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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

16
Abr21

Uma história com princípio, meio e sim! #6

Um pontapé no rabo das tradições

Não sou nem nunca fui supersticiosa. Tenho amuletos - uso certas joias, que pertenciam às minhas avós, em dias especiais e em que sinto que preciso de uma força extra - mas nunca acreditei em superstições ou ditos populares. Nunca percebi porque é que não podia passar debaixo de uma escada, abrir o guarda-chuva dentro de casa, ter chapéus em cima da cama ou não devia pousar a carteira no chão (aparte da questão óbvia da sujidade). Adoro gatos pretos e o número 13 é para mim tão válido como o 7, o 12 ou o 14; sou também a prova de que varrerem-me os pés não é sinal de ficar solteira para sempre (muitas foram as vezes em que a D. Joaquina, por brincadeira, me tirou o pó de cima dos pés - mas a verdade é que, se tudo correr bem, caso-me em breve!) e sei também que um mocho piar não é necessariamente sinal de morte, como ela própria dizia (embora a todos os minutos morra de facto alguém, não tem é de ser próximo). 

Fui ignorando - e até desprezando - todas estas lenga-lengas ao longo da minha vida. Sim, deixei de passar por debaixo de escadas e tirava os chapéus de cima da cama quando me chamavam à atenção, não porque acreditasse, mas porque não estava para contrapôr questões de fé e era mais fácil evitar certos atos do que chatear-me por causa deles.

Para meu grande azar o casamento é um ato recheado de superstições e tradições - a maioria delas parva e desnecessária, pelo menos para mim. Mas, para azar dos outros, o casamento foi também aquele acontecimento que eu tomei como mais meu; em que decidi deixar-me de medos e merdas, de opiniões, expectativas e desejos dos outros e fazer aquilo que de facto queria. Isto foi em grande parte impulsionado por tudo o que li nos vossos comentários, a maior parte dizendo que teriam feito isto e aquilo diferente (pois fizeram certas coisas por pressão dos pais, da família ou em nome da tradição) ou que, pelo contrário, não se arrependem um minuto de certa decisão que tomaram e que foi contra a vontade de todos. E o facto de não casar pela igreja é só a ponta do iceberg. Neste momento, todas as ideias que eu ou o Miguel tenhamos, parvas ou não, entram para a equação - e o que importa é que gostemos delas e que espelhem aquilo que somos. As opiniões alheias não passam disso: opiniões. Tenho ouvido muitas (e pedido outras, inclusivamente neste post), mas é nossa escolha ouvi-las ou não.

As tradições caem num saco em que eu ouço, mas não ligo. E, confesso, algumas dá-me até algum gozo contrariar. Vejamos:

Começa pelo facto de não se poder dormir com o noivo na noite anterior ao casamento. Oi?! Mas então eu vou dormir onde? Vou voltar a casa dos meus pais depois de um ano e meio a dormir com ele? A noite já será de certeza má, com o stress e a ansiedade, não é preciso estranhar a cama para ajudar à festa.

Isto faz com que nos vejamos na manhã do casamento, antes da cerimónia - o que, só por si, dizem que já dá azar. Uma chatice!

A ideia que a noiva tem de carregar "something old, something new, something borrowed, something blue" (traduzindo, "algo antigo, algo novo, algo emprestado e algo azul") é das que, apesar de igualmente parva, eu acho graça. Não vou trocar uma jóia que queira usar por uma outra só para cumprir com a superstição mas, a calhar bem, é capaz de ser a única coisa que me trará sorte neste casamento. E, pensando bem, a parte do antigo e do emprestado sempre implica alguma poupança - algo que, no que diz respeito ao casamento, nunca é de desprezar!

Pérolas. Não sabia, mas dizem também que a noiva deve usa-lás para uma casamento duradouro. Será por isso que tantas mulheres ficaram presas em casamentos infelizes durante anos a fio? Porque usaram pérolas e isso não deixou que se separassem? É que se o efeito é assim tão forte, prefiro não arriscar. (Mas, mais uma vez, nunca se sabe - tudo depende do vestido, que ainda não está sequer em fase de concepção).

E como a noiva não tem coisas suficientes para se preocupar, ainda tem de andar com uma liga pirosa na perna, a fazer comichão o dia inteiro, para depois o noivo (ou outra pessoa que pague - a sério que esta moda existiu?!) a ir tirar com a boca. É que é já a seguir!

Só para acabarmos com o tópico "beleza e roupa", falta a tradição mais enraizada de todas: o noivo e a noiva não podem ver as respetivas vestimentas até ao dia do casamento! Ou seja: a pessoa cuja a opinião mais me importa - aquele que quero agradar, a pessoa mais importante de toda a festa - é a única que não pode opinar. A pessoa a quem pergunto de manhã se estou bonita ou se a roupa me fica bem, não pode dizer nada sobre o vestido mais importante da minha vida. A pessoa a quem compro roupa e a quem dou sugestões de vestimenta é aquela que não posso acompanhar na prova. Faz tanto sentido, não faz? É como aquela lógica muita aplicada no nosso dia-a-dia... a lógica da batata, conhecem? Por mim, e se não fosse fazer a prova em horário de expediente, o Miguel vinha comigo. À falta disso, sobram as fotos, que já dão uma ideia mas sempre deixam o "wow" para o dia especial (embora o meu namorado fique sempre WOW num fato, quer seja em foto ou ao vivo).

Falta ainda outro clássico: ser "entregue" pelo meu pai ao meu noivo, qual mercadoria pronta a ser expedida. É muito provável que o meu pai me leve até ao altar, porque até agora não encontrei outra forma prática de fazer as coisas, mas já deixei tudo em pratos limpos: eu não sou propriedade de ninguém e não sou "entregue" a ninguém. Não vou deixar de ser de um para ser de outro. Não sou mais do Miguel a partir dali do que sou do meu pai. Serei sempre filha - mas posso não ser sempre mulher do meu noivo, embora espere que assim seja. Por isso não há nada que mude, a não ser o facto de ter uma aliança no dedo. Mas não seja por isso - estou sempre aberta a presentes do género por parte dos meus progenitores ;)

Há muitas outras que poderia falar e que não pretendo ter no meu casamento: a noiva chegar atrasada (porque faz parte dos princípios da boa educação, não é verdade?), o arroz atirado no fim da cerimónia (porque nestes dias a conversa do desperdício e de não deitar comida fora não é uma narrativa que interesse), os votos decorados por toda a população mundial ("na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe"), o lançar do buquet ou a abertura da pista de dança com uma valsa, seguida de uma dança com os pais e sogros. 

Porque da mesma forma que eu sei que não foi por ter usado um anel da minha avó que isto ou aquilo correu melhor, também sei que só há duas coisas que podem fazer com que este casamento acabe mal: eu e o Miguel. Não vai ser o facto de eu ver o seu fato ou ele ver o meu vestido, não vai ser por dormirmos juntos na noite anterior ou por eu não levar pérolas como adereço. Se o casamento correr bem e se formos casados até aos 90 anos, o mérito é nosso. Se um dia nos separarmos, a culpa é também nossa. Só muda o verbo, os sujeitos são os mesmos. E isso é independente de todas as tradições, superstições ou parvoíces que queiramos levar a cabo (ou não) num dia tão especial para nós. Da minha parte, eu passo. Se por ele estiver tudo bem - e porque, mais uma vez, só estes dois sujeitos importam nesta equação - tudo o resto é conversa. Literalmente.

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16
Mar21

Uma história com princípio, meio e sim 5#

!AJUDA DO PÚBLICO! O baile de um casamento pode começar de dia?

E assim se estraga o ritmo de escrita. Janeiro e a metade de Fevereiro foram um mimo, mas depois lá se foi tudo pelo cano. É quase paradoxal o estado de estagnação em que todos vivemos neste momento, comparando com o nosso estado de espírito; se por um lado me sinto também parada, inerte, com falta de fazer coisas, por outro estou cansada, extenuada como se andasse a mil à hora e o mundo estivesse a girar ao mesmo ritmo de há dois anos. É estranho.

E mais estranho ainda é estar a preparar um casamento neste ambiente. Apesar do processo não estar de todo parado, tudo o que é colossal está ainda em stand-by: eu não tenho vestido e ainda não fiz sequer a primeira prova com a pessoa que mo vai fazer; o noivo não tem fato (e ninguém tem coisas para vestir, de uma forma geral); ainda não voltámos à quinta depois da primeira visita, por isso ainda não decidimos nem experimentámos menus, nem conseguimos organizar a festa em si; e o casamento pelo civil, com todas as conservatórias fechadas, ainda nem sequer foi tratado. Por outro lado todos os detalhes mais pequenos já estão tratados ou escolhidos: alianças ainda não compramos mas já sabemos quais queremos, já temos cones de papel personalizados para colocar as pétalas, já temos caixinha para as alianças, alguns souvenirs, alguma decoração. Ah, e os convites! Muitos deles já foram entregues e, com a rapidez na resposta, não tarda nada e temos de nos atirar ao pesadelo de organizar as mesas.

Mas, neste momento, mais do que qualquer outra coisa, sinto-me muito preocupada com o planeamento da festa. Sinto-me uma incompetente ao tentar organizar um casamento - e uma festa - quando só assisti a dois casórios em toda a minha vida e nunca fui a festas ou entrei sequer numa discoteca. Pior: eu e o Miguel somos aqueles dois gatos pingados que ficamos sentados na mesa enquanto toda a gente faz a dança do quadrado em plena pista de dança, durante o auge da festa. Por isso a questão que se põe é: como é que esses dois seres, que neste caso são os noivos, vão realizar uma boa festa? Tenho muito medo que as pessoas saiam do meu casamento a pensar "que seca que isto foi"...

Aquilo que tenho feito é ouvir a opinião de pessoas conhecidas e que são, claramente, party people. Pessoas já calejadas em festas e casamentos, que sabem o que resulta ou que, pelo contrário, faz com que existam momentos mortos. Não sei quanto a vós, caros leitores, mas se também se encontram neste leque de pessoas que gostam de abanar o capacete (ou se simplesmente tiverem uma opinião pertinente a dar), ajudem aqui esta alma perdida.

Vou casar a um domingo. O casamento vai começar cedo, antes do almoço, de maneira a que aproveitemos bem o dia e que quem quiser sair cedo, de forma a poder estar acordado e decente para trabalhar no dia seguinte, o possa fazer. Isto não quer dizer que o casamento tenha de acabar à 1 da manhã obrigatoriamente; o que quero é que as pessoas que têm que sair a essa hora sintam que se divertiram e que aproveitaram todas as fases do casamento devidamente. Que partilharam um momento feliz connosco, que comeram, beberam e se divertiram à fartazana, mesmo que a festa não se alongue pela noite dentro. 

O plano é: casar - acepipes e fotos - almoço - corte de bolo - abertura de pista - jantar - continuar a dançar. A questão aqui é que a abertura da pista, a correr como planeado, vai ser durante a tarde - e aquilo que me parece é que as pessoas acham estranho dançar de tarde. Eu nunca fui de dançar - e, como tal, é-me indiferente fazê-lo de manhã, à tarde ou à noite. Mas há uma mística qualquer em relação à noite que eu desconheço e que deve também ter que ver com a bebida (que, só por acaso, eu também não consumo). 

No meio de todo este processo dizem-nos sempre que o casamento é nosso e que devemos fazer como acharmos melhor. Mas, por outro lado, também nos dizem que apesar de sermos nós a casar, a festa é para os outros. Dá-se uma no cravo e outra na ferradura, basicamente. Eu sei bem que este é o nosso casamento e tenho feito um esforço muito grande para o fazer à minha medida, sendo que planeio ignorar à grande algumas tradições amplamente implementadas. Mas a verdade é que seria impensável fazer isto totalmente à nossa visão: se assim fosse não haveria necessidade de haver álcool envolvido nem faria sentido haver pista de dança, pois nenhum de nós tem na dança um entretenimento. Por mim organizava a festa como faço (ou idealizo) um Natal ou um ajuntamento de família e amigos: com música, muita conversa e jogos de tabuleiro à mistura. Mas cedemos a algumas coisas porque é um casamento, porque faz sentido e há coisas que para todos os efeitos são obrigatórias para que todos estejam felizes e confortáveis - acho que seríamos linchados se, em vez de champanhe para brindar, puséssemos champomy porque nenhum de nós bebe álcool, não é?

A questão aqui é: qual a linha que separa as coisas "obrigatórias" das outras em que podemos mexer? Faz-vos confusão o baile ser de dia (ou pelo menos parte dele?? Qual é a mística que se perde? O que faz de um casamento um BOM casamento? Ajudem!

 

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08
Fev21

Uma história com princípio, meio e sim 4#

Casar em casa ou numa quinta?

Este post podia chamar-se "a segunda grande - ou gigante, vá - cedência".

Se eu um dia casasse, iria fazê-lo em casa. Foi essa a premissa com que cresci, embora durante muitos anos casar não estivesse na equação. Quando me juntei ao Miguel e se começou a ver a seriedade da coisa, o meu pai relembrou-me: se te casares, casas aqui! E, neste caso, eu partilhava da sua vontade.

O meu irmão - o único casamento "a sério" na minha família nos últimos 25 anos - casou numa quinta, mas a verdade é que, principalmente do lado do meu pai, sempre houve a tradição de se fazer casamentos e festas de grande calibre dentro de portas. A minha avó já estava calejada, com vários casamentos, batizados e comunhões celebrados na sua casa, que era bem mais pequena que a nossa. A minha própria festa de batizado foi lá - e dizem que foi tudo óptimo! Também os meus sobrinhos tiveram a sua festa de batismo em casa dos meus pais - montou-se uma pequena tenda, contratou-se um serviço de catering e estava a festa pronta. Foi a primeira que fizemos e a que recorremos a serviços de fora, montagem de infraestruturas e etc., mas correu tudo bem e ficou-se com a ideia de que era uma coisa viável para se repetir.

Mas se no batizado dos meninos éramos uns 60, no meu casamento poderemos chegar aos 170. Mal soube deste número liguei ao meu pai, que tem uma noção de espaço bem melhor que a minha, já com a pergunta na ponta da língua: "é possível pôr está gente toda lá em casa?". Ele respondeu que sim. Um alívio!

E aí começamos a pensar na logística da coisa: onde seria o copo de água, a cerimónia, o espaço de dança; já tínhamos uma ideia mais ao menos concreta e contactamos empresas de aluguer e montagem de tendas e pedimos orçamentos. Quando começamos a olhar para os espaços fomos colocando "e se's". Haviam sempre detalhes que não nos agradavam ou que não eram exequíveis - ou, quando eram, aumentavam os preços de forma louca. É engraçado pensar que uma casa pode ser enorme, mas que por vezes nenhuma área se adequa perfeitamente àquilo que precisamos ou idealizamos; a ideia era fazer tudo no exterior, com recurso a tendas, mas a certa altura tudo se complicou - ora porque havia árvores no meio, ora porque o chão não estava nivelado, ora porque havia elementos que iriam ficar no centro dos espaços e que não eram possíveis de remover... um sem fim de coisas. Depois partimos para outros problemas: e as casas de banho, como era? Utilizavam-se as dos quartos? E o catering, onde ficaria, tendo em conta que queriam água, fogões, fornos e coisas que tais? E os cães, onde ficavam? Podiam estar presos, mas iam ladrar a cerimónia inteira... E os meus pais, onde dormiam naquela noite perante todo o barulho? E se os vizinhos se queixassem? E se a tenda ocupar o espaço de passagem dos carros, como é que se vai passar para o interior? E quem vai limpar a bagunça toda depois da festa?

Fui vendo as pessoas a desistir uma a uma perante os entraves que iam aparecendo a cada ideia que tínhamos. Eu fui a única que me mantive firme na minha vontade. Sabia que ia dar mais trabalho. Sabia que ia ocupar mais tempo. Sabia que ia custar mais caro. Mas era o meu casamento e ia ser único - não ia haver fotos no mesmo sítio que 356 casais, não ia haver protocolo definido, não ia haver um igual. A ideia do controlo e da flexibilidade total das coisas deixou-me agarrada até ao último minuto. Queria muito poder escolher tudo, desde as coisas mais macro (onde montaríamos as tendas e a própria data do casamento) até aos detalhes mais micro (as flores, toda a decoração, o altar). O paraíso de qualquer control-freak.

Iam-me dando sempre conselhos em contrário, com argumentos muito válidos. O mais relevante de todos era de que um casamento em casa iria dar mais trabalho e custar mais dinheiro do que um numa quinta, onde tudo estará pronto sem termos de nos preocupar com o antes, o durante e o depois. E eu sabia que sim, mas continuava agarrada à ideia de casar em casa, embora o saco dos contras fosse pesando cada vez mais nas minhas costas.

Acedi a ir a uma quinta sob o mote de ter noção dos preços praticados e para tirar ideias em relação a toda a organização (tanto em termos de timings como de espaço) - mas sabia que, lá no fundo, aquilo era o princípio do fim do meu casamento de sonho. Apercebi-me disso mal nos metemos no carro, após a primeira visita, e toda a gente se mostrou deslumbrada com o espaço, enumerando todas as coisas maravilhosas de que gostaram. Só eu é que tinha uma lista maior de contras do que de prós - e fiquei tristíssima quando percebi que o meu casamento ia mesmo acabar por ser mais um num calendário cheio deles, igual a todos os outros, nos moldes em que outras pessoas o queriam.

Sem saber muito bem como, a partir da visita àquele primeiro espaço, comecei num sprint de quintas que só terminou no último dia de desconfinamento - e já com uma quinta escolhida. Foram cinco dias de loucura pura, de um cansaço horrível e de um processo de luto do meu próprio ideal de casamento... que foi triste e duro para mim. 

Sei que a decisão foi para bem de todos e não estou arrependida - mesmo ainda não tendo o casamento acontecido. Para mim os problemas não eram o trabalho nem o dinheiro - mas coisas tão simples como o conforto e a paz dos meus pais (e dos meus cães) e o fator de instabilidade que o processo iria criar em todos nós. Gosto da quinta que escolhemos - tanto pelo espaço como pela flexibilidade que me proporcionam, que me traz de volta um bocadinho da sensação de controlo que tanto gostava num casamento em casa - e acho, no fundo, que tomamos a decisão certa. Mas as decicões certas também doem.

01
Fev21

Uma história com princípio, meio e sim! #3

Casar pela igreja? It's a no for me!

O casamento pela igreja era uma não-questão. Isto porque era daquelas que, para além de saber bem aquilo que queria, era também dos tópicos em que eu não iria ceder (isto tendo em conta o noivo que tenho; se fosse alguém extremamente devoto, a história poderia ser diferente).

Se há coisa que eu prezo na vida é a coerência - foi assim que fui ensinada e é algo que gostaria de manter. Se é verdade que as pessoas mudam, também o é que não mudam assim taaaanto. A minha parca ligação com a igreja é algo constante - em nenhuma fase da minha vida fui praticante ou tive um contacto mais presente com a religião. Sou batizada mas, para além disso, só pus os pés em igrejas para funerais e casamentos (nunca fui à catequese). Costumo dizer que sou católica pela cultura que tenho e pelos princípios com que rejo a minha vida - a preocupação com o bem do próximo, a solidariedade, etc.

Tenho fé - mas não é algo que caiba dentro dos "parâmetros" normais, justificada por um Deus. Não a encontro em locais de cariz religioso. A minha fé materializa-se no acreditar numa qualquer forma de perpetuação das pessoas que já partiram e que fizeram parte da minha vida; sinto a sua presença em pequenos detalhes do dia-a-dia, e em mim própria, em várias ocasiões... e é nisso que acredito. Mas, para mim, isso em nada tem que ver com a igreja. 

Diria até que, ao nível da igreja-instituição, a minha relação tem-se vindo a degradar. A ideia dos peditórios, dos dogmas, das ideias fixas e pouco flexíveis e os escândalos afastam-me cada vez mais desse tipo de práticas.

O curioso é que embora sempre tenha gostado de marcar a minha posição, a religião é um tema muito sensível, sobre o qual tive dificuldade em impor o meu ponto de vista numa fase inicial da minha vida. Apesar de nunca ter sabido qualquer tipo de reza, não gostava de estar calada numa igreja onde todos pareciam saber os cânticos e os rituais; tinha a tendência de mexer os lábios para dar a ideia de que estava a dizer algo e procurava manter um ritmo natural daquele levanta-senta chato a que somos submetidos em todas as missas. Cheguei até a fazer uma leitura no funeral da minha avó e a andar com o cestinho a fazer a recolha das dádivas! E esse foi o ponto de viragem.

Aquela não era eu. Nunca fiz parte de grupos e nunca me preocupei por não fazer parte de um rebanho - pelo contrário, sempre me orgulhei disso. Porque é que ali, naquele sítio, tinha de ser diferente? Porque é que tinha de fingir saber fazer algo que de facto não sabia? Porque é que tentava fazer parte de algo que não me dizia nada?

Deixei de me benzer quando entro numa igreja. Deixei de mexer os lábios durante a missa. Deixei de me sentir pressionada naquele ambiente tão cheio de rituais e aceitei que não os sabia. Sento-me e levanto-me à medida que os outros o fazem e não me importo de ser a última a fazê-lo. Recusei fazer uma leitura no funeral do meu avô. Porque se é para ser coerente, é para o ser em toda a linha. 

Por isso, relativamente ao casamento, não é preciso dizer nada, pois não? Se nunca fui praticante, porque me havia de casar pela igreja? Por ser bonito? Por ter um altar? Por ser costume? Não.

Não me esqueço de algo que o padre que celebrou o casamento do meu irmão lhe disse. Podendo falhar-me aqui alguma coisa na sua narrativa, a ideia é que hoje em dia só vamos à igreja em três ocasiões, transportados pelos 3 C's: primeiro por um carrinho, quando somos batizados; depois de carrão, quando casamos; e por fim de carrela, quando morremos. Eu quero ser coerente e quebrar este ciclo. Quando fui batizada não tive escolha (e, honestamente, não é algo que me afete) - mas hoje, adulta, acho que devo ir de encontro às minhas crenças e as minhas práticas (ou, neste caso, à falta delas). Se não frequento a igreja no dia-a-dia, também não me faz sentido lá ir num dia que para mim é tão importante.

Nos dois casamentos a que fui, ambos os padres, de diferentes paróquias, fizeram menção a esta hipocrisia em que todos vivemos mas que fazemos questão de assobiar para o lado de cada vez que nos toca a nós. Que devíamos frequentar a igreja no dia-a-dia, não só nestes dias especiais; que as igrejas não eram só para este tipo de celebrações. E a verdade é que estão corretos - estão a pedir coerência.

Aqui entre nós, devo confessar que quando vejo aquelas fotos dos noivos de joelhos no altar, compenetradíssimos nos seus pensamentos, penso para mim: "será que eles estão a fazer o que eu faço durante a missa inteira? A pensar o que vou fazer para o jantar durante a próxima semana ou que emails ainda tenho por responder?".

No dia do meu casamento eu quero ser feliz - e isso implica, provavelmente, quebrar tradições e fazer o menor número de fretes possível. Não quero uma celebração chata, num local que não me diz nada para além da sua beleza arquitetónica e regida por alguém que acha ter em si a palavra de um Deus em que não acredito. No meu casamento eu quero ser eu. E, como tal, a igreja nunca esteve na equação. 

 

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25
Jan21

Uma história com princípio, meio e sim! #2

Família, família - convites à parte?

Lembram-se de ter dito que a minha cabeça ficou assombrada com problemas no momento em que me apercebi que ele me ia pedir em casamento? O maior tinha um nome: C-O-N-V-I-D-A-D-O-S.

Não fui a muitos casamentos na minha vida; se tudo correr bem, o meu será o quarto. O primeiro foi o do meu irmão, em que fui uma menina das alianças muito mal humorada; o segundo foi o de uma prima do Miguel e o terceiro, já em época covid, foi de uma antiga colega de escola - a primeira a casar! No primeiro houve claramente coisas de que não gostei, tendo em conta a minha cara de mal-disposta em 99% das fotografias - mas, devido à minha tenra idade à época, não me lembro ao certo do que foi (sei que não ia com a cara do fotógrafo, mas também não sei o porquê). No segundo e no terceiro, já crescida e com a possibilidade bem presente de um dia poder vir eu a casar, estive muito atenta aos detalhes e fiz um esquema de tudo o que gostei e não gostei em cada um deles - e as coisas que me desagradaram estão a ter uma importância imensa na preparação do meu casamento, na medida em que quero fazer precisamente o contrário! Acho que muitas vezes, mais importante do que saber aquilo que queremos, é saber o que não queremos - e nisso, apesar da minha parca experiência, eu estou muito bem preparada.

A questão dos convidados não é nova, pois na verdade sempre achei estranha a ideia de se convidarem pessoas que mal se conhece para um dia que supostamente é tão importante quanto íntimo. Mas foi no casamento da prima do meu namorado que me caiu a ficha. No momento da saída da igreja, em que toda a gente cumprimenta e abraça os noivos, eu dei por mim a dar beijinhos a dois completos desconhecidos e a desejar-lhes as maiores felicidades. Sim, eu era a recente namorada de um primo - mas o primo, o Miguel, não a conhecia muito melhor que eu. E se aquele momento para mim foi estranho, eu imagino para os noivos: com gente a toda a volta, uma confusão do catano, e pessoas que nunca viram na vida a darem-lhes os parabéns e desejos de muitos anos felizes. Se na altura do copo de água, na voltinha pelas mesas, ainda se consegue falar com as pessoas com mais calma e fazer crescer mentalmente árvores genealógicas  ("ah, esta é a namorada do meu primo, que é filho da irmã do meu irmão"), no momento da saída da igreja imagino que seja só o caos total e completo.

E, nessa altura, eu decidi: não queria desconhecidos na minha festa. E ao querer isso eu sabia que ia ter de bater o pé a muitos argumentos e, eventualmente, criar guerras familiares.

 

"Mas se são os pais que pagam o casamento, eles também têm direito a convidar as pessoas de quem eles gostam".

 

"O casamento pode ser vosso, mas também é o casamento de um filho/a; não é um momento só vosso, é deles também".

 

"Nós temos de convidar a pessoa X porque ela também nos convidou para o casamento do filho deles."

 

A todos estes argumentos eu tive resposta pronta na língua. A única coisa com a qual não sabia (nem podia) argumentar é a questão da igualdade de direitos. E esta é mais profunda do que parece. O que eu verdadeiramente queria para o meu casamento é que as pessoas que são importantes para mim e para o Miguel estivessem presentes. Mas logo aí começam a surgir problemas: primeiro há pessoas que se incluem no grupo de quem faria convidar mas que, por uma razão ou por outra, um de nós não teve oportunidade de conhecer - o que já "invalidaria" a sua presença, caso não quiséssemos abrir exceções; segundo, existiriam pessoas dentro da própria família que podia não fazer sentido convidar, uma vez que a relação não é a mesma com todos. E aí vem outro argumento:

"Mas não podes convidar um primo e não convidar outro! Isso não é justo. E ela/e vai ficar chateado - e a tia/o também..."

Mas ainda só estamos a ver as coisas pela rama... O problema central é bem maior e está na diferença de relação que eu e o Miguel temos com as nossas famílias não-nucleares. Do meu lado juntamo-nos no Natal, no Ano Novo, nos aniversários, no São João, no São Martinho e em todos os eventos que achemos pertinentes ao longo do ano (desfolhadas, campismo a e etc). São mesas sempre cheias, com barulho e animação consecutiva, às vezes mais do que uma vez por mês (em alturas não-pandémicas, entenda-se); do lado dele... nada. Há pouca ou nenhuma relação com outros núcleos familiares: tios, primos e derivados. E se o meu critério fosse para a frente, iria resultar na minha família presente em peso e a família do Miguel reduzida a meia dúzia de pessoas. E isso até para mim me parece injusto. No pior dos casos considero-o mesmo egoísta.

Como se tudo isto não bastasse, há ainda outro critério que piora as coisas: quando falo em "pessoas desconhecidas", não seriam oito ou dez. Nenhuma das nossas famílias é pequena (excluindo a do meu pai) e, convidando toda a gente - família nuclear, irmãos de pais e mães, e seus respetivos cônjuges e filhos, que eventualmente também já podem trazer parceiros e até filhos - a ideia que eu tinha é que teria de alugar um descampado, de tanta gente que seria.

A minha convicção era tal que cheguei a considerar mesmo a hipótese oposta: não convidar ninguém a não ser o núcleo familiar. Mas aí ficariam de fora pessoas que também são importantes.

Portanto tinha uma escolha a fazer: ou prescindia de pessoas que queria presentes ou cedia e convidava outras que nunca vi na vida. Foi por isso essencial elaborar uma lista - que foi das primeiras coisas que fizemos mal começamos a pensar em como e quando é que organizaríamos o casamento. Fizemos aquilo que chamamos o "pior cenário possível". Ou seja: se convidássemos todaaaaaa a família e todaaaaaa a gente aceitasse (aqui também já incluímos amigos), quantos seríamos? A resposta, para mim que esperava um número astronómico, foi apaziguadora: 170.

E foi aqui que fiz a primeira grande cedência no meu casamento: sem o argumento dos números - porque não queria um casamento com 300 pessoas - e tendo em conta que não seria justo ter um casamento praticamente só com a minha família, aceitei convidar toda a gente. Mesmo quem não conheço. Acima de tudo por ao amor e respeito ao Miguel e à sua família direta. Porque o casamento é isto: cedências, amor e respeito. E começa ainda antes da festa.

 

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Nota: a rubrica "Uma história com princípio, meio e sim!" tem como objetivo ir relatando acontecimentos e decisões que vão acontecendo ao longo do tempo de preparação para o casamento. A ideia não é contar as coisas à posteriori (a não ser detalhes mais específicos do própria dia, assim como fornecedores e coisas do género) - é mesmo captar os meus sentimentos e pensamentos à medida que os vou tendo, mesmo quando ainda não há decisões tomadas ou concreta. Neste caso específico a lista de convidados já está elaborada mas os convites ainda estão no forno. Mas o processo para lá chegar já teve muito trabalho envolvido... como se percebeu ;)

18
Jan21

Uma história com princípio, meio e sim! #1

O pedido

Quem leu o post anterior até ao fim já sabe da boa nova: estou noiva! Apesar de no inicío a ideia ter custado um bocadinho a entrar - não por não querer, mas por estar a sofrer por antecipação com tudo aquilo que ia ter de enfrentar - agora que já caí em mim quis avançar com a preparação do casamento o quanto antes. E a verdade é que vamos a todo o vapor: apesar de todo este caos pandémico decidimos correr o risco e já marcamos o casamento para Junho. Sim, daqui a cinco meses. E não, não estamos loucos.

Para mim é ridícula a ideia de marcar um casamento para daqui a dois anos - ora é porque não há a data que queremos, ora porque é preciso muito tempo de preparação, ora porque a loja dos vestidos de noivas diz que só arranja "O" vestido nessa altura, ora porque os convidados têm de arranjar tempo na agenda, ora porque tudo tem de estar perfeito. Com todas as histórias que ouvimos acabamos por estar formatados para esta realidade - assim como já estamos prontos para aceitar os preços exorbitantes que nos pedem em relação a tudo o que diga "casamento".

Já eu entrei nesta ideia do casamento com um pensamento diferente: quero descontruir um bocadinho o protocolo e tudo aquilo que enraizamos ao longo de anos e anos de casórios. E isso começa aqui: se decidimos que era para casar, não é para daqui a dois anos. É para breve. E breve é Junho. No meio deste pouco tempo em que me vi envolvida no meio, já tive pelo menos dois casos de quintas que nos disseram que tinham uma data livre porque "os noivos desistiram de casar" - isto quando não nos dizem mesmo que se separaram. Eu não sei como vai ser a minha vida daqui a dois anos; sei como gostaria que fosse, mas desconheço efetivamente o seu destino. E, como tal, quero fazer as coisas que quero e que me deixam feliz o mais rapidamente possível. Dois anos pode ser muito tempo.

E apesar de, lá está!, não saber o que me espera, sei que gostava de só casar uma vez. E por isso sendo um acontecimento único, quero que fique registado para sempre. E, tal e qual como numa viagem, não é só o dia que conta; toda a preparação é, em si, uma aventura marcante, que eu quero muito que fique registada. Quero fintar a memória seletiva e, mais uma vez, fazer deste blog um registo público desta viagem que, como todas, terá um bocadinho de todos os ingredientes: partes boas e partes más, coisas emocionantes e outras chatas, decisões rápidas e entraves, cedências e escolhas bem firmes. Sei que, no futuro, posso vir a ser como a maioria dos casais que conheço, que perante a mais simples pergunta sobre o seu casamento responde: "já não me lembro". Mas, nessa altura, terei (como sempre) um bom auxiliar de memória, para me (re)contar como tudo aconteceu.

Passaram praticamente três semanas desde o pedido mas sinto que já tenho um mundo de coisas para contar, e sinto que esta é uma boa desculpa para voltar a escrever com frequência. Lembro-me do quanto gostava de ler o "Boletim da Noiva", d'A Pipoca Mais Doce, e espero que sintam aquilo que eu senti na altura: que fazia parte do processo, que afinal já sabia como era casar. 

Como eu ainda não sei - e na verdade tenho muito pouca gente à minha volta que sabe - fico à espera do vosso feedback, conselhos e comentários. Tudo menos: "mas isso é muito pouco tempo!". Isto vai lá, minha gente. E, acreditem, vai ser um dia de sonho.

Eis o primeiro texto da nova rúbrica "Uma história com princípio, meio e sim!"

 

O Pedido

 

Têm-me perguntado se desconfiava. Eu digo que não; eu simplesmente sabia. Sabia que ele me ia pedir em casamento.

Não me perguntem como nem porquê: era um feeling que já pairava em mim há alguns dias. Mas não se trata de desconfiar, pois ele não deixou nenhuma pista para que isso acontecesse. Não fazia a mínima ideia de que ele tinha comprado um anel ou orquestrado umas horas comigo para me fazer o pedido. Mas se antes sentia algo, na véspera de Natal (um dos meus dias favoritos do ano) acordei a saber que aquilo ia acontecer.

Foi tudo muito simbólico: primeiro almoçamos no restaurante onde fomos os dois jantar pela primeira vez, ainda em fase pré-namoro (e podem já dizer que isto era uma pista óbvia, mas não, pois o almoço foi combinado umas duas semanas antes e impulsionado até por mim, depois de ter visto uma publicação sobre o sítio e me ter dado a nostalgia e a saudade); depois fomos dar um passeio a uma praia onde, um dia, fomos os dois pensar na vida - ele a correr e eu sentada na areia, tentando meditar e relaxar, ponderando o que havia de fazer perante uma das decisões que mais me custou a tomar na vida: avançar, ou não, para uma relação. Naquele dia não tínhamos nada combinado mas já falávamos muito e eu sabia que aquele era o seu percurso habitual; pedi-lhe que, se me visse, continuasse. E ele viu-me. E eu vi-o. E ele continuou - respeitando, pela milionésima vez, a minha vontade. E pondo cada vez mais em causa, infinitamente, a minha convicção de ser solteira até ao fim dos meus dias.

Mentiria, por isso, se dissesse que foi uma surpresa. Não foi porque eu sabia que ia acontecer - e porque o casamento já era uma coisa muito falada, não só entre nós como também com a família. Foi, "apenas", um marco; o oficializar de algo que, para mim, podia ser simplesmente combinada - mas que, num ato de coragem e cavalheirismo, ele quis que fosse à moda antiga.

Também mentiria se dissesse que ansiava por aquele momento ou que foi um dos mais felizes da minha vida. A felicidade na sua plenitude senti-a nessa noite, quando me deitei no peito dele depois de um dia cheio, já mais calma e sem a alma em ebulição. Já o disse: não sou mulher de paixões - das borboletas na barriga, do nervoso miudinho, da ansiedade de algo novo - mas sim de amor - da calma, da estabilidade, das rotinas felizes. Naquele momento, em que o vi de joelho no chão, senti e pensei muita coisa - de tal forma que acho que estive perto de entrar em pânico.

Pensei imediatamente naquilo que os meus pais iam pensar e na dor que esta oficialização lhes iria causar - uma espécie de dor superlativa do ninho que já está vazio, mas que iria ficar ainda pior; pensei que dali a nada estaria em casa, de anel no dedo e que teria de lhes dar a notícia... embora não soubesse como. Pensei em tudo aquilo que tínhamos falado até há bem pouco tempo, altura em que o casamento não passava de um plano meio que abstrato - e, acima de tudo, em todos os problemas que já sabia que se iam levantar a partir daí. Pensei no facto dos homens se sentirem obrigados a vergar-se perante uma mulher para lhes pedir a mão - e o quão ridículo e injusto isso é, numa altura em que pedimos igualdade de géneros mas, nestes casos culturais, só tendemos a pensar para um lado. Pensei que não queria ter de lidar com o entusiasmo dos outros, que queria que aquilo fosse só meu e dele, talvez porque eu própria não estava a saber lidar com aquele misto de emoções. Foi um momento muito representativo daquilo que tem sido a minha relação até aqui: muitíssimo feliz, mas com a plea consciência de que dentro de toda essa felicidade vive também a dor.

Depois do "desconfiavas?", vem a o outra pergunta clichê: "choraste?" Mas acham que alguém que está mergulhada num poço de questões e sentimentos diversos como eu, consegue fazer alguma coisa para além de chorar?

"E disseste que sim?" Acham que é preciso? A pergunta não era mais que retórica.

Não sei se disse que sim (devo ter balbuciado algo do género), mas a minha prioridade foi arrancá-lo do chão (senti-me muito culpada por, eventualmente, tê-lo feito sentir que precisava de fazer aquilo para formalizar um pedido que eu ia aceitar de que forma fosse) e, mal o vi ao meu nível, agarrei-o com força, tal e qual como o quero agarrar para o resto da vida.

Mal entrei no carro, com a adrenalina a correr pelo corpo quase como se tivesse sido atropelada por um camião de amor - mas que não deixa de ser um atropelamento - construí imediatamente a minha defesa para lidar com tudo aquilo: com todos os problemas que antevi, com todas as perguntas para as quais não tinha resposta, com toda a dor que dali poderia surgir, embora este seja um acontecimento tão feliz. Disse a mim mesma (e ao Miguel) que aquilo não passava de uma oficialização e que não tinha de ser sinónimo de casar imediatamente. Que tínhamos de ir com calma. Que o pedido não era mais que o confirmar de um desejo comum: o de passarmos o resto da nossa vida juntos.

O resto do dia foi o continuar do turbilhão de sentimentos que tomaram conta de mim, dos meus nervos e do meu canal lacrimal. Primeiro fomos trocar o anel, que por causa dos meus dedos atipicamente finos não me servia (muito romântico, não é? Receber um anel de noivado e uma hora depois já o ir trocar...) e, depois, fomos espalhar a notícia. Optei por fazê-lo faseadamente: primeiro ao meu núcleo familiar, depois à restante família e, só uma semana depois, às outras pessoas. Assim fui dispersando as reações e perguntas para as quais não estava preparada, uma vez que estava a tentar lidar primeiro com os meus próprios demónios.

Diria que na Passagem de Ano o acontecimento já estava digerido, assim como muito dos meus medos. Anunciei meio que subtilmente nas redes sociais e todos os que não sabiam passaram a poder saber. Nessa semana troquei ideias com algumas pessoas mas, acima de tudo, falei muito com o Miguel; quis enfrentar logo os problemas que na minha cabeça iam ser entraves e, a partir do momento em que percebi que tinham uma solução fácil ou não eram tão graves como previa, deixei de me preocupar com eles. Não me cansei de lhe agradecer pelo gesto de coragem, pedi-lhe desculpa por de alguma forma o poder ter influenciado a fazer um pedido clássico (algo que eu não queria) e, acima de tudo, por não ter tido a reação radiante que se espera de uma mulher que é pedida em casamento pelo homem que ama.

No fundo, pedi-lhe desculpa por ser como sou - e agradeci-lhe por me aceitar e amar assim, mesmo tendo a racionalidade à flor da pele.

Disse-lhe, como sempre, que o amava.

E que, agora, há um casamento para preparar. 

 

noivado.jpg

 

12
Out16

A minha panca por vestidos de noiva

Uma das maiores pancas da minha vida são sem dúvida os vestidos de noiva. Eu sou louca por vestidos, corro os sites todos quando avançam a temporada do ano seguinte e gravo sempre os meus favoritos em diferentes pastas (mesmo que nunca mais os vá ver na vida). No entanto, tenho de admitir que estas peças têm dois grandes inconvenientes: o primeiro é só serem usadas uma vez; o segundo é terem de ser usadas só quando nos casamos.

Ora, a segunda premissa faz com que eu, provavelmente, nunca ponha um destes vestidos em cima - o que, para uma amante de vestidos como eu, não deixa de ser triste. Não é que eu tenha alguma coisa em particular contra casórios e matrimónios - pelo contrário: eu só quero que as pessoas se casem para eu ir a casamentos, coisa que nunca fiz na vida. Simplesmente acho que nunca me vou casar. Não me imagino casada, porque não me imagino sequer junta. Isto pode parecer estranho para a maioria dos comuns mortais, mas a minha visão de mim daqui a 20 anos não é casada, nem com filhos e uma vida conjugal perfeita. E não é para terem pena, ou dizerem "coitadinha, vai ficar para tia" (até porque já sou) ou que vou virar uma cat lady (why not?); acho que todos fazemos uma imagem de nós mesmos no futuro e esta é a minha, que pode simplesmente não acontecer por a vida me dar muitas voltas (e se der, podem crer que me caso - não vou perder a oportunidade de organizar o meu próprio casório!). Mas aquilo que nós somos é também aquilo que a vida nos ensina, e eu cresci a ver relações de merda, homens que são péssimos maridos e mulheres solteiras muito felizes. Talvez seja esse o meu "problema" - e daí o meu plano de vida.

Mas, enfim, este post era sobre a minha panca de noivas e não sobre a minha visão solteira do futuro. Como dizia, só tenho pena que esta seja uma peça de roupa exclusivamente para casamentos, porque é sem dúvida a peça mais bonita que uma mulher pode usar. A parte boa de eu não planear casar-me é, de facto, não ter de escolher um vestido: porque eu gosto de tantos, em tantos estilos diferentes, que me ia ver grega para não esvaziar a conta bancária só com um. Só de ver um vestido consigo imaginar as circunstâncias com que me casaria com ele: em que sítio, com que idade, em que situação. Parece-me óbvio que todos eles têm quase uma história por detrás, uma inspiração muito clara que brilha logo na minha cabeça. 

Só para terem uma ideia do que falo, mostro alguns vestidos da coleção da Rosa Clará (continua a ser a minha preferida de todo o sempre) de 2017 com alguns dos apontamentos que me vêm logo à mente. Tenho a certeza que me vão chamar maluca. Acho que, depois disto, largo tudo e vou mazé para organizadora de casamentos.

 

 

2017_NANTES_ROSA_CLARA_1.jpg

2017_NAOMI_ROSA_CLARA_1.jpg

2017_NEVIN_ROSA_CLARA_1.jpg

2017_NEXO_ROSA_CLARA_1.jpg

2017_OLVERA_ROSA_CLARA_TWO_1.jpg

 

18
Nov14

Sabem em que altura do ano estamos?

Quase no fim! E sabem de quê que isso é sinónimo? Novas coleções de vestidos de noiva!

Como é óbvio, já perdi horas de vida útil, sono e em que poderia ter feito muitos trabalhinhos a analisar as coleções. Mas que se lixe, é o meu guilty pleasure, tendo em conta que pareço estar solteira para vida. Mas há lá coisas mais bonitas que vestidos de casamento? (suspiro)

Casava-me já com:

2015_ROCA_TWO_ROSA_CLARA_1.jpg

2015_MAGNO_TWO_ROSA_CLARA_1.jpg

 

(esta parte de trás é só A COISA MAIS LINDA de sempre):

2015_MUSGO_TWO_ROSA_CLARA_1.jpg

 

 

27
Set14

Desgostos de amor platónicos

Estes últimos dias aqui em casa não têm sido de fácil digestão para mim e para a minha mãe. Explicando melhor: estamos de coração partido.

Ela porque hoje o seu adorado Clooney se casa hoje com Amal Alamuddin em Veneza; eu porque o meu Robert decidiu arranjar a namorada mais feia à face da terra e já se assume com ela, de mãos dadas por aí, como se nós não estivéssemos a ver! Tanto um como outro, no fundo, são uns sonsos: o primeiro andou aí anos a namorar e/ou namoriscar raparigas mais novas, mas casamento nem vê-lo; o segundo andou anos numa relação com Kristen Stewart, mas sem uma pessoa perceber realmente o que se passava ali, e até vermos um beijinho que fosse - ou mãos dadas, que seja! - demoramos meio século. E agora ambos nos dão uma facada pelas costas: um casando de rompante com uma senhora que conheceu "há meia dúzia de dias" e o outro a assumir um namoro que, se tiver meses já é muito, logo com a rapariga mais feia que foi arranjar (quer dizer, Robert, para isso estava cá eu, à distância de um mero email!). 

Temos o direito de ter o coração despedaçado. Vou só ali carpir mais um bocadinho e já volto.

29
Abr14

Elevaram a fasquia..

Há três anos a fasquia para todos, todos os homens ficou ainda mais elevada. E, para dizer a verdade, também para nós mulheres, porque ser tão bonita como a Kate, ter um vestido daqueles e toda aquela pompa e circunstância não é propriamente fácil.

A internet enche-se hoje de fotografias daquele casamento maravilhoso. O mais bonito que vi na vida. E a melhor parte é que não foi só o casamento que foi lindo - continua a ser, porque eles dão continuidade a essa felicidade (pelo menos aparente - espero que não seja só isso) a cada sítio que vão. São sempre tão simpáticos, tão sorridentes, tão... nós. E ela é linda e ele tão gentleman. 

Elevam tudo ao exponente máximo e sobem a fasquia de uma forma ridícula. Quem não quer uma Kate, tão bonita? Quem não quer um William, tão cavalheiro? Quem não quer um casamento daqueles, tão mágico?

Eu bem digo que vou ficar solteira para a vida. Resta-me babar para cima das centenas de fotografias que me aparecem à frente.

 

 

 

 

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