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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

12
Jan20

O que é a nossa casa?

A minha saída de casa foi o elefante na sala de 2019. Mas um assim daqueles mesmo gordos, que não passava na porta por muito que eu o virasse de pernas para o ar. Foi um processo tão natural como doloroso - e eu aprendi, pela primeira vez, que pode haver muita dor na felicidade.

Nunca tomei a decisão de sair de casa. Nunca fiz as malas e trouxe as minhas coisas para casa do meu namorado. Nunca bati com a porta. 

Simplesmente aconteceu, foi só um passo num processo que se queria mais oleado no que dizia respeito à convivência com o meu namorado. Ambos trabalhadores, decidimos que o momento do dia para estarmos juntos seria o jantar. Depois era aquele bocadinho de televisão enquanto o estômago fazia o seu trabalho de digestão e, logo a seguir, cama, que o dia seguinte era normalmente de trabalho. E eu, que sempre adorei dormir sozinha, dei por mim a querer ficar aquele bocadinho mais com ele; gostava de o ver adormecer, de o sentir relaxado ao meu lado. De eu própria relaxar de um dia de azáfama e stress com a mão dele em cima da minha. 

O que acontecia era óbvio. A maior parte das vezes adormecia. Mas no primeiro momento em que acordava para me virar para o outro lado ou pôr mais confortável, abria a pestana, via as horas e ia embora para minha casa. Podiam ser 23h. Mas também podiam ser duas da manhã. E muito embora os meus pais soubessem perfeitamente onde estava (a não mais de cinco minutos de casa), toda esta incerteza de estar ou não estar em casa, de chegar ou não chegar a certa hora, causava-lhes mau estar - até porque nunca fui pessoa de sair ou de chegar tarde. E se para eles era desconfortável, para mim era cansativo. Foram uns meses a acordar após o primeiro sono, vestir e ir para casa; a interromper o momento de descanso, conduzir, e voltar a deitar-me noutra cama fria. 

Até ao dia em que me disseram que talvez o melhor fosse ficar lá a dormir, para não haver desconforto para nenhum dos lados. E eu assim fiz. Parece simples, não é? Parece que estamos só a discutir meia-dúzia de horas em que nem sequer convivemos com ninguém, horas nulas no nosso dia. Mas que depois, vendo ao detalhe, se transcendem, tanto em questões práticas como psicológicas.

Diria que na nossa cabeça, e vista a questão de um ponto de vista simplista, a nossa casa é o sítio onde dormimos. Casa pode ser o imóvel que compramos ou alugamos. Ou o que herdamos. Pode ser o sítio onde moramos com os nossos pais. Pode ser o local onde nos sentimos mais confortáveis. Onde passamos mais tempo. Ou pode ser uma pessoa, independentemente de qualquer bem material. O significado de casa é diferente para cada um de nós.

Mas a partir do momento em que eu vim dormir para outra casa que não a minha (e que será, eternamente, minha), todo um caos se formou dentro de mim. Mais do que afetar a minha vida do dia-a-dia, afetou o meu bem-estar pessoal. 

Qual é, afinal, a minha casa?

Aquela onde moram os meus pais, onde eu sempre morei? Que é minha por direito e herança, mas que é minha acima de tudo porque tenho lá toda a minha vida? Aquela onde desejei viver para o resto da minha vida, a minha casa de sonho, com tudo aquilo que nunca me imaginei a viver sem? Ou esta, onde estou a tentar lançar raízes para uma família a dois, mas que de facto não é minha, e nunca será minha, para além do sentimento que tenho por ela? São as minhas coisas que fazem a minha casa? Sou eu? É a minha vontade de cá estar?

Há uns dias, enquanto batia com a porta da garagem de casa do meu namorado, falava com a minha irmã ao telemóvel. Veio a pergunta tão inocente como típica, do outro lado da linha: "onde estás?". E eu disse, como digo sempre, aplicando a minha nova nomenclatura no que a habitações diz respeito: "a sair de casa do Miguel para ir para casa dos pais". Ao que ela respondeu: "quando é que vais começar a chamar a essa a tua casa?".

A resposta é que não sei. Nem quero pensar nisso. Mas, engraçado, no meio deste limbo acabei por "perder" a "minha casa". Agora, independente da casa onde viva, digo sempre que é dos outros. Acho que para evitar dores e choques de realidade. Para não ter de decidir. Para não ter de pôr um ponto final numa e fazer um parágrafo na outra. Porque gostava de saber se dá para viver desta forma, com ponto e vírgula.

Tudo isto sabendo, claro, qual é o caminho natural das coisas. Sei que, mais dia menos dia, direi ao final da tarde, quando sair do trabalho para ir fazer o jantar, que venho para "minha casa". Mas também sei que só o vou dizer quando, tanto no meu coração como na minha cabeça, ficar garantido que a minha casa - a casa dos meus pais - será exatamente isso: eternamente minha. Que o meu quarto será eternamente meu, com as coisas que o identifiquem como tal, mesmo que algumas venham comigo para esta nova casa para que, também eu, me possa sentir em casa. E, acima de tudo, sei que só o vou dizer quando estiver de consciência tranquila e fizer as pazes comigo própria, muito em parte por ter deixado os meus pais naquela que lhes disse ser para sempre a minha casa. E que é, e que eu sinto como tal, mesmo não dormindo lá. Porque continua a ser a casa onde passo mais tempo ativo (porque dormir não passa disso, e basta uma cama, independentemente do sítio onde está inserida), a casa com as minhas coisas e a história da minha vida. E a casa onde um dia, se tudo correr bem, gostaria de voltar a viver em pleno, com tudo o que isso inclui.

Depois de tudo isso sarado, de todas as respostas resolvidas e todos os medos apagados, após os outros perceberem esta dinâmica que quero e que sinto ser a melhor para mim... eu talvez consiga dizer que a minha casa é esta. Até lá, não me perguntem onde vivo. Há definições que, apesar de aparentemente fáceis, são difíceis de definir.

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