Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

02
Jun18

Hoje em dia é tudo instagram

Carolina

Acabei o último post dizendo que não havia instabooks. A verdade é que não me dei ao trabalho de procurar, esperei simplesmente (e esperançosamente) que eles não existissem - porque, hoje em dia, existe tudo o que é passível de ser “instagramável”, que é como quem diz “tudo o que fica bem na fotografias”. O que tem tanto de bonito como de fútil.

Pensei muito nisto no Brasil, onde o meu primeiro momento de “pânico” na viagem foi quando achei que ia integrar uma comitiva de instagramers, bloggers e influencers. Percebi que o hotel estava pejado delas logo no primeiro pequeno-almoço, quando uma rapariga passou cerca de vinte minutos a tirar fotos aos seus pratos e a fazer instastories de todo o material comestível disponível no buffet. Quando eu digo vinte minutos, foram mesmo vinte minutos: ao ponto de nem sequer chegar a vê-la comer! Mexia um prato, trocava outro, tirava a foto de 47 ângulos diferentes, fazia zoom in e zoom out... e nisto o café já devia estar frio. Notei também devido à presença constante de câmaras e de telemóveis e, claro, pela forma como elas se vestiam só para ir comer, demonstrando que não eram pessoas da mesma "classe" que todas as outras presentes na sala. Entre maquilhagens e vestidos esvoaçantes, tenho a certeza que passavam mais tempo a arranjar-se para ir comer antes de ir para a praia do que eu costumo demorar antes de ir para um qualquer evento de maior importância - o que é indiferente, desde que elas gostem... mas que não deixa de ser uma prisão para elas, porque Deus-me-livre de ir tomar o pequeno-almoço com o cabelo apanhado e as olheiras de quem acabou de acordar! Não vá alguém pedir uma foto, claro! ;) E foi por isso com o maior alívio que eu percebi que não ia andar com elas no evento. Se me senti desintegrada com os três jornalistas que me acompanharam nesta viagem, se tivesse de andar com elas sentir-me-ia pior que o patinho feio durante quatro dias. 

A situação mais caricata que vivi durante aqueles dias foi numa das minhas manhãs na praia. Estava deitada a ler o meu livro na areia e surge um grupo destas raparigas, em conjunto com um fotógrafo, prontas para uma sessão fotográfica. Uma vem educadamente falar comigo e diz: "olá, desculpe incomodar! Posso pedir um favor a você?". Respondi que sim. "Pode emprestar o seu livro, para tirar uma foto?". Eu não sei precisar a minha cara naquele momento, mas deve ter sido engraçada. "S... sim." E entreguei o livro de João Pinto Coelho à brasileira, que prontamente se deitou na espreguiçadeira, abriu a obra em parte incerta e fingiu ler com muito afinco. Uma série de disparos depois, vem entregar-mo, rematando: "ao menos o livro é bom?". "Muito bom", disse-lhe, esperando que ao menos fizesse boa publicidade ao livro de um autor português. (Poupo-vos a pergunta: apesar dos meus esforços em encontrar a blogger em questão e a foto em particular, as minhas pesquisas foram infrutíferas).

Toda esta necessidade de tirar fotos para ficar bem e parecer melhor mexe-me um bocadinho com as entranhas. Não é só tornar a realidade mais bonita do que aquilo que ela é: trata-se de mentir mesmo. Eu tenho noção de como é que tudo isto funciona e estava lá nesta situação em particular - e em todas as outras, enquanto comiam os seus próprios cabelos esvoaçantes à medida que andavam sensualmente pela praia, quando o mar lhes dava chicotadas nas costas e elas pareciam estar a saborear o cheiro a maresia ou em puros momentos de narcisismo ou mesmo má-educação, enquanto tiravam selfies a meio dos desfiles. Mas a verdade é que muita gente não sabe disto - principalmente as miúdas mais novas, que acham que os pequenos-almoços são sempre incríveis, que aquelas pessoas que seguem têm tempo para ser lindas, bonitas e cultas ao ponto de até lerem na praia, pensando que tudo é um mar de rosas.

A verdade é que hoje em dia é tudo para o Instagram. Eu vejo aqueles fatos de banho com 59 fitas espalhadas pelo corpo e sei que nenhuma influencer que se preze quer ficar com aquelas 59 marcas no corpo; sei que são fatos-de-banho para a foto. Vejo aquelas agendas com frases inspiradoras e percebo que são apenas para "flatlays" perfeitas. Reparo naqueles saltos assustadoramente finos e sei que a foto deve compensar a dor nos pés ao final do dia. E vi muitas, muitas vezes todos aqueles sorrisos momentâneos, enquanto a câmara se apontava para elas, e que se desvaneciam imediatamente quando olhavam para o ecrã, já com o dedo pronto para retocar e esconder qualquer imperfeição.

Esta rede social ganhou uma dimensão ainda mais irreal do que o facebook, na medida em que tudo tem de ser bonito e perfeito; em que não só as fotos são 100% cuidadas como o próprio feed é mexido com muito carinho e amor, qual bonequinho de porcelana. Acho incrível - no bom e no mau sentido - como é que alguém tem paciência para prever o seu feed antes de publicar uma foto, só para perceber se o "conjunto" fica bonito e coerente. Porque, aparentemente, a vida para estas pessoas é isto: a beleza de tudo, em tudo. E eu não acho mal que se veja o bright side of life. No meio das minhas pesquisas para encontrar a blogger-do-livro, deparei-me com fotos incríveis da praia e do resort onde estive e pensei "bolas, aquilo era assim tão bonito?". De facto elas tornam o banal em algo incrível, transformam o bonito em tendência. Mas, pelo meio, espelham uma vida irreal que (mesmo inconscientemente) todos acabamos por ter como referência: porque queremos aquele pequeno-almoço completo e de aspeto delicioso, queremos um rabo sem estrias, queremos os biquinis mais giros do mercado, queremos aquela maquilhagem perfeita, queremos as viagens, queremos aquele carro XPTO, queremos o relógio em promoção, queremos um fotógrafo que nos tire aquelas fotos bonitas. Só nos esquecemos que a vida é também tudo o resto. Tudo o que não é instagram. Se calhar, tudo o que é de mais real. Basta pensar num cozido à portuguesa: pouco bonito e fotogénico, mas delicioso e autêntico. E a verdade é que há um mar de coisas estilo cozido à portuguesa espalhadas por aí.

30
Mai18

Desculpem, mas preciso de falar sobre a eutanásia

Carolina

tumblr_p4tysetEIk1qzr04eo1_500.jpg

 

Nunca fui muito de pensar na morte. Desde muito pequena que é um assunto que me perturba muito, pela perda e pela incerteza do que vem a seguir, pelo que é algo que eu conscientemente evito pensar. Mas, curiosamente, a eutanásia e a morte assistida sempre foram dois temas que me interessaram e, depois do chumbo de ontem no parlamento a propósito deste tópico, senti urgência em escrever. Já há muito que evito temas polémicos, mas dei por mim a não adormecer à noite por estar perturbada com o assunto.

Isto porque não consigo conceber o porquê de tanto drama à volta disto. À parte de questões de regulamentação, legislação e afins, este devia ser um problema “simples”. Mais simples que o do aborto, por exemplo! Não se trata de uma sentença de morte, de uma decisão dos outros: é uma decisão nossa, sobre a nossa própria vida, quando ela muitas vezes já nos tirou os meios de fazermos o que quer que seja com ela. É um direito, devia ser uma liberdade - tal como é liberdade eu decidir ir jantar fora e comer quatro hambúrgueres, tal como sou livre de fazer um piercing ou laquear as minhas trompas (puristas dirão que estou a mutilar o meu corpo - e no entanto eu posso faze-lo). É o meu corpo, a minha vida. E, em situações normais, eu sou também livre de acabar com ela. Sou livre de me atirar da ponte, de tomar 40 comprimidos de uma vez, de cortar os pulsos. Quem não é livre são aqueles que, por doença, já há muito estão presos no seu próprio corpo e não podem tomar nenhuma destas decisões. Por estes dias, só estamos a confirmar o quão enjaulados eles estão nos próprios corpos, que já não estão em condições de carregar almas.

Todo o ruído que se ouve em volta deste assunto agonia-me. Em alguns casos enoja-me. Dizerem que o Serviço Nacional de Saúde serve para curar e não para matar é simplesmente ídilico - morrem todos os dias centenas de pessoas nos hospitais, muitas vezes em condições degradantes, e ninguém se preocupa com isso. Pergunto-me quantos médicos já terão praticado "a eutanásia", por mera misericórdia (e a pedido desesperado dos doentes, claro), mesmo sabendo que não podiam; por terem percebido que aquele voto que fizeram sobre salvar a vida de alguém já estava totalmente inválido naquele caso; por respeito pela dignidade humana, por pena de um ser em sofrimento, por verem que não há mais vida ali para ser vivida. Eu desconfio sinceramente que muitos já o terão feito.

A argumentação dos cuidados paliativos passa-me ao lado - estes devem ser melhorados, trabalhados e fomentados (força nisso!), mas não deviam ser a única alternativa quando estamos em fase terminal. É um caminho diferente, paralelo. Há dores que a morfina não tira - em particular a dos outros, que sofrem com o doente - e há pessoas que não querem chegar àquele estado de degradação. Porque é que temos simplesmente de aceitar o nosso destino, se sabemos que ele vai ser miserável e vai causar sofrimento não só a nós, mas também aos nossos? Temos de esperar pela decisão de Deus - esse, que eu e tantos outros não acreditamos que existe? 

O que aconteceu ontem entristeceu-me profundamente. Porque conheço casos, porque acho que nesta situação me consigo pôr no lugar do outro, porque já desejei que um ente querido morresse para não o ver sofrer mais e porque sei que não estou livre de um dia uma destas situações me bater à porta. Nem eu, nem ninguém. E eu acho que todos aqueles deputados que ontem votaram não, se um dia se virem em situações onde eles próprios ou os seus passam o dia com dores crónicas, diarreias constantes, bacias constantemente atestadas com vomitado, algálias enfiadas em sítios que não queriam e toda a sua qualidade de vida anulada e confinada a uma cama, vão pensar no momento em que tomaram essa decisão. E no egoísmo que foi e no sofrimento que se podia poupar a tantos, que vão ter de continuar a esperar. A esperar pela sua morte ou esperar que a sociedade mude de ideias em relação ao que fazer sobre a vida de cada um de nós. Que hipocrisia, acharmos que podemos mandar assim na vida dos outros.

(A sorte deles - e a nossa sorte - é que agora é uma questão de tempo até isto mudar. Tal como mudou com o aborto. Tal como mudou com o casamento gay. Porque, cada vez mais, cada um sabe de si. Graças a Deus! - irónico, não é?)

01
Mai18

Quando é que devemos parar de esperar pelos outros?

Carolina

Acho que nunca cheguei a publicar um texto que há tempos escrevi sobre o facto de ter medo de não estar a "viver a vida" - aquela expressão que, em jovens, todos ouvimos vezes sem conta. "Vive a vida!", dizem-nos os mais velhos enquanto olham o horizonte, claramente revivendo momentos da sua juventude... ou então pensando em tudo aquilo que não fizeram e queriam ter feito.

Isto aterroriza-me. Há um medidor de vivências? De qualidade de vida? Será que o pessoal que curte ao máximo a vida universitária - entre praxes, festas, bebedeiras e queimas - viveu mais do que eu, que não gosto de nada disso? Será que se eu me tivesse obrigado a presenciar isso tudo faria de mim uma pessoa mais feliz (que, ao fim e ao cabo, é o objetivo de estarmos vivos)?

Este conceito confunde-me muito, mas também me atemoriza. Não pelo que não vivi (porque já lá vai e tenho a certeza que aquilo que preenche o conceito de "viver a vida" da maioria, não corresponde ao meu), mas pelo medo que tenho de não viver. Porque por um lado sou nova e tenho a vida pela frente; emas também porque por outro sou nova e é aqui, nesta fase, que o melhor da vida acontece.

Isto - e o facto de estar numa fase altamente contemplativa - tem-me colocado inúmeras questões. Nem eu sei o que é "viver a vida", mas penso que para além de tudo aquilo que já tenho e que é essencial (que em linhas gerais se pode descrever como saúde, família e trabalho) acho que, para mim, tudo o que me faz sentir mais viva, feliz e inspirada é viajar e ouvir espetáculos ao vivo. E por isso comecei a fazer contas e a pensar: "se eu quero viver a vida, é isto que tenho de fazer". O próximo verão em particular pareceu-me  a altura ideal para pôr isto em prática, uma vez que, se tudo correr planeado, terei tempo e dinheiro no bolso. Mas rapidamente me apercebi que faltava só um detalhe nesta equação: as pessoas.

Este "detalhe" não é de hoje, é mesmo algo transversal na minha vida (lembro-me de ter doze anos e jogar monopólio sozinha, porque não tinha com quem jogar) e também um tanto ao quanto paradoxal: sei que não posso viver sem os outros, não quero viver sem os outros, mas também preciso de uma quantidade muito maior que o normal de tempo só para mim.

Já há muito que aceitei o facto de ser assim - o que não quer dizer que lide bem com isso todos os dias, até porque diariamente são-nos impostos novos desafios e as coisas vão modificando. Até aqui todos me diziam para esperar, que com as diferentes fases viriam novas pessoas e que tudo acabaria por surgir naturalmente. Mas acho que se enganaram, provavelmente por o defeito não estar nos outros, mas em mim. Não fiquei com muitos amigos do secundário, fiquei com ainda menos da faculdade e do trabalho também não tenho ninguém que leve de férias. 

E, se pensarmos bem, as duas coisas que destaquei como o meu sinónimo de "viver a vida" fazem-se, normalmente, com companhia. Companhia que eu, normalmente, não tenho. Por isso, olhando para o quadro geral de tudo o que quero fazer, dos "anos de ouro" que tenho pela frente e para as poucas pessoas que tenho no meu caminho, pergunto-me: vale a pena continuar a esperar? Vou continuar a não ir a concertos como o do Sam Smith porque não tenho ninguém que goste das músicas dele? Vou deixar de ir ao cinema à noite porque não tenho ninguém que queira sair do sofá? Vou esperar que o teatro do Harry Potter em Londres acabe porque os meus pais ficam com o coração nas mãos por eu viajar sozinha? Vou deixar de ir à Islândia porque ninguém tem dinheiro para lá ir? 

Sempre tentei que esta minha péssima característica (a solidão crónica) nunca me impedisse de fazer as coisas de que gosto. Da mesma forma que, em miúda, peguei no tabuleiro do Monopólio e comecei a jogar sozinha, também aprendi a relaxar, pegar no carro e ir ver um filme sem ninguém. Mas estou a chegar a uma fase em que sinto que preciso de passar uma linha que, até agora, restringia as atividades a fazer em grupo. É estranho ir a um concerto sozinha. É estranho viajar sozinha. É estranho ir experimentar um restaurante novo sozinha. É estranho para mim e é terrível para os meus pais que sofrem por tudo isto. Mas até quando é que é suposto eu esperar? Quando é que é aceitável eu atirar a toalha ao chão, aceitar que é assim, que sou assim, e que isto não deve mudar? Quando é que eu devo parar de esperar pelos outros para viver a minha própria vida?

29
Abr18

A moda mede-se aos palmos

Carolina

Já há vários anos que prefiro fazer compras online do que em lojas físicas. Tudo nos espaços "reais" me cansa: a música alta, os amontoados de roupa, os "estímulos" vindos de todas as formas, cores e feitios, ter de encontrar o meu tamanho no meio de 32 peças expostas (ou então ter de esperar que vão buscar a peça ao armazém), as filas para pagar, as luzes dos provadores que me deixam lívida, gorda e com olheiras tipo panda, as pessoas à minha volta, o excesso de escolha... enfim. Acho que tudo, honestamente. 

Há dois anos para cá devia fazer cerca de 80% das minhas compras de forma virtual. Não punha os pés nas lojas, excepto para devolver essas mesmas roupas que tinha comprado. E foi esse "detalhe" - o de constantemente devolver as roupas - que fez com que a percentagem de peças que compro online reduzisse de forma considerável e eu voltasse às lojas, ainda que de forma muito relutante. Porquê? Porque a moda tornou-se desproporcional e inconstante e as marcas não conseguiram traduzir a experiência real para o online. 

O quê que isto quer dizer? Que já não há roupas que sejam feitas para se ajustar ao corpo, para cair bem; são feitas para um determinado estilo - ou largo, ou boyfriend, ou girlfriend, ou reto, ou skinny, ou sei lá mais o quê. O tamanho M de uma camisola pode ser igual ao tamanho XS de outra. E por isso costumo dizer que agora a moda se mede aos palmos. O conceito de culottes ou de corsários já mal existe: isto porque agora 80% das calças são para ser usadas acima do tornozelo - falta-lhes um palmo de tecido em baixo. As camisolas da moda, "cropped", ficam a meio do umbigo - algo compensado pela largura imensa da camisola, onde quase dá para meter dois torsos lá dentro - um palmo a menos num sítio, um palmo a mais noutro. Isto para não falar de conceitos híbridos como camisolas caviadas mas com gola alta, onde a medição de "palmos" já nem se aplica.

Se este estilo de moda é mau? Para se manter durante todo este tempo, não deve ser considerado mau pela maioria. Já eu, detesto. Não percebo a lógica da maioria das roupas porque, como a maioria das pessoas (embora elas pareçam não o saber), não tenho corpo para usar a maioria daquelas peças. Eu não tenho uma barriga com os abdominais definidos para usar aquelas camisolas e, por azar meu, não tenho tornozelos bonitos para mostrar ao mundo. Isto faz com que mais de metade das roupas que se vendem não me fiquem bem. Tirando todas aquelas que eu não gosto (pelo corte, pelo padrão, pelos adornos), a escolha fica efetivamente pequena.

E tudo isto piora porque os sites não estão bem construídos. Os tamanhos não são padronizados, o corte das peças não é explícito, não se percebe o tamanho das peças. Há lojas online que já disponibilizam o tamanho da modelo e o tamanho da peça que ela usa - o que já ajuda a ter uma percepção melhor das coisas - mas tudo devia ter medidas, visualização das peça em 3D e, acima de tudo, os mesmos tamanhos. Fico fora de mim quando, na mesma loja, me servem umas calças 38 e outras 42. Não entendo. E é lógico que isto nunca vai funcionar para um cliente online, que não adivinha o que se passou na cabeça de quem fez os moldes.

Acho que há um caminho gigante a percorrer por parte das marcas de moda, no que ao online diz respeito. Quanto ao gosto das pessoas, pouco há a fazer. Sei que vou ter de continuar a levar com roupa que se mede aos palmos.

16
Mar18

A vida não espera por ti

Carolina

Nunca percebi aquela coisa dos vilões das telenovelas fazerem "planos maléficos" contra os seus inimigos - não percebo como é que isso se faz, se há algum tipo de verdade nesse sentido da palavra. Mas também nunca percebi as pessoas que não têm planos. Planos de vida, planos para o futuro. Para amanhã, para hoje, para as férias, para o verão.

Eu tenho necessidade de ter planos para tudo. Não gosto de andar à deriva. Não gosto de me perder a menos que o meu plano seja mesmo perder-me. E eu uso agendas, uso blocos, uso este blog como testemunho de todos os planos que tenho. Os objetivos que traço. As datas que determino. As coisas que quero. E gosto de ter tempo para pensar em tudo, para não dar passos em falso.

Mas no meio disto tudo, desta papelada toda, de todas as datas e planos que tenho na minha cabeça, esqueço-me que o relógio continua a andar. E que não é só o meu que anda - o dos outros também. A vida passa. E a minha vida - quer eu queira quer não - cruza-se com a de quem me rodeia. E há momentos em que os ponteiros coincidem. E pumba. A vida não espera. Não espera que eu termine os meus planos. Não espera que eu esteja preparada. Não espera que eu tenha o meu discurso pronto. Não espera que eu tenha todos os argumentos, todas as armas.

 

Tenho há algum tempo a cabeça cheia de planos. É um conjunto infinito de remendos, cosidos a ideias de há muitos anos e colados a medos. Caraças, muitos medos. E, de um momento para o outro, sinto que, como numa rajada de vento, todos eles se espalharam por mim toda. Buuuuuf. Não os agrafei, nem tive tempo para pôr clips. Confiei que nesta altura não vinham tempestades, mas foi-se tudo pelo ar. Não eram castelos de papel - mas quase. Há remendos por todo o lado; o sopro da vida tapou-me os olhos, entupiu-me as vias respiratórias. Não vejo, não respiro. Não tinha ordenado os meus planos, esqueci-me de numerar as páginas, está tudo num caos.

É hora de apanhar as folhas, arranjar os vincos, ir buscar aquela página que ficou lá atrás. E olhar para o relógio, perceber que ele não pára, mas que felizmente é fim-de-semana, e temos tempo para reorganizar. Porque, de facto, a vida não "são dois dias", mas em dois dias dá muitas voltas.

A vida não espera. A única coisa que se pode esperar da vida é que ela continua. E o nosso remédio é continuarmos com ela.

 

01
Mar18

Devemos incluir os blogs no nosso currículo?

Carolina

Detesto ter de fazer o meu currículo. Detestei da primeira vez que o fiz e detesto de cada vez que tenho de o atualizar (algo que acontece frequentemente, para efeitos formais, mesmo estando a trabalhar). É ingrato termos de resumir todo o nosso percurso num papel, em pequenas frases, que podem estar recheadas de mentiras ou que podem não chegar aos calcanhares daquilo que somos na realidade. Mas enfim, tem de ser, sei que não há muitas formas melhores que sirvam para o efeito.

Mas no meio de todo este processo de escrita e concepção deste documento sou sempre invadida por imensas dúvidas: devo fazer um currículo vitae normal, estilo europass, insosso e desenxabido, ou devo fazer uma coisa mais visual, mais dinâmica e bonita? Devo incluir hobbies e um breve resumo de mim própria ou restrinjo-me ao percurso profissional e académico?

No meio disto tudo, surge-me sempre uma pergunta: incluo ou não incluo os blogs que tenho e tive? É que isto pode ser interpretado de várias formas e tem muitos pontos de vista. Antes de mais, o mais óbvio: só com aquele ponto estamos a dar muitas informações sobre nós próprios, basta alguém aceder ao dito site. Nem todos os blogs são diários abertos, mas todos têm muito de quem os escreve, nem que sejam opiniões - o que, só por si, já revela muito do que cada um é. E essa exposição à partida pode ser tão boa como má.

Depois há o risco da pessoa que lê o currículo não saber o trabalho que dá ter um blog. Ou ser preconceituosa e pensar "olha, esta já teve um blog sobre Twilight, deve mesmo ser uma pessoa hiper adulta, ah ah ah". E, como sempre, há o outro lado da moeda: podemos sempre apanhar alguém que se apercebe e sabe que para se manter um blog durante anos a fio é preciso ter paciência, perseverança e empenho.

Penso muito nisto. Sempre que chego à parte de referir "outras experiências" fico sempre bloqueada. Digo, não digo. Digo, não digo. Sou da opinião de que devemos adequar o nosso currículo perante o objetivo que temos ou diferentes propostas de trabalho - evidenciando umas coisas ou tirando outras que, para aquela situação, não sejam relevantes. Mas, neste caso (e no meu em particular), os blogs são uma parte essencial da minha vida há muito tempo.

Escrevo neste blog há sete anos, tenho blogs há nove. Durante cerca de quatro anos levantei-me todos os dias às sete da manhã, antes de ir para as aulas, para deixar posts programados para o dia inteiro; organizei eventos e falei para vários meios de comunicação social quando a maioridade não estava sequer à vista; fiz parte (e fiz por!) de um blog que estava no top 5 dos mais visitados do país, numa altura em que os blogs eram, por um lado muito mais genuínos e movimentados, mas por outro tinham muito menos "nome"; o primeiro dinheiro que eu ganhei foi um cheque da Google, devido a esse mesmo blog. Já este, ainda que mais pequeno em termos de escala e número de posts, está no ar vai fazer sete anos: viu-me cheia de medo, a trocar as ciências pelas letras; viu-me a entrar na faculdade, a detestar a faculdade, a sair da faculdade; viu-me a estagiar, a fazer as minhas últimas férias grandes, a arranjar o meu primeiro trabalho. E tudo o que se passou no meio disso. Já me "vê" há muitos anos, basicamente.

E isto, tudo isto, é de valor. Eu sei que é e não tenho vergonha de o mostrar. Só tenho medo que não o entendam - porque, lá está, o currículo é curto, o tempo para olhar para ele é pouco e a hipótese de nos explicarmos é menor ainda. Pôr ou não pôr, eis a questão.

19
Fev18

O parafutebol (ou como o Bruno de Carvalho contribui para a degradação do futebol português)

Carolina

Tinha os meus nove anos e era louquinha pelo FCPorto. Nem digo por "futebol", porque eu estava-me pouco borrifando para os outros clubes. Eu era do Porto. Ponto. Via os jogos, punha o cachecol com o símbolo ao peito e fazia de tudo para ir ao estádio. Era - e sou - orgulhosamente sócia, mas também era miúda e fazia coisas que eram de miúdos. Detestava Lisboa, dizia mal do Benfica a todo e qualquer benfiquista que se aproximasse mais de dois metros de mim e gozava pelos campeonatos que, na altura, eles perdiam consecutivamente.

E depois cresci. Fui ficando com menos tempo para ver futebol e portanto aquela febre clubística que eu tinha foi desaparecendo. Isto coincidiu também com uma fase menos boa do FCPorto e, tudo junto, fez com que tivesse mais juízo, racionalidade e imparcialidade no que ao futebol diz respeito. Mas também fui ficando mais crescida e percebi que aquilo que eu fazia era típico de uma idade e que estava na altura de deixar isso para trás. Deixei de irritar os outros - e até de demonstrar grandes clubismos em público, a menos que esteja num local próprio para isso. Por um lado porque deixou de me dar prazer, por outro porque percebi que um dia são eles, no outro sou eu, e aquilo que eu um dia digo pode cair-me em cima no outro a seguir (estás a ler isto, Sousa Tavares?). E com isto tiro também a capacidade dos outros me irritarem - algo que acontecia sempre que diziam mal do meu Portinho - pelo menos quando falamos de atitudes dentro do limite do razoável. 

Continuo a adorar de paixão o meu clube. Agora que sou maior de idade já posso ir ao estádio sem um pendura e estou numa fase em que acabo por falar bastante de futebol, por só trabalhar com homens um tanto ao quanto fanáticos. O Porto está a recuperar e por isso eu tinha tudo para revitalizar esta minha alma de dragão - já sem os histerismos de antigamente - mas agora há toda uma outra razão para não me entusiasmar. Não se trata do futebol em si - é, aliás, tudo o que se passa à volta dele. Hoje em dia o futebol é muito mais aquilo que se joga fora de campo do que dentro dele.

São os comentadores de bancada que ocupam todas as noites os canais informativos, com ataques pessoais e comentando os ataques dos outros, e cada vez menos os lances, os jogos e os jogadores; são os próprios clubes que enchem as redes sociais de queixumes e porcaria; são os diretores de comunicação que se põem a mandar postas de pescadas e revelações, qual wikileaks; é arguidos para um lado, suspeitos por outro. É tudo um nojo. Ah! E depois temos o Bruno de Carvalho, que cai em toda uma outra categoria ("asco", talvez?).

Não sou fã do senhor, mas penso que isso é uma coisa natural. O que não me parece natural é quem gosta dele - e, caros sportinguistas, escusam de me dizer que ele fez muito pelo clube, que vestiu a camisola e que é um leão às direitas. De direita, só parece ter o ar ditatorial com que diz que os sócios devem deixar de ver televisão e comprar jornais, e que "todos, mas todos os comentadores afetos ao Sporting" devem abandonar de imediato os programas. Todos temos a nossa vertente pessoal e profissional. Ele pode ser um óptimo presidente (até custa a escrever...) mas uma pessoa que afirma que ajudou um treinador a ser despedido de outro clube - e o faz com orgulho, a alto e bom som -, para mim, é lixo. E depois, se ouvirmos tudo o que ele diz e comenta sobre todos os assuntos em geral - e já tendo em conta o pedido de boicote aos media - só lhe resta mesmo algum estatuto abaixo de lixo.

Eu acho que não estou a ofender ninguém com este texto. Qualquer sportinguista com o mínimo de imparcialidade e racionalidade percebe tudo isto. O pior são mesmo os outros. Mais preocupante do que ter uma pessoa destas a falar nos media, é ter quem os ouça. E quando eu ouvi os urros e as palmas vindas da plateia de cada vez que Bruno de Carvalho dizia uma das suas baboseiras, um bocadinho da minha esperança na humanidade ia pelo cano. E muito mais se foi quando percebi que, depois do apelo do Sr. Presidente, os adeptos não têm mais nada senão tentar bater em jornalistas. É de arrepiar, não só pelo ato em si, mas por percebermos que pessoas deste calibre têm tanto impacto em pessoas "normais". Se passarmos isto a outra escala, percebemos como é que o Holocausto existiu, percebemos a existência de um Hitler, percebemos aquelas paradas, aquelas lágrimas, aquele patriotismo. Percebemos que as pessoas ficam cegas, surdas e burras quando há algo "maior" que as controla. E isso é puramente assustador. E é este capítulo sujo e paralelo do futebol (chamei-lhe "parafutebol", estou numa de neologismos) que me faz afastar cada vez mais deste desporto.

Não importam os 5-0, as chicotadas psicológicas ou as "tacitas" mais pequenas. Passou a ser um desporto de guerrilha. Mais vale, um dia destes, irmos buscar as espadas. Depois é só esperar até ver jorrar o sangue. Afinal de contas, desde os tempos medievais que é disso que o povo gosta.

18
Jan18

Porque é que os homens discutem pormenorizadamente os lances de futebol?

Carolina

Acho que hoje em dia passo mais tempo rodeada de homens do que por mulheres, muito por culpa do trabalho. E, como não podia deixar de ser, um os tópicos recorrentes é o futebol. Mas uma das coisas que eu não percebo - nem nunca percebi, para dizer a verdade - é a necessidade que eles têm de descrever pormenorizadamente as jogadas de futebol.

"Bom, aquilo foi um golaço que nem te passa. O Danilo passou a bola ao Marega do meio campo e ele, no lado esquerdo, finta o defesa lateral do Ave, depois centra para o Aboubakar, que chuta para a baliza mas a bola bate na trave. O Herrera está na recarga, ganha a bola de cabeça com um salto incrível, passa para o Brahimi e ele com um chuto de uma potencia incrível remata para o canto superior direito da baliza. O redes ainda tentou atirar-se, a luva quase chegava lá, mas aquilo era indefensável, pá." (Sim, o "pá" é um detalhe importante nas conversas masculinas).

Eu tenho a teoria de que os homens que escutam isto só apanham a parte de quem fez o centro e quem marcou o golo. Mas, se estiver enganada, quero desde já dar os parabéns aos homens deste mundo por terem a capacidade de imaginar todo este cenário nas suas cabeças. E congratular também todos os outros que decoram estes lances e detalhes, prontos para ir para o café discutir tudo ao pormenor, como quem estudou aplicadamente para um exame.

E a verdade é que eu acharia isto natural se estivéssemos em 1979, quando não havia jogos na televisão, repetições e internet - não havia outra forma de dar a entender ou mostrar as coisas. Mas porquê que esta prática se mantém agora quando, passado dez minutos, está tudo no Sapo Desporto e daí a umas horas os lances passam cinco vezes nos noticiários, 12 vezes naqueles debates com gente-que-finge-que-discute-futebol e 31 vezes nos canais especializados? Porquê que no café não sacam do telemóvel e vêem no youtube, em vez de fingirem que estão num daqueles relatos de rádio?

Porque o mais curioso disto tudo é que até podia ser uma coisa geracional - mas não é! Lembro-me desde sempre de ouvir os meus colegas rapazes a discutirem lances como se fosse a coisa mais interessante do mundo - ou, pior, a descrever aquele "golaço" que marcaram no campo da escola que, como é lógico, ninguém tem interesse em saber. 

Enfim, homens e futebol. Vai ser sempre uma cena estranha.

15
Jan18

Livro não há. E então o blog?

Carolina

Há uns dias falava-se aqui em casa de como os meus sobrinhos (e extrapolando até para a malta mais nova, da geração YouTube) vivem com base na constante aprovação dos outros. Quase todos eles já têm redes sociais e festejam cada novo seguidor como se tivessem ganho a lotaria – ou o Euromilhões... ou talvez o Placard, porque já nem devem saber o que é a lotaria. Tudo o que fazem é com vista a ter mais likes: enviam mensagens a dizer que se pusermos gosto nas coisas deles, eles devolvem o botão mágico em todas as nossas publicações e até põem screenshots censurados nos instastories a dizer “foto nova, vão ver!!!”. No fundo, fazem tal e qual como os influencers que eles tanto admiram.

E isso admira-me porque eu não sou nada assim. Quando um dos meus irmãos disse a um dos filhos que só podia ter como amigos pessoas conhecidas, a criança respondeu: “mas o objetivo disto é ter mais likes, se começar a rejeitar qual é o objetivo?”. E isso é um sinónimo de toda a nossa sociedade atual: tão cheia de likes, tão vazia em tudo o resto. Mas continuemos: estava a dizer que não me revejo por esta luta cega de likes e de aprovação exterior. No meio da conversa, dei comigo a pensar: “caraças, se eu fosse assim já não tinha o blog há muito tempo”.

Porque as poucas dúvidas que eu tenho em relação a este espaço prendem-se precisamente com a divulgação que eu faço – ou não faço, neste caso – dele. A minha posição em relação a este estaminé resume-se à frase "não promovo mas não escondo". Isto quer dizer que nunca me ouviram dizer a alguém desconhecido "sabes que eu tenho um blog onde escrevo todos os dias cenas que não interessam ao menino Jesus?"; mas também é muito pouco provável que alguma vez tenha negado a sua existência, sempre que me confrontam com o assunto. E esta sempre foi a minha abordagem por várias razões: 1) nunca quis ser famosa, nunca quis ser blogger, nunca quis fazer deste espaço uma fonte de rendimento; 2) fazer divulgação de algo tem como objetivo trazer mais pessoas - e mais pessoas quer dizer mais haters, mais gente sem nada que fazer da vida, com o objetivo de estragar o dia dos outros... e eu não tenho grande paciência para isso; 3) sinto que apesar de já ter estabelecido uma linha bastante sólida relativamente aos conteúdos aqui no blog, nomeadamente sobre a partilha de temas e conteúdos mais pessoais, este continua a ser um espaço muito meu, onde continuo a dizer coisas que em voz alta não me são fáceis de pronunciar, e por isso custa-me partilha-lo com todo o mundo, não sabendo em que mãos é que esse conhecimento alheio sobre a minha pessoa vai cair. Aquilo que senti das poucas vezes que fui reconhecida na rua foi uma desigualdade imensa: as pessoas sentiam que me conheciam, que eu lhes era algo, enquanto que para mim elas eram totalmente estranhas. E isso, digam o que disserem, é desconfortável.

Tudo isto para dizer que eu não preciso de um público para escrever, apesar de adorar ter um feedback e utiliza-lo para tentar perceber aquilo que resulta e não resulta ao nível de tópicos e na escrita, quase como um estudo muito adiantado para os livros que um dia quero escrever. A verdade é que há quase sete anos que aqui estou e a minha audiência, embora vá crescendo à velocidade que uma tartaruga sobe uma rampa, é sempre a mesma. Nunca há grandes oscilações para além daqueles dias especiais em que sou destacada pelos blogs do sapo e isso não me incomoda. É óbvio que é reconfortante receber elogios e comentários (que na sua maioria são, na verdade, interações – que é o que eu gosto mais) e é por isso que escrevo aqui em vez de escrever no word ou num diário - e sinto e percebo quando uma publicação não tem tanto feedback e tento perceber os porquês. O que não implica que não volte a escrever algo do género se isso for algo que eu goste ou que faça sentido.

Novembro e Dezembro foram o exemplo perfeito disso: notei uma quebra significativa de interações e fico sempre a pensar se quem está desse lado simplesmente desistiu de ler as minhas parvoíces. Mas por outro lado senti-me orgulhosa de mim mesma por, nestes dois meses tão difíceis para mim ao nível da gestão de tempo, ter conseguido colocar aqui conteúdo, tentando nunca menosprezar a qualidade. E sinto que 2018 vai ser feito disso: de um esforço contínuo para continuar a escrever e num registo low-profile, porque é só assim que sei ser. Se há dias em que por um lado gostava de ver isto mais mexido, há outros em que relembro dias mais agitados e de como isso quase nunca me fez mais feliz. 

2017 foi provavelmente o ano com menos posts aqui no blog, mas foi de certeza o ano em que me esforcei mais para os fazer. Estou a ajustar-me a uma nova vida, e nem sempre é fácil manter o ritmo e o meu objetivo que, como nunca escondi, é escrever todos os dias. Mas, acima de tudo, foi provavelmente o único ano na vida deste blog em que eu não pensei em desistir, em "fechar portas", em dizer adeus a este diário aberto. E isso deveu-se ao facto de ter mais para me preocupar e devido esta calmia que aqui se vive, sem polémicas, pedradas ou berros virtuais. 

Há dias em que quero dar um passo em frente; há outros em que sei que se não aconteceu durante estes quase sete anos, nunca mais vai acontecer; e há outros em que simplesmente não quero que aconteça. 2018 vai ser, para este blog - mais do que aquilo que eu fizer dele - aquilo que eu conseguir fazer com ele. E só no fim é que saberemos o quê que isso é.

04
Jan18

Vivemos num país de pré-fabricados

Carolina

Todos os dias fico espantada com a facilidade com que todos já compramos coisas feitas. Vivemos num mundo tão atarefado, tão sem tempo, que queremos as coisas no imediato, sem nos esforçarmos minimamente – e, de preferência, ao melhor preço possível. E isto seria óptimo se as coisas que compramos fora de casa não fossem de pior qualidade... e, acima de tudo, se não se perdesse o que está no meio.

Este tópico veio-me à cabeça pela junção de dois acontecimentos: o primeiro foi o facto de ter levado umas bolachas para o piano (que, como é lógico, fui eu que fiz) e de ver as reações surpreendidas de todos à minha volta; o segundo foi em Cacilhas, aquando do Web Summit, onde fui jantar a uma marisqueira e tinha ao meu lado a decorrer a festa de aniversário de uma menina com não mais de dez anos. Quando chegou a altura de cantar os parabéns, vêm dois bolos da cozinha, claramente comprados previamente pela família. E porquê dois? Porque eram pequenos, comprados no Continente, e a família, com medo que algo faltasse, não esteve com meias medidas e levou logo dois.

Os dois eventos não têm, aparentemente, nada que ver um com o outro. Mas na realidade têm. O elo comum é o espanto e a capacidade de dedicarmos o nosso tempo em prol dos outros. Quando cheguei ao estúdio de piano com as bolachas, toda a gente ficou chocada: “Foste tu que fizeste? Uau, que prendada! O queê, mas fizeste isto de manhã, antes de vir para aqui? Como tiveste tempo? Deves ter acordado de madrugada…”. Pelo contrário, quando vi aquela família num restaurante (onde não me pareceu irem muitas vezes, indo propositadamente para aquela ocasião especial) fiquei eu espantada pela falta de empenho e de esforço por parte de todos aqueles adultos que ali estavam – e ainda eram alguns.

É claro que posso estar a julgar em vão – não sei as circunstância daquela família, do seu tempo e do seu trabalho – mas creio que isto é algo cada vez mais generalizado, e não diz sõ respeito a bolos. Estou em crer que há famílias que já só cozinham o básico, porque todas as refeições provêm de take aways. Tudo é feito fora, comprado fora. Antigamente as frutas vinham do campo, as hortaliças da horta, as roupas eram feitas à mão, os animais mortos em casa. Até os edifícios são agora pré-fabricados, construídos em blocos tipo lego. É assustador.

Para além do processo de aquisição ser mais rápido, também diminui o tempo que desfrutamos as coisas. Já não saboreamos a comida: engolimo-la; já não guardamos as roupas para os nossos filhos: elas estragam-se tão rápido que as deitamos fora. E eu sei que sou a excepção, sei que sou – como sempre – a anormal aqui da parada. Mas eu dou valor ao tempo que passo a fazer as coisas e acho que é esse tempo que as faz boas, mais bonitas, com mais significado. O tempo que eu passo na cozinha – ou o tempo que eu vejo que a minha mãe passa na cozinha quando me faz cabrito assado, por exemplo – faz com que o prato seja mais saboroso; faz com que eu tenha a preocupação de o provar, de o saborear com cuidado. E, acima de tudo, faz com que goste mais dela: porque em vez de ser como aos outros e encomendar o cabrito num sítio qualquer, passou horas a fio na cozinha para fazer o meu prato favorito.

Para mim, cozinhar é uma forma de amar, de dizer que me preocupo o suficiente com os outros para lhes dar um bocadinho do meu tempo. E é impensável para mim ir a uma festa sem levar um bolo – e ainda mais indispensável que, no aniversário de alguém que me é importante, não haja algo com a minha assinatura em cima da mesa. Pode ter sido feito há dois dias atrás, de madrugada ou acabado de sair do forno… mas está. E sei que isso não é regra, mas não deixa de ser estranho para mim que as pessoas pensem de forma diferente.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Leituras

A ler:



goodreads.com


2017 Reading Challenge

Carolina has read 0 books toward her goal of 15 books.
hide

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D

Ranking