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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

11
Mai18

Desabafos do outro lado do Atlântico

Estou no Brasil. Porquê? Porque disse que sim. Aceitei vir cá cobrir um evento, a menos de uma semana do mesmo, que nem sequer sabia do que se tratava. E porquê que vim? Porque senti que precisava de sair de casa. Estou a passar uma fase instável, em que não sei o que vai ser de mim no futuro, e estou a sofrer por antecipação por tudo o que está para vir. Estou com uma necessidade pouco usual de sair, de apanhar puro, de falar com alguém - e estou constantemente a ser assolada por um sentimento brutal de solidão que já não sentia há anos.

Por isso vim. Já cá tinha estado uma vez, quando tinha 11 anos, e não tinha ficado com a melhor impressão: lembro-me de que a minha primeira sensação, mal saí do avião, foi de um abafo e de uma humidade terrível, como se tivesse sido lambida por três vacas só naqueles vinte segundos. Isso mantém-se. Também tinha ficado com a ideia de um trânsito caótico e arbitrário e, embora a comparação possa não ser justa por estar em sítios diferentes, sinto que se calhar não é assim tão mau. Recordo-me também de ter muito medo, muito por culpa das notícias que via na televisão, e agora estou mais relaxada, uma vez que ando sempre acompanhada. É uma boa oportunidade, porque achei sinceramente que não voltaria ao Brasil.

Até agora não está a correr às mil maravilhas. Para além da viagem de avião, que não é meiga para ninguém, comecei com o maior escaldão da minha vida. A primeira manhã foi livre, fui à praia, mas não estava sol; ainda assim pus creme nas costas, a zona que sei ser mais sensível para mim, mas nunca esperei que as minhas pernas fossem fazer inveja a uma boa lagosta. Para além de estar com dores em todo o lado, de me custar andar e ter de passar a vida a pôr hidratante, estou possessa comigo mesma por não ter espalhado o protetor pelo corpo todo. A parte boa é que acho que me vai servir de emenda.

Depois vem o cansaço. O jet lag é péssimo, mas as horas do evento não ajudam - só chego ao hotel pelas 24h, o equivalente às quatro da manhã em Portugal. E se eu fosse um party animal, habituado a noitadas, talvez as coisas não fossem tão difíceis. Mas eu sou aquela pessoa que precisa de dormir sete a oito horas por dia para estar decente e por isso não estou na minha melhor forma. Estou exausta, com fome de comida boa, a fazer uma retenção de líquidos que faz lembrar um elefante e, neste momento, só quero voltar.

Sim, as havaianas são baratas; sim, o mar é quente; sim, a praia está por minha conta. E sim, vai ser um longo voo de volta a casa. Mas tudo isto e o facto de me sentir totalmente desintegrada num evento em que toda a gente é fashion (enquanto eu trouxe uns macacões confortáveis para vestir) e mais velha (devo ser a bebé daquela sala de imprensa) só me faz querer voltar para o meu habitat natural.

A verdade é que não adianta fugirmos de casa ou da nossa cidade quando o problema está em nós. A minha ansiedade e a minha solidão crônica continuam cá, mesmo com um oceano de distância. E o facto de estar a relembrar toda esta sensação de desintegração é ainda pior. É como voltar aos tempos do ensino básico, mas sem a sensação de que as coisas ainda vão melhorar.

Posto isto, resta-me contar os dias.

 

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