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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

20
Nov16

Sim, eu gosto da Cristina Ferreira

Não percebo o ódio crónico que muitas pessoas têm pela Cristina Ferreira. Se antes argumentavam dizendo que era "uma peixeira" ou tinha uma "voz esganiçada", hoje ficam aparvalhados com o seu sucesso e isso, só por si, já é uma boa razão para não gostarem dela.

Eu cá digo-vos uma coisa: eu admiro-a profundamente e olho para ela como uma inspiração. Ela é a materialização de um dos valores principais da minha vida: o trabalho. É a prova de que, trabalhando, se consegue atingir tudo, mesmo apanhando pedras pelo caminho - que as há, em qualquer dos trilhos que escolhamos para as nossas vidas. 

E isto não quer dizer que a adore, que veja o Você na TV, que leia o seu blog, que goste dos looks dela, que compre a revista. Pelo contrário: não gosto muitas vezes da roupa que escolhe, a veia histérica dela irrita-me um bocadinho, a revista que gere e dá o nome tem sempre uma componente sexual implícita que não me chama a atenção. Mas isso não quer dizer que não reconheça o trabalho árduo que ela tem e o do percurso magnífico que tem traçado nos últimos anos, como nunca nenhuma figura pública tinha feito em Portugal. 

Acho-a uma mulher inteligente, admirável, verdadeira, genuína e com olho para o negócio. E para além de ter conseguido tudo o que temos visto, há ainda outros pormenores interessantes que não são tão focados mas igualmente importantes. A forma exímia como gere a sua vida privada, por exemplo - nunca lhe vimos a mãe, o pai, o filho, a casa ou o local onde vive. Para alguém que tem os holofotes sempre em cima de si, isto é algo absolutamente heroico e de louvar. E eu percebo. Acho que quem tem sempre pessoas a olhar para si deve mesmo precisar de ter um refúgio onde não pairem olhos desconhecidos.

A gestão que ela tem feito de tudo isto, a forma como vai libertando novidades consecutivas, é por um lado inteligente e por outro arriscado. Cheguei a um ponto em que já não a podia ver à frente, ela era quase omnipresente: nas revistas, nos livros, na televisão, nos anúncios, na rádio, nos blogs, no facebook, no instagram. Achei que esta presença tão forte iria acabar por enjoar o público, tal como me enjoou a mim. Aparentemente, enganei-me. Ela continua aí, de vento em popa, a lançar coisas sempre com o fator "novidade" e "inusitado" associados. E, perante as evidências, só tenho de me render e aplaudir.

Ontem ela lançou o seu livro aqui no Porto, cidade que bem sabe receber. Mais um golpe inteligente. É claro que, tendo em conta todo o secretismo em que ela envolveu a sua vida pessoal, qualquer pessoa que simpatize com ela tem curiosidade (ou cusquice) e esperança de saber um pouco mais das suas raízes e da sua esfera privada. Eu confesso que folheei o livro no dia em que ele foi para as bancas e pareceu-me ser um simples livro de crónicas ou memórias, com uma escrita que aparenta ser mesmo ser dela (comparada com a do seu blog), que não é de todo má.

Eu não fui ao lançamento, que não sou dessas coisas e enchentes é coisa que me aflige, mas fica aqui descrita a minha admiração pública por esta miúda que conquistou Portugal. Não sei se vou ler o livro mas posso garantir que não tenho vergonha se o fizer, pois encaro-o como um conjunto de histórias de alguém que admiro e que é uma inspiração para alcançar sempre mais.

4 comentários

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    Sílvia 20.11.2016

    Os mesmos autores, masculinos, homens escritores, praticamente os únicos escreventes publicados ou publicáveis até ao século XX... ah! Isso é que eram tempos! 
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    David 21.11.2016

    Se reparar verifica que escrevi "autores", sem qualquer referência ao sexo, o que, para mim, é totalmente irrelevante. O que interessa é, apenas, e tão-só, o conteúdo de um livro seja o autor, ele ou ela. Para que se saiba a Estante convidou um júri de cinco elementos, composto pela jornalista Clara Ferreira Alves, o crítico Pedro Mexia, o professor catedrático Carlos Reis, o editor Manuel Alberto Valente e a jornalista Isabel Lucas (Tudo gente aclamada e deste século), para eleger os 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos. Este é o resultado:
    – A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro, A Sibila, de Agustina Bessa-Luís, Finisterra, de Carlos de Oliveira, Húmus, de Raúl Brandão, Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, O Delfim, de José Cardoso Pires, Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, Os Passos em Volta, de Herberto Hélder, Para Sempre, de Vergílio Ferreira, Sinais de Fogo, de Jorge de Sena
    Realmente são todos do século passado, mas, se atentar um pouco, verá que esse século passou por nós há pouco mais de dezasseis anos. Portanto, quase todos nós já vivemos no século passado, o que faz esses escritores bem actuais, e parte integrante da nossa história. E são eternos, contrariamente à maioria dos rabiscos que pululam hoje pelas livrarias, e apenas preenchem uma viagem de comboio, quando a paisagem é entediante. Por acaso leu algum? Não? Já calculava!
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    Nina Abreu 22.11.2016

    Sr. David,
    "Por acaso leu algum? Não? Já calculava! "
    Fui lendo os diferentes comentários e todos me mereceram respeito, independentemente do lado da barricada dos prós ou contras a tal Cristina Ferreira.
    Até que esta sua frase me fez estacar. Fiquei absolutamente varada com a sua falta de educação e a sua sobranceria. Não conheço nenhuma das pessoas que por aqui andam, mas espanta-me que tão sagaz e sapiente personagem perca o seu precioso tempo com pessoas que, pelos vistos e segundo a sua perspetiva, nunca leram os clássicos!
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