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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

22
Jan19

Ainda há blogs com gente dentro

Faz este ano 10 anos que criei o blog que, mais tarde, daria lugar a este Entre Parêntesis. As coisas mudaram muito desde essa altura - só para ser simpática e não dizer que mudou tudo. Mudou a minha forma de escrever, de ver as coisas, de as expor; mudou a fase da minha vida, mudaram os meus objetivos; mudaram as razões pela qual escrevia, as pessoas para quem escrevia. Difícil é encontrar pontos em comum. Acho que só resto eu, enquanto esqueleto, e enquanto personalidade (que, por muito que se tenha alterado, continuará sempre a ser dura de roer).

A própria forma como os blogs são vistos mudou radicalmente. Sempre fui uma velha do Restelo e critiquei um bocadinho toda esta nova forma de ver estes espaços, que passaram a ser vistos como um meio de publicidade e de se fazer dinheiro. É uma posição anti-evolução, eu bem sei, mas só acontece por uma razão: porque eu estava cá antes de tudo isso e sei o quão bom era. Lembro-me da sensação total de partilha que tinha com as pessoas que, sem qualquer objetivo ou segundas intenções, desabafavam nos seus blogs - espaços esses que eram, na sua maioria, simples ou feios, porque as opções de costumização eram baixas ou só acessíveis àqueles que sabiam dar uns toques em HTML ou CSS. Espaços que não eram feitos de boas fotos, de bons designs e às vezes nem sequer de boas escritas - mas que tinham alma e coração lá dentro. Espaços que não eram regidos por agências de comunicação, que não tinham pop-ups, que não tinham como objetivo máximo o número de clicks. Espaços onde não havia parcerias, onde um creme que tirava as espinhas era mesmo um creme que, naquele caso, tirou as espinhas. Espaços cujos bloggers não sentiam a necessidade de ser eleitos para os Blogs do Ano para serem alguém na comunidade. 

Sinto que a única coisa que queria na altura era que alguém me lesse, compreendesse, e dissesse: "eu também sinto isso". Que nos dias maus, deixasse lá um: "deixa lá, amanhã vai ser melhor". E que, nas vitórias, escrevesse: "eu sabia que ias conseguir". A partilha era o essencial. Tão importante que eu ainda hoje, passada quase uma década, ainda me lembro do nome de muitas das pessoas que me acompanharam nessa altura.

Eu própria passei de um registo pessoal - para não dizer íntimo - para algo mais comercial. Passei de escrever porque precisava, para escrever porque gostava - e, às vezes, por saber que os outros gostavam. Mas sempre me orgulhei de nunca ter vendido a alma ao diabo, de nunca ter aceite parcerias duvidosas, de nunca me ter privado de escrever o que quer que fosse porque achava que alguém não ia gostar de ler. Não passei a escrever textos pequenos porque agora o pessoal só quer micro-vídeos e não passei a tirar melhores fotos só porque a qualidade de imagem é essencial para o crescimento de um blog. Preferi manter a minha essência em detrimento de um potencial crescimento, mas só mais tarde vim a perceber que o caminho e a evolução da blogosfera me tirou muita da vontade que tinha de escrever e de partilhar coisas com os outros. Deixei de ler blogs, deixei de responder a comentários - até porque poucos há, neste mundo onde as reações são feitas de likes, smiles e emojis - e, o ano passado, senti que pouco escrevi. E isso entristeceu-me imenso, sentir que estava a deixar morrer algo que outrora foi tão importante para mim.

Hoje - altura em que ando muito empenhada em voltar a escrever diariamente, tanto para bem da minha sanidade mental como, espero, para alegria de quem me lê - acordei com uma notificação, aqui nas minhas reações, que dizia ser um link para o Sapo Blogs. Quando fui ver, era uma menção na entrevista da Jules, que dizia que este era o blog onde passava todos os dias, e que já o fazia há muitos anos. E é difícil descrever esta sensação, quando se escreve para todos e, ao mesmo tempo, não se escreve para ninguém. É difícil, e tão bom, perceber que somos alguma coisa (ainda que pouco) na vida de alguém - e é inacreditável a facilidade com que nos esquecemos disso.

A Joana que me perdoe esta inconfidência, mas recordo-me de um episódio com ela que me marcou, e lembro-me de ter pensado: "ela nunca mais volta a cá pôr os pés". Foi na altura da tragédia do Meco, que serviu de pretexto para dizer aquilo que sempre achei sobre a praxe - e que ainda acho, só não o digo muitas vezes de viva voz. Já não me recordo do conteúdo do comentário (nem quero revisita-lo, não vale a pena chorar sobre leite derramado, e penso que o post fica mais genuíno se não o fizer), mas sei que na sua essência ele me magoou - primeiro pelo seu conteúdo, segundo por vir de alguém com quem eu trocava comentários e sentia que conhecia. Deu para perceber, como ela diz na sua entrevista no Meet the Bloggers, que éramos diferentes - e eu sempre achei que há certas diferenças que são inconciliáveis, modos de vida e de pensar que não se coadunam. Naquele dia, por causa daquele post, recebi muitos insultos, muitas palavras desagradáveis, algumas ameaças; nunca tive vontade de não o ter escrito, mas fiquei de certeza com menos motivação para escrever o que quer que fosse. E tenho a certeza que perdi muitos seguidores após o ponto final daquele texto. Na altura, achei que a Jules era um deles. 

Enganei-me. Já o sabia, porque eu e ela vamos trocando comentários esporádicos aqui e ali, mas achei que hoje era o dia certo para contar esta história. Porque hoje, passados 10 anos de ter entrado nos blogs a pés juntos, ela fez-me sentir algo que eu já não sentia há muito. Relembrou-me o porquê de esta troca ser tão boa. Relembrou-me que não escrevo só por treino, por ter uma meta diária para alcançar, porque gosto ou porque numa altura da minha vida precisava de o fazer para respirar. Relembrou-me que existo para alguém, mesmo que não veja essa pessoa, que não a conheça. E que, por ventura, até posso fazer a diferença. 

Obrigada Jules, por me relembrares que os blogs têm gente dentro (e não só dinheiro e fogo de vista). Um grande beijinho.

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