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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

19
Nov17

Desabafos de uma autodidata

Desde muito miúda que me lembro que um dos elogios que a minha irmã mais me tecia era de eu ser autodidata. Não me recordo sobre o quê que ela se referia na altura, mas a verdade é que com o passar os anos essa foi uma característica que de facto eu fui apurando e gostando mais e mais em mim. E, acima de tudo, penso que ela é movida por uma outra característica: eu detesto pedir ajuda. Posso estar perdida numa vila qualquer, posso não encontrar o fermento no supermercado, posso não saber de onde veio uma t-shirt que encontrei numa loja e que quero num tamanho acima: mas antes de pedir ajuda utilizo todos os recursos à minha disposição para tentar encontrar as minhas respostas.

E eu percebo que nem toda a gente seja como eu. Penso que também já nasci numa geração onde é fácil encontrar as respostas à maioria das nossas dúvidas - saco do telemóvel, vou ao google e encontro o que procuro; ou vou ao maps, ao Youtube, ao TripAdvisor ou o que quer que seja. Vivemos numa era em que só é inculto quem quer, porque quase todos temos acesso a esta cena incrível que é a internet. Ainda assim, desculpo as pessoas mais velhas, que não nasceram com um telemóvel no bolso e com a certeza de que aquilo não serve só para fazer chamadas, mas sim que todo o mundo cabe ali dentro. Mas a preguiça é algo que eu tenho mais dificuldade em aceitar - e acho que muitas das "dificuldades" que muita gente tem não passam disso mesmo. Porque é mais fácil perguntar a quem sabe.

Mas como é que eu sei dar uns toques em html e css? Como é que eu sei trabalhar em photoshop, premiere e lightroom? Olhando para os programas, tentando, errando, pesquisando, querendo fazer sempre mais que o básico. São raras as vezes em que trabalho nestas ferramentas e que não faça uma pausa para ir ao youtube e pesquisar qualquer coisa que comece com "how to...". Porque é assim que hoje em dia se faz: não é em livros, não é em enciclopédias, não é com CD's que vêm em revistas especializadas. As coisas evoluem tão rápido que não dá sequer tempo para escrevermos e lermos sobre elas. É fazer e aprender; e aprender mais depois disso.

Por isso aflige-me que as pessoas tenham medo de clicar, de fazer asneiras, não tendo sempre em mente que nos programas quase tudo é reversível; aflige-me que estejam sempre a perguntar se "é aqui?" sem ler aquilo que está escrito, sem tentarem fazer um raciocínio lógico; aflige-me que o seu primeiro recurso aquando de qualquer dúvida é chamar o nome de alguém que acham ser entendido em vez de o fazerem pelos seus próprios meios; e aflige-me que me digam "um dia destes tens de me ensinar a trabalhar com este programa".

Porque a verdade é esta: as coisas aparecem feitas, eu na prática sei funcionar com os programas, mas não sei ensinar ninguém a trabalhar com o que quer que seja para além do básico. Eu aprendo à medida que trabalho: eu faço asneiras, volto atrás, tento de novo; eu pesquiso depois de não conseguir, tento, não consigo, pesquiso de novo, tento de novo; às vezes decoro os truques, outras vezes tenho de procurar de novo aquilo que outrora já soube; não tenho manuais, não tenho coisas escritas. Aquilo que eu tenho é prática, são horas de trabalho, é a capacidade de não desistir aos primeiros erros nem com a frustração. É capacidade de pesquisa, de encontrar respostas. Porque eu ajudo, mas não sou o Google: e muito menos um manual de instruções.

Se querem fazer, é porque acham que conseguem. E se eu consegui aprender, os outros também podem. Por isso mexam-se. Os tempos mudam - tentem mudar também.

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