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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

24
Out18

Sobre a moda e o lixo noticioso que ela produz (ou a síndrome do colega engraçadinho)

Sinto que hoje em dia as novas abordagens ao mundo da moda se fazem ao estilo do colega engraçadinho que todos tínhamos na turma. Aquele que nos dizia que tínhamos ido para a escola de pijama, que a nossa mãe se tinha esquecido de nos pentear o cabelo, que o buraco entre os nossos dentes era uma auto-estrada digna de um camião ou que a nossa roupa parecia vir da feira. É uma característica comum em muitos engraçadinhos: não têm graça. Pegam nos pontos fracos de alguém e jogam-nos contra a pessoa, a ver se resulta. E os outros riem-se, não por o engraçadinho ter graça, mas esperando que o alvo da graça nunca sejam eles próprios.

Devido à crise (em todos os campos) que o jornalismo está a passar, o humor - em conjunto com o clickbait (a "arte" de atrair as pessoas através de títulos polémicos, que chamam à atenção e nem sempre são verdadeiros) - é uma arma forte para nos convencer a clicar numa notícia. E por isso acha-se que todos podem fazer os outros rir ou que têm jeito para isso; acha-se que tudo é um bom tema para fazer piada ("ah e tal, o humor não tem limites!"... mas quando gozavam convosco na escola não tinha graça, pois não?); acha-se que não há uma linha que separa a piada da maldade.

É no seguimento deste novo paradigma que surge a nova vaga de notícias de moda (já muito à frente das Vogue's ou Elle's), produzidas em revistas "inovadoras" que, dizem, querem dar uma nova visão da indústria. Já há um ou dois anos que as duas semanas de moda em Portugal são desculpa para fazer de tudo: já vi vox pop's em que se questionam as pessoas sobre os criadores que vão desfilar (ou outros que foram inventados no momento) e se espera uma resposta completamente descabida por parte de quem está outro lado do microfone; já vi imensas peças que nomeiam a pessoa com mais pinta no dia "X" e d«a pessoa mais mal vestida no dia "Y" de um dos eventos; já li textos de opinião escritos por "humoristas" não identificados, onde se admite que o autor não percebe nada de moda mas que está ali para ter um olhar diferente perante o desfile. Tudo isto com um único objetivo: tentar ter graça, fazer diferente. Como? Gozando com as pessoas, tal e qual como o coleguinha engraçado do 5º ano.

Façamos uma reflexão: como se sentirão os indivíduos escolhidos como os mais mal vestidos da Moda Lisboa - que se deixaram fotografar, mas nunca sabendo em que âmbito iriam ser publicadas as suas fotos - quando vêem as suas caras escarrapachadas num artigo que se está a espalhar pelo facebook? Como é que se sentirão as manequins e as modelos quando se vêem referidas num artigo por as suas nádegas estarem cheias de celulite e a fazer, passo a expressão, "boing, boing, boing" enquanto desfilam pela passarela? Como se sentirá a Cristina Ferreira - e todas as Cristina's do país - quando se lê no título de uma notícia que a apresentadora já não tem idade para esta coisa dos desfiles e que aqueles "tronquinhos" já não são para aquelas botas? Como se sentiu Sílvia Alberto quando foi comparada com o "emplastro"do FCPorto por ter um sinal na cara, mais ao menos no mesmo lugar? (Eu esta sei a resposta: mal, de tal forma que exigiu o direito de resposta pela forma como foi tratada por esse meio de comunicação). 

Isto não são notícias, não é jornalismo. É lixo. Talvez mesmo abaixo de lixo - o esgoto. Lixo é aquilo que agora se vê em todo o lado, uma forma de encher chouriços quando nada mais há para dizer: coisas como "os cinco casacos da Mango que tem de comprar esta estação", "as coisas mais horripilantes que encontramos nos saldos da Bershka", "porque é que nunca deve misturar ganga escura e ganga clara" ou "afinal de que cor é este vestido?".

E eu, que apesar de nunca ter gostado daquela visão cinzenta e demasiado séria do jornalismo (foi isso, em grande parte, que me fez distanciar desta vertente, na faculdade), vejo-me obrigada a insurgir-me quando vejo tudo isto. Mete-me nojo, principalmente quando assisto a uma espécie de ciber-bullying no lugar de notícias - que, para além da maldade, se juntam aqui à hipocrisia, numa altura em que se fala tanto da liberdade de expressão, na normalização dos corpos e no fim da magreza excessiva das modelos (coisas que os mesmos meios de comunicação aplaudem e divulgam, mas rapidamente se esquecem).

Talvez o facto de ter trabalhado dois anos neste ramo me tenha deixado mais sensível e alerta para estas questões, até porque nunca imaginei chatear-me em prol do bom jornalismo - mas a verdade é que acho que nem é isso que me move, mas sim o ridículo que é gozar com as pessoas de forma gratuita em praça pública, muitas delas que estão só e apenas a fazer o seu trabalho. E é por isso que desde há dois anos para cá que, de vez em quando, lá estou eu a mandar "postas de pescada" nas caixas de comentários no facebook, para ver se alguém acorda para a vida. Há sempre quem ache graça ao "engraçadinho" mas tenho visto cada vez mais gente como eu, que reclama de forma civilizada e que tenta pôr fim a esta nova moda no mundo da moda. Todos os exemplos que dei nos parágrafos acima são reais: alguns mais antigos, que já poucos se lembrarão, e outros que ainda estão neste momento a correr tinta (nomeadamente com um pedido de desculpas de um meio de comunicação a propósito de notícias deste género publicadas no âmbito do último Portugal Fashion). 

Hoje saltei das caixas de comentários para aqui, algo que já estava para fazer há muito. Porque há que falar e mudar o que está mal. Porque sempre me ensinaram que as desculpas não se pedem, evitam-se. E porque ainda está bem fresca a minha memória em relação aos "engraçadinhos"; não me deixei enganar pelo tempo, não romanceei as saudades que tenho desses anos. Continuo a saber que não tinham piada nenhuma. Nem nunca irão ter.

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