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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

29
Mai14

À atenção de todos os que não sabem o que fazer da vida, aos que querem escrever e aos que querem ser jornalistas

(nota: fiz um post mais recente sobre o curso, após o ter terminado, que pode ser lido aqui. A leitura desse post não invalida a leitura deste, uma vez que se complementam.)

 

Ultimamente tenho recebido muitos emails e comentários a perguntarem-me sobre o meu curso, como é, como não é, onde é, se estou a gostar e todo esse tipo de coisas. Estava a pensar fazer esta publicação mais daqui a uns tempos, mas tendo em conta que estão a surgir muitas questões, mais vale despachar já a coisa. Percebo que, nesta altura do campeonato, muita gente que está a acabar o secundário ou o primeiro (ou segundo, nunca sabemos) ano de faculdade e não está a gostar do curso, esteja tipo barata-tonta sem saber o que fazer. Foi mais ao menos o meu caso e percebo perfeitamente o desespero que é estar perante uma decisão dessas. Vou abordar todo o tipo de questões aqui, e mais para diante vou repetir o foco em algumas delas, para reavivar a memória de quem vai - e conseguiu - entrar em CC. Sintam-se à vontade para fazer questões sobre aquilo que eu deixei escapar ou expliquei menos bem. Por fim, deixem-me dizer que eu não sou a pessoa acertada para vos dar uma visão apaixonada e fantástica sobre este curso: esta será a minha visão, como aluna que não quer - nem pode ver à frente - jornalismo, que não pretende trabalhar na área da comunicação no futuro e cuja vida universitária se revelou uma profunda desilusão.

 

  • ONDE ESTOU Antes de mais, importa dizer que eu estou no curso de Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Este é um curso lecionado por 4 faculdades: letras, economia, belas artes e engenharia, o que o torna único no país. As aulas são todas dadas num pólo à parte, que se localiza na baixa da cidade. No terceiro ano, todos os alunos têm de escolher uma vertente: jornalismo, assessoria (que é, mais ao menos, relações públicas, que trata da parte das comunicações de empresas e etc.) ou multimédia.

 

  • O CURSO Na sequência do que disse acima, é importante referir que o facto de ter 4 faculdades é uma grande mais valia. Torna o curso abrangente, falam um bocadinho de tudo e têm professores especializados nas áreas: desde economia a design, direito e programação, entre tantas outras coisas. Mas desenganem-se: este curso é totalmente focado no jornalismo e quem não tiver esta área em vista ainda vai sofrer um bom bocado. Não há como escapar às disciplinas de rádio, imprensa, TV ou online, que podem ser horríveis para quem não está para ali virado, e deixam sempre a sensação de que não nos vão servir de nada.

 

  • O PÓLO, AS PESSOAS O facto de se estar num pólo à parte não ajuda. O pólo é pobre - como já referi aqui, não tem café, cantina, reprografia, papelaria ou qualquer outro serviço. Se quiserem esse tipo de serviços, têm de se dirigir à faculdade de Direito. Tem casas de banho e podem dar-se por contentes. É relativamente pequeno, não tem "recreio" e o único sítio onde se pode estar e/ou fumar quando está chuva é à entrada, num espaço com três metros quadrados. Isto faz com que não conheçamos pessoal de outros cursos ou malta de outras faculdades, embora Direito seja mesmo ali ao lado. Somos nós e só nós. Não é bom para quem gosta de conhecer mais pessoal ou está, eventualmente, atrás de um namorado. É um curso com muitas mulheres, poucos homens, e muitos deles são homossexuais. Há, por isso, muitos grupinhos e, dependendo da sorte, mesquinhice quanto baste.

 

  • QUEM GOSTA DE ESCREVER Quem quer e gosta de escrever, escusa de vir para CC com esperanças de melhorar as suas capacidades. Não há nada neste curso que nos ajude a escrever melhor, a aprender novas técnicas de escrita, a ter mais inspiração ou a adquirir mais vocabulário. A única coisa que se faz neste aspeto é aprender a escrever notícias para os diferentes meios, que passa basicamente por não usar os gerúndios, por usar frases curtas, ser direto e conciso e mais outras coisas que não interessam muito para aqui (se ficaram interessados nisto, força, vão para CC).

 

  • CURSO PRÁTICO Se querem um curso prático e em letras, esta deve ser das poucas opções. Não conheço os outros cursos de comunicação pelo país, mas quase ponho as minhas mãos no fogo como este é o mais prático deles todos, também por ter tantas faculdades à mistura. Por muito mau que seja, a verdade é que logo no primeiro ano têm fotografia, vídeo, informática, design, todos eles com componentes práticas muito vincadas.  Há algumas disciplinas bastante teóricas, mas ao todo há mais trabalho prático para fazer.

 

  • OS TRABALHOS Por falar em trabalhos.... há muitos, em demasia, e às vezes mais difíceis do que seria de esperar. Suponho que agora quase todos os cursos, em todo o lado, tenham esta componente rídicula, que é dar-nos trabalhos a todas as disciplinas até nós não aguentarmos mais. Contem com isso. Uns mais difíceis que outros, uns mais chatos que outros, mas quase todos eles trabalhosos. Às vezes não se vê a luzinha ao fundo do túnel... mas ela aparece.

 

  • PRAXES No que diz respeito à praxe, nunca fui posta de parte. Há mais um grupo no curso que dá alternativa à praxe e onde poderão recorrer se quiserem integrar-se e não fazer aquelas palhaçadas todas, e poderem olhar para os olhos dos "doutores" e essas coisas rídiculas que a praxe tem de base. A parte de humilhação fica de fora, mas são na mesma batizados, têm padrinhos, trajam, vão ao cortejo e tudo mais. Aquilo que a praxe mais fala é da integração, mas a verdade é que os grupos formados lá são sólidos e pouco recetivos; se não entrarem, é provável que a vossa relação com os colegas de praxe seja meramente cordial, mas é uma questão de pensarem se vale mesmo a pena (eu adianto-vos a resposta: não vale). Alerto (e vou alertar mais para a frente) sobre a questão da "apresentação" que nos foi feita mesmo no início do ano, e que era um embuste feito para nos pressionar a ir-mos todos para aquele festim. Podem ler mais sobre isto aqui. Não sei se esta façanha é comum, mas tenham muito cuidado nas matrículas se vos pedirem o número de telefone para "lanches", "apresentações" ou "sessões de esclarecimento" organizadas por alunos. Se são anti-praxe, não tenham medo de assumir a vossa posição e não se deixem levar pela carneirada só porque se encontram numa situação desconfortável.

 

  • PROFESSORES Há professores para todo os gostos: mais teóricos, mais chatos, mais maus, mais divertidos. Não contem com grande ajuda ou simpatia, porque na sua generalidade não abunda por aqueles lados.

 

  • ACESSOS Em termos de acessos aquele sítio é particularmente mau. Para quem tem carro, há um parque de estacionamente à frente, mas que está sempre cheio: arrajar lugar é uma sorte, a menos que seja antes das nove da manhã ou depois das cinco da tarde. De resto, há normalmente lugar na Praça da Républica. Ambos os sítios têm parquímetro, embora eu, em frente à faculdade, nunca coloque papel - durante este ano, só vi duas vezes a polícia a vasculhar. Já na Praça da Républica coloco sempre, tendo em conta que os rebocamentos são mais frequentes - a verdae é que mesmo colocando papel, ultrapasso sempre o limite de horas, tendo em conta que fico sempre mais de duas horas no pólo, mas até agora nada de mal aconteceu. Quem vai de autocarro é quem tem mais sorte, pois há um que passa mesmo em frente ao pólo e vários que param na Praça da Républica. Quem vem de metro, em dias de chuva, vai chegar um tanto ao quanto molhado, tendo em conta que a estação mais próxima é a da Trindade e ainda têm uma bela de uma subida pela frente até chegarem à faculdade. Mas não se acanhem: não serão os únicos.

 

  • SERVIÇOS ADMINISTRATIVOS Temos uma secretaria e uma engenheira que é quem resolve os problemas de tudo e de todos. Mas para marcar recursos tem de se ir ao pólo do Campo Alegre, assim como para resolver assuntos mais graves. Basicamente, há uma secretaria, mas pouco serve para os alunos. Também temos uma biblioteca, provavelmente com um tamanho semelhante à vossa do secundário. É sossegada, espaçosa e ampla, e tem bastantes computadores (que vão abaixo a cada 20 minutos, mas vamos esquecer isso). Há também um espaço onde podem alugar materiais para os vossos trabalhos, como câmaras de filmar, máquinas fotográficas, tripés e tudo mais. A faculdade está equipada com 5 ilhas de rádio, onde podem gravar as vossas coisas e eventuais programas onde queiram participar.

 

  • JORNAIS E RÁDIOS DA CASA Na faculdade funciona o P3 (suplemento do jornal Público), o JPN, o JUP e várias rádios em forma de podcast. Em todos eles os alunos podem participar mas, para mim, alguns só funcionam para o orgulho próprio da faculdade, como quem diz "esta rádio já funciona há 10 anos, que orgulho". Ou seja, algumas destas estruturas têm qualidade, mas a verdade é que ninguém as ouve/lê. Como já disse aqui fiz parte de uma rádio, achei piada à primeira e à segunda vez, mas a verdade é que é trabalho que cai em saco rôto, tendo em conta que ninguém nos presta atenção. Nunca escrevi para um jornal, não sei se a sensação é semelhente, mas creio que sim - à excepção do P3, de quem já sou fã há vários anos e que já tem pessoas mais séniores a trabalhar. Ou seja, se quiserem experiência, podem tê-la; mérito e reconhecimento é que é capaz de não ser proporcional ao trabalho.

 

  • PERTINÊNCIA DAS MATÉRIAS Acho que depende tudo um bocadinho dos gostos de cada um, mas diria que, na sua generalidade, o curso está bem construído, embora demasiado direcionado para a prática do jornalismo quando este não é um curso de jornalismo, mas sim de Ciências da Comunicação. Embora muita gente possa não gostar, economia dá sempre jeito, saber dar uns toques no html e photoshop dá sempre jeito, assim como saber trabalhar num editor de vídeo. Podemos não gostar, mas é uma mais valia. As disciplinas teóricas são as que, na minha opinião, são mais dispensáveis, e algumas em que tudo o que se aprende não serve para rigorosamente nada (e eu já não me lembro de nadinha, tal a "importância" que lhes dei). Mas isso, julgo eu, existe em todos os cursos, pelo que é um mal menor.

 

Alguma questão que queiram fazer, estejam à vontade. Se entretanto me lembrar de alguma coisa, acrescentarei  mais um ponto.

2 comentários

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    Carolina 15.07.2014

    Olá Maria,


    Não conhecia o blog e, que tenha percebido, nunca me fez nenhuma referência, mas fico feliz que tenha cá chegado e espero que te tenha servido de algo :)


    Como se costuma dizer, been there, done that. Vamos por partes. A mim sempre me irritou imenso o facto de dizerem que se desperdiçam médias - as médias não se desperdiçam, usam-se. Tu vais ter um leque de escolhas muito maior do que os teus colegas, conseguis-te-o com o teu esforço e é para isso que a média te serve - para te recompensar pelo trabalho feito até então, de modo a entrares naquilo que mais desejares. À custa dessa história do desperdício de médias, daqui a uns anos vai haver muito boa gente formada em medicina sem qualquer tipo de vocação. Mas enfim, quero com isto dizer que esse é um argumento que deves pôr de parte logo à partida.


    O segundo erro é o facto do curso de comunicação não ter empregabilidade. A vertente de jornalismo, de facto, não o tem: mas assessoria sim. Hoje em dias as empresas focam-se muito na divulgação nas redes sociais, na gestão do publico interno, organização de eventos, etc, e os assessores têm sido muito importantes e têm saído muito bem, com estágios garantidos, na faculdade.


    O terceiro erro é o "geral". Nem direito nem economia são gerais, na minha opinião: em direito dás leis, o seu conceito, e essas tretas todas, em gestão das matemática, conceitos económicos e etc, tudo com a mesma base. Aqui não: tens de tudo um bocadinho e eu diria que é quase impossível saíres-te bem em todas as áreas: tens economia, tens design, tens técnicas de expressão de português, tens informática... enfim, muitas vertentes, porque no fundo um jornalista tem de estar preparado para todas as frentes e de abordar qualquer assunto com a maior clareza.


    Mais uma vez, não concordo - nem ouvi dizer - que a Nova é a que tem o melhor curso de comunicação do país. uma coisa é certa, a nível de jornalismo deves ter mais oportunidades, porque a este nível, tudo o que é importante, se passa na capital. Mas o curso ser melhor, honestamente, duvido - como disse acima, o curso na FLUP é lecionado numa parceria de 4 faculdades: letras, engenharia, belas artes e economia, com professores específicos para cada área. Para além disso, é de considerar o peso que uma mudança de cidade tem na vida de uma pessoa, tanto a nível económico, emocional e social.


    Por fim, e correspondendo agora ao teu pedido: eu acho que devemos seguir o nosso coração. Não te conheço, mas baseado no teu comentário não me quer parecer que queiras ter nem sequer mais um ano de matemática pela frente. Falo por mim, que já no secundário mudei de curso por opção própria e contra TODA a gente: segui aquilo que eu queria e fui feliz nas minhas opções. Hoje em dia arrependo-me de algumas coisas, mas enfim, é a vida - ao menos estou de consciência limpa, deixei os "e se's" para trás. Ponderei muito sair deste curso, mas vou ficar, porque não é tão mau quanto isso. 


    Acho que, no fundo, se fores para gestão e não gostares, vais acabar por culpar os outros por uma decisão que não querias tomar e que foste altamente influenciada. Vais ficar chateada contigo própria por não teres tido o pulso da questão e com os outros por te levarem a toma-la, algo que no futuro te poderá fazer infeliz. Portanto acho que só tu sabes qual será a tua escolha. 


    As pessoas são simpáticas, muito diversificadas, tens de tudo. O pessoal mais velho é, na sua maioria, bastante acessível. A faculdade em si - aliás, o pólo - tem muito poucas condições, não é concerteza a faculdade que idealizaste - mas a coisa faz-se, todos nós sobrevivemos (reclamamos muito, mas sobrevivemos). Os professores são chatos, mas acho que isso é em todo lado.


    Enfim, para além daquilo que disse no post, não sei mais como te ajudar. Se tiveres alguma questão mais concreta, força. E se tomares a decisão de ir para lá, podes sempre voltar cá, apitar e se precisares de algo contactar-me que, para o ano, lá estarei.


    Beijinho
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