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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

07
Fev19

Deus escreve direito por linhas tortas

Não me lembro de, em miúda, querer ser muita coisa "quando fosse grande".  Recordo-me, sim, das duas principais profissões que sempre disse querer ter: primeiro, ser engenheira informática, como o meu irmão; depois, trabalhar na têxtil, tal e qual como o meu pai. Pelo meio tive algumas epifanias: professora de música, veterinária (esqueci a ideia quando uma prima mais velha me disse que tínhamos de pôr o braço in-tei-ro dentro do rabo de uma vaca), decoradora (só porque  achava que fazia um trabalho formidável no Sims) e acho que me passou pela ideia ser cabeleireira, um pensamento breve mas claramente egocêntrico, uma vez que tinha como objetivo não ter de passar pelas mãos de profissionais alheias que me cortavam mais do que os 7 milímetros de cabelo que eu achava serem adequados e que eu impunha como máximo de corte. Já não se pode dizer que fosse muito miúda quando a escrita e o jornalismo apareceram no horizonte.

Há uns meses, numa limpeza geral que fizemos nos arrumos, em que deitei centenas de quilos de papel fora (sem exagero), apanhei o primeiro jornal que alguma vez fiz, ainda no primeiro ciclo. Chamava-se "Notícias da Cidade", era um jornal de parede e tinha artigos sobre o que ia acontecendo na escola, que não passava muito da cena de pancada que tinha havido entre o António e Luís, com direito a relatos das auxiliares que separaram os dois meninos - eu sei, muito informativo... Lá pelo meio encontrei ainda o segundo jornal que desenvolvi, que teve mais de uma dezena de edições, chamado "Simple" - lembro-me bem de ir à reprografia e de fazer tabelas de custos, para pelo menos não ter prejuízo com a impressão. E enquanto folheava estes tesourinhos apercebi-me que a vida é um ciclo. É engraçado ver que nessa altura  estava a léguas de pensar em jornalismo - aliás, sempre fora uma aluna mediana a Português, não gostava nada de ler e os erros ortográficos eram uma constante - mas a verdade é que dois dos meus primeiros projetos "a sério" foram nessa área; mal eu sabia que uma década depois ia mesmo tirar esse curso e fazer parte de um jornal a sério!

Depois olhei para o presente e caí na real: então não é que hoje dou aulas de piano com regularidade? Que me chamam "professora" quando precisam de ajuda entre partituras e teclados? Que sou "a escritora da família"? E que estou, tal como o meu pai, no ramo têxtil? É verdade que não dei em decoradora nem em veterinária (embora, com seis cães , faça de veterinária quase todos os dias), mas a informática continua a ter um peso considerável na minha vida. Ah, já para não esquecer que corto a minha própria franja em casa, o que deve contar um bocadinho para a parte do "cabeleireira".

Agora fora de brincadeiras: a maioria dos emails que recebo na caixa do correio do blog prende-se muito com indecisões no campo profissional, ou ainda mesmo na fase dos estudos. Como tive um percurso um bocadinho atribulado penso que há muita gente que vê em mim alguém com alguma experiência para ajudar nestes campos. E se é verdade que ninguém deve ser infeliz a fazer um curso ou a trabalhar num determinado sítio, também o é que devemos ser resilientes e ter em mente o nosso objetivo final. É preciso pesar bem as coisas e tentar ter uma visão imparcial da nossa própria vida e situação emocional o que, obviamente, é tudo menos fácil. Aquilo que digo sempre é que os caminhos que percorremos não têm necessariamente de traçar o nosso futuro. Deviam ajudar, mas se não o fizerem, ninguém morre. A escola e a faculdade são um meio para atingir um fim. E o trabalho é algo que podemos mudar, desde que não nos falte a coragem e um meio de apoio qie nos ajude a sustentar essa decisão.

Lembro-me bem que, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, me diziam aquilo que os adultos dizem a todos: "mas não podes ser tudo! Tens de escolher! Umas coisas nem sequer têm que ver com as outras... É como dizeres que queres ser astronauta e florista, não funciona". E eu hoje venho dizer o contrário, que não é bem assim, e que a vida não tem de ser resumida a uma só coisa - até porque é um caminho, e todos nós sabemos que há muitas estradas diferentes que vão dar ao mesmo sítio.

Sim, é verdade: eu não vou viver a vida toda neste vai-não-vai. Eventualmente vou ter de fazer escolhas, deixar de me partir em muitas e de andar de um lado para o outro estilo barata-tonta. A gestão da minha agenda, entre dar e receber aulas de piano, as fábricas, o blog e a pós-graduação é coisa para, de vez em quando, me dar calores e muitas dores de cabeça. Mas ao menos posso dizer que fiz. Um dia quis ser jornalista? Já fui. Um dia quis ser professora de música? Já sou. Um dia quero ser como o meu pai e trabalhar na têxtil? Já trabalho. E cabeleireira? Não sou porque não quero, porque na verdade acho que nunca quis, e estou bem com isso. 

Sinto que a vida passou um lápis por cima de muitas das coisas que eu antes, em miúda, delineei a tracejado - quase como se faz naqueles livrinhos de crianças. Penso que tudo isto aconteceu por uma mistura de sorte, de disponibilidade e abertura da minha parte e por, de alguma forma, querer e fazer por isto. Ou então é mesmo o destino, sei lá. A verdade é que se calhar era tudo mais fácil se fôssemos seres coerentes, que tudo batesse certo e que fizesse tudo muito sentido na nossa vida, nos nossos gostos e nas nossas ambições. Mas as coisas não funcionam assim. E ainda bem, porque acaba por ser muito mais divertido desta forma ;)

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