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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

12
Jul17

A felicidade são momentos simples

Consigo avaliar se estou a viver períodos mais felizes ou tristes, mas em qualquer das fases há sempre um mix de emoções que nunca são lineares. Podemos estar felizes e ter um momento triste - basta um pensamento -, e podemos estar tristes e ter um momento feliz - basta uma memória. Porque uma coisa é certa: só por breves momentos é que os nossos sentimentos e emoções não se misturam e podemos sentir algo com a sua intensidade máxima. É algo breve - mas tão bom quando é bom; e tão mau quando é mau.

Hoje, enquanto saía do hotel junto a um dos canais aqui em Veneza e o sol se punha no horizonte, foi um desses momentos de felicidade pura. Não havia dramas familiares, zangas, preocupações com o trabalho, stress da viagem, dores nas pernas ou cansaço que valesse para estragar aquilo. É algo tão passageiro mas tão profundo; sinto-me pequena ao tentar descrever algo por palavras quando é quase indiscritível em imagem. O dourado do sol a bater nas paredes amarelas e laranjas de Veneza, com pouco ruído das enchentes que visitam a cidade - vantagens de estarmos longe do centro - e só com o barulhinho dos barcos a deslizar pela água, fez daquele momento tão simples - em que procurava um restaurante para jantar - em algo mesmo especial. Veneza tem uma capacidade incrível de ser calorosa e de nos encher a alma com um conforto que, de tão bom, nos parece estranho.

Depois de ter passado - lá está, foi tão rápido que nem se notou - lembrei-me que esta era mais uma das muitas coisas que eu, se pudesse, roubava do mundo Harry Potter'iano: a capacidade de guardar memórias num frasquinho e, quando quiséssemos, poder revisita-las. Não ter medo de esquecer - e, acima de tudo, poder lembrar as coisas quando nos parece impossível termos vivido algo tão bom (ou tão mau, dependendo do objetivo). No fundo, não estarmos à mercê de algo que parece ser tão volátil, que não controlamos ou percebemos completamente. Termos a garantia de que aquele momento ficará connosco, para sempre.

Enfim, quando voltar conto e mostro tudo - para já, resta-me dizer que comecei com chave de ouro. Já vos disse que adoro cidades em tons quentes, em que a história se sente nas paredes desgastadas? Pronto, era só para ficarem a saber.


Veneza, 12 de Julho. Escrito numa esplanada, onze da noite, 27ºC.

 

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