Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

25
Mar21

Cansada desta liberdade condicional

Fiz 26 anos no sábado. Faço parte daquele conjunto de azarados que, pelo segundo ano consecutivo, teve de festejar o seu aniversário confinado. E apesar de não desejar que isto seja mais um prenúncio do que aí vem, sinto que de facto os meus 25 anos foram confinados, com a vida restringida apenas àquilo que mais é essencial. 

Estou a enfrentar um muro, neste momento - a fase mais pesada desde que tudo isto da pandemia começou. E não - nem a perspetiva de um casamento me anima! Estou cansada que os dias me saibam sempre ao mesmo - de acordar, vestir-me, tomar o pequeno, ir trabalhar, almoçar, voltar a trabalhar, ir para casa, fazer o jantar, tomar banho, estar uma hora no sofá e dormir. Se no início a coisa se passou (até porque nunca confinei, no que ao trabalho diz respeito) - porque haviam séries para ver, porque era Inverno e sabia bem estar debaixo da manta, porque até me sabia bem almoçar em casa - neste momento estou exausta da repetição dos dias. Sinto que a vida me está a passar pelos dedos e, neste caso, não há mesmo nada que possa fazer. Sinto que estou a envelhecer, mas que não vivi.

Estamos todos com a vida resumida ao seu sumo, ao essencial dos essenciais. E é uma tristeza. Quem gosta de fazer desporto não pode ir jogar futebol com os amigos, andar de bicicleta e passar uma fronteira qualquer, nadar ou fazer uma jogatina de ténis. Há duas semanas não podíamos sequer passear à beira-mar ou sentarmo-nos na praia. Não se pode pescar. Quem gosta de ir às compras não pode comprar nada a não ser arroz, pão e outros bens com os quais não conseguimos de facto viver. Não podemos estar com a nossa família. Não podemos ir a um restaurante, nem comer fora num dia especial. Até há dias nem ao parque podíamos ir, para fazer um picnic. Nem um café em chávena de porcelana estamos autorizados a beber, quando vamos à padaria. Não podemos viajar. Não podemos sorrir a um desconhecido - porque isso significa que estamos sem máscara perante alguém que não partilha casa connosco.

De alguma forma sinto que o desânimo começa a ser geral; tentamos compensar os mais próximos com palavras motivadoras e de esperança, mas no fundo estamos todos no mesmo poço - uns mais fundo que outros. Uns dias mais acima, outros mais abaixo - e assim vamos andando. Sinto isso até na rádio, onde já não parece passar música feliz! Só ouço a "Viagem", do Tiago Bettencourt, a "Por um Triz" da Carolina Deslandes, a "It's a sin" e outras que tais, tão lindas quanto pesadas. Sou só eu?

Estamos numa prisão ao ar livre, em que temos a chave da cela na mão mas não a podemos utilizar. Coisas simples como atividades para descomprimir ou aliviar os nervos foram suprimidas da nossa vida e estamos reduzidos ao trabalho e à vida doméstica. Vivemos, mas não saboreamos. Tudo aquilo que dava sabor à nossa vida foi-nos retirado.

Cheguei ao ponto de loucura em que já tenho saudades de ir jogar padel (eu, que odeio desporto)!!! Tenho saudades de ir comer picanha e um prato de sashimi variado. Tenho saudades de viajar, da adrenalina de sair de um avião e estar num lugar desconhecido. Tenho saudades de receber pessoas em minha casa e jogar jogos de tabuleiro. Tenho saudades de ir fazer compras, de escolher roupa ou coisas para casa. Tenho saudades de estar com a minha família toda. Tenho saudades de ir a um concerto. Tenho saudades de fazer um escape game. 

Acho que se tivéssemos a capacidade de olhar para a nossa vida (e o mundo) de cima, quase como estando no céu, não nos acreditávamos no que nos está a acontecer. Hoje aceitamo-lo porque vemos a desgraça à nossa volta, porque sentimos e temos medo, porque cedemos à pressão e ao inevitável. Mas, na verdade, fomos obrigados a abrir mão de alguns dos nossos direitos mais básicos - nomeadamente a liberdade. E se há dois anos nos dissessem que hoje íamos estar presos, "açaimados" e com tudo fechado, tenho quase a certeza que não acreditaríamos. Dávamos tudo como garantido. E, como diz o outro, éramos felizes e não sabíamos.

A todos os que estejam com um muro à frente, como eu, é pensar que isto há-de passar. E vai melhorar.

Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Pesquisar

Mais sobre mim

foto do autor

Redes Sociais

Deixem like no facebook:


E sigam o instagram em @carolinagongui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Ranking