Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

08
Abr20

La Casa de Papel: uma continuação desnecessária de uma história que já tinha fim

(mas, ainda assim, uma série que nos agarra do primeiro ao último segundo)

Há que saber parar. 

Foi este o pensamento que esteve na minha cabeça enquanto vi a quarta temporada de "La Casa de Papel". Terminei-a ontem e, logo depois, fui ler o post que escrevi há quase precisamente dois anos quando vi o final da primeira temporada. O engraçado no meio disto tudo é que os anos passaram, a história e as personagens evoluíram e a minha opinião permanece exatamente a mesma.

 

La-Casa-de-Papel-Parte-4-spoilers.jpg

 

Escrevi, na altura, que era uma história de ferro com pormenores de papel. Hoje continuo a dizer que os pormenores são frágeis como o papel, mas atrever-me-ia a dizer que a história perdeu alguns alicerces que lhe davam aquela estabilidade de ferro de que falei. Sinto que lhe falta tempo, que o guião foi escrito à pressa - algo que acontece mesmo, pois nestas duas últimas temporadas a história era escrita ao mesmo tempo que decorriam as filmagens, muitas vezes sem os próprios atores prepararem a cena que iam filmar (algo que podem vêr no documentário "La Casa de Papel, El Fenómeno") - e isto faz com exista alguma falta da coesão que existia nas duas primeiras temporadas. 

"O problema para mim está no facto desta série ser (em teoria) uma representação da realidade: existe a casa da moeda, existem assaltos onde há reféns. Ou seja, é algo feito “neste mundo”, o que implica que exista alguma coerência e coesão na construção da história e dos seus detalhes. Eu não ouso criticar Game of Thrones, Harry Potter ou os Hunger Games, tão simplesmente porque os autores podem dizer “mas foi assim que eu imaginei”. São coisas irreais. Todos sabemos que não há dragões, que as vassouras não voam e que não vivemos em Panem. Eles podem fazer o que quiserem. Por isso é que se distingue a ficção do fantástico - uma coisa é uma interpretação da realidade, outra é a criação de uma realidade completamente diferente!"

Aquilo que já tinha ressalvado nesse post (e na citação acima) continua a ser um problema para mim. Tiram-me do sério alguns detalhes completamente irrealistas ou mudanças súbitas de espírito de algumas personagens, que demonstra alguma precipitação na escrita, falta de fundo e background na história de cada uma das pessoas retratadas e, acima de tudo, perder por vezes a noção da "big picture", olhando para cada personagem como alguém isolado e não perceber que algo sai fora do contexto.

 

--- INÍCIO DE SPOILERS ---

 

O exemplo mais berrante, para mim, é o Gandía. Sobreviveu a pelo menos dois ataques de metralhadora, saltando e dando cambalhotas no ar, qual 007. Quem é que sobrevive quando tem três ou quatro pessoas a atirarem contra si, com uma arma de onde conseguem sair 600 balas por minuto?  É ridículo.

De todas as personagens, talvez o Palermo seja a que me dá mais comichão. Percebi que, com a morte da Nairobi e o episódio final, em que ele se redime perante o Helsinki, tentaram atar os nós mal dados nessa personagem... mas para mim não foi o bastante. Sim, ele podia ser louco e ter alterações de humor drásticas. Mas porque raio sabotaria o plano pelo qual estava perdidamente apaixonado, soltando o Gandía, assim sem mais nem menos? Porque desistiu do plano mal a Tóquio assumiu o controlo? E, pior: por que é que, de um momento para o outro, arranca da pala (qual Camões) e volta a fazer parte do gangue, como se nada se tivesse passado? 

Aqueles flashbacks chatos no início, que só nos aumentavam a ânsia de saber o que se passava no "campo de guerra", foram feitos para compensar essas lacunas - principalmente na história de Palermo - mas, a mim, não me convenceram.

 

--- FIM DE SPOILERS --

 

 

No entanto, não há dúvidas sobre uma coisa: La Casa de Papel continua a ser das séries mais viciantes que já vi, uma característica que não pode ser menosprezada. A ação a cada minuto, o fim de cada episódio com cliffhangers e os twists na história são a imagem de marca da série e isso mantém-se. (Confesso que, a certa altura, o stress que isto me estava a causar levou a que fosse ver como é que tudo acabava; no estado de caos que o país e o mundo atravessam tudo o que não preciso é de mais uma fonte de nervosismo. Asseguro que saber alguns detalhes chave e o final não me tirou qualquer tipo de interesse ou  vontade de deixar de ver. Tenho poucos problemas com spoilers.) O lado ardiloso da série, com todos aqueles planos inimagináveis pensados ao milímetro pelo professor também se mantém - mas senti que esta temporada teve muito mais violência do que inteligência.

A ideia original de roubar algo sem, no entanto, roubar alguém perdeu-se no meio de um enredo que ficou subitamente demasiado complexo e onde jogam agora muitas variáveis. O objetivo de não se aliar a imagem de um ladrão a uma pessoa má (no fundo, fazendo-nos gostar daqueles que normalmente seriam os maus da fita) ficou debilitado nesta temporada, em que se vive um ambiente de guerra constante e onde as más ações acabam por ser quase involuntárias. Sinto que a ideia inicial é a mesma, mas não está tão bem conseguida, muito por culpa da evolução natural das personagens e dos acontecimentos, que acabam por aliar o stress aos sentimentos que já todos nutrem uns pelos outros. 

Por isso digo que há que saber parar. Percebo que não seja fácil dizer que não quando nos oferecem budgets milionários para dar continuidade a uma série de extremo sucesso; é natural que todos queiram continuar a ganhar dinheiro, ainda mais quando são os próprios clientes, os fãs, que pedem por mais. Mas quase sempre isso implica sacrificar a qualidade da coisa. 

A quarta temporada da Casa de Papel satisfaz, é muito melhor que a terceira, mas não deixa de ser um acrescento desnecessário a uma história que já tinha fim. Um fim genial como poucas séries têm.

3 comentários

Comentar post

Pesquisar

Mais sobre mim

foto do autor

Redes Sociais

Deixem like no facebook:


E sigam o instagram em @carolinagongui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Ranking