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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

23
Jul21

Uma história com princípio, meio e sim! #11

A escolha de um fotógrafo e a importância da fotografia e do vídeo

O fotógrafo foi a primeira coisa em que pensei mal decidimos que íamos casar. Decidimos uma data - na altura era 4 de Setembro - e eu deitei logo pés ao caminho pois tinha pânico de não arranjar alguém com quem me identificasse. Fiquei pior quando comecei a receber respostas negativas, já com agendas cheias. 

Este era um dos poucos tópicos onde a minha permeabilidade ao preço (e aos exageros) era maior, porque acho inconcebível ter um mau profissional num dia tão importante como este. Já aqui falei várias vezes sobre a importância das fotografias na minha vida. Também por causa disso - e porque, confesso, tenho alguma dificuldade em delegar coisas que acho de importância máxima - auto-intitulei-me a responsável por este pelouro: sou eu quem tira e edita as fotos de todos os eventos de família e, no final do ano, junta tudo para fazer os álbuns de best ofs

Para mim as fotografias têm a mesma função da escrita: eternizam, impedem o esquecimento. Percebo aquelas pessoas que não gostam de ser fotografadas, que se sentem desconfortáveis, que acham que ficam mal e que por isso não querem ser vítimas de qualquer objetiva - no entanto conheço muito pouca gente que não goste de relembrar os tempos que já passaram (a menos que sejam tempos muito maus). Se juntar os meus diários de bordo às fotografias que tirei... viajo de novo. Quão incrível é isso?

Era essa magia - de ser capaz de recuar e reviver tudo - que eu queria para o meu casamento: poder, daqui a uns anos, olhar para aqueles frames e voltar a sentir a felicidade e as borboletas no estômago. E gostava que tal acontecesse nos meus moldes de fotografar: sem grandes poses, sem flash, com movimento e alegria. Não queria fotos clichê de véus a voar, deitada na cama ou no chão, com o bouquet pousado sobre a minha cauda. Mas a verdade é que deixar que a magia aconteça nas mãos de outros é um risco e uma responsabilidade muito grande. E, mesmo depois da escolha, confesso que tive momentos de grande receio. Será que a escolha tinha sido boa? Será que a vibe vai ser a certa? Acho que as dúvidas só se dissipam quando tivermos o trabalho completo nas mãos - mas neste momento, em que já recebi meia-dúzia de fotografias, o meu coração já está mais sossegado.

Contactei quatro empresas/fotógrafos. Primeiro os Storytellers, que descobri no site  do Casamentos.pt e cujo trabalho me atraiu por ser fora da caixa e, acima de tudo, por terem um combo de foto e vídeo, sendo que eu gostei muito de ambos os trabalhos; falei também com o Pedro Vilela que era aquele que eu dizia, há anos, que seria o meu fotografo de casamento - já devo seguir o seu trabalho há uns dez anos e nem sequer me recordo como o conheci; por indicação do meu irmão - pessoa em quem confio plenamente no que diz respeito a fotografia - fui pesquisar o João Medeiros e também a Rita Rocha, ambos com trabalhos que adorei.

Troquei vários emails com todos eles - e entre esperas, respostas e negas todos foram seriamente ponderados e podiam, todos, ter sido os escolhidos. No meio disto tudo íamos vendo as quintas, até que tomamos uma decisão. E, adivinhe-se: a data que tínhamos definido, 4 de Setembro, estava ocupada! E por isso, ao contrário daquilo que se costuma fazer, adaptamo-nos nós ao calendário da quinta e acabamos por escolher o dia 27 de Junho, uma das poucas datas que tinham livres (e por causa de uma desistência!). Nesta altura já tinha recebido algumas respostas negativas e tinha tudo apalavrado com o João Medeiros - que, na nova data, não tinha disponibilidade. Fiquei muito triste - e outra vez em pânico - porque o contacto com eles (o João e a Pamela Leite) foi do mais incrível e atencioso que experienciei ao longo desta aventura da organização do casamento, mas não tinha outra opção senão fazer uma nova ronda na minha short-list e ver se alguém tinha disponibilidade.

E os Storytellers tinham! Acabou por ser óptimo porque matamos dois coelhos de uma só cajadada: a foto e o vídeo, sendo que acho que a segunda parte é também fortíssima na equipa que escolhemos. Porque as fotos são óptimas, mas não deixam de ser imagens congeladas, incapazes de captar movimento e som, que são igualmente essenciais. Numa foto não conseguimos perceber a forma de andar ou a voz de alguém - e são esses pequenos detalhes que nos distinguem uns dos outros e que, para mim, também importam recordar. Se não fossem eles, tinha em vista o Ninho Films, a Andorinha Films e o Overall Studio - mas fiquei particularmente feliz por ser tudo a mesma equipa e sentir que estava bem servida. Os vídeos de casamento têm uma característica que não gosto: são, na sua maioria, tristes - e eu queria que o meu fosse algo alegre, que refletisse aquele dia de uma forma emocionante mas bem disposta. E os Storytellers têm vários assim, pelo que estou na esperança que o nosso seja um bom equílibrio entre toda a emoção que se viveu - porque não faltaram lágrimas no nosso casamento - mas também uma dose enorme de felicidade.

Só os conhecemos no dia do casamento - até lá só tínhamos falado com o Bruno, o "cabecilha", em reuniões virtuais. Mas a verdade é que a empatia e o à vontade foi tanto que, à posteriori, muita gente me disse achar que já nos conhecíamos. Porque, para mim, não há outra forma das fotos fluírem, serem genuínas e verdadeiras. Sei como me sinto se tirar fotos a pessoas que não gostam de ser fotografadas e vejo a diferença que faz tirar fotos a familiares ou a pessoas com quem não tenho tanta confiança. Se eu queria fotos como aquelas que eu tiro, tinha de me comportar como gosto que os outros se comportam quando estão à frente da minha lente. Eu gosto muito de tirar fotografias e de ser fotografada - mas o mesmo não se pode dizer do Miguel. E acho que, nestes casos, há uma boa dose de mentalização que deve ser feita, principalmente quando escolhemos fotografos mais "rebeldes" e fora da caixa, que foram contratados para, de alguma forma, invadirem a nossa esfera privada e a documentarem. Se não os tratarmos como alguém da família, a magia que falava acima não vai acontecer - e, para isso, mais vale contratar um fotógrafo clássico e pagar menos dinheiro.

A simpatia, o olhar curioso e atento e a capacidade de integração dos Storytellers foi notada por toda a gente, o que sobe ainda mais a fasquia e eleva as expectativas para um nível quase estratósferico. Só devo ter o trabalho completo nas minhas mãos lá pela altura do Natal - gostava de receber antes, mas dada a quantidade de casamentos que estão a acontecer imagino que não seja fácil passar horas a editar. Estou super, mega ansiosa e curiosa para ver e reviver tudo de novo, e acho que se juntaram todos os ingredientes para tudo correr lindamente e termos memórias lindas para o resto das nossas vidas. Até lá, esperemos em conjunto. Para já, ficam duas das fotografias que nos mandaram:

 

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21
Jul21

Uma história com princípio, meio e sim! #10

A construção de um vestido de noiva e o embate num dogma da sociedade

A prova na Rosa Clará aconteceu a uma quarta-feira – e na sexta seguinte o país fechou. De volta ao confinamento. A minha prova com a Pureza estava marcada para meados de Fevereiro e acabou por só acontecer no final de Abril, quando voltamos a desconfinar. Foram dois meses de espera, ânsia e sofrimento.

A Pureza tem agora o seu novo espaço no Porto, num edifício lindo junto à Biblioteca Municipal, onde atualmente se encontra a Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal. Foi lá que fui e que fiz a primeira prova com ela – algo muitoooo diferente da prova anterior, giro para algumas pessoas, potencialmente assustador para outras.

Não acho que fazer um vestido por medida seja para todos. Na minha opinião é preciso ter uma noção mais ao menos clara do que se quer, conhecer bem o próprio corpo e os nossos gostos e, diria até, ter alguma experiência no que diz respeito aos tecidos e à sua fluidez (não tem de ser nenhum expert – basta alguém que goste de fazer compras e toque em muita roupa). Pessoas sem qualquer tipo de noção do que querem, do que gostam, do que fica bem... o melhor é irem a uma loja e experimentar um bocadinho de tudo para tirar alguma conclusão. Depois se, tal como eu, quiserem alguma coisa única e ter uma palavra a dizer sobre o processo de construção do vestido, aí sim, podem passar para uma experiência deste género. No entanto, fica o aviso: a magia de nos vermos com um vestido de noiva (a menos que experimentem algum da coleção para venda) não existe numa prova destas, o que pode ser desconcertante para algumas noivas.

Basicamente, a primeira prova consiste em experimentar várias peças e conjugá-las, construindo o vestido bocadinho a bocadinho. Como é que queremos o top? Decote em bico, redondo, mais profundo ou mais conservador? E a saia? Em chiffon, tule? Plissada ou com um corte reto? Com cauda ou sem cauda? E as mangas? Com, sem? Compridas, curtas ou meio-termo? Rentes ao braço ou fluídas? Depois de tudo isto, tiramos 568 medidas e voilà! No fim, parecemos umas bonecas repletas de alfinetes, com uma manga diferente de cada lado e a cabeça a carborar forte até decidir aquilo que realmente queremos.

As minhas guidelines eram simples: queria um vestido com um decote em V, com mangas soltas, muito fluído e sem saiote. Como bónus gostava que tivesse várias camadas (no fundo, ter vários vestidos num - tirava a cauda, depois isto, depois aquilo) e que fosse versátil o suficiente para, eventualmente, o usar numa outra ocasião. Tinha mandado várias fotos – incluindo a do tal vestido de que gostei na Rosa Clará – e o processo inicial foi extremamente simples.

Enquanto alguém que gosta de moda e que ama têxtil – sem esquecer que também já tinha tido aquele primeiro embate, que me atirou para longe dos contos de fadas que tinha imaginado – eu gostei muito da prova e senti-me no controlo do meu próprio vestido. Sei que para a minha irmã, que não tinha estado na primeira prova e não me viu a experimentar um vestido a seguir ao outro, aquilo não foi a representação daquele sonho que também ela tinha para mim. Mas, no meu caso, foi uma sensação nova - estranha, mas boa. Senti-me sempre muito segura e calma nas mãos da Pureza e das suas profissionais – embora mentisse se dissesse que o caminho até ter o meu vestido não teve lombas e solavancos.

Fui a última pessoa, de toda a festa, a ter vestimenta – casei no domingo e só na terça-feira é que trouxe a roupa para casa (sendo que na sexta anterior tinha ido escolher a renda para a cauda). Muitas pessoas perguntavam-me se eu não estava em stress com isso, e a minha resposta era verdadeira: não, não estava. Independentemente dos dramas com o vestido, estava mais do que segura da minha escolha e das mãos em quem tinha deixado esta tarefa tão importante. Seria para mim muito mais stressante ter comprado o vestido numa loja qualquer que os importa e que, com todos os problemas inerentes ao covid, podia sofrer atrasos indesejados. Desta forma eu sabia que o meu vestido estava a ser feito de raiz em Lisboa (não em Barcelona, não na China ou no Bangladesh) e que, caso qualquer problema surgisse, eu estava a três horas de distância de o resolver (ou, pelo menos, de ter o poder de decisão para tal). Como empresária da têxtil não posso esconder que me deu um prazer extra dar trabalho a uma empresa de moda portuguesa, com costureiras competentíssimas e de um trabalho de excelência.

No total fizemos cinco provas (três no Porto, duas em Lisboa): a primeira, onde “montamos” o vestido; a segunda, onde vimos pela primeira vez o vestido como uma peça completa e acertamos detalhes (como o tamanho do decote e escolhemos as rendas); a terceira, onde subimos a baínha e vimos o trabalho feito até então; a quarta, onde decidimos nova renda para a cauda (depois de um percalço com a primeira renda que escolhi, que não chegou do fornecedor) e voltamos a ver todos os detalhes do vestido, incluindo o véu; e a quinta, a primeira com a cauda e o vestido completo, onde nos ensinaram a vestir e fechar tudo (ou a tirar as partes), altura em que o pude finalmente levar para casa!

As provas, embora fossem momentos de ânsia, não eram momentos muito felizes. Nunca, em nenhuma fase do processo, me senti apaixonada pelo vestido ou sequer pela ideia daquilo que ele viria a ser. E aí perguntam-me: mas depois de tantos anos a ver vestidos, não sabias o que querias?! A resposta é não. Nunca achei que me iria casar. Via os vestidos como uma utopia. Pensava muitas vezes: “usaria este se me casasse com 50 anos. E este se não tivesse as ancas largas. E este se o casamento fosse na praia”. Nunca pensei: “é este!”. Sabia, à partida, os estilos que gostava e não gostava. Estava muito inclinada para o estilo boho e sei que nunca vestiria um vestido com corte sereia. Mas não sei até que ponto não levaria um vestido de princesa, se as circunstâncias fossem as ideais para isso, percebem? Dependia de tanta coisa! E como casar nunca esteve nos planos, não era algo com que me preocupasse. E quando chegou a altura... fiquei perdida. Perdida com tanta coisa que tinha visto ao longo dos anos, perdida com o facto de nada estar a decorrer conforme eu desejava e contava, perdida pela frustração de não sentir aquilo que aparentemente todas as noivas se sentem – lindas, maravilhosas e especiais.

Aqui, o facto de ter um vestido feito só para mim também não ajudou: vi-me muitas vezes indecisa após as provas, pois sentia que havia qualquer coisa que eu não gostava mas que não sabia explicar. Inicialmente o vestido era para ficar com uma linha (demasiado) simples e ao longo do tempo foi ficando cada vez mais trabalhado: a cauda era para ser em chiffon com fitas de renda e passou a ser toda rendada, era para ser só atrás e no final acabou a cobrir a saia toda; o decote sofreu várias alterações (sempre para maior), entre outros detalhes. A minha mãe, irmã e cunhada iam dando ideias e inputs, mas eu sentia-me desamparada. E, do desamparo, veio a incompreensão.

Expliquei muitas vezes, ao longo destes meses, a importância que tinha para mim envolver o Miguel no processo da escolha do vestido. Sou normalmente uma pessoa muito decidida e se gostar de uma peça trago-a para casa e uso-a, independentemente das opiniões alheias. O Miguel é a minha exceção. A opinião dele pode, de facto, mudar a minha – e eu tenho de admitir que tenho uma permeabilidade e uma abertura às opiniões dele diferente das opiniões das restantes pessoas. Por razões diversas o processo do casamento foi, durante muitos dias, duríssimo. E era ele, ao final do dia, quem me ouvia e apoiava. Era a minha muleta. Muleta essa que me faltou neste processo – que se iniciou realmente em meados de Abril, altura em que estava extremamente fragilizada – acima de tudo porque a tradição assim o dita.

Não consigo perceber porque é que os noivos não podem ver o vestido da noiva (e vice-versa). Para mim era a opinião mais importante de todas – e tive de esperar até ao último segundo para poder saber, finalmente, aquilo que ele achava da minha escolha. Mas atenção: fi-lo porque percebi que, para ele, o efeito surpresa era algo bom. Ele queria ver-me vestida, pela primeira vez, no altar – e eu compreendi. O que não aceitei – e que me doeu e dói até hoje – foi a incapacidade generalizada dos outros perceberem o meu ponto de vista, por muito que eu tentasse explicar. Senti-me invisível – eu a minha dor, tão evidente para mim naquele momento, e que eu achava que era impossível não transparecer para os outros. Eu dava explicações racionais e emocionais, eu tentava desconstruir e desvalorizar o lado da tradição... eu tentei de tudo. Descobri que é um autêntico dogma, uma luta que não vale a pena travar. Não é só o facto de estar enraizado na sociedade, é ser uma questão central do casamento. Pessoas com quem íamos falando esporadicamente perguntavam pelo vestido e, logo a seguir, retorquíam: “o Miguel não viu o vestido, pois não?!”.

E eu não estava para fretes. “Não, não viu, mas devia”. E depois explicava. E normalmente a resposta era sempre a mesma: “o noivo não deve ver o vestido, dá má sorte”. E eu não tinha outra solução senão seguir caminho e continuar na minha, embora respeitando sempre a vontade do noivo não ver, de facto, o vestido. E o que teria mudado, perguntam vós?

O Miguel não é um expert em moda e muito menos em vestidos de noiva. Mas tem uma especialidade: chama-se Carolina. Se o Miguel estivesse nas provas e visse na minha cara que eu não estava feliz com o vestido – como de facto aconteceu - ,  teria dito qualquer coisa, sugeria mudanças, faria críticas construtivas e colocar-me-ia sempre acima das suas vontades próprias. No limite, se não houvesse mesmo nada a acrescentar, dizia-me: “estás linda, não te preocupes, eu não mudava nada!”. E eu podia nem acreditar, mas sossegava. Porque aquele vestido era para mim, mas a pensar nele. E se ele gostava... eu ia gostar também.

Mas não foi assim. Chorei muito. Falei muito com ele até chegar a um terreno sólido em termos de decisões (eu quis saber como era o fato dele, mas ele preferiu ficar na ignorância até me ver no dia do casamento), até dissecar todas estas dores, até deixar que a roupa fosse um dos maiores obstáculos deste casamento. Percebi que era muito mais que roupa que estava em jogo: era uma dor muito profunda de incompreensão, um sentimento de invisibilidade muito grande perante quem me rodeava. Eu falava, mas não me ouviam. Senti sempre que a tradição era mais forte que a minha vontade e a minha crença – e isso mexeu muito, muito comigo.

Um dia o Miguel disse-me que era eu que fazia o vestido, tal como era ele que faria o fato. Ele sentia-se impecável dentro da roupa que escolhera – e sabia que, no dia D, ia estar impecável para mim. Eu só tinha de me sentir igual. Linda, confiante e impecável. Confiar no meu instinto, nas minhas decisões e vestir aquela peça com a confiança com que visto tudo o resto quando quero arrasar.

E foi assim que eu enfrentei a última prova: com as palavras dele a fazerem-me eco na cabeça, de queixo levantado e esperança de que tudo estivesse bonito. E estava. A linha que separa um vestido bonito de um piroso é ténue, mas sei que no meu caso esteve longe de ser ultrapassada; é um vestido intemporal, sem modas, frufrus ou breloques. Não me favorecia em tudo (acho que me alargava ligeiramente), mas era de uma excelência magnífica no que diz respeito aos materiais e à construção. E, acima de tudo, tinha detalhes que gritavam "Carolina!". 

Não casei com o vestido dos meus sonhos, porque eu não sonhei com nenhum vestido. Mas casei com um vestido que tinha muito de mim e com a certeza de que fiz a escolha certa quando escolhi a fazer um vestido à medida, de que estava a usar uma peça única – minha, só minha! - e que daqui a uns anos olharei para trás e direi: caramba, estava linda!

 

Seguem fotos da segunda, terceira e última prova (das restantes não tenho ou são muito más) - assim como algumas do grande dia. 

 

Segunda prova - ver o vestido construído pela primeira vez e escolha das rendas:

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Terceira prova - ver pela primeira vez a aplicação da renda no topo e nas mangas (inacabadas); decote ainda muito subido; cauda por fazer, ainda com a renda e ideia original, de cair simplesmente para trás:

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Última prova - tudo finalizado!:

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No grande dia:

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19
Jul21

Uma história com princípio, meio e sim! #9

O fim de um conto de fadas chamado "vestido de noiva"

O vestido de noiva foi, provavelmente, o tema central dos seis meses de preparação do casamento. Isto aconteceu por várias razões: primeiro porque, apesar de nunca ter planeado casar, sempre adorei ver vestidos e era talvez a coisa que mais ansiava fazer – ver, vestir e escolher o meu vestido; segundo porque com as restrições de circulação e o fecho das lojas algures em Fevereiro, as minhas provas foram sendo adiadas – na prática o meu vestido foi feito em menos de dois meses, o que provocou taquicardias às pessoas mais próximas de mim; terceiro porque o vestido é sempre um tema importante, das coisas que as pessoas mais perguntam; e quarto porque eu própria fiz do vestido “o tema” quando quis que o meu namorado me ajudasse a escolhê-lo.

Mas comecemos pelo início. Mal marcamos o casório decidi logo que ia fazer o vestido no atelier da Pureza de Mello Breyner. Houve duas razões para o fazer, mas a principal foi o facto de sempre ter desejado um casamento único e diferente. Nesta altura já sabia que o casamento não se ia realizar em minha casa (e por isso, sendo numa quinta, já ia ser igual a 2453 casamentos) e sentia que o fator diferenciador estava a ir pelo cano; assim, quis mesmo que a peça central fosse feita só e exclusivamente para mim. Para além disso tinha na ideia fazer um vestido mutante, que se pudesse ir adequando ao longo da festa – e isso dificilmente se consegue numa loja de noivas normal.

Mas a verdade é que ao longo da minha vida sempre tive uma marca de vestidos de noiva que segui religiosamente e cujas coleções conhecia de fio a pavio há mais de dez anos: a Rosa Clará. Fiquei num impasse muito grande, em ir lá experimentar alguns dos vestidos que gostava, ou não; na verdade tinha medo de me apaixonar por algum, tendo já uma prova marcada na Pureza. Acabei por acatar o risco, depois de uma conversa com uma amiga que tinha casado há pouco tempo e que me disse uma grande verdade: experimentar não custa. A ideia de ir lá e saber que, à partida, não ia trazer nada... era-me estranha. Parecia que ia lá fazer perder o tempo das pessoas. E custa-me dizer que “vou pensar” quando na verdade já sei o que quero. Ainda assim, optei por ir: primeiro porque, apesar de tudo, estava com uma mente aberta (caso contrário nunca teria medo de me apaixonar por um vestido deles) e segundo porque sabia que ia ser uma mais-valia quando fosse construir o meu vestido. É importante perceber o que nos fica bem e mal, o que é confortável e, acima de tudo, se aquilo que temos em mente para nós próprias nos favorece. E a verdade é esta: ainda bem que fui!

Foi a primeira grande lição – e embate – em relação a este tema. A primeira coisa que me passou pela cabeça mal vesti o primeiro vestido foi que todo aquele processo era extremamente desconfortável: subir para o pedestal, colocar o saiote, estar praticamente nua, ter alguém a vestir-te e a pôr as maminhas e tudo no sítio. Uff! Depois veio a desilusão de cada vez que me olhava ao espelho: todos os vestidos, sem excepção, tinham qualquer coisa que não era do meu agrado. Eram todos lindos no geral – e, modéstia à parte, ficavam-me todos muito bem – mas no particular, nos detalhes, falhavam todos em qualquer coisa. E, para mim, os pormenores são essenciais pois acredito que são eles que dão magia ao todo.

Tinha levado uma lista dos vestidos que queria experimentar e rapidamente percebi uma coisa: aquilo que nós vemos na internet está longe de ser a realidade. Ou então, fazendo aqui um trocadilho, é a realidade... mas vista de longe. Eu achei que tinha escolhido vestidos simples mas todos eles tinham um fru-fru ou blink-blink que não se via nas fotografias. Eram lantejoulas, brilhantes, missangas. Os tules nunca eram simples: ora tinham bolinhas ou cortes estratégicos. E isto para não falar do que é tê-los vestidos! Um dos meus vestidos favoritos, que andava a namorar há meses (mesmo antes de ficar noiva), tinha mangas compridas – mais uma vez, tooooodas recheadas de missangas. E o desconforto que aquilo é, a arranhar-nos os braços, quase como se 100 formigas andassem ali para cima e para baixo (e de vez em quando dessem umas picadinhas)? E o peso das trinta camadas de tule? E a dificuldade de movimentos que um saiote implica? Experimentei até um vestido cai-cai, sob a sugestão da senhora que me atendeu; levar uma peça sem alças não era uma opção, mas lá lhe fiz a vontade, o que só serviu para ter mais certezas daquilo que já queria. Para mim não se tratava de um vestido, mas sim de um autêntico espartilho! O corpete tinha pelo menos seis arames à volta do tronco para garantir que nada saía do lugar – e, de facto, era eficaz. Tão eficaz que respirar se tornava numa tarefa hercúlea... e eu gostava de não morrer no dia do meu casamente.

Houve um vestido que gostei, no geral, mas cujos detalhes não me convenceram – pedi o orçamento para ter uma ideia daquilo que me esperava e saí da loja com um gigante peso no peito. Hoje, olhando para trás, percebo que corri o risco e valeu a pena, no sentido em que não adiei o inadiável: um gigante balde de água fria que me viria a acompanhar até praticamente o final do processo. O conto de fadas caiu logo por terra – o que foi bom, porque iria acontecer mais cedo ou mais tarde.

Diria que nada ali foi óptimo: nós estavamos com o tempo contado, pois a prova ficou entalada entre as várias visitas a quintas que tínhamos marcadas para aquele dia. O stress, portanto, não ajudou. Acho que apesar de simpática, a senhora que me atendeu também não foi perspicaz o suficiente para perceber a onda em que estava e aquilo que eu gostava, sugerindo-me coisas que não estavam dentro dos meus gostos ou exigências para o vestido. Depois de sair de lá, enquanto digeria tudo aquilo, fui ver os vestidos que tinha experimentado e vi muitos outros que me podiam ter sugerido e que, quiçá, me tivessem convencido mais. Mas enfim! A cereja no topo do bolo, para mim, foi sentir-me forçada a tomar uma decisão por causa da "falta de tempo" - se quisesse um vestido para Junho, tinha de o comprar naquele momento, pois cinco meses era um prazo muito apertado. Pressão nunca ajuda - muito menos quando implica uma compra de uma peça de roupa no valor de milhares de euros. E, assim, saí da loja de mãos a abanar - algo que já previa, pois tinha ideia de mandar fazer o vestido. A questão não estava nas mãos vazias, mas sim no coração apertado com que saí de lá. 

Durante anos vi fotos e fotos de vestidos que, percebi naquele momento, não correspondiam à realidade - se por um lado parecem muito maiores, fluídos e confortáveis do que são verdadeiramente, por outro todos os detalhes (para o bem e para o mal) ficam escondidos aos olhos das lentes fotográficas. Também não ajudou ter visto demasiados episódios do “Say Yes to the Dress”, com pessoas a encontrar os seus vestidos de sonho.

Porque eu não tive o meu. Senti-me frustrada, triste... quase enganada. Foi um monte de expectativas derrubadas de uma só vez que fizeram com que este tópico passasse de um dos mais ansiados do meu casamento para um dos mais temidos. E eu não sabia o que ainda estava por vir. 

 

(continua...)

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15
Jul21

Uma história com princípio, meio e sim! #8

As idiossincrasias das quintas e a derradeira escolha de um espaço

Não fui com a mente propriamente aberta aquando da visita às quintas. No total visitamos sete espaços: a Quinta das Camélias, a Quinta do Avesso, o The Astoria, o Palacete Camarinha, a Quinta de Sonhos, a Casa Montevidéu e a Quinta do Alferes de Crasto - tudo em três dias, num autêntico tetris de horários e disponibilidades, porque sabíamos que em breve tudo iria fechar portas e precisávamos de ter uma decisão caso quiséssemos que o casamento andasse para a frente ainda este ano.

A primeira, claro, foi a mais visada pelo meu mau humor, pois a ideia de não fazer o casamento em casa ainda não estava interiorizada e a minha vontade de o fazer noutro sítio qualquer era praticamente nula. Mas a verdade é que foi um teste para fazer logo uma lista daquilo que queria num espaço, já que a minha casa estava posta de parte. De um ponto de vista estético, a ideia era que o tema fosse rústico, com muitas madeiras (soalho era um ponto fulclar) e folhas verdes. Mas, acima de tudo, eu precisava de me sentir livre - livre de fazer mudanças e escolhas no que diz respeito à decoração, livre para definir o plano do meu dia sem grandes entraves (e isto refere-se a horários, locais e etc.), livre de alguém do protocolo que me estivesse sempre a guiar, como se de uma criança se tratasse. Era esse o meu maior requisito, que nem sempre é fácil de perceber numa primeira reunião ou visita. O que me leva a outro ponto: o anfitrião. É esta a pessoa que nos explica o conceito por detrás de um espaço e eu nunca achei que alguém pudesse ter tamanha importância na nossa decisão. Mas a verdade é que tem. Identificarmo-nos com alguém é meio caminho andado para dizermos que sim e fazer negócio - e houve vários sítios em que isso não aconteceu.

Percebi duas coisas: 1) há quintas que querem realizar casamentos à sua medida, não à medida dos noivos - o ideal, claro, é que estas duas ideias coincidam, mas quando assim não o é, e mesmo que o negócio esteja em causa, a disponibilidade para mudar é pouca. Um exemplo: num dos sítios as mesas estavam dispostas em linha reta, corridas; perguntamos se as podíamos espalhar pelo espaço (até por causa do covid), e a resposta é que a quinta não se identificava com esse conceito, que o que fazia sentido eram mesas grandes como se fosse um jantar de família. Fiquei muito confusa - e embora mais razões tenham pesado para descartar este espaço (que, só por acaso, era o que eu mais gostava do ponto de vista estético), só este "pormaior" me fez desistir e passar para outra. 2) As soluções chave na mão devem ser algo muito procurado, pois quase todas as quintas têm parcerias e tudo projetado para poder fazer tudo sem que os noivos tenham de se preocupar de sobremaneira. Acho que é uma faceta de tal forma vincada que as quintas se adaptaram e acomodaram ao fácil, fazendo sempre tudo da mesma forma. Em vários espaços me disseram que "o noivo entra por ali, a noiva depois entra por aquele portão, e o corte do bolo é em cima daquela ponte sobre o lago, onde vão sair alguns cones de fogo de artifício". E se eu não quiser entrar por aquele portão? E se me apetecer cortar o bolo na mesa? E, imagine-se, se não quiser fogo de artifício!? Ser tudo tão óbvio e pensado só me recordava do quão único iria ser um casamento em minha casa - e como agora, sendo numa quinta, iria ser igual a outros 589 que lá tinham feito.

Estas duas questões encostaram logo o The Astoria e a Quinta das Camélias para canto - embora ambas sejam esteticamente bonitas (a Quinta das Camélias é demasiado "branca" para o meu gosto, com misturas de dourados que também não me convenceram, mas foi a favorita dos meus pais). O Palacete Camarinha é uma pérola escondida, mas para um conceito de casamento que não era o meu - muito mais indicado para quem sonha com um casamento de princesas. A Quinta de Sonhos ficava numa zona que não nos agradou e o espaço era pequeno -esta última característica foi comum à Casa de Montevideu (onde fomos super bem tratados!) e a Quinta do Avesso (que tinha o look e o conceito perfeito, tal e qual como desejávamos, mas com um espaço muito limitado).

Ao nível de preços, as quintas que visitamos oscilavam entre os 80 e os 140 euros (menus base) por cabeça. No entanto é preciso ter muita atenção a tudo o que está ou não incluído - há quintas que não incluem a decoração floral, por exemplo, o que vai logo mudar os preços finais. Para além dos serviços acrescidos com outros parceiros (quase todas elas aconselham um determinado fotógrafo ou DJ), estes espaços funcionam com base em escalões - o mais baixo tem, por exemplo, dois tipos de buffets e qualidades de vinho mais "fracas", o intermédio já tem mais um buffet e já oferecem o bolo, assim como bebidas de mais nome; e o alto já tem mariscos, sushi's, champanhe e coisas que tais. Tudo o resto é pago à parte: se quiserem um copo ou um prato diferente, um centro de mesa mais pomposo, uma mesa de madeira, um bar de cocktails... enfim! É normal que também se cobrem pela execução do casamento civil, devido à preparação do local e decoração. É por isso muito fácil ver a conta a crescer se não estivermos atentos e as prioridades bem definidas. 

A nossa escolha acabou por recair sobre a Quinta do Alferes de Crasto, acima de tudo, por três razões: primeiro por ser linda (muito amadeirada, tal como queria) e ter um espaço exterior muito amplo, com sol, sombra e muitos lugares onde sentar, ideal para estes tempos de pandemia onde tudo o que se quer é distância e ar livre; segundo por ter aquilo que achamos ser a melhor relação preço/qualidade - das quintas que visitamos, situa-se num ponto intermédio no que diz respeito ao preço por cabeça; terceiro, por termos sentido versatilidade, liberdade de movimentos e de escolha por parte da quinta, que dentro dos espaços e serviços que dispõe, estão abertos a sugestões e àquilo que os noivos desejam fazer. 

Foram cerca de cinco meses de preparação e nem tudo foi um mar de rosas - algo que também aconteceu devido ao volume inacreditável de trabalho que estas quintas estão a ter nesta fase. Toda a gente se casou este ano! Penso que ajudou muito sermos uns noivos descontraídos, pois acho que me teria sentido muito desamparada se fosse uma noiva muito preocupada/stressada; não senti que o acompanhamento tivesse sido incansável - foi profissional e o suficiente, mas para pessoas mais ansiosas, creio que é pouco.

Houve alguns episódios no decorrer das visitas e do planeamento que também não nos agradaram. Um que me chateou particularmente, porque sou muito picuinhas neste tópico, foi dizerem à minha cunhada (à minha frente) que os noivos não têm de saber de tudo, que aquele é um dia de surpresas. Acho que isto é única e exclusivamente da decisão de quem vai casar - e cabe à pessoa que está encarregue do nosso casamento fazer uma leitura do tipo de noivos que tem à frente ou, pelo menos, ser cautelosa. Nunca gostei de surpresas - muito menos num dia que andei meses a preparar ao pormenor! O que se tem de fazer nestas situações é falar com os noivos e perguntar se há algum convidado que tenha flexibilidade para fazer surpresas, tomar decisões ou comandar a festa quando nós não podemos ou é suposto não sabermos de algum pormenor. Esse alguém deve ser apontado por nós - senão, do nada, tínhamos um discurso da tia-avó afastada que só nos vê quando o rei faz anos... e as coisas não podem funcionar assim. Se forem como eu mais vale porem as cartas em cima da mesa e serem claros: não há surpresas a não ser que se trate disto ou daquilo, organizado por aquela ou outra pessoa.

O incidente mais grave aconteceu na primeira prova de degustação. A quinta mudou o catering com quem costumava trabalhar e aquele foi o primeiro jantar que serviram para um conjunto de noivos e suas famílias - e foi um autêntico desastre, desde o rissol de entrada até ao bolo de bolacha da saída. Foi tão mau que diria que os nossos pais puseram a realização do casamento em causa. Ficamos com o coração nas mãos. Eu não tinha as expectativas altas - servir boa comida em eventos deste género, onde tem de se dar de comer a mais de 100 pessoas, é uma tarefa difícil. Mas vai um longo caminho entre comida razoável e aquilo que nos serviram - e o pânico ficou instalado. Depois de reunião de urgência e reclamações veio uma nova degustação - e a diferença foi da noite para o dia. Tanto na comida como no tratamento - desta vez já pudemos escolher os acompanhamentos, trocar isto por aquilo, de forma a que os pratos ficassem mesmo a nosso gosto.

Tal não impediu que, até ao dia do casamento, não ficássemos com o coração nas mãos, em dúvida com aquilo que tinha acontecido (coisa que ainda hoje não percebemos), mas tudo caiu por terra no final do dia D. Arrisco-me a dizer que foi das melhores comidas que já provei em eventos desta envergadura - e que estava tudo ainda melhor que na segunda degustação. Houve muita gente a repetir ambos os pratos, tanto de peixe como de carne, e nós não podíamos ter ficado mais felizes.

Da quinta também não temos nada a dizer: todas as guidelines que tínhamos dado em termos de decoração foram cumpridas (nós levamos muita coisa de casa - menus, placas decorativas, table sitting, etc), foram-se adaptando às contrariedades do dia e aos atrasos típicos (o dia começou chuvoso, por isso estavam a montar a cerimónia no interior - algo que mudaram uma hora antes do início da mesma, quando se aperceberam que o sol começou a aparecer)os atrasos são inevitáveis) sem nos chatearem de sobremaneira, estava tudo lindo, limpo e com um serviço impecável, com pessoas atenciosas e muito educadas. Não podíamos pedir mais. Apesar de não ter sido o sonho inicial, diria que nos saiu melhor que a encomenda - e ficamos 100% satisfeitos, assim como toda a gente com quem falamos.

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(as fotos do casamento só deverão chegar algures pelo Natal - pelo que, por agora, só tenho poucas fotos para vos mostrar do meu dia. quando as receber, eventualmente, atualizarei os posts. quanto às outras quintas, uma breve pesquisa será suficiente para verem imensas fotos!)

13
Jul21

O primeiro post de uma mulher casada

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Alô, Planeta Entre Parêntesis? Daqui fala uma mulher casada!

Calculo que por esta altura se oiçam os grilos neste blog – é o preço a pagar por um afastamento da escrita, que não teve nada mais que ver do que com o decorrer da própria vida e as consequências de me afastar deste hábito que, no passado, tanta coisa boa me trouxe.

De qualquer das formas, mais do que escrever para os outros, sempre escrevi para mim. No meio dos meus 4000 posts existem autênticos testamentos que só os mais corajosos conseguiram ler – mas que, naqueles momentos, foram importantes de escrever ou, talvez ainda hoje, de reler. Sei, por exemplo, que os meus diários de bordo são extensos e por vezes excessivamente descritivos – mas são dos posts que mais revisito quando preciso de me lembrar de algo sobre determinado sítio, pois sei que tenho lá tudo escrito.

A memória é uma coisa tramada e escrever é a minha forma de contornar o inevitável: o esquecimento. E por isso perdoem-me os poucos grilinhos que ainda possam estar desse lado mas, se conseguir, os próximos tempos só vão dar casamento. Das conversas que fui tendo sobre este tópico com pessoas já casadas, percebi que é normal que até os noivos se tendem a esqueçam dos detalhes da sua festa. O facto de só ter bebericado um bocadinho de champanhe (e só por obrigação dos tradicionais brindes) pode ajudar a que não fique tão esquecida, mas eu sei que muito de tudo aquilo que foi arduamente preparado para o grande dia cairá eventualmente no esquecimento – tal como acontece com os sítios que visitei ou os monumentos que vi em determinada viagem. Por isso, como sempre, escrevo. E mostro fotos. E conto tudo. Para que, no futuro, tenha respostas para aqueles que precisam e tenha uma ajuda quando as recordações não forem tão claras.

O facto de ter parado de escrever os textos pré-casamento, para além de uma questão de gestão de tempo (e de emoções), teve muito que ver com a dificuldade em gerir aquilo que revelava ou não até ao grande dia. Agora já não tenho que pensar em nada disso, já posso falar de tudo e mostrar tudo, sem ter de me preocupar com suspenses ou surpresas – ufa!

Há, no entanto, um disclaimer importante a fazer, principalmente no que diz respeito a fornecedores e empresas com quem trabalhamos na execução deste grande projeto. Eu fiz sempre questão de ler opiniões de outros utilizadores sobre as quintas, os músicos, os fotógrafos e etc. - neste aspeto, o site Casamentos.pt é a melhor ferramenta e ajuda do mundo! Mas o que hoje sinto é que há muita coisa que fica por dizer – primeiro porque não fica bem, segundo porque estamos a falar de pessoas com quem tivemos contacto direto e que por isso não fica propriamente bem comentarmos coisas más em espaços abertos, quando a qualquer momento podemos receber uma chamada a pedir satisfações (sim, isto já me aconteceu aqui no blog!). Neste caso em específico, e por causa disto que acabei de explicar, acho que as pessoas com más experiências se remetem ao silêncio – a menos que já tenham armado um barraco e deitado tudo a perder. Aqui no blog vou tentar ser o mais explícita e clara possível, falando (ou, pelo menos, mencionando) todos os fornecedores com que trabalhei e/ou contactei. Se, desse lado, estiverem também nesta odisseia que é organizar um casamento e tiverem alguma dúvida, contactem-me pelos canais do costume (instagram ou email, preferencialmente) e eu tentarei ajudar. Combinado?

(cri-cri, cri-cri, cri-cri)

 

16
Abr21

Uma história com princípio, meio e sim! #6

Um pontapé no rabo das tradições

Não sou nem nunca fui supersticiosa. Tenho amuletos - uso certas joias, que pertenciam às minhas avós, em dias especiais e em que sinto que preciso de uma força extra - mas nunca acreditei em superstições ou ditos populares. Nunca percebi porque é que não podia passar debaixo de uma escada, abrir o guarda-chuva dentro de casa, ter chapéus em cima da cama ou não devia pousar a carteira no chão (aparte da questão óbvia da sujidade). Adoro gatos pretos e o número 13 é para mim tão válido como o 7, o 12 ou o 14; sou também a prova de que varrerem-me os pés não é sinal de ficar solteira para sempre (muitas foram as vezes em que a D. Joaquina, por brincadeira, me tirou o pó de cima dos pés - mas a verdade é que, se tudo correr bem, caso-me em breve!) e sei também que um mocho piar não é necessariamente sinal de morte, como ela própria dizia (embora a todos os minutos morra de facto alguém, não tem é de ser próximo). 

Fui ignorando - e até desprezando - todas estas lenga-lengas ao longo da minha vida. Sim, deixei de passar por debaixo de escadas e tirava os chapéus de cima da cama quando me chamavam à atenção, não porque acreditasse, mas porque não estava para contrapôr questões de fé e era mais fácil evitar certos atos do que chatear-me por causa deles.

Para meu grande azar o casamento é um ato recheado de superstições e tradições - a maioria delas parva e desnecessária, pelo menos para mim. Mas, para azar dos outros, o casamento foi também aquele acontecimento que eu tomei como mais meu; em que decidi deixar-me de medos e merdas, de opiniões, expectativas e desejos dos outros e fazer aquilo que de facto queria. Isto foi em grande parte impulsionado por tudo o que li nos vossos comentários, a maior parte dizendo que teriam feito isto e aquilo diferente (pois fizeram certas coisas por pressão dos pais, da família ou em nome da tradição) ou que, pelo contrário, não se arrependem um minuto de certa decisão que tomaram e que foi contra a vontade de todos. E o facto de não casar pela igreja é só a ponta do iceberg. Neste momento, todas as ideias que eu ou o Miguel tenhamos, parvas ou não, entram para a equação - e o que importa é que gostemos delas e que espelhem aquilo que somos. As opiniões alheias não passam disso: opiniões. Tenho ouvido muitas (e pedido outras, inclusivamente neste post), mas é nossa escolha ouvi-las ou não.

As tradições caem num saco em que eu ouço, mas não ligo. E, confesso, algumas dá-me até algum gozo contrariar. Vejamos:

Começa pelo facto de não se poder dormir com o noivo na noite anterior ao casamento. Oi?! Mas então eu vou dormir onde? Vou voltar a casa dos meus pais depois de um ano e meio a dormir com ele? A noite já será de certeza má, com o stress e a ansiedade, não é preciso estranhar a cama para ajudar à festa.

Isto faz com que nos vejamos na manhã do casamento, antes da cerimónia - o que, só por si, dizem que já dá azar. Uma chatice!

A ideia que a noiva tem de carregar "something old, something new, something borrowed, something blue" (traduzindo, "algo antigo, algo novo, algo emprestado e algo azul") é das que, apesar de igualmente parva, eu acho graça. Não vou trocar uma jóia que queira usar por uma outra só para cumprir com a superstição mas, a calhar bem, é capaz de ser a única coisa que me trará sorte neste casamento. E, pensando bem, a parte do antigo e do emprestado sempre implica alguma poupança - algo que, no que diz respeito ao casamento, nunca é de desprezar!

Pérolas. Não sabia, mas dizem também que a noiva deve usa-lás para uma casamento duradouro. Será por isso que tantas mulheres ficaram presas em casamentos infelizes durante anos a fio? Porque usaram pérolas e isso não deixou que se separassem? É que se o efeito é assim tão forte, prefiro não arriscar. (Mas, mais uma vez, nunca se sabe - tudo depende do vestido, que ainda não está sequer em fase de concepção).

E como a noiva não tem coisas suficientes para se preocupar, ainda tem de andar com uma liga pirosa na perna, a fazer comichão o dia inteiro, para depois o noivo (ou outra pessoa que pague - a sério que esta moda existiu?!) a ir tirar com a boca. É que é já a seguir!

Só para acabarmos com o tópico "beleza e roupa", falta a tradição mais enraizada de todas: o noivo e a noiva não podem ver as respetivas vestimentas até ao dia do casamento! Ou seja: a pessoa cuja a opinião mais me importa - aquele que quero agradar, a pessoa mais importante de toda a festa - é a única que não pode opinar. A pessoa a quem pergunto de manhã se estou bonita ou se a roupa me fica bem, não pode dizer nada sobre o vestido mais importante da minha vida. A pessoa a quem compro roupa e a quem dou sugestões de vestimenta é aquela que não posso acompanhar na prova. Faz tanto sentido, não faz? É como aquela lógica muita aplicada no nosso dia-a-dia... a lógica da batata, conhecem? Por mim, e se não fosse fazer a prova em horário de expediente, o Miguel vinha comigo. À falta disso, sobram as fotos, que já dão uma ideia mas sempre deixam o "wow" para o dia especial (embora o meu namorado fique sempre WOW num fato, quer seja em foto ou ao vivo).

Falta ainda outro clássico: ser "entregue" pelo meu pai ao meu noivo, qual mercadoria pronta a ser expedida. É muito provável que o meu pai me leve até ao altar, porque até agora não encontrei outra forma prática de fazer as coisas, mas já deixei tudo em pratos limpos: eu não sou propriedade de ninguém e não sou "entregue" a ninguém. Não vou deixar de ser de um para ser de outro. Não sou mais do Miguel a partir dali do que sou do meu pai. Serei sempre filha - mas posso não ser sempre mulher do meu noivo, embora espere que assim seja. Por isso não há nada que mude, a não ser o facto de ter uma aliança no dedo. Mas não seja por isso - estou sempre aberta a presentes do género por parte dos meus progenitores ;)

Há muitas outras que poderia falar e que não pretendo ter no meu casamento: a noiva chegar atrasada (porque faz parte dos princípios da boa educação, não é verdade?), o arroz atirado no fim da cerimónia (porque nestes dias a conversa do desperdício e de não deitar comida fora não é uma narrativa que interesse), os votos decorados por toda a população mundial ("na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe"), o lançar do buquet ou a abertura da pista de dança com uma valsa, seguida de uma dança com os pais e sogros. 

Porque da mesma forma que eu sei que não foi por ter usado um anel da minha avó que isto ou aquilo correu melhor, também sei que só há duas coisas que podem fazer com que este casamento acabe mal: eu e o Miguel. Não vai ser o facto de eu ver o seu fato ou ele ver o meu vestido, não vai ser por dormirmos juntos na noite anterior ou por eu não levar pérolas como adereço. Se o casamento correr bem e se formos casados até aos 90 anos, o mérito é nosso. Se um dia nos separarmos, a culpa é também nossa. Só muda o verbo, os sujeitos são os mesmos. E isso é independente de todas as tradições, superstições ou parvoíces que queiramos levar a cabo (ou não) num dia tão especial para nós. Da minha parte, eu passo. Se por ele estiver tudo bem - e porque, mais uma vez, só estes dois sujeitos importam nesta equação - tudo o resto é conversa. Literalmente.

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16
Mar21

Uma história com princípio, meio e sim 5#

!AJUDA DO PÚBLICO! O baile de um casamento pode começar de dia?

E assim se estraga o ritmo de escrita. Janeiro e a metade de Fevereiro foram um mimo, mas depois lá se foi tudo pelo cano. É quase paradoxal o estado de estagnação em que todos vivemos neste momento, comparando com o nosso estado de espírito; se por um lado me sinto também parada, inerte, com falta de fazer coisas, por outro estou cansada, extenuada como se andasse a mil à hora e o mundo estivesse a girar ao mesmo ritmo de há dois anos. É estranho.

E mais estranho ainda é estar a preparar um casamento neste ambiente. Apesar do processo não estar de todo parado, tudo o que é colossal está ainda em stand-by: eu não tenho vestido e ainda não fiz sequer a primeira prova com a pessoa que mo vai fazer; o noivo não tem fato (e ninguém tem coisas para vestir, de uma forma geral); ainda não voltámos à quinta depois da primeira visita, por isso ainda não decidimos nem experimentámos menus, nem conseguimos organizar a festa em si; e o casamento pelo civil, com todas as conservatórias fechadas, ainda nem sequer foi tratado. Por outro lado todos os detalhes mais pequenos já estão tratados ou escolhidos: alianças ainda não compramos mas já sabemos quais queremos, já temos cones de papel personalizados para colocar as pétalas, já temos caixinha para as alianças, alguns souvenirs, alguma decoração. Ah, e os convites! Muitos deles já foram entregues e, com a rapidez na resposta, não tarda nada e temos de nos atirar ao pesadelo de organizar as mesas.

Mas, neste momento, mais do que qualquer outra coisa, sinto-me muito preocupada com o planeamento da festa. Sinto-me uma incompetente ao tentar organizar um casamento - e uma festa - quando só assisti a dois casórios em toda a minha vida e nunca fui a festas ou entrei sequer numa discoteca. Pior: eu e o Miguel somos aqueles dois gatos pingados que ficamos sentados na mesa enquanto toda a gente faz a dança do quadrado em plena pista de dança, durante o auge da festa. Por isso a questão que se põe é: como é que esses dois seres, que neste caso são os noivos, vão realizar uma boa festa? Tenho muito medo que as pessoas saiam do meu casamento a pensar "que seca que isto foi"...

Aquilo que tenho feito é ouvir a opinião de pessoas conhecidas e que são, claramente, party people. Pessoas já calejadas em festas e casamentos, que sabem o que resulta ou que, pelo contrário, faz com que existam momentos mortos. Não sei quanto a vós, caros leitores, mas se também se encontram neste leque de pessoas que gostam de abanar o capacete (ou se simplesmente tiverem uma opinião pertinente a dar), ajudem aqui esta alma perdida.

Vou casar a um domingo. O casamento vai começar cedo, antes do almoço, de maneira a que aproveitemos bem o dia e que quem quiser sair cedo, de forma a poder estar acordado e decente para trabalhar no dia seguinte, o possa fazer. Isto não quer dizer que o casamento tenha de acabar à 1 da manhã obrigatoriamente; o que quero é que as pessoas que têm que sair a essa hora sintam que se divertiram e que aproveitaram todas as fases do casamento devidamente. Que partilharam um momento feliz connosco, que comeram, beberam e se divertiram à fartazana, mesmo que a festa não se alongue pela noite dentro. 

O plano é: casar - acepipes e fotos - almoço - corte de bolo - abertura de pista - jantar - continuar a dançar. A questão aqui é que a abertura da pista, a correr como planeado, vai ser durante a tarde - e aquilo que me parece é que as pessoas acham estranho dançar de tarde. Eu nunca fui de dançar - e, como tal, é-me indiferente fazê-lo de manhã, à tarde ou à noite. Mas há uma mística qualquer em relação à noite que eu desconheço e que deve também ter que ver com a bebida (que, só por acaso, eu também não consumo). 

No meio de todo este processo dizem-nos sempre que o casamento é nosso e que devemos fazer como acharmos melhor. Mas, por outro lado, também nos dizem que apesar de sermos nós a casar, a festa é para os outros. Dá-se uma no cravo e outra na ferradura, basicamente. Eu sei bem que este é o nosso casamento e tenho feito um esforço muito grande para o fazer à minha medida, sendo que planeio ignorar à grande algumas tradições amplamente implementadas. Mas a verdade é que seria impensável fazer isto totalmente à nossa visão: se assim fosse não haveria necessidade de haver álcool envolvido nem faria sentido haver pista de dança, pois nenhum de nós tem na dança um entretenimento. Por mim organizava a festa como faço (ou idealizo) um Natal ou um ajuntamento de família e amigos: com música, muita conversa e jogos de tabuleiro à mistura. Mas cedemos a algumas coisas porque é um casamento, porque faz sentido e há coisas que para todos os efeitos são obrigatórias para que todos estejam felizes e confortáveis - acho que seríamos linchados se, em vez de champanhe para brindar, puséssemos champomy porque nenhum de nós bebe álcool, não é?

A questão aqui é: qual a linha que separa as coisas "obrigatórias" das outras em que podemos mexer? Faz-vos confusão o baile ser de dia (ou pelo menos parte dele?? Qual é a mística que se perde? O que faz de um casamento um BOM casamento? Ajudem!

 

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08
Fev21

Uma história com princípio, meio e sim 4#

Casar em casa ou numa quinta?

Este post podia chamar-se "a segunda grande - ou gigante, vá - cedência".

Se eu um dia casasse, iria fazê-lo em casa. Foi essa a premissa com que cresci, embora durante muitos anos casar não estivesse na equação. Quando me juntei ao Miguel e se começou a ver a seriedade da coisa, o meu pai relembrou-me: se te casares, casas aqui! E, neste caso, eu partilhava da sua vontade.

O meu irmão - o único casamento "a sério" na minha família nos últimos 25 anos - casou numa quinta, mas a verdade é que, principalmente do lado do meu pai, sempre houve a tradição de se fazer casamentos e festas de grande calibre dentro de portas. A minha avó já estava calejada, com vários casamentos, batizados e comunhões celebrados na sua casa, que era bem mais pequena que a nossa. A minha própria festa de batizado foi lá - e dizem que foi tudo óptimo! Também os meus sobrinhos tiveram a sua festa de batismo em casa dos meus pais - montou-se uma pequena tenda, contratou-se um serviço de catering e estava a festa pronta. Foi a primeira que fizemos e a que recorremos a serviços de fora, montagem de infraestruturas e etc., mas correu tudo bem e ficou-se com a ideia de que era uma coisa viável para se repetir.

Mas se no batizado dos meninos éramos uns 60, no meu casamento poderemos chegar aos 170. Mal soube deste número liguei ao meu pai, que tem uma noção de espaço bem melhor que a minha, já com a pergunta na ponta da língua: "é possível pôr está gente toda lá em casa?". Ele respondeu que sim. Um alívio!

E aí começamos a pensar na logística da coisa: onde seria o copo de água, a cerimónia, o espaço de dança; já tínhamos uma ideia mais ao menos concreta e contactamos empresas de aluguer e montagem de tendas e pedimos orçamentos. Quando começamos a olhar para os espaços fomos colocando "e se's". Haviam sempre detalhes que não nos agradavam ou que não eram exequíveis - ou, quando eram, aumentavam os preços de forma louca. É engraçado pensar que uma casa pode ser enorme, mas que por vezes nenhuma área se adequa perfeitamente àquilo que precisamos ou idealizamos; a ideia era fazer tudo no exterior, com recurso a tendas, mas a certa altura tudo se complicou - ora porque havia árvores no meio, ora porque o chão não estava nivelado, ora porque havia elementos que iriam ficar no centro dos espaços e que não eram possíveis de remover... um sem fim de coisas. Depois partimos para outros problemas: e as casas de banho, como era? Utilizavam-se as dos quartos? E o catering, onde ficaria, tendo em conta que queriam água, fogões, fornos e coisas que tais? E os cães, onde ficavam? Podiam estar presos, mas iam ladrar a cerimónia inteira... E os meus pais, onde dormiam naquela noite perante todo o barulho? E se os vizinhos se queixassem? E se a tenda ocupar o espaço de passagem dos carros, como é que se vai passar para o interior? E quem vai limpar a bagunça toda depois da festa?

Fui vendo as pessoas a desistir uma a uma perante os entraves que iam aparecendo a cada ideia que tínhamos. Eu fui a única que me mantive firme na minha vontade. Sabia que ia dar mais trabalho. Sabia que ia ocupar mais tempo. Sabia que ia custar mais caro. Mas era o meu casamento e ia ser único - não ia haver fotos no mesmo sítio que 356 casais, não ia haver protocolo definido, não ia haver um igual. A ideia do controlo e da flexibilidade total das coisas deixou-me agarrada até ao último minuto. Queria muito poder escolher tudo, desde as coisas mais macro (onde montaríamos as tendas e a própria data do casamento) até aos detalhes mais micro (as flores, toda a decoração, o altar). O paraíso de qualquer control-freak.

Iam-me dando sempre conselhos em contrário, com argumentos muito válidos. O mais relevante de todos era de que um casamento em casa iria dar mais trabalho e custar mais dinheiro do que um numa quinta, onde tudo estará pronto sem termos de nos preocupar com o antes, o durante e o depois. E eu sabia que sim, mas continuava agarrada à ideia de casar em casa, embora o saco dos contras fosse pesando cada vez mais nas minhas costas.

Acedi a ir a uma quinta sob o mote de ter noção dos preços praticados e para tirar ideias em relação a toda a organização (tanto em termos de timings como de espaço) - mas sabia que, lá no fundo, aquilo era o princípio do fim do meu casamento de sonho. Apercebi-me disso mal nos metemos no carro, após a primeira visita, e toda a gente se mostrou deslumbrada com o espaço, enumerando todas as coisas maravilhosas de que gostaram. Só eu é que tinha uma lista maior de contras do que de prós - e fiquei tristíssima quando percebi que o meu casamento ia mesmo acabar por ser mais um num calendário cheio deles, igual a todos os outros, nos moldes em que outras pessoas o queriam.

Sem saber muito bem como, a partir da visita àquele primeiro espaço, comecei num sprint de quintas que só terminou no último dia de desconfinamento - e já com uma quinta escolhida. Foram cinco dias de loucura pura, de um cansaço horrível e de um processo de luto do meu próprio ideal de casamento... que foi triste e duro para mim. 

Sei que a decisão foi para bem de todos e não estou arrependida - mesmo ainda não tendo o casamento acontecido. Para mim os problemas não eram o trabalho nem o dinheiro - mas coisas tão simples como o conforto e a paz dos meus pais (e dos meus cães) e o fator de instabilidade que o processo iria criar em todos nós. Gosto da quinta que escolhemos - tanto pelo espaço como pela flexibilidade que me proporcionam, que me traz de volta um bocadinho da sensação de controlo que tanto gostava num casamento em casa - e acho, no fundo, que tomamos a decisão certa. Mas as decicões certas também doem.

01
Fev21

Uma história com princípio, meio e sim! #3

Casar pela igreja? It's a no for me!

O casamento pela igreja era uma não-questão. Isto porque era daquelas que, para além de saber bem aquilo que queria, era também dos tópicos em que eu não iria ceder (isto tendo em conta o noivo que tenho; se fosse alguém extremamente devoto, a história poderia ser diferente).

Se há coisa que eu prezo na vida é a coerência - foi assim que fui ensinada e é algo que gostaria de manter. Se é verdade que as pessoas mudam, também o é que não mudam assim taaaanto. A minha parca ligação com a igreja é algo constante - em nenhuma fase da minha vida fui praticante ou tive um contacto mais presente com a religião. Sou batizada mas, para além disso, só pus os pés em igrejas para funerais e casamentos (nunca fui à catequese). Costumo dizer que sou católica pela cultura que tenho e pelos princípios com que rejo a minha vida - a preocupação com o bem do próximo, a solidariedade, etc.

Tenho fé - mas não é algo que caiba dentro dos "parâmetros" normais, justificada por um Deus. Não a encontro em locais de cariz religioso. A minha fé materializa-se no acreditar numa qualquer forma de perpetuação das pessoas que já partiram e que fizeram parte da minha vida; sinto a sua presença em pequenos detalhes do dia-a-dia, e em mim própria, em várias ocasiões... e é nisso que acredito. Mas, para mim, isso em nada tem que ver com a igreja. 

Diria até que, ao nível da igreja-instituição, a minha relação tem-se vindo a degradar. A ideia dos peditórios, dos dogmas, das ideias fixas e pouco flexíveis e os escândalos afastam-me cada vez mais desse tipo de práticas.

O curioso é que embora sempre tenha gostado de marcar a minha posição, a religião é um tema muito sensível, sobre o qual tive dificuldade em impor o meu ponto de vista numa fase inicial da minha vida. Apesar de nunca ter sabido qualquer tipo de reza, não gostava de estar calada numa igreja onde todos pareciam saber os cânticos e os rituais; tinha a tendência de mexer os lábios para dar a ideia de que estava a dizer algo e procurava manter um ritmo natural daquele levanta-senta chato a que somos submetidos em todas as missas. Cheguei até a fazer uma leitura no funeral da minha avó e a andar com o cestinho a fazer a recolha das dádivas! E esse foi o ponto de viragem.

Aquela não era eu. Nunca fiz parte de grupos e nunca me preocupei por não fazer parte de um rebanho - pelo contrário, sempre me orgulhei disso. Porque é que ali, naquele sítio, tinha de ser diferente? Porque é que tinha de fingir saber fazer algo que de facto não sabia? Porque é que tentava fazer parte de algo que não me dizia nada?

Deixei de me benzer quando entro numa igreja. Deixei de mexer os lábios durante a missa. Deixei de me sentir pressionada naquele ambiente tão cheio de rituais e aceitei que não os sabia. Sento-me e levanto-me à medida que os outros o fazem e não me importo de ser a última a fazê-lo. Recusei fazer uma leitura no funeral do meu avô. Porque se é para ser coerente, é para o ser em toda a linha. 

Por isso, relativamente ao casamento, não é preciso dizer nada, pois não? Se nunca fui praticante, porque me havia de casar pela igreja? Por ser bonito? Por ter um altar? Por ser costume? Não.

Não me esqueço de algo que o padre que celebrou o casamento do meu irmão lhe disse. Podendo falhar-me aqui alguma coisa na sua narrativa, a ideia é que hoje em dia só vamos à igreja em três ocasiões, transportados pelos 3 C's: primeiro por um carrinho, quando somos batizados; depois de carrão, quando casamos; e por fim de carrela, quando morremos. Eu quero ser coerente e quebrar este ciclo. Quando fui batizada não tive escolha (e, honestamente, não é algo que me afete) - mas hoje, adulta, acho que devo ir de encontro às minhas crenças e as minhas práticas (ou, neste caso, à falta delas). Se não frequento a igreja no dia-a-dia, também não me faz sentido lá ir num dia que para mim é tão importante.

Nos dois casamentos a que fui, ambos os padres, de diferentes paróquias, fizeram menção a esta hipocrisia em que todos vivemos mas que fazemos questão de assobiar para o lado de cada vez que nos toca a nós. Que devíamos frequentar a igreja no dia-a-dia, não só nestes dias especiais; que as igrejas não eram só para este tipo de celebrações. E a verdade é que estão corretos - estão a pedir coerência.

Aqui entre nós, devo confessar que quando vejo aquelas fotos dos noivos de joelhos no altar, compenetradíssimos nos seus pensamentos, penso para mim: "será que eles estão a fazer o que eu faço durante a missa inteira? A pensar o que vou fazer para o jantar durante a próxima semana ou que emails ainda tenho por responder?".

No dia do meu casamento eu quero ser feliz - e isso implica, provavelmente, quebrar tradições e fazer o menor número de fretes possível. Não quero uma celebração chata, num local que não me diz nada para além da sua beleza arquitetónica e regida por alguém que acha ter em si a palavra de um Deus em que não acredito. No meu casamento eu quero ser eu. E, como tal, a igreja nunca esteve na equação. 

 

casamento igreja.png

 

25
Jan21

Uma história com princípio, meio e sim! #2

Família, família - convites à parte?

Lembram-se de ter dito que a minha cabeça ficou assombrada com problemas no momento em que me apercebi que ele me ia pedir em casamento? O maior tinha um nome: C-O-N-V-I-D-A-D-O-S.

Não fui a muitos casamentos na minha vida; se tudo correr bem, o meu será o quarto. O primeiro foi o do meu irmão, em que fui uma menina das alianças muito mal humorada; o segundo foi o de uma prima do Miguel e o terceiro, já em época covid, foi de uma antiga colega de escola - a primeira a casar! No primeiro houve claramente coisas de que não gostei, tendo em conta a minha cara de mal-disposta em 99% das fotografias - mas, devido à minha tenra idade à época, não me lembro ao certo do que foi (sei que não ia com a cara do fotógrafo, mas também não sei o porquê). No segundo e no terceiro, já crescida e com a possibilidade bem presente de um dia poder vir eu a casar, estive muito atenta aos detalhes e fiz um esquema de tudo o que gostei e não gostei em cada um deles - e as coisas que me desagradaram estão a ter uma importância imensa na preparação do meu casamento, na medida em que quero fazer precisamente o contrário! Acho que muitas vezes, mais importante do que saber aquilo que queremos, é saber o que não queremos - e nisso, apesar da minha parca experiência, eu estou muito bem preparada.

A questão dos convidados não é nova, pois na verdade sempre achei estranha a ideia de se convidarem pessoas que mal se conhece para um dia que supostamente é tão importante quanto íntimo. Mas foi no casamento da prima do meu namorado que me caiu a ficha. No momento da saída da igreja, em que toda a gente cumprimenta e abraça os noivos, eu dei por mim a dar beijinhos a dois completos desconhecidos e a desejar-lhes as maiores felicidades. Sim, eu era a recente namorada de um primo - mas o primo, o Miguel, não a conhecia muito melhor que eu. E se aquele momento para mim foi estranho, eu imagino para os noivos: com gente a toda a volta, uma confusão do catano, e pessoas que nunca viram na vida a darem-lhes os parabéns e desejos de muitos anos felizes. Se na altura do copo de água, na voltinha pelas mesas, ainda se consegue falar com as pessoas com mais calma e fazer crescer mentalmente árvores genealógicas  ("ah, esta é a namorada do meu primo, que é filho da irmã do meu irmão"), no momento da saída da igreja imagino que seja só o caos total e completo.

E, nessa altura, eu decidi: não queria desconhecidos na minha festa. E ao querer isso eu sabia que ia ter de bater o pé a muitos argumentos e, eventualmente, criar guerras familiares.

 

"Mas se são os pais que pagam o casamento, eles também têm direito a convidar as pessoas de quem eles gostam".

 

"O casamento pode ser vosso, mas também é o casamento de um filho/a; não é um momento só vosso, é deles também".

 

"Nós temos de convidar a pessoa X porque ela também nos convidou para o casamento do filho deles."

 

A todos estes argumentos eu tive resposta pronta na língua. A única coisa com a qual não sabia (nem podia) argumentar é a questão da igualdade de direitos. E esta é mais profunda do que parece. O que eu verdadeiramente queria para o meu casamento é que as pessoas que são importantes para mim e para o Miguel estivessem presentes. Mas logo aí começam a surgir problemas: primeiro há pessoas que se incluem no grupo de quem faria convidar mas que, por uma razão ou por outra, um de nós não teve oportunidade de conhecer - o que já "invalidaria" a sua presença, caso não quiséssemos abrir exceções; segundo, existiriam pessoas dentro da própria família que podia não fazer sentido convidar, uma vez que a relação não é a mesma com todos. E aí vem outro argumento:

"Mas não podes convidar um primo e não convidar outro! Isso não é justo. E ela/e vai ficar chateado - e a tia/o também..."

Mas ainda só estamos a ver as coisas pela rama... O problema central é bem maior e está na diferença de relação que eu e o Miguel temos com as nossas famílias não-nucleares. Do meu lado juntamo-nos no Natal, no Ano Novo, nos aniversários, no São João, no São Martinho e em todos os eventos que achemos pertinentes ao longo do ano (desfolhadas, campismo a e etc). São mesas sempre cheias, com barulho e animação consecutiva, às vezes mais do que uma vez por mês (em alturas não-pandémicas, entenda-se); do lado dele... nada. Há pouca ou nenhuma relação com outros núcleos familiares: tios, primos e derivados. E se o meu critério fosse para a frente, iria resultar na minha família presente em peso e a família do Miguel reduzida a meia dúzia de pessoas. E isso até para mim me parece injusto. No pior dos casos considero-o mesmo egoísta.

Como se tudo isto não bastasse, há ainda outro critério que piora as coisas: quando falo em "pessoas desconhecidas", não seriam oito ou dez. Nenhuma das nossas famílias é pequena (excluindo a do meu pai) e, convidando toda a gente - família nuclear, irmãos de pais e mães, e seus respetivos cônjuges e filhos, que eventualmente também já podem trazer parceiros e até filhos - a ideia que eu tinha é que teria de alugar um descampado, de tanta gente que seria.

A minha convicção era tal que cheguei a considerar mesmo a hipótese oposta: não convidar ninguém a não ser o núcleo familiar. Mas aí ficariam de fora pessoas que também são importantes.

Portanto tinha uma escolha a fazer: ou prescindia de pessoas que queria presentes ou cedia e convidava outras que nunca vi na vida. Foi por isso essencial elaborar uma lista - que foi das primeiras coisas que fizemos mal começamos a pensar em como e quando é que organizaríamos o casamento. Fizemos aquilo que chamamos o "pior cenário possível". Ou seja: se convidássemos todaaaaaa a família e todaaaaaa a gente aceitasse (aqui também já incluímos amigos), quantos seríamos? A resposta, para mim que esperava um número astronómico, foi apaziguadora: 170.

E foi aqui que fiz a primeira grande cedência no meu casamento: sem o argumento dos números - porque não queria um casamento com 300 pessoas - e tendo em conta que não seria justo ter um casamento praticamente só com a minha família, aceitei convidar toda a gente. Mesmo quem não conheço. Acima de tudo por ao amor e respeito ao Miguel e à sua família direta. Porque o casamento é isto: cedências, amor e respeito. E começa ainda antes da festa.

 

wedding-guest-list-8-little-changes-thatll-make-a-

 

Nota: a rubrica "Uma história com princípio, meio e sim!" tem como objetivo ir relatando acontecimentos e decisões que vão acontecendo ao longo do tempo de preparação para o casamento. A ideia não é contar as coisas à posteriori (a não ser detalhes mais específicos do própria dia, assim como fornecedores e coisas do género) - é mesmo captar os meus sentimentos e pensamentos à medida que os vou tendo, mesmo quando ainda não há decisões tomadas ou concreta. Neste caso específico a lista de convidados já está elaborada mas os convites ainda estão no forno. Mas o processo para lá chegar já teve muito trabalho envolvido... como se percebeu ;)

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