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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

02
Set20

Uma dona de casa e os supermercados (e, como bónus, a forma como o Pingo Doce me conseguiu fidelizar)

O meu maior sonho enquanto dona de casa moderna é existir um supermercado-em-um. Ou seja: num só sítio ter tudo aquilo que todos os supermercados têm. Porquê? Porque ir buscar todos os produtos que gosto a quatro supermercados diferentes (enquanto faço piscinas de um lado para o outro) é uma gestão díficil - dentro da própria gestão, por vezes problemática, da nossa despensa e da casa de uma forma geral.

Então é assim: gosto dos pães de leite do Continente e do facto de ter uma maior oferta em termos de iogurtes. Gosto do peixe, da carne, do presunto e da massa fresca do Mercadona. Gosto do pão do Lidl e dos iogurtes-falsos da Milbona (já para não mencionar aquele corredor de tralhas, demoníaco para a carteira). E gosto do sistema de águas do Pingo Doce, assim como as maçãs Granny Smith e o chocolate de culinária.

No entanto detesto a fruta do Continente. A massa folhada do Mercadona é terrível e também não adoro o pão - já para não falar de que não tem a maioria das marcas que consumimos no dia-a-dia. Já o Lidl não tem uma série de coisas mais específicas (Água das Pedras, muitos dos iogurtes, etc.). No Pingo Doce dispenso as filas.

Em suma: não se trata só de ir buscar os produtos que gostamos - é ter de fugir e procurar alternativas ao que não gostamos! Ainda para mais dou por mim presa a alguns produtos, que de certa forma me fidelizaram a um sítio. Falo, em particular, das águas ECO, que fazem com que eu seja obrigada a ir ao Pingo Doce com alguma regularidade - logo eu, que nunca gostei deste supermercado por ser o mais sujo e apertado de todos! Apercebi-me  depois que eles me tinham conseguido "agarrar" por umas meras garrafas de água - um golpe de marketing bem pensado da parte deles. E porquê?

Quando vim viver com o meu namorado deparei-me com a triste realidade dos garrafões de água. Em casa dos meus pais bebe-se água da torneira (que não é sequer da companhia), que foi a que sempre me soube melhor. Mas o "meu homem" não gosta de beber água da torneira - e eu tive de passar a fazer algo que nunca havia feito até então (e que, na verdade, continuo a achar um bocadinho parvo): comprar água. 

Nos primeiros tempos fiz o que toda a gente faz: comprar garrafões, usa-los e deitá-los fora. Mas por vezes dava por mim com dois garrafões de água gastos numa só semana - os dois monos parados na lavandaria, à espera para ir para o lixo, ocupando até lá quase metade do espaço útil daquela divisão. Os garrafões são monstros de plástico e nós deitamo-los fora como se fossem o invólucro de uma palhinha - e isso, apesar de eu estar longe de ser uma fanática pelas questões do meio ambiente, fazia-me confusão.

Até que dei de caras com a máquina de águas da ECO, presentes em algumas lojas Pingo Doce. O sistema é simples: da primeira vez que usamos, compramos uma garrafa (de 1,5 ou 3 litros). A partir daí, utilizando uma máquina que nos permite encher as garrafas de forma rápida e prática, pagamos apenas o valor do enchimento. Para além de reutilizarmos quase infinitamente as garrafas (que são mais pequenas e por isso melhores de transportar), a água fica mais barata: seis cêntimos por litro (enquanto que, em garrafões, pagamos dos 10 aos 30 cêntimos por litro). Ah, e um pormenor importante: a água é boa!

Por isso, apesar de agora ser agora refém do Pingo Doce, gosto de pensar que o faço por uma boa causa. Posso andar de um lado para o outro, mas ao menos não deito garrafões fora a torto e a direito.

 

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(mais informações sobre a ECO aqui)

03
Jul20

Não pode haver verão sem pão com chouriço - !ajuda é necessária!

Num ano normal eu já estaria a fazer contas à vida, por entre calendários, planos de fim-de-semana e fins de tarde (que passariam dissimulados por "jantares ligeiros"). Já estaria a fazer reconhecimento no terreno, a programar onde estacionar nos dias de mais confusão. Já teria marcado na agenda os dias de começo e fins de festa - e agilizado até as minhas férias, qual gincana, de forma a poder ir passear e simultaneamente parar nas romarias e feiras medieval que existissem pelo caminho. Já estaria a salivar com antecedência.

A primeira semana de Julho marca o início dos meses-do-pão-com-chouriço do meu ano, que só terminam em meados de Setembro, com a última feira medieval que acontece nas redondezas. Durante dois meses o objetivo é trincar o maior número de pães com chouriço possível, e quiçá mistura-los com umas boas papinhas de sarrabulho e uns crepes recheados com doce de frutos vermelhos ou maçã com canela, feitos sob caldeirões de fogo. 

Mas este ano não. 

Este não não há papinhas de sarrabulho em bancos corridos. Não há crepes gigantes embrulhados em guardanapos de papel. E, mais do que tudo, não há pães com chouriço. 

Eu não quero saber das tatuagens de hena, das barracas de gomas ou sequer dos doces conventuais. Não quero saber das banquinhas onde os árabes vendem perfumes e roupas inspiradas no deserto, dos brinquedos de madeira, das velas, dos incensos ou dos cheirinhos. Não quero saber da ginginha e nem sequer do copo de chocolate. Não quero saber da bijutaria arcaica nem dos nomes escritos em árabe. Não quero saber de farturas ou churros. Só para verem: já nem quero saber dos burrinhos, das cabras ou dos porquinhos! Na loucura, até dispenso as papas e os crepes.

Mas e os pães com chouriço? Como é que eu vou sobreviver sem trincar aquele pãozinho acabado de sair do forno, a fumegar como quem implora por ser comido? Como é que vou conseguir passar um verão sem sentir aquele calor a invadir a minha boca - e a minha alma! -, à medida que vou trincando aquela massa mal cozida? Como é que se faz um verão sem pão com chouriço? Mais: como é que se consegue ser feliz sem ter pão com chouriço à mistura?

Soluções como "há pão com chouriço à venda no Continente" não são aceites. Mais: são consideradas uma heresia! Quem compara uma coisa com outra não sabe distinguir o bom do mau; a realidade e a imitação. Não sabe o que é sentir a fuligem do forno de lenha na crosta do pão nem o cheirinho da gordura do chouriço deixada na sua massa. Diria que, quem diz ou acha tal coisa, não devia ter direito a papilas gustativas, pois não lhes sabe dar o devido valor.

Por isso, almas-caridosas-com-gostos-gastronómicos-decentes-que-não-se-contentam-com-coisas-de-supermercado, digam-me: onde é que, neste país, eu consigo encontrar aqueles pães com chouriço que se vendem nas romarias, principalmente o pão com chouriço do Marco de Canaveses? Na terra que lhe dá nome há alguma padaria que seja famosa por ter destas delícias à venda, sempre quentinhas e fresquinhas? Ou é tudo marketing para enganar esta velha alma gulosa? 2020 já está a ser mau o suficiente - e não poder comer nem um pãozinho com chouriço faria dele, sem dúvida, um ano para enterrar até à eternidade.

Ajudem!

 

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02
Jul20

Uma carta à.... #5 Mimosa

Querida Mimosa,

Sei que não me tens em grande consideração depois de ter dito, há um ano e tal, que as natas da Longa Vida eram incomparavelmente melhores que as tuas (não mencionei nomes, mas é fácil servir-te a carapuça, uma vez que são vizinhas de prateleira).

Gostava que a nossa relação melhorasse a partir daqui e acho que a lição que é importante tirar do nosso pequenininho incidente é que cada um é bom em diferentes coisas - e se as natas da Longa Vida são, sem sombra de dúvida, as melhores do mercado, já os seus iogurtes frutados são tão desenxabidos como o queijo Filadélfia que potencialmente também vende. Estás a ver? Isto é só uma questão de procurar... E eventualmente cai para cima de todos ;)

Dito isto, e agora que já avançamos na nossa relação, gostava de falar sobre os teus iogurtes magros. São óptimos, os meus preferidos. Mas quem te diz que eu gosto simultaneamente de morango-kiwi, banana e pêssego? Ou côco e morango? Ou morango-kiwi e manga? Esta tua mania de tentar prever combinações de sabores que agradam às papilas gustativas dos teus consumidores é um bocado chata. E a verdade é que nem toda a gente tem a mesma sorte que eu. No frigorífico lá de casa as embalagens são divididas irmãmente: o homem come tudo o que meta morango, eu devoro tudo o resto. Mas e quem vive sozinho? E quem não tem uma cara metade que coma, literalmente, metade do pacote?

As questões que se colocam são então estas: porque é que o morango tem de estar sempre metido ao barulho? Porque é que o pêssego, a banana, a manga ou o côco não podem ser livres e independentes, tendo sempre que estar acompanhados com aquele fruto vermelho que mais parece um pau-de-cabeleira? São maiores e vacinados, já correm mundo há muitos anos, e está na altura de lhes dar espaço, quais filhos crescidos. Eu quero iogurtes de banana. E de côco. E de pêssegos. Sozinhos. Aos pacotes e sem packs. Não quero ter de espiar constantemente o frigorífico para ver se o meu namorado já comeu os iogurtes-pau-de-cabeleira, para poder comprar uma embalagem nova. Eu, tua consumidora fiel, exijo a independência dos sabores mais irreverentes. E como sou amiga, para poupares algum dinheiro no processo criativo e continuares na tua linha de combinações, ajudo já com a promoção dos iogurtes de banana (sou suspeita, pois são os meus favoritos!). Ora cá vai:

 

Iogurtes de Banana

Combina bem com tudo

Até com uma bifana!

 

Se isto for muito arrojado, aí vai um comercial mais soft...

 

O bom sabor de Verão

Agora com independência

O clássico sabor a banana

A compensar estes anos de ausência!

 

Posto isto, e tendo em conta toda a ajuda que já disponibilizei, aguardo ansiosamente junto às prateleiras dos lacticínios.

 

Até lá, sempre vossa (menos no que diz respeito às natas, mas isso são mágoas do passado),

Carolina

 

Queremos independência!.png

14
Fev20

Hoje há sopa para jantar

Uma espécie de texto sobre o dia dos namorados - ou como este dia deve ser a rotina

Lembro-me bem de, já a meio da viagem do Japão, dizer ao meu namorado que tinha "saudades de fazer sopa". Repeti a expressão vezes suficientes para ela ser uma espécie de "coisa nossa". 

A sopa foi a refeição que criou rotina em nossa casa. Sendo ambos trabalhadores, o fim do dia é o tempo de excelência (que é como quem diz: o único) para estarmos juntos. Uns meses depois de começarmos a namorar definimos que iríamos jantar sempre juntos - e o meu jantar sempre se baseou na sopa. Era coisa que nunca tinha feito - todos sabemos que a sopa da mãe é a melhor do mundo - mas aprendi a reproduzi-la à minha forma. E hoje digo-o com orgulho: acho que faço boa sopa. Se calhar porque com todo os ingredientes vai uma boa dose de amor.

Mesmo em tempos que não os de dieta, onde a sopa é mesmo uma das minhas maiores aliadas, aquele momento diário de puxar da tábua, cortar o alho e a cebola para fazer o estrugido, de escolher o que tenho no frigorífico para deitar para dentro do tacho e esperar que tudo aquilo coza, enquanto emana o seu cheirinho característico, é mágico para mim. Mesmo nos dias em que não me apetece ter esse trabalho. Mesmo quando a cebola me faz chorar as pedras da calçada. Mesmo quando chego do trabalho derreada, só com vontade de um banho e um sofá para me deitar. Porque fazer sopa passou a significar casa. Passou a ser a minha rotina. A nossa rotina.

A verdade é que a "sopa" não acaba no momento em que a passo com a varinha mágica. Também significa estar a comê-la ao lado de quem amo, enquanto cada um partilha as idiossincrasias do seu dia - mais os problemas, as chatices, os desabafos ou, por contrário, as coisas boas que nas horas antes aconteceram. Não acaba no momento em que lavamos os pratos, já depois da sopa sorvida, em que cada um arruma a cozinha o mais rapidamente possível, por sabermos que a seguir vem a parte que mais desejamos: o descanso. O mimo. O sofá.

A sopa é tudo isso. É a rotina.

Tenho saudades de fazer sopa em semanas muito agitadas, com jantares e eventos e dias demasiado caóticos para caberem na agenda. Tive saudades de fazer sopa quando fui de férias, tanto para o Algarve como para o Japão. Tive saudades - muitas! - de fazer sopa quando fui operada e a minha mobilidade era reduzida. E vou ter sempre saudades quando a rotina me faltar. Quando ele me faltar.

Hoje é só mais um dia como os outros - sempre disse, enquanto solteira, que queria que assim fosse. Mas há sopa para o jantar - com tudo o que isso significa. E que bom que é!

 

02
Set19

Em busca da francesinha perfeita #10

no Bufete Fase

Se no último par de anos comi mesmo muito poucas francesinhas - muito por culpa de me sentir eternamente insatisfeita com aquilo que ingiro sempre que faço uma nova tentativa - nos últimos meses tenho-me vingado e experimentado vários restaurantes que têm como especialidade esta iguaria portuense.

A última foi naquele que é, provavelmente, o local mais famoso de todos: o Bufete Fase, na rua de Santa Catarina.

Sejamos claros à partida: é um tasco. Se procuram um sítio bonito e glamouroso para comer e estar confortáveis, este não é certamente o lugar ideal. Aliás, ali não se cultiva a arte de estar à mesa: é chegar, comer e sair (prova disso é termos jantado em 40 minutos). No fundo, é uma coisa à antiga: o objetivo é sair satisfeito, não é postar uma foto bonita no Instagram.

E isto vê-se logo no atendimento. A senhora foi direta: "são então duas francesinhas? E para beber, o que vai ser?". Ou seja: não há muito mais escolha para além do prato típico - se não é francesinha, é bife (daquele que vem dentro da francesinha...). E vamos diretos ao assunto: a dita é boa. E lembrou-me a do Gambamar, o que é um óptimo elogio.

O pão é bem tostado e o conteúdo recheado; o bife é fino mas tenro e não há salsicha fresca (yey!). E há aqui um twist: não só há bife como também carne assada, que dá um travo final que não é do gosto de todos, mas que eu não achei mau. No meio das carnes nenhuma me pareceu ter daquelas pepitas malvadas de pimenta, que normalmente me infernizam as refeições. E isto leva-me ao molho. Apontem bem isto: NÃO. É. PICANTE. Aleluia, irmãos! É uma autêntica lufada de ar fresco. Os molhos de francesinha foram progressivamente ficando mais pungentes neste sentido, algo que nem o meu palato nem o meu estômago aprovam; mas o molho do Bufete Fase, por default, não é picante. Mas descansem os fãs da língua em formigueiro, porque também há uma versão picante ;)

Penso que a questão do molho foi crucial para não me sentir pesada quando saí de lá. Normalmente, sempre que como francesinha, sinto-me enfartada, como se tivesse comido um boi (o que depois me faz sentir arrependida de a ter comido - porque ninguém quer sentir que comeu um boi, não é verdade?). E ali, pelo contrário, senti-me leve e bem disposta depois de sair do restaurante - o que, só por si, já é uma sensação a registar.

A nota final vai para a dificuldade em arranjar mesa. Nós chegamos ao restaurante pelas 19:40h e estreamos o jantar dessa noite; quando saímos (pelas 20:20h) o corredor apertado que liga a porta às salas de jantar já tinha pelo menos uma dúzia de pessoas à espera. Encheu num fósforo. E, pelo que me pareceu, ia continuar a encher nas horas seguintes.

O maior elogio que posso fazer ao Bufete Fase é que acho que há uma razão válida para isso acontecer. Eles têm a fama, tiram claramente o proveito - mas é bom finalmente ver uma base nisso.

Fiquei fã (desde que se vá cedinho).

 

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22
Ago19

As idiossincrasias das bolas de berlim

Sempre fui muito esquisitinha. Não gosto de nada que fuja da norma, de comida gourmet, de temperos arrojados, de especiarias, de texturas estranhas, de vegetais, de papas ou coisas moles. Sou muito simplória no que toca a comida, vá. Mas pode-se dizer que na praia viro uma pessoa bastante eclética.

Há uns anos escrevi aqui sobre a bolacha americana de côco - uma delícia que, pelos vistos, entrou em extinção este ano. Enquanto estive no Algarve chamei pela senhora, que me disse que já não faziam essa pequena relíquia da praia. Uma pena. Era óptimo e muito menos enjoativo que a bolinha. Mas enfim, uma pessoa aceita - ainda que com uma tristeza no estômago, de quem sabe que não vai voltar a provar uma coisa destas tão cedo.

Ataquei portanto o senhor das bolinhas com uma descoberta que tinha feito o ano passado: "tem bolas de beterraba?". "Não, já não fazemos de red velvet". Tau! Mais uma machadada neste meu coração, mais um golpe duro nas minhas papilas gustativas. Tudo num só ano... Mas ele colmatou: "mas temos de tinta de choco!".

E foi assim que eu comecei a começar bolas de berlim pretas, para grande impressão de todos os que me rodeavam. Mas choquem-se: são boas! Tal como as da beterraba, o doce é cortado por estes sabores mais atípicos, tornando os bolos muito menos enjoativos. Fiquei muito fã!
Quando agora fui para o Alvor a escolha das bolinhas era mais reduzida - embora a escolha por entre os vendedores seja bem mais vasta. Se em Albufeira há com creme, sem creme, morango, Nutella, doce de leite, tinta de choco, entre outros, no Alvor ficam-se pelo básico. Mas, mesmo assim, tornei a inovar: marcharam umas bolinhas de alfarroba que, para mim, batem as bolas simples.
Agora estou em Vila Praia de Âncora e não há grande alternativa: ou é com creme ou não há nada para ninguém. É o fechar de um ciclo: começo nas estranhas e regresso à base, normais mas fresquinhas, tal como se querem.

Aguardo agora com ansiedade os novos sabores do próximo ano. Bolas de café, para abrir a pestana em plena praia? De maracujá, com um toque crunchy? De abóbora menina, já a antecipar sabores de natal? De cenoura, com toque caseiro? Ou uma total inovação, como bolhinhas de carvão ativado, para evitar os gases noturnos?

Ficam as ideias, senhores das bolas. Surpreendam-me!

 

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24
Jul19

Review da semana 27#

Pão Ancestral da Pachamama, Padaria artesanal

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O pão vai ser sempre o meu ponto fraco. Levem-me tudo: os doces, os chocolates, as batatas fritas, os gelados... Mas tirar-me o meu pãozinho com manteiga é matar-me.

Já tentei (e consegui) reduzi-lo muito da minha alimentação, mas é das coisas mais difíceis que posso fazer. Em fases em que me sentia mais gordinha, e por ter pouco onde cortar mais (por não beber álcool, pouco consumir refrigerantes, não colocar açúcar no chá, não comer durante a noite, entre outros pecados comuns que levam à engorda), tentei cortar nesta 8ª maravilha do mundo, mas nunca fui completamente bem sucedida. O meu amor por pão vai ao ponto do meu irmão, que vive em Inglaterra, me trazer sempre um mega pão delicioso que lá fazem (o sourdough) de cada vez que cá vem - e de essa ser a melhor prenda que ele me pode dar, de toda a panóplia de coisas que existe naquele país.

A questão é que, para além da engorda (não necessariamente associada à manteiga que acompanha o dito, porque gosto de pão sem nada), este alimento tem um defeito: o fermento. Tenho frequentemente crises de cólicas que, suspeito, são muito causadas por este ingrediente - para além de stress, que também é certamente culpado e me faz engolir ar de forma gratuita...

Mas, no que diz respeito ao pão e ao fermento, fiz uma bela descoberta há uns tempos. Quando fui à festa da comida continente, no Parque da Cidade, descobri a barraquinha da Pachamama, uma padaria artesanal um bocadinho diferente do habitual, que produz pães que são vendidos em grandes superfícies (nomeadamente no Continente e no Jumbo). Provei os vários produtos que eles lá tinham à disposição e, de todos, o meu preferido foi o Pão Ancestral - precisamente porque tem um travo amargo, semelhante ao pão inglês que tanto adoro! Qual não foi a minha surpresa quando vi que, para além de ser feito a partir de farinha de espelta, este pão não tem fermento!

Borrifei-me nas borlas e trouxe um pão para casa, para comer ao pequeno-almoço, e a experiência correu muito bem. É mais caro que os outros, mas dá-me quase para uma semana de torradas ao pequeno-almoço... E fica delicioso com aquela manteiga da Primor que já vos falei aqui. Pelo que se diz agora (sim, porque estas coisas mudam constantemente) a espelta é uma boa alternativa ao trigo convencional, sendo à partida uma opção mais saudável. Por isso é experimentar! Para além dos pães sem fermento há também uma grande seleção de pães sem glúten, por isso dá para todos os tipos de esquisitos ;)

Aconselho!

03
Fev19

Uma carta à... #3 Primor

Olá Primor,

 

Antes de mais, não tens de quê: estou prestes a revelar ao mundo que produzes a melhor manteiga que há no mercado, a Primor com Cristais de Sal. Não há palavras para descrever o quão bom é comer uma torrada, quentinha, e barrada com esta manteiga, até apanhares uma daquelas pepitas de sal que parecem deixar todo o sabor ainda mais intenso. Porque a verdade é mesmo essa: para quem gosta de manteigas salgadas (que é como quem diz, boas), não há cá President ou marca Continente que se safe. A tua é a melhor. Infelizmente é a melhor para o palato, mas não para o ambiente.

Acredita que eu percebo o conceito de produto premium - mal fora se não entendia, depois de já ter perdido a conta às aulas de marketing que já tive ao longo da vida. Percebo que queiras cobrar 1,39 euros por um pacote com 125 gramas de manteiga e tenhas de justificar o preço de alguma forma. Mas vender o produto dentro de caixas de plástico rígido, com a manteiga envolvida em papel de prata lá dentro, é só parvo. "Ah e tal, é para não ficar a saber a frigorífico - ninguém quer que uma manteiga desta altíssima qualidade perca o seu esplêndido sabor". Verdade - mas a pensar assim também todos os queijos, fiambres e coisas do género teriam de vir em caixinhas - e não vêm. Porquê? Porque 99% das pessoas têm uma coisa em casa chamada tupperwares que, veja-se só!, foram mesmo pensados para esse efeito: guardar coisas para que elas não se estraguem ou deteriorem.

Deves estar a pensar: "lá vem esta miúda com as teorias ecologistas da geração dela, que não percebe que precisamos de vender quer o mundo acabe ou não daqui a 200 anos". Não é verdade. Sou até bastante despreocupada em relação a este tópico, nada extremista (já me chega ser extremista em quase tudo o resto), mas acho que todos temos um cérebro e devemos pelo menos tentar rentabiliza-lo. Eu gosto de caixas, caixinhas e caixotas (basta entrar no meu quarto para se perceber isso), mas sou incapaz de dar utilidade às dezenas de caixas minúsculas que advém dessa embalagem. Já não tenho mais clips, totós, ganchos e molas para guardar; já nem sequer tenho mais espaço para empilhar caixinhas na eventualidade de vir a precisar delas no futuro. Sou obrigada a deita-las fora. E numa altura em que até querem abolir as palhinhas e os cotonetes, produzir uma caixa de bom plástico só por uma questão de vendas não é só parvo: é irresponsável.

Imaginemos que, de facto, as pessoas não têm tupperwares em casa (essas pessoas existem?!). Tudo bem, vende-se a manteiga com a caixinha. Mas para todos os outros que ou já têm sítio onde guardar ou que já compraram a vossa bela e durável embalagem com tampa dourada, a dizer orgulhosamente "Primor", a melhor ideia era vender a manteiga em separado. Até podiam baixar o preço por não terem de pedir tantas caixas ao vosso fornecedor, já viram? E, baixando o preço, mais pessoas provarão e ficarão viciadas na vossa maravilhosa manteiga. E mais vendas é sinónimo de mais dinheiro. E mais dinheiro é aquilo que a Primor quer, certo?

Apercebo-me agora que estou quase a dar um serviço de consultoria à distância e a custo zero, mas é para que se perceba o meu amor a este produto. Gostava muito de não o comprar com peso na consciência ou a pensar "e agora, onde é que vou utilizar mais uma caixa?!". Ou, pior, ver esta manteiga extinta do mercado porque é demasiado cara ou por não ter clientes que, ao contrário de mim, são mais radicais nestas coisas.

Pensem nisso. 

 

Obrigada,

Carolina, o meio ambiente e os arrumos de casa da Carolina que já não têm mais sítio para albergar caixas da Primor (as únicas que não agradecem são as minhas ancas, mas vamos optar por ignorar)

 

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20
Jan19

Uma carta à... #1 Longa Vida

Dou por mim muitas vezes a pensar que queria dizer umas coisas a uma certa pessoa, objeto ou marca. É uma espécie de reclamação interior, que não posso entregar a ninguém mas que me contamina o cérebro de coisas parvas durante um tempo indeterminado, enchendo-me de vontade de deitar tudo cá para fora, mas sem grande forma de o fazer. Nunca quiseram endereçar uma carta insultuosa àquele canto da cama que insiste em vos destruir o mindinho do pé? E dizer umas coisinhas àquela senhora que está sempre a fazer depósitos no banco com 50 mil moedinhas? Ou à outra que anda a vasculhar os cupões no momento do pagamento, em plena caixa do Continente? Pois, bem me queria parecer que não sou a única.

Então, no Verão, lembrei-me: se eu tenho um blog, porque raio é que não despejo lá tudo isto? E por isso, quase meio ano mais tarde, cá estou, estreando esta nova rubrica de cartas a entes desconhecidos/intangíveis/incontactáveis. O primeiro texto vai para a marca que despoletou tudo isto, que é recordista em me fazer escrever cartas mentalmente, e que eu amaldiçoo de cada vez que me deixa mal numa visita ao supermercado: a Longa Vida. Ora vamos lá.

 

 

Querida Longa Vida, 

Acho que te posso tratar assim, por tu, visto nos conhecermos há muitos anos. Foi contigo que aprendi a fazer chantilly e é em parte por tua culpa que desde cedo que me atiram as taças de natas para as mãos, com a desculpa de que "nunca me caem". Mas a verdade é que não sou eu - és tu.

Não há que ter vergonha em admiti-lo: tu és uma espécie de Viagra das natas. Contigo, sobem sempre. Não vale a pena estar a gastar dinheiro com os teus concorrentes, porque já se sabe que não é a mesma coisa e que vai dar asneira; que não podemos virar a tigela por cima da nossa cabeça, em jeito de demonstração, porque sabemos que não vai resultar.

Mas o facto de tu teres o monopólio do mundo das natas não te dá o direito de menosprezares assim os teus clientes. Quantas vezes é que eu fui atrás de ti e me deparei com uma caixa vazia, solitária, no corredor dos lacticínios? Quantas vezes é que já saí de grandes superfícies de mãos a abanar, sem natas para adoçarem os meus morangos, a minha pavlova, as minhas natas do céu ou o meu agelatinado?

Por ti, já cheguei a correr 4 supermercados em menos de meia hora. Quem não disser que isto é amor, não percebe nada do assunto. Mas numa relação a sério as provas têm de vir dos dois lados (embora o Salvador cante "o meu coração pode amar pelos dois", toda a gente sabe que isto, a longo termo, se torna insustentável), e eu estou cansada de lutar sozinha. Está na altura de fazeres alguma coisa - comprares mais vacas, empregares mais gente, arranjares mais máquinas ou despedires o responsável pela distribuição. Qualquer coisa. Mas fá-lo por nós e pelo bem da nossa relação, já tão duradoura.

O preço da gasolina está caro e eu já não vou para nova, e não aguento picos de emoções como aqueles que me acontecem quando me deparo com a prateleira do supermercado vazia, quando vou em tua busca.

Por favor pensa em mim. Em nós. Em todos os amantes de natas que não aguentam a tristeza de não as ver subir, embora as batam durante meia hora. Isto já para não falar das vezes em que atiram as culpas para cima de nós – mulheres - e do nosso ciclo menstrual, com o mito secular de que as natas não pegam se estivermos com o período. Todos sabemos que a culpa é da Mimosa e outras que tais. Precisamos de ti e só tu nos podes ajudar.

Porque com mais natas Longa Vida no supermercado, nunca mais ninguém ficará frustrado!

Obrigada e até breve,

Carolina

 

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P.S. Giro, giro era se alguém um dia respondesse. Aí é que era!

 

30
Out18

Pelo direito à torrada quente

Falar de direito não é a coisa assim mais cativante do mundo. Falo por experiência própria, que nas últimas semanas levei uma injeção valente no que diz respeito a esta temática (e em particular relativamente ao direito no trabalho).

Mas acho que nos direitos do homem falta um ponto fundamental, ao lado de todas aquelas coisas que nós já sabemos (a vida, o respeito, a liberdade, o repouso...): o direito à torrada quente.

Podemos discutir a sua pertinência, principalmente quando posta ao lado de assuntos tão importantes e delicados, mas admitamos: uma torrada bem quentinha, onde a manteiga derrete ao primeiro toque, pode ser um abraço bem quente numa noite fria; pode ser o nosso porto de abrigo quando nos sentimos sós; pode ser o nosso ombro amigo quando não temos amigos; pode ser o conforto de um estômago vazio e o êxtase das nossas papilas gustativas; pode ser um oásis no meio de um deserto. Uma torrada quente pode ser quase tudo neste vida.

E sim, eu disse quente. Porque uma torrada fria - aquela em que os dentes mal conseguem partir e em que espalhar a manteiga é quase barrar cimento em tijolo-burro - é quase tão mau como um coração despedaçado; é a chuva torrencial num dia de verão; é a noite de Natal passada na solidão.

Como tal, nunca devíamos ser privados de comer a nossa torrada quente, acabadinha de sair da torradeira. Nunca devíamos ter de ir abrir a porta que tocou no momento em que aproximávamos a dita à boca; jamais devíamos atender o telemóvel que toca na hora H; não devíamos ter de corresponder aos pedidos dos nossos pais e irmãos quando dizem “podes vir aqui ao quartooooo?”; não devíamos sentir-nos obrigados a agir de uma forma altruísta quando alguém nos pede “uma trinquinha”.

Comer uma torrada quente é, ou devia ser, um momento solene, meramente interrompido apenas e só em alturas de profunda urgência. Porque o derreter da manteiga não acontece cinco minutos depois; porque aquele “crunch” da primeira trinca não se repete se formos a algum sítio durante “uns segundinhos”; porque só vivemos uma vez e cada torrada quentinha deve ser apreciada como se fosse a última, mesmo que haja uma durante todas as muitas manhãs da nossa vida.

 

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