de toques ou da quantidade de vezes que esfrego as mãos com sabonete). 

É estranho que no momento em que mais sinto falta do colo da mãe, ela não mo possa dar. Que queira dar um aperto de mão, em forma de alento, a qualquer um dos dois... e não o possa fazer. Que estes dias, os que não podemos abraçar-nos, sejam os mesmos em que percebemos a importância desse aperto peito-a-peito, e a força que transmite.

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