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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

15
Jan19

Panzer (ou como o meu colo nunca chegou a ficar frio)

ComCachorros24Dez18 (45).jpg

 

"Desde que tirei o curso de fotografia que estou sempre à procura da foto "mais perfeita". Alinho os horizontes, balanço os brancos e trabalho as sombras, ponho as fotos mais amareladas como gosto, tento sempre que não haja ruído a distrair do foco principal. E, claro, tento pôr-me bonita. 
Mas também gosto de fotos verdadeiras. Esta é uma delas. Tirada na véspera de Natal, nos 20 minutos de pausa que tive depois de fritar os doces natalícios e onde aproveitei para estar com os meus pequenos. Pijama, pantufas, avental, olheiras, cabelo horrível. E ainda bem que nas fotografias não se sente o cheiro a fritos! E, no entanto, uma foto tão bonita como todas as outras. 
Quando adormeceram todos no meu colo, gritei pela minha irmã para ir buscar a máquina e captar o momento. "De avental?", Perguntou. Disse que sim, era como estava, era assim que ia ficar. O Amor é isso tudo.
Desde que eles nasceram - em que os vi sair, bolinhas em sacos, e a respirar pela primeira vez - que conto incessantemente de um a sete, para me certificar que estão todos. Acordei muitas vezes a meio da noite para ter a certeza de que respiravam, punha-os a mamar se via que estavam mais magros e trazia-os à vez ao colo, para os ensinar o significado de mimo.
Agora conto de sete a zero, em contagem decrescente até o colo ficar a vazio. Até ficar frio. E dói. Mas dizem os sábios que amar também é deixar ir, e eu acredito. Que a minha Dora, o Lilo, o Pantufas, a Cuca, a Mel, o Rufus e a Mimosa sejam felizes nas suas novas casas é um dos meus desejos de 2019. Que aqueçam muitos colos como aqueceram o meu."

 

Texto publicado no meu instagram a 30 de Dezembro

 

Escrevi este texto poucos dias antes do fim do ano, quando os meus pequenos texugos estavam a abandonar o meu colo a uma velocidade estonteante. Não é difícil perceber que não estava feliz. Mas mal eles nasceram eu sabia que era assim que ia ser: era lógico que não íamos ficar com os sete, mas cedo combinámos que não íamos ficar com nenhum. Porque já tínhamos muitos, porque seria mais uma despesa, mais trabalho e mais preocupações. Porque aquilo que a minha mãe queria mesmo era uma cria da Molly e do Calvin - e não do vizinho.

Foram indo, um a um. Saí sempre de casa quando sabia que os iam buscar. O colo ia ficando mais frio, mas ao menos não era eu que os tirava de cá. Até que ficaram dois. Rodava-os entre o quentinho do meu abraço, dormia com eles ao peito, via-os a brincar como se não houvesse amanhã ou a dormir em conchinha como se nunca tivessem conhecido outra forma de encaixe. Até que chegou a hora.

Eram os meus dois últimos meninos e, esses, não os queria deixar ir sem lhes apertar aquelas barrigas gordas. Quando deixo ir um, descaradamente em lágrimas em frente aos seus novos donos, aperto o outro no colo. E, quando largo esse, escondo a cara por detrás do casaco de penas para não verem a minha cara. Não fiz por mal, por arrependimento, nem para terem pena de mim - foi somente a dor e a infelicidade de os ver partir a vir ao de cima. O sentimento de que já não sobraria nenhum.

E nesse momento, num vai-não-vai, entregam-me o cão para o colo. Que era meu, que não tinha mal. E eu entreguei-o de volta, em pânico por não honrar um compromisso. Mas, insistindo ainda assim, lá veio ele de volta para as minhas mãos. 

Hoje, o Lilo de que falo no meu post do instagram chama-se Panzer. Todos os dias me rói as pantufas e me ataca com aqueles dentes em forma de agulha. Todos os dias, quando me vê, corre na minha direção com aquelas orelhinhas de abano e com todas as suas regueifas a oscilar para cima e para baixo. E todos os dias - até ao dia em que conseguir - o agarro no meu colo, tal e qual como fiz naquela noite, quando o trouxe para o quente da casa que agora era mesmo a sua.

Muita gente me disse, depois de ficarem a conhecer que ele tinha ficado cá, que "sabia que eu não ia aguentar ficar sem um cão". Pois eu não fazia ideia. A partir do momento em que decidimos dar todos os cães, e acima de tudo quando soube que havia quem quisesse cada um deles, eu nunca ponderei ficar com um (ainda que secretamente desejasse que me tivessem oferecido um no Natal). Só que aconteceu. A minha dor e a sensibilidade de quem estava do outro lado falou mais alto (e ainda hoje, só de me lembrar desse momento, escorrem-me as lágrimas pela cara abaixo).

Foi há precisamente dois meses que nasceram. Tenho tido a sorte de ter notícias de muitos deles e o meu coração está sossegado por saber que estão bem, que são amados e bem cuidados. E a forma como o cachorro da minha vizinha - que acolheu um dos filhos da Molly - corre na minha direção quando me vê, diz-me que eu fiz tudo certo. Não vive comigo, mas pelos vistos ainda lhe cheiro a casa. Talvez o meu colo seja sempre a casa de cada um deles. Do Panzer, será de certeza.

 

ComCachorros24Dez18 (37).jpg

DSC_0532.JPG

ComCachorros-4.jpg

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