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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

22
Out17

Relembrar o gosto da leitura

Carolina

Há dias estava a pensar na evolução que fiz enquanto apreciadora de letras – de escrita, de livros, de leitura – e de como isso me mudou enquanto pessoa e, acima de tudo, em como alterou o rumo da minha vida. E cheguei à conclusão de que sou uma “leitora auto-construída”.

Eu nunca na minha vida pensei seguir um caminho que envolvesse letras. Nunca. Passei os meus primeiros anos de escola a odiar português – não tanto como educação física, mas quase. Não gostava de descodificar textos, não gostava de escrever, não gostava de ler, odiava fazer ditados (devido à quantidade absurda de erros ortográficos que dava), não percebia nada de gramática e tinha um ódio de estimação por trabalhos de casa longos, que obrigassem a grandes dissertações. Tinha notas miseráveis, nunca passava de um 3 medíocre na pauta e era uma das disciplinas que estava sempre condenada à desgraça.

Até ao dia em que comecei a ler, por impulso da minha irmã – devia ter os meus 13 anos. Não era a primeira vez que tentava, já tinha pegado no Harry Potter e nos livros de Uma Aventura, mas nunca tinha resultado – desistia sempre. E lembro-me de gostar do primeiro livro que li de uma ponta à outra, mas de nunca ter sido uma coisa natural: a mão não ia buscar o livro à mesinha de cabeceira de forma instintiva, não era algo que eu desejasse por antecipação. Era quase como ir ao mar quando a água está fria: custa muito lá entrar, mas só quando lá estamos é que percebemos o quão bom aquilo é. E quando saímos o ciclo volta a ser o mesmo: está frio, dá vontade de não entrar, esquecemo-nos do bom que é estar lá dentro e por isso estamos em constante negociação connosco próprios.

Hoje sei que a leitura é, acima de tudo, um hábito. São rotinas que se criam, a que depois de sucedem ciclos viciosos. E depois há incentivos que cada um vai criando para si próprio: para mim, há poucas coisas que me sabem tão bem como gastar dinheiro em livros, por exemplo; o prazer de deambular por uma livraria e trazer os escolhidos para casa é enorme; escrever críticas sobre o que acabei de ler é outra coisa que me dá gozo, assim como trocar impressões sobre escritores com outras pessoas que também gostam de ler. Tudo isso me dá prazer. Mas tudo isso se esquece com facilidade.

É engraçado como mudei o rumo da minha vida à custa das letras, por algo que inicialmente odiava. Hoje, escrever é uma parte essencial do meu trabalho, e é curioso ver como isso aconteceu por uma série de escolhas. Neste caso, não posso dizer que as letras me escolheram a mim: porque fui eu que as escolhi a elas. Foi por elas que bati o pé a ciências e a quase todos os que me rodeavam. E começou em nada, num pequenino ódio de estimação, inicialmente contrariado pelo meus familiares, e depois por mim, de forma sucessiva.

A minha relação com as letras – e nomeadamente com a leitura – é parecida com aquilo que devem ser as relações dos casais. Segundo ouço, o segredo é irem-se apaixonando uma e outra vez – mas, pelo meio, há sempre períodos de desamor, em que é preciso ter paciência e lentamente saber reaprender a amar, talvez até por razões diferentes.

Apesar de ter continuado a escrever (ainda que menos..), já há algum tempo que os meus hábitos de leitura deixaram de ser o que eram. Nunca li trinta livros num ano, nunca fui um bicho-papão, mas já há uns anos para cá que gostava de manter uma média razoável de leituras que, nos últimos dois anos, caíram a pique. E eu fiquei desgostosa. Perdi o hábito da leitura, em todas aquelas situações que me auto-ensinei a ler. E quando lia era por obrigação, numa tentativa de retomar o hábito e não por gostar daquilo que se estava a passar enquanto folheava as páginas – e depois de várias tentativas falhadas, desistia, escondia o livro como quem se esconde de vergonha, e tentava esquecer.

Mentia se dissesse que essa fase já passou. Estou a fazer por voltar a ler – a comprar livros que me intriguem, a voltar a pôr um livro na mesinha de cabeceira, a deixar de pensar que tenho demasiado sono e negociar comigo mesma uma leitura de um capítulo - mas não é fácil voltar a hábitos que não nos são inatos. E eu detesto dizer isto! Detesto dizer que a leitura - algo tão importante para mim e tão relacionado com a escrita - não é uma coisa que vive em mim permanentemente. Mas, de facto, não é. E, de tempos a tempos, temos de nos voltar a reconquistar. E cá estamos nós para ir à luta.

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