Sobre o amor que não morre
Gosto de cemitérios - mais de uns do que outros, mas não me custa visitar nenhum. Gosto mais daqueles grandes, com árvores e espaço entre campas - no fundo, cemitérios a sério, onde as pessoas podem estar em paz e em comunhão com a natureza e com aqueles que perderam. Por sorte, foi num desses que a minha avó ficou e só lá não vou mais porque fica-me fora de mão e é numa zona onde não costumo passar - porque gosto imenso daquela paz que lá se sente, de ouvir o silêncio ou simplesmente o vento a passar nas árvores centenárias.
Nunca fui muito de espiritualidades, mas desde que a minha avó faleceu essa veio acentuou-se um pouco em mim. Não sei - e acho que não quero saber - o que há ou deixa de haver "do outro lado", mas de alguma forma sinto-a presente. Esse sentimento pode ser uma coisa real ou simplesmente algo que a minha cabeça criou para que a perda não fosse total - ainda assim está lá, e eu deixo-me ser confortada por ele vezes sem conta. É estranho e mau dizer isto, mas a verdade é que agora lembro-me e sinto-me mais vezes com ela do que quando estava viva.
A última vez que fui ao cemitério foi na semana anterior a começar o estágio. Fui almoçar naquela zona e, já de barriga cheia, decidi parar no cemitério e fazer uma visita. Gastei todos os cêntimos que tinha na carteira e comprei um ramo de flores para lá lhe pôr. Já lá, depois de fazer o melhor arranjinho possível (que não é algo em que eu seja muito prendada, mas ao menos tento), contei-lhe - ainda que interiormente - que ia começar o estágio dali a dias e que precisava de uma força extra. Sei que ficaria orgulhosa - sempre quis que continuasse no ramo e com os negócios da família; ficaria ainda mais feliz por saber para quem vou trabalhar e já a imagino a contar-me todas as fofocas que tinha lido nas revistas e a dar-me a sua opinião sobre tudo o que tinha direito.
Independentemente daquilo em que acredito - que é mesmo muito pouco -, importa-me mais aquilo que sinto. E quando tive a minha proposta de emprego (e quando depois respondi que sim), lembrei-me logo desse dia em que lhe "contei" sobre o estágio. É uma sensação estranha de presença e de acompanhamento; também por saber que era uma coisa que ela queria muito e de que ficaria orgulhosa, apetece quase pensar que ela teve um "dedinho divino" em tudo isto.
Faria hoje 92 anos. E tudo isto para dizer que, mesmo não estando aqui em corpo presente, é como se estivesse: sinto-a nos dias bons e nos maus, dos momentos mais felizes aos mais tristes; ouço interiormente a sua opinião, aquilo que diria ou deixaria por dizer e sinto aquilo que sei que sentiria ao ver-me hoje, como sou e como estou. As pessoas perdem-se, mas enquanto o amor delas viver em nós (e todas as palavras e gestos de carinho que tiveram para connosco) é como se continuassem vivas.