Adeus 2025
Vou começar este texto de balanço com a frase mais óbvia de sempre: 2025 foi a continuação de 2024. Parece linear - e é -, mas eu não queria que fosse. Queria rotura - queria o sol em vez da chuva, a luz em vez da escuridão, o bom em vez do mal. Aquilo que às vezes nos esquecemos quando o ano vira é que, na verdade, isto é somente uma continuação - não há quebras, não há paragens, não há interrupções.
É difícil imaginar um ano pior que o meu 2024 - e temos de ser justo: 2025 não o foi certamente! Mas foi uma continuação daquilo que vivi no ano anterior, como se fossem os dois misturados num só, numa espécie de novelo indissociável. Foi, verdadeiramente, um ano de luto. De introspeção profunda, de muita solidão, de gestão e pensamento, de reorganização - não daquelas que sabem bem porque renovam o ar e tornam o nosso mundo diferente, mas das que doem porque implicam mexer em partes internas que não estão só em ferida, mas que ainda sangram ativamente. Se em 2024 a dor advinha mais daquilo que via do que daquilo que sentia, este ano foi o contrário; o ano passado eu sentia que podia ser mais ativa e prática com a minha dor - podia ajudar, podia tratar, podia estar com a minha irmã em todos os momentos possíveis. Este ano só restei eu, o meu luto, e todas as pessoas em luto à minha volta - todos num processo com o mesmo nome mas que se revela de formas diferentes, todos eles difíceis de gerir, e ainda mais complicados de acudir quando nós próprios estamos a tentar manter-nos à tona da água. Eu mantive-me, mas não fui feliz. E, caraças, queria tanto!
Sei, hoje, que carrego o peso de um trauma vivido na linha da frente e que não me abandona nunca. E se, por um lado, esta bagagem me dá perspetiva em relação à vida e à morte e ao modo como estas devem ser vividas, por outro persegue-me - em particular à noite, em sonhos temíveis e pesadelos terríveis. Raramente sei o que é acordar leve. E, na verdade, houve poucos dias deste ano em me deitei sem pesos na alma - a pressão diária que sinto e me imponho empurra-me para uma depressão a que fujo a sete pés e que trato o melhor que sei. Há dias em que, entre o acordar e o deitar, venço; outros em que simplesmente perco. E volto a tentar no dia seguinte. E a verdade é que tento ultrapassar os dias com um sorriso e um espírito positivo, tentando emanar calma e esperança para com o futuro; acho, até, que o consigo na maioria das vezes. Mas quando olho para trás percebo o esforço que faço e o peso que carrego, e sei que é demasiado; carrego comigo tudo o que vou acumulando e não consigo fazer um balanço feliz do que vivi.
Vou entrar em 2026 sem vontade nenhuma de festejar o que quer que seja. Por mim, à meia noite, estaria a dormir - aquilo que o meu corpo pede e a mente precisa. De nada me adianta "matar" 2025 quando tenho plena consciência que o ano que vem a seguir é só mais uma continuação; que isto não é um gráfico que começa do zero, mas sim uma linha que já vem lá de trás e que mora no eixo negativo há demasiado tempo. Mas, enfim, o calendário - e a tradição, os costumes e os hábitos - assim nos obrigam. Por isso, para dois mil e vinte seis, só quero uma coisa: que a linha continue, a seu ritmo, a seguir em modo ascendente. E, idealmente, que bata no positivo em algum momento (gostava que rápido, qual gráfico em modo Speedy Gonzalez, mas sei que é pedir demasiado e que não se coaduna com o processo que estou a viver). Porque gostava de não me sentir com um peso de um elefante ao final do dia; porque gostava de só gerir uma fábrica e não ter de o fazer com tudo o resto à minha volta. No fundo, gostava de viver mais e de sobreviver menos.
Feliz 2026, queridos leitores.








