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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

02
Set19

Em busca da francesinha perfeita #10

no Bufete Fase

Se no último par de anos comi mesmo muito poucas francesinhas - muito por culpa de me sentir eternamente insatisfeita com aquilo que ingiro sempre que faço uma nova tentativa - nos últimos meses tenho-me vingado e experimentado vários restaurantes que têm como especialidade esta iguaria portuense.

A última foi naquele que é, provavelmente, o local mais famoso de todos: o Bufete Fase, na rua de Santa Catarina.

Sejamos claros à partida: é um tasco. Se procuram um sítio bonito e glamouroso para comer e estar confortáveis, este não é certamente o lugar ideal. Aliás, ali não se cultiva a arte de estar à mesa: é chegar, comer e sair (prova disso é termos jantado em 40 minutos). No fundo, é uma coisa à antiga: o objetivo é sair satisfeito, não é postar uma foto bonita no Instagram.

E isto vê-se logo no atendimento. A senhora foi direta: "são então duas francesinhas? E para beber, o que vai ser?". Ou seja: não há muito mais escolha para além do prato típico - se não é francesinha, é bife (daquele que vem dentro da francesinha...). E vamos diretos ao assunto: a dita é boa. E lembrou-me a do Gambamar, o que é um óptimo elogio.

O pão é bem tostado e o conteúdo recheado; o bife é fino mas tenro e não há salsicha fresca (yey!). E há aqui um twist: não só há bife como também carne assada, que dá um travo final que não é do gosto de todos, mas que eu não achei mau. No meio das carnes nenhuma me pareceu ter daquelas pepitas malvadas de pimenta, que normalmente me infernizam as refeições. E isto leva-me ao molho. Apontem bem isto: NÃO. É. PICANTE. Aleluia, irmãos! É uma autêntica lufada de ar fresco. Os molhos de francesinha foram progressivamente ficando mais pungentes neste sentido, algo que nem o meu palato nem o meu estômago aprovam; mas o molho do Bufete Fase, por default, não é picante. Mas descansem os fãs da língua em formigueiro, porque também há uma versão picante ;)

Penso que a questão do molho foi crucial para não me sentir pesada quando saí de lá. Normalmente, sempre que como francesinha, sinto-me enfartada, como se tivesse comido um boi (o que depois me faz sentir arrependida de a ter comido - porque ninguém quer sentir que comeu um boi, não é verdade?). E ali, pelo contrário, senti-me leve e bem disposta depois de sair do restaurante - o que, só por si, já é uma sensação a registar.

A nota final vai para a dificuldade em arranjar mesa. Nós chegamos ao restaurante pelas 19:40h e estreamos o jantar dessa noite; quando saímos (pelas 20:20h) o corredor apertado que liga a porta às salas de jantar já tinha pelo menos uma dúzia de pessoas à espera. Encheu num fósforo. E, pelo que me pareceu, ia continuar a encher nas horas seguintes.

O maior elogio que posso fazer ao Bufete Fase é que acho que há uma razão válida para isso acontecer. Eles têm a fama, tiram claramente o proveito - mas é bom finalmente ver uma base nisso.

Fiquei fã (desde que se vá cedinho).

 

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22
Ago19

As idiossincrasias das bolas de berlim

Sempre fui muito esquisitinha. Não gosto de nada que fuja da norma, de comida gourmet, de temperos arrojados, de especiarias, de texturas estranhas, de vegetais, de papas ou coisas moles. Sou muito simplória no que toca a comida, vá. Mas pode-se dizer que na praia viro uma pessoa bastante eclética.

Há uns anos escrevi aqui sobre a bolacha americana de côco - uma delícia que, pelos vistos, entrou em extinção este ano. Enquanto estive no Algarve chamei pela senhora, que me disse que já não faziam essa pequena relíquia da praia. Uma pena. Era óptimo e muito menos enjoativo que a bolinha. Mas enfim, uma pessoa aceita - ainda que com uma tristeza no estômago, de quem sabe que não vai voltar a provar uma coisa destas tão cedo.

Ataquei portanto o senhor das bolinhas com uma descoberta que tinha feito o ano passado: "tem bolas de beterraba?". "Não, já não fazemos de red velvet". Tau! Mais uma machadada neste meu coração, mais um golpe duro nas minhas papilas gustativas. Tudo num só ano... Mas ele colmatou: "mas temos de tinta de choco!".

E foi assim que eu comecei a começar bolas de berlim pretas, para grande impressão de todos os que me rodeavam. Mas choquem-se: são boas! Tal como as da beterraba, o doce é cortado por estes sabores mais atípicos, tornando os bolos muito menos enjoativos. Fiquei muito fã!
Quando agora fui para o Alvor a escolha das bolinhas era mais reduzida - embora a escolha por entre os vendedores seja bem mais vasta. Se em Albufeira há com creme, sem creme, morango, Nutella, doce de leite, tinta de choco, entre outros, no Alvor ficam-se pelo básico. Mas, mesmo assim, tornei a inovar: marcharam umas bolinhas de alfarroba que, para mim, batem as bolas simples.
Agora estou em Vila Praia de Âncora e não há grande alternativa: ou é com creme ou não há nada para ninguém. É o fechar de um ciclo: começo nas estranhas e regresso à base, normais mas fresquinhas, tal como se querem.

Aguardo agora com ansiedade os novos sabores do próximo ano. Bolas de café, para abrir a pestana em plena praia? De maracujá, com um toque crunchy? De abóbora menina, já a antecipar sabores de natal? De cenoura, com toque caseiro? Ou uma total inovação, como bolhinhas de carvão ativado, para evitar os gases noturnos?

Ficam as ideias, senhores das bolas. Surpreendam-me!

 

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24
Jul19

Review da semana 27#

Pão Ancestral da Pachamama, Padaria artesanal

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O pão vai ser sempre o meu ponto fraco. Levem-me tudo: os doces, os chocolates, as batatas fritas, os gelados... Mas tirar-me o meu pãozinho com manteiga é matar-me.

Já tentei (e consegui) reduzi-lo muito da minha alimentação, mas é das coisas mais difíceis que posso fazer. Em fases em que me sentia mais gordinha, e por ter pouco onde cortar mais (por não beber álcool, pouco consumir refrigerantes, não colocar açúcar no chá, não comer durante a noite, entre outros pecados comuns que levam à engorda), tentei cortar nesta 8ª maravilha do mundo, mas nunca fui completamente bem sucedida. O meu amor por pão vai ao ponto do meu irmão, que vive em Inglaterra, me trazer sempre um mega pão delicioso que lá fazem (o sourdough) de cada vez que cá vem - e de essa ser a melhor prenda que ele me pode dar, de toda a panóplia de coisas que existe naquele país.

A questão é que, para além da engorda (não necessariamente associada à manteiga que acompanha o dito, porque gosto de pão sem nada), este alimento tem um defeito: o fermento. Tenho frequentemente crises de cólicas que, suspeito, são muito causadas por este ingrediente - para além de stress, que também é certamente culpado e me faz engolir ar de forma gratuita...

Mas, no que diz respeito ao pão e ao fermento, fiz uma bela descoberta há uns tempos. Quando fui à festa da comida continente, no Parque da Cidade, descobri a barraquinha da Pachamama, uma padaria artesanal um bocadinho diferente do habitual, que produz pães que são vendidos em grandes superfícies (nomeadamente no Continente e no Jumbo). Provei os vários produtos que eles lá tinham à disposição e, de todos, o meu preferido foi o Pão Ancestral - precisamente porque tem um travo amargo, semelhante ao pão inglês que tanto adoro! Qual não foi a minha surpresa quando vi que, para além de ser feito a partir de farinha de espelta, este pão não tem fermento!

Borrifei-me nas borlas e trouxe um pão para casa, para comer ao pequeno-almoço, e a experiência correu muito bem. É mais caro que os outros, mas dá-me quase para uma semana de torradas ao pequeno-almoço... E fica delicioso com aquela manteiga da Primor que já vos falei aqui. Pelo que se diz agora (sim, porque estas coisas mudam constantemente) a espelta é uma boa alternativa ao trigo convencional, sendo à partida uma opção mais saudável. Por isso é experimentar! Para além dos pães sem fermento há também uma grande seleção de pães sem glúten, por isso dá para todos os tipos de esquisitos ;)

Aconselho!

03
Fev19

Uma carta à... #3 Primor

Olá Primor,

 

Antes de mais, não tens de quê: estou prestes a revelar ao mundo que produzes a melhor manteiga que há no mercado, a Primor com Cristais de Sal. Não há palavras para descrever o quão bom é comer uma torrada, quentinha, e barrada com esta manteiga, até apanhares uma daquelas pepitas de sal que parecem deixar todo o sabor ainda mais intenso. Porque a verdade é mesmo essa: para quem gosta de manteigas salgadas (que é como quem diz, boas), não há cá President ou marca Continente que se safe. A tua é a melhor. Infelizmente é a melhor para o palato, mas não para o ambiente.

Acredita que eu percebo o conceito de produto premium - mal fora se não entendia, depois de já ter perdido a conta às aulas de marketing que já tive ao longo da vida. Percebo que queiras cobrar 1,39 euros por um pacote com 125 gramas de manteiga e tenhas de justificar o preço de alguma forma. Mas vender o produto dentro de caixas de plástico rígido, com a manteiga envolvida em papel de prata lá dentro, é só parvo. "Ah e tal, é para não ficar a saber a frigorífico - ninguém quer que uma manteiga desta altíssima qualidade perca o seu esplêndido sabor". Verdade - mas a pensar assim também todos os queijos, fiambres e coisas do género teriam de vir em caixinhas - e não vêm. Porquê? Porque 99% das pessoas têm uma coisa em casa chamada tupperwares que, veja-se só!, foram mesmo pensados para esse efeito: guardar coisas para que elas não se estraguem ou deteriorem.

Deves estar a pensar: "lá vem esta miúda com as teorias ecologistas da geração dela, que não percebe que precisamos de vender quer o mundo acabe ou não daqui a 200 anos". Não é verdade. Sou até bastante despreocupada em relação a este tópico, nada extremista (já me chega ser extremista em quase tudo o resto), mas acho que todos temos um cérebro e devemos pelo menos tentar rentabiliza-lo. Eu gosto de caixas, caixinhas e caixotas (basta entrar no meu quarto para se perceber isso), mas sou incapaz de dar utilidade às dezenas de caixas minúsculas que advém dessa embalagem. Já não tenho mais clips, totós, ganchos e molas para guardar; já nem sequer tenho mais espaço para empilhar caixinhas na eventualidade de vir a precisar delas no futuro. Sou obrigada a deita-las fora. E numa altura em que até querem abolir as palhinhas e os cotonetes, produzir uma caixa de bom plástico só por uma questão de vendas não é só parvo: é irresponsável.

Imaginemos que, de facto, as pessoas não têm tupperwares em casa (essas pessoas existem?!). Tudo bem, vende-se a manteiga com a caixinha. Mas para todos os outros que ou já têm sítio onde guardar ou que já compraram a vossa bela e durável embalagem com tampa dourada, a dizer orgulhosamente "Primor", a melhor ideia era vender a manteiga em separado. Até podiam baixar o preço por não terem de pedir tantas caixas ao vosso fornecedor, já viram? E, baixando o preço, mais pessoas provarão e ficarão viciadas na vossa maravilhosa manteiga. E mais vendas é sinónimo de mais dinheiro. E mais dinheiro é aquilo que a Primor quer, certo?

Apercebo-me agora que estou quase a dar um serviço de consultoria à distância e a custo zero, mas é para que se perceba o meu amor a este produto. Gostava muito de não o comprar com peso na consciência ou a pensar "e agora, onde é que vou utilizar mais uma caixa?!". Ou, pior, ver esta manteiga extinta do mercado porque é demasiado cara ou por não ter clientes que, ao contrário de mim, são mais radicais nestas coisas.

Pensem nisso. 

 

Obrigada,

Carolina, o meio ambiente e os arrumos de casa da Carolina que já não têm mais sítio para albergar caixas da Primor (as únicas que não agradecem são as minhas ancas, mas vamos optar por ignorar)

 

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20
Jan19

Uma carta à... #1 Longa Vida

Dou por mim muitas vezes a pensar que queria dizer umas coisas a uma certa pessoa, objeto ou marca. É uma espécie de reclamação interior, que não posso entregar a ninguém mas que me contamina o cérebro de coisas parvas durante um tempo indeterminado, enchendo-me de vontade de deitar tudo cá para fora, mas sem grande forma de o fazer. Nunca quiseram endereçar uma carta insultuosa àquele canto da cama que insiste em vos destruir o mindinho do pé? E dizer umas coisinhas àquela senhora que está sempre a fazer depósitos no banco com 50 mil moedinhas? Ou à outra que anda a vasculhar os cupões no momento do pagamento, em plena caixa do Continente? Pois, bem me queria parecer que não sou a única.

Então, no Verão, lembrei-me: se eu tenho um blog, porque raio é que não despejo lá tudo isto? E por isso, quase meio ano mais tarde, cá estou, estreando esta nova rubrica de cartas a entes desconhecidos/intangíveis/incontactáveis. O primeiro texto vai para a marca que despoletou tudo isto, que é recordista em me fazer escrever cartas mentalmente, e que eu amaldiçoo de cada vez que me deixa mal numa visita ao supermercado: a Longa Vida. Ora vamos lá.

 

 

Querida Longa Vida, 

Acho que te posso tratar assim, por tu, visto nos conhecermos há muitos anos. Foi contigo que aprendi a fazer chantilly e é em parte por tua culpa que desde cedo que me atiram as taças de natas para as mãos, com a desculpa de que "nunca me caem". Mas a verdade é que não sou eu - és tu.

Não há que ter vergonha em admiti-lo: tu és uma espécie de Viagra das natas. Contigo, sobem sempre. Não vale a pena estar a gastar dinheiro com os teus concorrentes, porque já se sabe que não é a mesma coisa e que vai dar asneira; que não podemos virar a tigela por cima da nossa cabeça, em jeito de demonstração, porque sabemos que não vai resultar.

Mas o facto de tu teres o monopólio do mundo das natas não te dá o direito de menosprezares assim os teus clientes. Quantas vezes é que eu fui atrás de ti e me deparei com uma caixa vazia, solitária, no corredor dos lacticínios? Quantas vezes é que já saí de grandes superfícies de mãos a abanar, sem natas para adoçarem os meus morangos, a minha pavlova, as minhas natas do céu ou o meu agelatinado?

Por ti, já cheguei a correr 4 supermercados em menos de meia hora. Quem não disser que isto é amor, não percebe nada do assunto. Mas numa relação a sério as provas têm de vir dos dois lados (embora o Salvador cante "o meu coração pode amar pelos dois", toda a gente sabe que isto, a longo termo, se torna insustentável), e eu estou cansada de lutar sozinha. Está na altura de fazeres alguma coisa - comprares mais vacas, empregares mais gente, arranjares mais máquinas ou despedires o responsável pela distribuição. Qualquer coisa. Mas fá-lo por nós e pelo bem da nossa relação, já tão duradoura.

O preço da gasolina está caro e eu já não vou para nova, e não aguento picos de emoções como aqueles que me acontecem quando me deparo com a prateleira do supermercado vazia, quando vou em tua busca.

Por favor pensa em mim. Em nós. Em todos os amantes de natas que não aguentam a tristeza de não as ver subir, embora as batam durante meia hora. Isto já para não falar das vezes em que atiram as culpas para cima de nós – mulheres - e do nosso ciclo menstrual, com o mito secular de que as natas não pegam se estivermos com o período. Todos sabemos que a culpa é da Mimosa e outras que tais. Precisamos de ti e só tu nos podes ajudar.

Porque com mais natas Longa Vida no supermercado, nunca mais ninguém ficará frustrado!

Obrigada e até breve,

Carolina

 

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P.S. Giro, giro era se alguém um dia respondesse. Aí é que era!

 

30
Out18

Pelo direito à torrada quente

Falar de direito não é a coisa assim mais cativante do mundo. Falo por experiência própria, que nas últimas semanas levei uma injeção valente no que diz respeito a esta temática (e em particular relativamente ao direito no trabalho).

Mas acho que nos direitos do homem falta um ponto fundamental, ao lado de todas aquelas coisas que nós já sabemos (a vida, o respeito, a liberdade, o repouso...): o direito à torrada quente.

Podemos discutir a sua pertinência, principalmente quando posta ao lado de assuntos tão importantes e delicados, mas admitamos: uma torrada bem quentinha, onde a manteiga derrete ao primeiro toque, pode ser um abraço bem quente numa noite fria; pode ser o nosso porto de abrigo quando nos sentimos sós; pode ser o nosso ombro amigo quando não temos amigos; pode ser o conforto de um estômago vazio e o êxtase das nossas papilas gustativas; pode ser um oásis no meio de um deserto. Uma torrada quente pode ser quase tudo neste vida.

E sim, eu disse quente. Porque uma torrada fria - aquela em que os dentes mal conseguem partir e em que espalhar a manteiga é quase barrar cimento em tijolo-burro - é quase tão mau como um coração despedaçado; é a chuva torrencial num dia de verão; é a noite de Natal passada na solidão.

Como tal, nunca devíamos ser privados de comer a nossa torrada quente, acabadinha de sair da torradeira. Nunca devíamos ter de ir abrir a porta que tocou no momento em que aproximávamos a dita à boca; jamais devíamos atender o telemóvel que toca na hora H; não devíamos ter de corresponder aos pedidos dos nossos pais e irmãos quando dizem “podes vir aqui ao quartooooo?”; não devíamos sentir-nos obrigados a agir de uma forma altruísta quando alguém nos pede “uma trinquinha”.

Comer uma torrada quente é, ou devia ser, um momento solene, meramente interrompido apenas e só em alturas de profunda urgência. Porque o derreter da manteiga não acontece cinco minutos depois; porque aquele “crunch” da primeira trinca não se repete se formos a algum sítio durante “uns segundinhos”; porque só vivemos uma vez e cada torrada quentinha deve ser apreciada como se fosse a última, mesmo que haja uma durante todas as muitas manhãs da nossa vida.

 

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30
Jan18

(Tentar) Voltar aos sabores de infância

Acho que todos nós temos alguns sabores idílicos dos nossos tempos idos; paladares que guardamos em recantos da nossa memória e que deixam muitas saudades, porque são quase sempre irrecuperáveis. Normalmente são de comidas feitas por alguém que já cá não está (quantos elogios já ouvi às comidas de tantas avós!), provadas em sítios onde não voltaremos ou que simplesmente fazem parte de um pacote de memórias irrepetível.

Felizmente eu não tenho muitas lembranças dessas. Nunca tive avós que cozinhassem para mim e a pessoa que faz as minhas comidas preferidas - a minha mãe - ainda está cá para as fazer sempre que lhe peço. Tenho vários sabores que me remontam à infância, alguns dos quais nem sei dizer se eram bons ou maus... são apenas lembranças. Assim de repente só me lembro de duas coisas que adorava e que tenho realmente saudades: a primeira são as verdadeiras tapiocas brasileiras, que comia todos os dias ao pequeno-almoço quando fui ao Brasil. Durante muitos anos nem soube o nome daquilo e só recentemente, quando a moda apareceu por cá, é que me caiu a ficha e percebi que era aquilo que eu tanto tinha adorada na minha primeira viagem ao estrangeiro; ainda não experimentei em restaurantes, mas tentei fazer várias vezes cá em casa e o resultado foi desastroso.

A segunda coisa era o meu bolo favorito do mundo, feito numa pastelaria que fechou aqui há uns anos e da qual eu guardo as melhores memórias. Sempre que alguém fazia anos cá em casa era lá que íamos - e normalmente era a mim e ao meu pai que recaía a (difícil) tarefa de ir levantar a encomenda. Esta não era uma pastelaria qualquer: era uma coisa antiga, só com venda ao público (sem sítio para sentar ou estar), localizada numa viela sem acesso a carros, longe da vista de qualquer consumidor comum. Tenho as melhores memórias desses momentos: eu e o meu pai, gulosos como somos, atacávamos imediatamente a caixa das miniaturas e depois tentavamos disfarçar os doces em falta, afastando-os entre si, para que em casa ninguém desse por nada. Ele comia os jesuítas, eu os éclairs: eram o meu pastel favorito. Entretanto, deixaram de ser - foi ali que defini o meu padrão, eram aqueles os meus éclairs de referência, e nunca mais encontrei uns sequer parecidos.

Para além disso, faziam o melhor bolo-pão-de-ló com ovos moles do mundo (com cobertura de massapão, de açúcar e amêndoa) e, muito antes de sermos invadidos por esta moda do cake design, já eles faziam coisas incríveis. Eu tive direito a Minnie's, a Tweeties, a Borboletas, a Capuchinhos Vermelhos e, entre outros que já não me recordo, o meu favorito de sempre: um palhaço (de tal forma que até repeti ao longo dos anos). Era a coisa que eu mais ansiava no meu aniversário: aquele bolo. Até ao dia em que eu fiz anos, a minha mãe tentou ligar para a pastelaria para encomendar o bolo e ninguém atendeu. Foi lá e bateu com o nariz na grade, já que a porta estava entreaberta. Pesquisei, perguntei, quis muito que aquela decisão voltasse atrás. Mas nunca mais. 90% das vezes que passo na rua que dava acesso à tal viela, sinto o sabor e a suavidade daquele bolo na minha boca. E tenho saudades.

Tantas que fiz uma coisa que quase nunca dá resultado: tentei reproduzir o bolo. Por mero acaso a minha pasteleira de eleição (a La Dolce Rita) deu a receita deste bolo, tipicamente servido em aniversários, e eu aproveitei que a minha irmã fazia anos para pôr a mão na massa (dado que estou em dieta e não posso fazer doces para além das datas excepcionais). Fiz a receita direitinha (com muito custo, diga-se de passagem: só à terceira é que consegui que o doce de ovos me saísse direito), fui pesquisar receitas de massapão (que também tive de repetir, porque a primeira correu mal) e lá montei o bolo. Acho que nunca estive tão ansiosa para cantar os parabéns! Queria tanto, tanto, tanto que o sabor estivesse lá. Queria tanto acertar.

E estive perto. Quando meti uma garfada à boca, quis pôr logo outra. O sabor estava lá. Faltava alguma humidade no bolo, precisava de mais doce de ovos e o manuseamento da massapão também não foi o ideal (embora fosse algo meramente estético). Mas tudo estava lá. Viajei no tempo enquanto saboreei a minha própria obra e desfrutei do meu dia da asneira. Tirei notas mentais sobre o que tinha de melhorar da próxima vez e já anseio pelo próximo aniversário para o meu paladar voltar aos tempos de criança. Que saudades traz um simples bolo...

 

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 (alguns dos meus bolos antigos)

 

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(o bolo que fiz para a minha irmã. as flores de açúcar, comestíveis, foram compradas - não tenho arte para tanto)

02
Nov17

Em busca da francesinha perfeita 9#

Adorava dizer que esta rubrica está morta porque eu me deixei de gulodices e passei a ter uma alimentação espetacularmente saudável. Mas não. A verdade é que deixei praticamente de comer francesinhas. Sou aquele género de pessoa que está sempre a dizer (e a pensar) “estou tão gorda” e estar a comer francesinhas que não me sabiam bem só aumentava o meu nível de desespero.

Sempre gostei bastante desta iguaria portuense e acho que, desde que me lembro de comer como gente grande, nunca tinha passado tanto tempo sem comer uma francesinha. Este ano devo ter comido umas três, o que bate um recorde mínimo nunca antes alcançado.

Porque a verdade é que comia e não me sabiam bem – ou, se sabiam, deixavam-me maldisposta a seguir, com o fígado a gritar por misericórdia depois de tanto molho inglês. Há mais de dois anos que não comia uma francesinha que não fosse demasiado picante, que não tivesse o bife mais fraco que se encontrava no talho, cujo pão fosse rijo e crocante e as carnes de boa qualidade.

Mas neste feriado decidi fazer mais um tentativa, sacrificando mais uma vez as minhas ancas em prol desta causa. E talvez tenha resultado. Gosto de pensar que, em parte, a culpa é do sítio.

 

Francesinha 9#: A Marisqueira do Porto (antigo Gambamar)

A Marisqueira do Porto abriu há pouco mais de um mês num sítio, para mim, muito especial: o antigo Gambamar, onde aprendi a gostar de francesinhas e onde havia, para mim, as melhores de todas. Esta rubrica surgiu quando o restaurante fechou e eu fiquei “órfã” de francesinha, por isso esta nona tentativa representa quase o fechar de um ciclo.

Estava bastante esperançosa. Conheço o dono, que me disse que elas eram boas, e que quem as fazia tinha vindo d’A Regaleira (que, para quem não conhece, é a criadora deste “petisco”). Tudo era um bom prenúncio e veio a concretizar-se.

Acima de tudo, e deveras importante, o picante não se sobrepunha a nada; não era demasiado intenso, não queimava o paladar, não deixava o estômago a roncar horas depois. O molho é, aliás, um pouco para o adocicado.

Mas a melhor maneira de descrever esta francesinha é dizendo que ela é “rica” e “pesada”. É muito grande – eu já não sou o que era, porque há dez anos comia o prato inteiro enquanto o diabo esfregava um olho, e agora deixei parte da comida no prato, porque já estava a arrebentar pelas costuras – mas muito bem constituída, com muito boas carnes. E o bife era excecional, com uma altura bem razoável, saboroso e tenro, tal como se quer.

Vem com o típico camarão por cima (eu, por acaso, dispenso) e um cestinho de batatas fritas. Ao todo, dez euros.

O veredicto não podia ser mais positivo. Dado o preço que se paga por aí, num simples café, por uma francesinha… penso que a relação preço/qualidade desta é, até, muito aceitável. O restaurante é muito agradável, tem estacionamento e fica no coração do Porto, por isso não se pode pedir mais. Foi das melhores francesinhas que comi desde que comecei esta rubrica e é óptima para quem gosta de bem enfardar. Estou contente e prometo voltar.

 

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21
Mai17

Pensamentos dispersos na charcutaria de um supermercado

Eu gosto muito de ir ao supermercado - eu sei que isto é estranho, a maioria das pessoas detesta, mas é coisa para me relaxar; gosto de ver produtos novos, as informações nutricionais e, por isso, não gosto de ir à pressa (até porque nesses dias é quando apanhamos mais filas).

Mas é precisamente de filas que eu quero falar: não são as das caixas que mais me incomodam, mas sim a da charcutaria. Por aqui se vê o quanto os portugueses comem queijos, fiambres, chourições, salpicões e mortadelas - com e sem azeitona - aos molhos. Para além de serem muitas vezes quantidades alucinantes (meio quilo de queijo, por amor de Deus!), parece que muitas vezes têm um gosto particular em levar todo o tipo de produtos existentes nesta secção do supermercado. É que nem precisam de sair daqui para irem com o cesto cheio, carregado com coisas suficientes para fazer francesinhas para um batalhão!

Eu, que já sei que para ir à charcutaria é preciso uma vida, já tenho as minhas técnicas: mal chego ao super vou logo tirar senha e vou deitando um olho, de quando em vez, à tabuleta com os números para não perder a lugar - o que, no fundo, são esperanças infundadas porque eu posso praticamente correr a meia maratona por entre os corredores da loja e, quando acabar, ainda faltam três senhas para me atenderem. Mas enfim, uma pessoa pode sonhar.

Como sou organizada, faço um plano de ataque ao supermercado antes de começar a fazer as compras, de forma a demorar o menos tempo possível e não passar vinte vezes no mesmo corredor - e isto faz com que seja sempre (sempre!) mais rápida nas minhas compras (mesmo que sejam muitas) do que a velocidade com que se despacham senhas na charcutaria. Tudo isto piora quando há clientes que exigem que as máquinas sejam limpas porque antes do fiambre de peru que exigiram estava um de porco que pode ter contaminado a dita máquina com carne vermelha; ou que pedem uma fatia para entreter o filho, enquanto encomendam quase um quilo de queijo para a família inteira.

E sim, eu sei disto tudo porque depois de ter o carro cheio, de ter verificado a lista mais de uma dúzia de vezes e de ter pensado em qualquer coisa que me falte na dispensa ou no frigorífico, não tenho outra hipótese senão ficar pacífica e pacientemente à espera que gritem "quarenta-e-dois!", enquanto olho para uma variedade espantosa de enchidos, queijos e coisas que tais é penso na quantidade infindável deste tipo de coisas que invadem diariamente (ou horariamente?) os estômagos dos portugueses. 

Entretanto já está no 41 (yupiiiiiii!). Vou parar de escrever e esperar que gritem por mim. Obrigada pela companhia.


[escrito no supermercado, à espera de 250 gramas de fiambre]

01
Mai17

Um ovinho da Páscoa por dia, nem sabes o bem que te fazia

Apesar de me auto-intitular uma lontra, não sou pessoa de comer muito nem tenho daquelas pancas ao estilo "devorar uma barra de chocolate por dia". Há coisas de que gosto muito, mas no geral sou muito esquisita e não há nada que me faça mais feliz do que a comidinha da mamã, pois só ela é que sabe aquilo que gosto. Nunca escondi aqui a minha predileção por doces - e, acima de tudo, por os fazer - mas hoje em dia estou mais numa de "petiscar", porque enjoo rapidamente tudo o que são doces. Como mais do que devia e gostaria, é verdade, mas reduzi bastante e agora preciso é de saciar as vontades de açúcar que às vezes me dão.

E, nos último tempos, a solução tem sido sempre a mesma: uns ovos/amêndoas de chocolate da Chocolataria Equador, que são um pedaço de paraíso na terra. A minha irmã, por ocasião da Páscoa, ofereceu-me um patinho de porcelana (ao estilo Bordalo Pinheiro) dessa chocolataria, que trazia meia-dúzia destes ovos - de chocolate preto, de leite e branco. Eu estou longe de ser louca por chocolate, passo anos sem tocar numa única tablete, mas naquela altura apeteceu-me experimentar a prenda dela e... bom, não é preciso tecer grandes comentários. No fundo, são amêndoas inteiras envoltas em chocolate (em forma de ovo) - mas este é mesmo muito bom, ou não viesse de umas das melhores chocolatarias da cidade. Infelizmente eu não gosto de chocolate preto, por isso só comi os ovinhos de chocolate de leite e branco e, ao contrário do normal, apeteceu-me mais.

Por mero acaso, passado uns dias, passei na Rua das Flores e decidi parar na loja que eles lá têm em busca de mais ovinhos. Fiquei de coração partido, pois só tinham naqueles saquinhos de seis, dentro dos patos de porcelana e eu queria a granel (quer dizer, eu gosto de patos, mas não ao ponto de ficar com a casa cheia deles...). Dois dias depois, quando fui à padaria do El Corte Inglés, dei de caras com um corner da Equador e, guess what... havia uns frascos enormes com os ovos! Vi-me obrigada a parar, comprar e desembolsar, porque não é todos os dias que se descobrem chocolates que se gostem tanto.

Eu nem sequer costumo gostar muito da mistura de chocolate com amêndoa, mas sinto que aqui as coisas estão num estado muito mais puro e por isso sabem muito melhor (ao contrário daquelas de saco, vendidas massivamente na Páscoa). Ao contrário do que se possa pensar, isto não aumenta a minha lontrisse-aguda - acho que até ajuda a evita-la. Sempre que me dá a fome de algo doce, como um ovinho (e são pequenos) e fico consolada para o resto do dia - e como enjoo sempre que exagero, não caio na tentação de comer mais do que um, por isso isto até pode ser considerado terapêutico (ahahah).

Como sou amiga e gosto de ver toda a gente feliz, deixo aqui a sugestão. Não sei se ainda encontram estes ovinhos este ano, uma vez que se deve tratar de um especial Páscoa, mas vale a pena tentar. Ou então façam uma nota mental para não se esquecerem, na próxima semana santa, de dar um salto às lojas Equador. Isso ou façam uma petição do género "A Páscoa é quando um homem quiser e exigimos ovinhos durante o ano inteiro". Se assim for, contem comigo. Eu assino.

 

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