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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

15
Nov22

Chávena de Letras - "Pequenas Grandes Mentiras"

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Todas somos, de alguma (e diferente) forma, a Jane, a Madeline ou Celeste. "Pequenas Grandes Mentiras" é, na verdade, um bom exemplo da vida real: todos mentimos em algum momento (provavelmente sobre um ou outro acontecimento do nosso passado - nem que seja com um simples "está tudo bem") e todos gostamos de manter as aparências para o exterior. O problema é quando essas mentiras se tornam no centro da nossa vida; quando se transformam nos nossos alicerces e construímos um castelo em cima de vigas de areia. E todas as personagens deste livro têm telhados de vidro no que às mentiras diz respeito - como todos temos, na vida real.

Decidi ler Liane Moriarty depois de ter ouvido rasgados elogios à sua narrativa no podcast "Vale a Pena", da Mariana Alvim. Não foi este o livro mais visado da autora nos vários comentários feitos por alguns convidados, mas pareceu-me um bom ponto de partida, por ter sido uma obra bastante badalada devido à sua adaptação a série. E a verdade é que não desapontou: a capacidade de nos envolver no enredo, a dúvida constante e a empatia com as personagens não falha - e é o mix perfeito para nos agarrar ao livro, do princípio ao fim. Moriarty não se fica pela clássica dúvida de "quem será o assassino". Aqui, nem sequer sabemos o assassinado, deixando-nos numa ânsia louca para folhear as páginas finais do livro!

A forma como a obra está escrita e construída, sem libertar spoilers a não ser na altura pretendida, é muito boa; a ideia dos depoimentos no final de cada capítulo aguça ainda mais o apetite e engana em vez de ajudar a resolver o mistério - o que ainda torna tudo mais intrigante. Esta era a característica mais mencionada sobre a autora, no podcast: no final, o plot twist é sempre inesperado, por muito bem que já conheçamos a escrita de Moriarty. Eu não sou o estilo de leitora que se agarra a um livro até saber o desfecho nem ocupo a mente em tentar deslindar mistérios, mas gostei muito desta fórmula, que só vem confirmar tudo aquilo que ouvi sobre a autora nos últimos tempos. Como tal, não creio que esta seja a minha última leitura da escritora australiana.

Única nota negativa a apontar: achei a desconstrução da narrativa, no final, muito repentina. Passamos 400 páginas a aprender sobre a dinâmica de Pirwee e de quem a habita, desvendando segredos aos pouquinhos, mas plantando muito mais dúvidas à medida que vamos folheando - e, do nada, descobrimos tudo rapidamente. Muitas das maiores revelações são feitas até de forma "seca", rápida e crua, qual penso rápido. Parece que a autora estava em ânsias para escrever o livro, depois de todo o cuidado e suspense que teve até aquele ponto. Há uma parte de nós que fica feliz, pois satisfaz-nos a curiosidade mórbida de saber o morto e o assassino - mas não diria que a narrativa sai a ganhar.

06
Out22

Chávena de Letras: os dois primeiros livros da série Bridgerton

As duas próximas reviews podem ter spoilers. Os livros foram lidos depois de ter visto a série.

 

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É difícil fazer a análise de um livro quando já temos na nossa posse todos os detalhes da história e conhecemos as personagens. E foi isso que me fez chegar a duas conclusões invulgares, que até podem parecer contraditórias:

1) A série é muito melhor que o livro.

2) O livro é bom (para o estilo) e difícil de "deslargar".

Aquilo que a série fez com o universo Bridgerton é só incrível; é um trabalho digno de aplauso, tendo em conta esta base de partida que, por comparação, é muito mais fraca e superficial. A série abre o espectro deste mundo criado por Julia Quinn, enquanto que o livro é extremamente focado no casal Daphne-Simon. O mais provável é que a série já tenha ido buscar detalhes dos livros futuros, de forma a construir personagens mais complexas e um universo coerente, que se adeque aquilo que vai acontecer a seguir; mas a verdade é que para além desse afunilamento da narrativa que existe no livro, na obra escrita nada mais nos puxa para além do romance. Por outro lado, a série cria todo um mistério à volta da Lady Whisteldown (que é pouco mencionada neste primeiro livro, excluindo as citações no início de cada capítulo), dá vida e conteúdo às personagens em redor dos protagonistas (Eloise, a Bridgerton com mais personalidade na série, não é mencionada no livro, por exemplo; a rainha não existe; mesmo o papel preponderante da Lady Danburry é muito desvanecido), já para não falar de todos os cenários incríveis e a música que a série apresenta.

A verdade é que, pelo menos lido à posteriori, este livro perde por comparação à série - se esta não existisse, eu provavelmente contentava-me com o que tinha lido e nem sequer questionava. Mas aqui entram de novo os contrassensos: será que eu compraria o livro se a série não existisse e se a capa não tivesse a cara das personagens? Definitivamente não. Este é o tipo de obra que faz check em todos os preconceitos de "chick lit" - desde a capa cor de rosa, passando pelo ar apaixonado da menina com as florzinhas no cabelo, culminando com cenas mais quentes que fazem as delícias de qualquer leitora ávida deste estilo de leitura.

Apesar de tudo isto, é muito provável que leia o segundo (e o terceiro, e quarto, sei lá!) - e esta é talvez esta a maior qualidade da escrita de Julia Quinn: deixar-nos presos, tanto enquanto lemos como quando pousamos o livro. Tem uma escrita fácil, fluída, empolgante. E nesta fase em que me encontro, com hábitos de leitura ainda instáveis, esta é a qualidade que mais aprecio e que mais me importa em qualquer obra que leia - mesmo que seja chick lit da mais pura.

 

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Mais uma vez, li o livro depois de ter visto a série. E, de novo, tiro o chapéu à série, por ter sido capaz de ver para além da escrita de Julia Quinn, do enredo demasiado focado só nos protagonistas e por ter conseguido diversificar o interesse noutras personagens, não desprezando ainda assim o desejo ardente entre os dois protagonistas. Tudo aquilo que enalteci na review do primeiro livro, poderia reescrever aqui.

A história central, desta vez, foge mais ao original, comparativamente ao primeiro; tudo o que a série modifica só vem acrescentar valor, por isso não me choca - como é o caso do enlace com Edwina, que no livro nunca chega a acontecer e o arrastar do envolvimento mais sério entre Kate e Anthony, que no livro é um tanto ao quanto repentino e na série demora mais a desenvolver-se. Lady Whistledown continua nas sombras, tendo um pequeno destaque nas páginas finais do livro, o que leva a crer que a cortina se vai abrir nos capítulos seguintes.

O próximo livro será o primeiro que lerei sem ter a série como base de comparação - e confesso-me muito curiosa, por só aí poderei fazer uma crítica mais ponderada, sem cair na tentação de comparar a escrita com a criação televisiva. De qualquer das formas, acho que gostei mais do primeiro livro de Queen e algo me diz que isto vai em decrescendo... Esperemos que esteja errada. O tempo o dirá - o terceiro livro da saga já está na estante à espera de ser lido.

22
Set22

Chávena de Letras: "Balada para Sophie"

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Foram precisos 27 anos para ler uma banda desenhada. E a verdade é que valeu a espera. Que livro! Que beleza. É poesia em forma de desenho, é música em versão papel.

Gostei muito da experiência de ler banda desenhada: na verdade achei uma óptima escolha para alguém que está a tentar restabelecer hábitos de leitura, uma vez que a história decorre rápido, sem grandes descrições e com base em diálogos, fazendo-nos avançar as páginas com vontade e sem demoras. Aprendi que não são precisas muitas palavras para descrever estados de espírito - nem sequer desenhos muito detalhados. A cor de fundo das páginas, o tamanho das letras, a profundidade das personagens... Incrível como tantas pequenas coisas - que nunca ninguém nos ensinou mas que interpretamos naturalmente - nos transmitem, às vezes, o essencial de uma história. E que bonita é está história, que bonita é esta balada (não só para Sophie, mas para todos).

11
Fev21

Chávena de Letras: "O enigma do quarto 622"

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Quinto livro de Dicker no cardápio e sua consolidação como um dos meus escritores favoritos da atualidade - embora esta não seja, para mim, a sua melhor obra.

O problema de se escrever recorrentemente livros muito bons é que a nossa expectativa fica demasiado alta - e a queda, quando se dá nesses casos, também é maior. Apesar da história, como todas as outras que escreveu, nos prender até ao fim do livro, este "O Enigma do Quarto 622" peca por alguns trechos um bocadinho parvos (deixo um pequeno excerto, que guardei mal li, por me parecer imediatamente ridiculo e digno de livro de crianças: "Arma ficou furiosa. Pegou numa esferográfica e, num gesto de raiva, cobriu de traços negros o rosto de Lev, antes de rasgar a fotografia, para o fazer desaparecer. Ah, como o odiava, a este destruidor de lares que destruía a vida do seu patrão!") e por uma série de recursos levados quase à exaustão - das reviravoltas na história até às analepses (demasiado) recorrentes. Chegam a ser a analisadas quatro fases da vida das personagens em simultâneo - e a certa uma altura já não sabemos muito bem em que patamar estamos. Isto dificulta muito a análise posterior da obra; depois de tantas "trocas e baldrocas" gostava de tirar algumas dúvidas a limpo (sim, nem todas as explicações me satisfazeram) e, de tanto andar para a frente e para trás, é quase impossível encontrar as respostas que procuro. Em 600 páginas, é como encontrar uma agulha no palheiro.

Diria que o autor se perdeu no meio da sua própria armadilha, em que normalmente prende os leitores, que não deixa que larguem as páginas até chegarem ao fim. É talvez um livro demasiado longo para o que seria necessário. Ainda estou para perceber se gosto, ou não, do facto dele se ter incluído a ele próprio no rol de personagens (mais: se ter escolhido como personagem principal). Vou investigar, mas creio que há algo de muito pessoal nesta história - talvez uma homenagem ao tal editor?

Apesar de tudo isto, é mais um bom livro para acrescentar à estante. Óptimo para se ler nas férias, quando temos tempo para ler as 600 páginas praticamente de uma só vez, enquanto a curiosidade nos corrói por dentro. O fim, esse, é uma reviravolta daquelas (quando achávamos que o golpe maior estava dado, zás, eis que Dicker saca do seu último trunfo). Nisso, o escritor é rei. E, talvez por isso, continue a salivar por cada novo livro que escreve.

29
Jan21

Chávena de letras: "A Amiga Genial"

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Mal percebi o estilo de escrita de Elena Ferrante fiquei de pé atrás: se por um lado tem uma beleza própria (que muitos descrevem como "crua"), por outro não é claramente aquilo de que costumo gostar. Não se pode dizer que seja um estilo descritivo - mas é, de algum modo, exaustivo. O facto de se tratarem de memórias, de todos os eventos relatados serem fruto de ações passadas, faz com que lhes sejam sempre acrescentadas análises e pensamentos que tornam o livro, embora mais interessante, também mais massudo. Há poucos diálogos, poucas movimentações imediatas. O livro vai ao sabor da vida, no fundo; da vida das duas amigas.

Percebi a razão deste fenómeno relativamente cedo; acho que muitos se devem rever nestas memórias, nas zangas e peripécias de infância e de adolescência, do tempo passar muito rápido nuns momentos e lentamente noutros; das mudanças de humor repentinas, nas mudanças de corpo que por vezes nos parecem igualmente rápidas; calculo que seja fácil esteriotipar os nossos amigos em personagens como Alfonso, Enzo ou Gino; se calhar até mesmo na relação entre Lila e Lenú, que me parece tudo menos saudável e me causou desconforto durante a maior parte do livro. Senti que a parte mais feliz da minha leitura foi quando, finalmente, se separaram - no fundo, acho que não passa da minha personalidade rabugenta a falar a mais alto, enquanto remói no pensamento de que se é mais feliz só, do que mal acompanhado.

Mas, acima de tudo, percebo a dificuldade que é contar bem uma história que não tem muito que contar - e Ferrante, quer gostemos ou não do estilo, fá-lo de forma exímia. É a vida, no fundo. Nem sempre há histórias para contar, nem sempre há um herói ou um mau da fita, não tem de se tirar uma moral de tudo o que se lê (ou vive). Enfim... É a vida, com tudo o que de entediante e entusiasmante tem nas suas diferentes fases.

Resta a questão: vou ler os seguintes? Confesso que não sei. Gostei da história e das personagens ricas, mas não sei se sou capaz de manter uma leitura entusiasmada quando sair do regime de férias (em que 80% do meu tempo pode ser dedicado à leitura) e voltar à vida normal; sinto que este é um livro que necessita de alguma concentração e que ganha se a sua leitura for seguida e feita num período relativamente curto - muito por culpa do elevado número de personagens, muito intrincadas entre elas, que por vezes acabam por se confundir na cabeça do leitor. Os próprios acontecimentos, suas relações e desavenças acabam por se misturar se não estiver tudo bem fresco e claro. Como a escrita, mais pesada e exaustiva, não me puxa por aí além, e por achar que não vou conseguir manter o ritmo que acho desejável para esta história, a minha continuidade nesta tetralogia ainda está em dúvida.

16
Set20

Chávena de Letras: "O Tatuador de Auchwitz"

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Um bom livro não vive só de uma boa história. Não sei se por "ter vindo" de uma obra em que a escrita era central e crucial (sendo que a história tinha na escrita o seu pulmão de oxigénio, por não "sobreviver" sozinha) ou por ter, simplesmente, um sentido crítico apurado: achei que este livro pobre no que à escrita diz respeito. Falo a todos os níveis: desde o vocabulário, passando pela fraca construção frásica e uma escrita demasiado básica (pontos finais a cada oração, falta de qualquer frase mais trabalhada), pelo parco trabalho na construção das personagens, terminando naquilo que me parecem trechos cheios de "arestas", que não viram a mão de um editor. Não sei que culpa é que a tradução poderá ter no meio disto tudo. Mas continuo a achar estranho a (tão) alta pontuação que é atribuída ao livro.

Acho ainda que o tema dos campos de concentração é abordado pela rama; não sei se sou só eu, mas apesar das atrocidades relatadas, este acaba por não ser um livro pesado. As personagens têm sempre um fundo de esperança que confere à obra uma aura mais leve do que aquilo que esperaria - o que, sendo bom por um lado, por outro acaba por lhe tirar um pouco de credibilidade (porque não há nada de light quando se fala em Auschwitz).

Não obstante, esta é uma bonita história de amor, que sem dúvida mereceu ver a luz do dia. Destaque positivo para o destaque de uma das dualidades mais duras do holocausto: colaborar com os agressores para sobreviver ou morrer com a dignidade intacta. Creio que o peso dos crimes que foram praticados pelos judeus contra judeus, principalmente dentro dos campos, é das questões que mais deve ferir um povo - já para não falar da consciência de quem os praticou.

25
Ago20

Chávena de Letras: "A Única História"

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Julian Barnes é perito em (d)escrever memórias. Mas memórias a sério, de forma fidedigna, com tudo a que têm direito. Narrar uma história no presente é muito diferente faze-lo enquanto se pensa no passado; não se trata só da precisão e dos detalhes que damos (ou não damos, quando contamos alguma coisa de memória, onde algo inevitavelmente nos falha), mas também da perspectiva que ganhamos da nossa própria história.

A nossa visão muda ao longo dos anos - uma queda no presente não tem graça, mas somos capazes de nos rir quando já tiverem passado uns anos. Da mesma forma, o mesmo desgosto amoroso não tem a mesma intensidade na altura em que o vivemos e volvidos uns anos, quando o lembramos; e o mesmo se passa com todo o processo de enamoramento com alguém. A memória tira detalhes e encantamento e normalmente acrescenta uma pitada de racionalidade.

É nisto que Julian Barnes é bom, a fazer este jogo de lembranças e seus confrontos com o presente. Mas se "O Sentido do Fim" me conquistou imediatamente e é ainda hoje um dos livros que recordo com maior carinho (apesar da história praticamente me passar ao lado), "A Única História" não teve a mesma capacidade. Embora tenha achado à partida a narrativa interessante - a ideia de relembrar o amor da nossa vida, todo o processo de enamoramento (e a forma como é visto pelos outros) e, depois, o confronto com os problemas que qualquer relação acarreta, este não me cativou por aí além e, de certeza, não me ficará na memória como a primeira obra que li do autor.

20
Ago20

Chávena de Letras: "Patagónia Express"

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A classificação que dou a este livro (4 de 5 estrelas) aumentou uma estrela na última página. Gostei muito do início do livro, achei a terceira parte algo confusa (e confesso que não sei se percebi totalmente algumas metáforas e comparações que foram feitas), mas o final - a pescadinha de rabo da boca - conquistou-me totalmente. Não considero que isto sejam crónicas de viagem, mas sim um conjunto de textos que, vistos como um todo, são uma imensa declaração de amor.

É dito inicialmente pelo autor que estes eram textos guardados "na gaveta", pelo que se compreende à partida que não tenha de existir uma linha lógica entre as partes (e até entre capítulos). Isto pode, ou não, abonar a favor do livro - dependerá do leitor. Se houve partes e personagens que me conquistaram, outras ficaram aquém.

Ainda assim, gostei. Sepúlveda tem uma escrita poética, limpa e doce. Tenho pena de só ter começado a explorar a sua obra agora (tinha lido um livro do autor antes, ainda na escola, numa leitura conjunta - o que não abonou a favor do livro), tendo a certeza que a sua partida precoce é uma das grandes perdas de 2020 no campo da literatura.

26
Jul20

Chávena de Letras: "Manual de sobrevivência de um escritor"

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Nunca li nada de João Tordo para além deste seu manual de escrita, se assim podemos chamar. Mas mal o vi nas prateleiras virtuais de uma livraria online não resisti em comprar; sou sempre atraída por obras que explorem este ofício, independentemente de o analisarem de um ponto de vista mais técnico ou mais poético e romântico (como é o caso deste).

Apesar de ter sido uma leitura bastante agradável, devo confessar que o rolar das páginas não abonou a favor do livro: achei o início delicioso (a dissertação sobre o que é ser escritor e a forma como ele olha o mundo à sua volta), mas a parte do fim acabou por me soar um bocadinho... vá, presunçosa. Acho que a o meu desagrado começou algures quando o autor escreveu que "A menos que tenhas a sorte de escrever um bestseller à primeira, e vender centenas de milhares de exemplares (o que, habitualmente, significa que escreveste um livro mauzito) (...)" e continuou com aquilo que considera serem os "escritores literários" que, para além de serem aqueles que se dedicam a 100% a esta arte (não tendo mais nenhuma profissão), se depreende que se distinguem dos autores "pimba" (esta comparação com a música é a melhor forma que me ocorre de descrever este tipo de escritores - pelo menos vistos deste prisma -, que não se pautam por uma escrita super eclética, rica e que narram histórias mais corriqueiras). Eu percebo a distinção, mas acho-a preconceituosa. Não acho que se possa comparar Mário Vargas Llosa com Nicholas Sparks - mas, para mim, são ambos escritores: sentam-se, escrevem, corrigem, reescrevem, publicam, publicitam. Também não ouso comparar o Rui Veloso com o Quim Barreiros: mas ambos são, indubitavelmente, cantores, compositores e homens do mundo do espetáculo. São estilos diferentes - mas não tem de haver necessariamente um demérito de nenhum deles derivado ao estilo que preferem. A nossa tendência é, obviamente, juntarmo-nos ao grupo daqueles que consideramos ser os melhores. O autor cita muitos outros "escritores literários" ao longo da obra (o que enriquece imenso o livro) e ambiciona, claramente, fazer parte desse grupo. O que não é mau - mas pode deixar um rasgo de presunção que nem sempre conquista a simpatia de quem lê.

A visão purista da escrita também me dá alguma comichão; João Tordo dá-nos a entender que o escritor é quase refém do seu próprio ofício, que é a escrita que lhe comanda a vida e não o contrário - e que só assim será bem sucedido. Não sei se a visão é partilhada pelos seus colegas de trabalho (já li alguns, mas não muitos, manuais deste género), mas não me consigo identificar com ela. A verdade é que a minha opinião vale o que vale: apesar de sonhar publicar livros, nunca esteve nos meus planos fazer da escrita a minha fonte de rendimentos exclusiva - e, até agora, não publiquei nada, não me podendo considerar uma escritora, embora tenha escrito muitos milhares de palavras ao longo destes anos (mas guardo com carinho algo que Tordo escreve quase no fim da obra: "Faz a ti próprio esta pergunta à maneira de Rilke: Preciso de escrever? E, caso a resposta seja positiva e sincera, então podes chamar a ti próprio «escritor», mesmo que nada tenhas publicado.")

Tirando estes dois pontos, achei muito interessante o enfoque de alguns aspetos pessoais que os autores nem sempre mencionam neste tipo de obras: a dificuldade que é viver da escrita (e as cedências que temos de fazer para viver dela), a relação com a crítica e a maneira de retirarmos o melhor dela e, uma coisa que gostei em particular, a ligação normalmente próxima que os escritores têm com drogas e álcool, que embora a curto prazo possam parecer trazer inspiração, a longo prazo só trazem desgraça. A escrita é leve e rica em exemplos, muitos deles retirados dos livros e da experiência do próprio autor (algo que neste tipo de livros nem sempre é fácil, baseando-se tudo em citações de outros e ideias bonitas mas pouco concretas).

O facto de ser escrito por um autor português é um ponto positivo - e vai direitinho para a prateleira ao lado do "Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão", do Mário de Carvalho, que considero que vai muito na onda deste livro do João Tordo. É um livro para se ir pegando de vez em quando - talvez no dia em que me decida a escrever um livro de fio a pavio, talvez numa altura em que duvide de mim própria e destas minhas ambições literárias ou simplesmente numa altura em que me apeteça reler algumas das passagens que mais me inspiraram.

15
Jul20

Chávena de letras: "O Bibliotecário"

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Este é um bom livro de verão - uma obra leve que não exige muito de nós, que dá sempre vontade de virar a página e saber o que conta o capítulo seguinte. É um thriller com uma cadência cativante, que não deixa grandes margens para ficarmos entediados ou termos vontade de pousar o livro. Para os fascinados pela história do antigo Egipto deverá ser uma obra ainda mais entusiasmante, onde a verdade, a ficção e algumas teorias da conspiração se misturam num enredo que só por si já é atrativo. Nota-se uma preocupação do autor em contextualizar e precisar alguns pontos históricos, o que faz com que para além de mero entretenimento, possamos sair desta leitura mais ricos.

Ponto positivo a focar: o facto da personagem principal ser uma mulher que não se detém pelo medo do desconhecido e é levada pela vontade de conhecer mais. Pontos negativos: apesar de adorar a Emily, ela parece um bocadinho lerda inicialmente, não percebendo a dimensão do esquema em que se encontra e caindo em esparrelas básicas. Nota negativa também para a tradução: ao longo do livro há várias falhas - palavras não traduzidas, outras mal escritas, frases com uma formulação dúbia e pouco cuidado em alguns trechos, onde por exemplo se notava a repetição da mesma palavra numa só frase.
Fora isso, é um livro giro que bem entretém.

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