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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

16
Out16

Quando os turistas viram praga (ou o desvirtuar de uma cidade)

Já estive várias vezes para escrever sobre isto, mas o tempo vai-me fugindo por entre os dedos e as oportunidades vão passando. Penso que agora (e, feliz ou infelizmente, por muito mais tempo) faz outra vez sentido eu querer falar sobre isto.

Há uns anos estranhei quando uma vez li um texto de uma catalã que dizia que o mal de Barcelona eram os turistas e que a situação estava a ficar insustentável. Não percebi aquilo, achei parvo, pensei para mim mesma que os turistas eram uma das grandes causas para aquela ser uma cidade tão evoluída e no dinheiro que aquele turismo assoberbado acarreta (o que não deixa de ser verdade). Mais tarde vi outro texto muito semelhante, mas com enfoque em Lisboa - mais uma vez, ignorei. Porque, de facto, só quando nos toca a nós é que nos dói na pele.

Lembrei-me pela primeira vez destes dois textos quando há uns meses (talvez um ano) andava a passear pela Rua das Flores, aqui no Porto. Aliás, permitam-me a correção: andava a tentar passear. Porque era impossível dar dois passos naquela rua sem travar, sem fazer um desvio, sem parar encostada numa parede para deixar passar a enchente. Nessa altura percebi um bocadinho aqueles textos que tinha lido: senti que me estavam a roubar a cidade que eu amo.

E isto é feio, parvo e egoísta, mas foi mesmo esta a sensação que tive. Eu sei que não posso pensar assim (e não penso, foi algo "na hora", de uma pequena fúria que tomou conta de mim), até porque eu adoro viajar e sou obrigatoriamente turista nas outras cidades por onde passo. Eu sempre fui grande fã deste pulo que o Porto deu e, quer se goste ou não, acho que se têm de dar os créditos ao Rui Rio por ter aberto esta cidade ao mundo, como nunca antes se tinha feito. Eu (só) tenho 21 anos e lembro-me perfeitamente de um Porto morto, triste, velho, a cair de podre. Sempre adorei andar na baixa, muito por arrasto da minha mãe, mas há muito pouco tempo o Porto era uma cidade deserta, com o comércio local pelas horas da morte e completamente sem vida. E assim, de um momento para o outro, explodiu em todos os sentidos: turísticos, culturais e até habitacionais, principalmente ao nível da reabilitação de infraestruturas, que deram logo um ar de cara lavada à cidade. E apesar de ficar passada com o aumento absurdo do número de pessoas nas ruas e do trânsito caótico que aumenta de dia para dia, continuo a apoiar.

Mas há dias aquela sensação de "roubo" tornou a apoderar-se de mim, com a notícia de que iam fazer um mercado da Time Out na Estação de São Bento. Achei que, por parte da organização, esperavam uma grande recepção - mas daquilo que eu vi, os portuenses de gema como eu detestaram a ideia. Porque há um limite até onde as coisas se podem dinamizar; há uma linha que separa o "dinamizar" de "estragar" e "desvirtuar". A Estação de São Bento é muito mais que uma estação; não importa se tem poucos comboios, se só recebe os que são regionais. Aquilo é um monumento lindo, um espaço amplo, uma coisa à antiga - que querem transformar numa coisa nova, com cheiro a comida e mesas lá no centro. E a isto chama-se desvirtuar um espaço e não dinamiza-lo. Nós já temos um mercado no Bom Sucesso - esse sim, que precisava de ser dinamizado! -, não precisamos de outro. 

Há que saber parar. Os turistas atraem o investimento e, como tudo o que envolve dinheiro, também uma sede louca por lucros desmesurados e sem limites. E a continuar assim, o Porto deixa de ser o Porto - autêntico, lindo, real - para ser só mais um embrulho de atividades pré-pensadas para os visitantes, em que já nada é como se apregoa e onde as pessoas da cidade são esquecidas em prol de quem só vem ver a paisagem.

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