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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

03
Fev19

Uma carta à... #3 Primor

Olá Primor,

 

Antes de mais, não tens de quê: estou prestes a revelar ao mundo que produzes a melhor manteiga que há no mercado, a Primor com Cristais de Sal. Não há palavras para descrever o quão bom é comer uma torrada, quentinha, e barrada com esta manteiga, até apanhares uma daquelas pepitas de sal que parecem deixar todo o sabor ainda mais intenso. Porque a verdade é mesmo essa: para quem gosta de manteigas salgadas (que é como quem diz, boas), não há cá President ou marca Continente que se safe. A tua é a melhor. Infelizmente é a melhor para o palato, mas não para o ambiente.

Acredita que eu percebo o conceito de produto premium - mal fora se não entendia, depois de já ter perdido a conta às aulas de marketing que já tive ao longo da vida. Percebo que queiras cobrar 1,39 euros por um pacote com 125 gramas de manteiga e tenhas de justificar o preço de alguma forma. Mas vender o produto dentro de caixas de plástico rígido, com a manteiga envolvida em papel de prata lá dentro, é só parvo. "Ah e tal, é para não ficar a saber a frigorífico - ninguém quer que uma manteiga desta altíssima qualidade perca o seu esplêndido sabor". Verdade - mas a pensar assim também todos os queijos, fiambres e coisas do género teriam de vir em caixinhas - e não vêm. Porquê? Porque 99% das pessoas têm uma coisa em casa chamada tupperwares que, veja-se só!, foram mesmo pensados para esse efeito: guardar coisas para que elas não se estraguem ou deteriorem.

Deves estar a pensar: "lá vem esta miúda com as teorias ecologistas da geração dela, que não percebe que precisamos de vender quer o mundo acabe ou não daqui a 200 anos". Não é verdade. Sou até bastante despreocupada em relação a este tópico, nada extremista (já me chega ser extremista em quase tudo o resto), mas acho que todos temos um cérebro e devemos pelo menos tentar rentabiliza-lo. Eu gosto de caixas, caixinhas e caixotas (basta entrar no meu quarto para se perceber isso), mas sou incapaz de dar utilidade às dezenas de caixas minúsculas que advém dessa embalagem. Já não tenho mais clips, totós, ganchos e molas para guardar; já nem sequer tenho mais espaço para empilhar caixinhas na eventualidade de vir a precisar delas no futuro. Sou obrigada a deita-las fora. E numa altura em que até querem abolir as palhinhas e os cotonetes, produzir uma caixa de bom plástico só por uma questão de vendas não é só parvo: é irresponsável.

Imaginemos que, de facto, as pessoas não têm tupperwares em casa (essas pessoas existem?!). Tudo bem, vende-se a manteiga com a caixinha. Mas para todos os outros que ou já têm sítio onde guardar ou que já compraram a vossa bela e durável embalagem com tampa dourada, a dizer orgulhosamente "Primor", a melhor ideia era vender a manteiga em separado. Até podiam baixar o preço por não terem de pedir tantas caixas ao vosso fornecedor, já viram? E, baixando o preço, mais pessoas provarão e ficarão viciadas na vossa maravilhosa manteiga. E mais vendas é sinónimo de mais dinheiro. E mais dinheiro é aquilo que a Primor quer, certo?

Apercebo-me agora que estou quase a dar um serviço de consultoria à distância e a custo zero, mas é para que se perceba o meu amor a este produto. Gostava muito de não o comprar com peso na consciência ou a pensar "e agora, onde é que vou utilizar mais uma caixa?!". Ou, pior, ver esta manteiga extinta do mercado porque é demasiado cara ou por não ter clientes que, ao contrário de mim, são mais radicais nestas coisas.

Pensem nisso. 

 

Obrigada,

Carolina, o meio ambiente e os arrumos de casa da Carolina que já não têm mais sítio para albergar caixas da Primor (as únicas que não agradecem são as minhas ancas, mas vamos optar por ignorar)

 

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20
Jan19

Uma carta à... #1 Longa Vida

Dou por mim muitas vezes a pensar que queria dizer umas coisas a uma certa pessoa, objeto ou marca. É uma espécie de reclamação interior, que não posso entregar a ninguém mas que me contamina o cérebro de coisas parvas durante um tempo indeterminado, enchendo-me de vontade de deitar tudo cá para fora, mas sem grande forma de o fazer. Nunca quiseram endereçar uma carta insultuosa àquele canto da cama que insiste em vos destruir o mindinho do pé? E dizer umas coisinhas àquela senhora que está sempre a fazer depósitos no banco com 50 mil moedinhas? Ou à outra que anda a vasculhar os cupões no momento do pagamento, em plena caixa do Continente? Pois, bem me queria parecer que não sou a única.

Então, no Verão, lembrei-me: se eu tenho um blog, porque raio é que não despejo lá tudo isto? E por isso, quase meio ano mais tarde, cá estou, estreando esta nova rubrica de cartas a entes desconhecidos/intangíveis/incontactáveis. O primeiro texto vai para a marca que despoletou tudo isto, que é recordista em me fazer escrever cartas mentalmente, e que eu amaldiçoo de cada vez que me deixa mal numa visita ao supermercado: a Longa Vida. Ora vamos lá.

 

 

Querida Longa Vida, 

Acho que te posso tratar assim, por tu, visto nos conhecermos há muitos anos. Foi contigo que aprendi a fazer chantilly e é em parte por tua culpa que desde cedo que me atiram as taças de natas para as mãos, com a desculpa de que "nunca me caem". Mas a verdade é que não sou eu - és tu.

Não há que ter vergonha em admiti-lo: tu és uma espécie de Viagra das natas. Contigo, sobem sempre. Não vale a pena estar a gastar dinheiro com os teus concorrentes, porque já se sabe que não é a mesma coisa e que vai dar asneira; que não podemos virar a tigela por cima da nossa cabeça, em jeito de demonstração, porque sabemos que não vai resultar.

Mas o facto de tu teres o monopólio do mundo das natas não te dá o direito de menosprezares assim os teus clientes. Quantas vezes é que eu fui atrás de ti e me deparei com uma caixa vazia, solitária, no corredor dos lacticínios? Quantas vezes é que já saí de grandes superfícies de mãos a abanar, sem natas para adoçarem os meus morangos, a minha pavlova, as minhas natas do céu ou o meu agelatinado?

Por ti, já cheguei a correr 4 supermercados em menos de meia hora. Quem não disser que isto é amor, não percebe nada do assunto. Mas numa relação a sério as provas têm de vir dos dois lados (embora o Salvador cante "o meu coração pode amar pelos dois", toda a gente sabe que isto, a longo termo, se torna insustentável), e eu estou cansada de lutar sozinha. Está na altura de fazeres alguma coisa - comprares mais vacas, empregares mais gente, arranjares mais máquinas ou despedires o responsável pela distribuição. Qualquer coisa. Mas fá-lo por nós e pelo bem da nossa relação, já tão duradoura.

O preço da gasolina está caro e eu já não vou para nova, e não aguento picos de emoções como aqueles que me acontecem quando me deparo com a prateleira do supermercado vazia, quando vou em tua busca.

Por favor pensa em mim. Em nós. Em todos os amantes de natas que não aguentam a tristeza de não as ver subir, embora as batam durante meia hora. Isto já para não falar das vezes em que atiram as culpas para cima de nós – mulheres - e do nosso ciclo menstrual, com o mito secular de que as natas não pegam se estivermos com o período. Todos sabemos que a culpa é da Mimosa e outras que tais. Precisamos de ti e só tu nos podes ajudar.

Porque com mais natas Longa Vida no supermercado, nunca mais ninguém ficará frustrado!

Obrigada e até breve,

Carolina

 

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P.S. Giro, giro era se alguém um dia respondesse. Aí é que era!

 

30
Out18

Pelo direito à torrada quente

Falar de direito não é a coisa assim mais cativante do mundo. Falo por experiência própria, que nas últimas semanas levei uma injeção valente no que diz respeito a esta temática (e em particular relativamente ao direito no trabalho).

Mas acho que nos direitos do homem falta um ponto fundamental, ao lado de todas aquelas coisas que nós já sabemos (a vida, o respeito, a liberdade, o repouso...): o direito à torrada quente.

Podemos discutir a sua pertinência, principalmente quando posta ao lado de assuntos tão importantes e delicados, mas admitamos: uma torrada bem quentinha, onde a manteiga derrete ao primeiro toque, pode ser um abraço bem quente numa noite fria; pode ser o nosso porto de abrigo quando nos sentimos sós; pode ser o nosso ombro amigo quando não temos amigos; pode ser o conforto de um estômago vazio e o êxtase das nossas papilas gustativas; pode ser um oásis no meio de um deserto. Uma torrada quente pode ser quase tudo neste vida.

E sim, eu disse quente. Porque uma torrada fria - aquela em que os dentes mal conseguem partir e em que espalhar a manteiga é quase barrar cimento em tijolo-burro - é quase tão mau como um coração despedaçado; é a chuva torrencial num dia de verão; é a noite de Natal passada na solidão.

Como tal, nunca devíamos ser privados de comer a nossa torrada quente, acabadinha de sair da torradeira. Nunca devíamos ter de ir abrir a porta que tocou no momento em que aproximávamos a dita à boca; jamais devíamos atender o telemóvel que toca na hora H; não devíamos ter de corresponder aos pedidos dos nossos pais e irmãos quando dizem “podes vir aqui ao quartooooo?”; não devíamos sentir-nos obrigados a agir de uma forma altruísta quando alguém nos pede “uma trinquinha”.

Comer uma torrada quente é, ou devia ser, um momento solene, meramente interrompido apenas e só em alturas de profunda urgência. Porque o derreter da manteiga não acontece cinco minutos depois; porque aquele “crunch” da primeira trinca não se repete se formos a algum sítio durante “uns segundinhos”; porque só vivemos uma vez e cada torrada quentinha deve ser apreciada como se fosse a última, mesmo que haja uma durante todas as muitas manhãs da nossa vida.

 

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30
Jan18

(Tentar) Voltar aos sabores de infância

Acho que todos nós temos alguns sabores idílicos dos nossos tempos idos; paladares que guardamos em recantos da nossa memória e que deixam muitas saudades, porque são quase sempre irrecuperáveis. Normalmente são de comidas feitas por alguém que já cá não está (quantos elogios já ouvi às comidas de tantas avós!), provadas em sítios onde não voltaremos ou que simplesmente fazem parte de um pacote de memórias irrepetível.

Felizmente eu não tenho muitas lembranças dessas. Nunca tive avós que cozinhassem para mim e a pessoa que faz as minhas comidas preferidas - a minha mãe - ainda está cá para as fazer sempre que lhe peço. Tenho vários sabores que me remontam à infância, alguns dos quais nem sei dizer se eram bons ou maus... são apenas lembranças. Assim de repente só me lembro de duas coisas que adorava e que tenho realmente saudades: a primeira são as verdadeiras tapiocas brasileiras, que comia todos os dias ao pequeno-almoço quando fui ao Brasil. Durante muitos anos nem soube o nome daquilo e só recentemente, quando a moda apareceu por cá, é que me caiu a ficha e percebi que era aquilo que eu tanto tinha adorada na minha primeira viagem ao estrangeiro; ainda não experimentei em restaurantes, mas tentei fazer várias vezes cá em casa e o resultado foi desastroso.

A segunda coisa era o meu bolo favorito do mundo, feito numa pastelaria que fechou aqui há uns anos e da qual eu guardo as melhores memórias. Sempre que alguém fazia anos cá em casa era lá que íamos - e normalmente era a mim e ao meu pai que recaía a (difícil) tarefa de ir levantar a encomenda. Esta não era uma pastelaria qualquer: era uma coisa antiga, só com venda ao público (sem sítio para sentar ou estar), localizada numa viela sem acesso a carros, longe da vista de qualquer consumidor comum. Tenho as melhores memórias desses momentos: eu e o meu pai, gulosos como somos, atacávamos imediatamente a caixa das miniaturas e depois tentavamos disfarçar os doces em falta, afastando-os entre si, para que em casa ninguém desse por nada. Ele comia os jesuítas, eu os éclairs: eram o meu pastel favorito. Entretanto, deixaram de ser - foi ali que defini o meu padrão, eram aqueles os meus éclairs de referência, e nunca mais encontrei uns sequer parecidos.

Para além disso, faziam o melhor bolo-pão-de-ló com ovos moles do mundo (com cobertura de massapão, de açúcar e amêndoa) e, muito antes de sermos invadidos por esta moda do cake design, já eles faziam coisas incríveis. Eu tive direito a Minnie's, a Tweeties, a Borboletas, a Capuchinhos Vermelhos e, entre outros que já não me recordo, o meu favorito de sempre: um palhaço (de tal forma que até repeti ao longo dos anos). Era a coisa que eu mais ansiava no meu aniversário: aquele bolo. Até ao dia em que eu fiz anos, a minha mãe tentou ligar para a pastelaria para encomendar o bolo e ninguém atendeu. Foi lá e bateu com o nariz na grade, já que a porta estava entreaberta. Pesquisei, perguntei, quis muito que aquela decisão voltasse atrás. Mas nunca mais. 90% das vezes que passo na rua que dava acesso à tal viela, sinto o sabor e a suavidade daquele bolo na minha boca. E tenho saudades.

Tantas que fiz uma coisa que quase nunca dá resultado: tentei reproduzir o bolo. Por mero acaso a minha pasteleira de eleição (a La Dolce Rita) deu a receita deste bolo, tipicamente servido em aniversários, e eu aproveitei que a minha irmã fazia anos para pôr a mão na massa (dado que estou em dieta e não posso fazer doces para além das datas excepcionais). Fiz a receita direitinha (com muito custo, diga-se de passagem: só à terceira é que consegui que o doce de ovos me saísse direito), fui pesquisar receitas de massapão (que também tive de repetir, porque a primeira correu mal) e lá montei o bolo. Acho que nunca estive tão ansiosa para cantar os parabéns! Queria tanto, tanto, tanto que o sabor estivesse lá. Queria tanto acertar.

E estive perto. Quando meti uma garfada à boca, quis pôr logo outra. O sabor estava lá. Faltava alguma humidade no bolo, precisava de mais doce de ovos e o manuseamento da massapão também não foi o ideal (embora fosse algo meramente estético). Mas tudo estava lá. Viajei no tempo enquanto saboreei a minha própria obra e desfrutei do meu dia da asneira. Tirei notas mentais sobre o que tinha de melhorar da próxima vez e já anseio pelo próximo aniversário para o meu paladar voltar aos tempos de criança. Que saudades traz um simples bolo...

 

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 (alguns dos meus bolos antigos)

 

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(o bolo que fiz para a minha irmã. as flores de açúcar, comestíveis, foram compradas - não tenho arte para tanto)

02
Nov17

Em busca da francesinha perfeita 9#

Adorava dizer que esta rubrica está morta porque eu me deixei de gulodices e passei a ter uma alimentação espetacularmente saudável. Mas não. A verdade é que deixei praticamente de comer francesinhas. Sou aquele género de pessoa que está sempre a dizer (e a pensar) “estou tão gorda” e estar a comer francesinhas que não me sabiam bem só aumentava o meu nível de desespero.

Sempre gostei bastante desta iguaria portuense e acho que, desde que me lembro de comer como gente grande, nunca tinha passado tanto tempo sem comer uma francesinha. Este ano devo ter comido umas três, o que bate um recorde mínimo nunca antes alcançado.

Porque a verdade é que comia e não me sabiam bem – ou, se sabiam, deixavam-me maldisposta a seguir, com o fígado a gritar por misericórdia depois de tanto molho inglês. Há mais de dois anos que não comia uma francesinha que não fosse demasiado picante, que não tivesse o bife mais fraco que se encontrava no talho, cujo pão fosse rijo e crocante e as carnes de boa qualidade.

Mas neste feriado decidi fazer mais um tentativa, sacrificando mais uma vez as minhas ancas em prol desta causa. E talvez tenha resultado. Gosto de pensar que, em parte, a culpa é do sítio.

 

Francesinha 9#: A Marisqueira do Porto (antigo Gambamar)

A Marisqueira do Porto abriu há pouco mais de um mês num sítio, para mim, muito especial: o antigo Gambamar, onde aprendi a gostar de francesinhas e onde havia, para mim, as melhores de todas. Esta rubrica surgiu quando o restaurante fechou e eu fiquei “órfã” de francesinha, por isso esta nona tentativa representa quase o fechar de um ciclo.

Estava bastante esperançosa. Conheço o dono, que me disse que elas eram boas, e que quem as fazia tinha vindo d’A Regaleira (que, para quem não conhece, é a criadora deste “petisco”). Tudo era um bom prenúncio e veio a concretizar-se.

Acima de tudo, e deveras importante, o picante não se sobrepunha a nada; não era demasiado intenso, não queimava o paladar, não deixava o estômago a roncar horas depois. O molho é, aliás, um pouco para o adocicado.

Mas a melhor maneira de descrever esta francesinha é dizendo que ela é “rica” e “pesada”. É muito grande – eu já não sou o que era, porque há dez anos comia o prato inteiro enquanto o diabo esfregava um olho, e agora deixei parte da comida no prato, porque já estava a arrebentar pelas costuras – mas muito bem constituída, com muito boas carnes. E o bife era excecional, com uma altura bem razoável, saboroso e tenro, tal como se quer.

Vem com o típico camarão por cima (eu, por acaso, dispenso) e um cestinho de batatas fritas. Ao todo, dez euros.

O veredicto não podia ser mais positivo. Dado o preço que se paga por aí, num simples café, por uma francesinha… penso que a relação preço/qualidade desta é, até, muito aceitável. O restaurante é muito agradável, tem estacionamento e fica no coração do Porto, por isso não se pode pedir mais. Foi das melhores francesinhas que comi desde que comecei esta rubrica e é óptima para quem gosta de bem enfardar. Estou contente e prometo voltar.

 

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21
Mai17

Pensamentos dispersos na charcutaria de um supermercado

Eu gosto muito de ir ao supermercado - eu sei que isto é estranho, a maioria das pessoas detesta, mas é coisa para me relaxar; gosto de ver produtos novos, as informações nutricionais e, por isso, não gosto de ir à pressa (até porque nesses dias é quando apanhamos mais filas).

Mas é precisamente de filas que eu quero falar: não são as das caixas que mais me incomodam, mas sim a da charcutaria. Por aqui se vê o quanto os portugueses comem queijos, fiambres, chourições, salpicões e mortadelas - com e sem azeitona - aos molhos. Para além de serem muitas vezes quantidades alucinantes (meio quilo de queijo, por amor de Deus!), parece que muitas vezes têm um gosto particular em levar todo o tipo de produtos existentes nesta secção do supermercado. É que nem precisam de sair daqui para irem com o cesto cheio, carregado com coisas suficientes para fazer francesinhas para um batalhão!

Eu, que já sei que para ir à charcutaria é preciso uma vida, já tenho as minhas técnicas: mal chego ao super vou logo tirar senha e vou deitando um olho, de quando em vez, à tabuleta com os números para não perder a lugar - o que, no fundo, são esperanças infundadas porque eu posso praticamente correr a meia maratona por entre os corredores da loja e, quando acabar, ainda faltam três senhas para me atenderem. Mas enfim, uma pessoa pode sonhar.

Como sou organizada, faço um plano de ataque ao supermercado antes de começar a fazer as compras, de forma a demorar o menos tempo possível e não passar vinte vezes no mesmo corredor - e isto faz com que seja sempre (sempre!) mais rápida nas minhas compras (mesmo que sejam muitas) do que a velocidade com que se despacham senhas na charcutaria. Tudo isto piora quando há clientes que exigem que as máquinas sejam limpas porque antes do fiambre de peru que exigiram estava um de porco que pode ter contaminado a dita máquina com carne vermelha; ou que pedem uma fatia para entreter o filho, enquanto encomendam quase um quilo de queijo para a família inteira.

E sim, eu sei disto tudo porque depois de ter o carro cheio, de ter verificado a lista mais de uma dúzia de vezes e de ter pensado em qualquer coisa que me falte na dispensa ou no frigorífico, não tenho outra hipótese senão ficar pacífica e pacientemente à espera que gritem "quarenta-e-dois!", enquanto olho para uma variedade espantosa de enchidos, queijos e coisas que tais é penso na quantidade infindável deste tipo de coisas que invadem diariamente (ou horariamente?) os estômagos dos portugueses. 

Entretanto já está no 41 (yupiiiiiii!). Vou parar de escrever e esperar que gritem por mim. Obrigada pela companhia.


[escrito no supermercado, à espera de 250 gramas de fiambre]

01
Mai17

Um ovinho da Páscoa por dia, nem sabes o bem que te fazia

Apesar de me auto-intitular uma lontra, não sou pessoa de comer muito nem tenho daquelas pancas ao estilo "devorar uma barra de chocolate por dia". Há coisas de que gosto muito, mas no geral sou muito esquisita e não há nada que me faça mais feliz do que a comidinha da mamã, pois só ela é que sabe aquilo que gosto. Nunca escondi aqui a minha predileção por doces - e, acima de tudo, por os fazer - mas hoje em dia estou mais numa de "petiscar", porque enjoo rapidamente tudo o que são doces. Como mais do que devia e gostaria, é verdade, mas reduzi bastante e agora preciso é de saciar as vontades de açúcar que às vezes me dão.

E, nos último tempos, a solução tem sido sempre a mesma: uns ovos/amêndoas de chocolate da Chocolataria Equador, que são um pedaço de paraíso na terra. A minha irmã, por ocasião da Páscoa, ofereceu-me um patinho de porcelana (ao estilo Bordalo Pinheiro) dessa chocolataria, que trazia meia-dúzia destes ovos - de chocolate preto, de leite e branco. Eu estou longe de ser louca por chocolate, passo anos sem tocar numa única tablete, mas naquela altura apeteceu-me experimentar a prenda dela e... bom, não é preciso tecer grandes comentários. No fundo, são amêndoas inteiras envoltas em chocolate (em forma de ovo) - mas este é mesmo muito bom, ou não viesse de umas das melhores chocolatarias da cidade. Infelizmente eu não gosto de chocolate preto, por isso só comi os ovinhos de chocolate de leite e branco e, ao contrário do normal, apeteceu-me mais.

Por mero acaso, passado uns dias, passei na Rua das Flores e decidi parar na loja que eles lá têm em busca de mais ovinhos. Fiquei de coração partido, pois só tinham naqueles saquinhos de seis, dentro dos patos de porcelana e eu queria a granel (quer dizer, eu gosto de patos, mas não ao ponto de ficar com a casa cheia deles...). Dois dias depois, quando fui à padaria do El Corte Inglés, dei de caras com um corner da Equador e, guess what... havia uns frascos enormes com os ovos! Vi-me obrigada a parar, comprar e desembolsar, porque não é todos os dias que se descobrem chocolates que se gostem tanto.

Eu nem sequer costumo gostar muito da mistura de chocolate com amêndoa, mas sinto que aqui as coisas estão num estado muito mais puro e por isso sabem muito melhor (ao contrário daquelas de saco, vendidas massivamente na Páscoa). Ao contrário do que se possa pensar, isto não aumenta a minha lontrisse-aguda - acho que até ajuda a evita-la. Sempre que me dá a fome de algo doce, como um ovinho (e são pequenos) e fico consolada para o resto do dia - e como enjoo sempre que exagero, não caio na tentação de comer mais do que um, por isso isto até pode ser considerado terapêutico (ahahah).

Como sou amiga e gosto de ver toda a gente feliz, deixo aqui a sugestão. Não sei se ainda encontram estes ovinhos este ano, uma vez que se deve tratar de um especial Páscoa, mas vale a pena tentar. Ou então façam uma nota mental para não se esquecerem, na próxima semana santa, de dar um salto às lojas Equador. Isso ou façam uma petição do género "A Páscoa é quando um homem quiser e exigimos ovinhos durante o ano inteiro". Se assim for, contem comigo. Eu assino.

 

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17
Mar17

Eu, ignorante de leguminosas, me confesso

Gosto de todas as semanas ir à feira - já o tinha dito aqui que, para além de ser velhinha de alma por todas as outras razões, até nisto pareço ter 80 anos. Vou à feira, levo carrinho de mão para não transportar os quilos de fruta nos braços e, se tal não bastasse, ainda lá vou ao início da manhã, antes de ir para o trabalho.

A verdade é que no verão não é estritamente necessário ir com as galinhas, porque só costumo ir à fruta e essa há sempre para dar e vender, mas nesta altura do ano gosto sempre de comprar agriões - que não tenho aqui na horta e são os meus legumes favoritos para pôr na sopa - o que só se arranja de manhã (pelo menos vivos e com bom aspeto, porque depois do meio dia, os que sobraram, já estão todos com um ar morto e enterrado). O problema é que eu sou uma ignorante no que a leguminosas diz respeito. 

Normalmente faço-me de hiper distraída, olho para a banca cheia de tralhas com um ar meio esgazeado, como se não encontrasse nada, e pergunto à senhora a quem compro sempre os legumes: "Bom dia! Então e agriões, não tem?". E ela lá me diz, com um sotaque carregado, que "estão aí em baixo, do seu lado esquerdo" ou "estão mesmo à sua frente, freguesa!". Mas hoje era ela que estava (verdadeiramente) esgazeada, com clientes para trás e para a frente e sem tempo para olhar para o lado, e eu senti que tinha de arriscar se não queria ficar ali a manhã inteira. Já me tinha acontecido e quando cheguei a casa levei um sermão porque em vez de agriões... trouxe espinafres.

E hoje, enquanto me baixava para apanhar os meus espero-que-sejam-agriões, rezava para não me enganar. Pus um molho numa saca, outro noutra. Nisto, uma senhora pergunta "menina, não tem espinafres???". "Tenho querida, estão ali". O "ali" era ao meu lado. Sim, no sítio onde tinha ido os buscar os meus espero-que-sejam-agriões. Mas a verdade é que as coisas estavam todas empilhadas, coladinhas umas às outras, um manto de verde sem fim. Olhei para aquilo em que a senhora tinha pegado e que tinha a certeza serem espinafres e olhei para o que tinha no meu saco. Olhei de novo. E de novo. E depois de nem sequer conseguir ver muitas diferenças, aceitei o facto de que mesmo que fossem espinafres aquilo que eu tinha ensacado, já não ia ter lata para os pôr de novo no sítio e pegar nos agriões-verdadeiros. Pedi para pagar e o meu coração relaxou um bocadinho quando ela me pediu 70 cêntimos por molho - é aquilo que pago sempre, mas uma pessoa nunca sabe se os espinafres valem o mesmo. Por isso fiz a prova de fogo: vim para casa.

Mal cheguei, avisei logo: "acho que trouxe espinafres". Mas não! Afinal eram mesmo agriões. Acho que tenho uma inaptidão natural para comprar legumes. Ou então sou mesmo cegueta.

 

(E olá! Estou de volta!)

25
Jan17

Review da semana 15#

O pequeno-almoço no McDonalds

 

Há uma semana, quando fui a Lisboa, levantei-me com as galinhas, engoli qualquer coisa e fui para o aeroporto. Entre segurança, dar uma volta na Parfois e entrar no avião foi uma rapidinha e mal me sentei no meu lugar aterrei. Juro que nunca me tinha acontecido tal coisa, mas aquele sol matinal a bater-me na cara fez com que adormecesse profundamente e só acordasse quando aterramos, um bocado carrancuda por a viagem ter sido tão curta (também nunca me tinha acontecido querer que a viagem fosse mais longa).
Chegamos mais cedo que o previsto e, depois daquele sono de beleza, apeteceu-me um segundo pequeno-almoço. Em vez de me pôr a andar do aeroporto, como fazem as pessoas normais, decidi ir ao McDonalds experimentar o menu de pequeno-almoço, algo que já queria fazer há muito tempo. Pedi panquecas e um café com leite; achei que me iam perguntar que molhos (ou doces) queria com as ditas mas não me deram opção e foi surpresa até as abrir.
Vamos então ao veredito: as panquecas eram enormes, três, e não consegui comê-las todas; o molho era uma espécie de maple syrup - porque já que é para comer o pequeno almoço no mac, tal e qual os americanos, ao menos que o façamos da forma devida. Devo confessar que, quando abri a caixa, fiquei um pouco de pé atrás: cheirava-me demasiado a baunilha, coisa que não gosto, e pareciam-me plásticas. Depois acabei por ficar surpreendida: a textura era boa e não eram muito abaunilhadas, apenas desenxabidas, o que faz sentido se o objetivo for colocar qualquer coisa por cima (eu em casa, como não costumo pôr nada a acompanhar - devoro-as tão e simplesmente - acabo por as adoçar para lhes dar um travo melhor). O maple syrup não é das minhas coisas favoritas mas, naquele contexto, resulta bem - embora ache que devessem ter outras opções, como compotas, chocolate e etc.
Não esquecer, no entanto, o café com leite, que é uma ciência por muitos desconhecida! Também ia a medo, uma vez que há muitos cafés que me fazem mal e eu já me imaginava aos tremeliques durante todo o dia, mas correu tudo bem e a meia de leite estava no ponto: sabia-me àquele café de hotel, de saco, que eu também gosto muito.
Por isso, e de uma forma geral, o pequeno almoço do McDonalds está aprovado. Agora o problema é mesmo escolher entre as panquecas e o Big Mac.

23
Jan17

O mundo está contra os rótulos, mas bem devíamos olhar para alguns

Se há coisa que eu gosto nesta vida é de ir ao supermercado com todo o tempo do mundo. Hoje em dia andamos sempre acelerados, não temos tempo a perder - e quando o temos, passamo-lo muitas vezes a descansar ou em tarefas que nos deem gozo. Porque se há coisa em que não perdemos tempo é nas idas aos supermercados - estamos sempre com pressa, suspiramos quando vemos o nosso número da charcutaria, vamos indo ao talho para poupar tempo e mesmo assim batemos o pé ao ver o ponteiro dos minutos passar e quando chegamos às caixas analisamos à peça o número de coisas que cada carrinho tem para escolhermos a fila mais rápida. E ainda bufamos enquanto a senhora da frente procura o cartão de crédito no porta-moedas.

Eu não estou a dizer que sou excepção: normalmente também vou ao supermercado num corridinho, não tenho tempo para prospeções, mas a verdade é que gosto quando o tenho. Adoro ver os novos produtos que existem, novas alternativas e, acima de tudo, de olhar para os rótulos. Acho que algumas pessoas me acham maluca porque sempre que pego em alguma coisa vejo logo a tabela nutricional, à procura dos açúcares, hidratos e coisa que tais. E é aqui que está o core deste post: eu acho que é essencial todos nós aprendermos a ler rótulos, porque somos todos sistematicamente enganados por paraverdades presentes nas embalagens. Da mesma forma que nas escolas se dá formação cívica, educação sexual e outras coisas que tais - algumas sem qualquer utilidade prática - acho que isto era algo interessantíssimo e útil para o futuro de cada um de nós.

Não sou de dietas malucas, mas sou um bocado obsessiva com as imperfeições do meu corpo - e como são infinitas, tenho muito com que me entreter. Principalmente ao nível da alimentação, tenho uma relação difícil: eu adoro comer, principalmente coisas que não são particularmente benéficas para a saúde, e acho-me sempre gordíssima. É uma gestão difícil, feita com muito cuidado para não descambar, sobre a qual já falei aqui; passa por fases, mas aquilo que faço é tentar controlar-me nas gordisses, nunca descorando aquilo que me sabe realmente bem. E aquilo que tento fazer é encontrar coisas de que gosto, sempre com a menor qualidade de açúcares (e químicos) possível - daí adorar pegar em todas as novidades do mercado e esmiúça-las.

E juro-vos, sinto-me enganada sempre que decido andar a investigar com mais cuidado os novos produtos. Mais: as coisas estão especialmente desenhadas para enganar pessoas mais ingénuas e desatentas. Pegando, por exemplo, naquela "área viva" do Continente, cheia de produtos aparentemente mais saudáveis - pega-se numa granola superior, rica em fibras e vitaminas de A a Z e nutrientes XPTO, e no entanto tem 30 gramas de açúcar por cada 100g de produto. Isto é mais do que os cereais normais, incluindo alguns daqueles de chocolate de que toda a gente agora foge. Ou, por exemplo, os iogurtes corpos danone, que apelam à aceitação do corpo e são supostamente super saudáveis para nós: um iogurte líquido tem, por exemplo, 8 gramas de açúcar, mais do que um pacote daqueles que pomos no café. E um iogurte grego? 14g - dois pacotes de açúcar. 

Isto tudo para dizer que acho mesmo, mesmo importante olhar-se para os rótulos e percebermos que somos constantemente imbuídos em mentiras nada piedosas. Não é por dietas, é só mesmo para ter consciência daquilo que comemos. E, meus amigos, acreditem: eu adoro açúcar e tudo o que é bom. Mas tenho a consciência do que ingiro - e, pior que isso, a noção de que tudo o que comemos está cheio de adoçantes e que, de tão habituados que estamos a isto, difícil é encontrar (e gostar) de algo que não tenha a "droga do século XXI".

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