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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

24
Jan17

O estádio é uma tentação de distrações

No sábado fui com três dos meus sobrinhos ao futebol. O mais velho pediu-me para o levar e, perante o dia de sol que se esperava e pela raridade que agora é haver jogos durante a tarde, peguei nos outros dois e fui com a minha irmã até ao estádio. Já tinha levado o mais velho e achei justo os gémeos também terem a sua oportunidade. Ir ao estádio é algo que adoro e que adorava ainda mais quando era pequena, por isso é algo que fico feliz por lhes poder proporcionar. Mas bom, este post não é para me vangloriar pelo facto de ter levado os putos ao futebol. Quer dizer, não sendo sobre isso, não devemos no entanto esquecer de que sou, de facto, a melhor tia do mundo por ter tido a coragem de ir com os três juntos ao estádio, mas enfim. 

A verdade é que, mesmo gostando muito de ir ao Dragão e de sentir toda aquela vibe portista, acabo por não ver futebol. Parece ridículo, mas não é: quando vemos os jogos na televisão, só olhamos para a televisão; no estádio há literalmente uma multidão de coisas por onde nos distrairmos. Lembro-me que sempre foi este o meu "problema". A certa altura está tudo a assobiar e a gritar "vai para a rua" e eu fico a olhar para o céu, esperando uma explicação divina para aquilo que está a acontecer. E isto é o menos. O pior é quando falho os golos - e, acreditem, é com muito embaraço quando digo que isto acontece frequentemente.

No sábado foi igual. A certa altura a minha irmã dá-me um toque para eu reparar num senhor que estava à nossa frente e que, apesar de ser super carinhoso e cuidadoso, fazia um totó no cabelo da filha da forma mais desajeitada à face da terra. A situação teve graça precisamente por este contraste: apesar de todos os cuidados, aquele apanhado estava uma absoluta tragédia e nós olhávamos, meio embevecidas, meio gozonas, para aquela situação. O puxo ficou feito e a situação passou. Mas passado 30 segundos o pai voltou a agarrar a filha, apertando-a contra si num gesto amoroso, e desta vez fui eu que não resisti em dar um toque à minha irmã para apreciar à situação. E naqueles segundos entre chamar à atenção/ olhar/ apreciar/ comentar... o estádio levanta-se em euforia. E, claro, eu e a minha irmã ficamos sentadas, sem conseguir acompanhar os impulsos rápidos do resto da malta. Conclusão: perdemos o primeiro golo.

E podia ter sido o único, mas não foi. A certa altura marcou o Rio Ave e a minha irmã estava no telemóvel. Eu estava convicta em ver o jogo atentamente, só deitava o olho ao ecrã do iPhone se ele tremesse, mas como não se passava nada, não resisti em catrapiscar aquilo que ela estava a fazer no dela. E a certa altura só se ouve um suspiro generalizado, uma espécie de "afffffff" profundo, um som que só é descritível para quem já ouviu. E eu percebo o que se está a passar e digo-lhe, revoltada: "o Rio Ave marcou!". E ela aqui entra em negação: "não marcou nada! Oh! Não marcou...". Pois que marcou e nós tornamos a não ver.

A situação até podia ser resolvida se repetissem os golos no ecrã, mas não, somos obrigadas a ficar na ignorância. E eu sei que a culpa é minha, sei que não devia estar a olhar para o senhor da frente enquanto faz o totó à filha; que não devia estar a apreciar a disparidade entre homens e mulheres no estádio; que não devia estar a bufar para o fumo do cigarro do senhor da frente não me vir para a cara; que não devia estar a pensar na sande de panado que vou comer a seguir; que não devia pensar nas senhoras que depois limpam o estádio; que não devia estar a olhar para os apanha bolas e como queria ser um deles quando era criança. Mas, olhem, é mais forte que eu. Sou uma adepta vergonhosa e peço perdão (mas ao menos levo os sobrinhos ao futebol, dêem-me um desconto...).

 

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